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Se encontrando na Alcoa

História de: Mauro Cherbele
Autor: Érika
Publicado em: 07/07/2021

Sinopse

Formação e busca por emprego de Mauro. Entrada na Alcoa e crescimento na empresa. Primeira partida. Vida pessoal de Mauro.

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História completa

Projeto Trajetória Alcoa Realização Museu da Pessoa Entrevistado por Cláudia Fonseca e Lenir Justo Entrevistado Mauro Cherbele Local e data da entrevista: Poços de Caldas, 07 de maio de 2008 Código AL_HV010 Transcrição de Rosângela Maria Nunes Henriques Revisado por Thayane Laranja dos Anjos P/1 – Muito bem, senhor Mauro, eu queria começar a nossa entrevista com o senhor dizendo seu nome completo, o local e a data de seu nascimento? R – Bom dia. Eu nasci em Poços de Caldas, no dia 27 de setembro de 1935, numa tarde eu acho que três horas da tarde, assim diz minha mãe. P/1 – É uma hora boa, né? R - Eu tenho mãe ainda com 94 anos e lúcida. Graças a Deus está lúcida. P/1 – E o seu nome completo? R – Meu nome completo é Mauro Roberto Cheberle. P/1 – O senhor atualmente está aposentado? R – Sou aposentado. Depois que saí da Alcoa me aposentei e permaneci aproveitando um pouquinho de tempo. P/1 – Que ano o senhor se aposentou, senhor Mauro? R – Em 1993. Eu trabalhei alguns meses mais e depois me aposentei. Foi numa fase que havia trocas de pessoas e o aposentado daria lugar aos novatos, né? É uma fase que se passou. P/1 – Senhor Mauro, o nome dos seus pais? R – Ficiere Pedro Cherbele e José Facoliato Torres. Por parte de pai origem italiana e por parte de mãe, origem espanhola. P/1 – Os seus pais nasceram já no Brasil ou... R – São todos brasileiros. P/1 – Já são brasileiros. E a sua mãe está viva? R – Minha mãe está viva ainda. P/1 – Com 94 anos? R – 94 anos e lúcida ainda, trabalhando, fazendo algumas coisinhas, oferecendo sempre almoço aos filhos. Os filhos, somos três. P/1 – Vocês são três? R – Somos três. Eu, um irmão e mais outro de criação, um primo, um primo de criação. P/1 – E os seus pais faziam o quê? R – Meu pai era mecânico durante muitos anos. P/1 – De automóveis ou de máquina? R – De automóveis e, por sinal, um excelente profissional. P/1 – E aqui na região de Poços de Caldas sempre? R – Sempre, sempre nessa região. P/1 – O senhor sabe a história da família dos italianos e dos espanhóis? R – Dos italianos, o ano passado nós tivemos uma reunião aqui em Poços de Caldas e trouxemos alguns parentes, aliás, duas pessoas da Itália, duas senhoras da Itália, parentes e nós fizemos uma reunião aqui em Poços. Tinha umas 150 pessoas por aí e comemorando 116 anos. Acho que em 1896 que vieram os primeiros ancestrais nossos aqui. P/1 – Do lado italiano é que são os Cheberles? R – Do lado italiano são os Cheberles. Do lado espanhol não tenho praticamente histórico porque alguns documentos que nós tínhamos um parente nosso, no dia que meu avô faleceu, pôs fogo naqueles... E hoje eu tenho um filho de criação e que trabalhou, trabalha ainda, na Alcoa Internacional e hoje está na Espanha. Então seria muito fácil ter contato, mas os documentos desapareceram, então ficou difícil esse contato, mas somos os Collados. Na verdade, é Colãdo, lá tem um til em cima do A, então perdemos esse ramo. P/1 – E o senhor passou a sua infância aqui em Poços de Caldas? R – A minha infância eu passei aqui, estudei aqui em Colégio Marista. P/1 – Como que era a casa da sua infância? R – A casa... P/1 – Da sua infância? R – Era casa simples, casa de aluguel, por sinal era até do meu avô. Meu avô espanhol era um senhor meio filósofo [RISOS]. Ele trabalhou muito, ele era agricultor, ganhou bastante... Relativamente dinheiro, trabalhou até os cinqüenta e poucos anos aí falou assim: “Não vou trabalhar mais” e não trabalhou e viveu a vida. Ele vivia bem, tinha algumas propriedades e nós morávamos numa das propriedades dele, o meu pai. Até que ele conseguiu algum dinheiro e comprou uma casa. Essa casa nós temos até hoje na Rua Goiás. Ali eu estudei, me formei até segundo grau e depois fui a São Paulo, estudei um pouco em São Paulo. Depois vim embora. Eu queria fazer Engenharia mecânica, mas as dificuldades, falta de dinheiro. A gente pobre a luta é dura mesmo, né? Aí eu vim para Poços de Caldas e daqui, não sei, por influência fui fazer Odontologia e fiz Odontologia em Alfenas. P/1 – Mas como que muda assim da vontade de fazer Engenharia para Odontologia? R – São falhas humanas, nós não nos entendemos, né? E eu realmente acabei fazendo Odontologia e... P/1 – Aqui mesmo em Poços? R – Não, em Alfenas. E lá me formei e acabei abandonando a profissão. Eu não era um excelente aluno, mas também não era... Era um aluno mediano, meus colegas diziam: “Mas, por quê?” “Não gosto, não quero”. E acho que a gente forma uma barreira. Naquela época talvez tenha formado uma barreira muito forte e acabei não exercendo. Fui trabalhar com o café. Trabalhei cinco anos mexendo com o café, comprando café, provando café. O café era de exportação. Nesse período eu fui casado em Alfenas, tive um filho, vim para Poços de Caldas, me separei. Vim para Poços de Caldas e, nesse período que eu estava trabalhando com o café, foi quando surgiu a Alcoa e já tinha um tio meu que trabalhava aqui e um outro colega também, o Leandro de Castro. Talvez nesse histórico deve surgir o nome dele e desse meu tio, o Dante Cheberle. Não se vocês fizeram entrevista com ele, talvez vocês façam uma entrevista com ele. O Dante Cheberle já estava trabalhando aqui, ele falou: “Por que você não vai por lá e tal?”, aí eu falei: “Deixe-me experimentar” e vim fiz a entrevista e tal, mas eu já tinha um histórico de entrevistas. É interessante essa história minha, eu já tinha um histórico. Foi o seguinte: teve uma época que eu necessitava de trabalhar e a dificuldade era muito grande, então eu tentei na Exatoria Federal. Fiz um concurso, passei, passei bem e fiquei esperando a nomeação e a nomeação até hoje eu estou esperando. E durante essa fase teve o outro concurso em Furnas. Foi logo quando surgiu Furnas, em 1962. Lá eles estavam precisando de operadores das turbinas. Era um trabalho bom e bem remunerado e eu peguei e fui. Fui lá, fiz concurso, passei bem, fui chamado para a entrevista e tal e na entrevista conversa vai, conversa vem, eu disse que era formado em Odontologia. Resultado: perdi a oportunidade de trabalhar e eu estava necessitado, muito necessitado na época. Bom, aí vim para Poços de Caldas, trabalhei com café, fiquei lá. Eram pessoas amigas minhas que vivem até hoje. Essas pessoas que são gente muito ligada à família. Aí eu resolvi vir para a Alcoa e aqui fiz os testes e tal e na entrevista me perguntaram “Qual a sua formação?”, “Segundo grau”. Eu já tinha um histórico muito ruim que já tinha me pesado muito e eu fui obrigado a mentir. Mentir não, omitir, eu apenas omiti. E com isso depois fui trabalhar na área da redução sala de cubas, que na época estava sendo montada, então só tinha as carcaças que estavam sendo montadas e eu entrei nesse período. Já existiam alguns americanos e estavam orientando. P/1 – Queria só voltar um pouquinho, senhor Mauro. O senhor falou que estudou aqui em Poços de Caldas. Em que escola o senhor estudou aqui? R – Colégio Marista. P/1 – Colégio Marista. O senhor lembra dos professores, da matéria que o senhor gostava mais? R – Eu gostava de Matemática, gostava de Ciências. P/1 – Algum professor marcante? R – Eu era mais ligado a área de Medicina, a área mais de exatas e... P/1 – E algum professor ou professora marcante? No Marista eram só professores na época? R – Maristas? Tinham vários maristas, né? O irmão Igor, irmão Dimas, Francisco, o Barberé. Esse, por sinal, há uns quatro anos atrás ele esteve aqui em Poços de Caldas. Ele está no norte de Minas e está lá tocando, trabalhando junto com a sociedade local, né? Ali tem gente muito pobre, no norte de Minas. Ele esteve por aqui, esteve até na minha casa. Morreu no ano retrasado. P/1 – Era seu professor de... R – Era meu professor. Foi professor de inglês e outras matérias também. P/1 – E Poços? Como era Poços de Caldas na sua infância, na sua juventude? R – Na minha infância tinha 15 mil habitantes. Na época, minha mãe arrumava uma marmitinha e eu tinha uns dez anos por aí e ia levar uma marmitinha para o meu pai que trabalhava até mais tarde para ganhar algum dinheiro a mais. E então Poços de Caldas era bem pequena, muito fria. P/1 – Sempre foi muito fria? R – Era muito mais fria do que hoje. Naquela época o mês de maio como é agora você não soltava água das torneiras, congelava as águas das torneiras, era muito frio. E essa época de festa de São Benedito, então à noitinha era muito frio e de manhã cedo as geadas para todo lado, né? Inclusive, em 1970, quando a gente vinha para cá trabalhar em maio, toda manhã tinha geada. Essa área toda que vocês vêem aí de entrada só tinha aquela camada de gelo em cima. P/1 – E dava tempo de brincar? R – A minha infância eu não posso dizer que tenha sido uma infância assim. Eu brinquei bastante sim. P/1 – De quê? R – Eu tive tempo até os sete anos... P/1 – De que vocês gostavam de brincar? R – Eu tive até os sete anos, até ir para a escola, porque naquela época você não tinha essas escolinhas anteriores ao primário, né? Não existia. A gente brincava muito sim, jogar bolinha, pião, soltar papagaio, brincar de queima, jogar futebol e por aí afora. P/1 – Brincava na rua, senhor Mauro? R – Na rua. Tudo na rua, naquela época. P/1 – Com os vizinhos? R – Com os vizinhos e de vez em quando fugia e ia nadar por esses riachos aí. Tinha um poço que chamava poção, ali no Jardim dos Estados e ali a gente ia aprender a nadar. P/1 – E os seus pais eram bravos, muito rigorosos? R – Minha mãe era muito brava, muito brava. Praticamente eu apanhava quase todo dia. Minha mãe era muito brava, meu pai não, meu pai nunca me bateu, ele sempre conversava. P/1 – Mas apanhava muito? O que o senhor fazia? R – Eu fazia muita arte, eu era muito bocudo, falava muita besteira, falava muito nome feio. A minha mãe uma vez... São coisas do passado e a gente acha graça com ela até hoje, né? Brinco com ela até hoje. Minha mãe gostava de ser muito enérgica e brava, mas a gente era muito moleque, eu e meu irmão, e um dia nós estávamos na rua e minha mãe lavava e passava, inclusive passava ternos para as pessoas. Naquela época, tinha jogo e minha mãe ganhava um dinheirinho a mais com aquele trabalho. E numa dessas oportunidades nós estávamos junto com ela e eu não sei como é que foi, eu sei que andei falando nome feio, umas coisas assim, e era moleque muito mal educado, muito mal educado em termos, né? Porque apanhar, apanhava todo dia, mas não resolvia nada, né? A minha mãe chegou em casa e tinha um barracão e ela estava tão nervosa que pegou eu e meu irmão nos amarrou no pau e disse: “Vocês jamais vão falar nome feio, vocês jamais vão fazer escândalo na rua”. E foi lá e pegou um vidro de pimenta e passou na boca, o nosso beiço ficou desse tamanho. Mas foi uma lição muito boa, durou uns três ou quatro dias e depois continuou tudo do mesmo jeito. Mas depois a gente foi crescendo mais e cada um foi pegando o seu rumo. Meu irmão começou a trabalhar com o meu pai como mecânico. Meu pai se tornou um excelente mecânico, era muito hábil. Ele trabalhou como ferreiro... Ele tinha uma habilidade muito grande, aliás, ele era um torneiro mecânico excelente. Então a gente estava sempre em volta dele porque a gente aprendia muito com ele e era um grande amigo. Meu pai foi um grande amigo que eu tive. Uma vida toda cheia de lazeres, sempre juntos. Nós gostávamos muito de caçar, pescar, essas coisas todas que o pessoal de nível mais baixo se dedica, né? E nós fomos criados muito juntos a família, muito família, sabe? Graças a Deus a gente tem grandes recordações. P/1 – O senhor falou uma coisa interessante na época dos cassinos aqui em Poços. O senhor pegou isso na sua infância, né? R – Na minha infância o que eu me lembro dos cassinos foi quando pegou fogo no Palace Hotel, lá no Palace Cassino. P/1 – Aquele da praça? R – É, ali na praça, na parte traseira do Palace. Eu me lembro que ainda era molequinho, isso foi em 1943 que pegou fogo. 1943, 1944. Eu era molequinho, me lembro das labaredas subindo e a gente tudo olhando. A única coisa que eu me lembro, isso eu me lembro, de alguns parentes vir aqui assistir programas da Libertad Lamarque, uma grande cantora argentina. P/2 – Então tinha uma movimentação na cidade? R – Tinha uma movimentação porque a cidade, na verdade, naquela época, vivia do jogo, do jogo e das águas termais, e foi uma mudança grande. E uma segunda mudança também quando houve aqui, foi quando a Alcoa veio para cá, houve uma grande mudança que teve na cidade e isso atraiu bastante dinheiro, evolução, emprego e em seguida muita coisa aconteceu. P/2 – Sua juventude também foi uma parte aqui em Poços? R – A minha vida toda foi praticamente aqui em Poços. P/2 – O que o senhor fazia para se divertir na juventude? Como que eram os namoricos? R – Na juventude nós gostávamos muito de esporte. A gente gostava de ir ao futebol, pescar, caçar, essas coisas que nós fazíamos quase todo final de semana, passear na praça no footing, fazia um footing ali na praça. A mocidade toda ia ali na parte da frente da Avenida Francisco Sales e ali a gente se reunia. Tinha alguns bares bons e ali a gente tomava um chope, uma coisa e cinema, né? Porque até então a grande diversão na cidade era o cinema. Faziam filas longas para assistir um filme e isso antes do cinema Kolpe e aí aumentou mais e depois a mudança maior foi quando chegou a televisão, né? Há pouco tempo eu estava me lembrando que a gente para ir... Eu saía daqui para estudar em Alfenas e só tinha um ônibus, uma jardineira, era o ônibus Chevrolet Brasil. Quando surgiu o primeiro Chevrolet Brasil. Então, nós íamos com o ônibus carregado daqui até Alfenas. É tudo terra, levava seis horas daqui a Alfenas e na época de chuva mesmo realmente o ônibus não circulava. Então você ficava preso. Se quisesse vir a Poços de Caldas, você tinha que fazer uma volta muito grande por Pouso Alegre e, às vezes, até por Campinas para chegar em Poços de Caldas, porque aqui, pelo interior, não se passava, não se conseguia. As estradas ficavam completamente sem condições de serem trafegadas. P/2 – E essa distância daqui até Alfenas são 100 quilômetros? R – São 110 quilômetro. Eram seis horas e o risco. E aquela gente era maravilhosa como os motoristas, porque um ônibus daquele, pequeno, com 50 ou 60 pessoas, aquilo dançando para lá e para cá e eles conseguiam às vezes... Eram excepcionais. P/1 – O senhor contou um pouquinho de sua trajetória de trabalho. Qual foi o seu primeiro emprego mesmo? Quer dizer, o senhor considera essa da corretagem de café como seu primeiro emprego? R – A corretagem de café. Eu comecei a minha vida profissional muito tarde, muito tarde, em termos. Eu comecei com, praticamente, 32 anos. Eu comecei a trabalhar seriamente apesar das dificuldades das coisas, tentativas. E tive um filho em Alfenas e esse morou em Alfenas e tempos depois ele veio para cá, trabalhou na Alcoa. Ficou trabalhando na refinaria e depois daqui ele saiu e voltou para Alfenas. Montou uma lanchonete, ia muito bem, teve três filhos, que são os meus três netos que eu tenho hoje: o Eros, o Luan e a Leninha, a Helena. Esses três netos já tinham nascido quando numa vinda no meu aniversário, ele não pode vir. Quando foi no dia 30 de setembro, ele resolveu fazer uma visita a posteriori, porque estavam em festa lá em Alfenas e ele não pode vir no meu aniversário. Ele trabalhou a noite inteira antes e no dia 30 de setembro ele resolveu: “Ah, eu vou ver meu pai porque não fui” e tal e saiu de lá, saiu tresnoitado, talvez tivesse bebido alguma coisa também junto com os empregados dele. Veio embora sozinho e quando chegou na reta aqui perto de Campestre, ele dormiu na direção e o carro capotou. Ao capotar, ele saiu fora do carro e o carro caiu em cima dele e faleceu. Na época, eu estava com o outro filho, esse que eu criei lá, que está na Espanha hoje. Nós fomos lá, fomos ver o que tinha acontecido, o fato e a averiguação foi a seguinte: ele morreu porque não estava usando cinto de segurança. E interessante é que na vida da gente, a gente não entende o porquê das coisas, né? Ele trabalhou aqui na Alcoa e se houve uma coisa que ele prendeu aqui dentro é que não se deve andar sem o cinto de segurança. E nessa época a Alcoa já fazia um trabalho muito forte em cima disso e aconteceu. Eu perdi um filho em função disso. Hoje tenho os três netos, um já está com dezenove anos, o outro está fazendo dezoito e a menina já está com dezesseis. Todos estão sendo criados, graças a Deus, está indo bem. P/2 – Eles estão aqui em Poços? R – Estão aqui em Poços. P/2 – Ah, que bom.Tem contato o tempo todo. R – Um trabalha na Nuclebrás e o outro está iniciando a vida ainda, né? P/2 – E quando o senhor trabalhou com a questão do café, era o café aqui da região de Minas? R – Minas. Nós comprávamos café de quase todas as regiões. P/2 – E negociavam com quem naquela época? R – Diretamente na exportação. P/2 – Na exportação. R – Ia para Santos. Tinha um comprador em Santos e a gente entregava para eles para exportação. P/2 – Como que era a comunicação? Porque nós estamos falando dos anos de 1960, mais ou menos, né? R – 1965, 1964. P/2 – E como que comunicava? Era por telefone? R – Telefone. Quando eu precisava falar aqui em Poços de Caldas com a minha família “Ah, vou tal dia”, qualquer um comunicado que eu precisasse fazer, eu ia de manhã cedo lá na central telefônica e falava e quando era mais ou menos quatro ou cinco horas eu conseguia falar. Então era mais fácil eu sair de lá de ônibus e chegar aqui e falar. Era mais rápido. P/1 – De lá de Santos? R – De Alfenas. Alfenas ali, ali mesmo. P/1 – Ah, tá. R – Era essa... Eu vivi o século passado e o presente, porque até 1945 tudo era diferente, né? Era uma maior dificuldade em tudo, era difícil. O telefone era difícil, não existia a televisão, as únicas coisas que existiam era rádio, cinema e futebol. E os bailezinhos que, naquela época, já existiam. O interessante quando falo em baile, eu me lembro do meu pai, o meu pai foi músico. O meu pai tem um histórico interessante porque ele era moleque de oito ou nove anos e ele disse que queria ser músico e queria tocar flauta. Então, o que ele fez? Ele começou a guardar. Ele era engraxate e ele foi guardando os dinheirinhos, uns trocadinhos e ele comprou uma flauta de prata que tenho até hoje lá em casa. E ele se tornou músico também além de ser serralheiro, ferreiro e etc e tal. Ele dizia assim: “Sete instrumentos e sete necessidades”, é uma coisa mais ou menos assim e essa flauta existe até hoje e ele se tornou músico. Mas quando ele começou a olhar os pares dele, o pessoal amigo dele que eram músicos, ele olhou a vida de cada um e todo mundo vivendo muito mal, dinheiro difícil, ele falou: “Essa profissão não dá”. Ele se tornou mecânico, ele já era ferreiro, já era serralheiro, então ele já tinha uma experiência muito grande. E aí foi trabalhar com um italiano chamado Peroba e depois disso ele montou uma própria oficina. Ele e um colega que já trabalhavam juntos e aí começou a vida, né? P/1 – Mas ele continuou tocando a flauta de vez em quando? R – Ah, tocava de vez em quando. E ele tinha muito jeito pela coisa, só que ele tinha que sobreviver, né? E da flauta ele não ia sobreviver nunca. Hoje, o Ferrucio Lidiane, que era um primo dele, inclusive hoje tem um nome aí de conservatório, ele dizia que papai tinha uma facilidade tremenda para a música, mas acabou abandonando e não teve mais condição de tocar. De vez em quando ele pegava a flauta, tocava uns chorinhos, umas coisas lá em casa e a gente ficava olhando. P/2 – Nenhum dos filhos desenvolveu o lado de música? R – Nenhum. Nenhum teve essa. Eu sei que a vida é feita desses recortezinhos, a gente de vez em quando lembra de um detalhe. P/1 – E, senhor Mauro, aí o senhor veio para a Alcoa, né? Ela já era aqui nessa região onde nós estamos ou... R – Exatamente aqui. P/1 – Como é que era? O que tinha? R – O espaço físico é o mesmo. Houve alguns acréscimos, por exemplo, esse acréscimo que nós estamos aqui, né? Um acréscimo pequeno aqui, outro ali, mas a área da redução em si, o espaço físico é o mesmo. E a área da redução também é uma coisa. Só que quando eu cheguei aqui só estavam as estruturas dos prédios, estavam sendo montadas as células eletrolíticas, as cubas, né? E eu cheguei aqui, nós estávamos ajudando a fazer essa montagem, né? O esqueleto em si, nessa época já tinha uns americanos aqui e eles vieram para dar a partida, ajudar a levantar a fábrica e por sinal eram pessoas excelentes, amigos, gente boníssima de uma simplicidade muito grande. Nós tínhamos grandes dificuldades porque aqui eram poucos que falavam inglês e então tínhamos os intérpretes e entre uma coisa e outra é difícil assimilar exatamente o que eles pensam, porque as traduções eram uma coisa e os intérpretes pouco entendiam da operação em si. Mas eu tive gratas recordações, eu tive alguns professores. Dincontes foi meu primeiro orientador, depois Leonardo Hemic e todos dois são falecidos. O Leonardo Hemic faleceu o ano passado, em junho do ano passado, tem um ano que ele faleceu. Nós nos tornamos muito amigos, trocávamos correspondência sempre e, pelo menos uma vez por ano, sempre a gente trocou informações e eu me tornei grande amigo deles. P/1 – O relacionamento deles com os brasileiros então era bom? R – Excelente. P/1 – A questão da mão de obra, senhor Mauro, como era? R – Mão de obra aqui no interior, nessa nossa área, ninguém tem experiência industrial, então se pegava esse pessoal que trabalhava na roça, pessoal de pouca cultura, pouca escolaridade e então eles começaram a trabalhar com essa gente. P/1 – Como é que fazia? Ia às fazendas ou... R – Abriu-se um... P/1 – Um anúncio? R – Um anúncio através do jornal e aí foram pegando o pessoal aqui de volta, né? P/1 – E aí dava treinamento para eles? R – Aí eles vinham para a fábrica e eles começavam seu treinamento na área de conhecimento. Então esse pessoal chegou bem antes da operação que é exatamente essa adaptação em si, no ambiente e no aprendizado também de alguma coisa. E eles tinham muita paciência ensinando, orientando e além do que eles tinham que trabalhar mesmo duro porque a implantação de uma fábrica não é brinquedo. E ainda porque esse tipo de fábrica exige muito fisicamente das pessoas. Um ambiente muito quente e era um ambiente, até hoje, mesmo que fosse melhorando, mas o básico exigia muito deles e, às vezes, eram pessoas que tinham certa idade. O que fez a gente criar bastante amor nessa fábrica foi ver como eles trabalhavam com carinho, com dedicação e isso foi chamando a atenção da gente. Muitos deles com mais de sessenta anos trabalhando feito um jovem. Então a gente foi aprendendo com eles a gostar disso também e respeitar muito essa fábrica. P/1 – Os equipamentos vinham todos de fora? R – Era tudo... P/1 – Todos americanos? R – Todos americanos. E foi se adaptando. As fábricas aqui exigindo, pedindo e nós começamos a aprender com eles o que sabiam, né? Eles já trouxeram de imediato o programa de segurança porque já tinham uma vivência grande e iam transmitindo pra gente, mas nós não tínhamos nenhuma noção de nada, então essa absorção era meio lenta e às vezes a gente até criticava “É uma bobagem isso. Para que isso? Para que aquilo?”. Mas, na realidade... P/1 – Até por uma questão de cultura, não é, senhor Mauro? R – Ninguém tinha informação nenhuma e nós fomos aprendendo. Aprendendo o trabalho e depois iniciou-se a partida da primeira linha. Ali eles trabalhavam bastante e a gente já começava a absorver o tipo de trabalho, o tipo da operação que se tinha que fazer e ainda tinha o intérprete ali para remediar a coisa, né? P/1 – O senhor entrou então na redução? Tinha uma função específica? R – Eu entrei como auxiliar de redução até o primeiro holerite meu. Está aí 1,34, um cruzeiro e trinta e quatro por hora, acho que era 144 por mês, é por aí. P/1 – Era bastante, já era um valor… R – Já era um valor razoável. De início, os primeiros 90 dias eu comecei a trabalhar e... P/1 – O que fazia o auxiliar de redução? R - Olha, nessa época quando se iniciou, primeiro foi a limpeza geral daquele equipamento que estava chegando aí. Lixar aquilo direitinho, as máquinas e depois disso foi a montagem das próprias cubas. Essa montagem era orientada pelos americanos e a partir da primeira, segunda, terceira, a gente já começou a auxiliar bem eles, né? E eu fui um deles que depois de algumas cubas já comandava em parte, já orientava, eles já começaram a me dar um cargo de orientador ali com o pessoal. Depois eu passei como responsável pela montagem e fui evoluindo e de repente me colocaram como... Depois de certo avanço me colocaram como encarregado de um grupinho de pessoas, mas até então ninguém sabia de nada, né? Era aquilo mesmo. P/1 – Quer dizer que na primeira partida o senhor estava? R – Eu fiz parte da primeira. P/1 – Conta pra gente como foi, senhor Mauro. R – Essa partida era uma partida difícil. Você teria que primeiro preparar todo o equipamento, ver se estava tudo em ordem, tudo era isolado. Uma boa parte das cubas tinha que ser preenchidas por material que ia se formar o anodo, chamado de briquete. Então aquilo teria que ser derretido primeiro para depois de formado isso seria um dos elementos da partida da linha e depois o cátodo, isso era o anodo. A parte de cima chama-se anodo, é feito de uma pedra grande de briquete de forma de carvão. E a parte de baixo também tinha sido construída. Depois disso tudo aquecido aí, então, foi se fazendo parceladamente, né? E a partida dali em si veio o líquido. O banho em si é jogado, ligado a energia, a alimentação e tudo isso a gente foi aprendendo rapidamente ali. A gente tinha instrução sobre isso, os encarregados também. Já tinha um grupo de encarregados que era responsável para tomar conta disso tudo, mas os americanos sempre estavam à frente. P/1 – Então, retomando, senhor Mauro, o senhor estava falando a data da primeira partida, mas eu queria saber se as pessoas estavam todas juntas? Como foi essa questão mais humana? Foi marcado um horário? R – Ah, tudo isso era programado, nós estávamos programando para o dia da independência americana, mas por algum motivo houve um atraso de uma semana, me parece isso. Eu sei que a partida em si é um trabalho difícil. Na formação do anodo, no derretimento existe muita fumaça e muita coisa e até incêndios do próprio elemento. Tem incêndios porque a corrente elétrica é muito alta, noventa mil amperes por aí, uma carga alta de voltagem e então às vezes incendiavam aquilo. Nós tínhamos que apagar aqueles incêndios com água, tinha que jogar água em cima para apagar aqueles incêndios, então havia muita fumaça, muita coisa. Mas nós tínhamos um orientador que veio para fazer essa partida, o Mister Alexander, Richard Alexander, já morreu também. Um homem fora de série. Era muito conhecedor, um conhecedor profundo, era um engenheiro eletricista e um homem muito bom. Eu gostava muito dele e mais aqueles auxiliares que ele trouxe lá de Pantofort e Rockdale, por ali para ajudar nesse aspecto. Eu sei que nós partimos, fomos gradativamente subindo e formando anodo, partindo cuba, formando banho, porque isso tinha que se formar banho, novamente banho para as outras cubas. As primeiras nós fizemos lá nos fornos, lá do lingotamento e essas primeiras 12 cubas, acho que primeiro 12, depois 24 e sequencial e essas próprias formas fazendo banho para as outras e o metal também já começou a alimentar essas cubas, elas começaram a produzir metal. Ainda tem algumas amostras pequenas da época da primeira corrida de metal lá na sala de cubas e a gente foi aprendendo com eles aquele denodo, aquela luta em si e ver que aquilo que eles faziam com prazer, com satisfação, com alegria, além de ter que ensinar. P/1 – Mas as pessoas se reuniram para assistir? Ou não tem uma coisa que as pessoas assistem a primeira partida? R – Não, assistir não, nós tínhamos que pôr a mão na massa. P/1 – Pôr a mão na massa. Mas veio mais gente além do pessoal que estava trabalhando? R – Não, praticamente o pessoal só de operação mesmo, porque é um momento de risco, um momento perigoso, um momento que precisa ter muita segurança e, na verdade, nós ali que estávamos auxiliando os americanos, nós não tínhamos muita noção da coisa apesar deles ensinarem, reunirem, falar sobre o que vai acontecer, é assim, é assado e tal. Mas a realidade é outra. Falar é uma coisa e enxergar o efeito é outra coisa, mas o pessoal foi absorvendo rápido. P/1 – O senhor lembra do que o sentiu quando viu? Lembra dessa sensação? R – Olha, eu acompanhava muito o meu professor, o Linuxstok, e eles tinham uma vivência já grande, né? E então eu ficava à espreita deles. Eu ficava na sensação deles. Na verdade, a gente viu que existiam riscos, existiam momentos fortes que a pessoa tinha que ter uma presença forte em cima do que estava acontecendo. P/2 – É isso que eu queria perguntar. Eu queria entender porque a primeira partida ela que acontece para começar a funcionar a fábrica? R – A funcionar a produção do alumínio, né? A fábrica em si anterior já tinha que ter alumina, já tinha que estar funcionando, a bauxita já tinha que estar sendo trabalhada para formar os precipitadores e depois acabava saindo a alumina que nós tínhamos que usar para alimentar as cubas, então já tinha... P/2 – Já teve toda uma fase de preparatória. R – Já tinha toda uma fase preparatória para se ter esse material porque nós começamos com a alumina daqui, né? Já estava funcionando uma parte da alumina. P/1 – Então já tinha sido inaugurada, já estava funcionando, é isso? P/2 – Outras etapas? R – A área de produção de cais já estava funcionando, só a área de redução que é que não tinha, ainda não tinha o alumínio em si que estava sendo feita naquele período nos anos de 1970. P/1 – Quer dizer, a redução é o lugar onde faz o alumínio? R - As salas de cuba são aquelas salas que tem... Vocês já visitaram lá? P/1 – A gente quer ir. R – É interessante, é muito interessante. P/1 - Mas não sei se vão deixar porque tem a questão da segurança. R – Não? E por que não? P/1 – Então quer dizer a bauxita ela era aqui da região? R – É da região. P/1 - E como é que ela vinha para cá? De caminhão? R – Caminhão. Eram depositadas em caminhões. A Alcoa comprou... O Dom William ele veio bem anterior. Vocês devem fazer a entrevista com Dom William. Ele veio bem antes e comprou as minas, fez a sondagem nas áreas que tinham bastante bauxita, comprou e, inclusive, acho que um dos entrevistados aí, acho que tinha terras que tinha bauxita, um dos primeiros funcionários da Alcoa. P/2 – Fica próxima daqui a área? R – São próximas daqui sim. É aqui, logo saindo da cidade já tem e aqui para trás também tem minas. Quer dizer, são próximas. É exatamente por isso, por causa do custo em si, né? P/1 – Então vinha de caminhão e depositava num determinado lugar? R - Depositava e depois essa bauxita era trabalhada e… P/1 – A bauxita precisa ser lavada? R – Antigamente se lavava, hoje ela vem já trabalhada para trabalhar com solda etc e tal. É um processo todo sofisticado que tem. P/1 – Vinha e trabalhava e dela produzia… R – Aí dela saía a alumina que é um pozinho branco que vocês vão conhecer aqui que é alimentação da cuba. Essa alumina é desdobrada e produz o alumínio que é precipitado e fica no fundo da cuba em si. Ela fica no fundo da cuba e aí tem um bocadinho que de tempos em tempos vem lá e tira uma certa quantidade e deixa um colchão lá, porque esse colchão tem uma função de estabilidade da energia. É necessário uma certa quantidade de metal e você tira uma produção, uma certa quantia de produção e a outra fica lá no fundo para manter a equipe trabalhando mais tranqüila. Esse colchão é muito interessante porque quando ele fica muito fino é até engraçado, ele traz uma certa instabilidade para a cuba e a corrente elétrica começa. Faz um movimento muito grande em cima dela e às vezes chega a jogar metal longe. É perigoso, por exemplo, queimar a gente, né? Porque a corrente elétrica faz um movimento interno e às vezes cospe metal fora e às vezes pode queimar a gente, né? Pode acontecer de queimar. E esses anodos eles são... Essas cubas elas são controladas. Antigamente nós controlávamos ela na mão, no dedo. Era um botão que você aumentava, diminuía, fazia um movimento, porque ela tem a necessidade de fazer um movimento de controle de voltagem e às vezes acontecia que um disparo de um equipamento elétrico às vezes jogava metal para o chão afora e se a gente pisar ali queima, cai. Aconteceu uma vez só de queimar um rapaz lá. Mas é muito perigoso nesse aspecto. Depois veio o computador e aí veio a era moderna, o momento moderno, veio o computador e por sinal o computador era num tamanho com uns quatro ou cinco metros de comprimento. P/1 – O primeiro que veio para cá? R – É, o primeiro. P/1 – Ele veio para controlar a operação? R – Ele veio para controlar as cubas, né? P/1 – As cubas. Então especificamente na área de redução? R – É, na área de redução. Nas outras áreas também já tinha computador, mas por isso que a gente está falando, a gente viu o antigo e o moderno. P/2 – Mas, voltando só um pouquinho lá para o primeiro dia da partida, nesse primeiro dia já saiu alumínio? R – Já começou. Desde o momento que você parte a cuba e ela tem o banho tem que ter uma certa quantidade de alumina que ele absorve como o açúcar na água, entendeu? E quando a corrente passa, começa a precipitar o metal. Então já começa a produzir desde o movimento a passar a corrente dentro da cuba e já começa a produção de metal, uma produção baixa, mas já está produzindo. P/1 – Qual foi a sua primeira impressão quando o senhor começou? Porque o senhor veio de uma área bem mais tranquila. É diferente quando o senhor chegou aqui? R – A gente vê a grandiosidade. Para você ter uma idéia, aquelas salas ali são três salas, né? Linha 1, linha 2 e linha 3 e cada uma delas tem 615 metros de comprimento e duas alas de cubas de fora a fora, umas pontes rolantes trabalhando ali, mas é uma grandiosidade. Você vê um troço grande daqueles e quem nunca viu coisas a esse nível, a gente fica um pouco assustado, né? E, mesmo porque, quando se fala naquela época 120 mil amperes é uma corrente violenta e 450 volts, então a coisa é brava, não é? Os barramentos que passam as correntes são barramentos dessa altura de quase um metro, são uns 70 centímetros e uma largura que é essa largura. São os barramentos que passam corrente para ir alimentando essas cubas, né? Então a coisa é brava. E quando surge um curto, o curto é violento. P/2 – E tem preocupação com segurança? R – É uma das coisas mais importantes. E isso nós aprendemos desde o início porquê a segurança é importante e tal. E veio esse trabalho e nós começamos a trabalhar e tal. Até que na partida da linha 2 apareceu um americano chamado Fred Charpe. Esse homem fez com que a segurança se tornasse uma das coisas mais importantes da Alcoa, a Alcoa do Brasil. E isso extrapolou um pouco para fora também. Lá fora também porque nós começamos a bater uns recordes de segurança e chamou a atenção de outras fábricas da Alcoa. Ele se chamava Fred Charpe, chegou e falou: “Eu quero segurança a qualquer preço e não admito que seja diferente”. Chamou todos os encarregados. Nessa época nós estávamos em 24 encarregados nessa redução só na sala de cuba. “O negócio é o seguinte: ou vocês absorvem isso ou vocês não servem para trabalhar para mim”. Ele foi categórico: “Agora, de hoje em diante, eu quero o máximo e quero ver essa fábrica realmente segura” e ele bateu firme mesmo e conseguiu. Hoje, tem essa segurança que a gente vê em toda essa fábrica aqui, ele foi o alicerce, ele foi a pedra principal, pedra angular, chama-se Fred Charpe. P/1 – Mas até então tinha tido alguns problemas? R – Sempre. Porque é uma área perigosa. Com esse pessoal sem conhecimento maior, então, estava sujeito a alguns acidentes, algumas coisas, né? P/1 – Mas não aconteceu nada assim, né, senhor Mauro? Teve algum evento assim? R – Segurança numa fábrica a nível dessa não é fácil. Houve alguns acidentes de empreiteiras, houve alguns acidentes também da própria fábrica, houve lá no lingotamento um acidente sério que o rapaz perdeu a vida, mas dentro da sala de cuba... Eu quando eu saí, disse para muita gente: “Ô, duas coisas me fazem orgulhoso: primeiro de nunca ter morrido ninguém aqui dentro - eu comandava bastante gente e tinha os meus superiores também, mas eu comandava diretamente muita gente - e não ter perdido nenhum anodo”. O anodo é essa peça que trazia, que dava muito trabalho, havia muitos defeitos que se criava e era difícil de corrigir. É um trabalho duro e se você não tomasse providência imediata, você perdia esses anodos. E você tinha que parar a cuba e ficar parado. Era um prejuízo muito grande, né? Mas então eram duas coisas que eu me orgulhava, me orgulho até hoje que enquanto eu estive não aconteceu. Por incrível que pareça, depois que eu saí, menos de um ano, aconteceu deles perderem um anodo [risos]. Bom, mas é isso. P/1 – Então o senhor passou de auxiliar a encarregado e depois como foi a sua trajetória? R – Depois de encarregado eu comecei a trabalhar no turno, trabalhei com um americano, o Putz, um excelente professor. E fui trabalhando e ele foi se afastando, se afastando e foi ficando mais, deixando e eu fui tomando a... Quando alguma coisa mais séria acontecia que eu não tinha conhecimento ia atrás dele e tal, ele me passava. Então eu fui assumindo como encarregado de turno, assim como outros rapazes também, porque eram três turnos. Foram também assumindo junto com seus orientadores, né? E depois disso esses primeiros foram embora e veio esse Mister Hainc. Eu aprendi muito com ele e ele então ficou mais encabeçado de orientar toda a equipe. Daí a poucos anos já partimos à linha 2 com o Mister Charque e já não veio americano mais, eu já tinha experiência da primeira. Eu, mais um grupo de engenheiros e mais um pessoal aí, nós partimos à linha 2 só com a orientação do Mister Charque que estava aqui e o Mister Alexander que voltou aqui. Partimos para a linha 2. P/2 – Que vitória, né, senhor Mauro? Que data foi a linha 2? R – 1974? P/2 – Porque a primeira foi em 1970, então... R – É 1974? Por aí, depois acho que foi em 1978 que nós partimos. Eu estou perdendo a noção das coisas, mas quando partimos à linha 3 não tinha mais ninguém aqui só nós mesmos. Já tínhamos experiência da primeira e da segunda, então tinha uma tranquilidade muito grande e partimos bem, muito bem. A experiência foi muito boa. P/1 – Aí a questão da mão de obra também já tinha melhorado nesse tempo, né? R – O pessoal vai absorvendo nesse tempo. Eu absorvi muito fácil, eu absorvi bastante e me tornei um encarregado geral. Depois de dois anos ou três anos eu passei a encarregado geral. Tinha um outro rapaz e depois eu fui substituí-lo, aí fiquei nessa função 12 anos. 12 anos como encarregado geral. P/1 – Encarregado geral da redução? R – Da redução. Então tudo praticamente passava pela minha mão. A área prática, eu tinha muita prática, muito conhecimento, né? Então isso tornava... Quando os meus companheiros que aprenderam comigo tinham problemas eles corriam atrás de mim. Muitos deles, na hora que a coisa estava mais séria, me chamavam e eu vinha para resolver. Eu trazia sempre alguém porque a parte prática eu tinha muito e havia sempre um engenheiro ou outro que me acompanhava. Era um aprendizado para eles e uma cobertura para mim também, né? P/1 – O senhor dedicou grande parte da sua vida, né? R – Eu fiz com o maior prazer, com o maior carinho, amor nessa fábrica, não me arrependo em nada. Se fiz alguma coisa na vida foi aqui dentro, com o dinheiro da Alcoa, dinheiro suado, muito suado, camisa molhada todo santo dia, entendeu? Mas um dinheiro suado, mas eu fui reconhecido, esses americanos reconheciam, eu tinha salário por mérito todo ano, uma vez, duas vezes no ano. Aliás, tinha alguns engenheiros que não recebiam como eu e não ganhavam como eu. Mas eu era muito reconhecido pela dedicação que eu tinha, pelo prazer que eu tinha nesse meu trabalho. P/1 – Mas e essa história desse desenvolvimento? R – O desenvolvimento é, como lá diz, a aula, é dada para todos, mas nem todos absorvem aquilo que o professor falou. Então eu era muito interessado no processo porque eu, no íntimo, tinha alguma ligação nesse processo, eu queria ser engenheiro mecânico. Então eu estava mais para esse lado que para o lado da Odontologia. Então eu fazia isso com prazer e todas as vezes que tinha algum problema mais diferente eu fazia questão de ir lá aprender e aprendia. E isso me dava mais autoridade em conhecimentos. Quando o pessoal tinha problemas, eles vinham e me chamavam, porque eu já tinha uma experiência grande e sempre me interessava por tudo aquilo que era novo. E eu aprendi com eles e fui desenvolvendo também porque, na verdade, na hora do vamos ver, muitas vezes as pessoas têm medo e eu era uma das pessoas que não tinha medo. Ia lá e enfrentava a coisa, entendeu? E às vezes quando a coisa estava muito difícil, porque é muito desgastante naquela época o trabalho na sala de cuba e era muito manual a coisa. Então às vezes as pessoas estavam desgastadas, mas o trabalho precisava ser tocado e eu quantas e quantas vezes chegava junto com eles, trabalhava junto com eles. Então para dar aquele ânimo não deixar amolecer a coisa, porque se deixar todo mundo sai fora. A gente tinha que estar na frente de certas coisas e muitas vezes a gente tinha que estar orientando, pondo a mão na massa. P/1 – Mas a história da Alcoa e a história de Poços e a história do senhor, por exemplo, que dedicou a sua vida quase toda aqui... R – Minha vida eu passei praticamente aqui. P/1 – Elas estão todas ligadas, né? R – É, estão todas ligadas. Porque a minha vida começou a ficar melhor, se acertar mais, depois que eu comecei a trabalhar aqui. Aí passei a ser encarregado, comecei a receber um dinheiro maior e um dinheiro razoável e comecei a ter uma vida melhor e tinha família, estudei um filho e estudei dois, né? O que faleceu e esse outro que eu criei da segunda mulher. Esse rapaz hoje é uma autoridade lá na Europa da Alcoa, a Alcoa internacional, ele trabalha na Espanha hoje, trabalha com diversas fábricas lá na Espanha e na Itália. P/1 – Ele começou aqui? R – Ele começou aqui. P/1 – Trazido pelo senhor? R – É, eu que encaminhei ele, mas é uma história interessante. Ele é formado em Ouro Preto e ele foi um dos melhores alunos de Ouro Preto. P/1 – Da Escola de Minas? R – É. Um dos melhores alunos. Quando chegou a hora de trabalhar “E aí? Onde eu vou arrumar? Será que eu consigo aqui?”. Eu falei com um, falei com outro, porque todo mundo aqui eu conhecia e eles me conheciam também, mas aí é uma história interessante essa. Mas eu não consegui nada com os meus aqui. Aí o Alan Beuda, presidente da Alcoa, ele vinha muito fazer visitas aqui nas salas e tal e ele o dia todo aqui, aquele aparato todo que sempre existe em qualquer lugar quando tem um grande chefe. Então eu era o responsável pela área, tinha que estar sempre presente ali para ver se não acontecia nada de grave, como o homem lá dentro de repente me acontece um acidente, alguma coisa, eu ficava sempre de olho no trabalho do pessoal, né? E uma vez ou outra veio aqui e ficou me conhecendo, me apresentaram e tal. E toda vez que ele vinha aqui, chegava na área, eu sempre estava ao lado lá, ele olhava e falava: “Ô, Mauro vem cá”, aí saía conversando comigo “Me acompanha aqui. Como é que está?” e começava a conversar a respeito do trabalho e tudo, né? Íamos eu e ele na frente e o resto atrás. O que eu posso fazer? Me chamou eu tinha que acompanhar o homem, né? E foi indo assim muitas vezes. Todas as vezes que ele vinha aqui fazia questão de conversar comigo. Aconteceu que o meu filho se formou e eu já tinha pedido para um, pedido para outro e nada, não tinha acontecido nada e eu pensei: “É hoje, é hoje que eu vou falar com esse homem” e ele veio aqui e nós saímos para visitar uma sala e tal e ele saiu junto comigo e eu falei: “Ô, Alan, eu preciso falar uma coisa com você”, “Fala, o que você precisa?”, “O negócio é o seguinte: eu tenho um filho assim, assado e eu estou precisando arrumar um emprego para ele”, “Fala com a Lucila para ela arrumar o currículo dele e colocar lá”. A Lucila era muito amiga minha. Foi lá no departamento pessoal, pegou o currículo dele e pôs dentro da bolsa dele e daí a três dias ferveu, né? “Oh, preciso arrumar e tal” nesse ínterim aí o que aconteceu? Veio um pedido já, uma informação para ele em São Luís do Maranhão que ia arrumar uma vaga para ele lá e ia trabalhar no computador, nem na área, era no computador. No mesmo dia chega um outro chamado dele de Suzano se ele queria ir trabalhar, eu falei para ele: “Ô, meu filho agora é o seguinte: Suzano é aqui em São Paulo e tal, você vai me desculpar, mas agora eu não posso. Você vai para lá”. E ele foi para São Luís do Maranhão. Foi trabalhar, não na área dele, mas na área de computação porque também ele tinha uma formação boa de ensino e logo em seguida. Depois ele arrumou um para ficar no lugar dele e passou para outro e lá ele ficou. Eu sei que aqui no Brasil ele conheceu todas as fábricas de alumínio, ele conheceu a Alcan lá em Ouro Preto, ele conheceu a CBA, ele conheceu São Luís do Maranhão, a Albras, Poços de Caldas também aqui e daí ele foi para a Noruega. Ele ficou quatro anos na Noruega e hoje ele está na Espanha, três anos lá. Esse é o histórico do filho que foi criado aqui pela Alcoa. P/2 – E isso dá um orgulho danado, não é? R – Dá. P/2 – Deve dar um... R – Hoje ele está muito bem, está excelente, está muito bem, tem três filhos. P/2 – Ele tem três também? R – Tem, mais três netos. P/2 – Bacana. R – Três mais três seis, seis netos. P/2 – Meia dúzia, um time de vôlei. R - Esses dele são tortos, né? Netos tortos, mas continua o mesmo sentimento que os outros. P/1 – Sua maior alegria na Alcoa nesses anos todos? R – Minha maior alegria? Foi tanta alegria aqui, gente. Bom, a minha maior alegria foi exatamente aquilo que eu já havia falado de nunca ter morrido ninguém na minha área. Enquanto eu estive lá nunca aconteceu esse tipo de coisa, essa realmente é a mais forte, né? As alegrias é que os diretores dessa fábrica, eles eram amigos meus, o William, o Roberto William. Tem uma fotografia dele ali. Ele foi na minha casa comer churrasco na minha casa, numa garagem simples lá que está até hoje lá. O Mister Pergue, um homem excepcional ficou dez anos aqui, um homem maravilhoso tanto técnico como amigo, quantas vezes nós fomos na casa dele lá nas festinhas que ele dava lá para gente, né? Então as alegrias foram muitas, né? Você se sentir como um operário razoável, não sei se é bem qualificado, mas estava junto deles e eles tinham um carinho especial com a gente. P/1 – E causos, tiveram muitos causos aqui na fábrica? R – Causos sempre têm, têm muitos, mas quem gostava muito desses causos e contava e fazia questão de segurar isso era um nosso colega chamado Juvenal. O Juvenal é que sabia todas as histórias e contava aí essas rodelas, né? P/1 – E onde anda esse Juvenal? Onde ele anda, senhor Mauro? R – Ele está aqui em Poços, aposentou aqui pela Alcoa. Acho que ele administra uma casa aqui no Santa Lúcia, mas ele trabalha ali no Santa Lúcia administrando. Ele trabalhou como encarregado também, trabalhou no escritório e depois passou a encarregado e ali ficou muito tempo. Mas esse é o que conhece as historinhas da Alcoa, é o que mais conhece. Uma vez eu estava conversando com ele e falei: “Você precisa passar isso para o papel, essas historinhas, as piadas, as coisas”. Ele tem muita, tem muita, ele sabe muito, até hoje ele lembra. Juvenal Rodrigues. É interessante, ele tem muitas historinhas interessantes que podem ser relembradas. P/1 – Senhor Mauro, todas essas dificuldades, essas questões, esse trabalho mais pesado, isso aproxima as pessoas? R – Aproxima porque você vê a pessoa se dar. Isso hoje eu acho que é difícil, não sei, perdi o contato com os operários. Hoje é muito difícil você se dar num trabalho pesado, duro, às vezes até perigoso e você está exaurido, cansado, arrebentado e ter que tocar. E a gente vai, incentiva e eles vão e acreditam. E o prazer que dá esse trabalho todo quando você consegue o resultado que correu atrás dele, te dá um prazer muito grande porque aquilo se torna fácil, né? Todo trabalho difícil, quando você consegue alguma coisa dele, ele te dá um prazer maior. P/1 – O senhor falou bastante da questão da segurança e a gente reconhece que é importante, mas e a questão do meio ambiente? Havia uma preocupação lá naquela época? R – Muito. Já existiam, só que os recursos eram menores do que os que existem hoje. Já existia. Uma das coisas que a gente pedia para o pessoal: “Não, não vamos deixar esses gases saírem muito da cuba porque esses gases têm que ir para o reator, porque são reaproveitados, mas eles não fazem bem à saúde e não deixem de usar os equipamentos”. Equipamento sempre existiu. Um ou outro às vezes era teimoso e não queria usar, não querer a máscara. Mas sempre usou, óculos, por exemplo, sempre foi batido muito firmemente em cima disso e pessoas até às vezes podiam perder o emprego por causa de não usar o equipamento de segurança. Isso era muito comum. O sujeito bater, bater, “Ou você faz isso ou perde o emprego” e se trabalhou muito em cima disso. E equipamentos, roupas eram fornecida pela própria Alcoa, os calçados era coisas que naquela época poucas fábricas faziam isso, né? P/1 – Como é que o senhor vê essa importância da Alcoa para a história econômica do Brasil? O senhor acha que ela tem esse papel? R – Disso eu não tenho a menor dúvida. Hoje a Alcoa com essa produção de alumínio que ela tem, essas outras secundárias que tem por aí, você vê a Alumar hoje é uma potência. Maranhão era uma coisa antes da Alcoa e é outra depois da Alcoa. Com a Alcoa vieram outras tantas, né? Mas, na verdade, é uma mudança muito grande. Eu quando conheci São Luís do maranhão, era uma capital interiorana e fraca, né? Hoje se tornou uma grande cidade. --------- TROCA DE FITA ------------- P/1 – Eu queria retomar. O senhor visitou as outras unidades da Alcoa pelo Brasil ou pelo mundo? R – Visitei. Visitei Recife, a Alumar, lá em Santa Catarina, tive também fora do país, tive em Point Confort, né? Foi um presente que eu ganhei quando alguns sindicalistas do ABC vieram para cá e tentaram fazer uma greve aqui, aliás, iniciar uma grave aqui junto com alguns aí e quase que eles fazem parar a Alcoa. Graças a esse amor, a essa camisa vestida de muitos que nós tínhamos aqui, nós ficamos três dias aqui sem ir em casa para não deixar a fábrica parar e graças a Deus nós conseguimos fazer isso. E em consequência, eu acho, que me deram esse presente. Eu fiquei três meses lá nos Estados Unidos, em Point Confort, em reconhecimento junto com aqueles que eu já tinha trabalhado com eles, o tal de Cuntes que foi meu professor e o Hemic em Rockdale, gente fantástica. Aqui em Poços, na verdade, essa fábrica aqui é que fez crescer uma porção de dirigentes que hoje estão aqui no Brasil e na Europa e todos eles passaram por aqui e quase todos eles foram meus amigos. Um dos vice presidentes aqui no Brasil em redução, eu fui o primeiro a mostrar para ele a sala, cubas, a gente já tinha mais vivência, né? P/1 – Aqui é uma escola então? R – Foi uma grande... É uma grande escola. Acho que ainda é uma grande escola, muitos da Alumar passaram por aqui e então Poços de Caldas é a célula mãe. P/1 – É ela que puxa esse desenvolvimento da Alcoa no Brasil? R – Ela puxou, ela fez. Depois dos resultados aqui de Poços de Caldas, se criou a Alumar e por aí a fora, né? Eu tive muito contato com muitos dirigentes que hoje estão lá em cima e naquela época o Alan Beuda também não estava onde está hoje. O Alan Beuda também começou aqui como contador, conhecimento aqui e depois foi para São Paulo, foi um assistente lá do presidente da Alcoa e graças às qualidades dele se tornou presidente aqui de Poços de Caldas e daí foi embora. P/1 – Se o senhor tivesse que nos dizer qual o seu maior aprendizado? Qual a maior lição de vida que o senhor tirou até agora, qual seria? R – Lição de... O que eu posso dizer é que tudo que fizer faça com amor, essa foi a grande lição e eu fiz isso e não vi os anos passarem e passaram e não me arrependo de nada que eu fiz. A única coisa que eu posso dizer é “Não faça aquilo que não queira”. Quando eu tentei fazer me dei mal e depois acabei me acertando quando vim para a Alcoa e acabei achando o meu espaço. P/1 – Para o senhor o que é ser alcoano? R – Olha, eu só posso dizer o seguinte, que até hoje eu acordo lembrando, sonhando. Até hoje eu sonho como se estivesse trabalhando aqui ou alguma coisa ou outra. Essa semana mesmo aconteceu isso. Então a gente não desliga, eu não desliguei, estou longe, não voltei mais para a área apesar de ter um filho aqui que era superintendente, mas sabe o que é? Deixa quieto, mexe muito com os sentimentos da gente talvez, mas eu tinha um grande amor por isso aqui. P/2 – Hoje o senhor está aposentado e tem seis netos? R – Seis netos. P/2 – O senhor está casado? R – Estou casado pela terceira vez. Eu acho que a solidão é muito ruim depois que você passa dos 60. A gente tem que tomar muito cuidado para não ficar solitário. A minha esposa faleceu, eu vivi muitos anos com ela é de 65 a 95, 2001 e depois de um ano dela ter falecido eu arrumei uma companheira e estamos aí vivendo. P/1 – O que o senhor faz no seu dia a dia, nas horas de lazer? O senhor lê? R – Eu faço de tudo, eu gosto de mexer em tudo. Hoje eu estava mexendo numa descarga de privada que estava enguiçada, eu mexo com a parte elétrica, com a parte mecânica, gosto de mexer. Tenho um sitiozinho, vou para o sítio, gosto de fazer as coisas lá, realizar as coisas, então eu gosto de estar mexendo sempre. P/1 – Isso é bom. R – Eu não fico parado, eu gosto de leitura. P/1 – E, senhor Mauro, o que o senhor acha desse projeto? De o Projeto Trajetória registrar a história da Alcoa pelas pessoas? R – Se não for feito isso, isso que eu estou passando só eu sei, quem vai transmitir esses detalhes, algumas coisas que eu passei aqui? Se não tiver registrado morre, porque amanhã estou morto e morre, morre toda a lembrança, todo o passado, todo o histórico, isso se apaga em duas gerações, acabam e o que está no papel, o que está escrito, está registrado. Isso não morre. P/1 – O que o senhor achou de participar da entrevista? Gostou? R – Eu acho ótimo, eu acho bom, porque é um momento que a gente põe para fora aquilo que a gente tem dentro e é um prazer isso. É um prazer às vezes falar algumas realidades, umas verdades, que às vezes pode ser mal interpretada, mas tudo bem, eu sempre fui muito autêntico, nunca fiquei embaixo de balaio, de forma que o que vem, vem claro. P/1 – Então está bom. Faltou eu perguntar alguma coisa que o senhor quisesse falar? R – Não, foi um prazer isso. Há alguma forma de averiguação posterior dessas coisas? P/1 – Sim, depois a gente vai conversar. Então está bom, senhor Mauro, a gente queria agradecer o senhor ter dedicado a sua atenção e as suas lindas histórias. R – E sempre junto com os meus amigos, eu gosto muito de um vinho, sabe? E desde o início, das primeiras reuniões que nós tínhamos, eu pegava esse pessoal americano, meus colegas, meus encarregados que trabalhavam comigo, nós íamos às adegas e íamos lá beber vinho e passávamos lá, levávamos uns quitutes, umas coisas para comer. Então a gente passava uma tarde com violões e levava uns cantores, um violão, mas sempre tinha umas festinhas a mais. Eu comecei isso e depois a própria Alcoa fez diversas reuniões, festividades em geral, até fez umas festas muito boas e acho que isso fazia com que a gente ficasse mais unidos, mais aglutinado, né? P/1 – Então está bom, senhor Mauro, muito obrigada. R – Eu que agradeço. --------- FIM DA ENTREVISTA -------------
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