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Se eles podem, eu também posso.

História de: Charles Alexandre da Silva
Autor: Sophia Donadelli
Publicado em: 13/06/2021

Sinopse

Charles Frajola conta sobre sua chegada ao Rio de Janeiro, onde sua mãe trabalhava como diarista e o pai, como porteiro. Relata a relação com a família empregadora da mãe e como sofreu um choque cultural quando passou a morar na Rocinha e no Recreio. Apesar de ter sido empurrado por seu irmão na primeira tentativa com o skate, Charles continuou cultivando a vontade de praticá-lo. A partir disso, passou a atuar junto aos jovens de uma escola de seu bairro, promovendo o esporte e a autoestima para aquela comunidade. Charles afirma que se eles podem, ele também pode.

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História completa

Projeto Semana do Esporte pela Mudança Social

Cabine PNUD

Realização Museu da Pessoa

Entrevista de Charles Alexandre da Silva

Entrevistado por Breno Castro Alves

São Paulo, 05 de novembro de 2009

Entrevista PNUD_CB014

Transcrito por Vanuza Ramos

 Revisado por Izadora Telles

 

 

P/1 - Então, Charles, primeiro a lição de casa. Me diz, por favor, o teu nome completo. 



R - Charles Alexandre da Silva. 



P/1 - Onde você nasceu?



R - Paraíba, Campina Grande. 



P/1 - Que dia? 



R – No dia 10 de agosto de 1981. 



P/1 - De 1981 até hoje, você já morou em que lugares da sua vida? 



R - Eu já morei em uns 50 lugares. 



P/1 - Vai dizendo uns aí, então. 



R - Vim pra cá com um ano... 



P/1 - Pro Rio? 



R - Pro Rio. Vim com um ano e meio, dois anos, não lembro. Fui morar no Recreio dos Bandeirantes por um ano, dois anos, até os quatro. De lá, fui morar com a minha tia na Rocinha; da Rocinha eu voltei pro Recreio; do Recreio fui morar na Barra; da Barra retornei pra casa da minha avó na Rocinha; aí da Rocinha eu voltei pro Recreio, com 18 anos; do Recreio fui morar e Jacarepaguá; do Jacarepaguá eu voltei pra casa da outra minha tia na Rocinha. Aí, com dez, anos voltei pra Rocinha e fiquei até os meus 17 anos. Aí fui morar na Zona Norte no bairro de Colégio, atualmente eu moro lá e moro há dez anos lá, na Zona Norte do Rio de Janeiro. 



P/1 - Então você esteve o período de 10 aos 17 na Rocinha? 



R - É, assim, morei mais no Recreio. Mas a minha infância, basicamente, foi na Rocinha e no Recreio. Porque, na verdade, minha mãe como era diarista e o meu pai porteiro, eu não tinha como... Tinha casas que a minha mãe trabalhava e não podia ter criança e na época eu era criança. E tinha meu irmão, então tinha casa que podia ficar uma criança, não podia ter o casal ou duas crianças. Aí revezava: eu ficava com a minha tia e o meu irmão ficava na casa. Aí quando minha mãe era dispensada... Normalmente, no Recreio, na época que eu lembro, as pessoas trocavam de casa por um único motivo: o cara tinha casa de praia que, no Recreio, seria uma casa de praia porque era meio litoral, reserva, não tinha praias, e quem morava no Centro tinha uma casa no Recreio onde passava o final de semana. Minha mãe tomava conta e o meu pai era porteiro, então, basicamente, era isso. O cara vendia a casa e a gente estava morando lá e aí tinha que se... "Gente, desculpa, mas a gente vai vender a casa, mas a gente tem indicação. A gente tem um irmão que mora aqui no outro lado do Recreio e a gente indicou vocês. Vocês não vão ficar sem lugar pra morar." Quando acontecia isso a gente ia pra Rocinha. Aí eu meio que fiquei um ano sim e um ano não até os dez anos. Teve uma vez que a gente ficou na casa da Rosangela Diomedes. A gente ficou de 10 aos 17. Aconteceu a mesma coisa quando eu fiz 17 anos. Lembro até hoje, foi a Copa de 1994. Essa família brigou, separou e vendeu a casa. Só que a minha mãe já tinha trabalhado por sete anos e, como ela não tinha carteira assinada, a família não assinou a carteira como doméstica. A, gente se tornou parte da família porque eles tinham dois filhos lá na cidade. A gente não era tratado como filho de empregada, a gente participava das festas, viajava com eles, ia pro Maracanã. Viramos meio que uma família nessa adolescência. E eles deram uma quantia, assim, não muito grande, mas que dava pra gente comprar um cantinho, uma casa. Na época, a minha mãe tinha uma tia que morava em Irajá e um tio que morava em Colégio e ele ia se mudar pro Nordeste. Houve a possibilidade de vender mais barato e ele deu a opção de vender pra família. A gente foi e comprou uma casa no morro lá de Colégio, na Zona Norte do Rio. De lá a gente entrou só com esse quadrante aqui, somente, sem nada, só com a geladeira e o fogão. O meu pai e a minha mãe começaram a trabalhar em outras casas. Meu sempre como porteiro e a minha mãe como diarista. A gente como já estava na adolescência, não precisava ninguém pra tomar de conta, não precisava ir pra casa da minha tia. A gente começou a se virar. 



P/1 - Você passava muito tempo na rua? 



R - Não porque foi um choque cultural. Na minha infância foi mais fácil porque eu morava no Recreio, 10 minutos da praia, do Posto Nove, eu era rato de praia com a molecada. Como eu te falei, lá não tinha divisão, eu era o filho do caseiro: "Vamos chamar o filho do caseiro lá da Rua Cinco". Então o pessoal ia lá: "Charles, vamos passar as férias lá em Maricá, tá a fim de ir?" "Ah, eu vou falar com a minha mãe". Os amigos que a gente tinha, não tinha esse lance de classe social. Quando a gente foi morar em Colégio foi um choque cultural porque mesmo que eu estudasse em escola pública no Recreio, o meu ambiente era com pessoas de classe média. Mesmo assim a gente tinha contato com a gente de classe baixa, que era a minha família. Então a minha mãe sempre me ensinou pra não fugir das origens. A gente tratava normal tanto rico como pobre. Se tivesse uma mega festa ou um bolo com refrigerante com docinho pra gente era a mesma coisa, foi o ensinamento que o meu pai e a minha mãe passaram. Então, basicamente, foi um choque cultural porque a gente foi morar num local que era um morro, que a gente não conhecia, não sabia que existia narcotráfico. A gente não deixou a peteca cair, mas, inicialmente, eu fiquei um ano. Tive que ter acompanhamento de psicólogo porque foi algo que eu jamais esperava. Mas a gente superou, não foi nada do tipo se matar: "Vou me matar porque eu estou morando na Zona Norte". Minha mãe colocou que a situação que a gente ia viver seria difícil até a gente ter uma casa e, nesse momento, a gente tinha uma casa e a gente não tinha o que reclamar porque a gente morava na Zona Norte. A gente tinha onde morar, independentemente que fosse um morro! E isso a gente dá continuidade até hoje, eu moro lá no mesmo local. Só que agora, a gente tem... A gente só tinha a geladeira e o fogão e a gente já tem os móveis, tenho o meu quarto, a gente tem acesso a internet, TV a cabo, como todo mundo de classe baixa, classe C ou D, eu não sei como colocar a classe social. Eu tenho o mesmo acesso que todos os meus amigos de classe média do meu bairro ou pessoas que são da Zona Sul que estão da faculdade. Eu tenho acesso ao Twitter, Facebook, Flicker, tenho acesso a todo ambiente. Faço minha faculdade, faço os meus corres como todo mundo, com um pouco mais de dificuldade, mas eu não desisto dos meus sonhos. 



P/1 - Ainda sobre a sua formação nesse trajeto todo de uma casa pra outra, enfim, tudo isso que você falou, onde você descobriu ou encontrou o skate? 



R - Muito bom. Então, assim, como eu morava no Recreio, as minhas férias eram praticamente na praia, eram dez minutos para chegar à praia. E tem um amigo nosso lá, o Guilherme, ele tinha uma pranchazinha velha e meu irmão começou a pegar onda de bodyboard para passar o tempo no final de semana nas férias. Eu comecei a gostar, só que eu era muito moleque. Minha mãe não me deixava ir para a praia sozinho, eu ia com meu irmão mais velho. Eu comecei a ir com o pessoal, comecei a me interessar pelo surf, pelo bodyboard porque a prancha de quilha, na época, era muito cara. Eu recebi a doação de um amigo: "Poxa, eu troquei de prancha, tô com uma prancha lá e tal...", aí eu comecei a pegar onda, comecei a gostar. Desde os 7 anos até 11, antes de eu vir pro bairro Colégio, eu comecei a ter esse lance com o surf. Só que um ano antes de eu vir, em 1993, eu peguei e comecei a ver a galera mudando da pranchinha pra quilha porque tem um surfista lá no bairro que é o Trequinho - hoje ele é surfista profissional, tá no circuito mundial de surf. Ele pegava onda, estudava na mesma escola, e a gente começou a ver "pô, o cara pega onda", os moleques ficam todos em cima dele, "vamos trocar". Aí nós começamos a querer pegar, só que o custo era caro. Eu ia com a minha bodyboard e chegava lá na hora "Pô, Bruninho, deixa eu pegar um pouquinho" "Vá lá, mas cuidado pra não bicar a prancha e quebrar porque meu pai trouxe dos Estados Unidos". Aí começou, né? Antes de eu vir pro Colégio, a gente fazia umas peripécias lá no bairro, catando manga nas árvores, catando caju, soltando pipa, correndo atrás de pipa lá no bairro e a gente encontrou no lixo, assim, uma madeira com umas rodinhas que um filhinho de papai - na época, a gente falava - tinha jogado no lixo e não tinha falado jogou por jogar. Eu peguei, levei pra casa. Eu e o meu irmão, a gente montou. A primeira vez que eu tive contato com skate foi meio desastroso. Meu irmão me empurrou sentado e eu caí dentro da piscina, tinha uma piscina lá onde a gente morava. A gente secou e tinha uma rua que era única asfaltada no bairro na época: a gente descia da padaria - do seu Gil, lembro até hoje, a mais movimentada do Recreio. A gente pegou, começou a andar e eu meio que larguei. Não como esporte, mas como criança: "Skate, que maneiro", como o surf também foi uma diversão. Não tinha nada pra fazer. Vamos andar de skate, vamos fazer carrinho de rolimã, que a gente fazia muito. Eu acho que foi o meu primeiro contato com o skate, como criança, como brincadeira. Todo mundo ganhava skate na época de Natal e, quando eu vi esse skate ali, eu falei "vamos montar". Montamos e começamos a brincar. 



P/1 - Prossegue isso até chegar no profissional. Como é que você chegou nisso? 



R - Quando eu vim pra Colégio, eu fiquei um ano, assim, meio chateado. Não me matriculei no ano, né, fiquei um ano em casa. Fiquei deprimido, fiquei chateado e fiquei um ano dentro do quarto, dentro de casa. Aí chegou uma hora que eu pensei "pô, eu estou aqui, minha mãe veio do Nordeste com meu pai e sempre cuidou de mim, sempre me incentivou em tudo que eu faço, eu não vou largar os estudos". Aí voltei a estudar e comecei a me socializar dentro do meu ambiente: "Eu vou ter que caçar alguma coisa pra me fazer aqui porque a gente só vê arma, só vê tráfico e vai chegar uma hora que a gente vai começar a ser seduzido". Na escola não tinha atividade esportiva na época, só tinha Educação Física e eu comecei a andar no bairro. Como eu jogava bola no Recreio, a gente jogava no Zico logo no lançamento do Zico lá no Recreio e fiz algumas peneiras, participei de alguns testes no Barra Futebol Clube, sempre foi o meu contato com o esporte, sempre joguei bola. Eu comecei a jogar bola com a galera, só que eu sempre ficava na de fora porque eu era de outra região. Todo mundo se conhecia desde pequeno, então eu era meio que excluído. Aí eu falei: "Pô, coletivo não dá certo. Vamos tentar ver alguma coisa". Aí, uma vez, andando no bairro, eu achei uma escola pública, que é um CIEP [Centros Integrados de Educação Pública] chamado CIEP 339 Mário Tamborindeguy. E lá tinha umas pessoas jogando basquete, eram três de um lado e três de outro ou dupla, quando era meia quadra. Eu falei: "Opa, futebol com cinco de um lado, cinco de outro e um goleiro, acho que agora dá pra eu brincar, me divertir". Aí comecei a participar, participar, não, ficava na quadra e quando tinham cinco pessoas, três de um lado e sobrava o sexto do outro. E eu estava lá, então "vamos chamar aquele garoto pra completar o time", eu sempre completava. Aí comecei a jogar basquete lá todo final de semana. Nas férias começou a vir uma galera de skate e eu sempre era excluído no basquete. Aí eu falei "pô, brother, coletivo não é comigo, mas eu acho que essa parada aí funciona, já peguei onda" e comecei a ir nos horários que a galera ia, seis da tarde todo dia. Comecei ir e um amigo meu que jogava basquete começou ver que eu estava deixando o basquete só pra ver o skate à tarde, à noitezinha. Só que a galera fumava, galera doideira, roqueiros, um ambiente muito pesado. Aí trocando uma ideia com esse amigo meu, falou: "Pô, cara, eu estou com um skate aqui em casa, quer ir lá buscar?", eu falei: "Vamos lá, cara, eu me amarrei nisso, é uma coisa independente, vou pra qualquer lugar com isso aí, até é meio de transporte". Foi o meu primeiro contato com 16 pra 17 anos, aí comecei a me enturmar na galera. Sempre eu ficava na quadra e tinha que esperar a galera terminar de andar pra eu andar. Aí conheci o Luciano, um menino que também estava começando a andar e ele também era meio excluído da galera. Eu disse assim: "Oh, pra entrar naquele grupinho ali tem que fumar aquelas paradas e tal, comprar algumas coisas, um refrigerante pros caras quando estão cansados. Vamos marcar uma tocaia aqui, quando der o horário deles ir embora a gente marca". Só que os caras só iam embora onze da noite e eu tinha que estar às dez em casa. "Pô, amanhã tem aula..." Aí teve um sábado que a galera teve um campeonato e eles não foram, aí quadra era nossa, só a gente. Caraca, skate à vontade! Só que a gente não sabia andar, só ficava com o skate debaixo do braço. Aí começamos a nadar e, quando eles chagavam, a gente andava na beirinha da quadra. E era um movimento de skatistas de 30, 40 pessoas. A gente ficava intimidado  porque eles andavam muito. Aí começamos a trocar ideia, conversamos com essas pessoas, começamos a trocar vídeo. Aí tive meu primeiro contato com vídeo de skate, eu lembro até hoje: 411, número 25. Quatrocentos e onze é uma empresa de produtora de vídeo dos Estados Unidos, é a empresa mais conhecida do mundo que meio difundiu o audiovisual do skate pro mundo. Eu tive esse primeiro contato com o vídeo da 411, número 25. Eu fiquei "caraca, eu posso fazer tudo isso só com essa madeirinha, que bacana". Aí eu tava estudando na escola que não tinha nada, terminei meu ensino fundamental e passei pro ensino médio. Exatamente a escola que antes eu estudava o ensino fundamental, o próximo passo era pra essa escola que eu que é um CIEP. Esse CIEP era onde eu andava de skate! Eu falei: "Tô em casa. Não vou pegar ônibus, vou de skate pra escola", eu já sabia remar, sabia andar. E comecei a estudar nessa escola, ia andando de skate sempre nos finais de semana porque no meio da semana eu estudava. No segundo ano do ensino médio, o projeto chamado 'Escola de Paz', isso em 2003, foi inserido nessa escola, que era o sexto dia de aula numa escola pública, no caso, do Governo do Estado. A diretora viu que eu andava de skate e falou assim: "Charles, você conhece tanta gente aqui nos finais de semana. A gente ganhou do Governo um projeto chamado 'Escola de Paz' que inseriu o sexto dia dentro da escola, que é a parte de arte, cultura, esporte e lazer à comunidade local e aos alunos da escola. Como você já conhece a galera, a gente queria inserir uma oficina e a gente viu que você fala muito bem com a galera do skate aqui. A escola está meio que pichada...". E a referência da escola é que quem pichava eram os skatistas, a coisa já vem do marginal, que vê o skate como doideira, como a galera que usa entorpecentes. Na verdade, existe uma comunidade louca, existe a favela, existe o morro, existe o mendigo, existe o pivete. Então, não necessariamente era a galera do skate. 



P/1 - Eles começaram a fazer tipo uma monitoria? 



R - Isso, todo sábado. Eu tive acesso à escola pra divulgar de segunda a sexta a minha oficina de skate, que foi uma oficina de 2002 pra 2003. Nisso eu comecei a ter um contato maior com a galera porque no sábado não podia andar de skate no horário que estava acontecendo todas as atividades: teatro, futebol, tinha os horários. A galera do skate começou a respeitar e quando viram que eu era o responsável pelo skate, eles começaram a me respeitar: "Pô, bacana aquele jovem que começou com a gente aqui e a gente excluía". Não tinha obstáculo com a escola e como na época o projeto tinha incentivo da Unesco, tinha uma verba pra oficina. E na oficina, a verba que era colocada era pra manutenção dos obstáculos, então no CIEP nunca teve obstáculo! Tinha a quadra, a borda, que era a arquibancada. A quadra que era do gol do futebol, era tirado o cano de cima, que era colocado no buraco e virava uma trave pra deslizar o skate. Nisso a galera começou a ver os obstáculos e pensavam: "A iniciativa do cara foi boa". Só que eles não sabiam que não fui eu que tive essa iniciativa, foi a escola. Eles começaram a ver que ali no espaço deles eles iam ter além da caixa e a rampa que a escola deu dentro desse projeto estavam funcionando, ou seja, eles começaram a respeitar o espaço que eles estavam utilizando. Só que o projeto acabou em 2005 por falta de investimento do governo e algumas coisas administrativas que, na época, eu não entendia por que eu era adolescente. Mas a gente continuou tocando. A gente conversou com a diretora, que a gente tinha um quartinho para guardar os obstáculos, e começamos a fazer os nossos eventos de skate. Começamos em 2004 um circuito de quatro etapas, convidamos só a galera local, não era pago. A gente fez algumas campanhas de inscrição: alimentos não perecíveis pra distribuir na comunidade; a gente fez campanha pra quem não tinha skate. Quem se escrevesse e levasse uma parte do skate que ele não utiliza mais pra fazer uma doação. Essa ação não funcionou muito, que a galera meio que não tinha o material, imagina doar! 



P/1 - Isso vocês faziam pela escola mesmo? 



R - Não. Isso começou a partir do momento que a gente viu uma dificuldade maior. A partir do momento que a gente não tinha a escola, porque o projeto acabou e a gente teve que andar com as próprias pernas. O projeto acabou e a primeira iniciativa foi pedir a chave pra gente andar sábado e domingo; e precisávamos que alguém ligasse a luz e a escola disponibilizou a chave pra que a gente ligasse a luz à noite e pegasse o material, que seriam as rampas pra colocar na quadra. Isso foi uma grande vitória. A gente ficou por dois anos, até 2007 sem esse projeto chamado 'Escola de Paz'. Começamos a fazer campeonatos, a fazer parcerias. Tinha uma loja de um amigo meu... Aí eu já tinha contato com uma galera, comecei a pedir apoio de lojistas de marcas de skate e começamos a fazer os campeonatos. Fizemos em dois anos seguidos sem a ajuda de ninguém, somente dos amigos. Tinha um amigo meu que é juiz, que é skatista, e convidaram ele pra ser juiz, sempre como voluntário: "A gente tem um projeto de voluntariado e eu queria que você fosse juíz, julgasse as categorias de iniciantes, mirim, infantil". E vamos tocar! Tinha uma premiação de primeiro, segundo e terceiro lugar e convidava os apoiadores e incentivadores que não são patrocinadores - a gente nunca teve patrocínio - a ir ao evento e ver que a gente estava se mobilizando, que o material que ele cedeu, a gente estava utilizando no evento. Isso até 17 de março de 2007, a última etapa do circuito do meu projeto, que se intitulou Briza porque o nome da escola é CIEP Mário Tamborindeguy, que é um Brizolão. Como a gente fazia os eventos e colocava no cartaz CIEP 339 Mário Tamborindeguy - Brizolão de Irajá para as pessoas saberem onde era. A diretora na época, mesmo a escola não funcionando no sábado, falava: "Cara, eu vi um cartaz na rua, no poste, perto da minha casa, escrito CIEP 339 Mário Tamborindeguy - Brizolão de Irajá! É muito feio isso, é pejorativo". Porque o Brizolão, na época, era depredado, tinha matagal, era excluído da sociedade. Quem passava no Brizolão via como "ali só tem maconheiro, ali tem desmanche de carro" porque era feio. Mas era feio porque a própria sociedade do bairro, ela não acolhia aquele espaço e o skate acolheu. Nesse dia que a gente fez o evento, a gente limpou porque a gente ia receber amigos nossos. Então a gente imagina que a nossa casa tem de estar limpa, então: “Gente, vai fazer um evento, está até na repercussão - que foi a última etapa no dia 17 de março -, vai vir gente do Rio de Janeiro inteiro”. Porque, na época, não tinha campeonato de skate, fazia seis meses que não tinha evento nenhum de skate. O Rio de Janeiro todo estava me bombardeando: “Charles, vai ter evento aí no Irajá? Eu vou levar minha galera, estou com escolinha aqui". Eu falei: "Cara, a parada está crescendo, vamos recepcionar os nossos amigos". Aí o que é que aconteceu? A gente pediu à escola a tinta, disse: "Mesmo o projeto tendo acabado, a gente quer continuar e a gente precisa da ajuda de vocês. A gente quer limpar a escola. A gente quer chamar uns amigos nossos que são grafiteiros, alguns amigos nossos que são artistas plásticos". Na época eu já desenvolvia algum trabalho de arte com o meu pessoal. Só que eu não tinha um local pra expor, eu disse: "Eu vou expor nesse evento de skate, vou fazer um evento de skate, arte e integração com o nosso bairro". Convidei a comunidade, os pais dos participantes do projeto. Esse evento meio que deu umas 250 pessoas. A gente se organizou, fez camisetas, fez uma equipe de ajuda, de staff, né? Um amigo nosso era DJ e colocou mesa de som, fizemos o evento acontecer. 



P/1 - Você acha que foi esse evento que fez o grupo fechar, fez o grupo unir de verdade com um marco na organização? 



R – Foi. Dezessete de março de 2007 foi o dia que a gente viu que uma iniciativa, independentemente de patrocínio, ela tem que ser iniciada. Se você não iniciar, ninguém vai iniciar por você. Então, assim, não vou dizer que foi aos trancos e barrancos porque não foi. Foi simplesmente uma iniciativa que qualquer um poderia fazer. Tem gente que me vê lá no Rio e fala assim: "O Charles Frajola é o cara do Rio de Janeiro do skate", mas, na verdade, eu sou uma simples pessoa que ando todo sábado do lado da minha casa. Só que eu ando dentro do espaço que foi a minha escola, foi onde que eu encontrei um espaço para a prática do esporte, que na época era o futebol e o basquete. Conheci o skate e eu não queria ver a minha casa suja, pichada, com matagal. A gente fez esse evento pra isso, pra mudar a cara do bairro e para quando a minha tia, a minha mãe ou algum amigo meu não dizer: "Não passa por aí, cara, porque aí é desmanche de carro, só tem maconheiro e ladrão e é perto de uma favela". Existia toda uma bolha ali, ninguém passava ali porque achava aquele espaço horrível, né? 



P/1 - Como está hoje? 



R - Então, a partir de 17 de março de 2007 a escola foi no evento e viu que a gente se mobilizou: foi a mídia de skate, foi a mídia de TV a cabo cobrir o evento porque não tinha evento de skate e foram cobrir. Viram que existe um pontinho do mapa do Rio de Janeiro que acontece alguma coisa, não um dia. A gente já tinha um trabalho de quatro anos sem patrocínio, só com o apoio da escola, da Unesco e do Governo e que abriu o espaço de uma quadra. A gente faz tudo em uma quadra! A gente fez um evento de arte, convidamos artistas plásticos, grafiteiros. O evento foi um dos maiores eventos de repercussão até hoje no Rio de Janeiro, devido ser a Zona Norte, ser um espaço, ser um Brizolão que se tornou um Briza. No meio da semana desse evento, dia 22, a diretora da escola me ligou. A gente estava de férias, mês de março, carnaval, que eu me recorde pós-carnaval. Ela me fez um convite porque o governo do estado tinha retornado o projeto com outro nome chamado 'Escola Aberta', com a mesma filosofia de sábado com prática de esporte, cultura e lazer pra comunidade e pra a escola, que é uma escola de ensino médio, ou seja, vai atingir jovens de 15 a 20 anos que estão no ensino médio. Como eu já era ex-aluno, ela me convidou novamente porque uma das filosofias do CIEP é trazer o ex-aluno pra escola pra colocar que esse cara fez algum movimento e para ele ir pra escola. Então a escola acolhe o ex-aluno pra isso. Aí dia 24 de março de 2007, a gente lançou o nosso projeto piloto Briza Teen, que é o espaço pro jovem praticar o skate e desenvolver outras vertentes do nosso projeto. A gente criou um projeto que foi aprovado: a Unesco aprovou, a escola aprovou e a gente ganhou autonomia pra utilizar o espaço com o nosso nome e não mais com o nome do CIEP. O projeto começou com 15 pessoas, todos praticantes do skate: alguns grafiteiros e skatistas, alguns estudantes de desenho industrial e skatistas, alguns jornalistas e skatistas, todos skatistas, mas estudantes e artistas de designer. A gente começou a ver que tínhamos capacidade e começamos a montar uma vertente maior desse projeto que é o Briza. Tem o Brisa Skateboard Arte e as vertentes oriundas: Briza Skateboard, Briza Arte, tem a Briza TV - nossa mídia, nosso canal de comunicação e de relacionamento -, o Briza Teen prática de esporte, a parte aberta do skate, não é escolinha, é instrução. Quem não sabe nada, a gente passa o básico e ele vai crescendo dentro do nosso movimento. Porque são cinco skatistas andando: esse não sabe andar, esse tá andando, esse está andando, mas tem alguém parado. Esse que não está parado ensina ao que está começando. Então, assim, imagina hoje todos os sábados são 50, 50 skatistas andando por esse espaço. Sempre tem um ou dois que estão indo pela primeira vez. Desses 50 que estão andando, sempre tem um que vai dar um toque, vai se aproximar: "Oi, tudo bem? Você é de onde?" Normalmente, quando a gente convida alguém pra ir no Briza andar de skate com a gente, a gente está em Niterói, a gente está em Volta Redonda em um evento, a gente está na praia andando de skate. Eu estou indo pra faculdade, andando de skate, e alguém pergunta: "Cara, tu anda de skate? Meu sobrinho anda! Comprou um skatezinho, tu sabe de alguma escolinha?"; eu respondo: "Não é uma escolinha, mas tem um projeto todo sábado, você pode ir lá". Aí o cara vem; quando eu estou ausente, o papel de todo mundo é o mesmo: se vir que uma pessoa é nova, recepcionar "oi, tudo bem, pode sentar ali na quadra, tal hora tem o nosso lanche, tal hora termina, sete horas termina porque escurece e aqui é um lugar perigoso". O Rio de Janeiro é perigoso em qualquer local e mais ali porque tem uma comunidade próximo e é uma rua sem saída. Então a gente tem a nossa política, a nossa filosofia. A gente tem todo um projeto que é um movimento que a gente mesmo criou. A gente tem as nossas vertentes, a gente tem o nosso projeto e é uma coisa hiper fácil de fazer, qualquer pessoa faz.  



P/1 - Que bacana, cara. Eu acho que deu, você contou bastante. É o suficiente já. 



R - É? Tem mais coisa, mas infelizmente... 



P/1 - É limitado por tempo até, estouramos aí... 



R - Beleza. É porque eu não falei de patrocinador porque a gente chegou numa fase agora - ano passado - que a gente pegou projeto de arte e começou a fazer exposições no aeroporto internacional, Sesc. Fizemos uma exposição no Deborah Colker, fizemos vários eventos dentro do projeto. Lá mesmo no evento de skate, a gente sempre faz. A gente chegou a ir até a PUC – Rio [Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro], a gente está incubado desde 2007, quando começou esse projeto. Fomos pré-incubados há seis meses e tem dois meses que a gente ganhou um edital de patrocínio da Nike. Por esse motivo eu estou aqui, fui convidado a participar desse processo de conhecimento, trocar ideia nesse lado que a gente que é o esporte pela mudança social. A gente sem patrocínio a gente conseguiu levantar 12 bairros, que é o Grande Irajá, mobilizar todo sábado há sete anos o skate, que é a cena mais forte lá. A gente atinge hoje 60 jovens para a prática do skate, da arte e do audiovisual. E a gente já tem 250 jovens da comunidade no Orkut, no Flicker, no Twitter, que praticam skate sem compromisso, só por lazer, mas que levam a outros patamares que é ver que o skatista é... "Pô, Charles é designer gráfico, olha o projeto que ele fez; o Wagner é designer do Circo Voador e acabou de fazer um projeto pra Nike; o Marcelo Smurf é um grafiteiro de ponta e foi chamado pra um festival internacional de grafite em Minas Gerais; o Zinho é um ilustrador, fez uma estampa pra marca de skate que eu mais gosto", então eles começam a relacionar: "Se eles podem, eu também posso". Basicamente isso, coisa simples. 



P/1 - Bacana, cara. 



R - A gente está lá todo sábado, eu faço o convite: se tiver no Rio, bairro do Irajá. É só ir lá no Google, Briza Skateboard, tem os nossos contatos, as nossas mídias. Pode me ligar a hora que quiser: "Tô aqui no Rio, posso ir aí visitar?", se a gente não tiver em campeonato ou evento, a gente tá lá. E quando a gente não está lá, tem alguém por lá. 



P/1 - Bacana, Charles. 



R - Foi? 



P/1 - Foi. 



R - Demorô!



-- FINAL DA ENTREVISTA --

 

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