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Se Brasília tem uma mãe, a mãe de Brasília é Fercal

História de: Salvio Humberto Safe de Matos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/10/2015

Sinopse

Salvio Humberto Safe de Matos nasceu em Patos de Minas/MG em 1953. Aos oito anos mudou-se com a mãe e os sete irmãos para Taguatinga Sul, o pai veio dois anos depois. Formado em Geologia foi parar na Fercal em 1989, onde montou sua primeira pedreira. Foi acolhido pela comunidade com a qual tem uma relação de muito afeto. Recebeu o título de cidadão honorário e diversas medalhas por trabalhos prestados à comunidade. Ajudou a construir os centros comunitários, foi presidente da Associação e acompanhou todo o desenvolvimento da região. 

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História completa

Eu nasci em Patos de Minas, Minas Gerais, 19 de setembro de 1953. Meu pai se chamava Diomar de Matos e minha mãe Rashid Safe de Matos. Meu pai era advogado e minha mãe sempre foi professora. De Patos de Minas, eu vim pra cá com 8 pra 9 anos. Minha infância foi uma infância muito rural. Quando nós viemos pra cá foi uma vida totalmente diferente, a gente mudou pra Brasília, era uma agitação enorme, uma poeira vermelha, uma coisa incrível. Meus pais vieram pra a inauguração de Brasília, minha mãe se encantou pela cidade. Ela voltou pra Patos dizendo que queria morar em Brasília. Meu pai não queria em hipótese alguma. Minha mãe deixou essa filharada toda em Patos, veio pra Brasília de ônibus, fez um concurso pra professora primária e foi classificada em primeiro lugar. Então ela falou: “Eu vou”. Meu pai disse: “Não tenho condição, eu não vou largar a minha vida aqui”. Minha mãe botou os filhos todos no baú e veio pra Brasília, morar lá em Taguatinga Sul. Antigamente ninguém morava em Taguatinga Sul, aquilo lá era Vila Dimas. Meu pai demorou dois anos pra vir. Eu sou de uma família muito grande, eu tenho sete irmãos. Com 10 anos de idade, eu vim conhecer a Fercal com um vizinho.

  Eu saía de Taguatinga eram cinco horas da manhã, assistia à aula, que ia de sete e meia até meio-dia, ia chegar em casa duas e meia da tarde. Brincadeira daqui de Brasília era bets, pipa e futebol. No ano seguinte, nós já mudamos pra W3 Sul, fui estudar pertinho de casa. Quando eu era adolescente, Brasília era um lugar assim fantástico. Eu morava numa quadra, e as quadras tinham as casas geminadas. Então ali se criava um clima de amizade que até hoje as pessoas são extremamente amigas. Quando comecei a namorar a mãe dos meus filhos, eu tinha 14 anos. Era minha vizinha, os pais são amigos dos meus pais, casei com 22 anos, tivemos dois filhos.

  Desde criança eu adoro pedra. Sempre gostei de colecionar pedra, brincar com rochas. A minha mãe diz que a paixão do meu avô era garimpo. E isso é verdade, porque eu tenho até fotos antiquíssimas dele secando rios, na época podia (não tinha Ibama) pra tirar o diamante no fundo do rio. Então talvez venha dessa genética lá do meu avô. Eu fiz vestibular pra Geologia, me formei em 1976. Comecei a trabalhar como geólogo, tinha tanta opção de emprego, porque Geologia era um curso relativamente novo, a gente vivia uma época no Brasil das grandes pesquisas minerais. Eu nunca fiz nada que não fosse ligado à mineração. E depois que eu deixei de ser funcionário, tive marmoraria, pedreira, sempre trabalhei com prospecção mineral.

  Naquela época, em 1976, não existiam mapas, então a gente ia criar os mapas geológicos das regiões, principalmente do Tocantins, eu que mapeei, Projeto Natividade. E era um trabalho que você ia para o campo e em cima das fotografias aéreas você construía os mapas geológicos, que deram origem ao arcabouço da geologia do Brasil.

  Em 81 eu vim trabalhar no Departamento Nacional da Produção Mineral (DNPM), vim ser chefe de um projeto chamado Projeto Ouro, foi naquela época do boom do ouro no Brasil, Serra Pelada, Cumaru... Foram três anos de Amazônia. Procuramos levar o mínimo de condição de trabalho para aquelas regiões.

  Eu acabei na Fercal por causa de um garimpo. Quando eu saí do DNPM, eu abri uma empresa de prestação de serviço... Depois, resolvi montar um garimpo no Rio Santo Antônio, muito bem organizado. Era uma área toda recuperável. Só que houve uma enchente muito grande na Bahia em 86, inundou todo o meu garimpo, eu perdi absolutamente tudo.

  Mendes Júnior e Engeservice, depois Conservice, eram grandes empresas na época. E eu passei a dar consultoria pra eles na área de mineração nos anos de 87 e 88. Em 1989 o doutor José Mendes resolveu sair da Mendes Júnior, eu era muito ligado a ele e tal, e ele falou: “O que você quer fazer na vida?”. Eu falei: “Rapaz, eu gostaria de montar uma pedreira em Brasília”. “Então você tem a área?” “Tenho a área pra montar.” “Eu entro de sócio seu nesse empreendimento.” Aí ele me deu o dinheiro pra comprar a antiga Fazenda Cachoeira. Foi assim que eu vim parar na Fercal, em 1989, comecei a montar a pedreira, que viria efetivamente a funcionar em outubro de 1990.

  Quando eu vim pra cá, eu tinha que trabalhar muito, e comecei a trabalhar com pessoas da Fercal. Naquela época Fercal era muito pequena, e o que acontecia? Você está aqui, o seu funcionário te chama pra ir pra casa dele, te chama pra ir lá lanchar, chama pra ajudar na laje. Eu era novo, gostava, aí fui me apegando. A Fercal era um lugar muito diferente, porque era uma vila dentro de uma cidade grande, então todo mundo muito amigo. Aí a gente foi se empolgando e aprendendo um pouquinho da história da Fercal e das comunidades, e ficando amigo de todo mundo, ajudando a construir o centro comunitário nas várias comunidades. Eu vivia e morava na Fercal. Eu me separei no final de 89, exatamente quando eu montei a pedreira. Agora eu tenho dez anos de casado [com minha segunda esposa] e uma filha adotiva do meu atual casamento, filha da minha esposa.

  Quando eu vim pra cá, eu tive uma acolhida fantástica. Era uma comunidade carente, que tinha, na verdade, uma série de pessoas que brigavam por ela, mas todo mundo muito esparso. Nós resolvemos fazer uma associação das associações comunitárias. Eles fizeram essa Associação e me elegeram presidente. Então eu fiquei três anos. O que nós fizemos? A gente resolveu, pra ter força, juntar. Formamos como Comissão Pró-Melhoramento da Fercal. A gente fazia uma lista das demandas e ia correr atrás. Aí foi criada a primeira gerência da Fercal e nós optamos por extinguir a Comissão Pró-Melhoramentos.

  Não tinha festa na Fercal pra reunir menos que 400 pessoas. E a inauguração dessa estrada aqui, nossa!, a fila de caminhões tinha três quilômetros de comprimento. Fizemos churrasco no Queima Lençol pra 500 pessoas. Era muito bacana. Eu falo assim de coração: eu adoro a Fercal, a Fercal me deu muito mais do que eu dei pra Fercal. Foi extremamente marcante receber um título de cidadão honorário, afinal de contas virei cidadão da cidade que eu adoro por decreto. Eu acho que todas as medalhas que se pode dar em Brasília: da Polícia Civil, dos Bombeiros, do DR, da Ordem do Mérito de Brasília, da Comenda do Mérito de Brasília, a Dom Pedro II, eu ganhei, e todas elas partiram de indicações por trabalhos prestados à comunidade. O título que eu realmente gosto é o título de cidadão fercalense. Esse aí é o que realmente me faz muito bem. Grande parte da Fercal continua muito próxima a mim, eu me sinto muito bem com isso, continua sendo a Pedreiras Contagem uma porta aberta pra qualquer pessoa que venha.

  Existe aqui um ditado: “Quem bebe a água salobra da Fercal, da Fercal não se esquece”. Entendeu? É a única área de Brasília com morros, com montanhas, com ciclismo, com cachoeiras, com empresas, com cavernas, grutas. Se Brasília tem uma mãe, a mãe de Brasília é Fercal, porque da Fercal saiu toda a matéria-prima da qual Brasília foi construída. Das montanhas da Fercal que se construiu Brasília. Não tem nenhum pedaço de Brasília que não tenha uma parte de trabalho de um morador da Fercal. 

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