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História

“Se a pessoa não acreditar nela mesma, quem vai acreditar?”

História de: Magali Aparecida Peccinati de Sousa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/03/2022

Sinopse

Pai motorista de caminhão. Relações familiares. Infância e viagens dentro do caminhão de seu pai. Período escolar. Namoro aos 13 anos com o atual marido. Trabalho com sua mãe vendendo lanches no Terminal de Santo Amaro. Trabalhos realizados durante a vida. Mudança de carreira e realização de um sonho de infância: tornar-se motorista de caminhão. Primeira viagem a trabalho. Desafios e aprendizados na vida da entrada. Maternidade. Rotina. Pandemia. Sonhos.

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História completa

P/1 – Magali, quero te agradecer demais por tá aqui com a gente e queria que você começasse se apresentando, dizendo seu nome completo, data e local de nascimento.



R – Meu nome é Magali Aparecida Peccinati de Sousa, nasci em São Paulo, a data do meu nascimento é dia 21/04/1980.



P/1 – E quais os nomes dos seus pais?



R – O nome do meu pai é José Peccinati, o nome da minha mãe é Natalina Parreira Peccinati.



P/1 – E o que eles faziam ou faziam?



R – O meu pai era motorista, era motorista de caminhão e depois foi para ônibus, e depois voltou para caminhão de novo. A minha mãe era diarista, depois ela virou… vendia lanches no terminal Largo Treze em Santo Amaro e por fim agora ela é dona de casa. 



P/1 – E como você descreveria eles, o jeitinho?



R – O jeitinho dos meus pais? São pessoas que correm atrás dos sonhos, batalhadoras! 



P/1 – E como é essa relação com eles?



R – A minha relação com os meus pais sempre foi ótima! Infelizmente hoje já não tenho mais o meu pai, mas a minha mãe é Deus no céu e minha mãe na terra.



P/1 – E Magali você tem irmãos?



R – Eu tenho, eu tenho mais três irmãs e um irmão.



P/1 – E onde você tá nessa escala, você é a mais nova, a mais velha, a do meio?



R – Na verdade essa escala é assim, eu tinha mais quatro, eram dois homens e quatro mulheres, aí um irmão meu faleceu, aí eu sou a mais velha agora.



P/1 – E como é essa relação com eles?



R – Ah, é muito boa minha relação com meus irmãos, somos uma família Graças a Deus muito unida, a minha mãe e o meu pai sempre ensinaram a gente a ser unidos, um amar o outro, um respeitar o outro, um tá junto com o outro sempre que um precisar, todo mundo se ajuda, vai e ajuda, é assim.



P/1 – E você se lembra de alguma história, algum dia que foi muito gostoso pra você com a sua família toda?



R– Ah, sempre que a gente tá junto é muito bom, é muito divertido. A gente faz churrasco, a gente se junta e faz hamburgada, comprar aquele monte de pão, monte de… vai lá no mercado comprar caixa de hambúrguer fechado, quatro cinco pés de alface pra fazer aqueles xis salada e como somos só nós aqui em Sorocaba e…. tudo para nós acaba virando festa.



P/1 – E você conheceu os seus avós?



R – Os meus avós eu não conheci da parte do meu pai não.



P/1 – E da parte da sua mãe, conheceu?



R – Da parte da minha mãe conheci.



P/1 – E você lembra alguma coisa deles, sabe de alguma história deles?



R – Olha, da parte do meu pai eu escutei muita história, minha avó veio da Itália, meu avô também, aqui eles começaram a vida, é… na verdade a minha bisavó veio da Itália com meu avô pequeno, aí eles se casaram aqui, a minha vó Magali com meu avô Antônio - que é a parte do meu pai - e eles compraram… eles mexiam com pera, caminhão, essas coisas. Teve um sítio em Piedade, mas aí infelizmente eles acabaram cada um seguindo um caminho e o meu avô deu o meu pai e um tio pra minha pra minha tia criar, aí a minha tia criou o meu pai e o meu tio, que eles moraram ali muitos anos no Jardim Jaqueline, no Taboão. E aí cada um foi seguindo a sua vida, meu pai desde novinho é caminhoneiro, puxava areia, puxava areia a vida dele era caminhão. Aí ele conheceu a minha mãe, os dois se casaram e daí por diante veio só nós (risos).



P/1 – E a história da sua mãe, você sabe alguma coisa? 



R – Olha, da parte da minha mãe os meus avós são Mineiros, são da Cidade de Ouro Fino, a minha avó herdou uma certa herança do pai, mas o meu avô como não tinha muito juízo, gastou todo o dinheiro indo de táxi de São Paulo para Minas, acabou tudo em nada. A minha vó sempre foi uma… trabalharam em olaria e minha vó sempre lavou roupa pra fora, fazia faxina essas coisas, e minha avó criou os filhos assim e por ele ter gastado o dinheiro atoa ele vivia depois limpando terreno essas coisas assim e também os filhos foram crescendo, foram trabalhando e ajudando, mas minha avó nunca teve uma casa própria por esse motivo e no final da vida dela ela veio morar com nós, porque meu avô já tinha falecido também.


P/1 – E na infância, ainda novinha?



R – Não entendi, desculpe.



P/1 – Na infância, ainda novinha, você se lembra de alguma história, alguma memória com os seus avós?



R – A minha avó cuidava mais, da parte da minha mãe, porque da parte do meu pai era minha tia, a parte da minha vó, minha vó corria atrás da gente com vara (risos) vara de goiaba, queria pegar a gente, mas minha avó cuidou da gente muito tempo pra minha mãe e meu pai trabalharem. Mas também tinha aquelas latas de gordura, sabe aquelas latas grandes de gordura? Aí ela pegava polvilho, aqueles polvilho grandão assim, a gente comia e tomava café na casa dela, aí ela enrolava o dinheiro num pedacinho de pão, tirava e dava pra nós, levava também suspiro pra nós, era muito…a minha infância foi muito legal, foi muito legal e…ela, a gente ia sair com ela, ela levava a gente pra igreja, mas pra ir ela falava: “Vocês querem ir de ônibus ou querem ir a pé?”, se a gente falasse que queria ir a pé aí nós íamos a pé, mas andava viu, pense como andava, depois voltava, nós voltamos de ônibus, e se fosse de ônibus nós voltávamos a pé depois. 



P/1 – E com os seus irmãos o que você lembra? Quais são as histórias de infância que vocês aprontaram?



R – Nossa! Tem certeza que você quer saber essa parte? (risos)


P/1 – Se você quiser contar alguma coisa.



R – Eu vou contar pra você. A gente… minha mãe e meu pai saiam pra trabalhar, aí o motivo da minha vó correr atrás da gente com vara, a gente pulava o muro pra ir pra rua, aí a gente soltava pipa mas subia em cima da lage, que não era lage, era telhado de barro, nossa a minha vó ficava de cabelo branco, ficava de cabelo em pé “assim ó”. A gente andava de carrinho de rolimã, depois vinha com os dedos tudo estourados.



P/1 – E Magali você sabe a história do seu nascimento, a escolha do seu nome?



R – Eu sei um pouco, o meu nome veio por causa da minha vó por parte do meu pai, eu nasci em um hospital chamado Amparo Maternal, que é ai se eu não me engano na 23 de Maio em São Paulo, é um hospital de mãe solteira. E quando eu nasci os médicos perguntaram pra minha mãe: “Você não quer dar ela?” Aí minha mãe: “Não!” Aí é um pouco que eu sei. Tive um pouco de problema de saúde, bronquite asmática, sou uma pessoa que tem alergia até em pensamento (risos) mas graças a Deus do resto tudo ótimo.



P/1 – E seu nome é uma homenagem pra sua avó, é isso?



R – É eu creio que sim.



P/1 – E me conta, como era sua casa de infância?



R – A gente morou muito de aluguel e minha mãe e meu pai sempre correram atrás para dar uma casa pra gente, então a gente ficava um ano, dois anos, três anos em um lugar muitas das vezes é…não tinha quase nem móveis, porque compra móveis, monta num lugar, depois desmonta, depois você vai ver não presta mais, mas a minha mãe e meu pai sempre correram muito atrás, mais a minha mãe, porque meu pai tinha um problema com álcool, trabalhador ele sempre foi, mas quando ele bebia ele ficava violento, aí acabava quebrando as coisas de dentro de casa também.



P/1 – E quando você era pequena, você pensava o que você queria ser quando crescesse?



R – Desde nova eu quero dirigir caminhão, quero dirigir caminhão. Meu pai sempre trabalhou com isso e como ele puxava areia e pedra, eram aqueles tocos e podia levar embora pra casa, então sempre tinha um caminhão na porta de casa. Aquilo ali pra mim era como se fosse uma nave espacial. Aquela magia assim, você entrar dentro do caminhão, poder apertar o coiso de ar, e os caminhões de antigamente não eram tão modernos como os de hoje, hoje tem um monte de botão, praticamente o caminhão fala sozinho com você, mas era coisa de outro mundo, buzinar, quando eles trocavam de volante, dava os volantes velhos pra gente, a gente colocava uns cabos de vassoura pra ficar brincando, falava que era ônibus, que era caminhão. Então desde pequena eu falava que ia ser caminhoneira.



P/1 – E você lembra de algum dia com seu pai no caminhão?



R – Várias vezes, eu fui fazer uma viagem aí de uns anos, antes do meu pai falecer, ele tinha realizado o sonho dele que era comprar um caminhão, e ele comprou uma carreta e aí ele puxava areia de Jacareí, e aí o que acontece é…tinha que arrumar areia em cima pra poder colocar a lona e ele caiu de cima da carreta, ele tinha muita falta de ar por causa que ele tinha bronquite asmática que acabou virando enfisema pulmonar, e aí ele caiu a gente tava no porto, tava indo ele e minha mãe aí ele começou a passar muito mal e aí como que ia sair correndo de lá, aí eu falei: “Vamos desengatar a carreta e eu toco o cavalinho”, aí minha mãe falou: “Se tá doida! Você não tem carta, não pode dirigir” Aí meu pai falou: “Vai ficando calma, vai ficando calma, vai ficando calma”, aí ele foi melhorando, melhorando, depois mais ou menos de quarenta minutos, uma hora a gente conseguiu sair de lá.



P/1 – E você dirigiu esse dia?



R – Não, ele foi se acalmando, foi melhorando, foi voltando aí ele conseguiu, mas meu pai só me dava o caminhão ou ônibus quando minha mãe não tava junto, porque minha mãe xingava.



P/1 – E você lembra do primeiro dia que você dirigiu com ele?



R – A primeira vez que eu dirigi com ele foi um carro, eu falei pra ele, tava parado assim e minha mãe vendia…tava numa rua em cima onde ficava o carro, e minha mãe vendia lanche na rua de baixo, tinha que dar a volta no quarteirão aí eu tava olhando, tava olhando, aí eu falava assim: “Isso aí é fácil de fazer, ah não! Eu vou ter que, vou ter que…” e ficava pensando comigo. Aí nesse dia eu falei pra ele assim: “Ó pai”... fui chamar ele e ele: “Que foi?” Falei: “Pai, deixa eu levar o carro?” Aí ele começou a ficar bravo: “Eita, mas você enche a paciência” Que não sei o que! Sabe assim, descendente de Italiano, fala muito palavrão essas coisas, aí eu falei pra ele: “Ai pai deixa! Larga de ser ruim”. Aí ele falou: "Tá bom, mas se você deixar morrer, nunca mais você pega!” Eu falei: “Tá bom!” Fui e fiz certinho, certinho, nunca tinha pegado, só que na hora de parar morreu, aí ele falou: “Não falei?!” Aí eu falei assim pra ele: “Aqui não era pra parar?”



P/1 – E você continuou dirigindo com ele?



R – Aí pra lá não parei mais, não parei mais.



P/1 – E a primeira lembrança da escola?



R – Escola. Primeira lembrança que eu tenho foi quando eu ia com meu irmão mais velho, que hoje ele é falecido, que a gente estudou ali num bairro em São Paulo chamado Campo de Fora. A primeira lembrança que eu tenho assim é que minha mãe comprou um conjunto Adidas, aquele bonezinho é… agora eu não vou lembrar o nome da marca, mas é como se fosse kichute. E a gente todo arrumadinho, cabelo penteado parecendo que a vaca lambeu, tudo perfumadinho, tudo bonitinho. A gente não tinha muitas condições financeiras, a minha mãe fez uma bolsa de calça jeans, pra nós, a calça, cortou a calça, dobrou, fecha do lado, fez uma alça e pregou o botão, pra nós, mas ficou ó, show de bola. E essa é a lembrança que eu tenho da escola, da gente… a gente também fazia fila no pátio, cantava o Hino Nacional, não era a bagunça que tem hoje. Nossa! Ficava vendo a bandeira subir e a gente cantando o Hino Nacional em formação, essa é a lembrança que eu tenho da escola.



P/1 – E você lembra de algum professor que tenha te marcado?


R – Tem uma professora, ela foi muito gente boa, na verdade são duas, uma é a professora Márcia e a outra o nome dela é professora Érica, são duas professoras muito atenciosas, muito amorosas.



P/1 – E você estudava com os seus irmãos, vocês iam todos pra escola juntos?



R – Eu cheguei a estudar com meu irmão mais velho, o Robson, e cheguei a estudar com a minha irmã Ana Paula, só os dois.



P/1 – E tem lembranças dessa época assim, algum dia na escola, algum amigo?



R – Com a minha irmã Ana Paula é…a gente matava aula (risos), a gente matava aula pra ficar brincando com papel de carta, batendo papo e com meu irmão, o Robson que faleceu. A gente ficava cansado de levantar cedo e também não ia pra escola, essa é a lembrança que eu tenho assim de escola deles.



P/1 – E você ficou nessa escola até quantos anos?



R – Nessa escola eu não vou lembrar o tempo exato.



P/1 – Mas depois você mudou?


R – Depois eu mudei, aí eu mudei para outro bairro e… aí logo eu já também me amiguei, aí eu parei de estudar.



P/1 – Como foi esse período pra você?



R – Pra mim tudo era novo, as meninas da minha idade tudo estudando e eu fui e me casei, então pra mim era outra responsabilidade, outra… outras coisas. Aí em vez de ir pra escola eu levava os meus irmãos pra escola (risos).



P/1 – Magali, você casou com quantos anos? 



R – Eu me amiguei com treze anos.



P/1 – E como você conheceu ele?



R – Jogando bola na rua.



P/1 – Como foi esse começo de namoro?



R – A gente começou a se conhecer… a gente estava jogando vôlei, futebol na rua e ele mudou pra frente de casa e aí amizade vai, amizade vem e… a gente acabou, eu apresentei ele pra minha prima, ele namorou um tempo com a minha prima, mas aí ele não quis ficar com a minha prima e começou a investir, a amizade começou a ficar colorida demais, aí eu acabei namorando com ele, mas foi uma coisa muito rápida, porque coisa de três meses ele… nós já estávamos amigados.



P/1 – Ele é seu marido até hoje?



R – Até hoje.



P/1 – E vocês foram morar juntos?



R – Sim.



P/1 – E como foi esse período de mudança de casa, tendo mais responsabilidade?



R – Então, eu não mudei de casa. Como a minha mãe e meu pai já tinham conseguido comprar uma casa e era uma casa muito boa, era uma casa com dezesseis cômodos (risos), aí a casa tinha quatro lajes, aí tinha uma casa embaixo com quatro cômodos, aí eu fui morar lá. Aí minha mãe mobiliou a casa inteira e com a ajuda dele e tudo, aí a gente começou a morar lá.



P/1 – E como foi esse início de juventude, você logo começou a trabalhar ou esperou um pouco? O que você gostava de fazer, como você se divertia? 



R – Olha, pra mim praticamente nada mudou, porque eu não deixei de ser eu mesma. Eu ia com a minha mãe de madrugada vender lanches, minha mãe vendia no Terminal Santo Amaro, ali no Largo Treze, eu ia e saia de madrugada com ela, trabalhava com ela, aí minha mãe teve uma ideia de eu ter um dinheirinho a mais, comprar bala, chiclete, essas coisas, chocolate para vender e… pra mim não mudou nada, a única coisa que mudou é que aí eu tinha que cozinhar, aí eu fui aprender a fazer comida. Aí é outra paixão, é outra paixão, é outra coisa que me dá um incentivo, uma…uma energia a mais é cozinhar.



P/1 – E como era acompanhar sua mãe no trabalho?



R – Ah, acompanhar minha mãe no trabalho é uma motivação. É ver as pessoas olhar pra ela, admirar, as pessoas elogiarem, aí você fala assim: “Ó, tá vendo aquela mulher ali? Aquela mulher ali é minha mãe, minha guerreira, sabe aquela ali ó, quando eu crescer eu quero ser igual”.



P/1 – Magali, e cozinhar? Como foi começar a aprender a cozinhar? O que te encanta na cozinha?



R – Olha, tudo na minha vida, tudo pra mim, pra minha pessoa, é tudo desafio. Não existe a palavra “não dá”, desistir, jamais. Eu fui fazer um macarrão e me rendeu 32 pontos (risos). Porque eu rompi o tendão da mão, ó (risos). Tive que fazer uma cirurgia, mas foi um cortinho pequeno, porém chegou a pegar o tendão.



P/1 – Como foi essa história?



R – Eu fui cortar a cebola para fazer o molho, porque eu via minha mãe fazendo, eu falei assim: “Então é fácil”, conforme eu fui colocar, peguei a ponta da faca e bateu “Puh”. Coloquei um pouquinho embaixo d'água pra parar o sangue, mas é normal, depois de uma semana a mão não mexia, inchou aqui ó, porque rompeu o tendão. Aí eu fui ao médico, cheguei no médico, ele fez… tirou chapa, fez ultrassom, aí viu que o tendão estava rompido. Aí no hospital público, sabe como é né? As coisas demoradas, aí um amigo, do amigo, do amigo arrumou uma carta para eu operar no Hospital São Paulo, mas isso aqui me rendeu oito meses com a mão paralisada, mas não desisti não (risos).



P/1 – Quantos anos você tinha?



R – Ah, eu tava quase com quatorze anos já.



P/1 – E mesmo assim você não parou de cozinhar?



R – Não, uma das minhas profissões é cozinheira.


P/1 – E me conta, como seguiu a sua vida, como você foi crescendo e começando a trabalhar, como foi? 



R – Então, eu continuei trabalhando, mas sempre com a ídeia de que uma dia eu ia trabalhar de caminhoneira. E aí eu ingressei na cozinha, ai… ih, eu já entreguei panfleto no farol, já trabalhei em lava rápido até chegar numa cozinha grande. É, na verdade, quando eu tive meu primeiro filho, que é vivo hoje, porque com quatorze anos eu tive uma gravidez, eu perdi, eu estava com seis meses de gravidez e eu perdi, eram gêmeos, com dezesseis anos eu perdi outra gravidez de gêmeos também, de seis meses também, aí eu falei: “Ah, acho que esse negócio de ter filho não é comigo não”, aí sempre trabalhando, sempre arrumando alguma coisa pra fazer, ou comprava saco de cebola e fazia os pãezinhos e ficava na praça vendendo, sempre dando um jeito, com a minha mãe. Aí com dezenove anos eu engravidei de novo, eu engravidei do meu filho Daniel, que no mês que vem agora faz 22 anos, é… depois que eu tive ele, 45 dias depois eu fui trabalhar em um restaurante como ajudante de cozinha, em Sorocaba, aí eu trabalhei quase três anos nesse restaurante. Depois desse restaurante eu fui para um empresa chamada… que é cozinha industrial também, aí no caso já é cozinha industrial, ai… eu não vou lembrar o nome da cozinha agora, mas trabalhei um tempo também, depois fiquei só pulando em cozinha. Ai eu fui pra Sodexo, fui pra GR, são as duas cozinhas “tops” em termos de cozinha industrial. Trabalhei em restaurante popular que eles falam, aí trabalhei também numa fábrica de tampinha, dessas tampinha de shampoo, arrebentou tudo a mão, mas trabalhei, trabalhei também com panfletagem no farol, aí eu trabalhei com venda de internet, conferente, e trabalhei de empilhadeirista na Toyota aqui em Sorocaba um ano e meio, trabalhei também de ajudante de pedreiro, e aí no caso estava eu e meu marido, aprendi a rebocar, assentar piso, assentamento de tijolo e agora antes de entrar aqui eu tava trabalhando como promotora de hortaliças.


P/1 – E Magali, esse tempo de cozinha tem alguma história marcante de algum dia que tenha sido especial ou desafiador para você no trabalho, pensando em todos esses trabalhos na cozinha?



R – Olha, a cozinha é muito especial, ela é mágica! Todo dia que você chega para fazer aquele tanto de comida, depois que você serve a comida, você vê assim, o refeitório lotado de pessoas e quando vai entregar a bandeja, o prato, agradece e fala que tava gostoso, tava bom, tava maravilhoso. Ali você tem a sensação de felicidade, você fala assim: “Cumpri minha missão”, porque eu falo… eu levantava cedo e ia trabalhar e eu falava assim: “Ali eu vou chegar e vou dar o meu melhor e se não for com amor, carinho e o prato principal de ser humilde, é melhor que você nem vá, porque o amor é tudo, é a fonte de tudo”. Tudo que você vai fazer, você pode nem saber fazer as coisas, mas você teve amor aí já veio à força de vontade, se você tem amor e força de vontade, aí você vai fazer com carinho, e aquilo pode ser um arroz e feijão simples, vai sair o prato mais delicioso do mundo.



P/1 – Então nesse tempo você dava, oferecia amor e recebia amor em troca, é isso? 



R – Com certeza, com certeza, nossa! Fiz muitas amizades, eu gosto muito do ser humano, o ser humano é uma caixinha de surpresa. Aprendi muito, em cozinha industrial aprendi a fazer cortes de carne, aprendi a conhecer carne, aprendi vários pratos, também tem o seu lado não tão legal assim também, tem pessoas que infelizmente, não tá num dia bom, às vezes fala um desaforo, alguma coisa assim. Mas aí você deixa de escanteio e bola pra frente.



P/1 – E nos seus outros trabalhos, em lava rápido, como panfleteira, ajudante de pedreiro, tem algum dia marcante na sua memória, tem alguma coisa que você queira comentar desses trabalhos, alguns encontros com pessoas?



R – De ajudante de pedreiro eu gostei muito dessa experiência, porque ali a gente pegava obra para fazer, empreitava, e a gente precisava de pessoas para ajudar a gente para entregar a obra, e às vezes a gente pensava assim: ‘Nossa eu tô apertado, tá ruim minha situação’ só que aí, Deus permitia que a gente visse pessoas que a gente pudesse ajudar, a contratar pessoas que viessem à ensinar alguma coisa para nós. Teve um casal que um dia a gente chegou pra fazer… para conversar como se fosse uma entrevista, e o nome dele é Rogério, tava ele e a esposa dele bebendo assim na porta do bar, um amigo nosso que tinha indicado, ai meu marido falou: “Ah… já tá bebendo, nem quero!” Eu falei: “O Paulo, vamos dar uma chance pro cara, você não sabe quantos motivos ele tem pra tá ali bebendo, e nós que somos umas pessoas diferentes vamos dar uns motivos pra ele não tá ali bebendo”. Aí nós contratamos ele, ele foi trabalhar com a gente em uma obra lá em Itú, e a gente… ele acompanhou a gente um bom tempo, quase um ano e meio, um menino muito esforçado, o problema dele é o alcoolismo e usuário de drogas, morava numa ‘biboquera’ menina, que só Jesus, mas o que eu pude fazer pra ajudar ele… as pessoa precisam querer também sair da situação.



P/1 – E Magali como foi se tornar mãe, o que a maternidade representa na sua vida?



R – Ser mãe…ser mãe é tudo! É saber que Deus te deu a capacidade de você gerar um ser dentro de você, que eu olho hoje para os meus filhos, tenho o Daniel, a Maria Clara e a Noemi. O Daniel vai fazer 22, a Maria Clara tem quinze e a Noemi tem onze, é você olhar assim e falar: “Nossa, eu tive capacidade de fazer esse ser, um mais lindo que o outro, um mais inteligente do que o outro”. Todos eles tem um jeito especial, um toque, é um amor que eu não sei, não tem como explicar. São meus amigos, eles não são meus filhos, são meus amigos, são meus parceiros, são meus irmãos. Quando eu preciso… ó eu… quando eu preciso de conselho eles me dão conselhos. Então pra resumir, são meu tudo!



(37:12) P/1 – E como foram as suas gravidezes, esse momento de gerar, como foi pra você esses períodos?



R – A minha primeira gravidez, do Daniel, foi uma gravidez tranquila, porém quando eu fui ter ele, eu tive uma grande dificuldade, porque não tenho dilatação, fiquei três dias pra ter ele em hospital público, eles forçando o parto normal, mas graças a Deus deu tudo certo, acabaram fazendo uma cesária e o Daniel nasceu com… eles falaram que tinha uma infecção, alguma coisa, ficou na incubadora, ficou lá na UTI, mas graças a Deus, falaram que ele ia ficar três meses, mas Deus é bom e com dois dias depois ele saiu. Sete anos depois eu tive a gravidez da Maria Clara, aí já foi uma parte da minha vida bem turbulenta, eu estava dentro do furacão, eu tive uma depressão, estava fazendo o uso de medicamentos fortes, infelizmente também era envolvida com álcool e droga e quando eu engravidei da Maria Clara, foi exatamente pra me tirar de tudo isso, porque no dia que a Maria Clara nasceu, eu nunca mais coloquei mais nada na minha boca, nada! Não bebo, não uso droga, nada, nada mais! No dia que ela nasceu, foi uma gravidez de risco. E a Noemi, pelo fato de ter esse histórico aí, quatro anos depois de uma gravidez de risco também, mas da Noemi foi tranquilo, foi tranquilo, e também se eu continuasse daquela forma eu não poderia realizar o outro sonho que é dirigir, porque quando você faz o uso de remédios excessivo, de antidepressivos, eles bloqueiam a carta. Aí quando Deus me deu a Maria Clara, que eu engravidei da Maria Clara, que ela nasceu, logo depois eu comprei a minha casa própria, sem ter nenhum real, meu padrasto tinha saído de uma empresa, me emprestou o dinheiro, na época, se eu não me engano, comprou o terreno com um cômodo, eu continuei pagando o terreno, aí a Maria Clara fez um ano lá dentro da casa, aí logo depois eu comprei um carro, e assim fui subindo de novo os degrauzinhos da vida, aí eu tirei… aí eu entrei na Toyota aí lá eu tirei a carta D, aí eu participei de um processo seletivo pro Sest Senat pra pegar a carta, para mudança de carta de graça, fiquei esperando cinco anos, quando chamou eu já tinha tirado a D, aí eles passaram pra E, aí eles falaram assim: “Olha, você tem direito ao curso, ou MOPP ou coletivo, aí eu falei: Qual é o mais rápido? “O MOPP”. Aí eu fiz o MOPP, aí eu já tirei a E, ganhei a E, aí eu achei assim: ah não vai… já tô há bastante tempo e não apareceu serviço nem nada, já entreguei currículo em tudo que é lugar, eles não dão chance pra quem não tem na carteira, vou deixar pra lá, aí foi quando eu tava trabalhando - trabalho em mercado e tudo - foi quando eu tava trabalhando… tinha vendido um carro e esse rapaz que comprou o carro falou: “Vou te ajudar”. Aí eu falei: “Ah, mais um com conversa”. Quinze dias depois ele me ligou e falou assim: “Liga pro meu amigo porque lá na empresa que ele trabalha tá pegando gente” Aí eu liguei, mandei o currículo, estava na hora do almoço, terminei a hora de almoço e subi pra continuar trabalhando dentro do mercado, aí o Wandinho me ligou, falou: “Olha, eu sou da LZN e eu gostaria de saber se você gostaria de fazer uma entrevista?” Quase que eu caí dura lá, não acreditei! Aí foi quando eu fui fazer a entrevista, graças a Deus, e agora eu to aqui.



P/1 – Magali e como foi esse momento de realizar seu sonho de infância?



R – Sinceramente, até hoje eu não acredito, eu acho que eu tô vivendo um sonho, porque eu entrei trabalhando com uma Express 3/4 , aí agora tem pouco tempo eu tô num Bitruck, então parece que eu tô andando em cima das nuvens e eu tenho medo de acordar. Porque eu acho que eu sou de uma em um milhão a realizar o sonho. 



P/1 – E você teve apoio quando você decidiu ingressar nessa carreira, começar a dirigir caminhão, você teve apoio dos familiares?



R – Então, quando eu falava em casa assim: “Ah eu vou ser caminhoneira, vou ser cainhoneira”. Ninguém falava nada, aí quando eu tirei a carta e tudo ai eles falaram assim pra mim: “Bobagem, para com isso! Você tem seus filhos, não pode ir pra estrada… ah deixa isso pra lá, isso não vai dar em nada”. Mas eu persisti, persisti. Primeiro eu fui pedir para o papai, depois eu persisti, aí hoje eles ficam só assim pra mim: “Cuidado, vai devagar, presta atenção!” Essas coisas assim.



P/1 – E você lembra como foi sua primeira experiência dirigindo um caminhão, primeira viagem, como você se sentiu?



R – Aqui da empresa?



P/1 – Isso, trabalhando.



R– A primeira viagem foi para Sete Lagoas, Minas Gerais. Olha, eu parecia que estava ligada nos 320V, não era nem 220V, segurei assim e fui olhando. Eu me beliscava assim pra ver se eu tava acordada. Ó, agradeço muito a Deus mesmo. E [ao] dono da empresa também, não é rasgando seda, puxando sardinha de ninguém, mas eu falo o meu particular, esse é o meu particular. Eu tô conhecendo lugares que eu nunca imaginei, tô conhecendo pessoas que eu nunca imaginei conversar, você é uma delas. É um sonho que se Deus me levar hoje, eu posso dizer que eu realizei tudo na minha vida, porque as pessoas falam assim: “Ai, o ser humano tem que plantar uma árvore, escrever um livro e casar”. No meu caso eu não escrevo o livro, eu sou o livro, a árvore eu já plantei, que são meus filhos e a história é isso aí que você tá vendo, que você tá sabendo um pouco agora, é fazer amizades, ajudar as pessoas sem pedir nada em troca, sem esperar nada em troca, quando eu sei, eu sei, e quando eu não sei eu sou humilde de perguntar, sempre eu tô aprendendo, o ser humano ele tá em constante construção.



P/1 – Desse tempo de viagens, de trabalho dirigindo caminhão, tem alguma pessoa, algum encontro que vem agora na sua memória que tenha sido bem marcante pra você?



R – Tem sim, de um senhor chamado seu Paulo, eu o conheci em Jacareí. Eu fiquei dois dias lá em Jacareí, uma pessoa, um senhor muito sábio, um senhor que com a sabedoria dele, com as conversas dele assim, é, às vezes a gente desanima porque as pessoas falam: “Ah, hoje em dia o caminhão já era isso, era aquilo, as estradas tão isso, as estradas tão aquilo”, e ele fala ao contrário, ele falou: “Eu tenho dois caminhões próprios. Olha, vá mesmo, aprenda, quem sabe um dia Deus prepara pra você comprar um caminhão, dá pra ver no seu rosto a satisfação, a felicidade que você tem de falar da sua profissão, que você está dirigindo, a gente vê que você faz com gosto”. Então pra mim esse senhor foi uma pessoa muito aproveitável na minha vida, nessa viagem, no caso.



P/1 – E Magali como funciona o seu trabalho, como é a sua rotina? Você sempre faz viagens, você dorme fora, ou você sempre volta pra casa, como funciona?



R – Então é assim, com esse caminhão agora depende muito da necessidade da empresa, eu posso… que nem, eu fui pra Lages, primeiro eu saí de Sorocaba e fui pra Dois Córregos, aí fizeram uma revisão no caminhão, aí eu fui pra Agudos, de Agudos eu fui pra Sorocaba, cheguei no sábado a tarde, saí no domingo a tarde e fui pra Lages, em Santa Catarina, tô voltando de lá agora e vou pra Jaguariúna, quando eu descarregar lá em Jaguariúna, não sei se eles vão ter carga pra trazer pra algum lugar ou seu eu vou de lá pra algum lugar pra carregar.



P/1 – E pensando em todo esse tempo de trabalho, tem alguma viagem que foi muito marcante pra você, algum lugar que você conheceu?



R – A primeira viagem é sempre inesquecível, a primeira viagem marca porque você tá com a adrenalina ‘aqui ó' mas todos os locais que eu vou é especial, todos! Em todo lugar que eu vou eu procuro fazer amizade e falar que o amor é importante, Deus é bom, que Deus… tem pessoas que, principalmente para moradores de rua, esses andarilhos que andam em postos de gasolina, essas coisas e vem pedir comida: “Ah, vamos lá, vamos comer, vamos lá, senta aí, entra no restaurante, senta aí vamos comer, vamos bater um papo: ‘Por que você está assim? Por que isso? Por que aquilo?'” Aí começa a falar do amor de Deus, que Deus é bom, que Deus salva, que Deus cura, que Deus liberta. Então todo local que eu vou é especial. Já fui em Cachoeiras de Macacu, desci aquela serra. É uma adrenalina enorme, tudo o que você tá fazendo é novo e ainda é a parte do seu sonho, então você fica… agora fui pra Chapecó, aí eu fui agora pra Lages que é um pouco mais longe, fui pra Minas, fui pra… aí agora me foge o nome do lugar, mas eu já fui em muito lugar em tão pouco tempo, então é muito especial, tudo é especial! 



P/1 – E como você se sente sendo mulher e dirigindo sozinha pelas estradas do Brasil, você se sente segura, como é?



R – Bom, as estradas, ainda, infelizmente são… tem muito perigo, porque são muito mal sinalizadas, tem muitos buracos, é um absurdo o valor que eles cobram de pedágio pra não fazer quase nada, mas pelo outro lado eu me sinto muito feliz, porque a gente vê um monte de amigo caminhoneiro aí, quando a gente para a gente fala: “Ó lá… orgulhão! Olha que legal!” Se a gente precisa de uma ajuda, eles se põem prontos para ajudar. É uma família, uma família mesmo na estrada. E eu nunca estou sozinha, sempre tô ali conversando eu e meus botões.



P/1 – Você já passou por uma situação difícil, que você teve que pedir ajuda?



R – Sim, eu tava saindo da Dutra, de uma alça da Dutra e o pneu do caminhão estourou, eu estava com uma Express e ele furou, furou do nada e tava carregado, a noite. Eu falei: “Meu Deus e agora? Essa carga aí, e se alguém vier mexer?”. Graças a Deus chegou o pessoal lá da… que trabalha na concessionária da rodovia e trocou pra mim, mas foi… Olha! (risos) Graças a Deus!  



P/1 – E Magali, alguma situação engraçada, curiosa na estrada, você já teve, você se lembra de alguma?



R – Ah…situação engraçada, foi quando a gente entrou na empresa a gente andava com outras meninas e um rapaz treinando a gente, e… muito engraçado assim, eu não sabia mexer com GPS, que eu não trabalhava, aí trabalhei com uma menina chamada Giovana, pensa numa pessoa humilde, uma pessoa muito inteligente também, ela já não está mais na empresa, ela já saiu, mas ela é uma pessoa assim que… a gente ria o dia inteiro, se a gente trabalhasse o dia inteiro juntas a gente ria o dia inteiro. E ela tirava o sarro de mim por causa do GPS, então era muito engraçado, se a gente entrasse sete horas da manhã e parasse meia noite, era o dia inteiro dando risada, e nos dávamos muito bem! Depois também, ela ficou com o caminhão dela e eu fiquei com o meu, a gente combinava muito bem: “Ah eu tenho uma colega em tal lugar” “Eu tô longe daí, vai você pra mim?” Foi como se fosse uma luva mesmo, e até hoje se eu precisar dela, dá uma ligada pra ela, ela por celular, ela me orienta.



P/1 – Parceria!  



R – Nossa! Essa menina, essa menina foi demais! Apesar dela ser bem novinha, ela tem 25 anos só.



P/1 – E Magali quais são os principais desafios e obstáculos que você tem que enfrentar no trabalho?



R – Eu acredito que o desafio é todo dia ser melhor. Todo dia ser uma pessoa melhor, fazer o meu serviço melhor, sempre dá o meu melhor, eu acredito que esse seja o desafio. Obstáculo é quando eu sou limitada a alguma coisa, que não tenha ao meu alcance, uma peça quebra, talvez um pneu fura e eu esteja longe, talvez o caminhão trave porque o monitoramento subiu o sinal, aí é um obstáculo, mas nada que… a gente pede uma ajudinha lá pra cima e ele ajuda (risos).



P/1 – E você já enfrentou alguma dificuldade por ser mulher? Algum tipo de preconceito?



R – Graças a Deus não, graças a Deus não! Graças a Deus eu fui e sou muito abençoada nessa parte, porque quando eu não sei alguma coisa, foi como eu falei no início, eu sempre pergunto, não faço nada sem perguntar, e às vezes a pessoa tá lá do outro lado: “Ó amigo, vem cá, faz favor um pouquinho, como faz isso aqui? Como faz aquilo ali?" Então, graças a Deus encontrei pessoas boas também, até hoje eu não tive dificuldade.



P/1 – E na empresa em que você trabalha, tem bastante mulheres assim, você tem visto se tem entrado mais mulheres pra esse ramo, ou não?



R – Olha é, na empresa que eu trabalho já são, quer ver… se eu não me engano tem seis na empresa que eu trabalho, fora eu. Mas eu também… na estrada a gente para muito em posto, essas coisas, e na estrada eu tô vendo mais mulheres, às vezes batendo papo com os caminhoneiros, essas coisas, eles falam: “Ó, na empresa tal, na empresa tal já mudou, tem dez mulheres, tem quinze mulheres”. E não é só assim, mulheres em 3/4, mulheres em Bitruck. Tem mulheres em nove eixo, mulheres com carreta, então a mulherada tá aí, tá chegando.



P/1 – E como é ficar longe de casa, longe dos filhos, do marido? E depois como é voltar pra casa?



R – Ah, a gente não fica longe, porque depois que inventaram a tecnologia a gente não fica longe. E assim, eu vejo que cada um tem suas obrigações, as crianças tem que estudar, o Paulo tem que trabalhar, eu tenho que trabalhar, eu encaro como um tempo curto da gente não ter o abraço, o afeto, sentir, mas se vê, a gente se vê todo dia, a gente resolve as coisas pelo telefone. Então se tiver que ter uma conversa com filho, que eu costumo falar para os meus filhos que eu não sou mãe, eu sou amiga deles e eu peço pra eles que eu não precise ser a mãe. Então assim, se tiver que resolver alguma coisa a gente resolve por telefone, só alguma coisa assim, que é mínimo que às vezes eu tenho que estar presente, mas é muito bacana! E quando eu chego em casa é só amor e carinho, então não tenho o que reclamar.


P/1 – A quanto tempo você está nessa profissão, Magali?



R – Bom, se fosse por mim eu estaria há muitos anos, mas graças a Deus a empresa abriu a oportunidade pra mim tem sete meses.



P/1 – E o que você gosta de fazer nas suas horas de lazer?



R – Nas minhas horas de lazer, eu gosto de ficar com meus filhos e com a minha mãe. Eu gosto de sentar e ficar escutando a minha mãe falar, contar as coisas, as minhas filhas cantarem pra mim, passear com eles.



P/1 – E o Covid, como foi na sua vida? Ele impactou o seu trabalho, a sua vida pessoal ou não, como foi?



R – O Covid deu um pouquinho de trabalho pra mim, porque logo que surgiu meu marido pegou, porque meu marido também, infelizmente, tem horas no serviço dele que ele tem que viajar um pouco também e ele precisou cobrir férias de um funcionário em Bauru, e ele foi, no terceiro dia que ele estava lá começou a se sentir mal e foi no médico e o médico falou assim: “Você está com Covid”. Aí voltou de Bauru pra casa e ficou só eu e ele em casa, quase ele foi embora. Mas só que assim, eu também não fiquei só nos remédios que o médico mandou não, comecei a tacar tudo que era remédio caseiro pra ele, ah minha filha, oxe! Tenho bronquite asmática também, já joguei um monte de inalação, um monte de coisa. Cinco meses eu lutei contra o Covid, no caso ele né, que eu lutei com ele. Mas graças a Deus agora ele tá bem, taí. Foi essa a fase do Covid.



P/1 – Magali quais… pensando em tudo isso que você vem vivendo nesses sete meses, quais foram os maiores aprendizados que você tirou da sua trajetória profissional dirigindo caminhão, sendo caminhoneira?



R – Olha, eu tiro que tudo é possível. Quando eu paro em algum posto, alguma coisa considerada… ou na fábrica mesmo: “Olha, você é caminhoneira!” Aí um dia corre atrás, corre atrás dos seus sonhos, nunca desista. Eu acho assim, que tudo vale a pena quando a alma não é pequena. E aqui, aqui dentro da cabine do caminhão você conhece você, você consegue ir no seu mais profundo, aqui você ri, você chora, você xinga as vezes, as vezes, independente da sua religião, você fala com Deus, que é o maior de todos, e a única coisa é não desistir, foco! Eu quero aquilo lá, eu vou, vou, vou! Porque se você desistir você vira um ser humano frustrado e uma pessoa frustrada não tem mais nada, mais nada. Nesses sete meses eu vi que eu tenho capacidade de ir cada vez mais.



P/1 – E como é pra você ser mulher, dirigir caminhão, realizar seus sonhos e trabalhar mesmo assim numa área que ainda é considerada por algumas pessoas uma área masculina, o que isso representa pra você? Qual é a importância disso? 



R – Olha, pra mim representa que a classe feminina tá saindo do armário. Tá começando a ver que elas também podem e devem ter os mesmos direitos, e que assim, tem pessoas, tem mulheres que ainda sofrem abusos psicológicos, físicos, em decorrência da dependência financeira, então eu acredito que assim, agora eu vejo uma nova visão, e foi como eu falei, se as mulheres tem um sonho, tem que correr atrás, não é só de motorista, tem mulher que gostaria de lidar com guindaste, tem mulher que gostaria de dirigir trator retroescavadeira, tem pessoas que… mecânica, são profissões que a maioria são de homens. Então, eu vejo que as mulheres estão abrindo aquela portinha, tão começando a ver a luz do dia, e que elas não parem, que elas tem que correr atrás mesmo pra que venha se escancarar e o sol entrar. É isso aí que eu vejo.



P/1 – Quais são os seus maiores sonhos?



R – Meus maiores sonhos? Esse é o primeiro, esse aqui é o primeiro. Ver os meus filhos bem, felizes. Mais nada.



P/1 – Magali a gente tá caminhando para o fim, mas antes eu gostaria de saber se você quer contar alguma coisa que eu não tenha te perguntado, alguma passagem, alguma história da sua vida, algum momento?



R – Não, eu acho que basicamente essa é a Magali.



P/1 – Você gostaria de deixar alguma mensagem para essas mulheres que estão chegando com tudo?



R – A mensagem que eu gostaria de deixar pra essas mulheres que estão chegando agora, foco, fé e não desistir! Sempre em frente.

P/1 – Agora eu vou voltar lá pra sua infância muito rapidinho. Qual é a primeira memória da sua vida, tenta buscar assim, a primeira lembrança que você tem de vida?



R – A primeira lembrança de vida? Nossa, essa você me (risos) me apertou sem me abraçar (risos). Ah… puxa vida, infelizmente a que eu tenho não é muito agradável, melhor não.



P/1 – Sem problemas. Quero saber pra você como foi ter dividido um pouquinho dessa história com a gente, ter lembrado de momentos importantes da infância e todo esse percurso, como foi pra você?



R – Olha, para mim foi muito bacana, porque às vezes a gente corre tanto que não para pra pensar na vida da gente, tem coisas que estavam lá na caixinha, aquela caixinha que a gente coloca no fundo do baú. Foi muito bacana lembrar do meu irmão que faleceu, bacana de falar da minha irmã, que ela sempre falava que ia ser professora e se tornou professora, ela é professora. Então é muito bacana você saber que não foi em vão, você tava no meio do mar ali e começou a nadar, nadar e chegou na praia, hoje você já pode se dizer um vencedor, uma vencedora. Lembrado do meu afeto com meus filhos. Ah, eu só tenho a agradecer e quem sabe motivar alguma mulher por aí, quem sabe.



P/1 – Eu que só tenho a agradecer a você, foi muito gostoso passar um pouquinho desta tarde com você, ver essa mulher, conhecer essa mulher batalhadora que não desistiu e desejar que você colha muitos frutos, que você continue conquistando muitas estradas. Foi muito gostoso, viu?!


R – Eu que agradeço do fundo do coração e espero mesmo que possa sim servir de incentivo para algumas, até mesmo para homem, não só para mulher. Até mesmo pra homem, porque alguns homens tem a carta, tem a parte burocrática, mas não tem coragem de ir pra estrada, tem medo, tem sonho mas tem medo. Se a pessoa não acreditar nela mesma, quem vai acreditar? 



P/1 – É isso mesmo, é isso mesmo! Ai Magali, muito obrigada! Muito obrigada, de coração.

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