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História

"Se a morte é um descanso, eu prefiro viver cansado"

História de: José Cavalcanti de Araújo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/07/2019

Sinopse

José Cavalcanti de Araújo nasceu em Mombaça, no estado do Ceará, em 1939. Ainda menino, veio de pau-de-arara para a cidade de São Paulo, com alguns familiares. Passou a viver em penções e, depois de alguns empregos, se tornou pintor de paredes e também pedreiro e encanador. Devido ao locador do imóvel em que vivia ter vendido o edifício, José acaba indo morar na rua, conseguindo comer e tomar banho com a ajuda de pessoas da região. Essa história de vida conta sobre um migrante nordestino que faz sua vida em São Paulo, mas devido às dificuldades que encontra, como a falta de emprego, o vício nas apostas em cavalos e devido ao pai ter tirado a herança dos filhos, acaba indo dormir nas ruas. 

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História completa

P/1 – Então vamos lá, senhor Cavalcanti. Vamos começar a entrevista perguntando seu nome e o lugar em que o senhor nasceu.

R – Tá bom... 

P/1 – Tá, o senhor conta para gente?

R - Pode falar?

P/1 – Então, o senhor diz para gente seu nome e o lugar em que o senhor nasceu?

R – É José Cavalcanti de Araújo. 

P/1 – E o senhor nasceu aonde?

R - Nasci em Mombaça, no estado do Ceará.

P/1 – Que ano, o senhor lembra?

R – 1939.

P/1 – 1939. Então hoje o senhor tem cinquenta e nove anos?

R – É, cinquenta e nove.

P/1 – E como é o nome do seu pai e da sua mãe?

R – Meu pai é José Antônio de Araújo. 

P/1 – E a sua mãe?

R - A finada minha mãe é Otília Cavalcanti de Araújo.

P/1 – E seu pai ainda está vivo?

R – Ele tava tocando uma "farmacinha" lá no Ceará, não sei bem, porque eu mandei duas cartas e veio de volta, não foi localizado aquele endereço. 

P/1 – Faz tempo que o senhor não vê ele?

R – Ah, desde quando eu saí de lá. Fui criado aqui, cheguei aqui menino.

P/1 – Aí nunca mais o senhor voltou?

R – Nunca voltei lá.

P/1 – Não viu mais ele?

R –Vi mais ele não. Ele, meu irmão aí no Bom Retiro, os parente aí, tudo assim.

P/1 – O senhor tinha quantos irmãos lá?

R – Quem?

P/1 –Quantos irmãos o senhor tinha lá?

R – Lá tem... Mulher são Tereza, Aurelina... 

P/1 – Então: Tereza...

R- Aurelina.

P/1 – Aurelina.

R – E Luiza. São três. 

P/1 – E homem?

R – Homem tem... Mas não conta com o que morreu não, né?

P/1 – Conta.

R – O que morreu era enfermeiro aqui em São Paulo, era o primeiro começando dos mais velhos, né? Então, tem o Olegário, que é meu irmão mais velho, casado em Pernambuco e tem eu e a Luiza, que é a mais velha, é viúva. E tem justamente a Tereza e a Aurelina, tudo lá em Fortaleza.

P/2 – Vocês são em cinco então, cinco irmãos?

R – Cinco irmãos.

P/1 – Então, senhor Cavalcanti, conta para gente como que era a sua casa lá em Mombaça. O senhor se lembra? 

R – Lembro. Ô!

P/1 – Como ela era?

R – A casa grande, tinha uns cinco, seis cômodos...

P/1 – É?

R – É, tinha até uma salinha lá, de aula. 

P/1 – Como era? Descreve para mim. Você lembra?

R – Quando entrava assim, tem aqueles... assim, ela fazia aqueles planetas, aquelas rosas bonitas na frente, então subia um degrauzinho e tava na sala, sala de visita, né? Depois entrava em um corredor comprido, de lado a lado era quarto grande. Tinha uma sala que ela dava aula, as meninas davam aula lá, para aqueles garotinhos pequenos, que não podem pagar escola, então elas quebravam o galho deles lá, minhas irmãs. Essa Tereza ela era professora em Fortaleza...

P/1 – E o seu pai?

R – ...Era a caçula. Em?

P/1 – Seu pai fazia o quê?

R – Meu pai era sitiante, ele trabalhava com dez, quinze homens. É, acho que tinha trinta e duas vacas de leite, dando leite, queijo, tudo assim. Cuidando do trato dos animais, né? Meu pai sempre foi agricultor. Agora, quando ele mudou para cidade, ele tocou armazém e não deu certo, do armazém ele foi junto com o doutor Joaquim, aí montaram uma "farmacinha" lá e tava vivendo. Casou segunda vez com uma mulher chamada Alice, que eu nem conheço, que é esta madrasta  (risos). Tem dois filhos com ela, passou as casas que meu pai tinha, que era nossa, herança que nossa mãe deixou, ele passou para aqueles meninos daquela mulher, que eu nem conheço. 

P/1 – A então, porque a sua mãe faleceu quando o senhor tinha que idade?

R – Foi, ela faleceu em 72. E nós tava aqui e eu... Foi, faleceu, ela morreu assim, sentada, com a minha Tereza, correu assim num médico que é pertinho, no centro da cidade, correu lá para chamar o médico, o médico chegou olhou assim e disse: “Olhe, o coração dela parou”.

P/2 – E o senhor voltou para sua cidade para ir ao enterro?

R – Todo mundo foi ao enterro lá, foi bem feito.

P/2 – O senhor estava lá?

R – Não, não tava não, mas elas me mandaram carta dizendo para mim como foi, tudo bem feitinho lá.

P/1 – Senhor Cavalcanti, então vamos voltar lá nessa casa que tinha sala. A sua mãe era professora também?

R – Não, a minha mãe não, minha mãe só cuidava mais de casa só. Ela cuidava de casa e tudo e meu pai cuidava mais dos trabalhador, fazia farinhadas, fazia tudo. Nós tinha pé de laranja, coco, tudo plantado lá. Era bacana. E as vacas, a gente tirava aquelas vacas. Meu irmão mais velho já é um rapazão casado, já tem dois filhos, então a gente tirava aquelas vacas melhor de leite, tirava um pouco de cada uma, já enchia uma jarra grande de leite. Aí comia coalhada, comia queijo, comia tudo. Semana santa ninguém tirava leite das vacas, a gente deixava só para os bezerros mamarem. Era a festa deles, era aquela...  (risos).

P/1 – E este sítio, ele era do seu pai?

R – Era do meu pai. Era tudo herança da minha mãe, meu pai, quando casou com minha mãe meu pai não tinha nada não, muito pouquinho coisa, tinha uns bezerros só. Mas minha mãe tinha, dava por dez José Antonio de Araújo (risos). Minha mãe era coisas boa. Você sabe quando um trem passa assim, não tem aqueles dormentes de madeira em quatro faces, vermelhinha, madeira de aroeira? Cinco mil dormentes meu pai tirou, cinco mil paus, carregados em caminhão que vendeu na cidade lá, era dele, mas ali o terreno todo era da minha mãe. Meu pai, quando minha mãe faleceu, ele vendeu tudo. Aí deserdou nós, casou uma segunda vez e ninguém procurou motivo nenhum, fiquei quieto. Aí, esse meu irmão que trabalhava de enfermeiro aqui na Conselheiro Crispiniano, ele ajudava até o médico a pegar a tesourinha, operar, qualquer coisa, então ele faleceu com vinte e dois anos de INPS [Instituto Nacional de Previdência Social], uma úlcera interna, lá em Anápolis, estado de Goiás. Foi transferido para lá, e lá ele veio de avião para cá, mas chegou aí quem operou ele e falou em segredo isso aí: “Não vou dar nem um ano, não”. Aquele doutor Pinotti, que é o chefe do hospital, aquele que operou, não sei se foi o Tancredo Neves, um grande aí. Ele que operou meu irmão e disse: “Não dou nem um ano.” Foi nove meses e vinte e seis dias, ele faleceu. Já faleceu em Goiás. Ele não pagava avião, não, meu irmão vinha com documento, pegava e descia aí, mas a úlcera acabou com ele. Era um cabra forte, ficou fininho que nem um palito.

P/1 – Mas senhor Cavalcanti, aí o senhor saiu de lá da sua casa com que idade?

R – Em? Sai de lá menino, vim no meio de minha família, veio tudo para cá. Os parentes, né? E meu irmão do Bom Retiro e esse que era enfermeiro.

P/1 – O senhor tinha quantos anos?

R – Eu tinha mais ou menos acho que uns oito anos, por aí assim, era essa base. Menino novo, família, né? Vinha eu e outros garotos pequenos, mas tudo ali na mão deles lá, que eram parentes. Quem é parente não pode sair assim na rua que não conhece, né? Eu lembro que eu passei em todo Norte, Nordeste, Bahia, Feira de Santana, aqueles lugares ali, mas a gente dali não saía.

P/1 – Veio de quê? Foi um caminhão?

R – De pau de arara. Naquele tempo não tinha ônibus, não, tinha nada. Hoje está cheio de ônibus para riba e para baixo. Naquele tempo a gente vinha naquele caminhão, são colocadas umas tábuas largas, bem forradas, e aqui vai cinco, quatro, cinco, quatro, cinco, até encher. Aí, coberto com a lona, tem lugar para respirar. Então, para “donde” a gente queria, pegava água, almoçava naqueles caminhos, era assim, tudo parente junto. Que nem fosse para ir assim, no interior, que vai família, né? Mesma coisa. Aí, Ave Maria, nunca mais, uma carreira daquele jeito que ele deu naquela rio… Bahia! Naquele tempo não existia asfalto ainda, não, o cabelo não entrava pente de jeito nenhum, a poeira. Eu já sofri, mas daí para cá...

P/1 – Mas aí o senhor chegou em São Paulo com esses parentes todos? 

R – E tão todos aí, aí na Sapopemba. Um é major da PM, o outro é sargento, o outro é tenente. É, pessoal meio metido, eu não gosto muito de procurar eles não. Um deles brincou comigo assim, uma brincadeira, ele disse: “Cavalcanti, corta esse cabelo seu e vai comer um frango na minha casa”. Aquilo me chocou. Eu disse: “tudo bem, vou estudar seu caso”, saí e fui embora. Nunca fui lá na casa dele, tem casa com piscina, tem tudo. Está metido, está muito orgulhoso, ganhando bem, do governo, né, aposentou. Ele, o Crisóstemo, o Sebastião, um monte deles assim, tudo parente. Mas só que eu não vou assim quase, em casa de parente, não. Me dou mas com os estranho, conversar com um, com outro, porque parente quer saber mais que a gente. E a gente não sabe de nada  (risos), então fica assim tudo arquivado (risos). 

P/1 – Mas você chegou com todo mundo, você veio para cá. Por que é que todo mundo veio para cá? 

R – Não, nós viemos juntos. 

P/1 – Mas por quê?

R – Porque eles vieram trabalhar aqui, eles estavam de férias. Esse mesmo que é major, ele estava de férias. Aí pelejou, pelejou. Se ele quiser ir é cara ou coroa. Aí meu pai vendeu umas vacas que eu tinha, eu fiquei até com dó do pai, onze cabeças de gado eu tinha, onze. Vaca minha dava dez litros, assim bacana. Aí eu peguei aquele dinheiro, coloquei ali, esse dinheiro antigo, e fiquei aqui, trabalhei naquela Casa Falco, aqui na Avenida Tiradentes, ajudando a fazer aqueles doces lá aquelas coisas lá, empurrando lá a máquina, fazia, sempre passando aquela goma e ajeitava aqui, empurrava lá e saia as balas, certinhas. Você não podia pôr demais que entupia aquela boquinha que tem, e se afinar demais também sai aqueles caninhos fininhos, aí não é aprovado. E eu com seis meses, fiquei igual ao chefe lá dentro. Aí ele levava lá para cima pro italiano ver, ele dizia: “É aquele rapazinho?”. Poxa vida, me passou dois e quinhentos, naquele tempo era dinheiro  (risos). Eu ganhava quanto? Ganhava uma mixaria de nada, e os outros, aqueles antigos, de cinco anos de casa, seis anos de casa, tudo com dois e quinhentos. Eu passei igual a eles, só porque eu fiz o serviço bem feito.

P/1 – E aí o senhor ficou trabalhando lá?

R – Aí comecei a trabalhar numa empresa de ônibus, trabalhei em padaria também. A empresa de ônibus foi aqui na Mooca, trabalhei nove anos na Mooca, passei a fiscal e chefe dos outros fiscais. A minha chapa do bonezinho era diferente da deles, agora eu não passei a chefe do tráfego porque eu não sabia bater à máquina, como ainda não sei. Dá até para a pessoa ir no Brás e voltar, de a pé, enquanto eu faço quatro nomes. E nunca tive escola, se eu tivesse pego ao menos uns dois meses e treinado, eu tinha ido bem. Aí arrumou um cabra lá, passou a chefe de tráfego, hoje tá bonito, de carro do ano e tudo. Ele sabia bater, tinha diploma, eu não tinha, pois é.

P/1 – Essa época que o senhor era rapazinho aqui, o senhor morava na casa de quem?

R – Eu morava em pensão, aqui do Brás mesmo, daqui eu fui para Mooca, da Mooca eu voltei pro Brás novamente. Aquele espanhol, o seu Manolo, que faleceu na Espanha, a mulher dele tava aqui, dona Adelaide, tava aqui, e faleceu aqui, do domingo para a segunda, e terça feira já tava na Espanha... Eles têm dinheiro, foi de avião, foi enterrada junto, no cemitério que tava o marido dela. E eram todos bons comigo assim, pessoal muito bom. Tinha meu quartinho, tinha a mesinha assim, aí chegava de noite, depois das festas, era uva, era castanha, era nozes, aquelas coisas lá. Uma garrafinha de vinho, oh, eu me lembro. É aquele prédio ali da Gomes Cardim, o Banco do Brasil está em frente, para cá, ali onde tem um estacionamento grande. Ali... eu morei ali muitos anos, uns treze, quatorze anos, aí dali eu fui lá para a outra pensão, lá em cima, lá, tudo bem. E ultimamente, agora, eu tinha meu quartinho ali, tenho as minhas ferramentas, eu trabalho de pintor de prédio. Trabalhei com três engenheiros e duas doutoras. E então o rapaz bateu na porta e disse: “O homem está te chamando aqui fora”. “Pois não, quem é?”. “É o dono”. Ele teve na Itália e tudo, demoliu o prédio todinho, tá cheio de pedreiro lá, quebrando os tijolos. Digo, é para sair a gente sai, não é nosso mesmo. Estava eu e mais seis, e a última que saiu foi uma mulher. Seis ou oito pessoas saíram de lá.

P/1 – Saíram o quê? Da obra? Do prédio?

R – Do prédio. A obra já tá tijolo até em cima. Então, eu não tinha dinheiro para pagar um aluguel de quarto, não vou mentir, né? E agora? Eu dormi no bar, aquele barzinho lá, eu dormi lá dentro do bar. Mas é um calor ali dentro, Deus me livre, tem dois ventiladores, mas tão queimados, não sei o que eles fizeram com aquilo lá. Eu fiquei perto do guarda de noite, debaixo daquela marquise grande, eu fico ali, tenho minhas cobertas lá, batendo papo com ele ali. Quando eu vou dormir é uma hora da manhã, duas horas, aí quando são cinco horas da manhã eu levanto. Vou buscar leite, pão e ajudar no bar. Quando são sete e meia eu desço pro açougue, faço o pedido e ele vem de bicicleta entregar. E vou lá comprar verdura.

P/1 – Então hoje o senhor trabalha para o bar?

R – Não, já fiz minha obrigação. É duas horas que eu faço, duas, três horas só.

P/1 – Aí o senhor come lá no bar?

R – Como lá no bar. A hora que eu chegar eu como lá. Aí quando não quero comer eu pego a marmitex e levo lá, onde eu tô lá, e como lá. 

P/1 – E aí o senhor está morando perto do bar em uma marquise que o senhor falou?

R – É, aquela marquise do prédio, não chove ali, não chove e o chão é sequinho. Agora, se vier chuva com vento, aí tem que levantar ligeiro, porque a chuva não brinca não (risos). Então eu ponho acolchoado, aquelas folhas de papelão grandonas, ponho lá por baixo, que elas chupam qualquer coisa. Então, quer dizer, que ali praticamente de noite eu ponho minha coberta ali e deito, travesseiro ali e pronto. Qualquer coisinha que o guarda mexer na cadeira dele assim eu tô escutando. “Oh, tudo bom?”. Tem um, o chefe dele tem carro, um chevette, eles tão ali no meio, só quebrando galho enquanto eu melhoro aqui da perna e depois ponho as ferramentas para trabalhar, que elas estão guardadinhas, graças a Deus. Se eu for comprar uma nova hoje, é uma nota. 

P/1 – Para fazer o quê que é?

R – Eu tenho vinte e oito anos de pintura, faço um pouco de pedreiro e faço um pouquinho de encanamento. Mas a minha profissão mesmo, legítima, é pintura. Faço massa corrida, desenho, o que a pessoa pedir. Eu pego a tinta branca, dezoito quilos aquela lata lá, eu faço quatorze tons de cores de tintas, com as bisnagas. Essa aqui dá essa, essa aqui dá aquela, essa aqui dá aquela, tudo, quatorze. É obrigado para você passar no teste, com doze já passa, mas eu fiz quatorze.

P/1 – E o senhor fez isso porque o senhor estudou isso?

R – Não, eu trabalhei com seu Abel, que é quase engenheiro o homem, ele me ensinou, isso é muito caro para mim. “Isso aqui dá isso, isso aqui dá isso”, me ensinou tudo direitinho, né? Aí aprendi rapidinho. Eu cheguei a fazer pagamento lá na firma, para os empregados, eu tocava aquele sino lá em cima: “Pagamento, pega a fila aí.”. Só o envelopezinho, tava o nome deles, assinar lá e ir embora. Seu Abel não vinha, ele ligava: “Hoje eu não vou não, faz o pagamento aí”. Era cinco horas, pagava. Sempre tomei conta assim do que é dos outros, entendeu? Mas sempre no caminho certo. É a vida, né?

P/1 – E o senhor casou aqui em São Paulo?

R – Não, não casei não, sou solteiro mesmo. Sofrer, sofrer sozinho (risos). 

P/1 – Mas o senhor teve assim, alguma paixão?

R – Quê? Uma paixão? Não, gostar a gente gosta. E gosta, mas também não tem assim, por exemplo, uma comparação, uma aproximação de nada, por acaso. Mas pessoas muito boas.

P/1 – Mas quem que o senhor mais gostou? 

R – Acho que é a... não é porque ela tem os dela lá, ela tem três carros, ela e o marido tem três carros e uma moto grande, mas são muito bons comigo, Ave Maria! Essas frutas, que chamam fruta do conde, peguei as frutas do conde e levei para ela lá, “O senhor que pegou? Que beleza, eu gosto tanto disso aqui!”. É tudo assim, agrado para ela. Ela trabalha no fórum e o marido também, um pessoal muito decente.

P/1 – Mas ela é casada, né?

R – Casada, é. Ela tem o marido dela, é só assim, amizade sadia. Mas não é paquerar não.  (risos)

P/2 – E o senhor não paquera?

R – Paquero, ô! 

P/2 – E onde o senhor vai paquerar?

R – Ah, isso quando aparece, que dá um jeito, a gente paquera mesmo.

P/1 – Como é que é isso?

R – Como é que é isso? Só no olhar a gente conhece se ela gosta do cara, só no olhar. Agora assim, se ela olhou com o olhar, que ela nasceu com olhos para olhar, né, mas quando alguém tem interesse numa pessoa, a gente conhece, é isso aí. E o telefone dela, o endereço, qualquer coisa a gente liga, no começo é assim. Eu arrumei duas com telefone (risos), uma foi na Água Rasa, lá em baixo, a outra foi na Mooca.

P/1 – Mas e aí, durou?

R – Não, é só cinema, aquele tempo tinha pouca televisão aqui em São Paulo, tinha pouca mesmo. Ia ao cinema com ela, ia ela e a irmã dela, ficava lá namorando, depois quando terminava o cinema nós íamos embora. Tomava um sorvete, uma coisa qualquer, e ia embora. Era pertinho também, onde ela morava, morava ali na Mooca. A Mooca já ia bem longe, tinha que pegar um ônibus para descer onde tinha o cinema. E quando era aqui na Água Rasa eu ia a pé, que era bem pertinho, uns trezentos metros tava dentro de cinema.

P/2 – E hoje o senhor gosta de ir a algum lugar para passear?

R – O lugar assim que eu gosto mais de passear mesmo é uma praia, eu sou fã de praia, quando eu vou na praia eu me sinto um outro homem. 

P/2– Mas o senhor entra no mar para nadar?

R – Ah, eu nado peito… eu tenho cinco nados. Eu nado de cachorro, nado de braço, nado de costas, borboleta para descansar no meio do mar. E eu não afundo nela, não, eu fico pedalando. É pouco tempo também, né? Tenho uns quatro, cinco nados, mas tinindo mesmo. Um dia essa guarda dos mares de Santos, polícia marítima, eu ia nadando, “tá, tá”. Ele disse: “pra onde você vai, rapaz?”, “Eu estou tirando aqui um racha com meu colega”, “Que racha o que rapaz! Pode ir para trás. Você não tá vendo a placa lá, escrito perigo?”. Falei: “Muito obrigado, desculpe”. Me chamou a atenção e eu voltei calado, eu tava errado, aí eu vim de costas. É bom quando a maré carrega você sozinho, né? Parece uma casa que vai caindo em cima da pessoa. Quando vai respirar assim, ela “chuuuu, chuuuuu”. É bom demais! Aí nós saíamos dali, íamos tomar uns drinque num bar, que tem, restaurante, né?

P/1 – Que praia que é essa? 

R – Praia de Itararé, que é ali divisa de Santos com São Vicente. Tem até o futebol lá para assistir, assim no peito, não paga nada fica assim do lado da cerca, tudo de arame farpado, grande, arame grosso, liso. Então a gente assiste aquele jogo lá, depois toma uns drinques, à tardinha vem embora para São Paulo. Pega o ônibus lá, tinha o Rápido Brasil, que para na Praça Clóvis, tinha o Cometa, Cometa não, o Expresso Brasileiro... tinha outras linhas, a gente escolhia lá e vinha embora. Trazia presentinho pras meninas, de coisinhas do mar, aquelas coisinhas lá (riso), elas ficavam tinindo, só fazendo farra assim, brincando, né? O que me estragou mais na minha vida mesmo foi corrida de cavalo. Eu entrei de gaiato, eu pegava o pagamento meu e ia jogar nos cavalos. Só um dia eu acertei uma bolada e nunca mais pus os pés lá, até hoje. Cheguei no padoque, eles pegam os animais, aqueles cavalos que tem oito, número oito, oito cinco, oito seis, os mais argentinos, cavalo grande, de raça, eles põe na frente para chamar a atenção dos apostadores. Aí eu olhei assim, lá no padoque, onde eles ficam rodando, eu olhei assim e no fundo do padoque, assim, eu vi uma tampinha, uma eguinha pequenininha, espumando. “Oh, essa égua tá “injeçada”, deram injeção para ela ganhar a corrida”. Aquilo veio assim no coração, que eu jogasse nela. Mas eu olhei lá na premiação do place(?), de vencedor, era o maior azar. Digo, vou jogar nesse azar mesmo, aí joguei cem e cem, cruzeiro velho, e fiquei lá. Quando deu a largada, menina, passou nas cocheiras e lá se vê a placa, o bonezinho dele era vermelho. Aí a turma gritou: Vixe Maria, é o maior azar da prova, olha como vem! Aí passou uns animais, eu disse: “Segura na torre”, até as arquibancadas, pertinho. Pagou seiscentos e oitenta e oito de ponta. Com dez cruzeiros velhos, tirar seiscentos e oitenta! Eu peguei quatro mil e tanto, enchi os bolsos de dinheiro, peguei um táxi até o Anhangabaú, lá eu peguei para a Água Rasa e nunca mais joguei nos cavalos. Foi aquela idéia que me veio, que aquela égua tava dopada para poder ganhar a corrida. E ganhou mesmo, aqueles grandões bonitões, que eram favoritos, até hoje estão correndo. Não sabe, (risos) não ganharam de ninguém!

P/1 – Mas se o senhor ganhou dessa vez, por que o senhor diz que estragou a sua vida?

R – É porque eu já jogava há muitos anos sem ganhar nada! Joguei até de São Paulo para São Vicente. Tinha um xará meu, que tava escrito Cavalcanti, ele botou os cinco cavalos, entrou quatro e um fez segundo. Então eu ganhava assim, uma mixaria, vamos ver: jogava vinte para tirar trinta, quarenta, isso aí não resolve. Agora, aquele dia que eu peguei quase quatro mil, quatro mil e uns quebrados, dinheiro velho, os bolsos estavam assim! Ajeitei e peguei um táxi. Digo, não vou andar com esse dinheiro, isso é doido. Fui lá no Anhangabaú e peguei outro até a Água Rasa. Aí cheguei lá, guardei o dinheiro todinho lá, “aqui não volto mais”. Joguei foi nove anos nos cavalos! Nove anos! Perdidos. Fui ganhar duas vezes, ganhava mixaria. Bolada boa mesmo foi essa daí, essa eu ganhei.

P/1 – Mas como foi que o senhor começou a jogar nos cavalos?

R – Os colegas me convidaram para ir lá.

P/1 – Os colegas do trabalho?

R – Do trabalho, pessoal aí da Mooca. Eu digo: “Rapaz, eu não conheço jóquei clube aqui, não”. “Não, vai com ‘nóis’, só para passear”. Aí olhei assim, “Aquele cavalo é bonito, rapaz!” Tirei segundo. Aí eu fui olhando, fui me animando, me animando, aí fiquei, todo sábado e domingo eu ia lá com eles. Me puseram no caminho errado, porque não era para eu jogar. Tirava o pagamentinho do envelope, guardava o resto em casa e socava no bolso e jogava nos cavalos. Voltava só com o dinheiro da passagem. Isso não é papel que se faça! Joguei foi nove anos. Se eu ganhei muito ganhei um mínimo, mas de pouquinho, e só aquele que me quebrou o galho. Eu digo, agora encerrou o assunto, não vou mais jogar em cavalo. Nunca mais joguei. Já pulei lá pro meio, era louco! Um dia aqui na Vila Guilherme, tinha aquele... o trote, o japonês de idade, o senhor de cabelo grisalho, bem branquinho, passou por mim, quase me derrubava assim. Eu digo: “Ô, chefe”. “Senhores, senhores, senhores, dupla 33”. Eu vi ele jogar duzentos cruzeiros na dupla 33, eu digo, vou acompanhar o japonês, peguei cinquenta e joguei. Mas não deu outra, “roubação” de dinheiro, e ele saiu foi bacana. Eu ganhei às custas do japonês. Ele tava meio doido, eu digo, esse homem ou tem sonho ou sei lá, ele pegou um dinheirão medonho. E eu tinha dinheiro para jogar mais, mas eu joguei só cinquenta, com medo, um azar danado, e deu certinho. Pois é, agora (risos), ali naquela igreja [Paróquia Nossa Senhora] do Bom Conselho, na Mooca, eu fui muito à missa ali, de dia de domingo. Eu gostava de uma garota lá, a mãe dela tinha bar, a mãe dela era viúva, o negócio tava bem animado já, e no fim das contas ela dando bola para um motorista casado. Aí eu peguei, quando ela me viu ficou branca, também, não falei nada. Naquele tempo da Sé era furada com alicate, né? Aí bateu lá, desci, ela desceu também, ali na Taquari, onde tem a... sobe a Paes de Barros, Oratório e a Mooca? São três ganchos assim, ela disse: “Cavalcanti, eu tava só conversando com ele!”. “Eu não tô lhe perguntando nada, segue com ele, ele é casado. No bar da sua mãe sou bem tratado, você fazendo um papel desse aí comigo! Não, não tenho mais nada com você, não. Não te devo nada e você não me deve nada. Está tudo empatado”. Ela quis chorar, olha! “Você pensou que eu tava em outro ônibus?”. E eu no ônibus, eu tava dentro do ônibus, na espera, tinha os postes, fiquei ali, ela não me viu, quando chegou aquele carro 44, ela pulou no carro do 44, eu na frente, ela pulou atrás para comprar a passagem, eu fiquei na frente. Quando ela me viu, foi o tempo de fechar a porta, ficou branca.

P/1 – Mas por quê? Ela tava dando bola pro...

R – Pro motorista. Quase debruçada por cima do pescoço dele. Eu digo que é isso, aí não dá.

P/2 – Ela foi sua namorada?

R – Foi, era namorada mesmo, nós namorávamos há seis meses. E a mãe dela era assim comigo. Tinha terreno aqui em Suzano... E eu perdi ela. Tá certo, o nome dela é Erundina, era bonitinha ela.

P/2 – O senhor nunca mais viu?

R – Não, eles venderam o bar e foram tudo lá pro sítio deles lá, lá para onde tem Brás Cubas, por ali, moram para lá.

P/2 – Faz quanto tempo isso?

R – Faz muito tempo! Naquele tempo eu era fiscal dos ônibus.

P/2 – Ah, isso foi quando o senhor era fiscal dos ônibus?

R – Foi, foi, pois é.

P/1 – Então vamos tentar organizar um pouquinho, que eu estou um pouco confusa. O senhor chegou lá de Mombaça e foi trabalhar nessa loja dos doces? Foi isso?

R – Não, esta é a fábrica, eu era ajudante, de menor, pegavam de menor adoidado. Era eu, a Luci, de menor, e os moleques de menor. Eles diziam: “É assim, assim, assim”, só ensinou. Eu digo, “Sim senhor”. E eu fiquei aqui, aquele ficou lá, cada um fazendo um pouco. 

P/2 – E nessa época o senhor já foi morar numa pensão?

R – Eu tava com os meus parentes aí, na pensão, e o meu irmão, que era enfermeiro, no Brás, corria de a pé, às vezes, aquele bonde aberto, para a gente não pagar passagem. Moleque é bicho malandro! Quando o bonde vinha, assim, nós olhávamos para o condutor: “Ei, faz favor quem entrou aí!”. Ele tava de um lado e nós entrávamos por outro lado, aqui, ficava bem em pé ali. Quando ele chegava perto da gente: “Faz um favor quem entrou.”. “Outra vez?”. “Desculpa”, e passava. Nós dávamos calote nele todo dia que íamos trabalhar  (risos). As vezes a gente pagava, mas na maioria não pagava. Bonde aberto,né?

P/1 – Aí trabalhou lá, o senhor e seu irmão, né? Depois que foi...

R – Foi. Tinha uns piauienses, uns caras muito legais comigo também, trabalhavam lá. Eles me ensinaram muita coisa que eu não sabia na fábrica. Só via uma vez, duas, já aprendia, tinha uma cabeça muito boa. Então, eu tive que levar aquelas balas assim na mão, para o italiano: “Cavalcanti, você tá de parabéns, tá fazendo melhor do que os homens que tem seis anos de casa”. Eu disse: ”Não, que é isso...”, aí “É isso aí mesmo”. Ele disse: “tá bem feitinha”. Essas balas de hortelã, tudo eu fazia na máquina. Você não pode empurrar demais, que engasga, e se você puxar sai fininha, aí não serve para bala. Tem que ser... graduar e passar polvilho aqui na mão, e graduar ela aqui, vai levando, vai levando assim. Hmmm. Cabecinha dela assim, miudinha assim, passando aquelas balas, sai tudo bonitinho ali na frente, tudo na ordem. No que lá passava um chefe e olhava assim: “tá bom”, o outro passava: “tá bom”. Aqueles outros moleques lá, só aprovou um também, mas o outro acho que foi varrer chão por lá, sei lá. Todo mundo tinha seu aventalzinho branco, eu tinha também. Era muito bom ali, mas trabalhei onze meses e pedi a conta, por causa de umas meninas lá. A do escritório queria namorar comigo, já tava bem mais forte, né? E a outra trabalhava na seção de doces. Quase se pegaram as duas. Quer saber de uma coisa? Pedi a conta: “Tenho que sair daqui”. Peguei e saí. Ganhava pouco também. A vida é assim mesmo, né...  (choro) Tem banheiro aqui?...

(Pausa)

R - ...Comprar leite e pão é seis horas da manhã, já estou lá na porta do bar. Aí vou lá buscar leite e pão, manteiga, quando falta; sete e meia açougue; oito, nove horas, a quitanda do coreano lá em cima. Compro arroz, compro farinha, quando pega assim, três quilos de uma coisa, três quilos da outra, vou embora direto, é bom. Por enquanto, né? Mas quando é muito peso eu digo, não, não vou não, manda o rapaz do carrinho levar. Teve dia que eu peguei vinte quilos de costela de boi, só eu sei o que eu passei. Aquele monte de pessoal passando na minha frente ali, e os carros cruzando, Ave Maria! E eu com aquele peso. Meu Deus, e agora, de que jeito? Se eu botasse no chão não ia levantar sozinho, vinte quilos. Aí eu passei, estiquei o pé, cheguei no bar, cheguei. “Eh, rapaz, você podia ter pegado um rapaz de bicicleta”. “Agora que você vem falar? Você não falou que tava com pressa da carne? Tá aí a carne”.Eles brincam muito comigo assim, mas é tudo amigo.

P/1 – Tudo amigo? O senhor veio direto morar aqui no Brás, não foi assim? Sempre morou aqui no Brás? 

R – Quando eu cheguei do Ceará para cá, a primeira rua que eu desci, ali mesmo na estação, era pau de arara, eu morei ali. Aí dali eu fui para a Mooca e da Mooca voltei ao Brás, novamente.

P/1 – E como que era o bairro naquela época que o senhor chegou?

R – Tinha o Teatro Colombo, que pegou fogo em 68; tinha o salão Minas Gerais, na parte de cá; carnaval. Um dia a polícia chegou e falou assim: “Quem for menor se arranque para casa”. “Nóis” tava tudo pivetinho, descemos a escada pro salão lá, tava assim de gente, dançando, aquele tempo do lança perfume, que vinha da Argentina. É, eu conheço aí essa quebrada faz muitos anos.

P/1 – No carnaval tinha lança perfume?

R – Não, no carnaval lança perfume era livre naquele tempo, agora é proibido. Mas naquele tempo a turma jogava assim e ia dançar, ficava doidinho. É, eu vendo aquilo lá, os colegas todos já rapazões, aí chegou uma ordem lá: “Quem for menor vamos se arrancando aí”. Aí eu vim tomar café lá do outro lado, era cedo, cheguei em casa e ficamos lá. Eu tinha um quarto, tinha telefone lá, que era bonzinho, era uma beleza. Aí depois venderam o prédio. Hoje tá um prédio que a gente nem conhece mais a frente, bonito para danar! Aqui na Joaquim Nabuco é tudo assim, que a gente que mora assim em pensão, você escolhe um quartinho mais organizado, né, e lá tinha. Era deste finado Manolo, que morreu na Espanha. Meu quarto era bonzinho, tudo, não faltava nada. Eu chegava assim, já contei para cá, quando eu chegava do serviço, eu chegava lá e a minha mesinha assim tava lotada de tudo. Gostavam muito de mim, a filha dela, ela, um pessoal muito bom.

P/1 – E a filha? O senhor namorou a filha dela também?

R – Oh, ham, passou de galope. (risos) Ela é espanholinha que chegou aqui com treze anos. Hoje tá fortona, né? Tem filho já, rapaz. Casou, casou com um próprio espanhol, mas ela era muito namoradeira. (risos)

P/1 – Como que ela chamava?

R – Para ser espanhola era muito namoradeira mesmo. Pensei que era só brasileira, mas o quê? A espanhola também, ela não queria perder tempo para ninguém, não.

P/1 – Quanto tempo o senhor morou nessa pensão?

R – Treze anos. É, chegava lá, “Oi”, “Oi, tudo bem?” “Já vai?” Eu digo, “Já”, “Tá cedo”, “Cedo? Eu tenho que ir para Santo Amaro, pegar o primeiro ônibus aí”. Eu pegava, saía daqui meio dia e meio para chegar lá uma hora, chegar lá uma e meia, eu pegava duas horas.

P/1 – Em Santo Amaro? O que era lá em Santo Amaro?

R – Lá eu era fiscal dos ônibus. Aí eu trancava com cadeado, vinha embora. Quando foi um dia, faltou o último carro, não tinha um motorista, eu digo: “E agora?” Quando eu contei, tinha doze passageiros, onze, acho que eram onze. Eu digo: “Olha, até chegar na garagem, vai passar em frente a ela e lá pega o motorista, tem que pegar para ir pro Belém. Lá que é chão, trinta e dois quilômetros daqui lá”. Eu digo “Vocês querem subir aí, sobe aí. Vocês vão pagar a passagem quando entrar o cobrador e o motorista, que eu vou lá, só até a garagem”. O pessoal entrou, eu de boné, engravatado, cabelo bem cortadinho, curtinho. Aí passei em cima daquela ponte do Socorro. Bola Branca brincou comigo, “Acende os faróis. Não é assim em cima de mim”. E a pessoa lá em baixo, eu só aprumei aqui e o ônibus passou e ele passou também. Ele deu sinal de luz e eu nem liguei, achei que era da área, fui encostando, encostando, encostando. Ele disse: “Que horas você largou?” “Larguei agora.” “Você não quer dar uma viagem no Belém, levar esses passageiros aí?” “Rapaz, chama aquele motorista lá, que ele ficou o dia todo sentado, de reserva”. Eu digo “Vem aqui, vou abrir a ficha para você. Leva esse pessoal e libera aí, quando ele descer, ele deixa descer”. Eu vim de lá, eu desci aqui no Brás, vinha aqui, dali eu ia direto pro meu quarto, na pensão. “Chega lá no Belém, aí se tiver passageiro você pega vinte reais, volta, dá um balão e vem embora. Não vai correr muito, não, devagar, é, tudo respeitado, direitinho”. Então, praticamente mesmo eu cuidava deles direitinho e dei uma hora e meia. O inspetor disse: “É, você deu uma hora e meia pro motorista? Bastava quarenta minutos. Eu digo: “O quê? O senhor ia pegar um carro aqui em uma hora, e ir ao Belém e voltar? Por meia hora você não ia.” “Eu não ia, não”, “Também não ia. Eu não sou habilitado, não, eu ainda trouxe os passageiros de lá perto da represa até aqui”. Abriram uma nova ficha, ele não tinha feito nem duas horas. Digo, “Você vai lá e volta”. Tava fechado. Digo, “Oh, que beleza, para garantir a semana”. A gente fazia aqueles bicos lá.

P/1 – Foi depois desse trabalho que o senhor virou pintor,então? Por que o senhor saiu desse trabalho?

R – Saí do trabalho por causa um pouco de acidente, né? Quase acidente. Não foi acidente não, não foi bem acidente, mas foi.

P/1 – O que aconteceu?

R – O ônibus fechou uma curva e eu tô em pé aqui, marcando uma tabuletinha aqui, marcando o relatório nosso, pequenininho, marcando a hora que eu entrei, o carro, de prefixo tal. O motorista entrou na curva, quase com dois pneus. Eu escapei da porta, assim, e bati os dois pés no chão. Menina, eu vi a morte, eu não esperava. Aí vinha um outro carro atrás lá, eu peguei o outro caro: “Encosta naquele carro na frente, lá”. Ele cortou, tava na frente lá, eu digo: “Pare”, ele parou: “Por que você fez aquela curva nos dois pneus? O carro tem seis pneus, por que você fez só com três pneus, dois atrás e um na frente?. O carro deitou assim e eu me esborrachei, chão abaixo. Rapaz, você é casado e não quer ser suspenso, nunca mais faça isso, heim. Tem que ir devagarzinho nas curvas”. Eu tava em pé, borrou tudo aquilo, foi melhor eu arrancar a folha e fazer outra. Eu quase que era acidentado.

P/1 – Aí o senhor parou.

R – Ah, era porque também, parei o serviço. Eu já tinha nove anos, sem nota vermelha. “José Cavalcanti de Araújo, comparecer ao escritório”. Fui eu, mais dois fiscais, três motoristas e um cobrador, tudo dispensado. 

P/1 – Mandaram vocês para a rua?

R – Foi, foi. Pagaram o meu direitinho e tudo, tá certo. 

P/1 – Aí o senhor saiu de lá?

R – Aí fui trabalhar de pintura.

P/1 – Como que o senhor entrou na pintura?

R – Entrei porque justamente eu tava com um amigo meu que era pintor e ele me ensinou. Seu Abel, esse que era meio bacana, era chefão, quase engenheiro ele era. Tinha caminhão, tinha tudo. “Zé Cavalcanti, eu vou para casa, você dá uma olhada na turma tudo direitinho”. Os caras tudo pintando lá, eu ia e olhava, tinha um defeito lá e aqui, riscava com o lápis e passava só a tinta ali para tirar. Noutro dia chegava seu Abel, “Tá bom, tá jóia”. Tava junto com os pintores. Quer dizer que eu tava assim, já mandando, mandando não, cumprindo as ordens do meu chefe. Quer dizer que eu aprendi assim, foi me ensinando: “Essa bisnaga aqui serve, a bisnaga preta no branco dá cinza; a vermelha no branco da rosa; a amarela dá ocre; o ocre da castanho”. E assim vai tocando, até doze, quatorze cores eu faço. Só que antes a gente fazia quatro tons de cores, quatro, uma só, quatro vezes quatro, dezesseis. Ele disse: “Fazendo doze à quatorze tá bom demais”. Fazia quatorze todo dia. Não era obrigado a fazer tudo, não, só quando pedia. A sala de aula, aqueles convênios das freiras, lá, eu pintei um hospital sozinho, pintei sozinho, aí chegou o doutor Alberto, olhou assim pro barbante, se encostou na parede, olhou assim, com o óculos dele: “Tá de parabéns Cavalcanti, pensei que o risco tava torto”. Tava torto o quê! Tinha visto, batia linha seguia a linha, pronto, eu trabalhei assim. Era um cara muito bom.

P/1 – O que aconteceu com ele?

R – Não, ele tá em casa. Ele mora aí no Jabaquara, tem um apartamento.

P/1 – O seu Abel?

R – Não, o seu Abel mora em Santana. O seu Abel foi embora da firma, pediu as contas da firma, tava cansado também, muita idade. Esse doutor que eu falei para você que me deixava tomando conta lá, no lugar dele, ele tem apartamento no Jabaquara, ele e a esposa dele, é todo chique mesmo. A gente, para pintar lá dentro, tirava o sapato, deixava lá fora. Ia só de meia, mesmo, ou sem meia. Põe até o jornal para pôr o pé em cima, para não sujar, para não riscar a bacia, qualquer coisa, qualquer móvel. Tirava, deixava tudo limpinho para entrar aqui dentro, se o cara vem com o sapato sujo de terra, risca, e a gente não era obrigado a... tinha que tirar o sapato.

P/1 – Ele que era o dono da firma?

R – Não, ele era dono do apartamento. Seu Abel pegou o apartamento dele e eu como ajudante. Era assim.

P/1 – Quando foi que o senhor parou de pintar?

R – Eu parei porque eu tive doente, né? Minhas ferramentas estão todas guardadas.

P/1 – Qual foi à doença que o senhor teve?

R – Eu tive doença que vou te contar! Quem me descobriu foi um médico, porque eu fui naquele passe aqui na Penha, não resolveu nada, fui no Pronto Socorro do Pari, me deram injeção nas nádegas e tiraram soro, melhorei um pouquinho. Agora, fui na Santa Casa, tirei sangue. Foi o único lugar que andou, foi o Tatuapé e a Santa Casa. A doutora lá, ela disse: “Moço, você está todo pintado assim, que aconteceu?” eu disse: “Eu não sei” “Você trabalha com o quê?” “Eu trabalho com tinta” “Com tinta?” eu digo: “É”. Porque quando não quer lavar com água, porque o esmalte não sai com água, sai com querosene, gasolina, "tinner", então eu pegava o "tinner" e passava, quando aquilo penetrava na pele, coçava, mas dava coceira! Menina, pelo amor de Deus! Pois é, eu sofri muito.

P/2 – O senhor teve alergia?

R – Deu, que nem alergia, alergia é fraquinha. Eu vou te mostrar só aqui: ó, ó o tanto que coçou, só daqui para baixo, para cima não tem nada. Coceira dá no sangue. Aí sabe o que o médico falou? “Ah, você trabalha em pintura? Você passou aguarrás, querosene?”. Foi gasolina que eu passei, eu comprava gasolina no posto, e passava para tirar aquela tinta esmalte pregada na pele. E aquilo foi inflamando para dentro, para dentro, e eu não sabia. E começou a coçar. É pior do que uma sarna. E agora? Daqui para cima não tem nada, não sinto nada. Mas eu cheguei a coçar que feria. Também, nunca mais.

P/1 – Aí o médico falou para você parar?

R – O médico falou assim: “O conteúdo que você passou aí foi aguarrás, querosene, gasolina”. Mas atestou em cima, e foi verdade. Eu não tinha nada para esconder. E a moça me falou assim: “É isso aí, você mistura as tintas com alguma outra coisa?” A moça ainda deu um rastreio, a doutora lá, da Santa Casa. E aqui no Tatuapé o médico falou: “Você passou querosene ou aguarrás”. Eu disse: “Passei”. “Pois é, ele penetrou na pele. Por isso que coça”. Coçar do sangue sair. Não podia comer carne de porco, que eu gosto, não podia, por exemplo, tomar nada de álcool, essas coisinhas. Aí eu digo: o que eu vou fazer então? Só café e chá, chocolate eu gosto também, é bonzinho, mas para isso aqui... Gozado, quando tava coçando, coçando, eu pegava assim uma torneira, esticava a perna aqui, jogava aqui em cima, puxava a calça e ela “pááá”, a água bem geladinha, passava que era uma beleza. Parece que o sangue tava fervendo. Dali a meia hora começava a doer de novo. Eu, água, antes de deitar, água de novo. Nem que tomasse banho e fosse para lá. Mas coberta quente, uma coisa quente... Aí eu ponho o pé debaixo d´água assim, basta molhar assim, pronto. Mas eu tomei tanto remédio, tomei remédio, o que eu usei de remédio, agora nessa eleição que passou, eu peguei remédio lá na Santa Casa e não paguei nada não, lá você não paga nada. Fui na chefia, ela disse: você vai lá com esse papel - essa mocinha que é médica - e entrega na portaria tal. Entreguei, ela disse: “O senhor vai na farmácia”. Eu disse: “Onde tem farmácia aqui?” Lá é grande também. Aí eu saí de a pé, assim, ela disse: “A farmácia é aquela lá”. Pequeno o predinho. Aí: “Quer levar um só?” “Não, vou levar os dois. É o que tá aí, o que tem que tomar tá aí”. Tomei os remédios, não senti mais nada. Mas tem hora que ainda vem aquela vontade de coçar, mas também não ligo.

P/2 – Aí foi por isso que o senhor parou de pintar?

R – Não, não é que eu parei de pintar. No Brás não sai mais serviço de pintura. Quando saiu, eu ganhava dinheiro. Teve o Sarney, que era presidente, ficou no lugar daquele que morreu, Tancredo, eu ganhei um dinheirinho com o Sarney, um dinheirinho, mas bem. Eu tava bem bonitinho de dinheiro. O Sarney... Quer ver foi o Sarney e o outro (pausa) Foi um presidente que quando o Sarney saiu ele entrou...

P/1 – Collor!

R – Eu esqueço o nome dele agora, é, tinha aquele general, aquele foi para trás, o Tancredo Neves morreu...

P/2 – Antes do Tancredo?

R – Aquele morreu e não tomou posse...

P/1 – Aí veio o Sarney.

R - Pois é, e teve um aí no tempo do Sarney. Ah! Collor de Mello, Fernando Collor de Melo. Aquele homem ali, eu digo para vocês, é um homem sabido, ele não é bobo não. Mas o Collor de Mello deu um chapéu no povo aí, que ele não podia fazer aquilo, pegou o dinheiro dos homens. Todo mundo tinha dinheiro lá, a poupança. E deu juro alto, juro alto, sei lá. Eu sei que no tempo do Sarney ganhei dinheiro, do Collor de Mello para cá não ganhei mais nada. Ganhei mixariazinha, duzentos contos para pintar um monte de coisa, trezentos, cem. Eu tô fazendo até por cinquenta, é um bico que eu faço no dia, mas quando aparece. E lá no Brás não aparece. Eu vou passando aqui, tá caindo látex em cima dos sapatos, sapato novinho, numa loja. Falei: “Ô, patrão”. Ele falou: “Ô, Cavalcanti, você não leva a mal, não. Eu não posso pagar um pintor, você trabalha bem - que ele conhece o meu serviço - Oh aí, eu não sei nem pegar na tinta”. Ele ao invés de pegar o rolo e fazer assim, e só passar o rolo, ensopar e levar para cima, só o peso do rolo aqui, não cai nada no chão, ele ainda virava o rolo. Quando levantava aqui, sujou um monte de sapato. Eu digo: “Para, para, para”. Eu fiz dois metros para ele, quadrados. E via se tinha algum pingo no chão, por acaso? E no sapato? “É, mas você é profissional desse ramo e eu não sou.” – ele é lojista. Ele ficava todo melado, a cara, as mãos! Eu cheguei e disse: “Não, é assim, assim. O rolo faz isso aqui”. Essas portas de madeira eu deixo elas todinhas bonitinhas, eu mudo o que a pessoa pedir. Pega o rolo e vai embora, o rolo pequenininho, de espuma, eu passava e ficava brilhando. O que se pedir, eu parado nessa rua aqui, eu faço.

P/1 – Mas aí acabou o serviço?

R – Daí para cá não peguei mais nada. Caí doente também, dois anos e tanto doente! A última pintura que eu peguei foi no Itamar, no tempo do Itamar eu ganhei uns troquinhos. E o Collor de Mello muito pouco. Agora para cá, menina, pelo amor de Deus, não ganhei nada! Que esse homem aí, que tá aí dentro, pode ser que faça um bom governo, mas tá muito devagar. Vamos esperar o tempo, né? Ainda tem muito chão para aumentar.

P/1 – Aí, quando o senhor foi ficando sem trabalho, o senhor saiu da pensão e foi morar nesse prédio?

R – Derrubaram o prédio! Quando derrubaram o prédio eu peguei minhas duas malas e saí. A minhas duas malas tão lá, roupa, tá tudo guardadinho lá, lá ninguém pode. É um estacionamento fechado, cadeado, escritorinho pequeno. Ele disse: “Pode deixar suas coisas ai. Não dá para dormir, que é muito apertado demais”. Eu tenho um metro e setenta, para dormir. Eu digo: “Vou ficar por aqui mesmo”. Dormi em cima de um caminhão duas noites, mas menina, o caminhão é ruim para dormir em cima! Aquela lona gelada, lona dura, e quando vinha um toró de água eu me cobria. Só escutava o trovão. Quando passava eu jogo ela ali, eu descia, tomava café no bar, que é aberto dia e noite, lá não fecha. Aí eu peguei e disse: “Quer saber? Agora eu vou dormir é aqui! Vou pegar as cobertas”. Rapaz, é um perigo. Eu falei com os guardas e eles: “Quer dormir aí, pode dormir aí”. Eles trabalham ali o dia inteirinho, de bicicleta, vai, volta... Eles fazem lanche num barzinho que tem lá também. Eu digo: “Eu não quero nada, que eu já jantei”. Aí fico ali sentado, fumando um cigarrinho, dali a pouco ele chega. Ele demora no máximo vinte minutos, já tá lá.

P/1 – E dorme mais alguém lá?

R – Não, só eu sozinho. Eu, a cadeira, que não é assim, eles estão aqui e eu estou aqui no meio, como daqui na escada que eu desci. Eu tô lá e eles estão aqui.

P/1 – E essas malas suas, eles tomam conta?

R – Não, essas malas estão no estacionamento, porque tem umas ferramentas de pintura e tudo, então eu não deixo na rua. 

P/2 – E para tomar banho?

R – Ah, eu tomo meu banho no Correio. Os caras do Correio são meus amigos. Banho quente, banheiro limpinho, caprichado. Eu chego lá e dou umas frutas para eles lá, entendeu? Eles são lá do Norte: “Pode tomar banho aí”. Todo domingo, sábado, eu tomo meu banho lá sossegado, sem problema nenhum.

P/1 – E aí o senhor come no bar?

R – No bar eu como, porque eu ajudo eles lá.

P/1 – E o dinheirinho, onde o senhor ganha?

R – Dinheiro eu não tô ganhando nada. Só a comida mesmo. Alimentação eu ganho: café, chá, chocolate, eles fazem tudo isso aí. Tudo o que quiser de lanche eu como.

P/1 – Agora, dinheiro então o senhor tá sem nenhum.

R – Dinheiro aí é novidade, não existe dinheiro não. É assim ó: dono de bar... a mulher dele ainda é boazinha, compra uns comprimidos para mim. 

P/1 – Mas para pegar remédio o senhor precisa de dinheiro?

R – Precisa sim, de uns trocados. É bom, porque a gente amanhece o dia melhor. Mas já é sábado, é dia daquela bagunça de forró. Mas tem mulher dançando ali! Dançando mesmo, mas requebrando até dizer chega. Ave Maria! Eu digo, não vou ficar aqui coisa nenhuma, vou lá pro bar. Tem umas mesinhas assim, eu sento na marquise do prédio. Lá tem um bar que tem suco de caju, tomo um suco de caju e fico só olhando elas dançarem. Mas dançam! Eu não sei como aquela mulher aguenta tanto repuxo de dançar. Porque a menina do cara não é curta, ela é comprida. Sai uma e emenda outra direta. Tem cara que dança passando a mão na cabeça uma da outra, assim. Uma vira outra vira. E ia direto. O salãozinho lá dentro tá cheio, para cá estão aqueles caras cheios... E elas dançando ali, dançando lá no meio, dança até na calçada. Tem hora que eles põe dez mesas na calçada lá fora e dez mesas do outro lado, aí pega aquelas mesas lá e põe no lugar que já tirou. Mas a cerveja sai, Ave Maria! Eles compram cerveja. Tá vendo? Em todo lugar é um e cinquenta, lá é dois reais. Ele tem que pagar o tocador, o tocador é cem pau. Sábado ele pega lá das duas horas e vai até as oito da noite, mas não pára não. 

P/1 – E as mulheres ficam muito lindas?

R – As mulheres, vixe Maria! Naquela 21 de Abril, ali em cima desce uns cardumes, cheios de mulherada dançando mesmo. 

P/1 – Mas bonitas?

R – Bonitinhas e novinhas. 

P/1 – Mas não dá para namorar?

R – Que? Namorar mulher de forró? Não, porque elas querem outra coisa. Elas querem cara que tenha dinheiro para gastar com elas. A gente não pode nem com a gente, vai gastar dinheiro com elas...  (risos)

P/1 – Eu sei que o senhor tá cansado, mas eu queria só perguntar, o senhor nunca mais voltou pra sua terra?

R – Não, pro Ceará não voltei mais não, porque é o seguinte: na minha cidade, é aqui a Mombaça, né? Daqui foi para Fortaleza, duas irmãs minhas, sobrinha, e uma casada. São três irmãs que eu tenho lá e a "sobrinhada". Tem um sobrinho meu fazendo advocacia. E a outra que é viúva, mãe desse rapaz que é estudante para advogado, acho que já se formou, foi morar em uma cidade que dá uma base de uns quarenta, cinquenta quilômetros, terra do queijo bom. Esse meu irmão mais velho casou em Pernambuco. Tá tudo espalhado assim, ó. Você não encontra para mim, ver o que na  cidade, só se for para pegar um documento meu lá. Posso adquirir um documento ali, qualquer coisa eu chego ali e tiro. Lá tem dois cartórios, mas procurar a família lá, não tem. Meu pai não tá mais lá; a finada minha mãe faleceu, minhas irmãs tão em Fortaleza, outra tá em Tauá, outro tá em Pernambuco. E tá tudo espalhado. Só tem meu irmão aí, no Bom Retiro.

P/1 – E o senhor sempre vê seu irmão?

R – É, eu tive lá faz uns dois meses. Ele tem assim uma vendinha lá, pequenininha, mas é só suco, só suco que ele vende. Suco e cigarro. 

P/1 – Mas quando o senhor ficou sem casa não pensou em ir pra casa dele?

R – Eu já tinha vindo de lá, quando chegou aí, chegou o recado para eu sair. Os outros já tinham saído já, uns três. Saímos em seis, oito pessoas.

P/1 – Aí o senhor resolveu não voltar lá no seu irmão?

R – Não voltava lá de jeito nenhum. Ele tava querendo construir, que ele tem um terreno lá em Capão Redondo, Santo Amaro, o metrô até vai passar lá perto. Mas ele ia construir de que jeito? Eu digo: “Você não tem dinheiro para construir não, rapaz. Não é assim, não. O cara pediu três mil reais”. Ele disse: “Não tenho isso tudo”. Agora ele mandou a prefeitura limpar, limpou direitinho, de esquina. Desce uma rua aqui, outra aqui. Tem feira, tem o coléginho da menina, para estudar assim, pertinho, lugar alto, bom. Mas cadê a verba para comprar o material, que é caro? Essas coisas. Eu digo, ó Chico, eu ia te dar uma força, mas do jeito que tô vendo eu vou embora, só dando despesa aqui dentro de sua casa. Tinha os móveis dele lá, e a mulher falou: “Você que ia pintar aqueles móveis?”. Peguei os móveis e fui pintando peça por peça, mesa, cadeira, armários, pintei tudo com duas demãos, com espelho. Ele chegou e disse: “Mas rapaz, um profissional que nem você, aí parado sem pintar!”. “Pintar o quê? As paredes do bar ninguém quer pintar não, rapaz. Não vê o homem, estragando lá a tinta e sujando o sapato dele todinho na loja? Que não pode pagar”. Então fica nessa luta. Dois anos doente e mais dois anos parado, quatro anos perdidos. Pronto, fazer o quê? Naquele prédio grande... é que você não tá lembrando. Antes de chegar, do barzinho para cá, tem ali os caminhões... aquele prédio de três andares, grandão. Seu Michel falou: “Cavalcanti, quando eu for pintar o prédio eu chamo você”. Tudo bem, quer dizer que ele vai me chamar. Mas eu vou saber quando ele vai pintar? Ele é ricão. Solteiro, velho, tem oitenta e tantos anos. Ele dirige o carro dele, não põe ninguém para dirigir, parece que tem medo do cara querer matar ele no caminho, dar uma brecada lá e matar o velho. Então ele mesmo dirige. Ele tem entre setenta e nove para oitenta anos. O nome dele completo é… Salim Abid Saad, é estrangeiro, é um velho bom. Eu troquei o pneu do carro dele lá. Eu digo: “Ih rapaz, deixa aí que eu troco”. Peguei lá, arrumei o macaco embaixo, e troquei o pneu dele lá. Ele é muito bom com a gente.

P/1 – Seu Cavalcanti, e agora, pensar para frente, qual é o seu maior sonho agora, que é que você queria que acontecesse com você agora? R – Sonho, eu não jogo mais em nada. Essas porteiras que tem por aí, para mim não vai. Jogo de bicho, também não jogo em bicho, é a maior marmelada do mundo. O meu sonho mesmo era possuir um dia uma casinha para mim, né? Ia até chamar a minha irmã, que é viúva lá, para ficar comigo. Tem os dois neto que ela cuida, é muito longe. Ter assim uma casinha, ao menos dois cômodos e cozinha era bonzinho para a gente. E plantar um quintal cheio de tudo. Eu tenho mão boa para plantar, eu plantando eu vejo o fruto, pode crer. É milho, é feijão, é mandioca, é cenoura, é coentro, é salsinha, o que eu plantar sai. Primeiro prepara a terra... A gente tava em Mato Grosso, eu tava para lá, vendia roupa feita, camelô, que eles chamam camelô, né? E as roupas feitas, tudo bom. Disse: “Aqui passa uns caras com uns artigos ruins. Olha o que o homem tá vendendo”. Vendi para um tenente do Exército. A mãe dele comprou e a filha dele comprou. Aí eu passando lá depois, ele marcou dia 5, quando foi dia 10 eu passei, falei: “Não, é que eu tava muito ocupado lá em São Paulo e me atrapalhei um pouco”. Fui trazendo aqueles fardos, tudo novo. Então eu só comprava coisa boa, da Mille. O que uma moça precisasse, uma senhora precisasse para ela, eu tinha. Uma coisa linda mesmo. Eu disse: “Mas rapaz, vender fiado para minha família aqui. O que é que tem?” Ele deu risada. “Quer almoçar?” “Não, obrigado”. Aí peguei ela, tinha a filha do seu Queiroz, que também comprava, trabalha em banco. Tudo gente boa, mas acontece que vim pelo Paraná, menina, o fiscal em cima de mim. “Tem um caboclo cabeludo que tá vendendo mercadoria aqui, eu tô sabendo que tá vendendo”. Eu vendia dentro dos hotéis, para não sair na rua para vender. Não é mole, não. Eu conheço o Paraná de ponta a ponta, quando eu entrei na rua. 

P/2 – Tá bom, seu Cavalcanti!

R - A vida é assim mesmo

P/1 – A vida ela é assim? Você acha que a vida ela é difícil, é dura?

R – A vida é conforme Deus quer, a gente tem que aceitar o que vem. Não pode é... por exemplo, querer se orgulhar, porque tem dinheiro querer fazer as coisas erradas. Aí tá tudo errado. De resto todo mundo sempre cai doente, uma pessoa sempre cai, uma gripe, uma doencinha mais leve, mas mesmo assim é ruim. Tem aquele ditado que diz: “Se a morte é um descanso, eu prefiro viver cansado”. E é verdade mesmo (risos). Então a gente tem que tocar o barco de acordo com a canoa que vai carregando na frente. Andei quatorze vezes em alto mar, pescando. Peixe... Eu e os colegas, até farmacêutico foi com “nóis”. Passou a Marinha, aqueles caras tudo troncão, fortão: “Alguém passando mal aí?”. “Não”. “Se passar mal fala com a gente aqui”. “Não, muito obrigado”. Eles têm hospital que carrega a pessoa que tá passando mal. Mas ali dentro nós estávamos tomando caipirinha, temos medicamentos, tem beliche para deitar um pouco. E tome linhada, e tome peixe, mas peixe que só! Pegamos bastante. Eu mesmo fui o quarto colocado. Teve um caboclo lá que pegou o dobro de mim, outros pegaram mais. Só tem um rapaz que parte o peixe todinho, ele pega graúdo, graúdo, graúdo. Ele conta as pessoas: “Oito? Oito! Monte graúdo, depois outro monte médio, em cima daquele lá peixe mais pequeno. Tira o seu, tira o seu, tira o seu. Cada um pega o que puder pegar. É o cara, ele parte o peixe direitinho. Aí vem: “É, aquele peixe maior foi o prêmio”. “Não, deu três quilos e meio pro japonês, ficou todo alegre, deixa levar”. Lá, para aquelas pessoas ali, eu dava peixe para eles lá, um para um, outro para outro, dois para outro. Pelas famílias, as pessoas que tinha na casa, né?

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