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História

Se a canoa não virar, eu chego lá

História de: Antonio Pastori
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Em seu relato, Antônio Pastore conta sua experiência no BNDES trabalhando na análise de projetos, também relembra o dia que estava atravessando o Rio Tapajós para conhecer o projeto de uma empresa de mineração quando o barco que o transportava furou e acabou afundando. Ele e a equipe conseguiram sair da situação com segurança, chegaram ao destino final e ainda conseguiram fazer o trabalho designado.

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História completa

P/1 - Bom, eu queria pedir para o senhor fazer a sua identificação, seu nome, local e a data de seu nascimento?

 

R - Tá. Antônio Pastore, eu trabalho no BNDES desde 1986, na área de análise de projetos, eu sou natural de Petrópolis, nasci em 1953, portanto estou com 49 anos, sendo que de BNDES eu tenho 16 anos.

 

P/1 - Bom, você falou quando você entrou, como você entrou no BNDES?

 

R - Eu entrei no BNDES, através de concurso público. Eu já tinha uma noção, já sabia o que o BNDES fazia e eu tinha interesse de vir trabalhar no Banco, em função da atividade dinâmica de visitar empresas, de apoiar novos empreendimentos, de conhecer o Brasil. Então, eu me interessei muito em fazer o concurso do Banco. Fiz concurso público em 1984, fui admitido em 1986.

 

P/1 - E na sua área, o que você faz exatamente?

 

R - Tá. Eu sempre trabalhei, desde que eu entrei no BNDES, na área de análises de projetos e, especificamente, na área de mineração e metalurgia. O nosso trabalho consiste em analisar o pleito de uma empresa, esse pleito normalmente refere-se a um pedido de financiamento para expansão de uma planta industrial, para instalação de uma nova planta, para modernização. Então, o nosso trabalho sempre foi de analisar o projeto, que se chama estudo de viabilidade econômica e financeira. Ver se a empresa tem capacidade de pagamento, analisar se o projeto é meritório dentro da política de desenvolvimento do Banco e, no final, nós montamos um relatório. Esse relatório é encaminhado à diretoria do Banco para aprovação e concessão do financiamento à posteriori.

 

P/1 - Tem algum projeto que você tenha participado, alguma empresa que você tenha analisado, que o Banco tenha investido dinheiro, que você considere a sua participação importante, fique feliz por isso?

 

R - Sim, sim, eu poderia citar vários, como a expansão da MBR, é uma empresa de mineração, instalada aqui, em Minas Gerais. Nós financiamos a expansão da Mina do Pico, a Mina de Águas Claras e a Mina da Mutuca também. Eles têm um terminal aqui, próximo a Ilha de Sepetiba, nós financiamos toda essa expansão. Está até um projeto da Albrás, uma das maiores produtoras de alumínio do Brasil, nós financiamos a expansão dela. A fábrica de alumina da... Esqueci o nome da empresa, da Alunorte, também no Pará, um insumo muito importante para o Brasil, que o Brasil importava esse insumo. E, graças ao financiamento dessa empresa, nós deixamos de importar alumina. Alumina é um insumo fundamental na cadeia de fabricação do alumínio. E outros projetos menores, como a primeira fábrica de lata de alumínio do Brasil, que foi a Latasa. Nós financiamos, desde a primeira expansão em Pouso Alegre, financiamos a fábrica de São Paulo, a fábrica do Rio de Janeiro, a fábrica de Recife e acabamos de financiar recentemente a nova unidade deles, no Rio Grande do Sul.

 

P/1 - E todas essas empresas, você foi até elas? A grande maioria, você viajou muito?

 

R - Sim, sim, nós sempre viajamos. Uma coisa que é fundamental no nosso processo de análise é você conhecer, in loco, o processo operacional, o que a empresa faz, como ela está organizada, como é o ambiente organizacional dessa empresa e o processo produtivo. Então, nós sempre visitamos as empresas.

 

P/1 - E você tem alguma memória legal para contar?

 

R - Eu tenho uma história bastante interessante, principalmente para aqueles que imaginam que a vida de um técnico do BNDES consiste em pegar avião, na ponte Rio-São Paulo, ficar em escritórios com ar condicionado das empresas. Não, a nossa área, a área que eu trabalhei durante 18 anos, 16 anos, que foi a área de mineração e metalurgia, nós tínhamos frequentemente viagens ao interior do Brasil, interior da Selva Amazônica, interior do Pará, do Amapá. Em uma dessas viagens, nós estávamos visitando um projeto de uma empresa de mineração, que queria desenvolver uma lavra de ouro, em processo industrial. E o que aconteceu de interessante nesse processo é que eu, o nosso chefe na época, o Wagner Bittencourt e mais dois técnicos, Mário Micheli, Eduardo Cestare, fizemos a viagem do Rio até Itaituba, no Pará. Essa viagem foi feita num Air Jet da empresa, no maior conforto, digamos, na maior mordomia. Quando chegamos a Itaituba, o deslocamento de Itaituba até onde tinha essa ocorrência mineral, que se encontrava no Rio Tapajós, só podia ser feita de barco. E nós entramos no barco da empresa, não era um grande barco, o que eles chamam de "voadeira". Voadeira é uma lancha de metal, é um barco de metal de 10 metros de comprimento, mais ou menos. Além de nós quatro do BNDES, havia dois diretores da empresa e o barqueiro. Essa barca estava carregando muito material para a empresa. Problemas de navegação naquele trecho, não havia uma navegação regular, então se procurava maximizar qualquer viagem que fizesse para aquela região, levar o máximo possível de material. E a empresa estava levando, além de nós, o combustível, bombas, equipamentos. O barco estava muito pesado. Naquela época, o Rio Tapajós estava num período de pouca chuva, então as pedras estavam muito afloradas na superfície. Nós ficamos um pouco preocupados porque da margem, do ponto que nós estávamos sentados do barco, da quilha até o nível de água era um palmo de diferença. Então, qualquer oscilação faria com que entrasse água. E realmente isso aconteceu. À medida que nós fomos nos deslocando pelo Tapajós, no sentido montante, começou entrar água dentro do barco. Como se não bastasse, o motor falhou. O motor falhou, nós ficamos à deriva e foi entrando água, foi entrando água. De repente, todo mundo se apavorou e, no momento que nós levantamos, levantou todo mundo, o barco perdeu o equilíbrio, ele virou, literalmente virou. Todos nós caímos dentro do rio, o equipamento foi todo perdido e nós ficamos cerca de uma hora à deriva e, para vocês terem uma ideia do Tapajós, ele tem, mais ou menos, uns 900 metros de largura. Nós ficamos exatamente no meio e a correnteza puxava muito, então nós ficamos à deriva, nos dispersamos, mas, graças a Deus, conseguimos parar num banco de areia no meio do rio. E mais tarde, umas duas horas depois, outra voadeira que passava no local, nos socorreu. Aí, você poderia nos perguntar: "Bom, a viagem de vocês terminou aí. Vocês voltaram para Itaituba para o Rio de Janeiro." Não, aproveitamos que nós estávamos, mais ou menos, perto, umas três horas do ponto que a gente ia visitar, continuamos a viagem, visitamos o projeto, fizemos todo o contato necessário. Apesar desse imprevisto, desse incidente, graças a Deus, ninguém morreu, mas nós fomos lá ao local, cumprimos a nossa missão. Conseguimos coletar material para fazer análise do projeto, que felizmente, não foi aprovado, porque a questão da segurança foi um aspecto que pesou muito na análise da empresa, e por essa falha, na segurança, no deslocamento, nós olhamos com mais atenção à segurança do empreendimento, era muito falha. A mina que estavam perfurando, parecia uma mina daquela do Velho Oeste, aquelas galerias muito mal estruturadas. Então, o Banco realmente não concedeu financiamento para essa empresa.

 

P/1 - Isso foi em que ano?

 

R - Isso foi em junho de 1987.

 

P/1 - O senhor tinha acabado de entrar no...

 

R - Eu tinha entrado no Banco em 1986, exatamente, um ano depois.

 

P/1 - E me fala uma coisa assim, o que é... Assim, fora dessa história, o que para o senhor é o BNDES?

 

R - Olha, o BNDES, em primeiro lugar, ela é uma grande escola, é um local que se você quiser conhecer o que é o Brasil, como funciona para o Brasil, como se dá o processo de desenvolvimento, não existe melhor local porque aqui nós lidamos com toda a economia, está toda a economia do Brasil, todo tipo de atividade é estudada, é analisada, é conhecida aqui dentro. Segundo lugar, o Banco é uma grande família, um ambiente de trabalho excelente, até hoje, eu só fiz amigos aqui no Banco. Então, é uma experiência muito gratificante, tanto que é o emprego que eu mais permaneci até hoje, foi o BNDES. Eu já tive uma experiência anterior, trabalhei em outros locais, antes do BNDES, mas aqui foi o local que eu mais me identifiquei, pelo ambiente, tipo de trabalho e pela importância para o desenvolvimento do país.

 

P/1 - E para finalizar, eu queria perguntar, como você se sente de ter participado dessa entrevista e por ter contribuído para o projeto de 50 anos do BNDES?

 

R - Eu agradeço essa oportunidade de poder deixar um registro para gerações futuras, quero parabenizar a diretoria do Banco e vocês pelo brilhante trabalho de registrar a memória do Banco, porque uma das falhas que a gente percebe no Brasil é a escassez do registro do passado, a despeito de outros países que sabem cuidar muito bem do seu passado, cultuam, reverenciam o passado como uma forma de levar para o presente os valores importantes do passado. No Brasil, até então, isso não vinha sido tratado com cuidado. Nós podemos citar um exemplo que é comum de todo mundo, a questão da ferrovia no Brasil. Ela teve uma importância fundamental no desenvolvimento do país, o próprio BNDES apoiou as ferrovias, ou a expansão da Central do Brasil e outros mais. Hoje, não existe uma memória ferroviária para se contar a história desse meio de transporte pioneiro, que vai comemorar 150 anos agora, em 2004, e foi um dos vetores mais importantes para o desenvolvimento do Brasil. Eu diria, para finalizar, a importância do desenvolvimento do Brasil se deve, em primeiro lugar, as ferrovias, o pioneirismo há 150 anos. Segundo lugar, o BNDES que está alavancando tudo isso aí.

 

P/1 - Bom, obrigada, queria agradecer essa entrevista.

 

R - Obrigada a vocês.

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