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Saúde Pública e Educação

História de: Maria Augusta Ardenghi Balsan
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/12/2004

Sinopse

Maria Augusta Ardenghi Balsan nasceu em Rodeio Bonito, Rio Grande do Sul no dia 7 de dezembro de 1961. Em sua entrevista, nos conta sobre as origens de sua família, as tradições culturais da região, sua infância e a vida escolar. Fala também sobre o porquê de ter escolhido se formar em Enfermagem, sua trajetória na profissão e de sua admissão no Programa de Agentes Comunitários de Saúde, trabalho que lhe marcaria para sempre. Se orgulhando muito do cuidado que consegue fornecer às famílias que precisam. Maria Augusta nos conta bastante sobre o início desse trabalho, as maiores dificuldades, ganhos e mudanças que têm observado no trabalho com Agentes na comunidade.

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História completa

P/1 - Maria Augusta, vamos começar com você fazendo uma apresentação sua. Seu nome completo e onde você nasceu.

 

R - Então, tá. Meu nome é Maria Augusta Ardenghi Balsan. Eu sou enfermeira, trabalho aqui no posto de saúde de Rodeio Bonito, nasci em Rodeio Bonito, em 7 de dezembro de 61.

 

P/1 - Tá. Agora vamos conversar um pouco sobre suas origens...

 

R - Tá.

 

P/1 - ...falar sobre seus avós. O que você sabe da origem das suas duas famílias, por parte de mãe e de pai?

 

R - Tá. Por parte de meu pai, eu sei que a vó contava que eles vieram que... Assim, ela era de Portugal, a minha avó avó, a mãe da vó. Do meu avô já eram de italianos. E depois vieram pro Brasil, né? E ela não falava muito de outros países assim, como a da minha mãe. E daí ela falava que vieram morar em Palmeira, contava assim essas histórias mais de lá. Mas da minha mãe, eles falam muito da Itália. Aquela coisa italiana, né? Daí o vô e a vó contam que os pais deles vieram da Itália, e contam histórias assim de saudade, das montanhas, né, gostavam muito do vinho. Tinham bastante tradição de italianos.

 

P/1 - Você sabe de que região eles vieram?

 

R - Eu acho que eles vieram do sul da Itália.

 

P/1 - Do sul da Itália.

 

R - Hum, hum. Porque pelo que eles contam assim, que a mãe fala, às vezes, né? Mas depois eles faleceram, daí a gente perdeu o contato. Eles falavam em italiano. A mãe sabia falar italiano! Mas nós não aprendemos a falar.

 

P/1 - E eles se radicaram onde, aqui no Rio Grande do Sul?

 

R - Daí eles foram para Ricarda, que é Arvorezinha, perto de Porto Alegre. Até não é tão longe de Porto Alegre, mas é região montanhosa. Uma região assim, bem onde os italianos gostam de ficar.

 

P/1 - Sei.

 

R - Né? E eles cultivavam toda aquela tradição do queijo, do salame. De manhã cedo, do ovo frito! Tudo isso eles cultivavam bem bastante. Mas depois a mãe, junto com o pai, perdeu bastante este contato com essas raízes dela. Desde falar italiano, o pai não falava, né? E a mãe achava assim que não era bom ensinar a nós, então ela não nos ensinou a falar. Mas eu tenho uma irmã que foi agora, (riso) tá lá morando faz três anos. E adora! E ela liga pra cá, e ela fala com nós como se ela... Ela pensa em italiano, e daí ela não consegue mais lembrar como é pensar em... Daí ela demora um pouco pra falar conosco. Ela gosta de lá.

 

P/1 - (riso) Sei, sei.

 

R - Ela foi até por motivos religiosos. Ela é da Mariápolis, uma... E ela tem muitas amigas que são também, assim. Ela é terapeuta ocupacional e está trabalhando lá. Gosta de lá. De repente são as raízes dela.

 

P/1 - É. Foi de volta lá.

 

R - Ham, ham. (riso)

 

P/1 - Agora, você conheceu seus avós, não?

 

R - Tá. Os paternos e os maternos. Conheci todos.

 

P/1 - E você os conheceu já na região onde você nasceu, aqui em Missões, né? Palmeira das Missões, não é isso?

 

R - É, foi por aqui, foi já aqui que eu conheci eles.

 

P/1 - Então seus avós vieram de lá, da região de Arvorezinha, pra cá, pra Missões...

 

R - É, isso.

 

P/1 - ... e se estabeleceram ali.

 

R - Não, os da mãe vieram direto pra Rodeio.

 

P/1 - Vieram direto pra Rodeio?

 

R - Pra Rodeio Bonito. E daí...

 

P/1 - E os seus pais já eram radicados direto em Missões?

 

R - Em Palmeira das Missões. Daí depois que eles vieram pra cá. Vieram depois dos meus avós maternos, até. E daí meus avós maternos tinham fábrica de... Eles chamavam de gasosa (riso), de refrigerantes e tal, aqui. Mas depois não deu certo, então... É uma família bem legal, assim...

 

P/1 - É isso que eu ia perguntar.

 

R - ...bem unidos eles eram, sabe? Até hoje. Até a gente...

 

P/1 - Seus avós que tinham fábrica de gasosa, quais eram?

 

R - Eram os avós maternos.

 

P/1 - Maternos?

 

R - Hum, hum.

 

P/1 - Aqui em Rodeio Bonito?

 

R - Aqui em Rodeio Bonito.

 

P/1 - Ah, que interessante!

 

R - Ham, ham. E daí, e depois, daí... Até hoje eles são uma família assim, aquela coisa de italiano, mesmo. Se encontram, todo mundo se beija, se abraça, se adoram, se telefonam, se escrevem, tão sempre se encontrando, porque todo mundo se gosta, mesmo. Já eu noto que na parte dos meus pais - também são falecidos - eles eram um pouco diferentes neste sentido.

 

P/1 - Mais fechados?

 

R - Mais fechados. Toda a família é mais fechada.

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - Mas da mãe, não. É bem diferente assim.

 

P/1 - E o que faziam seus avós por parte de pai?

 

R - Tá, por parte de pai, o meu avô era escrivão de cartório, sabe?

 

P/1 - Sei.

 

R - Não tinha formação, que nem hoje tem de ser advogado, eu acho. Mas ele não, ele sempre foi assim. Ele era muito respeitado na cidade, o seu Uité.

 

P/1 - Seu Uité.

 

R - Daí teve dois filhos médicos, um agrônomo, e o pai, que é professor. Um foi pra Brasília morar. Trabalhou no Ministério. Aí ele faleceu, que é agrônomo. E tem dois médicos. Um que mora aqui, em Rodeio, e outro mora em Palmeira das Missões.

 

P/1 - Ah, está certo.

 

R - E daí o pai.

 

P/1 - Então você tem um tio aqui?

 

R - Tenho um tio aqui em Rodeio. Médico. Às vezes a gente não se acerta muito nas ideias, mas... (riso)

 

P/1 - (riso)

 

R - ... Mas a gente até se relaciona bem, assim, sabe?

 

P/1 - E como é que foi essa migração dos seus avós? Seus avós que vieram, então, de Missões pra cá, ou foi seu pai?

 

R - Não, foi meus avós que vieram pra cá.

 

P/1 - Pra Rodeio Bonito?

 

R - Pra Rodeio Bonito. Daí...

 

P/1 - E por que motivo?

 

R - Ele veio por causa de serviço.

 

P/1 - Do cartório?

 

R - Do cartório. Ele achou que esse emprego era bom. A avó também trabalhava com ele. Então, ele achava que era bom.

 

P/1 - Então ele se estabeleceu com cartório aqui em Rodeio Bonito?

 

R - Aqui em Rodeio Bonito.

 

P/1 - Lá em Missões ele já tinha cartório, não?

 

R - Não, lá o avô, o pai do meu avô tinha fazendas, assim, terras, né?

 

P/1 - Ah, sei. O pai do seu avô?

 

R - É.

 

P/1 - Ah, está. Então o seu avô cresceu lá também como um agricultor?

 

R - É.

 

P/1 - Com terras, estabelecido?

 

R - Isso, com terras. E daí, depois, ele veio pra cá com o cartório.

 

P/1 - Sei, sei.

 

R - Hum, hum.

 

P/1 - E o seu pai? O que você sabe da história pessoal dele? Ele começou, já se formou com o objetivo de fazer História, ser professor de História?

 

R - Hum, hum. Sim, eu acho que ele amava a profissão, que nem eu. Porque, ele primeiro assim... Ele... Os outros, todo mundo... Ele foi o mais velho, mas ele não, ele não gostava muito de estudar, que nem... Aquele tempo não era muito incentivada essa parte, então ele quis casar.

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - Se apaixonou logo pela mãe, assim, e o avô, não é que ele fosse contra, mas ele dizia: “Ah, por que tu não estuda?” Mas ele disse: “Não, eu quero casar.” E foi morar com a minha avó e meu avô. Daí, daí depois que ele se formou. Ele foi professor, mas sem se formar. Daí depois ele foi, fez a faculdade, já casado. Nós já tinha...

 

P/1 - Faculdade de História?

 

R - Faculdade de História. E daí quando nós já era bem mais adultos que ele fez, fez então a pós graduação dele. Eu já era formada quando meu pai fez pós-graduação.

 

P/1 - Olha!

 

R - É

 

P/1 - E ele dava aula aqui...

 

R - E ele dava aula aqui.

 

P/1 - ...  No segundo grau?

 

R - No primeiro grau, no segundo grau. Depois ele só ficou com o segundo grau. Ele foi diretor!

 

P/1 - Da escola?

 

R - Da escola de segundo grau. E ele, assim, todo mundo questionava pelo fato do pai não ter outra profissão junto com professor.

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - Mas ele não, ele sempre gostava disso. E ele lia. Ah, ele gostava muito de fazer discurso pros políticos!

 

P/1 - (riso)

 

R - Ele não... (riso) Ele gostava muito da política, ele gostava... Mas ele...

 

P/1 - E ele fez política?

 

R - Mas ele nunca fez... Ele trabalhou na Prefeitura, um tempo. Não sei se ele se decepcionou, saiu. Daí, não falava muito com nós essa história. Mas ele... Daí, quando vinha autoridade, sempre procuravam o pai pra fazer o discurso. Eu tenho discurso guardado dele, lá.

 

P/1 - Sei.

 

R - Sabe? A foto com o discurso. Bem lindo o discurso dele, assim!

 

P/1 - Você disse que ele era da Arena, ligado a Arena?

 

R - É, (riso) ele era ligado a Arena. (riso) Ele era muito PDS, Arena, contra o Brizola.

 

P/1 - Contra o Brizola? (riso)

 

R - Aquele tempo, eu lembro que ele falava mal do Brizola. (riso)

 

P/1 - A favor, então, do regime militar?

 

R - Pois é! Isso que eu acho engraçado. Ele vivia lendo, mas depois com o tempo ele foi mudando um pouco.

 

P/1 - É?

 

R - Hum, hum. A gente notava assim que ele não era tão a favor. Porque era assim ó, ele sempre ele tinha um livro na mão. Livro de história. Sobre a Bíblia, eu acho que faz parte da história, sabia tudo! E, ah! Ele era meu ídolo! Sempre foi. (riso)

 

P/1 - (riso)

 

R - E coisas assim. Ele sabia tanto, sabe? Tudo. Ele era assim: a gente assistia um filme, não entendia alguma coisa: “Pai, como é que é isso?” E ele: “Ah, já vem o porquê.” Meu apelido sempre foi o Porquê, né? 

 

P/1 - (riso)

 

R - Mas nós confiava muito nele, assim. Na sabedoria dele, sabe? Então a gente sempre lia muito, por causa dele. Sempre a gente tinha um livro pra ler também, que nem ele, né? Ele era bem o nosso ídolo, assim.

 

P/1 - E você, que memória você tem da sua infância? Você sempre cresceu aqui,...

 

R - Hum, hum.

 

P/1 - ... Viveu a sua infância, tal. Como é que era a cidade naquele tempo, o que é que mudou?

 

R - Ham, ham.

 

P/1 - Que memória você tem assim das coisas que você fazia, no período da infância?

 

R - Ah!,Na infância, assim, nós, a gente jogava bolita, trepava em árvores. (riso)

 

P/1 - (riso) O que quê é bolita?

 

R - (riso) É gude, bolinha de gude.

 

P/1 - Bola de gude. (riso)

 

R - (riso) Eu fazia isso. Eu era muito tipo guri, mesmo, assim, né? E as minhas atividades era mais com a piazada, todo mundo junto, né? E, mas o que mudou, mudou bastante, assim, o que a gente nota que sempre tinha os donos da cidade. Como é engraçado isso, né? E eles vão mudando, né? Eles vão perdendo o poder, pelo poder aquisitivo, né? E daí agora já são outras pessoas que vem. Aí vem, tipo assim, instituições como o Banco do Brasil veio depois, agora não tem mais. Veio o Banrisul. Foi mudando as pessoas que chegaram, né?

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - E também que tomaram um pouco do poder da sociedade.

 

P/1 - Quem que tinha o poder antes,...

 

R - Tinha o poder assim...

 

P/1 - ... Era quem tinha terra?

 

R - É. Quem tinha terra e quem tinha comércio. Os Acadrolli. Hoje ainda eles têm esse poder, mas... Mas uma coisa que eu noto, aqui em Rodeio, é que agora que tá mudando assim aquela coisa do ser, e não do ter, sabe?

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - Cidade pequena, assim. Era mais valorizado... Por isso que, às vezes, eu não sei se o pai não se sentia assim. Ele não falava pra nós. Mas, de repente, ele não era valorizado pela sabedoria dele.

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - Né? Porque ele não tinha... Nossa, todo mundo a gente se formou!

 

P/1 - Não era rico?

 

R - Não era rico.

 

P/1 - Não tinha dinheiro?

 

R - Não tinha posses, né?

 

P/1 - Não tinha posses.

 

R - E a gente se formou tudo com...

 

P/1 - Com o salário dele de...

 

R - ... com o crédito educativo. Todas nós. Não precisava nem mentir pra conseguir crédito. Nós conseguia sempre.

 

P/1 - (riso)

 

R - Porque era (riso) era ele e a mãe, eram professores, né? Mas todo mundo lá em casa, todo mundo se formou. E assim, nível superior, né? Então essa é a história! Uma coisa que eu noto é isso. Que mudou bastante assim, o poder vai mudando, né? Têm pessoas que vão chegando. Daí não é sempre aquelas que mandam sempre, as mesmas.

 

P/1 - E foi uma infância, uma juventude difícil, por um ponto de vista econômico, o seu pai sendo professor?...

 

R - Foi.

 

P/1 - ... Porque, geralmente, o professor não ganha tão bem, no Brasil, né?

 

R - Foi bem difícil. Eu lembro assim. E a mãe... Não, mas o avô, a avó, ajudava nós bastante. Os meus livros de faculdade tudo foi o vô que pagou. Mas, mas, eu lembro que a gente mudava bastante de casa... (riso)

 

P/1 - (riso)

 

R - ... A mãe tentava reformar a casa, assim, sempre, né, pra melhorar um pouco. Nós éramos em cinco irmãos, né? Quatro meninas e um rapaz. O rapaz até a vó que ajudou criar. E... Mas era difícil, mas ao mesmo tempo, a mãe sempre ela trabalhava bastante pra gente conseguir ter uma boa posição. Nunca me senti, vamos dizer, inferior. Não, a gente era bem conceituado, a gente participava de tudo que é coisa, assim. Teatro, dança, sempre nós tava no meio. Dizer poesias na praça, isso acontecia bastante. Sempre a gente era assim as primeiras que tava lá, né? E a gente se destacava bastante na escola. De repente foi com isso que a gente não se sentia, né, marginalizado, ou inferior a nada. Nós não tinha isso, né, de complexo, assim.

 

P/1 - Sei.

 

R - Agora que eu, olhando pra trás, eu, às vezes, eu vejo que o pai pode ser que ele tivesse tido essa sensação assim. Mas, com nós não. Nenhuma, assim, que a gente saiba, que deu algum problema, assim. Na escola a gente sempre foi bem, né?

 

P/1 - E você se lembra quais eram as festas, as coisas mais tradicionais da cidade?

 

R - Eu lembro.

 

P/1 - Como é que era a vida mais social?

 

R - Tinha a festa de São João. Eles faziam muito casamento caipira, que não é típico da região, né?

 

P/1 - Não?

 

R - Mas... Não sei, não é bem do Rio Grande do Sul, mas tinha isso aqui. Eu lembro. Tinha o... Ah, uma coisa, que é Semana Farroupilha! Desde aquele tempo, que daí é, né, bem a coisa da Semana de Setembro. Ali a gente sempre se vestia de gaúcho. A gente ia na aula vestido com aquele vestidão! (riso)

 

P/1 - (riso)

 

R - (riso) Os guri iam de bombacha, de bota. Então isso, sim. Isso eu lembro da minha infância. Era essa festa. E os bailes! Um baile por ano, dois por ano, assim, que tinha. Que todo mundo ia, daí, né? Baile da Paróquia. E a festa da paróquia. Isso é uma coisa que sempre. Nossa Senhora dos Navegantes, em fevereiro, e em julho... Que tem o padroeiro e a padroeira.

 

P/1 - Sei.

 

R - (riso) Padroeiro é Santo Antônio e padroeira é Nossa Senhora dos Navegantes. Então essa festa é tradicional. Daí tem festa, tem desde de manhã até de noite tem festa. Tem churrasco do meio-dia, né? De tarde é mais pros jovens e reunião dançante, bingo!

 

P/1 - Você é a mais velha, não?

 

R - Da minha... Tem o meu irmão, que é mais velho, que daí ele não teve muito... Ele se criou mais com a vó...

 

P/1 - Sei.

 

R - ... e das irmãs, das minhas irmãs, eu sou a mais velha.

 

P/1 - Certo. E você tem memória de problemas de saúde, de doença, ou na cidade, de alguma epidemia, ou na sua família, que tenha te marcado, que você se lembre nesse período de infância, adolescência?

 

R - Não, não. Sim, epidemias normais. Eu lembro, tipo, do sarampo, assim. Quando deu sarampo. A mãe colocou nós, todo mundo, num quarto sabe? Eu lembro que nós passava assim: eu e a minha irmã mais, logo depois de mim, nós passamos junto o sarampo, a mãe botava nós no quarto, nós brigava. (riso) Ai! Eles fechavam a gente, sabe como é que é? Então é bem bom agora saber como é as coisas, e orientar a mãe. A gente tem vivência, né? E daí a gente brigava, se arranhava. (riso) Imagina o dia inteiro dentro do quarto? Fazia guerra de travesseiro! Até que a mãe não aguentava, às vezes, e largava nós antes da chamada dieta, que eles chamavam. Tinha que fazer a dieta. Isso eu lembro assim. Mas nenhuma doença grave que eu lembre assim que marcou nós, lá em casa, não.

 

P/1 - Nem em família, nem lá na região?

 

R - Não. Não, não tem.

 

P/1 - E como é que a enfermagem surge na sua vida? Por que você se dirige para a enfermagem?

 

R - Pois é! Às vezes eu me pergunto, mesmo. Porque, de repente, foi porque meus dois tios são médicos, e eles eram meio ídolos da gente, né?

 

P/1 - Sei.

 

R - Mas, daí eu não passei no vestibular de Medicina. Mas, tá. Daí, eu fiz, naquele tempo, tinha psicotécnico, eu fiz e eu fui elogiada até pelo psicólogo lá em Passo Fundo. Ele disse: “Não, tu tem dons pra isso.” Mas eu fiz e, quando eu comecei a trabalhar no hospital, que tinha que fazer estágio, eu senti assim que não era bem aquilo que eu queria. Mas depois quando chegou a parte de estudar saúde pública, que foi quase no fim - e junto com isso nós tinha que fazer licenciatura plena, junto - e eu senti, eu gostei de dar aula. Então eu gostei da parte da educação. Fui muito bem no estágio! Tirei 9,5, e gostei da parte de saúde pública. E de quando eu saí de lá eu fui pro hospital. Porque era normal. Faz enfermagem, medicina, tu vai pro hospital. Porque a saúde pública, até então... Hoje que tá sendo reconhecida, né? Mas depois quando eu vi, que começou a surgir a reforma sanitária, comecei a entrar em contato com outros técnicos que estavam com vontade de fazer essa reforma na saúde, o SUS [Sistema Único de Saúde], que no começo não era SUS, era AIS [Ações Integradas de Saúde], o nome... Então eu vi que era ali o meu chão. Eu vi que não era por nada que eu tinha feito, né? Mas mesmo dentro do hospital a gente fazia aquela parte de orientação com as pessoas. Mas tu não conseguia ver o que ela fazia na comunidade dela. Mas no momento que eu entrei, então, a conhecer... Não entrei ainda em saúde pública, mas comecei a saber como é que era saúde pública, eu já tive aquela intenção de trabalhar. Mas eu não podia sair de Rodeio. Pelo casamento, pelo, né, por um monte de coisa. Então, daí surgiu essa oportunidade de fazer concurso. Mas eu estudei que nem louca, né? Daí veio o Décio fazer, mas aí eu tirei o primeiro lugar. Mas eu estudei tanto, também. Eu sabia a matéria, sabe? Daí, daí eu comecei a trabalhar. Ah, daí vieram as coisas boas e as coisas ruins, no começo, né? O prefeito que não entendia! O primeiro prefeito... Eu entrei pela Simes, não era bem pela prefeitura. Trabalhei um ano, daí o prefeito anulou o concurso. Fiz outro, mas passei de novo, né? Porque as ideias da gente, às vezes, não bate muito bem com aquela diretoria que tem! Mas foi bem bom. Daí, logo depois eu comecei a ... Aí, assim, ó, uma coisa me marcou bastante no meu trabalho: logo que eu comecei, eu comecei ver, eu tinha que inventar coisas! Isso era uma coisa boa. Eu gosto de criar. E daí eu me sentia livre. Mas, ao mesmo tempo que eu me sentia livre, eu sentia que eu tinha que convencer o Secretário de Saúde. Pensa, bem no começo. Ah, nem existia Secretaria. A gente tinha que criar. Tivemos que criar. Ai, claro que ele era um político, né? Quem assumiu a Secretaria de Saúde. E daí a arte minha, a arte da gente, era... A arte, eu falo arte, eu acho lindo a arte! Era polir aquela pessoa, entende?

 

P/1 - Sei.

 

R - E fazer ele entender o que a gente pensava. Mas tu já tava voando e ele tava engatinhando, né? Mas daí eu pensei, eu tinha que achar... Teve uma coisa que não tinha como ele entender que eu tinha que fazer, era... Eu queria fazer a pré, era um programa novo, até, meio inventado por mim: consulta de enfermagem nas crianças das escolas. Eles tinham uma ficha cada um, dentro da escola, né? E daí, aquele que precisava ser encaminhado, tinha que vim pra Prefeitura, mas daí tinha que dar condições pra ele ir pra frente. Por exemplo, fazia teste de visão. Tinha uns que precisavam de óculos ou, não óculos, mas pelo menos que você encaminhasse pro oftalmo. Tinha muito problema no começo, aqui, por causa do Rio da Várzea, de amigdalite crônica, que tinha que procurar o oftalmologista. Não adiantava eu fazer este trabalho se ele não me desse condições, pros mais carentes, principalmente, que era as escolas que eu ia começar, né? Condições de seguimento deste tratamento. Então, a gente, eu era sozinha, não tinha equipe multiprofissional. Eu tinha que eu pensar, eu fazer. E daí ele não entendeu. Pensei: “Mas eu vou.” Não me dava carro pra ir. Daí eu conversei com umas professoras ali de Saltinho, e elas disseram: “Sabe, nós te levamos e te trazemos. Mas tem que almoçar lá.” Eu fazia almoço na escola, eu e uma outra colega, que era atendente de enfermagem. Daí nós fazia comida lá. E comecei a fazer o trabalho assim, ó, no peito! E as mães começaram gostar, e daí ele viu que era bom, e ele começou ver. Deu uma repercussão assim, não sei! Sei lá, foi uma força que me deu acho, que mandou eu ir, deu! E as mães vieram ali, sem eu mandar, e começaram a dizer que queriam, que era importante. As professoras viram o trabalho. Porque às vezes tu fala, as pessoas não conseguem entender. Mas depois que tu mostra, elas entendem.

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - A educação é isso! A educação não é... A educação tem que fazer a pessoa sentir. Antes de você sentir, uma pessoa tem que sentir junto contigo, senão ela não tá educada pra aquilo. Eu não culpo ele! Depois de um tempo, no segundo... Daí isso foi, eu lembro, foi em fim de 89. Daí começou as férias. Quando começou as aulas, ele me procurou! E daí ele queria o trabalho. Ele, ele. Antes de mim, ele já queria o trabalho. O Secretário, o Prefeito. E daí então, assim, eu fui conquistando o meu espaço assim, né? Meio na briga. Não é na briga, porque eu não brigava. Eles gostavam de mim. Mas eu tive que... Não era fácil! Porque eles não sabiam o que era saúde pública, ainda, o que era prevenção, né? Eles queriam... Eles tinham medo de gastar com coisas que... Daí eles viram que foi tão bom, né? Tá. Mas, além disso, ainda eu lembro que quando eu precisava aumentar de salário, imagina! Daí, no começo, a valorização não era fácil. Quando eu precisava de aumento de salário, eu só dizia que eu não ia mais fazer esse programa. Ah, não tinha outra! (riso)

 

P/1 - (riso)

 

R - Então foi valorizada, e assim começou a história, sabe? Daí tinha... Daí eu consegui, daí eu consegui conquistar eles. Daí eles confiavam em mim. Confiavam que era importante esse trabalho, que daí quando eu falava até que eles me ouviam, sabe? Imagina, mulher, né? Novinha! Eu nova assim, eles meio machistas, todo mundo. Enfermeira! Olha, é tão difícil a pessoa entender o que é uma enfermeira! Eles confundem com auxiliar. Que auxiliar também é uma profissão nobre, mas que não tem aquela visão ainda de, vou dizer, de nível superior. Porque a gente já tem aquele contato com o povo, né? Então, assim, e daí eu conquistei o meu espaço, conquistei com a população, também. Ah, tem pais que até hoje chegam... Daí a gente continuou esse trabalho até hoje, nas escolas. Mas daí teve outros.

 

P/1 - Como é que é este trabalho nas escolas, exatamente?

 

R - É assim, ó: tu vai lá, faz a pré-consulta da enfermagem. Não é de médico, né? É bem diferente. Mas daí tem uma ficha do aluno. Tu pergunta tudo pra ele, a história, vem a mãe. Quando eu vou lá, eu digo assim...  É um trabalho bem, é muito, tem que ser bem organizado, né? Porque eu digo que eu vou lá. Por isso que quando vocês ligam, eu tenho que saber a hora que eu tô, a hora que eu não tô. Se eu vou lá, eu digo, todas as quartas, de manhã e de tarde, vamos dizer, eu tenho trabalho na escola. Ainda não começou este ano, vamos dizer, porque Prefeito novo e tudo, né? Daí eu marco, a professora marca dez alunos. E esses dez alunos vem com a mãe ou com responsáveis. E é engraçado que, quando eu marco, não faltam os alunos. Porque pode, né, acontecer: “Não, vem só cinco.” Não, quase sempre vem os dez. E daí eu faço a ficha dele... Tá, isso na primeira série. Faço a ficha dele e tudo, né? Mas a escolinha, por exemplo, que funciona de primeira a quarta, né, então ela marca da primeira série. Às vezes, até tem a da segunda junto. Isso não interessa. Mas só que, daí, quando chega no segundo ano de trabalho, eu, tem uns que já é o quarto ano que eu pego eles.

 

P/1 - Sei.

 

R - Entende?

 

P/1 - Você acompanha, então...

 

R - Isso! A gente acompanha. É tão bom, porque daí eu pergunto, daí eu olho na ficha dele, porque é impossível tu gravar tudo. Então, tudo o que eu faço, não é tudo - porque até eu falho nisso - mas, a maioria das coisas, eu aprendi a registar. Então, quando eu volto lá na escola, tem lá o Joãozinho da Silva, né? A mãe dele daí, ele tinha amigdalite crônica, né? Foi encaminhado pra Prefeitura e tal. Tava escrito tudo lá, o que foi feito. Encontrou o problema. O que tu fez por este problema!

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - Né? No outro ano, daí eu pergunto: “Ó, aqui tá escrito. Lembra que a senhora veio, e tal?” “Pois é, a senhora me encaminhou, eu fui.” Daí ela me conta tudo o que aconteceu, daí eu já registro, né?

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - Então é tipo um acompanhamento constante. Só que, às vezes, aí a gente descobre que também que ela não foi ao tratamento.

 

P/1 - Às vezes a culpa não é da falta de atendimento, mas do...

 

R - Da própria pessoa...

 

P/1 - ... da própria pessoa.

 

R - ... que não procurou. Então, assim, ó, depois de tantos anos trabalhando, a gente vê assim: é um dever do Estado, mas é uma obrigação também do cidadão.

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - É um dever do cidadão! E é isso que agora a gente tá, tá... Viu que muitas vezes era só um dever do Estado, né? E o povo, às vezes, não tava participando do sistema, né? Ah, tem muita coisa! Muito estudo assim que dá pra gente fazer em cima disso. Então essa foi a primeira, o meu primeiro contato. E eu acho que porque deu certo isso, eu não sei se é por isso, daí eu amo muito o que eu faço. Daí logo depois surgiu assim, ó: começamos a ver problema com gestantes. Então a gente faz o pré-natal, né? Tem ali, eu tenho desde... E tenho tudo guardado as fichas delas, né? Faz três anos que a gente faz o pré-natal. Faz oito anos que a gente faz o preventivo do câncer. E não é... Porque eu vi em alguns municípios assim, e eles vêm aqui pedir opinião pra gente. Eu tenho bastante amizade, com bastante enfermeiras assim, né? Então, uma coisa que eu achei importante, nós fizemos uma ficha especial, tanto pra gestante como... Porque o preventivo era feito assim: colhe o material da mulher, e se não deu, daí vai pra Porto Alegre, né? Porque nós não temos laboratório pra isso. Quando volta o resultado, de repente, tu não ia saber o que tava acontecendo. Então eu tenho uma ficha dela ali, ó, tá tudo guardadinho. Cada vez que ela vem, que nem hoje, né, que tinha preventivo, ela vem, ela tem a ficha de cinco, de oito anos atrás. E daí ali eu marco... Daí tem, nós fizemos um esquema tão bom, - o Estado também ajuda nisso, mas mais é o Município, que tem que se organizar, né?  - nós fizemos um esquema tão bom que quando ela volta eu sei o que ela teve há cinco anos atrás, qual é a doença, porque não é, e se ela teve algum problema de câncer. Geralmente, elas não tem, mas é que elas tem um problema de doenças sexualmente transmissíveis, né? Doenças normais, de colo de útero, de... E eu sei tudo, toda a história dela tá ali. No momento da coleta a gente já volta com a ficha ali, e já escreve tudo o que ela tem, o que ela sente. E daí encaminha. E daí depois, na volta, a gente já escreve se ela... Então assim, a gente tenta, eu não sei se é 100%, mas a gente tenta fazer pelo menos no que, essa parte da gente, um acompanhamento assim, o máximo, né? Porque senão não adianta trabalhar por trabalhar, né? Mas... Tá, daí tem o preventivo pré-natal, o planejamento familiar, que a gente conseguiu então assim: vem os medicamentos da (Bemfam?), que é (Triquilarm?), (Clovais?), anticoncepcionais, camisinha.

 

P/1 - O que quê é (Bemfam?)?

 

R - (Bemfam?), daí, é meio controvertido isso aí. Porque a (Bemfam?) tinha uma história assim que eles andaram no interior, por aí, não só por aqui, fazendo ligadura nas pessoas do Nordeste. Então a gente, no começo...

 

P/1 - É uma instituição...

 

R - É uma instituição de bem estar familiar, só dizem assim.

 

P/1 - ... do governo federal?

 

R - Não é. Elas dizem assim, uma instituição de sociedade civil.

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - Não sei bem, não entendo bem como é que funciona. Mas, eu pensei assim: “Vamos lá ver como é que é.” Aí houve um treinamento maravilhoso que eles fazem, e eles até falaram sobre esse assunto, que eles tinham mudado de ideia, tal. E a gente tentou fazer da maneira da gente, aqui em Rodeio. E deu certo! Eles não influenciam na maneira técnica de nós trabalharmos, entende? Então, eles nos fornecem, a Prefeitura paga quatro salários mínimos, vem tantos quantos métodos a gente precisa, e a parte técnica fica conosco. A parte de coordenação, assim. Ah, e daí é muito legal, porque daí eu saio no interior assim, fazer trabalho com as mulheres, falar sobre sexualidade. É incrível! (riso) Já no preventivo do câncer, a gente fala sobre sexualidade, mas é meio individual, né? Ah, daí tem a reunião do preventivo, uma vez por mês, pra explicar pra elas o que foi feito com elas, que parte delas foi olhado, o que foi tirado, o que vem de lá. Porque o que quê acontece hoje com os pacientes? Eles são tratados tudo pela metade: a ficha um, a ficha dois, né? O útero da ficha um. Imagina! Não tem cabimento. Então, a gente assim, ó: tudo o que foi feito com elas ali é mostrado pra elas. A gente faz, pelo menos tenta - porque é que nem eu digo, a educação, não sou eu que tô mandando na educação delas, né? - mas a gente tenta fazer com que elas entendam o que quê é o útero, que ele é ligado. Tinha que ver quanto mito que tinha. A mãe do corpo ela caminhava, e depois... (riso) Mas foi tão bom aprender isso, também, porque eles me ensinam bastante.

 

P/1 - Que tipo de mãe?

 

R - Ah, a mãe do corpo (riso), que é o útero, que ele caminhar, que então logo depois do parto a mãe sentia muito assim, vinha uma coisa aqui em cima, assim, até na garganta, porque a mãe do corpo caminhava. Vocês vejam, em tudo tem um fundo científico. O que quê era isso? É porque o útero, logo depois do nascimento do nenê, ele se contrai, e ele mexe, mesmo. Faz, a gente nota assim, no abdômen, aquela mexida assim. Então elas imaginavam que ele saía correndo, sabe?

 

P/1 - (riso)

 

R - Que ele se mexia por todo corpo. (riso) Tipo assim, né, que o nenê tá nadando na barriga. Então, e pra gente isso é tão elementar, e pra elas é tão importante saber isso, né? Então, essa troca assim, é uma coisa maravilhosa trabalhar.

 

P/1 - Só um minutinho que eu vou virar a fita.

 

R - Hum, hum.

 

(troca de fita)

 

P/1 - Bom, você estava falando das coisas que você pode esclarecer, das coisas que você pode melhorar na orientação, e das crendices, né? Você se lembra de mais alguma?

 

R - Ih, quantas! Meu Deus! Olha só! Tem uma assim... Mas também, eu acho assim, que a medicina errou muito, sabe? Até hoje. Por isso que, não sei se isso é piegas, que nem dizem, mas o que tu tem, o que tu sabe, tu tem, que botar a serviço dos outros. Senão não tem sentido tu aprender tudo isso, tu saber e os outros não saberem. Quem tá convivendo contigo, quem faz parte da tua comunidade. Então, ela vinha fazer preventivo e no começo era o médico que colhia. Agora sou eu, né? Elas têm bastante confiança comigo, e tal. Mas quando eu tava junto, eu sempre deixava elas meio desinibidas assim. Sabe, não é fácil, tirar a roupa. Elas, às vezes, não tiram nem em casa assim, de uma maneira... Então, daí elas iam lá e, um dia, o doutor disse: “Tu tem cisto retocele.” Imagina! O que quê é isso? Ela ficou, daí eu vi que ela não entendeu, eu não quis interferir também no jeito dele tratar, senão... A gente tem que ter ética também no trabalho, né? Aí eu chamei ela pra minha salinha ali, e daí eu disse: “Tu entendeu o que o doutor disse?” Ela: “Tá louco! Deve ser um bicho que tem lá dentro.”

 

P/1 - (riso)

 

R - Né? E daí eu falei pra ela: “Não. É bexiga e útero caídos, né, que a gente chama, que aparece de tantos partos que você teve, então ficou um pouquinho pra baixo, e isso...”, né, expliquei tudo como é que era. Daí ela disse assim: “Ih, já sei! Caiu das prateleiras, então”.

 

P/1 - (riso)

 

R - E ela disse: “Será que não é porque a gente teve muitas relações, durante as relações sexuais, durante a vida, aí caiu das prateleiras.” Tu vê?

 

P/1 - (riso)

 

R - Imagina o que me vai na cabeça desse povo, né? O que quê ela não ia sair dali, pensando que ia ter que diminuir até o número de relações sexuais. Então, você veja, não dá pra brincar com os sentimentos dos outros, né?

 

P/1 - É verdade.

 

R - Então, assim, esse cuidado que eu tento ter no meu trabalho. E daí que acho que, através desse cuidado que eu tenho com eles, eu conquistei bastante, né? Então, eu não sei da onde que começou essa vontade, esse amor que eu tenho pela minha profissão. Não sei se fui eu que gostei antes de trabalhar. Ou foi depois que eu comecei a trabalhar que eu gostei tanto, né, de ter esse contato com elas, assim. Mas, com os homens também, claro, mas mais com a população feminina, que a gente faz reuniões assim, no interior, e que daí eu levo os órgãos, e que daí...

 

P/1 - _______________ (fala junto com ela)

 

R - Principalmente os órgãos sexuais, assim, que elas têm aquela, né? E daí que elas começam... E daí que também vem o lado triste, né, dos relacionamentos delas, assim, que não é nada, às vezes, não são nada bons, que elas não esclareceram. Então assim, ó, a gente começa a tratar alguma coisa, que é física, e logo tu começa a descobrir que ali tem muita coisa relacionada com a própria família, com o relacionamento delas com esposo.

 

P/1 - Por exemplo?

 

R - É, por exemplo, elas assim, o relacionamento sexual, da maioria - não é da maioria, mas 50% a mais - é uma coisa assim: elas têm vergonha, né? Não resolveram isso antes. E...

 

P/1 - Mas é alguma coisa que acarreta problemas de saúde?

 

R - É tem alguma coisa bem triste assim que, na hora, não sei se dá para falar isso. Não, mas isso não é expor ninguém, né?

 

P/1 - Não, você não precisa citar nomes.

 

R - Eu não gosto de expor minhas pacientes. Não, não vou citar, mas... Que foi dar entrevista pra mim um dia, porque eu tenho que perguntar assim: “Quantas vezes, quantas relações vocês têm por semana?”, assim, né, conversando com ela ali pra mim fazer a ficha. Eu tenho que botar isso. Daí, uma disse assim: “Ele me pula três vezes por semana.” É, daí eu fiquei olhando, né? Daí assim, e muita coisa tu vê, né? Por exemplo, tem umas que chegam ali e dizem assim: “Eu sinto muita dor pra ter relação sexual. Eu devo estar com algum problema.” E a gente vai e vê que não é problema nenhum, né? Daí veja, se a gente fosse um tipo de profissional largava, dizia: “Ah, não é nada. A senhora tá bem.”, né? Mas é que, como tu tem que ver o fim, então tu tem, ah...

 

P/1 - Tem que ter um lado psicológico.

 

R - ... tem que dar uma de psicóloga. Mas a gente já tem psicóloga, agora, que vai ajudar nós nessa parte, mas eu não posso deixar tudo pra psicóloga. Muita coisa a gente tem que comentar com elas. E, veja, muitas vezes tem problemas que é difícil a gente abordar. Porque a gente não tem solução pronta pra nada. Mas a gente, às vezes, deixando ela falar, a gente pode, se ela descobrir o que é esse problema, é importante isso, ela pode procurar, daí, um profissional, ou alguma coisa, ou uma conversa com o marido, né? E muitas vezes, tem muitas mulheres assim, ó, que chegam e tem, que nem eu falei pra ti, a bexiga, o útero com problemas, e elas, mesmo assim, mantém relações, e é horrível! Deve ser ruim. Então, elas vão descobrindo agora, depois, com 50, com 45 anos, que era diferente, que poderia ter sido diferente. Então a gente encaminha pra cirurgias. A gente sempre tenta conversar com a secretaria pra conseguir cirurgias mais baratas. A IHS, pra diminuir o custo. Quando é bem pobre, né, a gente tenta até que seja de graça. Ah, então é uma caminhada, né? Eu não sei, não é fácil. Se a gente conseguisse trabalhar e deixar essas coisas pra outro departamento, né? Eu não sei se até não é demais a gente se envolver com tudo. Mas também, se o ser humano é integral, como é que tu vai deixar ela pela metade? Só resolver o problema da doença?

 

P/1 - Você falou uma curiosa, que é o seguinte: que as mulheres são o maior alvo de atenção que você tem.

 

R - Hum, hum.

 

P/1 - E eu também, conversando com várias pessoas envolvidas no PACS [Programa de Agentes Comunitários de Saúde], as mulheres são o agente de saúde preferencial, apesar de que há alguns homens. Você tem homens aqui na sua região?

 

R - Não.

 

P/1 - Só mulheres agentes de saúde?

 

R - Só mulheres.

 

P/1 - E, então, tem esse lado de que parece que a saúde é uma preocupação maior da mulher que do homem, em todos os sentidos, né?

 

R - Realmente.

 

P/1 - Por que quê você acha que isso acontece? O que é que torna a mulher ser tanto o alvo da preocupação no atendimento quanto em ser atendida, né?

 

R - É, isso até antes do PACS, a gente já... Porque, eu converso comigo mesma, porque às vezes não tenho com quem conversar (riso), não tenho uma equipe multidisciplinar, né? Porque o médico aqui já é mais do tipo... Ele trabalha sozinho, né? Às vezes ele me ouve, às vezes, sempre acha que eu tô sonhando. Eu sou a sonhadora, a inventora, a... Então, eu converso comigo e, às vezes, quando minhas colegas, a gente se encontra bastante com as colegas da região...

 

P/1 - Do PACS?

 

R - Não só do...

 

P/1 - Colegas de...

 

R - Colegas enfermeiras. E muitas das minhas colegas, de tempos já, que a gente é amiga mesmo, elas já tão entrando todo mundo pro PACS, não sei se... E todo mundo vem aqui: “Ah, já estou no PACS!” Parece que é um sonho pra todo mundo agora, né? E, não, mas assim, até nas reuniões tem, o que a gente falava, a gente falava isso pra elas, na fila do posto de saúde, tu vai ver hoje de tarde, ó, já tá quase na hora. Pode ir ali olhar. Tomara que hoje tenha bastante fila! Mais é na segunda e na sexta. É sempre mulher. Ou a mulher vem pegar ficha pro marido. Então assim, a preocupação, eu não sei se é só aqui no interior, mas a mulher se preocupa com o filho que tá doente, com a febre, com o marido que não quer vim pro médico, sabe? Então, eu acho que de repente ela é sobrecarregada. Ela vai pra roça - vamos dizer aqui no interior, que é o que mais acontece - ela vai pra roça, trabalha de sol a sol, aí ela chega em casa, ela arruma o chimarrão pro marido, ele vai sentar, e ela vai fazer almoço, e vai limpar as crianças pra almoçar, né, vai ver se alguém precisa ir pra aula, levar um lanche, e ele vai ficar sentado. Daí ele vai fazer a sesta, que chamam, né? E daí ela vai continuar lavando louça, depois ela vai lavar roupa, né? Então eu acho assim, que um pouco de sobrecarga de trabalho, preocupação, e uma coisa...

 

P/1 - E é ela que ainda fica encarregada de cuidar da saúde da família inteira.

 

R - De cuidar da saúde da família inteira, né? E aqui é bem visto, e tem maridos que ajudam. Não é que todos... Mas, mesmo que ajudem, só pra ti ter uma ideia: se a vizinha chega na casa, e a casa tiver revirada, ela não vai dizer que é o marido que não trabalhou hoje, é a mulher do fulano, hoje não tava disposta, de certo não fez o serviço. Então não adianta. A responsabilidade é da mulher, né? Mas, uma coisa que eu vi agora, trabalhando, porque a gente trabalha bastante com essa área da sexualidade, planejamento familiar, pré-natal, daí envolve toda... Elas são muito reprimidas nessa parte. Então, tem muitas que sentem dores, né? A dor fantasma. E como ela não conhece seus órgãos sexuais, e tem vergonha sobre isso, ela calca, geralmente. Segundo alguns livros que eu li e conversando com alguns médicos assim sobre isso, eles também acham - isso não tem pesquisa sobre isso, acentuada sobre isso - mas elas calcam os seus recalques, assim, mais é nessas horas onde elas não conhecem, não sabem onde eles estão. Então, a gente tá... É tão engraçado agora, falando com elas, elas dizem assim: “Eu tô toda por dentro doída. Meus ovário não tem mais nada!” E a gente mostra pra elas que o ovário, o útero, que fica mais pra dentro, não são afetados pelas doencinhas que a gente tem, né? Não é doença esses corrimentos, essas coisas. Geralmente tudo isso acontece, geralmente na parte vaginal, por fora. E elas ficam impressionadas: “Mas como?” Daí parece que elas ficam mais aliviadas. Pra ti ver como elas, geralmente, elas tentam botar a doença mais pra dentro. E de repente até pra chamar a atenção, né? E a cultura, assim, não sei se é todo Rio Grande do Sul, mas a cultura meio machista que a gente vive assim no interior, né? Elas não tem muito carinho. Eu não sei. No meu trabalho, eu relaciono muito o carinho, a parte afetiva assim com doenças, algumas. Só que tem doenças imaginárias, mas tem doenças que elas existem. Só que essas doenças que existem, daí dizem assim: “Não, como que tu diz que é psicológico se tem doenças que existem?” Só que tem algumas doenças que a gente poderia até evitar se tivesse mais carinho, né? Entende? Elas existem, mas de repente elas até poderiam ter sido menos... Poderiam avançar menos, né? Poderiam até essas sexualmente transmissíveis a gente nota assim. Ah, mas isso é uma coisa que eu tô falando bem empiricamente, né? Teria que fazer um estudo aqui. Mas pelo que eu já notei, e as minhas colegas também, a gente nota sim, bastante coisa, bastante doencinhas relacionadas com o psicológico delas, né? Principalmente nas nossas mulheres.

 

P/1 - Sem nenhum motivo pra ter razão.

 

R - É.

 

P/1 - Agora, o quê que é a dor fantasma, que você citou aqui?

 

R - Pois é. É isso que eu falava assim, que muitas chegam assim, e dizem assim: “Ah, mas dói minha barriga. Mas deve ser o útero, deve ser o meu ovário que deve tá mal. Alguma coisa por dentro.” Ah, às vezes elas nem falam o útero, o ovário. Elas dizem: “É por dentro. É por dentro. É aqui na barriga, ó! Tô podre. É aqui, ó.” Elas nem dizem que é aqui em cima, elas mostram que é mais pra baixo: “É aí que eu tô mal.”

 

P/1 - Sei.

 

R - E, às vezes, tu faz tudo que é exame, né? A gente teve um caso bem característico aqui, que foi com um mocinha, né, que ela... Tá isso com mulheres casadas. Mas essa mocinha, ela teve relações, não sei se ela não tava preparada, e ela, e daí ela transava de camisinha, com medo de pegar doenças e coisa e... E daí, até hoje, nós não conseguimos descobrir o que ela tem. Ela sempre tem dor, sempre tem dor, né? E eu tô tentando chamar ela, conversar. Ela ainda tem namorado, toma comprimidos escondida dos pais, umas coisas assim. Então a gente nota que tem umas coisas que elas não estão bem preparadas pra enfrentar e elas tentam enfrentar, né, e daí sente toda aquela, e começa com dor, dor, e a gente não descobre aonde que é. Fez ultrassom, fizemos exame. Ah, até mandamos fazer um exame especializado de secreção vaginal, né, e ela continua com a dor.

 

P/1 - Quais são as doenças, e as endemias e epidemias mais comuns aqui na região?

 

R - Assim, ó, se fosse olhar pelo... Não, é incrível, depois que a gente começou a trabalhar como agente de saúde, a gente tem na mão os dados. Doenças assim, crônicas então, que é o que mais acontece aqui, é a hipertensão arterial, pressão alta, né? A porcentagem eu não sei. Eu até tava somando elas, eu tenho um relatório, né, da porcentagem delas, mas daí logo depois vem diabete, que faz parte junto até com colesterol, diabete faz parte da hipertensão, e depois nós fizemos uma pesquisa, que isso foi depois o Ministério aprovou, mas no começo não era pra ser feita essa pesquisa, porque não tinha, mas a gente investiu nisso, que foi o alcoolismo. Só que, como tachar um cara de alcoólatra, ou uma mulher, a gente descarta, porque geralmente é homem, mas tem mulheres também, né, de alcoólatra ou não? Ah, daí a gente entrou em contato com a Cruz Vermelha aqui de Porto Alegre, e eles pra nós disseram assim: “Vocês podem fazer assim: uma pessoa que...” Eu pensei assim, depois do vinte anos, pra nós seria melhor, né? Pra nós aqui em Rodeio. “Depois dos vinte anos, que chega na comunidade uma vez por semana bêbado, sempre tá bêbado...” Eles conhecem, eles vão no culto. “Ou se...” Todo fim de semana eles se reúnem lá naquele local, né? - “Ou que...” Porque a mulher esconde, geralmente. Nós tivemos experiência que a mulher esconde que o marido é bêbado. “Ou que você saiba...”, agente de saúde sabe. Mas, pra surpresa minha, as agentes de saúde sabiam, um por um, de quem é, mesmo que a mãe estivesse escondendo. Então foi grande.

 

P/1 - Na surdina se comenta, né?

 

R - Ham, ham. Isso aí! Então foi grande o estouro, né? E daí foi a terceira doença nossa, maior. E depois tem asma, logo bem juntinho com o alcoolismo, quase ali. Dá pra dizer que a quarta é a asma. Só que aqui eles confundem asma. Por quê? Olha, o agente de saúde vai na casa. Vai perguntar se você tem asma, ele confunde tudo o cara da casa, né? Principalmente, isto foi feito o ano passado, essa primeira pesquisa, ele confundia assim com doenças do pulmão. Às vezes ele tava um pouquinho, deu, por exemplo, várias vezes, duas pneumonias, na vida dele, já dizia que era asma, né? Então asma subiu bastante, mas são as doenças...

 

P/1 - Pulmonares?

 

R - Não são bem pulmonares. Resfriados, gripes fortes.

 

P/1 - Respiratórias.

 

P/1 - Doenças respiratórias a gente pode dizer que tá em quarto lugar. Por quê? Nós temos o Rio da Várzea aqui. No inverno mesmo tem cerração até o meio dia. E o quê que acontece? Eles têm que ir pra roça. E daí vão no molhado, e dali a pouco vem o sol.

 

P/1 - Sei.

 

R - Aí sempre, né, geralmente, eles tem gripes, amigdalites, e eles levam as crianças junto. Tem crianças, assim, que tem aquelas amígdalas, é incrível da gente olhar, né? É uma experiência... E a amigdalite, às vezes, ela torna-se crônica, e mesmo que ela não torne-se crônica tem um problema que ela pode causar febre reumática, uma coisa que eu atentava muito quando eu ia fazer o programa do escolar. E eu dizia assim... E quando tinha aquelas amígdalas grandes, ou então que a gente via até pus na amígdala, assim sabe, bem direitinho. Ou então tinha as amígdalas grandes e não tinha dor. Daí que ficava mais preocupada, não tem mais dor, nunca mais sofreu das amígdalas, mas aquelas amígdalas aumentadas, sabe? Daí geralmente eu encaminhava, então tinha que ter um médico que te dê respaldo. Era bem triste no começo, eles diziam, né, sonhadora. Eu encaminhava estas amigdalites pra cá e eles davam um tratamentinho normal. Só que depois eu voltava lá, tava de novo, daí eu dizia: “Não, gente!” E é uma grande demanda, parece pequena a cidade, mas nós atendíamos num ano mil, mil e duzentos alunos. Não é tão pouco, né? Mas depois de um ano, dois, começaram a dar razão pra mim. Daí a gente começou a mandar pro doutor Dirceu, em Frederico, que ele era oftalmo e ele até elogiou muito, ele dizia: “Olha, como tem problema!” Então, não era invenção da gente. Porque tu tá em contato, tu vê. E uma coisa importante, amigdalite pode virar febre reumática. Como? Ela pode ir pras articulações ou pro coração. Eu falo a linguagem simples porque eu tenho que falar com eles assim. E agora eu tô dando aula na auxiliar de enfermagem, em Frederico, e fico pensando um pouco pra falar com os alunos, porque eu tô acostumada a falar com minha gente, eu tenho que falar assim com eles. Então daí... Não posso dizer: “Foi pro coração, foi pela via sanguínea.” Ah, vai pro coração, vai! E daí eles entendem melhor, né? Pelos caninhos lá. (riso)

 

P/1 - Passa pelas veias, assim. (riso)

 

R - (riso) Senão, não tem como. Então, daí, então, ó... Eu chegava e dizia assim pros aluninhos, né?  Pra mãe. Mas, às vezes, a criança não mente. Então eu dizia: “Dói as pernas?” Ele nem tinha falado pra mãe. “Dói as pernas?” “Dói.” E a mãe: “Pois é, agora que eu me lembrei que toda noite ele chega e diz que dói as pernas.” Pode ser problema de crescimento, outros problemas, de anemia, né? Mas eu dizia: “Mas com todo este índice de amigdalite, a gente tem que ficar atento pra febre reumática.”, e mandava pra cá, só que o médico, às vezes, não mandava fazer os exames. Agora, ele manda fazer sempre, porque o índice foi bem alto de febre reumática. Só que isto não tem nas nossas perguntas pra mandar pro Ministério, então a gente não pergunta isto, né? Também a gente poderia fazer uma pesquisa agora, a gente tá se organizando pra isto. Mas eu tenho certeza que aqui tem um índice de febre reumática bem grande, pelo índice de amigdalites que tem. Então veja, infecção respiratória a gente pensa: “Infecção respiratória, a gente trata. Tem remédio pra isso.” Só que existem consequências que não dá pra gente esperar, né? Tem coisas preocupantes dentro da saúde pública. Às vezes as pessoas pensam assim: “Saúde pública é uma coisa fácil, é só o começo da doença.” Só que não é só o começo da doença. Tem gente que não tá dando bola pra coisas que podem ser importantes. E tem muitas crianças que a gente descobriu até problemas no coração. Amigdalites mal curadas, né, coisas assim.

 

P/1 - Consequência de febre reumática?

 

R - Ham, ham. Consequência da amigdalite que aí deu febre reumática, que deu problema no coração. Então assim, tu veja... E outros assim, ó, as criança não tavam aprendendo na escola. E o pai preocupado, a mãe, a professora, e, às vezes, tem problemas emocionais dentro de casa, alcoolismo, né? Tá. Mas, descartando isto, nós fomos ver que muitas crianças não tavam enxergando.

 

P/1 - (riso)

 

R - Então, olha, se tu visse assim. E não é nós que dissemos. Eu faço o primeiro teste, e a gente faz com bastante carinho pra dar certo. Daí a gente manda pro Dr. Dirceu, e ele elogiava bastante, dizia que a gente fazia muito bem feitinho mesmo. Quando a gente mandava lá dizendo bem direitinho o olho esquerdo doente, ele enxerga até tal linha, o olho direito, tal, aí, às vezes, precisava de óculos, daí resolvia o problema na escola muitas vezes, né? Então, assim, ou o pai, a mãe, mas credo! Eles ficam felizes da vida, então tu resolve um problema na comunidade com tão pouca coisa, né? Mas com muito... Tu veja, daí assim: “Ah, saúde pública é uma coisa fácil!” Não é fácil, porque tem que ter todo aquele esquema, tem que ter uma boa integração entre um monte de setores.

 

P/1 - Qual é a estrutura que você tem, que você conta, pra atendimento de saúde pública? Não estou falando de privado.

 

R - Saúde pública é só até o clínico geral.

 

P/1 - Só até o clínico geral...

 

R - Psicólogo agora.

 

P/1 - ... aqui no posto de saúde?

 

R - Aqui no posto de saúde.

 

P/1 - E o posto de saúde é equipado com quê? O quê que ele oferece dentre os profissionais e equipamentos?

 

R - Tá. Nós temos, assim, mesa ginecológica. Ainda bem, que dá pra fazer o preventivo do câncer, exames ginecológicos, né, com os médicos. Mas é a consulta normal, né? Porque eu acho assim: que para ser um profissional realmente de saúde pública, tem que amar este povo, tem que gostar do que faz, senão...

 

P/1 - Você atende algum tipo de urgência, alguma coisa aqui?

 

R - Não, agora a gente tá começando com curativo, mas faz parte da rede pública. O hospital no horário comercial, no horário, assim, que a gente atende aqui, eles atendem de graça lá.

 

P/1 - É hospital municipal?

 

R - Ele não é bem municipal, mas é que, como o SUS, como o município é municipalizado, tem uma parte de ambulatório que faz parte do SUS.

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - E que é enviado, é repassado pro hospital, não por nós, pela Prefeitura. Mas é repassado pela Delegacia, pelo Estado. E como a gente tem o controle através do Conselho Municipal de Saúde, que é atuante, a gente sabe a parte que faz parte pra gente. Então a gente tenta sempre interferir nisto. A gente liga pra lá e diz: “Estamos mandando um paciente que tá cortado e sabe-se que faz pelo SUS.” Às vezes o médico tenta cobrar, é bem complicado.

 

P/1 - O hospital é privado?

 

R - O hospital é privado, mas ele faz isso aí de graça, porque existe uma pressão grande do Conselho Municipal.

 

P/1 - Quem compõe o Conselho Municipal?

 

R - O Conselho Municipal ele tem que ser paritário, isto é uma coisa importante. Então, metade tem que ser da população, metade dele é população, é povo, e metade é de profissionais de saúde e prestadores de serviço.

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - E isso dá poder pro Conselho. Só que o Conselho não é executivo, ele é deliberativo, só. Mas veja, hoje em dia, eu acho importante. Porque é tudo através da pressão, né? Nem aquela que assinou a Lei Áurea, assinou porque quis, foi através da pressão, só que não aparece.

 

P/1 - Princesa Isabel.

 

R - Então nós estamos tentando fazer esta pressão, né? (riso)

 

P/1 - O Conselho de Saúde, ele é parte do programa do SUS?

 

R - É.

 

P/1 - No entanto, também para que o PACS seja implantado é necessário que haja o Conselho.

 

R - O Conselho. Hum, hum.

 

P/1 - Vamos falar então um pouco da história do PACS, que é o nosso assunto aqui. (risos)

 

R - É o nosso assunto. (riso)

 

P/1 - Aqui em Rodeio Bonito, quando ele foi implantado, como ele chegou? Só isso daí já está bom para começar.

 

R - Tá bom. Não, ele começou assim com os técnicos, que vieram muito bem, eu acho que com muito boas intenções, que foi o José Inácio, que é nosso Coordenador Estadual. Ele mesmo veio pra cá e um dia conversou conosco sobre o que seria e sensibilizou o Prefeito, que não é o mesmo agora, mas não tem problema. Então, daí...

 

P/1 - Era do mesmo partido?

 

R - Não.

 

P/1 - Era uma outra estrutura? Mas não mudou nada, né?

 

R - Tudo, era outra estrutura, é. Daí, eles, pensaram, né, acharam, no começo, maravilhoso porque vinha dinheiro. Só que eu vi logo, eu me lembrei, sabe, quando nós vimos como é que ia funcionar, a gente que já trabalha, tu tem a visão, mas eu imaginava assim, tal qual, a gente tendo que pedir carro, mendigando atrás do prefeito, porque é bem assim. Na hora é tudo bom, mas na hora que precisa trabalhar... Daí começou, foi tudo bem, a seleção aqui em Rodeio sempre foi meio polêmico, e é bom que seja, eu acho interessante, por causa dos partidos políticos, né? “Mas quem vai fazer esta seleção? Mas vocês tão por dentro?” Ah, eles confiam em mim, mas ao mesmo tempo tinha o medo que o Prefeito usasse a máquina e tal. Mas ficou no ar.

 

P/1 - O Conselho de Saúde teve esse medo?

 

R - O Conselho, e não só o Conselho, mas...

 

P/1 - A comunidade?

 

R - A comunidade e o partido de esquerda, tentando botar fogueira, porque era uma bandeira do PT, nós vamos ter que falar a verdade, né, não adianta.

 

P/1 - Claro.

 

R - Os agentes de saúde, sempre foram uma bandeira do PT aqui. Só que aquele tipo de agente de saúde que tinha, eu ajudei a treinar, até aquele tempo, a treinar eles a gente tinha, não deu pra fazer, porque não tinha verba, e outra coisa, a Prefeitura não pode contratar pela lei da enfermagem, a lei do Cofen [Conselho Federal de Enfermagem], que vem lá de cima depois do Coren [Conselho Regional de Enfermagem]. Que é assim, ó: pra gente ser valorizado - porque tu viu, ninguém valoriza enfermeira, a gente tem até um certo valor, mas é difícil entender o que é enfermeiro, o que é auxiliar, então a gente tentou diminuir as classes, só o enfermeiro e só o auxiliar, e agora tem o técnico também na enfermagem. Senão fica muita confusão, então o atendente que era aquele que existia não faz mais, tem que se especializar pra fazer injeção, não é brincadeira. Então com esta lei não existiu mais o atendente, então o agente de saúde consequentemente  não pode ser treinado para fazer este tipo de coisa. Então isto, não sei se é só em Rodeio, mas é muita polêmica, sabe? Porque tu vê, é um trabalho que tu sonha com isso, é uma luz no fim do túnel. Eu tenho aqui, ó. (mostra alguma coisa) É um sonho, os dados que eu tenho da comunidade, coisa que eu nunca tive antes com todo esse tempo de trabalho. Por mais que eu tenha, era tudo empírico. Então, agora eu tenho tudo na mão. É lindo o PACS! Só que aqui, daí como... E eu não me sinto fora do PT, não é isso, só que algumas pessoas não entenderam, quiseram entender que é um programa do Brito, que é do PMDB, que é um programa do Fernando Henrique, que é contra o Lula, entendeu?

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - Então, bah, foi muito... Então, eu digo assim, ó: “Eu consegui tanta coisa, eu acho que eu tô conseguindo, sabe, com eles.” Eu tô conseguindo fazer eles entenderem. Só que, às vezes, eles vão em reunião sem eu tá junto, e bota os pé pelas mãos, né?

 

P/1 - Eu não entendi uma coisa: se o agente comunitário é uma bandeira do PT por que é que ele tem sido entendido agora como um programa do Fernando Henrique?

 

R - Pois é, justamente. Porque eles tinham... Não do Fernando Henrique, mas do Brito, aqui no Estado.

 

P/1 - Sim.

 

R - Mais é do Brito que eles falam. Porque, na verdade, o Brito faz campanha em cima do agente de saúde. Ele não vem aqui fazer. Ai, será que dá pra falar essas coisas?

 

P/1 - Não, tudo bem. Isto aí a gente vai editar de uma maneira que não comprometa.

 

R - Não, deixa assim. Não é assim, ó: O Brito... Eu não sei, eu acho que, de repente, o PT tivesse no poder ele não ia fazer a mesma coisa? Ele usa o agente de saúde pra fazer campanha. Ele vai usar, eu sinto isso, entendeu? E eu fico triste com isso.

 

P/1 - Bom, mas não há nenhum problema em se fazer a campanha de uma coisa que está dando certo. ...

 

R - Que tá dando certo, pois é, tudo bem.

 

P/1 - Eu acho que qualquer partido vai fazer isso.

 

R - Tá. Mas eu fico triste porque, de repente, eu não estou conseguindo envolver os PT comigo, sabe?

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - Eles estão desconfiados com o programa, entende?

 

P/1 - Sei, sei.

 

R - Então, mas agora vai dar certo, sabe por quê? Porque eu já combinei com a Tânia, de Porto Alegre. Ela vai vir pra cá, e ela é do PT. Não dá pra ______

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - E daí ela vai...

 

P/1 - E daí ela vai mostrar que o programa é mais importante do que o partido, que tá...

 

R - Não, mas não é todo o PT que é assim. É que aqui em Rodeio, né, os _______ que são atrasados. É por isso que eu te digo: enquanto a gente voa...

 

P/1 - (riso)

 

R - Mas é bom, é bom e não é. Porque enquanto tu tá voando, tem gente engatinhando, que tu tem que levar junto, aí tu tem que voltar. Mas é a vida.

 

P/1 - Parte do processo da vida, né?

 

R - Faz parte do processo. Então é assim, né? Não é fácil.

 

P/1 - Mas a gente tava falando da implantação. Do início da implantação.

 

R - É da implantação. Tá, daí foi bom, foi ótimo... Bom, quando eu pensei assim: “Mas como é que vão fazer essa seleção dessa gente.”, eu pensava comigo, né?

 

(troca de fita)

 

P/1 - O início da implantação do PACS.

 

R - Tá, daí quando eles vieram fazer a seleção aqui, ó, eu pedi um tempo a mais, pra fazer... Tu vê, eu tinha razão. Eu pensava assim: “Tem que divulgar mais isso porque, quanto maior a divulgação, maior o número de candidatos, e melhores os candidatos que vão aparecer.” Justamente. Daí eu aumentei o... Eles me deixaram aumentar, e daí veio mais gente se inscrever, sabe? Não tinham ouvido na rádio. Não deu tempo. Porque, às vezes, não dá. Aí um foi contando pro outro. Eu não sei se foi isso que ajudou, só sei que a seleção dos nossos agentes de saúde foram as melhores, eu acho, que existe! (riso) Não, é incrível. Na hora... Porque eu mesma que fazia. Não tinha quem me ajudasse no começo. E logo no começo a importância do programa, era só eu que sabia bem dizer. Os outros entendiam, mas ainda estavam esperando pra ver. Daí eu que fazia a ficha delas. E, conforme a ficha que eu ia fazendo pra elas, algumas coisas que elas me falavam, na minha mente - eu não contei pra ninguém - parece que eu já selecionei. Eu já selecionava, pensava: “Mas essa ia ser bom de trabalhar com ela. Ah, essa ia ser bom!”, sabe? Mas não foi a minha maior surpresa quando, no momento que surgiu os nomes, parecia que era todo mundo que eu queria, sabe assim? Não que eu queria, porque tinha gente que eu não conhecia. Essa Ivânia, foi uma que conquistou. Era nessa salinha, até. Eu tava aqui, ela chegou e falou o nome dela, e falou umas coisas que ela pensava assim. Eu pensei: “Ah, mas ela deve ser legal, essa mulher”, sabe? E muitas que eu não conhecia, mas que na hora da inscrição, pra mim, assim, tinha que ser aquela. Quando eles começaram a dizer o nome, nossa! Eu parecia... Então, eu acho assim, que a seleção deles é muito bem feita. Eles tem técnicas. Eu não sei te dizer. Até fui convidada pra ajudar a fazer a seleção em Ijuí. Eu ajudei eles. Fui convidada pelo Estado, né? O Município me liberou, em alguns lugares eu ajudei, mas eu tenho certeza: é a melhor, a melhor... Eles planejaram de uma maneira tal que eles conseguem colher o melhor. Pelo menos aqui e em alguns lugares que eu conheço, que a gente conversou: Santo Augusto, que eu me dou bem com a Sandra, que vocês vão passar lá. São os melhores! Ah, ninguém desistiu, né? Também eu acho que aqui, pelas condições financeiras, porque ganhar um salário mínimo, aqui, é uma grande virtude, sabe? Coitados, né? E todo mundo achando que é pouco. Mas o nível de escolaridade, também, delas, não é grande. Mas isso não influenciou. Porque a gente tinha medo de ser... Eu teimava com o José Inácio. No começo ele disse que... Numa primeira reunião, ele dizia: “Eu acho que tem que ser nível... Primeiro grau.” Daí eu briguei. A primeira coisa eu disse: “Não, primeiro grau nós não temos. Então Rodeio não vai entrar. Nós não temos primeiro grau.” E não teve nenhuma de primeiro grau. Só a Maria Helena, essa que deu a entrevista contigo, que é que tem segundo grau, mas as outras é tudo quarta série, quinta série do primeiro grau, né? E são ótimas!  Me entregam os papéis, eu te mostro assim, tu nem acredita! Mas é que a gente trabalhou com elas. E tem que botar o fogo nelas, né? Então elas ficaram encantadas também com o programa, senão não adianta, né? Tá. E daí... Mas, vou ter que falar a verdade, eu acho. No outro dia, o meu colega, o Secretário, e o Prefeito, brigaram comigo, na hora. Não gostaram. Muito. Eu não sei, de repente não era do partido deles. Daí começaram meio que a botar panos quentes em cima, não quiseram divulgar, eu que divulguei. Comecei tomar peito. (suspiro) Não foi muito fácil. Mas depois daquilo, tentei convencer eles que elas iam trabalhar sem política. Eles aceitaram e foram dando crédito pra mim. Mas dali três, quatro dias, chegou o partido do PT brigando, também. Ah, e daí eu vi. Melhor! Sabe duma coisa? Cada um é de um partido. Acho que era isso que eles não gostaram!

 

P/1 - (riso)

 

R - Queriam que fosse todo mundo de um partido só. (riso) Então, não dei bola pra aquilo. Confiei, nelas, fizemos um trabalho bom.

 

P/1 - Porque os agentes votaram no partido, eles não são filiados, né?

 

R - Pois é!

 

P/1 - Mas eles, porque votam num partido público...

 

R - Eu acho que eles descobriram... Não era por votação, porque até eu acho que pela família, pelo sobrenome.

 

P/1 - Sei. Que partido que estava mais ligado.

 

R - E depois a gente foi ver que umas que eles pensavam que era, não era. A gente conversava e ria entre nós, sabe? Só nós assim. E elas não se meteram em política, isso eu tenho certeza. O meu marido foi candidato a vereador, eu ajudei ele porque ele era meu marido. Elas sabem que eu não pedi voto pra elas, nem pro Artêmio, sabe? E pedia, a gente... Eu até deixei de ir em comícios. Eu fui em algumas casas com ele. Elas, assim, entenderam, eu acho assim: eu conquistei elas! E elas me conquistaram também. Elas me mostraram, né, incrivelmente o quanto elas foram... Sofreram bastante com pressões, mas suportaram a tudo, né? E a gente assim, antes elas diziam... Às vezes, eu contava alguma coisa pra elas, do que tava eu sofrendo, né? E a gente sofria pressão, também. E não dos outros partidos. Do próprio partido que o Artêmio se candidatou ali, que já era da Prefeitura, né?

 

P/1 - Que é o PMDB, né?

 

R - É. E, assim, foi bom, sabe? Nós saímos dessa assim numa boa, eu acho. Porque, daí, quando tava quase pra terminar a eleição, eu convidei o candidato da coligação, um monte de gente da coligação deles pra vir participar de uma reunião conosco, e eles elogiaram nosso trabalho. E disseram que ficaram encantados com a nossa atitude. E ficaram impressionados com a atitude minha, como... Eles tinham gente que vinha com gravador! Eu nunca imaginava isso! Meu primo, que é da coligação, me contava depois. Eu atendo na salinha, sozinha.  Eu poderia - eu acho que na ideia deles - falar pras pessoas: “Vota.”, não sei o que. Sei lá o quê que eles pensavam. Mas é que a minha profissão, pra mim, é vocação. É como se fosse... Tá num pedestal essa profissão, entende? Mas de jeito nenhum eu ia estragar tudo, porque eu sei que depois poderia ganhar outro partido. Eu não sei, quem é que ia saber quem ia ganhar? A eleição foi bem concorrida. Mas não me interessava quem ia ganhar. Eu queria que todo mundo soubesse que eu não fazia política. E o povo não mente, entende? Então, todo mundo entrava dentro da sala ali, e com gravadorzinho, daqueles - disse que era bem pequeninho. Eu nem conheço isso! Botava no bolso. Tentavam puxar política, sabe? Eu acho que, não sei, eu acho que também, acho que Deus me ajudava, né? E daí eu dizia, eu sempre dizia pra eles: “Não, mas tá. Vocês que sabem. Eu não sei.” “Quem vai ganhar?”, uns perguntavam. Eu nem sabia que era pra isso, que era pra me pescar. Eu dizia: “Ah, eu não sei! A gente fala com um, dizem que vai ganhar. Fala com outro, tá ganho.”, disse pra ela.  Né, falava assim, coisas assim, bem do que eu pensava. E nunca deu problema então. Eles têm certeza que a gente não se meteu em política. Então, uma coisa assim que também conquistei. Eu acho que tá conquistado também essa, esse outro lado que entrou agora. Eu não tenho medo de trabalhar com eles. Eles tão confiando bastante no trabalho da gente. Só tem esse lado do PT, que tá meio brigando assim, mas que eu tentei não entrar em confronto pessoal, e tal, né?

 

P/1 - Você disse que a seleção foi quem você achava que deveria ser.

 

R - É

 

P/1 - E como é que foi a implantação do dia a dia dos agentes?

 

R - Tá. Daí assim, daí a gente fez aquele treinamento de uma semana, e o nosso até durou duas semanas, porque eu fiz uma semana só pra eles entender o que é comunidade, o que é povo. Tem que ver quanto preconceito ainda surge, surgiu. “É pobre porque não trabalha”, né? É, “lá tem mais problema porque lá são raça negra.”, sabe? Um, monte de coisinha assim, e a gente foi vendo, foi crescendo. E estamos crescendo. Mas ali a gente começou a ver qual era... Acho que a primeira, o primeiro contato com eles... E, ó, eu aprendi isso aonde? Eu aprendi no treinamento que eu tive. Eu já tinha uma visão de saúde pública, já tinha uma visão de comunidade, de sociologia, e tal. Mas eu, assim, ó: aquele pessoal que veio do Ministério, que foi a Aline, a Maria _________, que vieram dar o treinamento pra nós, quem saiu dali foi brilhantíssimo! Porque logo depois que a gente se encontrou com esses enfermeiros, tinha gente que eu olhava assim e eu dizia, nós comentávamos, nós as colegas mais antigas, dizia: “Coitada! Ela tá recém entrando. Essa pessoa não vai dar certo!” Pra nossa surpresa, depois de seis meses, a gente se encontrou de novo, em Porto Alegre, com toda essa gente, elas contavam experiência assim que a gente ficava de boca aberta. Eu acho assim, ó: que o treinamento, a sensibilização que foi feita, foi uma coisa muito importante dentro do PACS, né? E eu acho assim, surgiu muitos frutos dali. Porque aquelas pessoas que não sabiam nada tavam fazendo que nem nós, dando exemplo pra nós, e trocando experiência assim, de igual pra igual. Eu acho, na minha opinião, aquele treinamento foi o máximo. Então eu saí dali com uma vontade... E foi um treinamento assim, o tipo de educação que foi passado pra nós, a metodologia, que foi a metodologia pra nós depois chegar, então também é um desafio: “Ah, será que dá certo isso?” Eu, pra mim, eu sempre agi assim. Eu tenho que ver se dá certo. Tenho que botar a mão. E eu pensei: “Eu vou fazer esse tipo de treinamento, pra depois divulgar.” Porque se dá certo esse tipo aí que tão divulgando, que é a educação construtiva. E eu pensei: “Eu vou fazer tal qual.” E fiz! Sabe? E deu certo, porque as agentes de saúde assim... Daí, elas saíram uma semana pra fazer...

 

P/1 - Como é que é a educação construtiva?

 

R - A educação construtiva é assim: trabalhar a partir do que eles já sabem. Tudo! Nada do que eu dei até pra eles hoje, porque logo depois do primeiro treinamento, que era da implantação, eles tiveram muito treinamento sobre programa da criança, programa da mulher, tudo isso que eu tô falando, eu já falei. Então, tudo sobre o que eles já sabiam, e faziam eles pensar. Não é fácil! Muito mais fácil chegar lá e já debulhar a matéria. Até hoje nós falamos assim, ó: “Já faz tempo que nós estamos no programa da mulher. Faz tempo, e nós não conseguimos sair muito.”, sabe? Eu sinto, se tu vai olhar ali na hora parece que não estão aprendendo, mas depois de um tempo eu vejo que o que elas aprenderam, elas aprenderam mesmo. Então assim, ó: eu comecei, a gente começou assim, só pro comecinho: “Do quê que morre, do quê que adoecem as pessoas das suas comunidades?”  Aí eles se reuniam em grupos e ficavam pensando: “Ah, deve ser...”, ficavam pensando, pensando. Daí começou assim, e eles pensavam: “Pra que isso?” Escreveram lá. Foram apresentar lá na frente depois. “Mas por que eles adoecem disso?” E quando eles foram se dar por conta, era tudo problema social. Adoecem, morrem até, por causa de verminose. “Morrem de verminose? Por quê? Como morrem de verminose?” Só que no diagnóstico nunca vai aparecer isso. Porque ele pegou uma verminose, né, não tratou, deu uma anemia muito grave, começou a pegar, as crianças, principalmente, começou a adquirir muita infecção respiratória, por causa da anemia, né? E assim vai. Daí não curou. Na verdade, o quê que causou isso? Foi a água, porque ele não tinha dinheiro pra ter água potável, né? Então tudo vem do social. Então assim, essa coisa de fazer eles pensar, pensar, é fácil pensar, mas quando é pra pensar na doença também fica difícil. Mas foi um desafio. Eu acho que esse tipo de educação, que não foi passado, e essa vontade de trabalhar, eu acho que ajudou. Aí eles foram...

 

P/1 - Aí você passou isso pros agentes?

 

R - Passei isso na primeira semana. Aí eles foram pro lugar deles, e começaram a... Daí eles foram fazer de verdade o cadastramento, e fazer o contato com as famílias. Quando eles voltaram, surgiu um monte... Daí eu pensei em fazer mais uma semana de treinamento. E eles voltaram e quanta dúvida! Sabe? Daí é que a gente foi ver. Se eu não tivesse largado eles assim... Então a gente fez mais uma semana. Aí sim! Daí a gente convidou (Emater?), Pastoral, o Conselho.

 

P/1 - São oito agentes?

 

R - São oito... Ah, aquele tempo era onze porque nós tinha a Vila Cristal, porque agora é a Cristal do Sul que se emancipou. Mas a gente tá sempre junto. A gente faz teatro junto. A enfermeira deles tá sempre aqui comigo, porque parece que a gente ficou tão ligada, sabe, que até o teatro a gente apresentou - depois vou te falar - junto.

 

P/1 - É, depois você me fala do teatro.

 

R - Tá. Daí, eles foram e fizeram esse... Daí, eles começaram a apresentar teatro do que eles viram. Foi tão legal aquela semana, sabe? Foi assim um entrosamento total. E daí, sim, daí eles voltaram pro interior a todo vapor, né? Eu digo interior, mas na cidade também. Nosso maior problema é no interior. E daí eles voltaram e começaram a fazer cadastramento, e daí logo depois a gente fez... Foi bem difícil, porque não é fácil, é um monte de número, papéis. Fiquei surpresa com, assim, por isso que eu digo, não precisa... Precisa estudo, é importante, mas a sabedoria delas é incrível! A sensibilidade delas em tratar com as pessoas, claro, elas foram escolhidas pra isso também, e a gente treinou bastante, sabe? Claro que às vezes dá algum problema, mas teve umas assim que no começo algumas famílias não queriam, pensavam: “Bah, mas ela vai sair mal!”. Quando ela começava a me contar o caso, o causo, que aconteceu com ela, eu pensava: “Ai, meu Deus, só pode que se saiu mal. E se foi a família?”, né? Não, quando eu via ela dizia: “Não. Mas eu fiquei quieta, eu vou voltar, vai dar certo.” Dali umas duas ou três semanas algumas vinham me contar, ou na outra reunião, a gente fazia quase uma reunião por semana, até hoje, porque a gente tem que se encontrar bastante, né? E ela vinha me contar assim, uma, até essa, a Ivânia, da linha Santa Cruz, a pessoa pediu desculpa pra ela. Então assim, é uma coisa importante já na segunda visita ela viu a importância e de repente pela atitude que ela teve na hora, no momento, porque a antipatia é uma coisa normal, mas é uma coisa que... né? E de repente ela conseguiu conquistar aquela família. E muitas famílias foram conquistadas não no momento seguinte, mas pelo trabalho. “Aquela criança melhorou então a minha também pode.”, sabe? Não foi logo no começo, mas muitas foram conquistadas assim. Então, ah, mas não é fácil.

 

P/1 - Quer dizer que no início houve uma certa dificuldade, as famílias rejeitaram um pouco o agente?

 

R - Umas, algumas famílias, bem poucas, mas algumas famílias... Uma saiu mal, né, que eu contei e eu acho que porque ela teria sido atendida mal pelo médico e não tava muito contente com o sistema, alguma coisa teria acontecido lá, né? E outras porque o agente de saúde, de repente, queria ter sido ela e não foi, fez o concurso e não gostou muito. Mas ela não demonstrou, não, essa daí não ficou brava de brigar, de bater boca, mas com uma certa restrição assim, respondia de cabeça baixa, não ficou amiga, mas depois com o tempo ela foi entendendo, né? O trabalho delas não é fácil, ainda hoje eu acho assim que tem que ter bastante respaldo, a gente tem que ter a coordenadora, não é só de mim que depende o trabalho, mas depende muito também da energia pra mim passar pra elas. Eu sempre tenho que dizer que é bom, não posso desanimá-las nunca, né? Tem que ter respaldo... Uma coisa importante, nós tava falando isso com as colegas: é institucional, a prefeitura tem que dar apoio, eu preciso de carro pra visitar as famílias que elas me dizem que tem problema e às vezes eu não tenho. Porque falta carro, porque tem que ser um programa, tem que ser um programa que a Prefeitura ache que é a coisa mais importante que na hora que eu precise eu tenho que ir. Eu não posso esperar dois ou três dias quando uma criança tá lá quase morrendo e a mãe não quer trazer, né? E, às vezes, com a palavra da enfermeira ajuda ou uma assustadinha que a gente dê. É, alguma coisa, a gente resolve em casa, e às vezes isso eu sinto, que a visita domiciliar tá sendo um pouco prejudicada. No começo era a todo vapor, toda semana eu ia, né? Seria quarta de manhã e de manhã e de tarde elas já sabiam que eu tava indo pra lá, tavam me esperando.

 

P/1 - Quer dizer, elas fazem as visitas, e semanalmente você faz uma visita da coordenadora?

 

R - Da coordenadora. Assim que teria que ser, só que não tá sendo agora.

 

P/1 - Quer dizer, na verdade você não vai nem como papel de coordenadora, mas como enfermeira?

 

R - Como enfermeira, é... Não, na verdade seria para supervisionar elas.

 

P/1 - Supervisionar?

 

R - Mas, é sempre pra resolver problemas. Porque eu... elas dizem assim: “Tu tem que ir naquela família, tem que ver as reuniões.” Chega a ser uma coisa assim até meio angustiante as vezes, porque chega com tanto problema, a gente faz a reunião em vez de resolver, as vezes eu não consigo repassar. (pausa) Tá, daí assim ó... Se eles me veem aqui, vem todo mundo.

 

P/1 - Eu queria fazer uma pergunta que é o seguinte: o que é que mudou, substancialmente, com a implantação do PACS? Quer dizer, você teve condições de verificar uma série de coisas. Então, vamos dar uma alinhavada no que é que você verificou que o PACS te trouxe de problemas. Ou seja, justamente a gente tava falando disso, que veio uma enormidade de problema e o que é que mudou em termos de possibilidades de solução pra esses problemas?

 

R - Tá, bom... Quando começaram a aparecer esses problemas que eu já falei, de doenças, né, algumas, problemas de hipertensão arterial, né, a gente já tinha, mas a gente deu mais atenção, os médicos ficaram preocupados, a comunidade ficou sabendo que o problema dele era esse, né? Apesar de que eu não pude divulgar tudo ainda, porque eu quero fazer assim, ó: o que a gente tem que fazer agora é divulgar de comunidade em comunidade. Não adianta divulgar que a hipertensão é maior aqui. Só que nós temos que... Cada área. Na Ivânia, por exemplo, é um tipo de problema, é a verminose é maior. Na outra é outro problema. Então é nesse sentido que nós vamos trabalhar, que nem eu disse, por causa de toda essa politicagem de mudança de governo, eu não consegui fazer reunião ainda. Que eu não queria passar por cima de Secretário, né, entende como é que é? Então, eu tô me sentindo um pouco amarrada, mas eu tenho certeza que isso vai dar certo, não precisa nem, nem falar, né? Então, esse é o grande passo, é fazer... Mas, uma coisa assim ó, pra quem trabalha há tantos anos em saúde pública ver uma mudança dessas, tu ter tudo na mão, os dados é a melhor coisa que pode existir prum profissional, é você ter os dados pra ti chegar com certeza e dizer que nosso problema é esse, com boca cheia, o nosso problema é esse. E outra coisa, nós tinha os grupos, o grupo de alcoólicos anônimos de Al-Anon, que é dos familiares, a gente começou a entrar muito mais em contato, o prefeito sentiu muito mais necessidade de dar apoio pra esse grupo porque ele viu a enormidade que é, ele viu o problema que é, a gente tá se articulando pra conseguir assim ó, não tem como formar um grupo de AA em cada comunidade, é utópico porque existe também, eles também tem uns passos a seguir, tem que ter burocracia, custa um pouco caro, então, nós estamos pensando em trazer esses pessoal pro nosso grupo de AA de Rodeio com Kombis, proporcionar, sempre na sexta de noite, proporcionar. Uma coisa importante, que nesse, também, que as mulheres, umas que admitiam que o marido era alcoólatra, elas começaram participar de... (pausa)

 

P/1 - Vamos continuar.

 

R - Tá que, essa mulher chegou e ela admitia que o marido era alcoólatra, e ela resolveu participar de Al-Anon, que é o grupo da, da... Então assim, até isso a gente descobriu, e daí mandamos ela pra esse grupo que é dos familiares e ela começou a participar e fazer... Não dá pra explicar como funciona, só eles que sabem lá dentro é tipo uma terapia de grupo...

 

P/1 - Hum, hum

 

R - ... E o marido dela começou a melhorar em casa e parar de tomar álcool e com o tempo ela levou ele pra... Então é uma coisa importante também que a gente descobriu, que pode levar os familiares pra Al-Anon, porque lidar diretamente com o alcoólatra é difícil, e daí eles podem mudar a atitude em casa porque é um círculo, né? Vira uma neurose dentro de casa todo esse problema. É uma problemática bem complicada em saúde mental. Então também nessa parte de saúde mental, então assim ó: tá se abrindo caminhos também pra mais profissionais, veja bem, tem a importância do psicólogo, coisa que não tinha, a gente tá mostrando a importância de muitas coisas pro poder público, né?

 

P/1 - Eu até entendi...

 

R - Que até então sabia, mas não tinha, mas não tinha...

 

P/1 - Você agora dispõe de dados, é isso? Essa é a grande mudança que o PACS traz é isso?

 

R - É, dispomos de dados e a conscientização da população, né? E assim ó, nós estamos dando muito mais abertura pra população participar da saúde, por mais que antes com o Conselho eles já participavam, mas agora é assim ó, o PACS deu uma abertura pras comunidades terem sua liderança diretamente em contato conosco. E assim ó, uma coisa: o agente de saúde descobriu quanta coisa que a gente não sabia. Que eles não tavam tomando a medicação correta, o médico sempre era culpado que o paciente não melhorava. Agora, quando ele chega lá, ele vê, às vezes ele diz assim, não que o agente de saúde entenda de medicamento, não é isso, mas ele entende que quando você era pra tomar uma cartela de dez comprimidos, você tomou  cinco. Ele sabe que isso não é bom, entende? Daí ele pergunta: “Mas, onde tá seus remédios?” Daí ele mostra. “Mas a senhora tá tomando certinho, no horário certo?” “Ah, ontem eu esqueci, hoje eu comecei a tomar dois.”, entende? Então eles começam a contar coisinhas, mais dados ainda que tu fica sabendo porque que tua população não tá melhorando, né? Tem muitas coisas que a gente podia relacionar sobre o PACS. Uma delas é isso. A diminuição de consultas não, isso ainda não. Porque até eles tão descobrindo gente que tava em casa com algum problema que não estava procurando médico. Então, na verdade, no começo a demanda aumenta. A diminuição de internações hospitalares pode ser até, eu acho, que pra nós diminuiu pela conscientização, que às vezes tinha uns aposentados que vinham aqui consultar pra receber o sorinho. Agora eles sabem que não é importante. E outra coisa, o agente de saúde fala na linguagem deles, ele sabe também quando a paciente entendeu ou não o que eu quis falar, sabe? Ou quando o médico falou e ela não entendeu, e tudo isso tu fica sabendo, né? É um leva e traz, bem dizer, mas não no sentido da fofoca, é assim um contato muito maior. E também o paciente reclama quando o médico não tá atendendo bem, então assim ajuda a mudar a estrutura, toda a estrutura de saúde. A nossa já tava mais ou menos organizada. Nunca tá bem organizada, senão fica ruim até tu dizer que tá tudo organizado, acho que fica até uma utopia, mas a gente descobriu que tem que melhorar um pouco o pré-natal, que tem, a gente achava que, às vezes, tava todo mundo fazendo, e nem sempre todo mundo tava fazendo. A gente achava que elas tavam entendendo, e elas não estavam entendendo algumas coisas. Então ajuda a mudar, então assim, ajuda a cobrar mais do profissional de saúde. Se tu é de saúde pública, tu vai ter que atender bem, que eles tão reclamando do médico e tão dizendo porquê que não estão, né? Tudo assim. Então assim a responsabilidade de um profissional em saúde é muito maior, né? Porque o teu contato também é muito maior, a responsabilidade aumenta, né? E outra, uma coisa importante assim, a gente sabe que a estatística no Estado, no País, não é correta, de nada. Eu sei, eu acho que não. Porque aqui, assim, o médico pode dizer: “Morreu de quê?” “Parada cardíaca.” Claro, morreu de parada cardíaca, a gente sabe. Mas então agora, assim, a gente tem até porque morreu, do que morreu tal paciente, com quantos anos. Todo mês eu sei, entende? Ou então assim, eu não sei, eu não olhei o atestado de óbito dele, mas se um dia eu quiser confrontar, eu vou saber que antes dele morrer de parada cardíaca, ele tinha...

 

P/1 - Era alcoólatra, __________

 

R - Era alcoólatra, entende? Então assim,...

 

P/1 - Pressão alta e tal e tal.

 

R - É, aham, e eu acredito no PACS. Assim, eu me apaixonei por este programa. Eu vi uma luz no fim do túnel. Depois de toda essa caminhada assim, eu acho que é a solução. Mas continuo dizendo: dependo dos governos municipais, estaduais e federais. Eu acho que agora estão dando, eu gosto de ser sincera, estão dando muita, muita força pra nós, né? Eu espero que continue, espero que isso não seja um programa só em tempo que em, tá mais agora, eu sei que agora vai surgir muito mais apoio, porque é tempo de eleição, não adianta esconder, que é assim, mas eu espero que eles vejam que isso é importante e continuem depois das eleições também, porque o nosso governador diz, né, que é uma bandeira dele. Eu espero que continue depois com qualquer governador que entrar, porque senão fica difícil trabalhar, né? Um problema que tu bota toda fé, e de repente vem tudo. Não, mas eu tenho impressão que, mesmo que os governantes não apoiarem, se a comunidade estiver bem assegurada, se eles assegurarem isso pra nós, tomara que eles entendam, né, é o que a gente espera. E daí não vai ter problema a saúde pública, né? Vai pra frente, através da pressão, nem que seja, mas vai.

 

P/1 - Tá bom, você arrematou agora com chave de ouro.

 

R - Tá.

 

(fim da fita A2)

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