Busca avançada



Criar

História

Saudades do Belenzinho

História de: Fausto Venturelli
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/02/2019

Sinopse

Fausto nasceu no bairro do Belenzinho, um bairro de imigrantes que no início do século XX possuía muitas fábricas de vidro. Sua família não escapou à regra: alguns anos antes de nascer, seu avô e os filhos abriram uma fábrica de vidro no bairro. Nesta entrevista, Fausto nos conta sobre a vida no bairro: as festas, as diversões, a vida em comunidade.  

Tags

História completa

 

P/1 – O senhor fala para gente o seu nome, onde e quando o senhor nasceu.

 

R - Eu sou Fausto Venturelli. Nasci no Belém, [na] Rua Conselheiro Cotegipe, no ano de 1927, em dezessete de fevereiro.

 

P/1 – E o senhor poderia dizer o nome de seus pais?

 

R – Meu pai se chamava Carlos Venturelli e minha mãe Carolina Bernardo Venturelli, já falecidos.

 

P/1 – O seu pai nasceu na Itália?

 

R – Meu pai nasceu na Itália, veio pro Brasil com dois anos de idade.

 

P/1 – O senhor sabe por que? Ele veio com os avós?

 

R – É, ele veio com meus avós.

 

P/1 – Sabe em que época foi isso?

 

R – Foi em mil... Eles chegaram aqui em Santos em 1899.

 

P/1 – E ele contou para o senhor a história de como eles vieram?

R – É porque lá estava meio ruim. A vida estava ruim lá pra eles, então decidiram vir pra cá e... Em 1899 foram aqui na imigração, onde recolhiam os imigrantes e direcionavam a cada um - quem era do café, das outras coisas. Eles foram direcionados para uma cidade chamada Dourado, aqui no centro [do estado] de São Paulo.

 

P/1 – Para trabalhar em café?

 

R – Na fazenda de café. Como meu pai tinha mais cinco irmãos já mais adultos, então eles mandaram instalar no plantio e uma colheita pro café. Ganhavam, talvez, naquela época… A minha avó [e] meu avô, como eles tinham vários filhos então tinham mais renda mensal, ou no contrato não seria mensal, seria... A mensalidade sim, a comida. Eles ficaram lá [por] oito anos.

 

P/1 – Nessa fazenda?

 

R – Na fazenda, na cidade. Primeiro foi numa fazenda; acabou o contrato e passaram para uma coisa melhor, outros contratos novos e depois...

 

P/1 – E o senhor sabe por que eles vieram para São Paulo?

 

R – Porque minha avó e meu avô já queriam vir, eles já estavam financeiramente bem. Eles tinham uma prima aqui na Rua Conselheiro Cotegipe e, se comunicando, ela falou que viessem, que tinha uma casa boa. Hoje é onde está a fábrica. Vieram depois de um tempo, compraram a casa.

Aqui no Belém tinha mais fábrica de vidro do que botequim e farmácia. Eram todas fábricas de vidro ao redor do Belém, umas vinte, mais ou menos. E os moços,  minha avó pegou todo mundo… Meu avô também, ele era bastante entendido em óleo de rícino.

 

P/1 – Entendido em óleo de rícino? O que o senhor entende em óleo de rícino?

R – Ele fazia, é um óleo rico. Ele preparava e punha na fábrica de vidro, onde eles faziam uns frascozinhos. A família toda foi trabalhar na fábrica.

 

P/1 – Não entendi, então ele foi fazer óleo de rícino?

 

R - É, pra vender nas farmácias. Os meus tios e meu pai, então, entraram na fabricação do vidro mesmo - lá no forno mesmo, no aprendizado e aprenderam. Um dos meus tios preferiu aprender a lapidação dos vidros; seria como fazer os desenhos nos vidros, aquele xadrez, aquelas...

 

P/1 – Jateados...

 

R – Ele aprendeu muito bem com um alemão que era dessa área, até o ano de 1923. Como ele estava [com] muita prática ele achou de colocar uma piscininha na casa dele, aqui na nossa casa. Ele comprava as peças de outras fábricas e fazia todas as lapidações artísticas, até a do Municipal ele fez. Ele foi um dos artesãos de fazer as lapidações do globo, digo do lustre do Teatro Municipal, de tão bom que eles eram. Aí ele começou a fazer, compravam os vidros e vendia nas lojas.

 

P/1 – Essas coisas lapidadas?

 

R – É. Copos, jarras, taças e vasos muito bonitos. Eles vendiam nas lojas e aconteceu que ele estava fazendo concorrência para as próprias fábricas no comércio, então as fábricas deixaram de fornecer peças pra ele. Deixaram de fornecer para que ele não atrapalhasse o negócio deles. Aí veio e agora... Como ele tinha meu pai e outros meus tios que sabiam de vidro, falou: “Bom, então vamos fazer um forninho pra eles, pra família fazer.”  E lá no fundo do quintal fizeram um forninho.

 

P/1 – Fizeram atrás da casa?

 

R – Lá o terreno é muito grande, bem amplo. Era uma chácara, quase.

Em 1923, nasceu a fábrica de vidro da família. Ela começou a se chamar como Bortolo Venturelli por causa do meu avô que se chamava Bortolo. Começaram a fazer com sacrifício, na época todos os fornos eram a lenha ainda.

 

P/1 – Como é que se faz o vidro, seu Fausto? Conte pra gente.

 

R – O vidro começa com a composição de vários produtos químicos, que seria uma areia, tem uma soda, vai ter arsênico, vai salitres do Chile... É uma composição que numa temperatura de 1400 graus se funde. Joga tudo, faz que nem um bolo mesmo, mistura. É quase igual a batedeira, mistura tudo e [a mistura] é jogada num forno de 1400 graus de temperatura, pra poder se fundir e ficar o vidro.

 

P/1 – Esquentou, vira vidro e acabou? Como faz para ele ficar assim lisinho, redondo? Ele se liquefaz?

 

R – É. Primeiro é no forno. Ele fica que nem um banho de água, uma massa quase líquida devido a temperatura. Ele está lá dentro fundido - dependendo, depois de tantas horas, né, porque ele é sólido, os produtos químicos são sólidos. Ele vai fundindo e ficando líquido.

Ele fica lá. Na hora que precisa começar o trabalho dele, então ele é retirado de lá de dentro por meio de uns… Que eles chamam... A gente se chama de canos, são uns canos de ferro de aço furado; entram pra ter uma certa distância por causa do calor. Ele tira a quantidade que precisa, o vidreiro já tem prática...

 

P/1 – Como é que faz?

 

R – Primeiro tem um ajudante que tira um pedacinho na ponta, só na ponta, [um] pedacinho como aquele está furado. Aí ele, com soprinho, vai fazendo certa bolinha na ponta. Com aquela bolinha que ele consegue pegar uma quantidade maior depois, de acordo com a peça que vai fazer, se faz assim ou assim… Aquela bolinha vai ser de acordo com o tamanho da peça.

 

P/1 – Ele faz a bolinha com o sopro dele?

 

R – É. E aí o vidreiro, que é o artesão, vai no forno, tira aquela quantidade maior em cima daquela bolinha e vai soltando de acordo com o modelo, o molde. Se é um vaso ondulado ele vai preparando...

 

P/1 – Mas é tudo no sopro?

 

R – Sim, a preparação é tudo no sopro, ele vai indo… Se é alto o vaso, ele vai deixando na altura certa. Mas sempre no sopro, levanta, vai… O vidro sai quase [como] uma massa líquida, então precisa sempre estar virando, senão ele vai pro chão.

 

P/1 – E aqueles canudinhos são de aço?

 

R – São de aço, pelo motivo de não enferrujar.

 

P/1 – E como é que faz com o calor da ponta que se propaga?

 

R – Não, aqui na ponta não vem calor. Pode pôr a boca, soprar, que não… Ele é da metade pra baixo, onde entra no forno, que é quente. Na outra parte pode tranquilamente fazer o sopro.

 

P/1 – As peças são feitas individualmente?

 

R – Individualmente, cada peça. Isso na nossa fábrica.

 

P/1 – Seu Fausto, então vamos voltar para a sua fábrica. Ela estava no fundo do quintal, da casa do seu avô... Ele era o chefe dos irmãos?

 

R – É, praticamente ele era o chefe, mas quem trabalhava mesmo eram meus tios e meu pai.

P/1 – Tinha um dos tios... Que era mais um artista...

 

R – É porque eles se dividiram. Na fábrica, o meu pai e outro meu tio foram para a fabricação mesmo. No forno, teve esse meu tio que foi pra lapidação e os outros meus tios, um era da expedição, outro fazia entrega… Eles estavam unidos assim. Voltaram todos pra cá quando começou a firma pra ajudar. Inclusive as mulheres, minha mãe, minhas tias também estavam lá pra ajudar...

 

P/1 – As irmãs, o que elas faziam? Fabricavam?

 

R – Não, aí elas… Falo na parte de embrulhar para mandar pra fora, separação [era] aquilo que faziam. Era uma família unida, que foi levando até...

 

P/1 – Isso sustentava a família inteira?

 

R – Sustentava. Tinha épocas mais difíceis, outras menos, mas eles... Morávamos todos juntos, né?

 

P/1 – Moravam todos nessa casa?

 

R – Todos. Eram duas casas: uma tinha cinco ou seis quartos, a outra tinha mais outros cinco ou seis quartos, então morava todo mundo junto. Era uma beleza.

 

P/1 – E aí eles foram crescendo, o seu pai e seus irmãos...

 

R – Eles já eram assim, depois veio a outra geração, que é a minha - minhas primas, meus primos.

 

P/1 – Mas seu pai então se casou. Quando a pessoa se casava ficava na casa?

 

R – Ficavam na casa todos. Casavam e ficavam lá, cada um no seu quarto.

 

P/1 – Então vamos voltar um pouquinho... O senhor sabe da história da sua mãe?

 

R – Da minha mãe eu não tenho muita referência pra... Só sei que elas vieram da cidade de Araras, moraram aqui no Tatuapé e trabalhavam no Matarazzo, mas não tenho uma... Eles eram mais também numerosos, mas não...

 

P/1 – Não houve convivência, foi mais aqui?

 

R – Não tive. Foi mais aqui, bastante.

 

P/1 – O senhor sabe como seu pai conheceu sua mãe? Como eles se casaram?

 

R – É verdade, esse fato também não sei como foi, como ele a conheceu. Não sei, mas depois... Na verdade, não tenho… Pode ser lá do baile, talvez, pode ter sido.

 

P/1 – Então seu pai conheceu sua mãe, eles se casaram e o senhor nasceu nessa casa?

 

R – Nessa casa.

 

P/1 – O que o senhor lembra? Moravam seus avós, seus tios? Como era a casa? Qual a primeira lembrança que o senhor tem dessa época?

 

R – Ah, eu tenho a lembrança daquela coisa gostosa... Aquela coisa familiar, aquele grupo de família. Além dos vizinhos... Ali parecia ser a sede do Belém. Minha família era muito assim, todo mundo gostava, então era gostoso mesmo. As primas, os tios...

 

P/1 – Todo mundo morava na mesma casa.

 

R – Tudo… Depois eu vou mostrar as fotografias e você vai ver.

 

P/1 – Que bom! O senhor trouxe?

 

R – Tenho lá.

 

P/1 – Quem fazia a comida?

 

R – É, mas era uma… Todo mundo trabalhava, depois tinha a hora do... Minha família era muito assim… Como é que se fala? Gostava de tudo, de esporte -  esporte que eu falo fora o futebol. Os mais velhos, meu pai, gostavam de jogar carta - como sempre, italiano -, jogava xadrez então... Minha casa era gostosa de viver!

 

P/1 – Quem fazia a comida para todo mundo?

 

R – Primeiramente, era minha avó, quando as moças, minha mãe e as outras estavam na fábrica... Ela fazia num fogão só pra todos.

 

P/1 – Era comida italiana?

 

R – Sim, mas era comida simples também e farta. Depois, quando não precisavam das moças lá - minha mãe, minhas primas… Não precisaram mais, porque já tinha funcionários e aí cada um começou a fazer sua comida.

 

P/1 – Cada um tinha uma cozinha? Como era?

 

R – Não, a cozinha era única, mas a sala de janta tinha várias mesas. Cada família tinha sua mesa. E aquele papo, [a gente] ouvia rádio, aquele rádio que ouvia mais assobio do que... (risos)

 

P/1 – Qual era a rádio?

 

R – Naquele tempo era a rádio, o rádio mesmo era da marca Phillips.

 

P/1 – Mas o que se ouvia na rádio?

 

R – Ah, ______ não era uma técnica que nem hoje, assobiava pra chuchu… Chiuuuu….. (risos)

 

P/1 – E na hora do jantar, sentava todo mundo?

 

R – Todo mundo ali. Cada um tinha sua mesa.

 

P/1 – E tomavam vinho?

 

R –Também.

 

P/1 – E o seu avô era o que mandava em todo mundo?

 

R - Não, meu avô já começou nessa época a ficar afastado pela idade. Eles mesmos o aconselharam a ficar aposentado, na ativa ali mais aposentados, né. Minha avó, que também era uma mulher muito dinâmica, ela foi… Ela foi quase dizer pra eles - pra nós, enfim… Foi o braço direito, minha avó. Pra levar a fábrica também ela foi muito dinâmica.

 

P/1 – Então quando o senhor nasceu, o senhor estava nesta casa. E os seus irmãos, são mais velhos?

 

R – É, eu sou o mais novo da minha família, meus irmãos são mais velhos.

 

P/1 – Como eles se chamam?

 

R – Minha irmã mais velha, Clotilde. Meu irmão era Vicente, falecido já.

 

P/1 – E eles também cresceram nesta casa, iam à escola? O senhor começou ir à escola?

R – Todo mundo. Nós éramos mais assim… Nessa geração, na minha, tinha acho que uns quinze. Conforme veio vindo a idade nós fomos todo mundo pro grupo que a senhora falou, [Grupo Escolar] Amadeu Amaral. Naquele tempo era bom porque podia se fazer matrículas sem filas, sem nada...

 

P/1 – Como era a escola pública?

 

R – Os quatro anos, o primário, fizemos todos ali.

 

P/1 – E o senhor andava muito pelo Belém? O que o senhor lembra do Belém nessa época?

 

R – Bom, o Belém tem várias coisas da minha época. Vamos dizer primeiro das amizades, os amigos. A gente vivia numa… O Belém era quase despovoado; tinha muitas vias, campos, então a gente [ficava] nesses campos jogando bola, empinando pipa, jogando pião, bolinha de gude, tudo o que tinha na época. Cada ano tinha a sua época: uma hora de balão, uma isso, outra aquilo. Aproveitávamos bem. Tinha o rio Tietê onde nós íamos nadar, o rio Tietê era muito bom.

 

P/1 – Como vocês chegavam até o Rio Tietê?

 

R – Tinha um caminho ali, onde hoje é o Clube Militar. Chegava até o rio ali. [Tinha] muito pescador, porque o rio era muito limpo naquela época.

 

P/1 – Que peixe tinha?

 

R – Era lambari, aqueles do rabinho vermelho, o cará e outros mais. Eram pescados mais de mão, a gente os via indo lá pra baixo com a varinha, depois subindo com aqueles lambaris dos rabinhos vermelhos. Era muito bom, muito gostoso.

 

P/1 – De que época, seu Fausto, nós estamos falando?

 

R – Vamos dizer entre 36 e 37, mais ou menos. Por aí, eu lembro bem dessa... O Belém festejava muito as épocas as datas de ano, carnaval. Depois vinham as festas juninas, vinha o Natal, essas coisas eram muito alegres.

 

P/1 – Por exemplo, carnaval. O que tinha?

 

R – No carnaval, naquela época que eu lembro nós tínhamos o seguinte: vinha o corso, que eram aqueles carros abertos da cidade, da Praça da Sé. Eles vinham pela Avenida Rangel Pestana, [Avenida] Celso Garcia e entravam na Rua Belém. A senhora conhece a Rua Belém, que vai dar no Largo São José [do Belém]? Eles entravam ali, davam a volta atrás da igreja, pegavam a Rua Herval e desciam na nossa rua, Dr. Clementino. Pegavam a Celso Garcia outra vez e voltavam, então fazia um outro contínuo e não paravam. Aqueles carros, todo mundo fantasiado.

 

P/1 – E a turma do Belém também ia?

 

R – Não, a turma daqui não. A turma ficava só assistindo. Todo mundo punha as cadeiras ali, as famílias e aí vinham aqueles carros cheio das moças e moços fantasiados, bonitos... A gente só ia atrás das serpentinas - nós, garotos -, mas era bonito o carnaval, muito bonito.

 

P/1 – A sua família era católica?

 

R – Sim, era. Pela minha avó eu era pra ser padre. Aliás, nós temos uma prima [que] é irmã, é freira. Eu era pra ser o padre da família.

 

P/1 – Por que a sua avó achou que você tinha que ser padre?

 

R – Não sei, acho que ela achou que eu era o mais bonzinho. Não sei, qualquer coisa, mas não deu certo, né?

 

P/1 – Que igreja o senhor frequentava?

R – Sempre aqui, a São José do Belém. Todos [fizeram lá a] primeira comunhão.

 

P/1 – E no domingo ia a família inteira ou não?

 

R – Não. Os homens, principalmente, não ia nenhum. As mulheres...

 

P/1 – Quem mandava mais na sua casa, a sua avó ou seu avô, os homens ou as mulheres?

 

R – Ah, minha avó, por isso que eu falei que ela era dinâmica. E ela era.

 

P/1 – Ela que botava ordem?

 

R – Todas reuniões eram na casa dela, todas.

 

P/1 – E ela se dava bem com as noras?

 

R – Dava muito bem, não teve problema. Não tinha nem como ter, porque sabia também cativar, apesar de ser... Depois começou a morrer meu avô, começou...

 

P/1 – Chegou a Guerra. Como foi durante a guerra aqui em 39? O senhor lembra disso?

 

R – Tem passagens que eu lembro, sim. Aqui é o seguinte. Especificamente da fábrica? Tiveram um problema, mas não problema que não seja… Pra se apavorar. Tinha que obedecer as autoridades, porque os italianos, os japoneses e os alemães não podiam movimentar dinheiro em banco, não podiam sem ordem da delegacia. Aqui nós éramos obrigados a fazer a folha de pagamento dos funcionários, levar ao banco a folha pra ver o valor, o banco registrava na delegacia e aí vinha a ordem pra poder pagar. Isso foi especificamente assim, ninguém teve problemas.

 

P/1 – Os vizinhos eram italianos também?

R – Não. Nós tínhamos espanhóis, portugueses, húngaros.

 

P/1 – O pessoal todo se dava bem?

 

R – Davam, [se] davam. Naquela época era uma coisa bem mais gostosa.

 

P/1 – O senhor tem saudades daquela época?

 

R – Eu tenho, tenho mesmo. Você vai pensar hoje… Não é que a gente é saudosista. Pelo menos as pessoas [com] menos poder aquisitivo viviam também de uma certa forma… Não era ruim, era uma coisa estável, estabilizada, porque tinha seu salário e dava. Porque a ideia de antigamente, o que era? Era comprar um terreninho, fazer a casa e ter um rádio, só. O resto...

O Matarazzo também ajudou muito, gerava emprego pra mais de cinco mil pessoas, de lá da avenida que hoje já não tem mais. Matarazzo também foi um baluarte aqui pro Belém.

 

P/1 – Como era a fábrica dele?

 

R – Nossa... Era tecelagem, inclusive era igual o que nós temos aqui, o Santista Tecelagem. Fazia macarrão… Ele tinha várias [empresas], só que aqui no nosso núcleo era específico [de] tecelagem.

 

P/1 – E essa aqui também?

 

R – Ah, esta aqui é praticamente nova, neste prédio. Eles tinham na avenida a fábrica mais antiga. Era uma coisa linda. Eles vinham da Central do Brasil. Tinha metrô lá, o trem. Era um enxame de empregados que desciam, mas era...

 

P/1 – E vinham de onde?

 

R – Deviam ser do Tatuapé, de outros bairros. De Mogi, talvez, onde [tinha] a Central do Brasil. Ali foi o início da minha carreira de trabalho.

 

P/1 – Na Matarazzo?

 

R – Mas não interno. Nós éramos garotos, os funcionários da Matarazzo... Era interessante, no almoço, aqui era rodeado de pensões. Aqui [se] fazia almoço e tinha as marmitas, uns seis, sete pratos, então a gente foi o primeiro… O que a gente precisava levar, pegar as marmitas na pensão, levar lá para o funcionário porque a gente precisava jantar. Foi o primeiro emprego que eu tive.

 

P/1 – Ah então o senhor pegava a marmita, levava?

 

R – Levava, esperava lá e depois ia almoçar, aí trazia de volta pro dia seguinte.

 

P/1 - _________________________ esses garotos faziam isto?

 

R – Mas era enorme… Marmiteiro. Foi o primeiro salário que a gente teve, cinco mil réis.

 

P/1 – Dava para comprar o que com cinco mil réis?

 

R – Tinha muito brinquedo. Aquela hora que a gente sempre comprava, né, bolinha... Essa foi o início da...

 

P/1 – O senhor tinha quantos anos?

 

R – Eu devia ter uns sete ou oito anos. Ia pra escola, depois pegava...

 

P/1 – E podia andar na rua sozinho? Não tinha problema nenhum?

 

R – Nenhum. Podíamos viver assim, tranquilos, até… 1950, aí é que começou a... Perto de 60, 55 ainda podia ser, ficar na rua até tarde. A gente era moço, ia aos bailes [e] ficava depois conversando. Nunca houve...

 

P/1 – Aí o senhor foi crescendo. O senhor fez nove, dez anos e começou a trabalhar fora da Matarazzo, na fábrica de vidro também?

 

R – Não, depois foi o seguinte: quando eu tinha nove para dez anos eu ia à escola, aí eu ia pra fábrica trabalhar lá, pra aprendizagem. Porque eles, tanto eu como os meus primos...

 

P/1 – Eram quantos ao todo?

 

R – Em primos, uns sete. Ia à escola, depois ia lá pra fábrica. Não tinha negócio de não poder trabalhar criança, não. Nós aprendemos e até agradecemos por ter começado lá, no primeiro mesmo… Porque era pra fechar os moldes.

 

P/1 – Era isso que vocês faziam?

 

R – Esse é o começo de um aprendizado pra ser um artesão no futuro.

 

P/1 – O que se aprende no início?

 

R – Só moldes de ferro, de acordo com o… Vamos supor que fosse assim: tem o molde, que o Videira vai preparando conforme o tamanho, conforme a largura da peça então a gente vai ter que… Ele colocava aquele vidro maleável dentro desse molde, soprava um pouco mais forte; ia rodando o vidro, ia se moldando nesse molde de ferro. Nós abríamos a parte que estava moldada, [de] dentro saía a peça. Se ela era gorda, ela saía até resfriar para depois formar um vaso - o que fosse, um aquário, uma jarra, um copo; cada um tem o seu tamanho de molde. Então nós fomos aprendendo ali.

 

P/1 – Mas não é um trabalho perigoso para uma criança?

 

R – Isso aí é… Não é perigoso, às vezes a gente pode até falar… Não é.

 

P/1 – Vocês ficavam aprendendo isso e depois aprendiam o quê?

 

R – Aí vinha pro segundo degrau, que era pra... Por exemplo, trabalhávamos aqui, depois nós tínhamos outro forninho lá embaixo, que era pra poder… A gente chamava de têmpera, [para] temperar o vidro. Se ele não passar outra vez no fogo depois de pronto, mais ou menos frio, ele estoura. É só ele esfriar, ele estoura. Então ele recebia outro calor em cima, que fazia uma têmpera. Isso é o copo de hoje. Qualquer peça de vidro estoura se não passa por lá.

 

P/1 – Da segunda etapa do seu aprendizado...

 

R – Precisa pegar a pecinha que os chamados vidreiros faziam, aí precisa levar com sacrifício. Era muito...

 

P/1 – Difícil?

 

R – Hoje não, já tem tudo… Esteira, tem...

 

P/1- Qual era o sacrifício?

 

R – Porque precisa pegar com os… A gente chamava de ferretinha. Seriam uns caninhos. Quando é feita a peça dentro do molde ela é inteira, ela está grudada nesse sopro. Ela está grudada lá, então tem que ser destacada naquela cana; a cana vai rodar pra fazer os... Só tinha que pegá-la com jeitinho. Tinha um furinho lá, [tinha que] levar que nem uma bandeirinha. (risos)

 

P/1 – O senhor gostava de fazer isso ou preferia ir para a escola?

 

R – Gostava.

 

P/1 – O que o senhor gostava mais de fazer nessa época, quando o senhor era criança?

 

R – Brincar. né? (risos) Era ficar na rua mesmo, só voltar à noite.

 

P/1 – Mas o senhor não podia? Só no final de semana?

 

R – Ah, sim. Dava tempo, porque não tinha uma rigidez... Dava tempo pra tudo, pra correr atrás de balão, pra isso, inclusive… Que nem eu estava falando do carnaval, depois vinham as festas juninas. A nossa rua era uma beleza porque a nossa fábrica tinha forno a lenha, então traziam pra rua as lenhas e acendiam a fogueira lá. Os vizinhos todos com aqueles buscapés, com aqueles negócios… Os maiores ficam assando batata, batata-doce, pipoca, e nós correndo atrás dos balões.

 

P/1 – Vocês faziam balão também?

 

R – Fazíamos, tanto que… Foi em 37, isso, quando veio o dirigível alemão aqui, passou por São Paulo. Um dos meus tios fez um balão igualzinho, com a mesma metragem, lá no pátio da fábrica. Era grande, foi muito bonito, subiu… (risos) A época era muito boa.

 

P/1 – Aí o senhor foi crescendo e quando isso tudo mudou, foi estudando o que aconteceu?

 

R – Sim, fui estudando já mais pro secundário, já começou... Meu pai preferiu que eu fosse aprender.

 

P/1 – Ele não queria que você fosse?

 

R – Não. Ele falou: “Você aprende de tudo”, não é só fabricação e não saber a coisa comercial. Precisava vir os dois. Aí fui trabalhar na cidade, num escritório, pra pegar um pouco de prática de _______.

 

P/1 – Mas a ideia era sempre trabalhar na vidraçaria?

 

R – Sempre aqui.

 

P/1 – Não tinha ideia de o senhor fazer outra coisa?

 

R – Não. Era só um estágio na parte comercial, porque senão se não tiver as duas... Se você só fabrica e não sabe a parte comercial, vender, fazer custo….

 

P/1 – À medida em que o senhor foi deixando de trabalhar na fábrica [de onde] vinham os funcionários?

 

R – Eram formados dentro da fábrica. Naquele tempo, eram todos garotos [de] quatorze anos, garotos de aprendizagem. Tinha os mais antigos, os vidreiros mesmo, fortes.

 

P/1 – Mas ele tinha muito menino?

 

R – Tinha muitos meninos de quatorze anos, todos assim.

 

P/1 – Eram pequenos?

 

R – Não.

 

P/1 – De hoje?

 

R – Menores não. Acho que não, quem foi menor de idade lá fomos nós mesmos. Aos nove anos já estávamos lá.

P/1 – Os meninos vinham de que região?

 

R – Eram do subúrbio aqui de São Miguel, de Itaquera, aqui de cima do campo.

 

P/1 – Por que havia essa preferência pelos garotos nas cristaleiras?

 

R – Isso é muito boa pergunta. Pelo seguinte: o garoto tem uma facilidade [de] pôr o vidro naquela fundição depois é que é recolhido o vidro do forno. Ele não pode parar, senão ele cai, então precisa ser virado. O menino, além de ter mais flexibilidade na mão… Se for hoje eu não faço, porque os meus dedos já não acompanham. Quando eu era garoto aquilo era um motorzinho, que ficava “zuuuuuu” pra poder moldar aquilo; vai virando, vai moldando. Um outro, que era de madeira na ponta C, vai moldando de acordo com... Mas precisa ser muito ligeiro. Outra coisa: eles têm muito mais capacidade de aprender. Acho que a cada dez, oito aprendiam bem, tanto é que hoje tem vidreiro lá que é uma beleza, tem de quarenta anos lá trabalhando, tem de 35, aprenderam tudo lá... E nós não pegávamos de fora [por] duas razões: uma que vinha cheio de vícios...

 

P/1 – O que é um vício?

 

R – Sabe… É malandragem. Estragam coisas, fazem malvadeza. Ensinam os outros a não trabalhar. Sempre tem alguns, não são todos, mas pra evitar isso nós fazíamos aí mesmo. Nossos artesãos, modéstia à parte, podia-se comparar com qualquer um… Acho que do mundo, pra fazer a peça perfeita...

 

P/1 – Como é que vai mudando, modernizando o processo de fabricação?

 

R – Quando começou esta proibição de menores, começou já a ter um pequeno intercâmbio com o exterior. Sabe-se que Portugal, que fazia assim, tinha máquinas que substituíam. Aqui também, as ferramentarias com desenho, já começaram a fazer. Foram substituindo os meninos, começaram a inventar as esteiras e não precisava carregar.

P/1 – Isso na fábrica de vocês foi acontecendo?

 

R – Ah, sim. Nós fomos acompanhando sem sair do artesanato, só fomos… Como é que se diz? Aperfeiçoando o artesanato, sem sair do artesanato. Hoje, por exemplo, existem máquinas que faz mais copos. Enquanto a gente fazia cem, eles faziam uma infinidade, a máquina trabalhava. Mas nós fomos aperfeiçoando sem sair do...

 

P/1 – E a família então continua unida nisso?

 

R – É, depois a começou a fazer a separação, quando morreu meu avô.

 

P/1 – Quando foi isso?

 

R – 1948. Começou ter aquela a partilha das coisas, divisão. Cada um tinha a sua... Como minha avó e meu pai eram anteriormente muito… Eles eram [como] os aplicadores de dinheiro hoje, compravam casas. Então minha família começou… Cada um pegou o seu lado.

 

P/1 – Em casas?

 

R – É , cada um foi pegando seu rumo também. Quem pegou na Rua Pedro Barbosa, quem pegou mesmo na [Rua] Conselheiro [Cotegipe], mas aí já desmembrou da fábrica...

 

P/1 – E a fábrica ficou com quem?

 

R – A fábrica, quando [aconteceu] o desmembramento, ficou com meu pai e mais dois tios. Ficaram em três, dos sete.

 

P/1 – E os outros, eles começaram a brigar? Como foi?

 

R – Não, não é que... Por vontade própria um não queria, não [estava] tão acostumado na fábrica mesmo. Eles eram mais da parte de expedição disso. Também pela idade, talvez, acho que não quiseram pegar compromisso, então acharam que deviam escolher ali, outro escolheu lá. A fábrica ficou com três, que fizeram a continuação.

 

P/1 – Quem? Seu pai, dois tios e sua avó também?

 

R – A minha avó não, não fez mais nada. Aliás, quem morreu em 48 foi minha avó, meu avô morreu em 43. Aí que começou a partilha geral, porque enquanto isso minha avó tinha a parte dela. A família até hoje está [um] lá, outro cá e nós na fábrica, os três. Mas nos damos muito bem, as pessoas que ficaram fora. Ficamos tocando a fábrica.

 

P/1 – Quem então ficou? O seu pai, o senhor, os tios e os primos?

 

R – Isso, o certo é que era o meu pai e mais dois tios. Fizeram uma reunião, os três saíram, meu pai entregou a parte pra mim, pro meu irmão e minha irmã. Logicamente, meus tios pegaram os filhos. Ficaram só os filhos, só nós tocando depois.

 

P/1 – Naquela época, o senhor já estava casado?

 

R – Não, eu [me] casei em 1956. Eu já fazia parte da firma em 1948.

 

P/1 - Ah, com vinte anos. Então com dezenove anos você já estava trabalhando direto na firma. O senhor já tinha muitas namoradas, como era?

 

R – Ah, algumas sempre tinha, né?

 

P/1 – E o senhor era bonito?

 

R – Talvez elas achassem, não sei.

 

P/1 – O que o senhor fazia no baile? Namorava muito?

 

R – Ah, sim, o baile. Era no Belém, às vezes na cidade onde pintava.

 

P/1 – Em que lugar eram os salões de baile?

 

R – Tínhamos aqui no Belém um salão que se chamava Londres. Era salão de festa, tinha muitos bailes ali...

 

P/1 – Toda semana?

 

R – No Largo São José tinha também.

 

P/1 – Não existe mais?

 

R – Hoje existem os ______. Como salão não tem mais nada. A senhora conhece bem o Largo São José do Belém? Onde tem aquela farmácia... Tem o restaurante Formiga e em cima desse restaurante tinha salão de bailes. Depois foi transformado em salão de bilhar, foi assim.

 

P/1 – E o principal divertimento era ir ao baile e ao cinema?

 

R – É, eu acho que eram os dois iguais. [Ao] cinema nós também íamos muito. Era época do cinema, aquelas novas tecnologias, terceira dimensão, aqueles cinemas bonitos novos.

 

P/1 – E no centro, que salão tinha?

 

R – Não, ali já era mais o centro. Tinha avenida, tinha...

 

P/1 – Esse restaurante Formiga também é antigo?

 

R – Bastante antigo, é um dos mais...

 

P/1 – Vocês iam para o centro de bonde? Como faziam para ir?

 

R – Íamos de bonde. Depois o companheiro lá tinha carro e íamos de carro. Em cima desse restaurante tinha salão de baile, chamava-se Sabrati. Você conhece o colégio Agostiniano?

 

P/1 – Não. Sabrati?

 

R – Era uma fábrica de cigarro que nós tínhamos aqui, marca de cigarro Sabrati. Eles tinham aquele salão, todo mundo podia entrar no sábado. Hoje é o Colégio.

 

P/1 – E que música dançavam?

 

R – Naquela época era bolero, depois vinha o resto. Salsa, o samba era específico, uns quatro só.

 

P/1 – E as moças iam também para o baile?

 

R – Iam, mas precisavam ir acompanhadas, porque naquela época… Pra gente levar num baile precisava pedir para o pai e ele precisava conhecer bem a gente.

 

P/1 – E a sua esposa é a primeira namorada?

 

R – Não foi a primeira, não.

 

P/1 – Você teve uma grande namorada antes dela, que o senhor se lembra?

 

R – Não assim, de paixão. Eram só aqueles namoricos de escola, paixão foi só ela.

P/1 – Foi paixão? Como o senhor a conheceu?

 

R – Em baile.

 

P/1 – Foi em baile?

 

R – Em baile, pelo seguinte: ela morava duas ruas acima da nossa. Os pais dela [eram] de origem espanhola, muito rígidos. Teve uma formatura de uma prima que era vizinha deles que pediu para ele se a deixava ir. Nessa formatura, por muito custo, ele deixou. Eu fui também, era da família, aí começou o romance.

 

P/1 – Mas o senhor gostou dela? Era bonita?

 

R – Era ela era bonitinha, não só bonitinha como também tudo de bom.

 

P/1 – Você pediu para o pai dela namorar? Foi difícil?

 

R – Ah foi difícil. Mais os irmãos, não os pais. Nossa, os irmãos tinham um ciúme dela. Nós passamos ali...

 

P/1 – Por que, namoravam escondido?

 

R – Precisava, né? Coisa de ruazinha e voltava.

 

P/1 – Marcava na rua e voltava?

 

R – Sim. Porque os irmãos soubessem era… Mas passou.

 

P/1 – Quanto tempo o senhor namorou?

 

R – Pouco. Um ano, dois em 56.

 

P/1 – Eles sossegaram quando o senhor a pediu em casamento? Os irmãos...

 

R – Os irmãos e os pais não aceitaram muito bem. Tinha bom diálogo com eles. [O pai] era espanhol, falávamos de touradas, então ele gostou. [Com] os irmãos foi difícil.

 

P/1 – Nessa época o que o senhor fazia dentro da fábrica?

 

R – Nós estávamos mais na parte gerencial.

 

P/1 – A fábrica já estava grande?

 

R – Não. A fábrica em si não cresceu, só foi modernizando. Por exemplo, os fornos que eram de lenha [eram] um sacrifício danado e os outros problemas internos dos fornos. Era horrível isso, quando acontecia. Fomos indo com fornos mais modernos, já eram mais alimentados por combustível. Depois fizeram fornos mais modernos, diferentes. Acompanhando, sem sair do artesanato e daquele lugar.

 

P/1 – Sempre naquele lugar? O senhor nunca pensou em sair de lá? O senhor nunca pensou em mudar de emprego?

 

R – Isso foi pensado ultimamente devido a muita... Pra modernizar uma fábrica de vidro precisa ter bastante espaço espaço ali. Não tinha condições de modernizar máquinas e fornos... Mas nunca... Sempre fui muito bem ali… Aquele ladozinho, todo mundo vivia… Fizeram sempre coisas aqui na praça. Tudo bem.

 

P/1 – A clientela de vocês vem de onde? Dos bairros, de longe?

 

R – Pra nós, até uma certa época, era só aqui no Brás, onde tem o Mercado Municipal. A Rua Florêncio de Abreu tinha muito atacadista naquela época. No interior não tinha quase nada, então eles vinham apanhar tudo aqui. [A gente] alimentava, fornecia tudo para essas distribuidoras, que são chamados. Era uma coisa que só o interior comprava muito. Depois começou... O interior a progredir também. Nós fomos obrigados a procurar outro espaço, aí já foi vender pro interior.

 

P/1 – O senhor se casou. Mudou de casa, rua?

 

R – Nós mudamos para a Avenida Celso Garcia, que é uma rua paralela. Ficamos um pouco lá, aí compramos uma casa na Rua Conselheiro [Cotegipe] mesmo, [em] que estamos até hoje.

 

P/1 – É a mesma casa?

 

R – Não, mas era vizinho. (risos) A casa antiga ainda está lá no... É de uma prima nossa que está lá, ainda em casa.

 

P/1 – E no casamento, o que o senhor lembra? Nasceram filhos? Como foi a vida, sempre no Belém?

 

R – É, sempre no Belém.  Os filhos foram crescendo, estudando. [Ficaram] moços, fazendo as traquinagens deles. Entrou na USP, se formou [em] Economia.

 

P/1 – E ele foi para a fábrica agora?

 

R – Ele foi para a fábrica agora, só que temporário. Ele preferiu, depois que casou,  ele e a esposa ir para o interior. _______ dela era lá do interior, ela gostava e ele também. Eles estão muito bem. A minha filha formou-se psicóloga e está aí com os filhos.

 

P/1 – Casou e não trabalhou?

 

R – Ah, sim. De vez em quando ela tem uma temporada, depois parou.

 

P/1 – Como foi então, o senhor ficou em sociedade com a fábrica? O senhor e seus dois primos?

 

R – Isso.

 

P/1 – Até quando que durou isso? O que aconteceu?

 

R – Em 1960, um dos primos resolveu sair da firma, ele montou uma para ele mesmo. Fiquei eu e outro primo, ficamos em dois, até que faleceu faz uns seis anos e entraram os filhos dele. Um era engenheiro, o outro era cirurgião dentista, então não quiseram participar da fábrica. Depois puseram um representante pra eles. Ficamos assim até outro dia.

 

P/1 – É com este representante que o senhor está brigando?

 

R – Não. Depois os meus primos resolveram vender e entrou essa pessoa lá, até agora.

 

P/1 – Brigando? O senhor não quer contar esta história?

 

R – Não.

 

P/1 – Mas a fábrica hoje tem vidro barato. No que ela se especializou? Ela vive do que hoje?

 

R – Ali precisou se… Até uma certa época, até 50 e pouco era somente para restaurante, copos, jarros e doméstico. Tinha estas cristaleiras, taças, era a especialização. Depois começaram a nascer novas fábricas ali, nós precisamos abrir o leque de fazer outras coisas. Começamos [com] o vaso, pegamos uma certa parcela para laboratórios, estamos [indo] para poder sobreviver bem.

 

P/1 – Foi a primeira fábrica de vidro de cristaleira para venda?

R – Não foi a primeira, foi uma das primeiras.

 

P/1 – O senhor falou umas vinte. Hoje tem mais?

 

R – Hoje acho que não tem, só esta. Fecharam todas, as grandes, as pequenas. As Cristais Prado... Deve ter ouvido falar em Cristais Prado.

 

P/1 – Era do Belém?

 

R – Todas fecharam, as grandes, as pequenas; artesanato só tem agora lá no subúrbio, em Itaquera, onde tem as fábricas. Tem só umas quatro ou cinco lá agora.

 

P/1 – Por quê? O que aconteceu no bairro, que foram fechadas e indo embora?

 

R – Talvez pela mão de obra, porque a mão de obra vem quase toda de lá, do subúrbio -  Itaquera, Poá, São Miguel, de...

 

P/1 – Então a mão de obra está lá e as fábricas foram para lá...

 

R – E a facilidade de comprar terreno lá. Eles dão incentivo e ficou fácil. Aqui no Belém não tem mais, só a nossa.

 

P/1 – Qual é a área dessa fábrica?

 

R – Deve ter uns 1500 metros, mais ou menos, mas o galpão em si… Tem uns quase quinhentos de galpão.

 

P/1 – Ficou só esta fábrica. Até hoje a fábrica está funcionando?

 

R – Está funcionando, está lá e todas as...

 

P/1 – E desse momento o que mais muda no Belém? O que o senhor viveu na sua infância para hoje, o que está mais diferente?

 

R – Vamos dizer... Diferente, primeiro as famílias. Família mudou completamente, antigamente eram todos unidos... Vizinhos, irmãos. Hoje não tem mais nada disso, hoje é um pouco sem ninguém.

 

P/1 – Chegou muita gente nova?

 

R – As antigas... Tem pouco remanescente dessas antigas, pouquíssimos que eu conheço, que ainda encontro por aí. O resto é mais comércio.

 

P/1 – Ficou muito mais comercial o bairro?

 

R – Mais comercial, muita lanchonete, muito... Antigamente eram vilas de casas. E acho que para as crianças hoje é uma barbaridade, não tem onde brincar, não tem onde... E nós tínhamos, então está cada vez [mais] esse problema de violência, vai modificando...

 

P/1 – Vai ficando pior? O senhor acha que o bairro...

 

R – Pior. O bairro é bom de se viver, é gostoso, mas tem que viver dentro daquela... Eu estou falando gostoso talvez porque eu vivi tantos anos [ali] e ainda gosto.

 

P/1 – O senhor gosta de ir a algum lugar? Uma padaria ou restaurante que o senhor frequenta?

 

R – Aqui tem o Formiga, que a gente vai. Abriram várias pizzarias novas, que também mais...

 

P/1 – A paisagem do metrô que dividiu o bairro, isso fez alguma influência?

 

R – Também.

 

P/1 – Por que ficou um lado para cá, outro para lá. O senhor sentiu alguma coisa?

 

R – Dividiu. Se bem [que] quando a gente fala do Belém, a gente pega o quadrilátero do Largo São José, a nossa _______  até a Rua Herval, que era o Belém mesmo, chamado ‘Belém gostoso’. Na época anterior, meus pais diziam que era melhor ainda.

 

P/1 – Estas festas de rua que o senhor fala ainda acontecem?

 

R – Pouquíssimas. Não tem mais nem carnaval nem festa junina... Só restringe hoje, tudo interno: carnaval em salões, as festas juninas são [em] escolinhas infantis. A gente vê qualquer coisa assim, as menininhas vestidas à caráter caipira.

 

P/1 – Semana Santa tinha?

 

R – Tinha a procissão. Era uma coisa, demorava mais de quatro ou cinco horas de passagem. Hoje é bem pouco componente e corrido, parece que hoje a mentalidade hoje é só de as...

 

P/1 – Antigamente tinha malhação de Judas?

 

R – Tinha bastante, [em] todos os postes aqui era um. Hoje não tem mais, você vê, está restrito à cidade. Você vê aquela bandalheira que eles fazem lá, aquilo não é...

 

P/1 – E a Igreja, o senhor ainda vai?

 

R – Ah vou, ainda frequento. Não assiduamente, mas frequento. Eram muito bonitas as procissões. A procissão do encontro com Maria era muito bonita, aquela geração dos mais velhos, todas aquelas senhoras com aquelas velinhas, era muito bonito, pretinho, assim… Hoje não existe mais nada, por isso que eu digo não tem mais, se falar que os...

Eu gostava mais. Hoje quase não [se] anda a pé, tudo frio… Os vizinhos, um não encontra com outro, como se ajudavam as vizinhas, principalmente quando ia ter nenê. Nossa, todo mundo fazia… As mulheres, as vizinhas tratavam das moças,  quarenta dias fazendo canja, isso e aquilo. Agora nem se sabe se a vizinha vai ter. Ficou muito fria a coisa, eu acho.

 

P/1 – Agora o senhor que trabalha e mora aqui, o senhor costuma sair para outros lugares da cidade?

 

R – Não, não.

 

P/1 – O senhor fica por aqui, em geral?

 

R – Não tenho aquela coisa de muito... Sou mais acomodado. Talvez agora a gente vá se habituando a outra relação, de não sair de casa, porque se sai não sabe se volta. É coisa estúpida falar isso, mas… Então a gente fica restrito à rua. Nós vamos ao teatro? Peraí... Dá aquele pensamento. E a volta, não sei o que pra entrar em casa… Eu penso que isso é coletivo, não é mais pessoal, meu. .

 

P/1 – E o senhor em casa, o que mais gosta de fazer?

 

R – Eu gosto muito de escrever, gosto de… Eu faço escrita, coisa minha, particular.

 

P/1 – Poesia?

 

R – Isso quem faz é a minha esposa. Ela é artista, além de bordadeira é pintora, escultora. Não exerce, mas faz, hoje ela está pintando muito bem. Eu já pego coisa de jogos, jogo de xadrez. Eu gosto muito que sai nos jornais aquelas partidas, daí eu fico… Eu gosto muito disso. Saio, vou ao Clube da Polícia Militar, é muito bom.

 

P/1 – Vai lá jogar?

 

R – Hoje, na minha idade... Jogo boccia, que é dos italianos, e faço natação, passo minha hora assim.

 

P/1 – E agora para frente, quais são os seus planos? Tem algum sonho?

 

R – Ainda não veio uma coisa concreta, então está só tudo no “papa pano”. Ainda não tenho uma coisa bem concreta, mas tem umas coisas que talvez deem certo.

 

P/1 – É, o senhor pode contar para gente?

 

R – Vamos mudar do Belém, porque chega uma hora que tem que tirar fora os sentimentalismos, [pra] uma coisa bem melhor.

 

P/1 – O senhor pretende mudar do Belém para ir pra onde?

 

R – Talvez Alphaville... Coisa mais calma, não é...

 

P/1 – O senhor decidiu que vai se aposentar da fábrica mesmo? Mesmo que resolva o problema da fábrica?

 

R – Sim, não volto.

 

P/1 – Quando o senhor resolver o problema da fábrica, o que o senhor vai fazer com ela?

 

R – Vamos ver. O que for terminado lá… Estou aí, até escolher um caminho melhor para...

 

P/1 – Então a ideia é sair do Belém para Alphaville?

 

R – É, em princípio Alphaville parece uma coisa bem calma. Outros bairros, não sei se eu ia me adaptar, porque parece que estão todos iguais - a Mooca, Tatuapé, que está um pouco melhor, mas...

 

P/1 – Outro plano que o senhor tem?

 

R – Não, não tem. Só se aparecer alguma viagem, mas especificamente a gente não...

 

P/1 – Então está bom, vê se o senhor quer lembrar de mais alguma coisa.

 

R – Acho que de um modo geral essa é o resumo da... Tanto da família, da indústria e do bairro. Creio que não faltou muita novidade.

 

P/1 – Se eu perguntasse para o senhor agora aquela coisa mais feliz, mais importante que aconteceu na sua vida, o senhor consegue lembrar?

 

R – Eu acho que na época deu para lembrar bem. Quando os meus avós fizeram cinquenta anos de casados foi uma semana de festa lá na rua, com os funcionários, com os vizinhos. Os funcionários eram tão bons, eram tão ligados. Tinha aqueles bambus, naquele tempo que cercavam em arco as ruas. Foi muito gostoso, uma passagem muito bonita da gente, que eu lembro. Uma semana de... Acho que foi marcante. A gente tinha de bom, ali… Os funcionários eram todos amigos. Eles trabalhavam, iam para suas casas [e] à noite voltavam em casa e jogavam, a família... Não era patrão [e] empregado. Além de jogar eles eram muito simplórios, se tinha que xingar quando não jogava as cartas eles xingavam, era muita coisa boa, engraçada. Em linhas gerais...

 

P/1 – Esses funcionários, ainda estão alguns lá, que o senhor falou que estão desde garotos?

 

R – Não, daquela época que eu estou falando já não existe mais.

P/1 – Ah sim, são os garotos que ficaram quarenta anos...

 

R – São. Era muito bom, era muito alegre.



Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+