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História

Saudades da minha casa

História de: Rodrigo Santos de Oliveira
Autor: Rodrigo Santos de Oliveira
Publicado em: 22/09/2020

Sinopse

Diário de Rodrigo Santos de Oliveira, 20 de agosto de 2020. Jornada, dia 3.

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História completa

A casa onde passei parte da minha infância e boa parte da minha adolescência representa um divisor de águas na minha vida. As partes de uma casa se desmembravam num único cômodo, no entanto ao mesmo tempo, tudo ficava ajuntado. Essa casa, a minha casa, estava inserida num contexto pobre, dentro de um cortiço, com várias outra pessoas. Lembro que saíamos no início cedo dos dias para retornar às noites. Havia um cheiro úmido, de lugar fechado por muitos dias, característico pela falta de circulação de ar, a casa tinha uma única janela. As camas desarrumadas, o fogão com as panelas das jantas do dia anterior, a pia com a louça suja do café com leite que a minha mãe, apressadamente, preparava para a gente antes de sairmos todos para o trabalho ou para a escola. Minha mãe amava bibelôs, então havia muitos pela casa, eles sorriam para a gente quando estávamos por ali. Não havia privacidade para ninguém, as vergonhas ficavam desavergonhadas e eram naturalmente aceitas. E todos os finais de dia eu tinha a sensação de que aquele era para sempre o nosso eterno porto seguro.
Aos finais de semanas, a casa tomava outros sentimentos. A pequena janela de cores verdes se abria para a entrada do ar da manhã, da quentura da tarde e da brisa da noite. Ajeitávamos todo o cômodo, dando significado mais arejado e convidativo. Nesses dias eu tinha orgulho desse lugar e cogitava a ideia de trazer meus amigos para visitá-lo, mesmo tendo noção de que, talvez, ficássemos todos apertados ali. A minha mãe ligava o rádio, ouvíamos músicas e as notícias do dia, enquanto ela preparava a comida. A alegria era constantemente presente, entre algumas adversidades. Vez ou outra um vizinho se achegava e sentava num pequeno sofá verde também, bem clarinho, que ficava praticamente na porta, como se fosse uma recepção. Lembro exatamente dos vasos de plantas e flores, que a minha mãe, gostando sempre de cultivá-las, coloria nosso lugar, principalmente nas épocas do ano em que elas ficam mais bonitas. A minha casa da infância e de parte da minha adolescência fica até hoje nas minhas memórias, porque hoje ela não está mais lá. É um lugar afetivo que não foi derrubado, mas que continua vivo, latente, erguido. Saudades desse lugar e de todos os acontecimentos que tivemos ali. Saudades da minha casa.

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