Busca avançada



Criar

História

Saudade da Canoa

História de: José da Silva Neto
Autor: Ana Paula
Publicado em: 15/06/2021

Sinopse

A entrevista traz a infância de José da Silva Neto, parte da sua história pessoal, da sua família e da cidade de Sete Barras (SP).

História completa

Projeto Cabine - Museu em Rede Realização Instituto Peabirus, Instituto Museu da Pessoa e Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo Entrevista de José da Silva Neto Entrevistado por Isla Nakano e Ana Letícia Viana Sete Barras, 5 de Fevereiro de 2011 Código: MRSB_CB013 Transcrito por Luana Lorena Revisado por Marconi de Albuquerque Urquiza P/1 - Seu José, primeiro eu gostaria de começar agradecendo a presença do senhor. E pedir pro senhor falar para a gente qual que é o seu nome, local e data de nascimento. R - José da Silva Neto, sou nascido em 14 de agosto de 1927. P/1 - E o local de nascimento. R - Nascimento, eu nasci... Naquele tempo... Mudou né? No município de Eldorado, São Paulo. Era Xiririca antigamente [risos]. P/1 - E qual a origem da sua família? R - Minha família? Origem sobre...? Eram de lá também. P/1 - De Eldorado? R - Eram do sítio, né? Mas é município de Eldorado, município de Eldorado mesmo. P/1 - E vamos começar então falando um pouquinho sobre a sua infância. Você lembra da casa que você passou sua infância? Como é que ela era? R - Que passei na infância? É... A casa, você sabe como é que é, casa de gente pobre sabe como é, né? [risos] P/1 - Conta pra gente! R - Então, mas aqui ou lá? P/1 - Primeiro lá. R - Lá… P/1 - Primeiro em Eldorado. R - Lá meu pai morava em um sítio, né? Eu pra vir de lá da casa do meu pai na escola... Eu aprendi um pouquinho de escola mista, eu não sei grande coisa... Um pouquinho de escola mista... Mas eu viajava uns oito quilômetros andando, pra chegar na escola. Depois meu pai mudou na beira de ribeira aí, aí a gente atravessava o rio, né? Morava pro lado de lá e atravessava pra cá, pra ir pra escola. Daí ficamos na beira do rio. P/1 - E o que mais o senhor se lembra da escola? R - Da escola? A gente estudava na escola mista lá, até que a gente depois saiu da escola, porque terminou, no _____segundo ano. Só que antigamente as professoras... Antigamente tinha educação, já vou falar certo... É porque hoje os estudantes, muitos não têm educação, é verdade ou não é? É verdade? [risos]. Muito estudante hoje não tem educação, antigamente a gente respeitava a professora... Bom, não sei pra lá, mas por aqui os estudantes não respeitam o professor ou a professora. Antigamente, se a gente fizesse qualquer coisa a professora batia. A gente chegava em casa e se o pai da gente soubesse que a professora batia, a gente apanhava. Apanhar porque, né? Alguma coisa a gente fazia. Hoje a gente vê que as coisas são muito diferentes. Então era isso. Depois nós já estávamos grandes... Estávamos pequenos ainda nós viemos para cá, pro município de Sete Barras, e ficamos um pouco... P/1 - Quando que o senhor veio para cá, para Sete Barras? R - Ã? P/1 - Quando o senhor veio para Sete Barras? R - Ô, agora também não... Porque faz... Quando eu vim pra cá a primeira vez eu tinha uma base de uns oito anos. Depois ficamos no sítio aí, no sítio dos outros, né? Não era do meu pai. Aí ficamos uns tempos lá e depois voltamos lá pro _____ outra vez. P/1 - Por que é que vocês vieram para cá? R - É que a gente veio ver se... Uns homens convidaram a gente para vir trabalhar com eles, aí a gente veio, né? E depois que a gente voltou meu irmão veio de lá, estava trabalhando com um homem aí no bananal, aí já estava trabalhando com bananal... Porque antigamente não tinha banana aqui. P/1 - Era o que antes da banana? R - Antes da banana plantava um arroz, mais era arroz. E tinham fábricas de fazer açúcar, de fazer pinga... O povo aí, os povos do Vale do Ribeira, aí. Depois começou... Porque tinha banana lá pros lados de Juquiá, aí o povo começou a plantar banana pra cá. Foi, foi, que acabaram com o negócio de lavoura de arroz, de feijão, essas coisas... Feijão não plantava muito, mas arroz plantava bastante. E aí a gente estava no meio deles trabalhando [risos]. Eu sempre trabalhando ____... P/1 - Conta um pouquinho do seu trabalho. Qual foi seu primeiro trabalho? R - Meu primeiro trabalho sempre foi na roça. Meu pai também tinha uma fabricazinha pra fazer açúcar. Eu trabalhava com ele, era criança, vinha da escola, pegava cavalo de noite pra moer cana, por na moenda pra moer cana... Era isso aí, serviço bruto, já digo, né? E esses foram meus trabalhos. Agora depois... Antes de nós mudarmos para cá, nessa ribeira aí... Acho que eles já deram entrevista aí... Viajava de barco, para carregar mercadoria daqui pra Iguape… P/1 - Conta um pouquinho pra gente dessas viagens de barco pelo rio. R - Ã? P/1 - Conta um pouquinho pra gente dessas viagens de barco pelo rio. R - A viagem de barco... Porque não tinha estrada para andar de carro, não tinha aqui. Aí depois que fizeram é que começou a andar carro assim, mas o barco vinha de Iguape e ia à Eldorado, trazia mantimentos aqui pra Sete Barras, pra Eldorado, pra Registro... Vinha de Iguape. Acho que vinha de Santos, São Paulo, não sei da onde... Mas era isso aí. Porque o povo aqui pra ir daqui à Eldorado ou ia no barco, quando passava ai, ou ia a cavalo, ou ia andando porque carro não tinha condição. P/1 - E me conta um pouco aqui da cidade de Sete Barras, quais são os lugares que o senhor costuma frequentar? R - Aqui mesmo? P/1 Daqui. R - Daqui eu fico sempre em casa, sempre em casa... Trabalhei na praça aqui um pouco, depois parei. P/1 - O senhor trabalhou aqui na praça? R - Na praça de carro de táxi, né? P/1 - Eu não entendi. R - De carro de praça, mas aí já é bem pra cá do que esse que eu falei, o que eu falei já era antigo. Aí depois... Porque essa Sete Barras aqui era dominada por Eldorado, que era Xiririca naquele tempo, depois passou e ficou dominado por Registro. P/1 - Como foi esse processo de emancipação da cidade? R - Pra aqui? P/1 - Daqui. R - Aqui foi... O Sebastião Madaleno era muito colega de um deputado lá em São Paulo, o deputado era Amaral Furlan. E aí ele conseguiu com ele lá para fazer a emancipação política. Aqui não tinha prefeito, uns tempos aqui não tinha. Aí depois que Sete Barras passou a município é que começou a prefeitura. Até ele mesmo foi o primeiro prefeito aqui, o Sebastião Madaleno. Acho que a turma já falou aí, não falou? P/1 - Pode contar pra gente, conta pra gente! R - Então, aí ele com o Antônio Xavier, que também era um homem mais inteligente aqui, pra falar a verdade, fizeram a política aí e ele ganhou na política. Aí ele governou uns tempos. Aí já tinha estrada pra ir daqui pra Registro, agora daqui pra Eldorado, pro lado de cá não tinha, não tinha pra lado nenhum, a gente andava andando ou a cavalo por aí, aqui era sofrido [risos], era sofrido a gente. Daí tinha muitas coisinhas aí, mas Sete Barras começou a crescer um pouquinho depois que entrou prefeito aqui, né? P/1 - Que mudanças você sentiu depois da emancipação? R - Ah, a gente sentiu bastante coisa, né? Porque aí começou a entrar o prefeito começaram a fazer alguma estradinha no município, começou a fazer alguma coisa, trazer alguma coisa. P/1 - Como o que por exemplo? R - Ã? P/1 - Como o que por exemplo? Que foi feito. R - Que foi feito? Então, eles começaram a fazer estrada pro sítio, começaram a trazer algumas coisas pra cá, e aí foi aumentando... Aumentando aos poucos. P/1 - E como que é o seu dia a dia na cidade? R - Aqui da turma? De toda a turma? P/1 - O seu, o seu dia. R - Ah! O meu? Ah, eu sempre trabalhei, trabalhava no sítio dos outros mas trabalhava de sociedade, agora ultimamente trabalhava de sociedade de bananal, a gente plantava arroz de sociedade antes disso, depois que... Aí a gente trabalhava de sociedade no terreno dos homens aí, pra viver, né? Depois eu comprei o... Bom, esse já foi bem agora, comprei um sitiozinho aí nesses matos também, mas não fiquei muito tempo porque minha mulher ficou doente e foi preciso tirar ela de casa, e ela ficou muito tempo fora de casa, depois ela não quis mais voltar lá pro sítio, aí andei vendendo o sítio e fiquei me "esbaquiando" por aí [risos]. P/1 - Conta pra gente uma história marcante que o senhor passou aqui na cidade. R - Marcante… P/1 - É. R - Mais marcante era esse tempo do navio, que a gente andava na ribeira aí, né? Porque hoje a gente quase... Nem canoa não tem aí, mas antigamente tinha, na ribeira. Por aqui era mato, né? A "cidadinha" era lá na beira da ribeira. Lá que tinha aquele arruamento, tinha pouco comércio, agora já tem bem comércio, mas [tinha] muito pouco comércio aqui. P/1 - Alguma outra que o senhor lembre que marcou? R - O que eu lembro mesmo é isso. P/1 - E sobre as lendas da cidade? R - Ã? P/1 - As lendas da cidade. R - As lendas. Aqui não tem lenda, pra falar a verdade [risos]. Não tem lenda. Também tinha um... Dia sete de setembro, tinha um bom pouco de japonês, né? Eles faziam festa de japonês aí. Convidava os japoneses... Os brasileiros também iam junto, nos campos, no campo aí. Aqui tinha um campo [aponta com a mão], não tinha essa igreja aí, a igreja que tinha era só aquela lá [aponta com a mão]. Aí eles faziam festa, convidavam o povo, fazia festa bonita o japonês... Japonesada fazia uma festa bonita aqui, a gente alguns dias até lembra… P/1 - E ainda tem essas festas japonesas aqui na cidade? R - Não, não tem mais... Eles faziam aqui e faziam com o sítio, porque tinha muito japonês aqui, tinha bastante, agora… P/1 - E no dia a dia onde mais o senhor consegue ver essa presença japonesa aqui? R - "Ôi", agora eu não sei por aqui. Não sei se lá em Registro ainda fazem, mas aqui não faz nada. Japonês não faz, porque além disso os japoneses mais velhos também já morreram um pouco, eles não fazem mais essas festas que faziam, não faz mais faz tempo, esse já faz tempo que não faz. P/1 - E conta pra gente seu José, quais são seus sonhos? R - Meu sonho? O sonho da gente agora é pouco, né? [risos] Porque a gente quando é novo tem sonho de "apossuir" alguma coisa, né? A gente se "esbaqueia" daqui, se "esbaqueia" dali. Mas... Bom, graças a Deus [levanta o boné], Deus me deu um barraquinho pra mim morar, e aí que eu estou morando graças a Deus, deu pra mim e pra minha família. Porque a gente que... Bom, não tem nada... Eu não digo que não tem nada, porque nós temos Deus com "nóis", né? Deus é muito pra nós. Mas eu saí do... Me levantei do chão, ó, essa minha casinha que eu fiz foi tudo com dinheiro derramado de suor. Graças a Deus, ele me deu. Agora hoje a gente não pode mais trabalhar, mas eu trabalhei muito, aqui no município de Sete Barras eu trabalhei bastante também. Trabalhei muito e estou vivendo aqui, né? Vivendo... P/1 - E fala pra gente como foi contar a sua história, pra gente aqui. R - Ã? P/1 - Como é que foi você contar essas histórias pra gente aqui? R - Pra mim contar? P/1 - Não, como é que foi? O que você sentiu contando essas histórias pra gente? R - É que elas estão perguntando, aí a gente... É o pouquinho que a gente sabe, é esse [risos]. Vai fazer o que, né? Pra mim que não tenho estudo nenhum, eu não tenho estudo nenhum, né? Porque a gente que estuda tem muita história pra contar. Tem alguns que não tem leitura mas contam muitas histórias, mas eu não sou aquela pessoa de contar muita história. P/1 - O senhor não lembra de nenhuma história que queira contar, deixar registrada pra gente, sobre a cidade, o senhor, a família, seus pais, avôs...? R - Meu pai, meu pai, ele morreu aqui também, aqui no município de Sete Barras. Mas ele morreu em um sítiozinho que eu tinha, aí, no fundo do mato. Ele morreu lá, minha mãe [também]. E aí depois eu vendi o "sitinho" lá, e aí comecei a me "esbaquiar" por, aí, a fora [risos]. Até hoje, estou vivendo... Devagar... Mas o... Pra mim, pra mim o lugar aqui foi muito bom, porque eu nasci ali, mas o... e aí depois que eu vim pra cá só vivo por aqui, só vivo por aqui... A gente sai às vezes aí por fora, mas é pouca coisa, sempre vivi no... Já digo: vivi no mato, porque a nossa "cidadinha" aqui é a "cidadinha" do mato. P/1 - O senhor gosta de viver aqui? R - Eu gosto. P/1 - Por quê? R - Porque regula que eu me criei ali, mas regulou que eu me criei aqui. Porque quando eu vim pra cá eu tinha mais ou menos uns 15 anos, regulou que eu me criei aqui, né? Com meus pais. Então a gente gosta do lugar que a gente se cria, né? A gente nunca... Eu tive uns tempos uma vontade de sair, mas eu tinha um barraquinho aí, se eu conseguisse "avender" eu… P/1 - Desculpa, o senhor tinha o quê? R - Ã? P/1 - O senhor tinha...? R - Digo, eu tenho um barraquinho aqui. Mas eu não consegui vender, porque se eu vendesse eu tinha vontade de ir lá pra Sorocaba. Mas como não consegui vender [risos] fiquei por aqui mesmo. E graças a Deus... P/1 - Por que pra Sorocaba, seu José? R - Não, ver se a vida melhorava mais, né? Mas a vida da gente Deus sabe onde que deixa né? Aonde que deixa a gente vive, não é verdade? P/1 - O que é que o senhor acha que falta pra vida melhorar, então? R - Bom, pra mim graças a Deus não falta nada. Não falta nada. Falta dinheiro, mas dinheiro o que a gente ganha a gente come [risos], né? Porque pra ganhar dinheiro a gente... Sair do cavaco, eu já digo, né? Porque tem pessoas que ajudam, bom, eu não digo que ninguém tenha me ajudado, porque se eu trabalhei em terreno alheio não era meu, né? Se eu ganhei alguma coisinha foi por terrenos alheios. Mas eu dou graças a Deus de estar até hoje aqui, graças a Deus. P/1 - Então está bom seu José, muito obrigada por ter dado essa entrevista pra gente. ----- FIM DA ENTREVISTA -----
Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+