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História

São Paulo das memórias

História de: Antonio Serafim de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/07/2005

Sinopse

Em seu relato, Antônio Serafim relembra momentos marcantes da sua vida na cidade de São Paulo, recorda brincadeiras de infância e juventude, como era o carnaval em sua época, além de discorrer sobre momentos históricos que viveu, tais como: o governo de Getúlio Vargas e sua perseguição contra o comunismo, o sentimento da população na época sobre a Revolução Constitucionalista de 1932 e, por fim, falou sobre seu desejo de que os jovens tenham mais consciência política

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História completa

P1 – Então pode começar.

 

R – Nasci no dia 27 de julho de 1921, no bairro da Bela Vista e o meu pai era Brasílio Serafim de Oliveira e minha mãe Dona Aurora Maria Augusta de Oliveira. E meu pai era jornalista e minha mãe era professora primária.

 

P1 – Certo. Seu nome?

 

R – Meu nome é Antônio Serafim de Oliveira.

 

P1 – Seu Serafim, eu gostaria que o senhor falasse um pouco como era a sua infância, que tipos de brincadeiras vocês faziam...

 

R – A minha infância é o seguinte: desde quando eu me conheci por gente, com  quatro anos de idade já tinha amizade com todos os vizinhos, assim, era incomum, na Rua País 60, né, e brincava os primeiros brinquedo meu, assim, foi com uns sete, oito anos. Brincava com pião, muito, papagaio, empinava quadrados e era uma infinidade de criança assim que brincava na rua. A rua ainda não era de... Não era calçada, tinha uma estrada. Depois quando tinha dez anos eles calçaram a rua com paralelepípedo. E os brinquedos era sempre, era balões, todos anos e Santo Antônio, São Pedro, São João; era uma infinidade de balões que eram. E se via à noite mais tocha de balão do que estrela. E durante o dia então eram aquela fantasia de balão no ar, era cruz, coroa, figura, e sempre tinha prêmios, assim, sempre tinha uma pessoa no cada bairro, de destaque, que gostava de brincar com a criança, assim, ganhar uns 500 mil réis que era antigamente, no balão eles soltava, aquela criança andava um quilômetro, dois quilômetros para pegar o dinheiro, né? Aí eu fui crescendo, tal, com 11 anos, 12 anos, então tinha um tempo de chegar o dia 31 para 1º do ano, meia noite em pontinho aquele bate-poste que não acabava mais; era menina, menino, e aquilo ia até às duas horas da manhã, né? Eles que faziam, as crianças. Aí eu fui passando quase meio da adolescência, uns 14, 13 anos...Então, tinha aquela brincadeira assim que eles pegavam a placa de médico, punha no sapateiro, o sapateiro punha no médico, de parteira punha no dentista e de manhã eles levantavam e aquela trapalhada toda, né? Era o que fazia antigamente, brincadeira de criança. E tinha o tempo de pião, tinha o tempo de pratinha, era cerveja que se jogava...Casinha, era, montava três varetinhas lá com uma bola de tênis, batia, era um brinquedo. Aqui em São Paulo, antigamente, eu vivia, de adolescente até mocinho, era futebol. Era a terra do futebol. Assim, o futebol não é do Brasil, é da Inglaterra mas aqui só se via sábado e domingo só aquelas crianças com saco nas costas, pegando esses bonde aberto e ia para lá para Vila Mariana, era um torneio de futebol e fazia mais ou menos, vamos comparando, um torneio como, assim, uma copa do mundo.  Mas sempre tinha um chefe, uma pessoa do bairro, um dentista, um médico, um advogado, que tinha seu time. E na Rua Paim tinha, hoje o que é o Teatro de Maria Della Costa, era um campo de futebol, era um campo, era um barranco e ali jogavam muito futebol. Homem já feito. Então tinha o Lusitana, tinha o tal de Vai-Vai, tinha o Caveira de Ouro e depois jogava alguns garotos, que era o Bloco Azul, Bloco Júnior, uma infinidade, Bela Vista de Baixo, Besta Vida de cima, então a gente jogava futebol ali.

 

P1 – O senhor jogava?

 

R – Jogava, eu jogava de goleiro. E em todos bairros tinha um campo. Dado pelo prefeito. E aquilo ali era uma farra de criança, que... E tudo dentro da boa harmonia, ninguém brigava, ninguém, né, e aquele tempo não tinha aquele negócio de, ginásio, no ginásio tinha quatro, cinco ginásio do Estado e um grupo escolar ali. Eu fiz o grupo escolar no Grupo Maria José, na Rua Mané Dutra e depois fiz o colégio no Colégio Santa Isabel, perto da Santa Casa na Rua Santa Isabel. E antes me preparei, que não existe mais, para o Externato Nacional, um ginásio, na Rua Augusta e a minha vida foi assim. Era um, por exemplo... Era alegre. As crianças não tinham o que tem hoje, né? De muita doença. O que morava dentro de São Paulo era o tifo. Era o tifo e aquele tifo os médico da saúde pública vinha vacinar as criança em casa, entendeu? Eles vacinavam a criança, já dava um corte no braço, ficava um calombo lá, uma coisa horrível, aquele tempo em que era isso aí que fazia.

 

P1 – Certo.

 

R – E tinha muita brincadeira de... Os primeiros parques infantis que eu conheci foi o de Getúlio Vargas. O primeiro que eu brinquei foi o Parque D. Pedro II, tinha umas gangorras que falava, uma, uns balanço e areia para criança, aquele negócio. Então a vida era tão fácil aquele tempo, quer dizer, era difícil assim para os pais da gente, mas não se queixavam de miséria não. Eu não sei se era a classe média, mas era tudo igual, o branco, o preto, japonês, brincava tudo igual. Tinha uma igualdade. E não tinha tanta malvadeza como existe hoje de criança, aquele negócio todo. Aí a gente foi crescendo e aí tinha as peraltagens, mas que os outros faziam, mas não era ali. Por exemplo, a Rua Paim tinha uma divisa que o pessoal não se dava muito, aí num tempo foi povoando, aparecendo umas crianças dos outros estados, aquele negócio, e criaram que nem um território: Rua Paim de baixo e Rua Paim de cima. Então fazia aquela divisa, com a Rua Santo Antônio com a Rua Paim. Então tinha uns morros, parecendo o Rio de Janeiro, até comparar aqui os morro, né? E tinha a Rua Rocha, o Largo da Saracura, tinha a Rua Martirião, né, que tudo aquela redondeza. E um dos meninos lá, depois ele era maior do que eu, ele assistiram, viram a Revolução de 1924 e eu não cheguei porque era, eu sou de 21, né, e eles inventaram uma guerra entre a Rua Paim e a Rua Santo Antônio, que fazia divisa. E na rua Santo Antônio tinha uma senhora lá que não era muito boa do sistema nervoso, e o marido era sapateiro. Então ele ficava numa casa no alto, a única casa que tinha boa; a Rua Paim, tudo, não era calçada, tinha faixas de casa mas não era... Aquela rua que atravessava a rua parece que é Anhandava, uma rua assim, né, ela abriu me lembro quando abriu à ponta de picareta aquilo. E seguindo a Rua Paim do lado, no fim quase da Rua Martinico Prado que tem aqueles escadões que descem da Frei Caneca para Nove de Julho e tinha chácara muito grande ali chamado Teixeirinha e essa chácara tinha fruta, pombo, pássaro. Então pagava 200 réis e a gente comia, não podia levar, açaí, se divertia, né, entre a Consolação, quase, e aquele viaduto Jacareí, é isso. Era esse que...

 

P1 – E daí quê que vocês brincavam nessa Rua Paim?

 

R – Ah, a Rua Paim brincava muito à noite. Tinha umas brincadeiras de pai-chumbo que falava: um pulava em cima do outro que não aguentava mais, quem ia sair ficava embaixo, entendeu? Essas brincadeiras que eles faziam. Jogavam figurinha, que naquele tempo tinha também figurinha. As primeira figurinhas que apareceram aqui, talvez no Brasil, viu, no Brasil, inteiro, foi chamado bala holandesa, ela era uma bala e tinha uma figurinha. Então tinha um álbum instrutivo, até. Primeiro as páginas, página de flor, a outra de animais, peixe, e assim por diante. Quem preenchia aquele, aquele álbum, era o cravo dual e o macaquinho, então ganhava uma bola de futebol. E depois teve a bala Travessura, tinha a bala Piolin que na época tinha aquele palhaço que morreu, deu risada tudo quanto era criança, divertiu a criança. E tinha muito circo em São Paulo, tinha o Circo Garcia, tinha o Souza, tinha o Circo Piolin, Chicharrão, Bolinha, então as crianças gostavam de circo. E aquele tempo tinha até um tal de João Minhoca. Aquele palhaço, fazia, e Ben-Hur e depois, coisa né... Então era, isso foi a infância que eu passei. E o pessoal também tinha as peraltagem dele. Perto daquela escada na Frei Caneca com que hoje é a atual Nove de Julho. Eu vi abrir aquela Nove de Julho, foi por o ano de 1935, por aí, começaram as primeira picareta a comer ali. Não tinha trator, não tinha nada. Era no muque. E era muito interessante, depois que vinha vindo a evolução da cidade, 32 para cá que começou a evoluir a cidade e eles começaram pôr paralelepípedos na rua e depois que começou crescer graminha nos vãozinho andava lá uma porção de velhinho que passava de seus 60 anos, 70; com uma espécie de uma fonte e eles ficava fazendo aquele barulho de manhã, plépléplé, a tarde inteirinha (risos). Todas as ruas de São Paulo eles faziam isso. Eu cheguei de todo um tempo que também tinha lampião, quando chegava as 5 e meia passava aqueles velhinhos, acendiam o lampião e vinha molequinho safado, trepava no lampião, apagava, upa, ele ficava bravo (risos) e acendia outra vez. São Paulo era escura. Depois de 29, 28, por aí que as primeiras ruas foram... A Augusta que foram todas iluminadas, aquele negócio. E eu, na Rua Augusta eu tinha oito anos de idade, foi em 1929 para 30, quando Getúlio tomou a posse e pegou São Paulo, aí começou a apertar. Assim, as crianças não tinham muita liberdade, né, que já tinha. Então a gente brincava. Quando chovia, a Rua Paim, a Rua Augusta, tinha uma bacia onde vinha os meninos, (sabe?), pegava o fundo dessas mala, dessas antiga, que vinha 1 quilo de boi, aquilo é um baú grande e a gente sentava naquilo e vinha da Avenida Paulista descia inteirinho, até a Rua Martinho Prado, dentro da água porque os bonde tudo paravam. E a Rua Paim, a Rua Augusta era estreitinha, tinha um bonde, um camarão. Era um fechado que tinha duas portas automáticas, dos primeiros que saíram. E tinha um bonde aberto e tinha um bonde que chamava caradura, um verdinho que pagava um tostão, então o operário viajava muito porque o outro era muito caro. Então ele tinha uma hora pra passar, ele passava das três horas, quatro, cinco, até seis horas. E de manhã também, era de cinco e meia e tem umas horas marcada, sabe? E São Paulo era tudo bonde antigamente. Por exemplo, o bonde que eu cheguei pra ir... Pegava ali na Rua José Bonifácio, fazia aquele circuito da José Bonifácio, descia pro Anhangabaú que chamava Picos e subia a rua, subia a brigadeiro e outro ia pra Augusta, até o Jardim Paulista, o Jardim América, Jardim Europa, Pinheiros, esses bondes, Perdizes... Perdizes pegava aqui na parte da, ele vinha até a Praça Marechal Deodoro, às vezes se estendia mais. E tinha um bondinho muito conhecido aqui em São Paulo que era o bonde do Vila Clementino, ele saía ali da Rua Dubas do Nascimento e ia até a Escola Paulista de Medicina. Mais tarde, depois da guerra, ele começou a fazer um, dar circunferência ali, dar uma volta ali onde tinha um matadouro e voltava, né? Depois terminaram os bonde, foi lá pro 66, uma coisa assim, e terminou os bonde e começou com mais ônibus, aquele negócio. Porque antigamente tinha uma espécie de uma jardineira, nem ônibus não era. Era um carrinho alto e aquele... E São Paulo era tão, bem atrasado, eu era garoto e quando morria uma pessoa, assim, um cavalheiro, uma dama. Então as casas não tinha uma divisão que tem hoje e uma estrutura de corredor e só tinha poucos sobrado. Sobradão grande, mas a maioria ali na Bela Vista, no Bexiga, era a maioria tudo casa térrea. E eu tinha um medo das pessoas que morriam, né? Então, as criançada quando saía do grupo o pessoal fazia o seguinte: eles deixava o cadáver simples lá em cima da mesa, né, na varanda, então devia de entrar naquela porta que era a sala, atravessava o quarto e eu olhava na cara do falecido lá, com alecrim, viu, olhava... E eu tinha um medo... Meu irmão era maior do que eu: "Vai, vai ver Antônio, vai", "Não, não , não quero". E um dia na forçada eu com um medo fechava os olhos e fui chegando. Quando chegou na porta da cozinha eu vi um negócio, tum, branco assim, parecia uma caixa, era uma circunferência, uma bola em cima. Eu abri os olhos, era uma geladeira. Não era um defunto. É uma senhora que veio da América do Norte e trouxe uma geladeira, que ninguém conhecia. Aquela geladeira que era, tinha gás embaixo, lamparina, um negócio assim. Então ela fazia sorvete, dava pras criançada, né? Mas acho que um doido acabou fechando as portas lá. Então São Paulo assim não tinha enceradeira, eu não conhecia máquina fotográfica, depois começou as de fole, né. E tem essas máquinas que tem hoje. Não tinha nenhum aparelho de eletricidade assim que tem hoje. O indivíduo ficava doente, tinha o médico do bairro. Tinha o Dr. Costa, o Dr. ..., tinham vários médicos e eles atendiam em casa. Vinham com uma maletinha, pá e coisa, consultava. E no outro dia seguinte vinha saber como é que estava o paciente. Não é que hoje que tem grandes hospitais, coisa, era uma, o que eu conheci que era no meu tempo era só Santa Casa de Misericórdia e alguns postos de saúde. E quanto à higiene de São Paulo, apesar de ser atrasado tinha uma higiene bem eficiente. O Instituto de Higiene, tinha aqueles fiscais, eles colocavam uma bandeirinha na porta e virava tudo quanto é lata que tinha, queria limpeza. Ele pregava no toalete um papelzinho para marcar a volta e a pessoa assinava. Todas as casas, não escapava um. E não tinha favela que existia hoje, não, era cortiço, só. Morava tudo debaixo de porão. O indivíduo passava assim na Rua Augusta, pisava quase na mão do indivíduo, o indivíduo puxava, eles ficavam tudo olhando. Era um negócio assim que foi a minha infância, durante... Mas era muito interessante, quando na adolescência era mocinho eu, que tinha mais força, assim, na sociedade era a religião católica. O catolicismo tinha catecismo para os meninos, as professora ensinava, aquelas freiras. É, o pessoal lá é tão educado, não se era atrasado ou é educado, e eles via uma freira ou um padre e beijava a mão, no meu tempo. O padrinho também. Então tinha o Congregado Mariano e tinha as moças que era Filha de Maria, né, tinha aquela congregação; à noite jogava pingue-pongue, jogava, jogava roleta... Essa era os divertimento. Tinha uns cinemas muito disputado aqui em São Paulo. Era o Recreio que era ali na Praça João Mendes, tinha o Santa Helena na Praça da Sé, tinha o Avenida na esquina da Avenida Paulista, tinha o Hispéria que era no Bexiga, ali perto da Rua Rui Barbosa; era o cinema. Então a gente ia ao cinema com os garotos, tinha os cinema dos maiorzinhos. Os menores iam no circo. Então tinha isso. O mais interessante de São Paulo era o jogo de futebol. Eles disputavam com taça que não acabava mais; esse Vai-Vai até hoje existe um que é o sambista, né, que tem um cordão que, e tinha o Caveira de Ouro que era só um clube de futebol que tinha. Tinha o São Paulo Futebol Clube, o Juvenil, toda a parte juvenil que jogavam, disputavam jogo. Agora interessante que cada ano eles saíam. Por exemplo: tempo de vento era só papagaio que se via no ar. Então tinha uns menino safados, mais vivo, eles faziam o seguinte: eles pegava a linha – tinha dois tipo de linha – a linha hoje não é, hoje é sintética, antigamente era mesmo algodão, né, uma linha que chama 24, era dura, pra linha passava uma cerinha e pra roupa. Os moleques moíam vidro e com cola de sapateiro eles passavam. Fazia uma bolinha e ia passando no fiozinho. Empinava os quadrados e quando chegava perto do outro ele ia se aproximando e puxava, o quadrado dava um corrupio assim, fazia uma circunferência, laçava o outro, ele puxava, cortava a linha, o outro menino saía atrás (risos). E, quando eu tinha uma idade mais ou menos acho que uns nove anos um menino inventou de fazer essa guerra que eu falei, era, e qualquer empório de São Paulo vendia, era muito comum vender pólvora. Chamava 2 F,  era um cantilzinho vermelho e os moleque mais grande de 14, 13 anos eles compraram e inventaram um canhão. As primeiras que eu conheci, os primeiro oficina mecânico foi uma na Rua Paim. E tinham duas cocheiras lá na Rua Paim. E o Sr. Biacintro e o nome da outra pessoa era D. Henriqueta, que era a dona. Então ali nas cocheiras vinha cabra, carneiro e uns 40, 50 cavalos, cada cocheira. Tinha uma quase no entrar ali na Maria Della Costa que era aquele em que jogavam futebol e a outra era no início da Rua Paim. E os meninos inventaram esse canhão, pegaram umas roda velha que não tinham mais pneumático e fizeram o canhão, serraram e fizeram que nem uma (ronqueira?), puseram uma espoleta, socaram, toalha, sapato velho, tudo aquilo lá; e tinha um menino (risos) em cima lá de uma amoreira, o nome dele era Raul. “Raul, desce daí! Vai atirar já, desce!”, o menino desceu que nem um macaco e escapou a espoleta e saiu o tiro. Primeiro veio pra trás aquela carreira, derrubou o barranco, pegou os muro da cocheira. Aqueles cavalo saíram tudo pra rua, aquela gritaria e aquilo caiu no chão um pedaço de cano e houve outra explosão, pegou mesmo na mulher do governo, era a mulher do sapateiro, ela é que fazia a guerra lá (risos), punha as menina de fita na cabeça, não sei quê. E derrubou a parede, ficou só o relógio, o sapateiro desmaiou. Não matou ninguém. E os meninos, xii, fugiram para casa. O meu pai trabalhava no O Estado de São Paulo, jornalista, ia fazer uma reportagem, foi na direção da Rua Paim, né. Chegou lá, olha, os meninos tudo embaixo da cama. Perguntaram pra senhora minha mãe: “Por que estão embaixo da cama?”, “Medo, estourou os vidro”. A trepidação, deslocamento quebraram uns vidros. Eles pegaram mais de 40 quilos de pólvora. Não matou ninguém porque aqueles canos de toalete, de mictório, era cano sem aço, não usava esses cano não. Então aquilo saiu que nem bala. Esse negócio aí é que, e era interessante que eles tinham cabra, tinham tudo tudo ali na cocheira e saíam vendendo leite pra rua. Então tinha umas diversas senhoras com uma toalha bem limpa, com um vidrinho na mão, era álcool, desinfetante, não sei o quê. E levavam um banquinho. Chegava lá, todo mundo sabia a hora que ela passava lá e vinha com copinho, tinha de criança, velho, eles tiravam na hora. Tinha 15, 20 cabra. Tinha um menino tocando e a mãe na frente. Então ela lavava a ubre de vaca e (pxpxpxpx). Tirava, os meninos bebiam com uma satisfação, sabia lá se tinha toxoplasmose ou se tinha doença. E vendiam na Avenida Paulista. A Avenida Paulista era o centro mais chique de São Paulo. Ali era as paradas de Sete de Setembro, o dia da Pátria, o dia, todos os festejos. Então era linda a Avenida Paulista, tinha toda aquela senhora de alta sociedade, o tempo do café, os fazendeiros ficavam com binóculos olhando um pro outro. Então passava a primeira infância, as crianças, colégio, força pública, carro, bombeiro e depois, no fim de todo, passava a saúde com os médicos, os enfermeiros, representavam a saúde pública. E era muito bonito, viu? Muitos desfiles eu vi lá.

 

P1 – Ah é? Tem umas histórias de desfiles também, né?

 

R – É o desfile, todos desfile eram feitos lá. Os carnavais era uma coisa linda. Era tudo com carros antigos, carros do estrangeiro que aqui não fabricava nada, o Ford 29, o Chevrolet tipo pavão, daí pra fora. E aquilo começava cinco horas da tarde, serpentina, confete de lar, sangue do diabo que jogava e desaparecia, todas aquelas brincadeira, tudo na paz e na harmonia. E aquilo ia ficando fervendo que as roda do carro não andava mais de serpentina. Então vinha o indivíduo com uma placa para não fumar porque era perigoso, né, eles faziam isso. Então vinha o corpo de bombeiro tirar aquela, aquele negócio, com gancho, é tudo na mão, começar a funcionar outra vez. E nos últimos dias de carnaval, que ele começava quinta, sexta, sábado, domingo, segunda, ele ia longe, o carnaval. Tinha os carros alegórico, também passava na avenida. Passava na Avenida São João, uns carros lindos, tudo representado aí, Presidente da República, como hoje, né, mais o pessoal da lavoura, aquele negócio todo. E essa que foi a ditadura do Getúlio Vargas aqui, era assim. Mas era organizado, né? Muito dificilmente vinha um ladrão. Quando vinha um crime, meu Deus do céu! O jornal publicava. Os jornais daqui de São Paulo era a Gazeta, às duas e meia saía. Tinha o Correio Paulistano, o Diário de São Paulo, e o Estadão que era, sempre foi o melhor, né? E tinha também um italiano: A Fanfulla que dera feito no Bexiga, no Brás. E era, aquele tempo era o seguinte: a gente, na rua sempre quase todo dia tinha a hora certa. Quando chegava as quatro horas da manhã a senhora não dormia mais. Era aquele barulho, êê, êê, totó – era o nome do burro lá que puxava a carroça de lixo, aqueles caminhões grandes, um barulho, parecia que ia derrubar a cidade. Então aquele era do tamanho do trilho do bonde. Quando ele vinha no trilho não fazia barulho. Quando saía, hêhê, os caras todos acordavam. E São Paulo ia, todos os dias... Depois foi modificando, veio o carro, veio tudo. E foi melhorando a situação de São Paulo, pegou a Revolução depois de 32, depois da Guerra que melhorou São Paulo. Eu estava no grupo escolar eu vi o primeiro, bagunça que eu vi dentro do grupo foi o seguinte: uma professora, tinha o diretor de lá era o seu Barros, tinha D. Amélia que era inspetora, e tinha seu Adão que ficou como diretor depois de seu Barros. E ele, não sei se ele gostava da professora, não sei bem como é que foi, eu era garoto, ele deu um tiro e pegou na perna da professora. Foi o maior escândalo que houve no Bexiga. Os pais não queria que as filhas fossem na escola, porque aquilo... “Não, eles iam namorar, mas dão um tiro, o que vão aprender lá? Isso é uma sem-vergonhice! Não, tem não cabimento.” O grupo parou um tempo, viu? Depois começou, o seu Barros saiu, não sei o quê que deu, pá, aquele negócio. Foi aquele negócio que aconteceu.

 

P1 – Você estudava então, né? Você estudou até que série, assim?

 

R – Eu fiz o primário no grupo Maria José. Depois me preparei no Ginásio Nacional que era na Augusta. Depois me preparei para a Escola Militar, fiz quase um ano ali onde hoje é o hospital Sírio-Brasileiro que tem a Rua, aquela Rua Barata Ribeiro, é ali. E voltando ao assunto, hoje onde que é o teatro de Maria Della Costa tinha um velhinho que ficava bem embaixo e tinha um taquaral. Tinha uma fonte, que brigavam. Ali tinha, precisavam por polícia. Que água não tinha água encanada. Aquela água foi analisada pelo serviço público e todo mundo vinha buscar aquilo. Gente com lata na cabeça dia e noite ali. Era uma fonte que ficava no pé do teatro Maria Della Costa e tinha um velhinho que eu me lembro até hoje, chamava seu João e ele vendia na porta do Grupo um negócio que chamam um torrão gostoso, branco, não sei que era aquilo. Chamavam ele de Machadinha, ele quebrava aquilo. O Machadinha morava lá embaixo no pé do morro. E quando eu ia pra escola também, tinha no Largo da Saracura, que hoje é o XIV Bis, não tinha casa nenhuma ali. Quando chovia ajuntava de água, tinha umas pessoas ali depois que morava no porão, pobre, precisava sair senão morria afogado, aqui. E tinha uma igrejinha, uma capela. Quase falava que era uma capela santa, os antigos. E os meninos olhavam para aquilo e não ia arranjar nenhuma besteira, uma vez por ano vinha um padre rezar a missa lá. Depois que foi abandonado os meninos jogavam pedra porque tinha urubu que dormia lá dentro. Foi dentro da cidade de São Paulo. Era isso aí a minha infância.

 

P1 – E a adolescência, assim, depois, como você saiu de casa?

 

R – A adolescência foi o seguinte. Eu logo no início eu sai de casa uma temporada de casa para trabalhar. Fui pro Rio, depois voltei novamente. E o primeiro lugar que eu trabalhei foi na Escola Paulista de Medicina. E conheci um pessoal. A Escola Paulista de Medicina, quando eu era moleque, ela era ali na Rua Oscar Porto, num casarão que foi Faculdade de Medicina e Posto Social ACPOR. E mudaram lá pra, aqui pra Vila Mariana, que é Vila Clementino ali, e era uma chácara. Então, a Escola Paulista era um prédio de dois andares. E do lado tinha um hospital que era um pavilhão grande dividido e uma cozinha. Tinha meia dúzia de doente lá dentro. E a seção de microbiologia onde eu trabalhava com o Professor Tobias era ali embaixo, em um porão, precisava as vezes abaixar a cabeça. Então ali que eu aprendi a preparação de meio de cultura. Já tinha tido um estágio grande em Manguinhos, no Oswaldo Cruz. E ali era as preparação que era o diretor da, o catedrático da cadeira era o Professor Roque Guilherme Bier, que é um grande bacterologista, que ele escreveu um livro, “Imunologia e Bacterologia”, que é adotado até hoje na cadeira do terceiro ano, que é o melhor livro que saiu até hoje. Então com ele, quem era assistente dele seria Dr. Anis Faduh, era um filho de sírio e Dr. Nélson Planê e de vez em quando ia uns veterinários dar aula mas, sabe, gente que entendia bacterologia, imunologia. E esse Dr. Anis Fadul, eu saí da Escola, tinha trabalhado uns três ou quatro anos lá e ele me levou pro laboratório dele, que o laboratório dele ficava na esquina da Rua Barão de Paranacapiacaba com a Praça da Sé. Embaixo era uma pastelaria, do lado tinha a primeira escola de datilógrafa, era ali. Comecei a trabalhar com ele e tinha um moleque meio safado que era sobrinho dele, que a irmã tinha morrido e criava. E ele então pegava as urinas dos armários e furou o vidro e a Rua Barão de Paranacapiacaba era uma rua estreita, parece que tinha cinco metros. E ele punha uma toalha no peito para a seringa não quebrar, segurava, espirrava, as meninas cheiraram, então mandaram um guarda ali embaixo e pegaram o moleque. Aí o homem ficou muito zangado com o sobrinho, mandou ele embora e eu nunca mais vi o indivíduo. E um dia, eu era garotão, o Dr. Anis Fadul era sócio de um cunhado dele e o cunhado tinha uma oficina de bacia sanitária dos mais velho que existia ali, bacia usada; aquilo dentro da cidade, vendia aquilo. Então, o indivíduo era meio comunista. Falou em comunista, entrava no cacete ali, não tinha por onde. O Getúlio tinha horror a comunista, não tinha. A Coluna Prestes, tudo. E eu era caído para o lado do comunista. Eu ia falando assim, qualquer coisa, eu queria ser militar, coisa, mas não conseguia. Não sei bem como é que não conseguia entrar. Bom, e o Fadul era sócio com o cunhado dele e fazia uns corantes, os primeiros corantes que faziam pra napoxina, para corar lâmina de germe. E falava assim: “Ô Serafim, ô Antoninho, você pega essa bandeja”. Bandeja nem tinha ali, ou era alumínio ou era madeira. Ou ágata. Não tinha alumínio assim de vidro, não tinha, aqui não se fazia nada. E levei a bandeja e fui pro terraço. O prédio tinha uns quatro andares. Lá encontrei um menino que era filho do zelador, chamava Paulinho. Estava batendo uma bola de meia, eu gostava de futebol, era um rapazote, encostei a bandeja no peitoral do terraço. E comecei a jogar, na hora que eu peguei a bola lá a bandeja, rupt, desceu e caiu num peitoral de uma janela. Eu olhei e tinha uma namoradinha lá embaixo que era um escritório de saponáceo Rátio, quando começou sair saponáceo em pó, que era aquele negócio. Bati na porta e saiu a Carminha: “O que aconteceu que eu estou azulzinha?”. Eu falei “Caiu uma bandeja”. Ela falou “Ai, pega que eu não quero ver pegar”. Aí entrei, peguei a bandeja, lavei – lá em cima tinha um tanque no terraço. O turco andava tudo branco e ele tinha ido no hospital Santa Cecília, um hospital de sangue, eu tenho boa memória, D. Brasilina Teixeira Pinto. Não sei se houve uma aproximação entre o desastre que aconteceu com a senhora, até hoje. Ele trouxe pára-uréia e eu centrifuguei. Então o centrífugo do laboratório, não é que nem hoje que é automático, era à manivela, eu cansava, só fazia aquilo pro homem, béé. Era uma roda e punha os tubos, equilibrava, parava e virava. E tinha menino só para aquilo, o dia inteiro.  E tirava o sedimento da urina para por na lâmina, né. O homem quando chegou, ele falou: “O que foi?”, “Dr., aconteceu um desastre.”, “Ai, o quê que foi, já estou com o coração batendo, eu estou todo azul, o quê que foi?”. Eu falei “Ó, o negócio é o seguinte: caiu a bandeja”. “Onde caiu a bandeja?”, “Caiu lá de cima”. E eu com ele fomos olhar pro terraço. O menino outro fugiu. Eu olhei assim, e ali tinha a Central do Brasil e não tinha, era só a Central. Se machucasse era um desastre central. Santa Casa e Central. Tinha uma, parece que era uma primeira, não sei, parece que era uma comunhão que não existia. Na catedral aquelas senhoras cantando um hino do congresso e tudo azul escorrendo... São Paulo fazia um calor tremendo às três horas da tarde, era a terra da garoa, ficou tudo azul, né. E eu sei que o pau quebrou lá embaixo, pegaram aquela negrada, bêbado, tudo rabecão que ele falava, no, carro de preso sumia até para a penitenciária. E culparam o Luis Carlos Prestes porque passaram uns aviões jogando propaganda e o turco falou pra mim: "Jura não fala nada?", eu falei "Eu não falo nada não". Me deu um dinheirinho, eu, vapt, me arranquei. (risos) Atravessei ali a Barão de Paranapiacaba, quando cheguei ali na Ladeira São Francisco uns soldado me seguraram da cavalaria, porque estava fogo mesmo, viu? Estava até dando um tiro lá. Por São Paulo qualquer movimento era tiro.

 

P1 - Você lembra a data, mais ou menos?

 

R - Hein?

 

P1 - A data.

 

R - Ah, foi em 1936, por aí. 37, 36. Eu era mocinho. Eles me pegaram e me puseram no bonde. Ainda tinha bondinho lá e eu fui embora pra casa. Meu pai, outro negócio, precipitado, era jornalista, não sei o que : "O que foi, tudo azul?". E eu não contei nada, né? Depois de uma semana que eu fui falar. Eu falei: "Pai, me diz uma coisa, esse negócio do...." , "É comunista, é comunista, já deu na coluna do Estado de São Paulo, não sei que, pépépépé...". Eu falei  "Fui eu, não sabia... "; "Pelo amor de Deus, não fala nada pra ninguém!", porque, né? E o negócio...

 

P1 - Quer dizer que o Prestes que levou a culpa?

 

R - O Preste levou, o Prestes levou a culpa. E eu gostava do Preste, uma questão de simpatia, do negócio que ele foi um indivíduo que teve um idealismo, né, o cara morreu e era aquilo mesmo, né, o velhinho. Ele sofreu muito por causa de Getúlio Vargas, viu, o Getúlio Vargas pegava gente, ouviu? E olha, mandava fogo em cima daquela gente, pra andar tudo na linha. Se antigamente antes do Getúlio Vargas eu era garoto, ia passear com o meu pai e antes do Getúlio tinha aquelas rodinhas de gente de idade ali na Praça Antônio Prado então, com o respeito da palavra, falava assim: “Praça do Escarro”. (risos) Não podia nem andar ali, viu? Aqueles vendedor, aqueles negócio, né? Depois que o Getúlio entrou acabou, ninguém,  os cara ficava tudo de olho, aqueles tira, aquele pessoal, eles falava de Getúlio já passava a mão. E tinha um pessoal tão malvado, que não se dava com o outro e isso aí já era ódio, eles jogavam livro de comunista lá e sentado no banco, pegava o cara ficava, batia. Então o pessoal começou a ficar com medo do Getúlio Vargas. E eu assisti a Revolução de 32. Eu tinha uns 10 anos de idade, foi a maior alegria, a maior satisfação, mas até hoje que não posso entender qual era o entusiasmo da criança de 10 anos, 12 anos, 15 anos, mulher fazendo roupa para soldado, capacete no fundo, esse pessoal que lidava com ferro que é metalúrgico que diz hoje, né, era o ferreiro, batendo um pedaço para inventar, um capacete para não pegar bala na cabeça do indivíduo, aquele negócio tremendo. As crianças eram escoteiros e iam entregar telegrama. E depois nos primeiros meses, assim, de guerra, a guerra de revolução durou assim uns quatro meses, os grupos escolares, os ginásio pararam tudo. E então vinha o pessoal que morreu no front, filho de gente paulista mesmo, chegavam, rezavam um pouco, choravam, jogavam aquele alecrim e imediatamente já tinha bandeira brasileira e bandeira paulista, enterravam na Consolação... Já abriam cova no fundo do cemitério, era um, tinha terra lá que acho que era da prefeitura, enterrava já imediatamente e voltava pro front. Há pouco matava mais um filho, voltava. Era uma, uma fobia, um negócio não sei se era patriotismo ou o pessoal estava louco. Era assim, criança tocando lata velha na rua, na Avenida Paulista, Getúlio dentro duma gaiola, aquele negócio que São Paulo lutou com, com 21 estados, né. E depois no fim, quase, aquele, São Paulo estava perdendo, eles começaram bombardear no que era o quartel general, o que hoje é aqui perto onde que é esse Tobias, não sei, Aguiar, por aí. Então eles bombardearam. Tinha o coisa que foi candidato a presidente da República lá depois que o Getúlio saiu, o Brigadeiro Luis Eduardo Gomes, então tinha o vermelhinho que era um avião teco-teco, arrrmmmm, ele baixava e tacava bomba. Muita gente fugiu de São Paulo. Eu e minha família fomos pra Campinas, fomos para um grupo escolar. O negócio foi feio aqui. E a Revolução ficou quatro meses, e menina, moça que ia pro front, era enfermeira, não tinha idade. O cara queria lutar, queria derrubar o Getúlio de qualquer jeito. E aquilo era uma coisa que de noite eu via, eles faziam assim, escritório, eles se alistaram o MMDC, Borba Gato, e por aí por fora. Foram os primeiros aqueles que morreram aqui na Praça da República, tem uns três, Miragaia, hum, o resto eu não me lembro, sei que era um garotão. Até hoje eles põem uma, uma coroa. Mas o negócio era entre, São Paulo era revoltoso, não é como é hoje a mocidade. Depois daquilo...

 

P1 – Então, da mocidade daquele tempo e de agora, o que você gostaria de falar pros jovens, da mocidade, de toda experiência que você vê, que você teve, que você tem? 

 

R - É para ser mais patriota, né? Para ter mais amor, assim, no Brasil. Não é só aquele entusiasmo de ganhar dinheiro, aquele negócio todo. Meu modo de pesar é o seguinte: se a pessoa for mais patriota, for mais honesto, o Brasil tem um progresso e ordem. A verdade é essa. Porque antigamente eles tinham outra vitalidade. Apesar que não tinha muito estudo, que o pessoal fazia só o grupo escolar e já partia para uma profissão: sapateiro, alfaiate, tipógrafo... Ia ganhar a vida porque não tinha mais nada, ia estudar o que? Então era esse negócio. E tinha isso aí. E uma outra, na minha adolescência que era mocinho, era que eu falei lá na, a maior alegria é o Trianon. Galera passeava, dos meninos. Não tinha outro lugar. Então a gente namorava ali tudo. Nos bailes, o Trianon ás vezes dava uns baile, tinha uns clube e sempre a mãe vinha acompanhada com a filha. Ou se não fosse acompanhada, na hora de sair ela já levava a menina. Então (risos) era assim o negócio aí. Era que tudo que prevalecia aqui era muita religião católica. O padre falou qualquer coisa, aquele neutralizava tudo. Que as crianças eram assim, criadas na paróquia, catecismo, primeira comunhão... E era ali. Ali na Ladeira tinha uma igreja que tinha um, o padre corria, um padre que tinha um longue, o padre fazia um sermão, ele ficava até fora da igreja, o pessoal longe, em cima de escada, tudo, né? Ele falava, metia o pau no Getúlio Vargas e uma ocasião ele desapareceu (risos). Falaram que foi pra Portugal, né, e o pessoal aquele entusiasmo, o padre era revoltoso. Até o padre da Consolação um dia saiu de espingarda na mão dando tiro. Uns caras queriam invadir, uns comunistas invadir a igreja. E um fato que eu me lembro ainda, foi em 1932, eu era garotinho, São Paulo parou também. Estourou uma boiada dentro de São Paulo. Vinha pro matadouro, uns touros bravos, ficou pra Rua da Consolação, a Rua Paim, o Bexiga todo, ficou três dias. Precisaram matar a tiro os animais. Dentro da Rua da Consolação, foi em 1932.

 

P1 - Ah é?

 

R - Eu sei que eu vinha vindo de uma casa de uma tia minha e não pude dormi lá porque não podia: "Não, o bicho vai te matar!". O bicho ciscava o chão e ficava. Não tinha grama pra comer, né? (risos). E assim, São Paulo...

 

P1 - Serafim, assim, para ir finalizando, né, que a gente tem um tempo, eu queria que você falasse um pouco qual o teu sonho, né? O que você gostaria de fazer que, um sonho...

 

R - Eu gostaria de ser militar. Era o meu sonho. Eu tinha uma simpatia assim pelo Luís Carlos Prestes, via aquela revolução, porque eu já nasci no meio de uma revolução. Eu nasci na ditadura. Eu numa ocasião fui comprar uns calçados com meu pai e essa igreja Catedral de São Paulo era só na metade. E tinha aquelas colunas e aqueles, não tinha nem aqueles santo. Tinha coberto com uma lona lá, o padre organizava a missa e começou um tiroteio. Então, meu pai escondeu atrás de uma coluna, assim, os bondinho vinha ali e nós tudo deitado... Era muito comum matar dois, três assim lá. E o que brigava muito que era muito falado era o Palmeiras do Sílvio Arteris, brigava, se escondia naquela Mercearia Carioca, estava tudo furado assim no Largo São Francisco. Parece que se não me engano mataram um deles. Os primeiros que faziam o manifesto era, sempre foi, o pessoal  de Direito da Faculdade de Direito e o Getúlio tinha uma bronca com essa turma, né? E comunismo, esse negócio, ali partiu muita gente da escola.

 

P2 - Certo, como foi um fato o qual tenha marcado o temperamento de sua vida, de seu projeto de vida. Uma coisa que tenha sido marcante.

 

R - Marcante foi mesmo o corante que sacudiu em São Paulo e também que eu me lembro muitos anos, antigamente faziam uns enterros de rede ainda. E eu cheguei daquele tempo antes de rede, um pouco antes e depois logo sumiu, né? Era carro mesmo, puxado uns cavalos bonitos, uma carruagem, tal e coisa. Eu assisti o enterro do Matarazzo. Eu era um garotinho. Então tinha esses negócios. Eu lembro dessas coisas que marcaram mais, foi a Revolução, tinha vontade de pegar um revólver para sair dando tiro. Menino fazia ronqueira, tinha uns que faziam guerra entre eles. Aí começou a surgir, aí que surgiu aquele canhão, aquele negócio todo (risos) na Rua Paim, esses fato que marcaram muito, correr atrás de balão. Uma ocasião teve até um fato interessante. O cemitério da Consolação não era fechado, o cara ficava dormindo, o portão ficava aberto. Então caiu um balão dentro da almofada que falavam, que era uma almofada, que balão tinha um monte de, de piano, uma porção de coisa. E o meu irmão... Eles abriam a sepultura de um dia para outro. Quando morria o indivíduo já dava o aviso lá na administração e já abriam. E aquilo era mês de janeiro e choveu muito, né, e meu irmão foi pegar o balão, "Pega, pega!", ele bestou, caiu num buraco. As criançada deixaram ele no buraco (risos). Um negócio que marcou bastante foi isso. E uma outra coisa também foi quando eu morei em Santa Isabel, era garoto e, logo no início da cidade, tinha um sítio. Tinha uma igreja que era uma igreja velha lá na matriz, uma escadaria. E ali a gente ficava sentado no fim do, do sítio. Eu, eu tenho foto ainda. Sentado lá e passava aqueles caras de rede lá. E tinha morrido um sapateiro. O sapateiro muito conhecido, né, o pessoal assim... Primeiro entrava na igreja para depois enterrar. E o cemitério um entrava aqui, o outro... E de repente aqueles caras vinham tudo no fogo, estava aquela garoinha, aqueles caboclo tudo de pé no chão, né. E desceram a rede, bum, bateram as costas do camarada. “É pra cá, é pra lá a igreja”. Vinha dois igrejinho, então um deles falou, o cadáver lá, o cara batido levantou, falou: “Não, Zé, é pra cá”. Ah (risos) até as criançadas que estavam no muro saíram fora. Mas o indivíduo tinha tido um ataque, ele sempre tinha esse ataque. Chamaram um médico em Jacareí, examinou ele, falou que estava morto e fizeram o enterro. Quando ele apareceu em casa foi aquela gritaria, né. Essas coisas que marcaram, né, de... E quando era mocinho também era, era meio percebido tudo o pessoal daqui, a mocidade.

 

P1 – Serafim, é que está no tempo, né, os meninos também. Eu queria agradecer a sua entrevista, está bem?

 

P2 – Eu queria agradecer. E uma mensagem para dar aos mais jovens pela sua experiência.

 

R – Para o mais jovem que nem eu falei, eles ter mais amor na pátria e ser mais político, porque os políticos fazem qualquer coisa que quer e o pessoal lá baixa a cabeça. Se... Eu tenho certeza, se o Collor aparecer amanhã aqui, eles bate palma. O Getúlio Vargas, em 1937, ele apareceu em São Paulo depois que mataram uma porção de paulista, fez uma desgraça, jogaram flores nele que não acabava mais. Até um indivíduo eu vi que tinha uma cesta de amendoim, um velho jogou lá, de alegria. Porque ele fez a lei trabalhista como esse que é o Collor, o Collor não, o Covas, ele fez a lei do pobre e ganhou em primeiro lugar. Se fizer uns benefícios...

 

P1 – Não, é verdade. Obrigada, Serafim.

 

R – Agora essa entrevista não saiu muito boa porque eu troquei muita coisa, entendeu?

 

P1 – É que...

 

P2 – Não, claro...

 

R – Agora era interessante o Instituto Biológico de São Paulo... (fim da fita Antônio Serafim de Oliveira).                                

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