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História

São etapas que você vai passando

História de: João Roque de Araújo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/11/2014

Sinopse

João nasceu e passou a infância na zona rural, no sítio  da família, onde o pai trabalhava como agricultor. Em meio aos quatro irmãos homens, jogava futebol nos campos irregulares que eram o pasto do gado, e fazia brinquedos com objetos disponíveis na casa, como os carrinhos de retrós de linha. Aos 14 anos, saiu de casa para estudar no internato Escola Agrotécnica Federal de Muzambinho, decisão difícil que enfrentou com perseverança. Assim como as oportunidades profissionais que surgiram posteriormente, e que lhe custaram abrir mão da proximidade com a família durante muitos anos.

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História completa

Meu nome é João Roque de Araújo, eu nasci em Caconde, 16 de agosto de 1974. Meu pai é Angelino de Araújo, e minha mãe, Margarida Cândida de Almeida Araújo. Eles são um de Caconde e outro acho que Guaxupé, não lembro certo, o meu pai, e são de 1943, os dois. A minha mãe sempre foi dona de casa, e meu pai já é falecido há três anos. O meu pai era agricultor. Ele plantava cebola, plantava milho, toda a parte agrícola ele trabalhava, e também trabalhava com leite. Ele tinha uma parte que fornecia leite para as cooperativas da região de Caconde. A propriedade era do meu avô, aí dividiu para os meus tios. E ele assumiu a área dele e começou a produzir o próprio leite, um pouco de hortaliças, que eu falei, que é a cebola, milho. Aí ele começou a plantar pra ele café também. E essa propriedade ainda tá até hoje na família, onde eu e meus irmãos demos seguimento nisso, estamos plantando. Eu tenho meu irmão mais velho, ele mora lá no sítio hoje, ele que trabalha lá no sítio. É Sítio Nossa Senhora, em Caconde. Eu tenho cinco irmãos, tudo homens: Antônio Carlos, Geraldo, eu sou o do meio, depois vem o Marcos Donizete e o Carlos Alberto.

O mais velho, ele mora no sítio, ele tem uma parceria com meeiros, outras pessoas que trabalham lá com ele, e ele trabalha na prefeitura de Caconde. O Geraldo trabalha na polícia. Agora, eu, o Marcos e o Beto, o Carlos Alberto, tudo trabalhamos na área agrícola. Antes, na época que tava estudando, até na época do Geraldo, tinha uma grande dificuldade de estudar, de você conseguir ir pra uma faculdade, moramos no interior, e eu fui o primeiro que saí da minha casa pra ir fazer um colégio interno. Então aí que gerou que meus outros irmãos foram atrás, e estudar, e fazer faculdade. Hoje, inclusive, o Marquinho é dono da Sementes Rio Pardo. É sócio da Sementes Rio Pardo. Então foi em função disso que foi se desdobrando um pouco mais de estudo para os filhos mais novos.

Quando era criança brincava com os meus irmãos, que era só homem, era aquela bagunça em casa. Imagina a minha mãe como ficava, né? A gente brincava... Assim, principalmente foi bola. Bola era... Ainda eram cinco, dava até par formar time. Mas eu vejo uma grande diferença de ter o brinquedo e fazer o brinquedo. Nós fazíamos com casca de laranja e gomos de bambu, a gente fazia um brinquedo que você colocava a casca de laranja, apertava, e depois empurrava lá no final. E depois colocava mais casca de laranja na entrada e apertava aquela segunda parte, fazia como se fosse uma arma, por exemplo, então a gente brincava disso. Nós fazíamos carrinho com retrós de linha. Um retrós de madeira e uma vela, então você colocava uma borrachinha, um elástico de dinheiro, e colocava dentro dele, movimentando essa parte e colocando no chão, a outra andava sozinha. Então nós fazíamos um brinquedo que andava sozinho assim do nada. Mas o principal mesmo que a gente brincava era futebol. Mas eu lembro muito disso, de a gente construir esses brinquedos e brincar. Era gostoso. Não tinha aquela facilidade de ter, por exemplo, igual o meu filho tem cinco bolas lá em casa. Então a gente era cinco, chegava no Natal, às vezes ganhava uma bola. Era uma pra todo mundo. Se vocês gostam de jogar, tá aqui a bola. Então a gente quando ganhava essa bola, nossa, era uma alegria. Um vai abrir, o outro vai carregar a bola, o outro que vai chutar a primeira vez. Aí brincava muito. Quando nós estávamos no sítio, não tinha aquele campo plano, que tem as traves, tudo certinho, aí fazia de bambu as traves. O campo era um pouco torto, então tinha que jogar naquele, porque não tinha uma condição de arrumar aquilo e gramar pra ficar certinho. Era uma parte da pastagem das vacas, por exemplo. Então era lá que se jogava bola.

O sítio do meu pai é próximo à Usina de Caconde, à usina hidrelétrica, então é uma região bastante turística. Está a sete quilômetros da cidade. Essa região é bastante montanhosa, é próximo já em sentido Minas, que é montanha, então a região de pasta... Muita pastagem, muitas matas. E é uma casa simples. É uma casa com três quartos, sala, cozinha, banheiro, tem uma cozinha de fora. Não tem muita mordomia, vamos dizer, mas uma casa muito simples, que até hoje minha mãe mora lá. Tem mais uma casa que foi feita do lado, que o meu irmão mais velho mora. Mas uma casa assim, quando eu posso, eu vou dormir um final de semana lá. Vou e durmo lá pra ficar com a minha mãe. Nós estamos falando de muito próximo da cidade, próximo de seis, sete quilômetros. Que quando eu estudava também lá, teve ano de a gente ir estudar a pé. Ter que deslocar sete quilômetros a pé até à cidade pra estudar. Então aquela base minha de escola eu fiz tendo um pouco mais de esforço, acordando quatro e meia da manhã, até trocar, tomar banho ali, é uma região fria, e estar na escola sete horas, começar a aula. Então, assim, eu não lembro bem quanto tempo a gente gastava disso, mas são sete quilômetros, sendo que três quilômetros era estrada de terra e quatro quilômetros de asfalto. Então passa uma parte que a gente tinha que caminhar até lá e voltar. Depois voltava 11 horas, fazia o mesmo caminho de volta.

Na fase de adolescência foi uma fase de mudança, praticamente, na minha vida. Foi quando eu deixei de trabalhar, de estar ali no sítio, e fui para o colégio interno, para a Escola Agrotécnica Federal de Muzambinho, com 14 anos. Eu fiz um colégio em Minas, em Muzambinho, eu fiz o colégio interno. Eu fui fazer uma visita nessa escola, eu tava fazendo a oitava série, eu fui fazer uma visita nessa escola, e no próximo ano eu já tinha a oportunidade de estar lá. Então tinha o vestibular pra passar, tudo. Quando eu fui pra casa, falei com a mãe, o pai, morar fora. É morar fora. Não é tão longe, mas assim é uma mudança... Apesar de ser fechado, ser um colégio, tinha 360 alunos, mas era você morar num local com muita gente. Então a princípio tinha um pouco de resistência, a mãe achava que não deveria, tudo, mas teve o meu tio, um dia eu tava indo para a escola, tava próximo lá, na cidade já, encontrei o meu tio. Aí meu tio falou assim: “Não, mas você tem que decidir mesmo. Hoje se você ficar aqui, olha nós” – meu tio falando – “Olha nós pra você ver, nós hoje temos o sítio, eu toco o sítio, e o que nós vamos melhorar? Nós estamos tentando estudar vocês, então se vocês não quiserem uma coisa diferente, vocês não vão ter essas coisas diferentes”. Então eu pensando, falei: “Ah, eu vou fazer o vestibular, vou ver se consigo passar”. E eu passei acho que em 13º, e tinha 400 alunos, fui até muito bem no vestibular. Então fiquei fazendo parte da primeira turma, porque lá é por classificação de nota, tudo. Então acabei fazendo parte da primeira equipe. E quando eu passei, que eu falei, aí eles: “Nossa, que bom que passou. E aí, você vai?”. Então essa é uma pergunta que era difícil, porque você tinha que pagar a inscrição, você tinha dificuldade pra pagar a inscrição, você pagava uma taxa só de inscrição e não pagava mais nada, mas mesmo assim tinha um pouco de dificuldade. “Ah, não, vamos fazer uma força.” Meus irmãos também: “Ah, vamos. Então você vai” “Então tá bom”. Aí eu decidi mesmo ir pra escola e daí eu praticamente não voltei mais pra casa. Depois dessa mudança, eu fiquei lá três anos.

Meu pai é muito certo com as coisas, “que dia começa a aula?”. “A aula começa segunda-feira”, o dia que tá marcado, não lembro a data assim, mas vamos falar assim, segunda-feira, dia primeiro. Normalmente os alunos chegavam na outra segunda-feira, porque a primeira semana era integração. Meu pai: “Não, você vai domingo. Na segunda-feira eu vou trabalhar”. Aí ele conversou com o meu tio, aí meu tio que foi me levar. Então levou colchão, levamos tudo pra eu já ficar lá. Então enquanto não tinha ninguém na escola, ou os últimos formandos do outro ano, que ainda estavam fazendo a segunda época ali, aquelas pessoas já, vamos dizer, com costume de escola, com trote, aquele negócio todo, chego eu lá com 14 anos, domingo à tarde, meu pai: “Olha, nós não podemos ir muito tarde. Chega aqui, aqui que você tem que ficar”. Chamamos o rapaz, o inspetor, falou: “Não, escolhe aí”. Tinha um quarto com dez beliches, não lembro certo, dez, 15 beliches. “Escolhe aí a sua cama, o seu armário, depois onde tá o refeitório, isso aí nós vamos te ensinar.” Meu pai me deixou lá. E, lógico, com muito medo ainda de tudo aquilo, porque tudo aquilo era novo pra mim. Mas assim, eu sempre encarei esses desafios, mesmo nessa primeira etapa, com muita vontade de querer fazer alguma coisa. Então fui pra lá com essa dificuldade, participei de bolsas pra ser bolsista da escola. Era uma escola agrícola, eu ganhava porque eu fazia um trabalho especial junto com o pessoal de poda de laranja, cursos que tinham lá dentro, que às vezes você tinha verbas específicas pra você conseguir ainda ganhar um extra dentro da escola. Então eu fazia isso. Então tinha atividade pra tudo e todo o tempo lá dentro. Você enfrenta todas essas dificuldades, mas pra quem você vai ligar, pra sua mãe? Não. Não tem telefone em casa. Essas eram as grandes dificuldades. Então não tinha telefone, você quer ir embora? Você tá falando de 150 quilômetros, gente, você pega um carro, dentro de uma hora e meia você tá em casa, então, mas você não tem esse carro. A minha família não tinha carro nessa época. Então você acaba estando próximo, mas estando longe ao mesmo tempo. Foi a mesma coisa quando eu fui para o Pará. Passaram três anos, eu fiz o terceiro ano, eu me formei em novembro e fui embora em janeiro para o Pará, e fiquei lá um ano e meio sem vir em casa. Foi lá que a minha mãe teve telefone. Então são etapas que você vai passando e conquistando as coisas, crescendo com isso.

Eu estava me formando, em 1993, e o tio de um colega meu trabalhava no Pará. E aí ele fez uma proposta para o meu colega pra gente fazer um estágio lá no Pará. E eu tava sem emprego, nem me formado eu tinha ainda, era 20 de novembro, por exemplo, que surgiu isso: “Vamos fazer o estágio? Não vamos? Mas dia 18 de dezembro é a formatura” “Então vamos”. Aí definimos ir. Nós definimos em três, em três ir para o Pará. Aí conseguimos estágio pela Jari Celulose, fica no Projeto Jari, um projeto que fica lá no meio da Amazônia, 30 minutos de avião de Belém. Aí me formei dia 18 de dezembro, dia dois de janeiro eu saí. Eu fui de ônibus. Aí foi o segundo momento, por exemplo, de deixar a família. Talvez eu fui deixando aos poucos pra trás. Deixei quando eu fui pra escola agrícola, depois dia primeiro, festejando, tal, acordei no outro dia cedo, minha mala tava pronta. E pra ficar um ano e meio fora.

Essa foi uma despedida complicada, porque minha mãe foi ter telefone dali um ano, mais ou menos, que ela foi ter telefone em casa. E celular era daquele celular “tijolão”, vamos dizer assim, e não tinha nada de comunicação. E quando eu fui sair de casa, nossa, aí meu pai chegou a falar pra mim assim: “Ah, filho, aqui com toda a dificuldade, eu acho que assim, um salário você tira. Será que não dá pra gente fazer um valor aqui pra gente conseguir pelo menos você ter um valor por mês? Você trabalha aqui, mas a gente registra você pra você ter carteira assinada, tudo”. Aí é uma coisa pra tomar uma decisão. Assim, uma coisa que eu senti muito foi quando eu tava saindo, minha mãe não queria. Eu acabei sabendo depois assim. Minha mãe cortava o frango, aquela parte do frango que tem um jogo, não tem um jogo que quebra assim? Então, aquela lá era a parte que eu comia do frango. Então quando eu fui pra lá, na outra semana, minha mãe matava frango, ela não cortava mais aquilo. Depois que eu fiquei sabendo, tudo. Isso é marcante. Peguei uma viagem de ônibus, daqui para o... São 48 horas de ônibus de São Paulo, porque eu ainda fui daqui pra São Paulo, e depois a companhia tinha dado pra nós uma passagem de navio, e não deu passagem de avião pra nós. Aí são mais 36 horas de navio. Era tudo uma aventura, na verdade. Não conhecia a região, tinha dinheiro pra voltar, porque eles deram passagem de ida e volta pra nós até Belém, então eu tinha dinheiro pra voltar, não tinha dinheiro pra mais nada. Então eu falo assim, foi talvez sem medir, porque se você medir muito, você talvez não fizesse isso.

Era uma área de reflorestamento pra celulose. Lá é uma empresa de celulose. Tem três empresas: uma de caulim, uma de bauxita, e uma de reflorestamento. Então essa área de reflorestamento, eu fui como técnico florestal, contratado como técnico florestal, e a minha atividade era fazer monitoramento com terceiros, os terceiros que faziam as atividades. Então eu a princípio fiz estágio só, o primeiro semestre, e depois acabei ficando lá por oito anos. Fiquei oito anos lá dentro. E os colegas que foram comigo, um ficou seis meses, veio embora, o outro ficou dois anos e veio embora. O que era filho do rapaz que me levou ficou dois anos e veio embora também. Então foi lá que eu comecei a ajudar a minha família. Então eu comecei a trabalhar, fiquei um ano e meio sem vir em casa, aí eu vinha de ano em ano só. Esses primeiros oito anos foram desse jeito. Sempre fui uma pessoa muito segura com coisas minhas, então sempre ajudei a minha família. Hoje, o que tem ali no sítio, trator, casa, a parte de... Vamos supor, a casa não tinha piso, era de cimento liso, aquele cimento vermelhão, tudo. Eu que pus, por exemplo, que trouxe essa oportunidade de por piso na casa, ter a casa tudo com piso. Então isso eu entendia assim, que era a forma de eu ajudar a minha família a ter um conforto um pouco melhor em função de tudo que eles me ajudaram a estar lá naquela condição. 

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