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História

Santista, de alma, coração, com carteira modelo 19

História de: Vasco José Faé
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/12/2013

Sinopse

Depoimento de Vasco José Faé para o Museu do Santos F. C. em 1999. Vasco Faé fala sobre a vinda de seus pais da Itália para o Brasil, a infância no sul do país e os primeiros contatos com a bola na várzea. Sua ida de Porto Alegre para Santos por conta da Segunda Guerra Mundial, como era a vida sob a ameaça da guerra. A adesão ao Santos Futebol Clube como sócio em 1943, a torcida pelo clube e o caminho até a administração. O título paulista de 1955 e a estréia de Pelé ao clube praiano. Seus anos na presidência do alvinegro praiano, a relação com os jogadores e a torcida e as dificuldades administrativas pelas quais passou nos cinco anos de mandato.

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História completa

P/1 - Seu Vasco, Boa tarde.

 R - Boa tarde.

P/1 - Seu Vasco, para a gente começar, eu queria que o senhor dissesse o nome, o local e a data de nascimento do senhor. R - Eu nasci em Caxias do Sul, dia 26 de maio de 1917. P/1 - E o nome dos pais do senhor? R - Meu pai chamava-se Vitório Faé e minha mãe Lúcia Rossato Faé, ambos filhos de imigrantes italianos. P/1 - Filhos de imigrantes. Como era a convivência da imigração no Rio Grande do Sul? Como foi a trajetória? Como eles chegaram ao Rio Grande do Sul? R - Olha, foi uma verdadeira odisséia, porque no embarque da família Rossato, quando saiu de Gênova, tiveram que dividir a família, porque o senhor Rossato tinha uma família já com dez filhos, então tiveram que dividir a família em dois navios, então mandaram que escolhesse quais vinham num determinado navio e qual que fosse em um outro navio. Então o avô e a avó determinaram que um vinha no navio, ele com uma quantidade de filhos e a avó vinha no caminho com outra quantidade de filhos. E acontece que na viagem, onde tinha que vir meu avô, faleceu um dos filhos. E inclusive eles já tinham deixado um filho na Itália, que esse filho era cego, e as autoridades italianas não deixaram sair, então teve que ficar lá.   P/1 - As autoridades não deixaram alegando o quê? R - As autoridades italianas não deixaram ele sair porque ele ficou cego fazendo serviço militar, então ele estava sob a proteção do Exército Italiano. P/1 - Certo, certo. Aí os Rossato vêm para cá e vão se estabelecer no Rio Grande do Sul. R - A viagem dos imigrantes, aquilo era uma verdadeira odisséia, naqueles idos de mil novecentos... Não, 1870, por aí. Não tinha recurso nenhum. Quando eles chegaram aqui no Brasil eles foram designados a fundar a cidade de Caxias do Sul. As 14 famílias que vieram naquela leva foram designadas a um determinado local, cujo local se chamou Caxias do Sul. Antes era só Caxias, posteriormente passou a Caxias do Sul. E as 14 famílias receberam do governo brasileiro: ferramentas, sementes e barracas. Instalaram lá no meio do mato, e eles tiveram que fazer rápido o corte do mato para poderem plantar as sementes que haviam recebido, senão eles comem as sementes e depois não tinham o que comer. (riso) Assim, eles tiveram que fazer rápido, e nasceu Caxias do Sul, que é a cidade que hoje praticamente todo mundo conhece, que é uma cidade muito próspera, que inclusive até 1939, 40, na cidade só se falava praticamente o italiano. P/1 - Interessante isso. R - E com o advento da guerra o Governo Brasileiro proibiu que a população falasse italiano, então hoje já se fala muito bem o português lá em Caxias do Sul. P/1 - Sei. E o senhor nasceu em Caxias e cresceu em Caxias, ou não? R - Não, não. Meu pai se transferiu de Caxias em 1918 para uma cidade não muito distante chamada na época de Alfredo Chaves, hoje Veranópolis. Dista mais ou menos 40 quilômetros de Bento Gonçalves. Ele se instalou com uma pequena metalúrgica lá, e, apesar de todos os trabalhos que ele teve, ele conseguiu vencer. Em 1926 ele se transferiu para Porto Alegre. Não (pausa). É verdade. Em 1926 ele se transferiu para Porto Alegre, agora eu estou bem lembrado. E de Porto Alegre, em 1943, nós nos transferimos para Santos, de onde eu me tornei sócio do Santos em... Cheguei em Santos em janeiro, fim de janeiro, dia 27 de janeiro, e em março ou começo de abril me tornei sócio do Santos. Em 1947 o saudoso Modesto Roma havia feito o lançamento das cadeiras cativas... P/1 - Seu Vasco, desculpe interrompê-lo, mas antes da gente chegar em Santos, vamos falar um pouquinho da infância do senhor? Como foi crescer no interior do Rio Grande do Sul? Para a gente não pular etapas. R - Você diz crescendo em que sentido? P/1 - Como foi a vida do senhor? Como foi a vida na infância do senhor lá no Rio Grande? R - No Rio Grande, você sabe. Até os dez anos não tinha absolutamente nada de anormal a não ser a escola, e nada mais. Brinquedos de amigos, de colegas: coisas de criança. Mas já na minha adolescência, quando cheguei em Porto Alegre, aí já fundamos um timezinho de futebol, aqueles timezinhos de várzea, aquela coisa toda. (riso) E aí foi a minha infância, foi praticamente sempre gostando de esporte. P/1 - E como era a vida esportiva de Porto Alegre? Como esses times de várzea se relacionavam? Havia muitos campeonatos? R - Ah, já existia. Já existiam os campeonatos dos clubes de várzea. Tanto assim que um dos clubes que eu fundei, que chamava Grêmio Esportivo Juvenil... Nessa altura eu não participava mais do futebol por um acidente que eu havia sofrido. O Juvenil foi campeão do torneio de várzea realizado em Porto Alegre, vencendo o Marquês de Pombal na finalíssima. (riso) P/1 - O senhor disse que já não jogava futebol nessa época porque sofreu um acidente. O que aconteceu, seu Vasco? R - Num jogo, no decorrer do jogo começou a chover. A área já não tinha um pouco de grama, e juntou água ali. O nosso adversário bateu um escanteio, e um atleta adversário, quando a bola vinha subindo muito alta... Eu tinha uma ascensão muito forte para subir. Eu quando subi, ele me puxou pelo braço, e não deu para subir o tanto que precisava para cabecear a bola para fora. A bola só bateu na cabeça, subiu e caiu. Eu também caí. Caí naquela poça da água, a bola perto da minha cabeça, e um dos atletas contrários veio e deu um chute. Em vez de acertar na bola acertou na minha cabeça. Eu fiquei oito dias hospitalizado, totalmente inconsciente. E depois ali, quando eu voltei à consciência, minha mãe me pediu para eu não jogar mais futebol. Eu tive que fazer um juramento a ela (riso) que eu não jogaria mais. Cumpri o juramento e não joguei mais futebol, mas fiquei sempre ligado ao futebol. P/1 - Certo. E aí sempre envolvido com campeonato de várzea. R - Sempre envolvido em campeonato de várzea, acompanhando meus colegas, companheiros todos, aqueles amigos de infância e de adolescência. Aquilo era muito gostoso, era muito bom. P/1 - E não dava vontade de voltar a campo? R - Dava, dava... Dava, mas eu estava totalmente compenetrado que eu não deveria mais jogar futebol. P/1 - E esse envolvimento com os campeonatos de várzea... O senhor disse que fundou um clube. Como era ser dirigente no futebol de várzea? R - Ser dirigente no futebol de várzea era uma coisa muito similar a ser dirigente futebol profissional. Tem a diretoria, tem o presidente... Já naquela época, nós já tínhamos constituído o técnico... Copiando dos clubes profissionais a essência de como eles administravam um clube, nós também procurávamos acompanhar à nossa moda, À moda mais ou menos primária, uma forma não tão eficiente como os outros clubes, mas uma forma que dava para levar a coisa mais ou menos com hierarquia. P/1 - Certo. E como o senhor se posicionava com relação ao futebol profissional gaúcho? O senhor era Grêmio, era Inter, não era nenhum dos dois?  R - Não, eu não era nem Grêmio, nem Inter. Eu era mais simpático ao Grêmio do que ao Internacional. Isso eu confesso. Mas eu era mais torcedor do Esporte Clube São José. Um clube que jogava na primeira divisão também. Não era de primeira expressão, eram todos jogadores voluntariosos. Porque naquela época não existia profissionalismo. Quando muito os profissionais que jogavam nos clubes principais... Quando muito, depois de um jogo eram convidados a ir num restaurante para jantar. O clube pagava o jantar naquela época. Era o que o profissional ganhava. Ganhava um jantar. Naquela época jogava-se por amor à camisa. E eu sou do tempo em que o jogo era totalmente diferente. Totalmente diferente do jogo de hoje. Naquela época o goleiro nós não chamávamos de goleiro, era goal keeper. Tinha o beque de espera e o beque de avanço. O lateral era o half direito, o half esquerdo, o center half... Center forward era o centroavante de hoje; o escanteio não era escanteio, era corner... E assim por diante. E o modo de jogar hoje é muito diferente; eu acho hoje o profissional de futebol muitíssimo mais dominador da bola do que eram os profissionais, os jogadores de antigamente. Os de antigamente jogavam mais em conjunto, mais de passes; hoje o profissional domina muito melhor a bola. No meu entender. P/1 - Uma coisa mais individual. R - Mais individual. Tem mais individualidade hoje o jogador. P/1 - Certo. Bom, seu Vasco, então o senhor está em Porto Alegre. Como se dá a mudança do Rio Grande do Sul para Santos? Por que o senhor mudou de Porto Alegre para Santos?  R - O que nos obrigou a sair de Porto Alegre foi o evento da guerra. A guerra de 45. Ou melhor, a guerra de 39, que acabou em 45. Naquela época só se importava... Nós na metalúrgica importávamos... Entre as várias seções tinha uma muito forte que fabricava chumbo de caça. E todo chumbo na época... O Brasil não produzia nada; o Brasil não produzia chumbo nenhum, então era tudo importado do exterior. E nós tínhamos contratos com firmas inglesas para fornecimento de chumbo. Uma das firmas que mais fornecia chumbo para nós era a Wilsonsons. Essa firma tinha um contrato mensal de longa duração e fornecia para nós. Tinha navios direto de Londres a Porto Alegre. Com escalas no Rio, Santos... E terminavam a viagem em Porto Alegre. Então nós recebíamos esse material, essa matéria prima, diretamente em Porto Alegre. Com o advento da guerra suspenderam a linha que ia até Porto Alegre; os navios terminavam a viagem só em Santos. E acontece que até a nossa própria navegação costeira começou a falhar. Começamos a receber de início a mercadoria em Santos, desembarcava através de um despachante aduaneiro, e reembarcava para Porto Alegre. Mas aconteceu que não podia reembarcar essa mercadoria para Porto Alegre num determinado momento porque não tinha navio. E foi juntando. Foi juntando um, dois, três, quatro... Juntou seis lotes. E aí, fazendo a conta, chegamos à conclusão que as despesas de seguro de risco contra a guerra, mais frete, mais seguro, mais despesas de cais lá em Porto Alegre... Era muito mais conveniente nós transferirmos a fábrica de Porto Alegre para Santos. E isso foi feito durante o ano de 42, nos últimos meses de 42. Em 43 eu já tinha embarcado toda a fábrica para cá. Veio de caminhão. Ou melhor, com vários caminhões. Já tínhamos comprado terreno em Santos, estávamos construindo. Eu fui o último a sair de Porto Alegre, e saí de lá no dia 22 de janeiro de 43, e cheguei em Santos no dia 27 de Janeiro. E hoje eu sou um santista, de alma, coração, com carteira modelo 19. (riso) P/1 - (riso) Perfeito. Mas apesar dessa adaptação total a Santos essa mudança de Porto Alegre foi traumática em algum sentido? Ou não? R - Foi. Foi, porque você sair da sua cidade, onde você realizou seus estudos e formou suas amizades... E todos aqueles conhecimentos que você tem... E sair de lá para ir numa cidade onde você não conhecia patavina, onde você não conhecia uma alma, não é mole. É difícil, entendeu? Mas por que eu me afeiçoei tanto a Santos? Porque foi uma facilidade muito grande formar amizades, amizades que eu tenho até hoje. Porque o povo de Santos foi um povo muito acolhedor, é um povo muito bom. Tem uma passagem em que eu havia prometido que quando eu tivesse completado o ciclo dos meus negócios em Santos eu iria voltar a Porto Alegre de novo para poder usufruir da amizade dos meus amigos. E há muito tempo atrás eu voltando a Porto Alegre um dos meus amigos me disse assim: “ô, Vasco, você lembra naquele baile, naquele réveillon que nós tivemos na SOJIPA lá em Porto Alegre, que você nos disse que você voltaria para Porto Alegre, que você era como um elefante, que queria vir morrer na sua própria terra?” Eu digo: “me lembro”: “e quando que vai acontecer isso?”: “não vai acontecer mais nunca, porque hoje eu só saio de Santos se for puxado por um trator de V8.” Digo: “não tem mais jeito, já estou familiarizado com aquele povo, aquele povo me quer muito bem; eu quero muito bem a cidade, aquele povo de lá.” Foi depois de 55. Eu digo: “meu time já foi campeão.” E por aí afora; estou aí até hoje e pretendo não abandonar a cidade de Santos, continuar a minha vidinha que eu faço até hoje, ida e volta.  P/1 - Certo. Mas ainda nesse período, seu Vasco, da mudança, como era viver sob guerra, num clima de guerra? Como as pessoas aqui no Brasil se sentiam perante a guerra? R - Bom, nós estávamos debaixo de uma pressão muito grande. Tanto assim que... - você não está lembrado porque você não é dessa época - que o Brasil mandou forças para lá. E eu fui designado, eu fui convocado para participar, para ir naqueles regimentos que seguiram para a Europa, só que eu não fui em 42 porque quando eu tirei o meu serviço militar perguntaram minha profissão. Eu digo: “formado em economia, política e finanças.” E estava lá no meu prontuário. Então fui convocado, mas servi no Exército lá em Porto Alegre mesmo, depois me dispensaram. Mas vários amigos meus foram embora para lá. Teve um até que teve um gesto muito elegante comigo; era um grande amigo meu. A companhia dele quando saiu da Itália eles foram recebidos pelo Papa, e ele pediu que o Papa fizesse uma mensagem dedicada a mim, e ele trouxe essa mensagem, e eu tenho essa mensagem aí... P/1 - Que bonito. R - Que o Papa daquela época mandou para mim. P/1 - Quem era o Papa? R - Eu não me recordo quem era ele, porque aí ainda era o Leão... Não sei, não me recordo. Já faz tantos anos. Os submarinos alemães eles corriam aqui a costa brasileira, tanto assim que teve um navio alemão Graf von Spee, que afundou um porta-aviões americano, o Wood. Esse navio, esse Graf von Spee, ele tinha uma velocidade muito grande. Mas é que no combate que ele travou na ocasião do afundamento do Wood ele deu o azar que um dos torpedos bateu na hélice dele, e acabou que ele perdeu a velocidade. E perdendo a velocidade ele teve que se lançar em alto mar e foi para a Argentina, atravessou o Atlântico. E os ingleses, os americanos, vieram atrás com vasos de guerra e afundaram esse Graf von Spee. E a guerra andava aqui pelo Atlântico Sul muito incentivada, tanto assim que nós brasileiros tivemos vários navios afundados lá na nossa costa. Então você pode imaginar que nós não tínhamos tranquilidade. Quando havia aqueles combates aéreos lá na Europa nós tínhamos medo, porque nós nos declaramos parceiros dos aliados. E como parceiro dos aliados nós tínhamos medo que eles viessem atacar o país aqui, porque o país aqui tinha bases aéreas americanas instaladas aqui no Brasil, e podia haver um bombardeio aqui. Então tu já vês que a nossa ansiedade era muito grande. Vivemos uns dois anos muito intranquilos. Muito intranquilos. P/1 - Certo, certo. Só para a gente não se perder, seu Vasco, vamos retomar então. Eu retomo com o senhor chegando a Santos, a gente começa a falar do Santos. E aí na hora que nós começarmos a falar dos anos 60 aí o senhor encaixa essa história. Pode ser? R - Pode, pode. Tem tempo. P/1 - Então voltando, seu Vasco, você estava falando da guerra, do clima de guerra, da tensão, e o senhor já está em Santos quando a guerra acaba. R - Certo, certo. E o final foi um dia muito festivo para mim. Foi um dia muito festivo para todos nós. Foi um dia em que todo o povo saiu às ruas festejando o término da guerra com os aliados vencedores da guerra. Isso foi muito importante. E aí eu também participei desse dia, das passeatas de rua festejando o término daquilo, porque aquilo já não estava cheirando muito bem. P/1 - Sei. (riso) Certo, e aí o senhor chega a Santos, em 43. E o senhor disse que chegou em Santos e logo depois se associou ao Santos Futebol Clube. Como se deu esse encontro do senhor com o Santos Futebol Clube? R - Por uma fatalidade, por questão de uma doença, uma doença de uma sobrinha minha, eu travei conhecimento com um médico chamado Eduardo Dias Coelho. Ele era santista. E ele me convidou: “você não quer ser sócio do Santos?” Eu digo: “Como não? Quero!” E me associei ao Santos para nós irmos assistir jogos na Vila Belmiro, que ainda naquela época não tinha o estádio, o cercado em volta ainda era tudo madeira. P/1 - E a história das ovelhas, dos carneiros, que aparavam a grama... R - É. Em vez do Santos cortar a grama com a máquina - ou melhor, naquela época nem máquina existia, era cortada na foice - o Santos tinha lá umas 15, 20 ovelhas, e soltava as ovelhas, e elas comiam o capim e ficava o gramado com a grama bem rentinha, juntinha. Inclusive com o adubo das fezes das ovelhinhas, então estercava o gramado, o gramado ficava fértil. (riso) Tinha duas grandes vantagens. Depois veio a indústria, aí vieram as máquinas de cortar grama e tiveram que acabar com as ovelhinhas. Coitadinhas. P/1 - Acabaram com as ovelhas... Mas nessa época o senhor só era associado, só acompanhava os jogos do Santos. R - Só acompanhava os jogos. Mas eu fiz uma amizade muito grande com o maior santista que eu conheci na vida. Chamava-se Modesto Roma. Não teve ninguém no Santos que eu conhecesse que tivesse dado tanto ao Santos de si como deu Modesto Roma. E o Modesto Roma um dia, eu indo no escritório dele na Praça da República tratar de um negócio meu junto à companhia de navegação que ele era representante lá em Santos, ele me perguntou: “tu é sócio do Santos?”. Digo: “sou”: “então tu vai ficar com duas cadeiras do Santos cativas.” Porque o Santos lançou as cadeiras cativas; lançou essas cadeiras cativas que é patrimônio hoje da gente. Tanto é que figuram na minha declaração de bens. Eu tenho duas cadeiras cativas do Santos que eu posso vender... Se eu morrer amanhã entra no inventário, passa para os filhos. Aí então é questão de herança. Eu comprei duas cadeiras cativas. Naquela época custavam seis contos de réis cada uma, para pagar em seis... No dinheiro de hoje um conto de réis seria hoje, digamos, 1000 reais. Paguei em doze meses. E com essa eu travei conhecimento com Modesto Roma, e ele me convidava assim: “vamos lá...” Fui indo, fui indo... E eu fui me entrosando com toda aquela equipe, com toda aquela turma. Até que em 1960. Porque aí eu acompanhava o Santos, e acompanhava o Santos para tudo quanto é lugar que o Santos ia. Para o interior... Tinha jogos e nós íamos, não perdia uma. Essa torcida uniformizada que a gente vê e que vai, eu era um deles que acompanhava o Santos assim. E terminava o jogo, eu conhecia todo aquele pessoal, então ia lá para o vestiário e tal... Me entrosei com aquela turma toda, até que em 1960 me perguntaram se eu não queria ser vice-presidente. E me tornei vice-presidente de 60 a 62. P/1 - Mas antes da gente chegar nessa fase da administração do senhor, vamos enfatizar um pouquinho esse lado da torcida, do senhor enquanto torcedor. O senhor ia para todos os lugares que o Santos ia. E como eram essas viagens da torcida? Como a torcida viajava? R - Via de regra a gente ia sempre de carro. Mas era uma odisséia. Por exemplo, teve um jogo em Ribeirão Preto com o Botafogo, que apanhou, nós apanhamos... Apanhou a Leila que era telefonista. Apanhou todo mundo. (riso) Mas sabe como é: torcedor que é renitente não deixava de acompanhar. Apanhava, mas ia. (riso) P/1 - Mas apanharam por quê? Saiu uma briga generalizada? O que aconteceu? R - Não, aconteceu que o Santos ganhou e o pessoal do Botafogo achava que nós, que o Santos tinha roubado, coisa parecida. E quem pagou foi nós, torcedores do Santos, que não tínhamos nada que ver com a história. Porque nós comemoramos a vitória. Comemoramos a vitória, mas também apanhamos. P/1 - (riso) E a identificação do senhor com o time? Quem jogava no time dessa época? Logo que o senhor chegou a Santos, se associou, quem o senhor ia ver jogar na Vila? R - O time que mais eu gravei foi aquele que jogava Manga, _________ Ramiro... Não me recordo do número cinco. Jogava o Del Vecchio, o Álvaro, irmão do Ramiro. Vasconcelos. Desses, eu me recordo melhor, dos outros mais anteriores eu não tenho mais a lembrança. P/1 - Esse é o time do campeonato de 55? R - Já. Esse já é de 55.  P/1 - E como foi comemorar o título paulista em 55? R - O Santos foi campeão em 35. Passou 20 anos sem um título. E o Santos estava um ponto a frente do Corinthians. Tinha um jogo a fazer e precisava ganhar para já ser campeão, porque se empata tinha que decidir depois Santos e Corinthians aquele campeonato de 55. E o jogo foi na Vila Belmiro, contra um clube do interior que eu não me recordo qual foi o clube hoje. Mas foi o dia... Um dos dias de maior sofrimento da gente, dos sócios do Santos. Eu nesse dia sofri que você não pode imaginar; foi um dos grandes sofrimentos da minha vida, igual ao sofrimento de sábado passado. (riso) Eu sei que o juiz era o João Etzel. O Santos saiu na frente, marcamos o primeiro gol. Depois eles empataram. E nós precisávamos vencer o jogo. No finalzinho, quando faltavam pouquíssimos minutos, o Pepe decidiu a partida. Então veio aquele alívio e aquela comemoração. Tu faça a idéia de uma cidade do interior, porque Santos era considerada uma cidade do interior, levantando o título de campeão paulista.  P/1 - Depois de 20 anos ainda. R - Depois de 20 anos. Aquilo dava um sabor que você não faz idéia, porque já em 54 o Santos ameaçou. Já em 55 o Santos já foi campeão. Depois de 55, em 56... Não, o Pelé começou jogar em 57. O jogo da estréia do Pelé foi aqui em São Caetano do Sul. Ele entrou até no segundo tempo. Estreou aqui em São Caetano do Sul. Mas prometia muito o safado do pretinho.  P/1 - E o senhor viu esse jogo de estréia dele? R - Vi. Ia em todas! Eu me recordo que o Santos foi jogar aqui em São Caetano, num dia de chuva. O Santos venceu o jogo. Foi contra o Comercial. Depois na volta... Eu fui com os meus filhos e mais um amigo no carro. Na volta os torcedores do clube contrário, de São Caetano, faziam pelotas de barro assim e jogavam no pára-brisa do vidro da gente, e chamavam a gente de peixeiro, sempre num tom pejorativo. (riso) Você pode imaginar. Mas nós não estávamos ligando para aquilo, porque para nós era festa, nós tínhamos ganho o jogo e acabou.   P/1 - E já no primeiro jogo era perceptível que aquele jovem garoto de Bauru prometia? R - Ia fazer miséria. Ia fazer miséria. Ele, de fato... Olha, eu com essa idade que estou vi muito jogador de futebol. Muito. Não vi um igual a ele. Eu sempre digo. Para mim. O Pelé não foi um jogador de futebol, o Pelé foi um gênio dentro do futebol. Com uma vantagem que os outros nunca tiveram: ele sempre teve muita humildade. E jogava pelo Santos. Lógico, com seu interesse também, mas ele tinha amor pela camisa do Santos. Olha, teve dois jogadores que eu admirei muito. Um, Pelé como ídolo do Santos. O Pelé é um ídolo, quer queira, quer não queira. E teve um exemplo do jogador. O exemplo do jogador chama-se José Macia, o Pepe. O Pepe foi o exemplo do jogador. O Pepe nunca abriu a boca para se queixar. Nunca. O Pepe quando precisava reformar contrato dizia: “façam o que vocês quiserem.” Assinava... Quer dizer, era até uma injustiça sacrificar o Pepe, de tanto amor que ele tinha pela camisa do Santos. Então eu guardo lembrança desses jogadores que o Santos teve. Fora esses “teve” vários jogadores, vários atletas, que além de se destacarem também tiveram comportamento disciplinar digno de um homem, porque tem jogadores que quando sabem dar um pontapé melhor na bola eles se empavonam todos, e acham que são os reis do mundo. Tem outros que são grandes jogadores e tem humildade. Esses, não. Mas assim é a vida, nós não somos todos iguais, tem uns diferentes dos outros. O mundo é assim. O que nós vamos fazer? P/1 - Pois é, seu Vasco, a gente está entrando já nos anos 60, que é quando o senhor é convidado para ser o vice-presidente do Santos. R - Eu fui vice-presidente de finanças. P/1 - E como foi isso? Como se inicia a carreira administrativa do senhor dentro do Santos? R - Eu não quis mais continuar...  P/1 - O senhor estava dizendo como o senhor inicia, como o senhor chega à administração do Santos.  R - Na administração do Santos, na qualidade de vice-presidente do patrimônio, de finanças, eu levava aquilo muito a sério. E tem que ficar em cima, porque ser dirigente de clube de futebol você sabe perfeitamente que você... Não digo por um deslize, mas por um descuido seu você pode ser taxado como um mau elemento. Então, como eu assumia... Quando assumi o cargo de vice-presidente, eu também quis assumir de fato as rédeas das finanças do clube. E como o nosso presidente, o Atihê Jorge Cury, ele não era muito apegado a essa questão de finanças, ele deixava aquilo por conta do Deus dará... Ele tratava mais, ele só queria saber de futebol, mas de finanças ele não cuidava nada. Então eu peguei aquilo a unha, e levava aquilo tudo certinho, bonitinho, com assinatura de todos, assim como é numa firma comercial. Mas depois, terminados os dois anos, eu não pude continuar por causa dos meus afazeres particulares. Eu estava em pleno desenvolvimento e não podia; de vez em quando eu precisava viajar, e ia sacrificar a empresa. Então eu pedi desculpas aos meus companheiros e digo: “olha, eu não posso continuar.” Então foi nomeado um outro vice-presidente do patrimônio. P/1 - Certo. O senhor fica por quanto tempo? Dois anos? O senhor assume em... R - Fiquei dois anos. P/1 - O senhor assume em 1960? R - Sessenta até sessenta e dois. P/1 – Sessenta e dois. Quando o Santos conquista o primeiro título mundial. R - Não, o primeiro título mundial foi em 60.  P/1 - Sessenta. R - E justamente na conquista do título mundial contra o Benfica em Portugal eu tive o prazer de assistir esse jogo ao lado do presidente de Portugal, o Américo Tomás. Terminado o jogo... O Santos venceu o jogo, foi um jogo muito bonito; Pelé e Coutinho fizeram miséria. O presidente de Portugal - que não era “benfiquense”, ele era belenense - se levantou e disse: “senhor presidente, lhe comprimento porque o senhor tem uma bela de uma equipe, uma equipe que vale a pena da gente assistir”: “muito obrigado, bondade sua; o jogo foi vencido por nós porque no jogo tem que ter um vencedor; a sorte nos favoreceu.” Eu tinha que exercer nesse momento a humildade também: “a sorte nos favoreceu.” Mas por dentro... (riso) Você pode imaginar a minha alegria. P/1 - Sem dúvida. E como era aquele time jogando? Qual era a emoção de ver aquele time jogando? R - Aquele time jogando eu vou te contar. Eles não se impressionavam com o jogo, aquilo era uma “maquinazinha”, entendeu? Eles sabiam que iam vencer o jogo, e acabou. E tinha um elemento no time, esse veio entrar um pouco mais tarde, o Mengalvio. O Mengalvio teve uma passagem, mais irônica que possa ser, que possa existir na face da terra. O Mengalvio era tão desligado, mas tão desligado que um dia ele entrou em campo e após a saudação ele não sabia com quem ele ia jogar, contra quem... Não sabia nada. E se dirigiu aos amigos, aos companheiros, e disse assim: “puxa vida, hoje o jogo deve ser importante, não? Porque olha quanta gente tem no estádio.” Ele não sabia nada. Veja o grau de desligamento do Mengalvio. Agora chegava lá e ele fazia a parte dele, era um excelente jogador, um catarinense muito bom.  P/1 - Que outras histórias o senhor lembra desse time? O senhor tem mais alguma outra passagem pitoresca desse pessoal? R - Tem, tem passagens inúmeras... Numa das excursões que fizemos... Primeiro eu vou relatar a boa, depois vou relatar a ruim. Ou melhor, as duas não foram muito boas, porque deram um susto muito grande. Mas nós fomos jogar em Tel-Aviv, e não é que do trajeto do campo ao ônibus pegaram o Pelé, a torcida, os israelenses pegaram o Pelé, meteram ele nas costas e começaram a pular na frente do ônibus. Mas não é que carregaram o Pelé embora? É nós não achávamos mais o Pelé. Foram devolver o Pelé para nós no hotel, carregaram o Pelé todo o trajeto do campo até o nosso hotel nas costas, festejando o jogo, do que eles viram de maravilha. Por aí você pode imaginar o que aquele pretinho fez naquele dia. Fez miséria! Ele e o Pepe. Mas pegaram o Pelé. E nós preocupados: “e agora? Onde é que está o crioulo?” A gente dizia: “raptaram o crioulo, sequestraram o crioulo.” Um metia a culpa no outro. Ninguém teve culpa, porque quando ele saiu pegaram ele assim, suspenderam, um meteu ele no ombro e saíram ali... E nós ficamos olhando aquilo, mas certos de que eles iam trazer ele aqui de volta. Essa foi uma boa, que deu um susto muito grande. Mas por um lado ela foi comemorativa. (riso) E a outra ruim foi uma passagem num jogo que nós fomos fazer na Bolívia no campeonato sul-americano, na copa... Deixa eu ver como era o nome da copa. Era a copa dos clubes sul-americanos para a disputa do campeão mundial. E nós fomos jogar na Bolívia. E você sabe que na Bolívia o negócio lá é sério, a altitude lá não é brincadeira. O Dorval deu um pique do nosso lado do campo até o córner adversário. Deu um pique, e quando foi centrar a bola o Dorval caiu. Caiu e já entrou gente para ver o que é que foi, e nós corremos lá também para ver o que tinha acontecido: “o Dorval morreu? Teve uma síncope?” O Dorval, parecia que tinham jogado talco no rosto dele, ele estava branco, o nego estava branco. Ele abriu os olhos e disse o Zito assim para ele: “levanta, nego, e luta!” Nós precisávamos ganhar o jogo. De fato ele levantou, respirou, tocaram oxigênio nele... E de fato o Santos ganhou o jogo. O juiz era o Hélio de Abreu, juiz brasileiro. Mas os bolivianos não se conformaram com a derrota, porque depois eles tinham que vir jogar aqui. E vindo jogar aqui eles iam levar uma surra daquelas, como levaram. Começaram a querer bater no juiz. Entrou, junto com o juiz... Eu fui um deles, mas entrou uma turma grande no vestiário do juiz. Não é que os bolivianos ficaram até as dez horas da noite lá cercando o campo para bater na gente? Eles queriam bater no juiz, mas naquela onda lá ia juiz, ia diretor, ia todo mundo, entendeu? Por sorte o Athiê estava no vestiário do Santos, que o Santos conseguiu sair, com aquelas pedradas, aquelas coisas todas, para o ônibus. Conseguiu sair. Mas eu fiquei naquela do juiz, ficamos até as dez horas. Chegamos no hotel era dez horas, o jogo foi à tarde. (riso) Imagina você. Teve cada passagem que só a gente mesmo que é afeiçoado ao futebol pode passar e repeti-las. P/1 - Voltando então, seu Vasco. Passando os anos 60 o senhor acompanhou toda a trajetória do time que venceu absolutamente tudo, e aí no começo dos anos 70 o senhor vai assumir a presidência do clube. Como se deu essa trajetória? O senhor disse que tinha sido vice-presidente de finanças no começo dos anos 60 e depois se afastou. Como é que o senhor volta para a presidência? Como o senhor chega à presidência? R - Nessa altura eu já estava um pouco mais liberado dos meus afazeres, já tinha pessoal para me substituir na parte comercial das minhas empresas. E na época um grande amigo meu, Athiê Jorge Cury... O Athiê era deputado federal, passava a semana toda em Brasília. Ele não dirigia o Santos, quem dirigia o Santos praticamente eram os funcionários. E a pedido de uma porção de amigos, inclusive do próprio Modesto Roma... Dizia ele: “assume a presidência, assume a presidência...” Foram pedidos muito veementes que eu recebi, e que eu não via como uma coisa que eu fosse me orgulhar só naquilo, entendeu? Porque dirigi clube de futebol é muito difícil, principalmente se você quer se dedicar a isso. Mas, a pedido de um compadre meu, do Antônio Erasmo Dias, deputado: “aceita esse negócio aí que eu te ajudo...” E aceitei. Na época ele era secretário de segurança pública. Eu digo: “bom, eu aceito.” E aceitei, e fomos para as eleições, ganhamos as eleições. Fui vencedor. O Athiê me apoiou. Apesar de eu ter derrotado o Athiê, o Athiê foi sempre meu amigo, sempre me apoiou, sempre eu me comunicava com ele, trocava idéias, o que ele achava... E ele sempre concordava comigo, na maior parte dos pontos que eu apresentava a ele, ele dizia: “faça que vai dar certo.” Então não foi uma eleição digamos de rixa, de vingança, de qualquer coisa. Ele mesmo via que o Santos não estava sendo bem administrado por ele, mesmo porque o Santos naquela altura, quando eu assumi, estava passando por grandes dificuldades. Dificuldades enormes, entendeu? Principalmente financeiras. Com um grande problema. O Pelé, ele em 74, ele se aposentava do futebol brasileiro. Com isso Pelé, apesar dele não influir, diretamente, mas indiretamente ele influenciava o padrão, o nível dos jogadores a se elevarem, porque todos eles reivindicavam cada vez mais, porque alegavam que o Pelé não jogava sozinho, como era uma verdade. Então a gente também tinha como pressão o time ganhando, aquela coisa toda, então a gente tinha também que ir para o lado do atleta, que o atleta também se dedicava ao clube, dava a parte de si do clube. Agora, jogador terminando, como o Pelé terminando carreira, deixou o plantel num nível de pagamento muito elevado. Para abaixar depois o nível você passa por grandes dificuldades, inclusive o atleta chega e diz: “bom, se não pode me pagar mais essa quantidade, essa importância, você me vende.” E é isso aí que ocorria. Foi muito difícil. Mesmo porque o Santos tinha muita dívida para pagar. Muita dívida. P/1 - Dívidas da administração anterior? R - Da administração anterior. A administração anterior tinha dívida com um banco que tinha 17 assinaturas de avalistas, todos os diretores eram avalistas. E o banco precisava receber, e a importância era uma importância relativamente grande na época. E todos os avalistas que já não pertenciam mais ao quadro diretivo do Santos me pediam: “vê se você dá um jeito, liquida aquela promissória com o banco...” E foi indo. Eu tive sorte que os bancos me deram crédito de confiança. Me deram crédito de confiança e nós conseguimos aos poucos ir pagando, pagando... Até que eu digo, com grande orgulho... Digo com orgulho mesmo. Quando eu deixei a presidência do Santos, eu deixei o Santos zero a zero. O Santos tinha contas diárias para pagar de 416 mil cruzeiros, digamos. E o Santos tinha que receber 520 mil reais... 520 mil cruzeiros pela venda de dois atletas que eu havia feito ao México, um pretinho chamado Eusébio e o Miflin, que eu havia comprado na Argentina. O Miflin foi comprado só para preencher um cargo naquele campeonato, ele era o centroavante, mas já em decadência na Argentina. Mas ainda para nós serviu naquela época, e eu acabei vendendo pelo mesmo preço que eu havia comprado para o México. E entrou, logo que eu deixei a presidência, uns 15 dias depois, o México mandou o dinheiro, os 520 mil. Então eu pagava todas aquelas contas diárias que eu tinha ali. Aí o Modesto Roma foi o meu sucessor, e ele depois conseguiu levar a coisa à moda dele. Um grande administrador, santista fervoroso, até debaixo d’água. Infelizmente Deus o levou, mas levou um grande santista. P/1 - Seu Vasco, certamente era muito difícil administrar o clube nessa situação de dívida, etc. Isso de alguma maneira se refletia em campo com os jogadores? R - Não, não. Não porque nós não deixávamos atrasar o ordenado dos jogadores. Sempre o clube, na pior fase dele, ele nunca deixou atrasar o ordenado dos jogadores e do técnico. Naquela época a folha também não era tão exagerada como existe hoje, hoje jogador aí ganha fábulas. Não tinha como hoje. O técnico ganhava bem menos do que hoje. De acordo com a época. Tudo era de acordo com a época, mas também o ganho era difícil. O ganho era difícil, porque em clube de futebol você não pode fazer projeção de renda, porque você projeta um jogo... Digamos, você tem um jogo importante com um clube de primeira grandeza aqui em São Paulo. Nesse dia chove, a renda vai cair lá em baixo. Então você não tem condições de projetar em clube de futebol absolutamente nada de parecido, você projeta e vai depender da sorte. Vai depender da sorte, porque a coisa é muito ingrata. Depende muito do tempo também. P/1 - Dessa época também que o senhor foi presidente, o Santos conquista o título de 1973, que teve uma peculiaridade. Eu queria que o senhor comentasse o que aconteceu ao longo do campeonato, como foi a decisão do título... R – Olha... Isso aí para mim, o campeonato de 73 foi uma das coisas que mais me desiludiu na vida, com os homens dirigentes. O Santos decidiu o campeonato, naquele ano de 73, com a Portuguesa de Desportos. Empatou o jogo, foi para os pênaltis. Juiz Armando Marques. Começou a bater as penalidades. Primeira penalidade quem bateu foi o Santos. Chutou fora. A Portuguesa vai chutar, chuta fora. Então tudo igual aí. Santos vai e bate. Marcou. A Portuguesa vai, marca a penalidade, chuta e o goleiro defende. 2 a 1. O Santos vai, bate a outra, marca. Dois a zero. A Portuguesa vai marcar a penalidade, chuta fora. Armando Marques apita o fim do jogo. Santos campeão. E foi direto para o vestiário. Eu estava na tribuna e desci. Terminou o jogo. Mas com uma dúvida muito grande. Não terminou de bater os pênaltis. Por quê? Quando eu chego lá embaixo - Não foi fácil de chegar, porque muita confusão - os vestiários já estavam, os atletas ainda estavam em campo, tanto do Santos quanto da Portuguesa. Mas o Armando Marques já tinha voltado para o vestiário. E resolvemos ir falar com o Armando Marques para ver como é que a coisa ia terminar. Foi pedido a ele com insistência, tanto por parte do Santos como - a Portuguesa não se manifestava - como por parte dos diretores da Federação Paulista de Futebol que ele voltasse em campo para terminar de bater as outras duas penalidades que faltavam, e ele alegou naquela época que ele não podia voltar mais em campo porque ele não tinha condições psicológicas para apitar mais aqueles dois pênaltis que faltavam. Eu sugeri que o fiscal da Federação Paulista de Futebol escalasse um daqueles juizes reservas que tem lá para terminar, porque para bater duas penalidades qualquer juiz pode - credenciado -, pode fazê-lo. A Portuguesa de Desportos não quis aceitar, então a Federação sugeriu... O jogo foi no Morumbi. A Federação Paulista de Futebol, a sua diretoria, sugeriu que segunda-feira, dia seguinte, de manhã, às dez horas, as duas equipes, com as suas diretorias, e o Armando Marques, voltaríamos no Pacaembu para bater aquelas duas penalidades que faltavam ainda. Ficou tratado isso. Combinado, combinado: “então, amanhã de manhã, dez horas, no Pacaembu. Tudo certo?”: “tudo certo.” Então tanto a Portuguesa como o Santos voltaram aos seus vestiários. Mandamos nossos atletas tomarem seu banho. A Portuguesa, já mal intencionada, não tomou banho. Meteu os atletas dela no ônibus e levou para o Canindé. Quando o ônibus chegou no Canindé, vem no vestiário do Santos a diretoria da Portuguesa acompanhada com o seu advogado, e a diretoria da Federação Paulista, dizendo que aquilo que nós havíamos combinado não prevalecia, porque havia ocorrido um erro de direito. Esse erro de direito, como você sabe, isso significa que tudo aquilo que havia acontecido tinha desaparecido. “Bom, então como é que vamos decidir isso?” “Vamos jogar outro jogo?”, “vamos, vamos fazer outro jogo.” Mas diz a Federação Paulista de Futebol, por sua vez: “não, mas a Federação não pode marcar outro jogo porque não tem data”: “bom, nas se não tiver data agora - porque nós estávamos nas proximidades do fim do ano - vamos fazer isso no próximo ano”: “não, não pode porque nós temos que fechar o calendário da Federação e já ter o campeão definido”: “ora, mas se foi impossível devido a motivos de força maior o que nós vamos fazer?”: “não, não dá por isso, por aquilo...” Depois de mais de meia hora, uma hora de discussão, e o advogado da Portuguesa insistindo no erro de direito, e a Federação insistindo que não tinha data, que não podia prorrogar, então a Federação sugeriu que fossem declarados campeões a Portuguesa e o Santos, paralelamente os dois. Eu digo: “não, mas campeão só tem um, não tem dois... eu nunca vi isso.” E houve mais uma discussão lá, aí eu saí da discussão, deixei o vice-presidente de futebol lá, o Clayton Bittencourt Espinhel, encarregado: “o que tu resolveres, tu resolves, está certo, tu resolves que eu já não aguento mais tanta injustiça, tanta coisa.” Porque a Federação podia ter tomado as decisões que ela quisesse, ela deveria ter tomado uma decisão. Não esta. Podia ter outro jogo, o Santos fazia. Podia declarar o Santos campeão, porque de fato o Santos foi campeão, de fato e de direito naquele ano. Mas a Portuguesa queria ser campeã e acabou... Então foram declarados dois campeões naquele ano. Mas muito contra a vontade da diretoria do Santos, do seu presidente e dos seus vice-presidentes. Todos ficamos muito indignados. Depois houve controvérsias aí, que nós fomos frouxos, que nós fomos isso, fomos aquilo, mas nada disso ocorreu. Nós lutamos demais. Mas não houve boa intenção, não houve boa compreensão por parte da Federação Paulista de Futebol, porque se a diretoria da Federação Paulista de Futebol tivesse confirmado aquilo que havia sido tratado, de voltar no outro dia no Pacaembu às dez horas e bater as duas penalidades de cada lado, para bater, era o que ela tinha que cumprir, isso aí que ela tinha que fazer. Mas não cumpriu. Ela se deixou levar pela conversa do advogado da Portuguesa de Desportos de uma forma pouco elegante para mim. Em todo caso são águas passadas. Me deixou muito triste, muito indignado. Mas o que é que nós vamos fazer? São coisas que acontecem na vida dos homens.  P/1 - E como a torcida reagiu a esse título dividido? R - Você imagina só. A torcida ficou indignada com a diretoria. Lógico. Por quê? A torcida não conhece as conversações que teve, não está a par de nada: “vai dividir o meu campeonato com outro?” Ela não admite isso. Então nós fomos taxados de covardes, de trouxas, de uma porção de adjetivos qualificativos pouco recomendáveis. (riso) Mas você estava na chuva e tinha que se molhar e acabou. Você tinha que aguentar mesmo. Tem situações que você não pode fugir delas à sua bela vontade, ao seu bel prazer, você tem que aguentar ali... Por isso que eu te disse no começo que achei, que eu fiquei muito indignado, que achei que a Federação Paulista de Futebol não agiu corretamente com o Santos. P/1 - Quem era o presidente da Federação nessa época? R - Doutor José Ermírio de Moraes Filho. P/1 - E da Portuguesa, o senhor se lembra quem era o presidente? R - Osvaldo Teixeira Duarte. P/1 - Eles negociaram pessoalmente com os dirigentes do Santos, nos vestiários, esse novo jogo? Eles estavam presentes? R - Estavam! A diretoria da Portuguesa, a diretoria do Santos! Eu estava presente. Eu, o Clayton Bittencourt Espinhel, e o Sérgio Valeiro Réfis, vice-presidente de finanças do Santos. Nós estávamos lá, estávamos presentes, e acatamos a sugestão da presidência da Federação Paulista de Futebol, porque ele perguntou... O Armando Marques estava presente. Perguntou se ele, dia seguinte... Porque a Portuguesa queria que o Armando Marques apitasse o resto do jogo, por isso que a Portuguesa não aceitou um juiz substituto, porque queria que o Armando Marques terminasse o jogo. Era a alegação dela. Mas não era propriamente isso que a Portuguesa queria, a Portuguesa queria era poder sair de campo. Como ela conseguiu sair, porque ela precisava sair de campo para depois se arguir nos direitos que lhe dá, o fato de direito. Ela queria se arguir nisso. Como fez. Mas ela precisava tirar o time do Estádio do Morumbi, porque o time no estádio do Morumbi ela estava sujeita a ter que fazer um acordo qualquer. Então ela fez o acordo e depois desfez o acordo. Quer dizer, foi uma deselegância muito grande da parte da Portuguesa de Desportos. P/1 - E como ficaram as relações entre os dois clubes depois disso? Teve uma estremecida ou não? R - Não, estamos até hoje com a cicatriz do ano de 73. Nunca mais vou... Porque nós tínhamos uma ligação muito estreita com a Portuguesa, tanto assim que eu havia comprado um atleta... Esse atleta depois o Santos vendeu para a Espanha. Como era o nome desse atleta, meu Deus? Jogava na defesa. Vocês podem me ajudar? Não? P/1 - No começo dos anos 70? R - É. P/1 - Não me recordo também. R - Bom, tanto assim que nós compramos antes desse acontecimento. Nós tínhamos um entrelaçamento muito bom, e depois daí arrefeceu a coisa, e não temos mais esse sorriso sincero e simpático como tinha antes. Ficou uma cicatriz, uma marca muito profunda. P/1 - Certo. Bom, aí outro fato de relevo que acontece com relação ao time na administração do senhor é aquilo que o senhor já mencionou, da parada do Pelé... R - Foi. P/1 - Que acontece no ano seguinte. E como foi? Teve alguma preparação? O Pelé chegou e avisou que estava parando de jogar? A diretoria já esperava por isso? Como foi esse episódio do encerramento da carreira do Pelé? R - Foi uma das coisas muito tristes para o Santos, porque era uma lei. E nós sabíamos que esse dia ia chegar. Mas você não pode imaginar o que vai acontecer depois. As previsões não eram as melhores, a gente podia imaginar tudo, mas o que podia acontecer a gente não imaginava. Ele parou. Parou num jogo até à noite, contra a Ponte Preta. Foi uma bela despedida. E aí o Santos começou na velha luta, porque como eu disse: plantel inflacionado, sem o ídolo... Que além de ídolo ele era mesmo aquele que remava mesmo dentro da equipe. Era aquele que marcava gol, e dava para marcar. Ele dentro do campo era de fato um atleta de primeira grandeza. Como eu disse há pouco também, para mim ele não era jogador de futebol, para mim ele era o gênio do futebol. Eu não vou ver outro igual, não sei se você vai ter a felicidade de ver um igual ao Pelé, não sei se vocês vão ter a felicidade de ver um igual ao Pelé. Porque você pode ver nesses tapes que vocês tem aí as jogadas que ele fazia. São jogadas verdadeiramente geniais. Então eu digo com sinceridade: não vou ver outro! Pode ser que vocês tenham a felicidade de ver outro igual. Comparam aí vários jogadores com o Pelé, mas... Mas nem a sombra. P/1 - Nada. (riso) R - Nada. Nada igual.  P/1 - Bom, seu Vasco, então nós acabamos de falar do Pelé encerrando a carreira. E o senhor se lembra como é que foi a primeira partida do Santos sem o Pelé? R - Não lembro. Não lembro como foi a partida. P/1 - Mas a partida então de despedida do Pelé. R - Ele jogou o primeiro tempo. Ele jogou o primeiro tempo, e no intervalo ele veio a público em campo, sozinho, se despediu da torcida, beijou a torcida, e se retirou debaixo de muitas palmas. E terminou o Pelé para o Santos. Agora nós temos a sorte de tê-lo ainda em nossas fileiras como um grande colaborador. Se vê que, de fato, ele tinha uma certa afeição também pelo clube. Não era só um atleta profissional com interesses, não. Ele também tinha uma afeição muito grande pelo clube. P/1 - E para o senhor pessoalmente? O senhor que viu a primeira partida do Pelé, viu a última, acompanhou a carreira toda do Pelé, qual foi a sensação de ver? O senhor já disse que sabia que um dia isso ia acontecer. Mas e o dia que aconteceu? Como o senhor se sentiu? R - Bom, a gente fica triste. Mas uma das coisas que também nos preocupou muito, mas muito, muito... Eu volto a 62, quando o Santos disputou o título mundial com o Milan no Maracanã, que o Pelé não pôde jogar. Estava contundido, o Pelé não pôde jogar. O Santos tinha que vencer aquele jogo, e às pressas nós contratamos um atleta que também era bom atleta. Ele estava à disposição. O tal Almir Pernambuquinho. Acontece que aquela noite o Santos sai perdendo o jogo. Sem o Pelé. A torcida toda, nós todos totalmente desanimados. Mas deu sorte que no intervalo choveu. E o Santos virou o jogo no segundo tempo. (riso) Vira o jogo e ganhou o jogo. Aí você pode imaginar a nossa felicidade e o nosso contentamento de sermos novamente bicampeões mundiais. P/1 - Claro. Então falamos do Pelé encerrando a carreira no Santos. E o senhor? Como o senhor fecha sua administração no Santos? R - Eu fechei a minha administração no Santos contente do dever cumprido, das grandes amizades que lá deixei. Não posso deixar de enaltecer aqueles funcionários. Tanto o Alfredo como... O Alfredo... Enfim, todos, desde a telefonista. O dia que eu fui me despedir deles, eles choraram. Isso me comoveu muito, muito, e eu disse: “olha, o Santos é grande, tem um bom padrinho, e se Deus quiser o futuro presidente, seu Modesto Roma, também vai fazer uma administração tão igual ou muito melhor que a minha, e vocês na mão do Modesto Roma estão muito bem aparados também.” Como de fato foi. E eu me sinto feliz, porque hoje eu sou conselheiro efetivo do Santos, recebo da diretoria do Santos as maiores, as melhores atenções, e isso me faz um bem extraordinário. Quer dizer que se alguma coisa eu fiz para o Santos hoje eu sou recompensado. Porque viste, Fábio, o homem não é... O homem, ele não acerta sempre, ele também às vezes erra. Então o homem perfeito não existe. Eu devo ter errado também, acertado... Eu acho que acertei mais do que errei. Então, com as atenções que recebo hoje, como eu te disse, eu me sinto muito feliz, um veterano e um grande sofredor (riso) como torcedor do Santos Futebol Clube. E faço votos que toda a diretoria, todas as diretorias futuras que vierem, trabalhem para o clube sem esmorecimentos, e que levem o nome do Santos para bem alto, para fora do país como o Santos já foi - e é ainda até hoje - um clube internacionalmente conhecido. P/1 - Aproveitando essa deixa, seu Vasco, queria, para a gente encerrar então essa nossa entrevista, esse depoimento do senhor, que o senhor dissesse o que o senhor acha dessa iniciativa do Santos de estar preservando a sua memória, fazendo um museu, chamando pessoas que foram e são importantes para a história do clube para deixarem sua marca para as futuras gerações poderem sempre consultar, sempre estar lembrando, sempre estar pensando no Santos de ontem e no Santos de hoje.  R - Este é um trabalho feito por essa diretoria que eu elogio demais, porque daqui a muitos anos jovens como você e outros mais que querem saber da vida do Santos, eles vão a Santos e pegam o primeiro livro de ata do Santos. E eles podem ver a noite da fundação do Santos, e podem ver ao longo dos tempos os seus dirigentes, os seus feitos, e como o Santos viveu, e quantas glórias e quantos títulos o Santos deu para alegria da sua torcida, assim como teve muitas tristezas. Agora, eu não devia dizer isso, mas o Santos agora está sendo muito castigado pelas federações. P/1 - O senhor acha? R - Campeonato Brasileiro de 96, aquele campeonato era do Santos, e foi do Santos, e tiraram do Santos não sei por quê... O gol que o Camanducaia marcou - você foi testemunha disso - não tinha impedimento nenhum, não tinha nada. Ele veio de trás e marcou, botou a cabeça, entrou um bolo, entrou lá. Nós paulistas sofremos as pressões cariocas. P/1 - Ainda hoje o senhor acha que... R - Ainda hoje. Ainda hoje sofremos. P/1 - Tá ótimo então, seu Vasco. Eu agradeço demais essa colaboração, esse depoimento do senhor. O Santos também, o Museu da Pessoa. Agradecemos muito esse depoimento. Acho que foi muito proveitoso, e certamente vai enriquecer ainda mais esse nosso museu. Muito obrigado. R - Você não tem nada que agradecer. Quem tem que agradecer sou eu, você disponha daqui pra frente de um amigo. Quando você precisar de alguma coisa você me procura que eu estou inteiramente às ordens de vocês. Estou aposentado (riso), preciso preencher o tempo, e vocês me darão uma imensa alegria se eu puder colaborar com vocês. P/1 - Com certeza. R - Obrigado. P/1 - Muito obrigado nós então, seu Vasco. R - Pronto, chefe?  P/1 - Perfeito.
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