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História

Sandra Brandani: sobre bicicletas e lambretas

Sinopse

Apresentação da entrevistada; origens da família. Breve descrição de seus avós paternos e maternos. Atividades exercidas por seus pais. A casa cheia de irmãos e primos. A dupla jornada de seu pai e a sociedade no ramo de peças para lambretas, motos e posteriormente bikes. A descrição do bairro da Vila Tibério e Campos Elíseos. O comércio de seu pai, consertando geladeiras e as lambretas. A brincadeiras de rua com seus primos e amigos. Os passeios e as festas no centro de Ribeirão preto.  A educação disciplinada e rígida e o ingresso na faculdade de Administração de empresas. O ingresso na empresa do pai, sendo uma das poucas mulheres no ramo de duas rodas. O que a fez assumir os negócio, com a irmã. Entrada do filho, em 2015 para o ramo da família,cuidando das filiais. Desde os anos 80, Sandra e a irmã comandam esse nicho de mercado majoritariamente masculina. O mercado das duas rodas, as  análises de consumo e a indústria da família. A modernização do ramo e a paixão pelo comércio. O casamento e a construção da família. Os projetos filantrópicos e as estratégias para lidar com a pandemia. O mercado instável de motocicletas de acordo com a instabilidade econômica.

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História completa

          Meu nome é Sandra Brandani Picinato. Eu nasci em 9 de dezembro de 1960, na cidade de Ribeirão Preto, São Paulo. O nome do meu pai é Silvio Brandani, e minha mãe é Sofia Neri Brandani, ambos falecidos. A origem da minha família é italiana. Os meus bisavós vieram de navio para o Brasil, vieram no porão como era comum. E aqui eles começaram a vida, vieram pra cá no momento em que havia o café e tudo mais por Ribeirão Preto. A família foi se desenvolvendo toda aqui na cidade, e quando eu nasci, em 1960, nós já morávamos na Rua Ceará.

          O meu pai consertava geladeiras para os poucos bares, e a minha mãe sempre foi do lar. Mas em 1958 ele ficou com uma jornada dupla: ele fabricava peças de vespa e de lambreta, e durante a noite consertava as geladeiras que iam pros bares, pros restaurantes. E o meu tio ficava no desenvolvimento das peças da lambreta. E essa dupla jornada acontecia porque ele já tinha cinco filhos da parte dele mesmo, e aí ele resolveu criar mais cinco primos nossos - a irmã dele fazia feiras fora de Ribeirão Preto, e ele foi dando essa criação pras crianças dela.

          A Vila Tibério é um bairro muito antigo, acho que é o segundo bairro, ou terceiro de Ribeirão Preto. É onde nasceu a sede do Botafogo Futebol Clube, que é o Pantera. E foi lá também que a USP foi se desenvolvendo, próximo da Vila Tibério. Lá meus pais acabaram se mudando pra uma casa maior, pra onde veio todo esse pessoal pra poder criar dez crianças. E um quarteirão abaixo, meu pai tinha um barracão onde ele consertava as geladeiras.

          Na verdade, na hora de decidir o que eu ia fazer, eu queria Artes Plásticas, mas quando fui fazer a inscrição, acabei colocando Administração Hospitalar. E meu pai disse assim: “Não entendo você. Todo mundo aqui é na área comercial e industrial. Qual é o hospital que você vai administrar, que nós não temos médico na família?”. No segundo ano, eu mudei pra Administração de Empresas.

          E o nosso ramo de atividade começou em 1958. No ano de 1970, eles fabricam as bicicletas Brandani. Eles já tinham a fábrica, que era de peças de Lambreta e Vespa, mas nos anos 70 começam a fabricar as bicicletas Brandani, que são 12 modelos. E eles conseguiram fabricar mais de 300 mil bicicletas. Nós tínhamos uma bicicleta com amortecedor, tínhamos a bicicleta dobrável, tínhamos a bicicleta de marcha, a bicicleta de carga, que os trabalhadores da Antártica usavam muito.

          Aí, desse momento pra frente, começam a vir a Honda e a Yamaha pro Brasil, e eles pegam a concessionária Yamaha pra tocar também, junto dos outros negócios. Em 1979, eles abrem outra fábrica, que é a Plasmotécnica, onde eles começam a fabricar peças de moto. E é aí que eu entro, pra trabalhar como secretária do meu tio.

          Nesse período, a Caloi veio a Ribeirão Preto e quis comprar a Brandani, e aí foram vendidas a fábrica e a marca. Mas nós continuamos, tanto no comércio, como na indústria. Em 1981 eu vou pra loja de peças com o meu irmão, pra fazer kardex. Até que em 1983, pediram pra separar as peças originais das paralelas, porque já existiam muitas peças paralelas de moto no mercado. Então o meu tio ficou com a indústria, e nós ficamos com o comércio.

          Não existiam mulheres no mercado de duas rodas. E até hoje a gente é a minoria na linha de frente. E como eu aprendi? Eu fuçava muito, eu andava de moto já em 1978, e eu gostava muito de ver se acontecia algum problema na minha moto. Eu fuçava nela, eu pegava as minimotos, as motos, desmontava e depois ia pondo cada peça de volta. Então, hoje, se você me perguntar cada peça que a motocicleta tem, eu sei explicar todas elas.

          Eu sou muito apaixonada pelo comércio e pelo o que eu faço. Nossa loja tem quase 5 mil metros quadrados, e nós temos mais seis filiais. A minha mesa sempre foi disposta no meio de loja, entre os vendedores, entre a seção de peças. Eu fico numa posição estratégica para lidar com tudo.  

          Atualmente, estou dentro da Associação Comercial como a primeira mulher na diretoria executiva, isso depois de 113 anos. E eu, como mulher, quero deixar uma mensagem pra todas as mulheres, de um modo geral: não desista do seu sonho. Não é fácil. A mulher tem multitarefas, ela tem o livre arbítrio desde 1970, pra que ela possa fazer o que ela quiser. Então, realmente, se ela tem que sair pro mercado de trabalho, que ela saia pro mercado de trabalho. Se ela tem que empreender em alguma coisa, que ela empreenda. E, sim, faça o melhor quando você for fazer. E tenha paixão por aquilo que você faz. Porque eu estou num ramo masculino e tenho muita paixão!

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