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História

Samuel Avzaradel

História de: Samuel Avzaradel
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/11/2005

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História completa

P/2 - Senhor Samuel, o senhor nasceu onde?

 

R - Em Milás.

 

P/2 - Onde fica isso?

 

R - Na Turquia.

 

P/2 - Não é perto de Rhodes?

 

R - Perto de Rhodes… É. Do outro lado. Rhodes é ilha e Milás é… Fora. Bota Milá. Ninguém… Se alguém quiser ir lá, eu dou um mapa. Chega a Niterói, passa pelo _____ e encontra já.

 

P/2 - E chega lá, né? (risos)

 

R - Já está ligado isso?

 

P/2 - Já, mas pode fazer brincadeira, falar à vontade. Não tem…

Fale da sua família: nome dos seus pais, quantos irmãos tinha...

 

R - Em que data nasci é que eu não sei. (risos)

 

P/2 - Eu nem perguntei. Não sou indiscreta. (risos)

 

R - Eu vou dizer por que. Na minha terra, quando se quer saber que idade tem, [se diz]: "Olha, quando casou com José, ela estava grávida de cinco meses." Por aí é que você ia tirar conclusão [de] quantos anos tem. Não havia registro, não havia coisa nenhuma. "Escuta, você sabe quando casou fulano de tal?” “A mãe estava de sete meses. E nasceu fulano." Você vê que...

 

P/1 - Ninguém sabe a data certinha.

 

R - E muita gente pensa que eu escondo os anos, que eu não quero dizer. Isso é uma bobagem, né? Mas é verdade, então botei uma data assim porque comecei com esporte. Eu não tinha ideia. Chegava num clube, fazia parte, dava uma data. Chegava [em] outro, dava outra data, depois vi aquele estava errada. Então resolvi fazer uma data: primeiro de janeiro de 1889.

 

P/2 - Primeiro de janeiro. Que maravilha, né? (risos) E os seus documentos têm essa data também?

 

R - É natural que tinha que ter esse documento. Daí fui para o Egito. Tenho uns primos lá, chamaram, estive lá uns nove meses.

 

P/2 - Isso em que ano?

 

R - Em 1914.

 

P/2 - Quando começou a guerra.

 

R - Depois vim pra cá, tenho uns primos que chamaram pra cá. Os pais deles. Eles são filhos dos meus primos.

 

P/2 - Qual o nome deles?

 

P/1 - Ela perguntou o nome dos seus pais.

 

P/2 - Depois a gente volta, peraí.

 

R - Ah, meus pais? Yosef Avzaradel. Minha mãe, Mazaltob.

 

P/2 - E quantos irmãos o senhor tinha?

 

R - Irmão só eu, o único. Mas tinha três mulheres.

 

P/2 - Mais velhas ou mais novas?

 

R - Hein? Não, eu sou o último. O caçula.

 

P/1 - Eles estão no Brasil?

 

R - Não. Eu nasci lá e fiquei por aí.

 

P/1 - Mas elas vieram pro Brasil?

 

R - Não, não.

 

P/1 - O senhor não tem duas irmãs nos Estados Unidos?

 

R - Tinha três. Já foram embora, uma faz um ano. Tenho só sobrinhos.

 

P/1 - Aquela que o senhor me mostrou a fotografia, que estava doente, morreu também?

 

R - É, exato. Morreu.

 

P/1 - Não sabia.

 

P/2 - O senhor casou?

 

R - Casei. Fiquei casado [por] quarenta anos exatos. Na véspera do casamento, dos quarenta anos, a minha senhora faleceu. Foi de câncer. Depois, o pessoal não deixou que eu ficasse no meu apartamento. "Não, o senhor não pode ficar aqui sozinho.” Eu vim pra cá. Nessa brincadeira já são… Foi em 73, agora estamos em 80 e...87. São quatorze anos de de viuvez.

 

P/2 - E quatorze anos que o senhor está morando aqui. Filhos o senhor teve?

 

R - Tive, mas não chegaram a viver. Morreu o casal. Um filho e uma filha.

 

P/1 - Mas dois filhos ou gêmeos?

 

 

R - Não, separados. No primeiro ano foi uma menina. Quando se deu aquele estrondo em Niterói. Houve um estrondo… Eu estava naquela noite na casa do vizinho, pegado. Eu senti medo, mesmo como homem, senti que ia… Meu enterro, tudo… E minha senhora estava já com seis meses de gravidez. Eu comecei a rir, fazer palhaçada mesmo pra distraí-la, mas quando… Era uma escadinha do vizinho. "Samuel, eu acho que… Não está caminhando, não. Estou sentindo." "Ah, não, o que..." Comecei a fazer brincadeira, mas era fatal. Já tinha quebrado. Foi acidente.

Foi ao médico, ficou quase uns três meses. Flebite. E passamos também.

[Na] segunda vez, a gente ia todas as semanas, [às] quintas-feiras, ver o melhor médico do gênero. Tá tudo bem, tudo bem. Quando chegou aos seis meses, de noite, de repente, dor, dor… Dor do quê? Ela esteve lá na quinta-feira, como sempre, e estava tudo bem. Continuou em casa.

Começou a sentir dores, veio a hemorragia. Telefono pro médico: “Já para o hospital.” “Mas doutor, o senhor não disse ontem que estava tudo bem? “Não quero conversa. Já para o hospital.” Chegamos lá, já tinha três assistentes. Esperamos aquela noite, esperamos até de manhã. Disse: “Olha, a criança está morta. Agora vamos ver se a salvamos.”

Passou de manhã, meio-dia. Vamos esperar até de noite. Pode ser que veio por si. Chegou de noite, não veio. Cesariana. E pronto.

Aí começou outra história. Dizem, há uma cartilha em espanhol, “de que contar los mis males siento que ustedes…”           Quer dizer, caderno. "Quien los tiene a capis, quieren picares. Yo, por mi pecados, estuve a quicardes." São cantigas de Alfibras.

 

P/2 - Lindo isso. Talvez fosse bom explicar. Explica suas cantigas pra gravação. Não pra gente.

 

P/1 - Não, ele tem uns discos aí. Não tem?

 

R - Tenho, mas não dá pra ligar.

 

P/2 - Não. Mas elas são muito profundas. Profundas e muito verdadeiras.

Mas vamos voltar a Milás.

 

R - E eu cantava. Cantava, tinha a voz bonita. Eu estou dizendo que tem uma fita ainda para mandar a minha irmã que estava nos Estados Unidos. Hoje, amanhã… Não tem tempo hoje, mas amanhã… Olha, já faz quantos anos? Uns seis anos. Ainda está lá a fita.

 

P/1 - E o senhor está pra mandar a fita pra lá faz seis anos?

 

P/2 - Não. Está pra gravar e mandar. E as irmãs já faleceram.

 

P/1 - Manda pras sobrinhas.

 

P/2 - Mas vamos voltar pra Milás.

 

R - Então,tornei-me escravo do povo. Sabe o que é escravo do povo? Eu era para tudo.

 

P/2 - Ah, isso é verdade. E ainda bem, né, Senhor Samuel?

 

R - Graças a Deus. Bom, agora eu tenho um privilégio que Deus me deu de presente. Eu estou aqui de graça. É isso aí. Eu estou com marca-passo aqui. Estive com a pulsação de 5. Veio o médico. "Está mal. Vamos esperar mais cinco dias." Passaram-se cinco dias. Mais cinco dias de observação. Por fim, acharam que não havia meio, era preciso operar.

 

  - Ele não podia levantar.

 

R - Olha, estou com cinco de pulsação. Eu não me opero não. Se ele mexe em mim, amanhã vai a quatro, depois morro tranquilo. Se é que vão me operar e eu vou continuar os meus serviços religiosos e não que eu vou ficar acantonado aí num lar, me deixem morrer sossegado. “Não, não…” Depois tentaram me convencer. Ele vinha, aconselhava, outro aconselhava. Por fim, com a graça de Deus, foi tudo bem.

 

  - Vai fazer um ano o mês que vem.

 

R - Dez de setembro.

 

  - Em novembro. Não. Em setembro, é.

 

R - Em setembro fez um ano.

 

P/2 - Fez um ano já. Graças a Deus.

 

R - Eu nunca festejei antes. Como eu digo, eu não sei o dia que eu nasci.

 

P/2 - Mas agora vai festejar os muitos anos da operação. Essa data o senhor não esquece. (risos) Muito obrigada. Mas vamos voltar a Milás.

 

R - A Milás. Então, dali foi pra...

 

P/2 - Não, eu quero ainda saber. O senhora ainda não saiu. O senhor nasceu em Milás, sua família… Eu quero que me conte da sua família. Se era religiosa...

 

P/1 - Seu pai trabalhava em quê?

 

R - Meu pai era um comerciante.

 

P/2 - Quer um café?

 

R - Só uma xicarazinha chega. Já tem açúcar no açucareiro.

 

P/2 - Mas eu tomo sem açúcar, Senhor Samuel.

 

R - Pelo menos isso agora pode servir quando eu for embora. Quando sair desse mundo, quem vai saber da minha vida?

 

  - Isso vai servir para a posteridade.

 

P/2 - Então, o senhor nasceu numa família... Como era a sua família em Milás? Era uma família abastada, era uma família...

 

R - Era uma família nacional.

 

P/2 - O que quer dizer isso?

 

P/1 - O que é uma família nacional?

 

R - Judia, né?

 

P/1 - E o seu pai era comerciante. Trabalhava com quê?

 

R - Era comerciante. Loja.

 

P/1 - De tudo?

 

R - Tecidos.

Coma o biscoito, senão esfria o biscoito e o café que não é quente. (risos) O cafezinho está bom, hein?

 

P/2 - Tá. Isso graças a nós, né?

 

  - Ele teve loja na Av. Gomes Freire, né.

 

P/2 - Não, mas eu ainda quero que o senhor me conte da sua vida na Turquia.

Ele está dizendo que seu café está muito bom em nossa homenagem. A senhora está sabendo, veio culpada também. (rindo)

 

R - Eu, de pequeno, tive o dom de falar, de representar. Eu me lembro, devia ter uns doze anos, [de] fazer o papel de Dreyfus. Ninguém acredita. O pessoal todo já foi embora.

 

P/2 - No colégio?

 

R - Sim. Na escola.

 

P/2 - Fez o papel todo. O senhor tirava todas as suas condecorações, fizeram tudo? Como o senhor viveu a história de Dreyfus?

 

R - Eu era o condenado.

 

P/2 - Claro. Só pode ser, né?

 

R - Não, porque há no papel anterior, depois. Vocês vão pagar o espetáculo completo ou e...

 

P/2 - A gente quer completo. A gente paga. A gente quer tudo que a gente tem direito, Senhor Avzaradel. Metade a gente não aceita não. (risos) O senhor estudou em que colégio?

 

R - Nós tínhamos um colégio por quatro meses, [no] máximo, porque o povo tinha para pagar o professor. Ia embora e vinha outro.

 

P/1 - Era pequeninha a cidade?

 

  - Está que nem aqui mais ou menos. (risos)

 

P/1 - A cidade era pequena, era grande a cidade?

 

R - Não. Regular. Cabia muita gente.

 

P/1 - Muita gente?

 

P/2 - Mas a comunidade judaica era bem integrada na comunidade local?

 

R - Sim, era integrada. Mas era...

 

  - Era pequena, né.

 

R - Pequena.

 

P/2 - Quantas pessoas? Quantos judeus havia em Milás?

 

R - Ah, não… Cidade pequena como era, era tudo unido. Era como se fosse uma só família. E era grande. Famílias bastante ricas, bastante famosas. Depois começaram a sair.

 

P/1 - E por que começaram a sair?

 

R - Por causa das guerras da Turquia e tudo mais. Não, ficou uma. Se não me engano, tinha ficado uma.

Tinha umas duas sinagogas bonitas. Mas você sabe, também foram embora. Vieram para a América, pra Buenos Aires.

 

P/2 - E as coisas da sinagoga, o senhor tem ideia do que foi feito com elas?

 

R - Lá? Ah, ficaram abandonadas. Ninguém vai lá.

 

  - O senhor nunca mais voltou a Milás?

 

R - Não). Fui bobo, porque o nosso Isaac Safir me convidou: “Samuel, vamos que eu pago as despesas. Vamos a Milás.” Naquele tempo, a gente não tinha compreensão do que era viajar. A gente ficava com medo.

Ele foi lá. Eu tenho um cartão que me mandou meu tio do cemitério. E eu, calculando mais ou menos os anos que eu faltei na minha terra, até hoje, ele deve ser enterrado aqui. Por exemplo, esse é o retrato. Aqui tudo já está… Aqui está cheio. Eu calculei, tantos anos. Deve estar aqui, o túmulo.

 

P/2 - Do seu pai.

 

R - O partir que a pessoa… Espírito. E assim eu tenho ainda aí guardado.

 

P/2 - Depois o senhor podia contar pra gente.

 

R - Mas eu fui religioso porque a minha mãe, Deus a tenha [em bom] lugar, era religiosa. E ela não me deixava... "Samuel, diz "Kriyat Shemá". Eu dizia: "Shevan." "Mas não é assim, meu filho. Kriyat Shemá, direitinho." E também, quando ela morreu, eu levei o ano inteiro dizendo frases pra ela, fazendo Shivá e tudo. Quer dizer, o sentimento de mãe me prendeu. E continuei até agora.

 

P/2 - O senhor sempre foi muito religioso. Sempre foi conhecido pela sua religiosidade.

 

R - Agora então, que eu estou quase desligado de todo este mundo… Pode crer. Eu me sinto desligado. Não dou mais importância ou valor, quer dizer, que tenha a pessoa uma ambição pra isto ou pra aquilo. Nada, nada, nada. Sempre levanto de manhã, faço minha oração, tomo meu café, torno a ler o dia todo Tefilin pelas almas. Os que fazem anos hoje, fazem amanhã, tenho minha lista. E não faço mais nada.

 

  - Ele ia todos os domingos fazer orações pra todas as pessoas que ele conheceu...

 

R - Eu sentia saudades. [No] domingo, o meu passeio era ir ao cemitério. Quem fazia anos, rezava no túmulo dele. Sem exceção.

 

P/1 - E fora isso, o senhor não está preocupado… Não se preocupou das outras coisas.

 

R - Não, sempre. Só depois que eu fiquei doente agora, assim, é que eu não vou em algum lugar, às vezes. Quando tem alguma cerimônia, eu… Pessoa de mais kavod, aí eu vou. Porque infelizmente... Não temos mais... O discurso que eu vou fazer agora...

 

  - Ele sempre foi pau pra toda obra. Tudo que precisava era Samuel.

 

R - Um tapa-buraco. Nas melhores das ocasiões...

 

P/2 - Isso é verdade.

 

  - Não, mas é sério. Em todas as circunstâncias. Pra enterro, pra casamento, pra tudo.

 

R - Isso me dá satisfação. Bom, pelo menos isso vai ficar aí. Vão se lembrar, porque o resto todo mundo se olvida.

 

P/2 - Não. Não se olvida nada. E por isso a gente faz a entrevista, Senhor Avzaradel. E o senhor vai nos contar mais coisas ainda. Depois que a gente acabar essa entrevista, vai viver muitos anos pra nos contar mais coisas. Se Deus quiser.

 

R - Todos os anos, agora, como vai ter agora domingo que vem, o dia de Finados, que tem reza no coletivo, "reshashun" e tudo mais, eu toco sempre. Muitas vezes eu metia pau no povo [dizendo] que estão indiferentes, que as tradições estão ficando mais levianas, o pessoal não está se interessando como era antigamente. Sempre. E tudo com luvas, para não ofender os diretores. É. "A gente está trabalhando, vem meter o pau na gente, [dizendo] que a gente não está fazendo nada". Mas eu dizia a eles, mostrava a eles que eles estão fazendo, mas… Eu botava luvas para falar isso, para não se ofenderem.

Deus tenha em bom lugar o Mateus Menaché, que era um grande, grande elemento nosso. O Mateus Menaché era o líder entre os ricos, eu era o líder entre os pobres. Um pobre, quando tinha qualquer coisa, era o Samuel. À meia-noite ele telefonou: “Samuel, fulano que morreu.” Ele era dos ricos, era um político. Tinha, sabia, representava. Não, não temos mais. Olha, isso que eu acabei de dizer.

Perde-se um político, não tem substituto. Perde-se um homem religioso, religioso de fato, não tem substituto. E como vai se fazer? Já dizem: bom, pelo menos já temos isso. Infelizmente, é a verdade.

 

P/2 - Eu concordo com o senhor. Mas não deveria ser assim, né?

 

R - Tivemos uma senhora que não só era dama da comunidade, mãe da comunidade. Chamava-se Sara Shonschof. Ela tinha representação em todas definições. Ela faleceu a semana passada, então eu não podia deixar de fazer a oração, a cerimônia. Não ia deixar esses novos aí fazer. Chovia, mas eu fui. Senti a satisfação. Dois anos atrás eu fiz a ela a oração da morte, porque estava morrendo. Dois anos e meio. Durou até agora.

 

  - Chamaram-no pra ir ao hospital e ele foi. Foi pensando em encomendar a alma.

 

R - Fiquei até duas horas da madrugada. Eu vi que ela não entregava a vida. Tentei até de manhã. Levou dois anos e meio, até agora.

 

P/2 - Mas ela estava doente ou estava firme?

 

R - Ficou doente. E todo esse tempo com o médico.

 

  - É a mãe do Schonschof.

 

R - Eu não podia deixar de fazer a cerimônia dela. E é assim. A vida… Mas infelizmente eu me convenço. O sujeito morreu; se tiver muito acompanhamento, tem, se tiver muitos discursos, tem, e depois, nem te vi nem te conheci. Ninguém se lembra mais.

 

P/2 - Isso não é verdade. Não. O senhor falou de quantas pessoas que se foram com boa lembrança. Quando a pessoa teve vida boa...

 

R - Mas ninguém se lembra. Enquanto estava vivo, eles representavam. Não era brincadeira, não.

 

P/2 - Não, as pessoas se lembram. Se a pessoa foi boa em vida, quem foi bom em vida… Eles não são esquecidos, não.

 

R - Eu não. Eu tenho, todos os sábados...

 

  - Esse que é o mais novo.

 

P/1 - Depois vamos conversar com ele.

 

R - Eu agora não vou, como antigamente, todos os domingos. Então, o que que eu faço? No sábado, todos os sábados… Eu tenho a lista dos que fazem aniversário de morte, faço a reza deles todos na hora, quando o povo está aí, e depois eu levo a minha reza comigo. Em casa, hoje, tem que fazer. “Faz tantos anos da morte dele.” Entro aí, faço minha oração pela alma dele. Não posso ir ao cemitério, mas o que tinha que fazer...

 

P/2 - _________________-

 

R - É a mesma coisa.

 

P/2 - Isso eu sei. O senhor sempre fez. Agora, me diz uma coisa. O senhor me diz que a sua...

 

R - Eu disse um dia a um senhor religioso, desses religiosos natos. "Seu fulano, lá no outro mundo não tem caderneta de poupança?" Ele disse: "Por quê?" Eu disse: "Eu não tenho filhos. Não tenho irmãos, não tenho pais. Não tenho ninguém pra fazer kadish pra mim. Assim eu todo dia não deixo nenhum...

 

P/1 - Botava na caderneta. (risos)

 

R - Palavra de honra. E é verdade, eu penso também. Eu não tenho ninguém. Não tenho irmãos, não tenho filhos, não tenho pais. Sou esquecido lá.

 

P/2 - Não. Tem muita gente que quer muito bem ao senhor e não vai se esquecer. Não se preocupe. Mas por enquanto o senhor tem que ficar aqui pra fazer os...

 

R - Vou ficar nada. Tudo isso é de graça, minha filha. Tudo que estou aqui é de graça.

 

P/2 - Eu sei, mas o senhor já pagou tudo que devia também, né?

 

R - Ah, agora é que faz mais falta. Apesar que… Aliás, não à nossa comunidade, propriamente, em geral. Estão se interessando por judaísmo e… Pras instituições. Mas falta prática e os homens...

 

P/2 - Mas há uma volta muito grande à prática, aos princípios.

 

  - Elas são um exemplo de trabalho. Estão fazendo pesquisa.

 

P/2 - Agora, o senhor falou que a sua religiosidade se deve a sua mãe. E a sua mãe fazia tudo kasher em casa?

 

R - Tudo. Naquele tempo, não se falava em negócio de kasher. Aqui é coisa do outro mundo. Lá, não.

 

P/2 - Era tudo kasher, normal, não tinham… As festas. Vocês faziam o shabat?

 

R - Às vezes, não. Só fazia uma vez por ano. (risos)

 

P/2 - Como era o shabat? Como era a comida do shabat?

 

R - Diferente. Tudo diferente.

 

P/2 - Então, como era?

 

R - Os moadim... Era tudo diferente. Até as comidas.

 

P/2 - Então, me fala das suas comidas...

 

R - A senhora vai pegar a receita?

 

P/2 - Vou. (risos) E vou experimentar. Se for boa, eu trago para o senhor.(risos) Eu quero todos os seus segredos, viu, Sr. Samuel?

 

R - Era uma alegria. Infelizmente hoje não se dá mais valor nem ao sábado. Mas aqueles que eu dou apreciam, pra eles é uma alegria verdadeira o dia de sábado. Se você me falar agora, eles se riem. Vão jogar biriba. Não é?

 

(PAUSA)

 

P/2 - Em 1922 não tinha sinagoga em São Paulo?

 

R - Dos nossos, não.

 

P/2 - Como não?

 

P/1 - O senhor trabalhava lá em São Paulo?

 

R - Eu trabalhava aqui, fui pra lá. Tinha o Sefer Torá. Quando tinha um bar mitzvah, qualquer… Levava da casa de um, levava no outro. Quando eu fui lá, comecei a arranjar as… Reuni dez pessoas e fomos. Nós [nos] reuníamos no bar de um judeu, Paulo Frances. Ainda me lembro. Era um grande homem. Disse: "Bom, vamos fazer uma sinagoga?" "Vamos."

Começamos. Em um mês… Em um ano e meio compramos o terreno. Gente boa, mesmo; antiga, mas eram todos emigrantes. Aos dois anos fizemos lá. Já se fazia aos sábados. Depois vinha o Rashashon. Cada um, um dia… Bom, “eu dei vinte”, “vou dar quarenta”, todos dobraram a quantia. Em pouco tempo se fez a sinagoga. E é essa que está aqui.

 

 

P/2 - Qual o endereço dessa sinagoga?

 

R - Era… Agora mudou a rua. [Rua da] Abolição.

 

P/2 - Era na Abolição. E essa foi a primeira sinagoga de São Paulo? Dos judeus nossos.

 

P/2 - Dos judeus turcos.

 

R - Turcos. Havia ashkenazim e árabes. Havia.

 

P/2 - Esse Sefer Torá tinha vindo da Turquia também?

 

R - É natural.

 

P/2 - Tinham trazido com vocês.

 

R - Já estava lá. Minha família tinha bastante… (Canta) "Dizia Lea mi madre Sara que su gozo la perdió. E que el hijo tan deseado que los noventa parió. Fue destinado para el cuchio e en el fuego se ardio. Que así fue la voluntad del Santo Dios. Mucho llorara mi madre, consolar no la puedo yo. Lo que dar…” Isso é rashashon.

 

P/2 - Rashashon. A canção em hebraico é rashashon? Muito bonita.

 

R - Também.

 

  - É uma parte de sacrifício, né? Abraão. Não é sacrifício que o senhor cantou?

 

R - Tem. Tá lá em cima.

 

P/2 - Mas o pedaço que o senhor cantou é que pedaço? É do sacrifício?

 

R - É. Também.

 

P/1 - É muito bonito.

 

P/2 - A gente ficou tão emocionado de ouvir o senhor que acabou, não podemos mais falar nada. (risos) Realmente foi uma ótima ideia do senhor gravar assim a sua voz. Foi esplêndido. E a benção?

 

R - (canta) "No me mires que canto y bailo, es que no quiero llorar. No divido dinero, el tiempo quiero passar. La mi mama… reparió, seguir aos veinte anos só Brasília me mandou."

 

P/2 - O senhor é compositor ainda por cima, né? (risos) A sua mãe ficou onde?

 

R - Morreu em minha terra, lá em Milás. Ela morreu jovem. Morreu com quarenta anos.

 

P/2 - Morreu de doença? Morreu de quê?

 

R - Propriamente, ela começou a sofrer depois que me deu à luz. Porque quando ela estava grávida, ela caiu com uma lata de água quente. Ficou toda "escochada". E eu saí quase sem pelo, como a senhora me vê. (risos) E ninguém poderia me aceitar para mamar porque era aflito, chorava.

Eu tenho uma mãe que está em Buenos Aires. Morreu lá. Ela me amamentou quando eu era pequeno.

 

P/1 - E ela foi pra Buenos Aires?

 

R - Ela ficou em Buenos… Em Milás.

 

P/2 - Não, a que amamentou. A mãe de leite.

 

P/1 - Eu sei. Ela foi para Buenos Aires depois.

 

P/2 - E o senhor chegou a vê-la depois?

 

R - Não.

 

P/2 - E aí ela começou a...

 

R - A sofrer. Ela ficava três dias boa, um dia doente. Quinze dias boa, três dias doente. Mas ela tinha três filhas muito boas, não deixavam botar a mão n'água, na água fria. Ela tinha todo o conforto.

 

P/2 - Mas ela morreu muito tempo depois que o senhor saiu de lá?

 

R - Não, depois que ela morreu é que eu saí porque eu tinha ganho a bolsa de Paris, da Aliança, para Paris. Ela disse: "Você quer ir a Paris, quer estudar? Pode ir. Mas apenas você tem que saber uma coisa. Quando você chegar a Paris, você vai receber uma notícia que tua mãe morreu." “Ah,” disse, “eu não quero ver Paris nem bolsa. Não vou deixar minha mãe.”

Às vezes tem certas bobagens que a gente conta. Eu não disse que eu estava empregado. Era importador e chegou um dia uma cigana. "Vamos botar a sorte." Eu disse: "Não, não precisa". Tanto exigiu… Tinha uns corais, umas miuças, umas coisas assim. Aí disse: "Você tem uma mãe doente. Você quer viajar, mas ela não deixa você viajar. Porque ela diz [que] se você viajar, ela vai morrer." Eu disse: "Eu não vou." E olha que não levou seis meses e ela morreu.

 

P/1 - Aí, então, o senhor foi.

 

R - Aí… Mas como é que pode acreditar nisso? Bobagens. Mas tem bobagens que não são bobagens.

 

P/2 - O senhor não teve vontade então de ir a Paris?

 

R - Já fui a Paris.

 

P/2 - Mas não aproveitou a bolsa que o senhor tinha pra estudar em Paris.

 

R - Não. Fui a comércio.

 

P/2 - Foi a comércio. Isso do Egito ou do Brasil?

 

R - Não. Do Egito eu fui pra Rio. Do Rio fui a Paria para negociar.

 

P/2 - Em quê?

 

R - Quando eu tinha vinte anos. Trazer mercadorias.

 

P/1 - É. Porque… Eu ia perguntar isso. O senhor chegou aqui, trabalhou de clientela. E depois?

 

R - Depois quis ir a Paris para trazer mercadoria. Eu fui a Paris, trouxe mercadoria. Quando eu saí daqui, por exemplo, um franco custava cinco cruzados. Quando foi… E meu primo disse: "Samuel, você não precisa levar isso, pagar a dinheiro. Leva pra pagar daqui a 120 dias, assim você guarda o dinheiro pra alfândega." Foi o maior erro. Por fim, em poucas palavras, quando cheguei a pagar, em vez de dez, paguei 45 por cada franco. Fiquei com a mercadoria quase seis meses presa, não podia vender.

Depois que morreu um primo meu, marido de uma prima minha, em Curitiba... Quem vai tratar dela? Tinha uns primos aqui, mas todos eles não eram Samuel. Tive que ir lá, fiquei lá quase um mês, botei em ordem. A viúva estava grávida, já tinha um menino de dois anos e uma noite começou a ter dores. Eu saí correndo para encontrar a parteira. Aí, naturalmente, de noite, aquela hora, tem os guardas nas ruas que me viam correndo dessa maneira; eles se assustaram.

Enfim, encontrei a parteira, disse: “Olha, chama o médico que está assim…” Veio o médico, já puseram água a esquentar. Em poucas palavras, a criança ficou afogada. Fiquei lá quase… Quase oito meses, pra não deixar a prima sozinha, com ladrões. Na loja não tinha mais ninguém. Era sozinha. Empregados, sabe como é, né? E não é só isso também. E vim aqui...

 

P/1 - E aqui o senhor chegou a fazer uma loja fixa em algum lugar?

 

R - Sim, tinha uma casa. Infelizmente… O francês diz: "trop bon, trop bête". Sabe o que quer dizer isso? Vinham, que assinasse promissórias. Fazer caridade se chama isso, fazer caridades. Assim, assim. Cheguei a assinar quase oitocentos contos. Sabe o que eram oitocentos contos em 1945?

Quando eu fui ver o livro… "Meu Deus, como eu assinei tanto assim?!" Porque ele vinha quando a loja estava cheia, sempre assim. Eu nem olhava. Quando fui olhar, já era tarde. Já tinha tanto assinado. Sob minha responsabilidade.

 

P/1 - E não pagaram?

 

R - Não. Era um só. Um grande fabricante.

 

P/1 - Ah, era um só?

 

R - Um só. Eu fui lá… Eu, de noite, já não dormia. Eu fui lá, disse: "Olha, fulano, quando de noite acordo e não durmo, alguma coisa vai acontecer." "Ah, você é pessimista. Passei papel pra fulano. Tenho na mão dele tantos mil". "Fulano, eles têm. Eu não tenho tanto capital. Se eu perder o que é meu, não me importo, mas eu não tenho oitocentos contos de capital."

Olha, não levou muito tempo. Três meses depois, paf.

 

P/1 - Ele quebrou.

 

R - Quebrou. E agora, como é que vai fazer? Eu, naquele tempo, cheguei a ter crédito em quase doze bancos. Sabe lá que é isso?

 

P/1 - O senhor trabalhava com quê? Ainda com tecidos?

 

R - Tecidos, tudo. Tecidos, confecções.

 

P/2 - Qual era o nome da sua loja?

 

R - Gomes Freire, ein und zwanzig. Só.

 

P/1 - Como é que chamava?

 

R - Só número. Gomes Freire, ein und zwanzig - 21. O Esperança era no 22, defronte de mim. Em menos de dois anos a minha loja não se via parede; era tudo sedas, lãs, confecções.

Sabe, eu me acovardei. Em vez de comprar mais… Eu comecei a assustar-me, não comprava mais. Recebia, pagava, vendia, pagava, então a loja começou a ficar vazia. Não tinha o que vender, infelizmente. Foi aquilo também. Fiquei vendedor. Fiquei representante.

 

P/1 - Perdeu tudo, aí o senhor voltou...

 

R - Não, eu vendi. Botei uns tipos, vendi e ainda fiquei vendendo tanto, por exemplo. Fiz representante de fábrica a comissão, fui cobrador do… Da comunidade de Israel. Como se chama isso?

 

P/1 - Keren Kayemet.

 

R - Keren Kayemet. Fui cobrador. Ah, eu não parei. E todos os meses ia a fulano, dava assim cinco mil. No outro, dez mil, conforme eu ia recebendo. Graças a Deus isso ficou limpinho. Aí é que está.

 

P/1 - Quando o senhor pagou tudo, o senhor ficou trabalhando em quê?

 

R - Depois… O que eu fiz? Representante.

 

P/2 - Mas a sua viagem a Paris foi em que ano?

 

R - 1930.

 

P/2 - Entre as duas guerras. Como foi a vida entre a Primeira e a Segunda Guerra no Brasil?

 

R - Na primeira não tinha nada, já [era] 1914. Depois acabou a guerra. Um mês mais, dois meses.

 

P/2 - Na segunda?

 

R - Não, a segunda eu já estava… Na Segunda Guerra.

 

P/2 - Sim. A vida não era mais difícil aqui?

 

R - Não. Trabalhava.

 

P/2 - Não sentiu perseguições, não sentiu discriminações?

 

R - Não. Só… Depois eu já fiquei… Fiquei sendo também chazan. Já era chazan.

 

P/2 - E chazan de que sinagoga?

 

R - Bene Herzl. Do Beth El.

 

P/2 - Continuou ainda naquela colônia. No Beth El… O CIB [Clube Israelita Brasileiro]. Do CIB o senhor foi chazan a partir de que ano?

 

R - A partir de sempre.

 

P/2 - Não, eu sei. Mas a partir de quando? Sempre...

 

R - Até agora.

 

P/2 - Sim. Mas a partir de quando? Quando que começou?

 

R - Eu nem me lembro mais. Quando eu trabalhava já era chazan, já fazia tudo isso. Trabalhava. Era de dia. A gente vai lembrando, vai lembrando…

Tinha um pobre que era cego e tinha uma casa, queria vendê-la. Eu tinha minha loja na Gomes Freire. Eu tinha que deixar a loja e ir lá na Tijuca para assistir o leilão pra vender a loja dele. Tinha filho, filha, não tinha confiança no pai. "Não, vamos procurar o Samuel." Eu fiquei procurador, botei dinheiro no Banco do Brasil. E depois queria ir pra Pernambuco. Cego. "Mas meu filho, você vai..." "Não, eu tenho amigos lá." "Esses amigos que você tinha lá era quando você tinha a vista, que enxergava..."

 

(PAUSA)

 

P/2 - Mas esse senhor acabou indo pra Pernambuco. Vendeu a casa dele, vendeu tudo...

 

R - Pernambuco. Vendi. "Eu quero ir. Eu tenho amigo lá." Fechei a loja, o botei num avião, chegou lá. No dia, seguinte estava… Embarcou tal hora, voltou. Ficou lá um dia só. E agora, onde é que eu vou botar esse senhor?

Felizmente, arranjei um velhinho, que Deus o tenha em bom lugar, levar num hotel. Porque sozinho não dá. Aí em Gomes Freire mesmo.

Está desligado, não está?

 

P/1 - Não. Mas o senhor quer que eu desligue?

 

R - Desliga. Não vale a pena.

 

(PAUSA)

 

R - Não. É uma espécie de… É uma caridade que não se deve...

 

P/2 - Mas isso é caridade, a vida do senhor foi feita de caridades. E eu acho que é importante deixar essas caridades gravadas, registradas. O senhor não está se vangloriando.

 

R - Perde 50% do valor. Já tive tanto trabalho...

 

P/2 - Não, mas o senhor...(risos)

 

P/1 - Já acabou, já contou, né?

 

R - Desligou?

 

(PAUSA)

 

P/2 - Movimento religioso, influência da sua mãe. Tirando esse cartão do cemitério, o senhor não teria...

 

R - Eu tenho isso daqui. Quero ver se junto isso tudo e entrego o retrato.

Tem uma homenagem da Federação, tem outra do Beth El, outra do Internacional Delegadas. Tenho outro... Outra também do Beth El. Todas essas aí.

 

P/2 - Essas homenagens, sim. Mas o que está interessando a gente, se o senhor tem algum livro...

 

P/1 - Fotografias de lá o senhor tem?

 

R - Ah, fotografias? (risos) De quem?

 

P/2 - Fotografias da família, fotografias de lá.

 

R - Ih...Isso...

 

P/1 - Nada. Tem tudo isso?

 

P/2 - De lá. Moderno não interessa.

 

R - De lá, tios, pais.

 

P/1 - Depois o senhor mostra pra gente?

 

R - Posso mostrar. Eu mandei para Montevidéu, na semana passada, um envelope cheio de retratos da família, de sessenta anos atrás.

 

P/2 - Por que o senhor mandou pra Montevidéu? Pra quem o senhor mandou?

 

R - Mandei pras próprias pessoas. Eu disse: “Já estou velho e não quero jogar isso no lixo. Vocês guardem isso lá pra vocês.”

 

P/2 - Eles podem jogar no lixo. E a gente guardaria para o nosso museu.

 

P/1 - O senhor não sabia, né?

 

R - Não, porque vai ter… O que tem valor quando a pessoa é conhecida no lugar, entendeu? A senhora pode me dar o retrato de Sarney. Se eu mandar para China, não conhece ele, não vale nada. (risos) Mas é isso mesmo. Isso que eu mandei era do pai e da mãe, quando ela era menina, quando ela era… São as lembranças que amanhã vão jogar no lixo. Pelo menos eles têm a lembrança do pai deles, da mãe. E a mim me satisfez, porque já havia tantos anos que eu não os via. É como se fosse visto agora. A mesma coisa, não é?

 

P/1 - E o pessoal que estava lá, que foi saindo… O senhor falou que saiu todo mundo de lá. Foram, em geral, pra onde? Vieram pro Brasil...

 

R - Buenos Aires, Brasil, África… Norte América...

 

P/1 - Estados Unidos?

 

R - Estados Unidos. A maioria, quase.

 

P/2 - Por que as suas irmãs escolheram os Estados Unidos?

 

R - Porque lá tinha um cunhado meu que trabalhava lá.

 

P/1 - Casado com uma delas.

 

R - Depois casou com uma delas. Em Rhodes. Casou uma. Depois foi a outra também, pro mesmo lugar. E de lá foi a outra também. São as três.

 

P/2 - E o senhor nunca quis ir pra lá?

 

R - Eu nunca quis ir. Mandaram me chamar. Naquele tempo havia...

 

P/2 - Restrições.

 

R - Não. Como se diz? Cotação. Eu tinha até do cônsul tudo pronto. Da outra vez que eu fui, mostrei esses papéis a eles. "Olha, você está vendo esse aí? É uma analfabeto. Não sabe assinar o nome dele. Ele está rico. Você está vendo esse aí? É um nem sei, nem sabe falar. Está rico. Você se encantonou aí no Brasil, aí ficou." E ele tinha razão.

 

P/2 - E o que fez o senhor se encantonar no Brasil?

 

R - É o destino. É o destino, minha filha.

 

P/1 - Elas moram onde nos Estados Unidos?

 

R - Los Angeles.

 

P/1 - Todas as três moravam lá?

 

R - Moravam. Los Angeles e Atlanta.

 

P/2 - Tiveram uma vida boa?

 

R - Ah... Lá se vive. Lá se vive.

 

P/2 - E o seu casamento? O senhor conheceu a sua mulher, casou por acaso, foi casamento arranjado?

 

R - Não, não, não.

 

P/2 - Foi amor a primeira vista? Conta pra gente. Ela se encantou com a sua voz...

 

R - Você sabe, eu era conhecido no Rio de Janeiro. Até a formiguinha que está andando por aí, eu era conhecido. "Fulaninha é boa, é isto, é aquilo." Eu só dizia não. Quando veio uma vez a minha sogra - Deus a tenha em bom lugar, vivia em Porto Alegre. Ela era mãe de todos os judeus imigrantes, era a mãe de todos. Fulana que chegava no Brasil já era. Fulana… Aqui, numa ocasião, uma minha prima, uma irmã do pai, foi para Porto Alegre, trabalhar lá com o marido. E como era conhecida de obras caridosas que ela fazia, veio uma carta de Paris que uma filha dessa senhora, que estava em Paris, viria a Porto Alegre a visitar a mãe. Eu, antigamente, [a] cada noite de sábado era convidado à casa de um primo pra fazer o kidush. Naquela semana, calhou [de ser] na casa de um primo dele, qualquer um. E convidaram a filha dessa senhora que morava em Porto Alegre.

Nós saímos ainda... Não é Leme, ali o que é? É Urca. A Urca ainda era... Havia pouca gente lá. Saímos para passear. E um dizia: "Samuel, como é? Está agradando?" Disse minha tia, a mãe do...: "O que a senhora acha?" "Meu filho, primeiro é o coração. Se te diz o coração, não vai atrás de gente que fala [que] nem é kasher. “Tá bem.” Então um parente dela disse: "Samuel, ela vai pra Porto Alegre. Mas se você achar interessante, ela pode ficar na minha casa ainda oito, quinze dias, um mês. Para vocês se frequentarem." "Não, não, não."

 

P/1 - Eles queriam que ela casasse.

 

R - Que ela casasse. Comigo. E ela foi pra Porto Alegre. Oito dias depois que ela foi pra Porto Alegre, eu escrevi a carta, a pedindo em casamento.

 

P/2 - E por quê?

 

R - Não sei. O destino. E um mês depois, tinha o irmão dela de Porto Alegre que ia casar aqui. Ela veio aqui para casar, fizemos o noivado também. Marcamos a data de casamento depois de um mês, dois.

 

P/2 - Foi a jato, assim.

 

R - Assim. O que é o destino, hein? Ora, não houve moça de família, não é, por… Naquele tempo interessante… Dizia não. Aí é que está. Logo depois de dizer não, eu mesmo escrevi, então ela disse... Ela era órfã. Não tinha irmãos, nem pai.

 

P/1 - Só tinha mãe.

 

R - A mãe. Disse: "Quem quiser casamento, escreve a meus irmãos." Aí eu escrevi aos irmãos. No mês seguinte, um tinha que casar aqui. Eles casaram, eu fiz o noivado e ele aprovou. E depois disso, minha filha, correu tanta água debaixo dessa ponte...

 

P/2 - Conta essa água. (risos)

 

P/1 - Como é que foi a água?

 

R - Ah, já disse. No primeiro ano ela não pariu e no segundo fez cesariana. E continuamos assim.

 

P/1 - Mas se davam bem?

 

R - Sim. Já tem… De 67 a 78, são onze… Doze anos, quase. Eu não quis pensar mais em casar. Eu acho que casar é uma vez só. O amor é uma vez só.

 

P/2 - Infelizmente é uma coisa que também está muito rara, né?

 

R - É. Agora não precisa estar viúvo para tomar outra mulher. Não marca isso. Está marcado isso?

 

P/2 - Claro. (risos) Estamos comprometendo o senhor, né, Sr. Samuel?

 

P/1 - O casamento foi onde?

 

R - Aqui no Rio de Janeiro.

 

P/1 - Onde?

 

R - Bené Herzl.

 

P/1 - E quem cantou no seu casamento?

 

R - Foi o Santos Cohen e Doutor Witoski. E rabi também. E rabino.

 

P/2 - E a sua mulher não se incomodava com a vida do senhor sempre a serviço dos outros, sempre acompanhando os outros?

 

R - Não.

 

P/1 - E ela trabalhava?

 

R - Não.

 

P/2 - Ela manteve uma vida judia, religiosa?

 

R - Absoluta.

 

P/1 - Ela era brasileira?

 

R - Não, era turca.

 

P/1 - O senhor se naturalizou?

 

R - É.

 

P/2 - Em que ano?

 

R - 25. Custava pra ser brasileiro. Precisava arranjar um pistolão, dar um tanto pra ele. Ficava com o dinheiro, eu arranjava outro… (risos)

 

P/2 - O senhor teve uma boa escola de Brasil, hein, Senhor Samuel? (risos)

 

R - Se tenho, minha filha.

 

P/1 - E o senhor gostou daqui quando chegou aqui?

 

R - Por isso que eu não fui.

 

P/1 - Pros Estados Unidos. Gostou daqui. E por quê? Teve alguma razão especial?

 

R - Não, eu trabalhava em Niterói. Eu morava numa casa, por exemplo, que tinha quarto e sala, um jardim assim… O jardim era todo de cimento armado. Eu tirei todo o cimento armado e fiz jardim. Ia à casa de uma cliente, via uma planta bonita, pegava e plantava. Era uma coisa louca. E pagava quarenta mil réis. Quarto...

 

P/1 - E ganhava quanto?

 

R - Ah, era… Clientelista.

 

P/1 - Mais ou menos.

 

R - Não sei. Ganhava bastante. Todo dia vinha aqui pra buscar mercadoria, outro dia vinha meu primo. A gente ganhava bem.

 

P/1 - Aí, quando o senhor casou, foi morar...

 

R - Não. Eu já morava aqui, já estava empregado. Já tinha levado aquele golpe.

 

P/1 - Ah, o casamento foi depois de tudo isso.

 

R - É.

 

P/2 - E aí casaram. O senhor a vida toda ficou como representante, né?

 

R - Como representante.

 

P/2 - Sempre de tecidos?

 

R - Não, depois… Depois, pra pagar as dívidas.

 

P/2 - E o senhor levou quanto tempo para pagar as dívidas?

 

R - Dois anos. Mas fiz de tudo.

 

P/2 - É. Naquela época, honra...

 

R - Eu vi um comerciante a quem eu devia falando com outro, se referindo pro outro...

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