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História

Samba e Religião

História de: Amélia Oliveira da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/05/2009

Sinopse

Em seu depoimento, Amélia Oliveira da Silva fala sobre sua infância, sua relação com a família e a pobreza a qual estava inserida. Conta sobre as festitivdades e a religiosidade de sua comunidade, além das lendas que as pessoas contam em sua comunidade. Aborda sobre a cultura do samba, seu CD, shows e sobre como a cultura está sendo passada para a próxima geração. Também fala sobre suas impressões do Rio São Francisco.

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História completa

Amélia Oliveira da Silva. Nasci na Bahia em 12 de julho de 1936. Meus pais se chamvam Manuel José de Oliverira e Helena Celestino dos Santos. Meu pai era remeiro antigamente. Minha mãe era da roça. Vendia verdura. Ia vender verdura no mercado. Negociar as coisas que tinha de roça.

Festa religiosa tem. Do padroeirão, mês de junho. E depois de tudo ainda tem a penitência. A gente se veste num pano branco, mas o cordão de São Francisco, e sai fazendo serviço pra santa. Fazendo as estações e rezando. Até a sexta-feira da paixão. Agora esses dias aqui é muito religioso. A gente tem grande respeito por essa semana santa.

Tinha a festa de Joana D´Arc, era um negócio de centro. Era muito animada, muito boa. Mas só que o dono agora adoeceu, não pode mais seguir a festa dela. Eram as mulheres vestidas de traje de índio, de penacho, de flecha. De arco na mão, outras com espadas. Era muito animado. Todos meses de novembro tinha essa obrigação a fazer. Mas ele adoeceu, não deu mais pra fazer e não teve quem se responsabilizasse pra tomar conta. É muito funda essa festa de Joana D´Arc, só ele mesmo que podia entender.

Os homens, os marinheiros de branco. Boné de marinheiro, farda de marinheiro. Tudo de branco, bonezinho. Soltava o barco no rio. Barco grande, enfeitado, cheio de flores, perfume. E soltava os barcos assim no rio. O barco descia, não sabia pra onde ele ia, cheio de presentes. Os marinheiros voltavam pra casa e iam brincar. Aquele giro.

Ainda tem a festa de São Francisco. Parte de outubro, a gente saía nos barcos fazendo uma procissão no rio. Muita gente, quando a procissão volta, encosta aqui, tem a missa na beira do rio. O padre vem fazer celebração lá mesmo no rio, não vem aqui pra igreja. Lá mesmo faz a celebração. E tudo isso a gente vai se animando, tendo fé. E a gente vai andando. Era assim.

Pouca educação. Não tinha colégio. Quem ensinava era nas casas de família. Já hoje em dia tem colégio. Tinha até uma creche, mas acabou. Tem até um posto que não tinha. Já tem. E está aumentando. Eu confio em Deus de ir mais pra frente.

Trabalhava. A gente ficava dentro de casa fazendo as coisas. Quando chegamos estava tudo cansada. Depois que estava rapaz. Tinha o horário de chegar e o horário de sair. E nós ficávamos dentro de casa com mamãe. E assim ia vivendo. Mas acho que hoje tem muita diversão pro povo se divertir.

Ah, eu comecei a trabalhar desde novinha, pra ajudar a mamãe. Eu não reconheci pai, não. Mamãe ficou viúva. Eu fiquei com a idade de dois anos. Quando deu dos dez anos em diante eu comecei a trabalhar na roça. Na vazante. Plantar canteiro de coentro, alface, cebola, pimentão. A convivência da gente era isso. Assim que nem eu era todos. Assim.

Do padroeiro, Santo Antônio. Santo Antônio, ele está no meio de nós, mas ele não era daqui.  Porque a gente tinha um irmão de meu avô. Chamava-se Antônio também. Mas vocês não ouvem falar – que nenhum de nós alcançou esse negóco de guerra dos Canudos. Tinha uma guerra dos Canudos pra fora. E meu tio era polícia e foi, chamava pra ir brigar lá na guerra. Ele foi. Ele era polícia, ele foi chamado pra essa guerra e foi. E lá o pessoal tudo correndo com medo de morrer nos tiros. Ele vinha. Acho que ainda hoje tem bornal, não tem? De botar as boalas dentro, revolver. Então, ele vem correndo, de medo de ser atingido por um tiro. Quando ele avistou, viu aquele no chão. Ele abaixou e disse: é um santo. Botou no bornal. Quando acabou a guerra – Deus ajudou que ele não morreu –, ele veio embora. Chegou, deu pra minha avó, que era cunhada dele. “Toma, Celestina, esse santo que eu achei correndo, encontrei o santo. Acho que deve ter me ajudado”. Ela ficou com o santo. Rezava terço. E com a continuação de terço passou pra novena. Era numa casinha de taipa, casa de barro. E depois, com o tempo foi passando; hoje em dia ele está em uma igreja. Com o ajuda de Deus, e dos políticos que estão aí; hoje está nessa igrejinha aí pra gente orar.

A gente tem que cantar, sambar, o povo aplaudia a nossa apresentação. Foi ótimo. Pela primeira vez a gente se libertou. A gente ficou muito bem, todo mundo alegre, cantando, dançando em cima do parque lá. Foi em Recife.

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