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História

Samba, comunidade e trabalho

História de: Vanda Lúcia Pedro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Vanda é funcionária da Prefeitura do Rio de Janeiro, onde trabalha na parte de cadastros do Minha Casa Minha Vida. Nessa entrevista ela conta um pouco da sua vida e da sua família, principalmente de sua mãe que criou 6 filhos sozinha.

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História completa

P/1 – Vanda, boa tarde.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Gostaria de começar pedindo que você me diga o seu nome completo, o local e data de nascimento.

 

R – Vanda Lucia Pedro. Nasci no Rio de Janeiro, no dia dois de janeiro de 1968.

 

P/1 – Em que bairro que você nasceu, Vanda?

 

R – Nasci em Vila Isabel e cresci em Coelho Neto.

 

P/1 – Como é que foi sua infância, conta um pouco.

 

R – Minha infância foi um pouco conturbada porque eu morava numa comunidade chamada Pau da Bandeira, é o complexo do Morro dos Macacos, perigoso até hoje. Então era em meio ao tiroteio, isso até os nove anos. A partir de nove anos eu tive uma infância mais ou menos, que aí fui morar em Coelho Neto.

 

P/1 – O nome dos seus pais?

 

R – Djalma Marcos Pedro, falecido, eu não tenho ideia de como ele era, ele morreu eu tinha dois anos.

 

P/1 – É, você tem irmãos?

 

R – Éramos seis e agora somos quatro. Os cinco filhos de pai e mãe e minha irmã temporã, a diferença de idade de 16 anos, que também já é falecida. Então éramos seis e minha mãe ficou viúva aos 28 anos. Já tinha cinco filhos.

 

P/1 – Sua mãe criou vocês sozinha?

 

R – Sozinha um tempo, depois eu tive padrasto, que ajudava.

 

P/1 – Me diz o nome dela?

 

R – Nilda Adriano.

 

P/1 – Ela tá viva ainda?

 

R – Viva. 72 anos.

 

P/1 – Nova.

 

R – É.

 

P/1 – Vanda, me conta como foi seu primeiro emprego?

 

R – Meu primeiro emprego foi estágio no antigo banco Banerj, que agora foi vendido, ali foi meu primeiro contato de emprego. Agora carteira assinada mesmo foi numa fábrica de pastéis, massas e pastéis. Massas Napoles, em São Cristovão.

 

P/1 – Napoles, é conhecida, né?

 

R – Sim. Fui auxiliar de produção. Trabalhei ali, mas foi uma experiência traumática, primeiro emprego, não tava muito acostumada.

 

P/1 – Quantos anos você tinha?

 

R – Na época acho que tinha que trabalhar era 18. E aí, fiquei seis meses, depois fiz cursos, tal, pra arrumar um emprego melhor.

 

P/1 – Você completou o segundo grau.

 

R – Completei depois de mais idade porque a prioridade lá em casa era trabalho, até pra ajudar nas despesas porque minha mãe viúva, com os filhos pra criar.

 

P/1 – Teus irmãos ajudavam também?

 

R – Todos.

 

P/1 – Mas lá em Coelho Neto era melhor.

 

R – Coelho Neto, sim.

 

TROCA DE FITA

 

P/1 – Então lá em Coelho Neto era...

 

R – Bem melhor porque era rua, perto de comércio e a vida quanto mais perto do asfalto, melhor.

 

P/1 – Mais calmo também.

 

R – Mais calmo.

 

P/1 – Você estava contando, todos os filhos trabalhavam e ajudavam um pouco em casa.

 

R – Trabalhavam. Nada de trabalhar primeiro pra estudar, trabalhava assim, nada forçado.

 

P/1 – E aí você trabalhou nessa fábrica de pastel.

 

R – Fábrica de pastel Napoles.

 

P/1 – E na prefeitura.

 

R – Na prefeitura agora, é o último emprego.

 

P/1 – Então o que mais você trabalhou?

 

R – Trabalhei na fábrica Napoles. Não lembro muito bem não porque eu  trabalhei muito de acompanhante, acompanhando idosos, no mercado informal de cuidadora de idosos, que aí dava para eu estudar e ganhava até melhor. Mas depois houve a necessidade de assinar carteira e tal e eu estou trabalhando na prefeitura. Trabalhei também em creche, auxiliar de creche. Trabalhei também na prefeitura mesmo, mas era informal, num projeto chamado Favela Bairro que era dentro das comunidades. Conheci todas as comunidades do mundo, voltei ao passado, aquela guerra, aquelas confusões todas, e agora trabalho na prefeitura.

 

P/1 – E você ainda tá morando em Coelho Neto?

 

R – Moro em Coelho Neto, mas morei em Belford Roxo também.

 

P/1 – Mora perto da família?

 

R – É uma divergência porque saímos de um lugar muito perigoso que é Vila Isabel nos anos 80 eu acho. É, nos anos 80. Só que minha mãe perdeu dois filhos de doença natural e resolveu retornar pra um lugar que eu não gostava, que é Vila Isabel, um lugar perigoso. Houve um racha porque aí eu resolvi ficar num lugar que eu achava melhor pra mim, então a gente não se dá muito bem não por isso. Ela até já voltou, já saiu de lá, mas a gente não se dá muito bem, não.

 

P/1 – E você casou, teve filhos?

 

R – Não, não casei. Morei com um rapaz, mas não casei nem tive filhos, não.

 

P/1 – Formalmente.

 

R – É.

 

P/1 – Mas tiveram filhos?

 

R – Não. Eu não posso ter filhos porque fiz uma cirurgia, tirei o útero, um mioma, estava muito grande.

 

P/1 – E me conta então do seu trabalho na prefeitura.

 

R – Trabalho recente?

 

P/1 – É.

 

R – Ah, é melhor, ganha melhor. Trabalho num projeto chamado Minha Casa Minha Vida. Eu ganho até mais ou menos, mas é meio dolorido pra mim porque trabalha com comunidades, tipo um espelho de onde eu morava, tirando a casa das pessoas que não querem sair. Elas não têm muito estudo e acham que aquilo ali é o melhor, que aquilo ali tá bom mesmo sendo perigoso, que a pedra vai rolar, mas é ali que tem que ficar mesmo. É meio triste porque as pessoas têm que sair porque é um lugar perigoso, mas elas não têm ciência de que aquilo é perigoso.

 

P/1 – O seu trabalho é ajudá-las a saírem? Como que é?

 

R – Não, meu trabalho é fazer o cadastro dessas pessoas, a parte burocrática, mas eu me sinto um pouco mal porque é parte burocrática e, ao mesmo tempo, você se vê naquele papel ali, naquele lugar que você já morou em comunidade e sabe como que é. As pessoas não dão muito ouvido a morador de comunidade, então eles se sentem assim, um nada. Mas esse aí é o meu trabalho, é parte burocrática.

 

P/1 – E aqui da exposição, como é que você soube?

 

R – Eu soube através do jornal. Eu gosto, desde pequena... A minha família é assim, nascemos em Vila Isabel então ficou muito aquela parte do samba, tipo assim, samba sempre foi visto como uma parte marginalizada e até há pouco tempo eu também achava isso, minha família só queria saber de samba, ninguém queria saber de estudar. E por isso eu nem gostava de samba até há pouco tempo, até conhecer a história do samba.

 

P/1 – Mesmo lá na Vila?

 

R – Mesmo na Vila. Meus tios não trabalhavam, viviam de samba e samba não dava nada pra crioulo. Samba era coisa de crioulo, mas não dava nada pra gente. Passava necessidade, mas estava lá, compondo, dando o sangue pela escola e nada. Então eu já pegava livro e fugia daquilo. E outra coisa traumática é que eu era obrigada a desfilar na escola de samba e eu não queria desfilar. Já tinha raiva por isso, eu não queria desfilar, mas era obrigada porque a família toda ia desfilar, uma saía na bateria, outro saía não sei mais onde.

 

P/1 – Você saía onde?

 

R – Na ala de criança na época. Mas aí eu fui crescendo, fui tomando corpo, até que teve o enredo que era Quizomba Festa da Raça, aí eu rachei de vez e não fui mais. Era uma ala nua, era um nu até artístico do povo de Angola, mas eu não entendi, eu falei: “Eu não tiro minha roupa. Não mostro meu seio pra nada, pra carnaval, pra nada”. Mas hoje em dia se tiver essa ala assim...

 

P/1 – Aprendeu a gostar?

 

R – Não aprendi a gostar, eu entendi o enredo.

 

P/1 – Mas o samba também.

 

R – Sim, claro. Mas eu gosto do samba, samba. Samba de raiz, lá daquela de Noel Rosa, da parte antiga. Mas o povo que faz samba lá, os compositores, que a maioria dos sambas do Martinho é de lá do povo de Vila Isabel mesmo, eles não ganham nada, então é uma coisa meio... Aí esse meu gosto por leitura desde os nove anos e eu gosto muito de jornal. Então, era assim, a minha vizinha tem a assinatura do Globo, eu falei: “Ó, quando você terminar”, ela já deixa um bolo lá: “Vanda, tem da semana toda, tá aqui”. Daí eu vi a exposição porque não saiu em outro meio.

 

P/1 – É, isso eu senti também um pouco.

 

R – Foi um pouco elitizado, mas eu quebro barreiras e falei: “Não, vou lá ver como que é”, e achei super bacana. Por isso que eu fiquei sabendo. A minha colega falou que passou no RJ uma coisa rápida, mas apareceu também.

 

P/1 – E você sempre vem ver as exposições aqui.

 

R – Sempre venho aqui no cais ver as exposições. Ou em outros lugares, nos Correios também, no Centro Cultural Banco do Brasil, na Casa França Brasil. Gosto muito de museu, estou sempre participando.

 

P/1 – E você tem esse gosto por estudo, por leitura?

 

R – É. Eu não fiz faculdade porque ou eu trabalho e pago aluguel, porque eu pago aluguel, ou faço a faculdade porque a pública não dá pra encarar. E eu também não tentei o Enem, sei lá, porque eu também não sou a favor das cotas. Ao mesmo tempo que eu não sou a favor, se eu botasse as cotas de repente eu passaria, não sei. Aí eu terminei o segundo grau, mas depois de um tempo, já era adulta. Senti necessidade do estudo e resolvi terminar.

 

P/1 – Mas sempre é tempo.

 

R – É.

 

P/1 – Sempre dá tempo. Você ainda tá moça, tá forte.

 

R – É só aparência, eu tenho 44 anos.

 

P/1 – E aí? A gente sempre pergunta em qualquer projeto do Museu se você tem uma história interessante pra contar.

 

R – Tenho várias histórias, depende.

 

P/1 – Escolhe uma que a tua memória selecionar.

 

R – Tem história triste, tem história feliz. Se quiser começar pela minha família que veio lá de Vassouras tudo bem, pela minha avó que tem 95 anos e é viva.

 

P/1 – Ela é viva?

 

R – É. Morreu todos os filhos e ela tá viva, tem 95 anos.

 

P/1 – Qual é o nome dela?

 

R – Dona Zilda.

 

P/1 – Me conta então a história da dona Zilda.

 

R – Bom, a minha avó veio de Vassouras, o meu pai é filho do fazendeiro na época. Ela nasceu uns 10 a 15 anos depois da Lei do Ventre Livre, mas ela pegou todo aquele resto da escravidão, não sei o quê, então ela trabalhava em casa grande, não falava que era escravo, mas não tinha salário.

 

P/1 – Ela continuou lá.

 

R – E aí ela foi obrigada a manter relação com o dono da casa lá, engravidou e a esposa do fazendeiro falou pra ela, se a criança nascer branca fica e você vai embora, se nascer negra vão vocês dois. E aí, deu no que deu porque filho de branco com branco pode nascer branco, filho de preto com branco pode nascer preto, branco, colorido, não sei. E aí meu pai mó criolão e ela teve que fugir da fazenda, veio embora com meu pai nos braços. Procurou abrigo numa casa de família e nessa casa de família conheceu uma empregada que morava em Belford Roxo. Ela confiou nessa senhora, que é a dona Durvalina, inclusive ela formalmente é minha avó porque ela ali pegou meu pai pra ela, registrou no nome dela e então é ela que tem o nome na minha certidão, não é minha avó dona Zilda. Eu descobri essa história quando eu tinha 12 anos.

 

P/1 – Olha só!

 

R – Porque o meu nome é Vanda Lucia Pedro e o da minha avó é Zilda dos Santos Ribeiro, nada a ver. Aí eu muito curiosa, meus irmãos já eram mais velhos, minha irmã tinha 15, eu tinha 12, eu perguntei. “Vó, esquisito, o nome aqui é Durvalina. É aquela senhora que a gente visita em Belford Roxo, não tem nada a ver com o seu sobrenome”. Aí exigi da minha família que me contassem a história e ela contou essa história, que ela veio fugida, que essa senhora roubou o filho.

 

P/1 – Mas você conhecia a sua avó de verdade?

 

R – A minha avó de verdade é a dona Zilda, essa que eu to contando a história.

 

P/1 – Pois é, mas ela que deu pra essa outra senhora.

 

R – Ela deu não, ela foi roubada.

 

P/1 – Ah, ela foi roubada?!

 

R – Ela confiou só pra tomar conta porque ela não tinha casa pra morar.

 

P/1 – E aí essa senhora roubou mesmo.

 

R – Roubou, foi lá e registrou porque era roça, Belford Roxo era um município bem, não era nem município, pertencia a Nova Iguaçu na época, era roça. Então, ela foi lá, registrou como filho dela. Minha avó não tinha estudo, como não tem muito até hoje, ficou por isso mesmo. Aí ela não conseguia ir mais na casa dessa dona, não sabia chegar lá. Mas aí passaram-se uns três anos, ela contou essa história pra uma pessoa e a pessoa falou: “Não, eu conheço. Porque Durvalina não é um nome muito comum. Eu levo a senhora lá”. Aí meu pai já estava com três anos, estranhou ela, claro. E aí ela ficou visitando assim, visitando, visitando, aí quando fez 12 anos meu pai veio morar com ela. Veio morar com ela, com 13 anos foi morar com minha mãe, com 15 anos os dois tiveram filho, minha mãe e meu pai, eles foram pais com 15.

 

P/1 – Nossa, meninos!

 

R – Por isso que quando meu pai morreu com 28 anos eles já tinham cinco filhos, minha mãe ficou viúva aos 28 anos.

 

P/1 – Nossa, mocíssima.

 

R – Mocíssima. E ela não bate muito bem da bola não porque é muita coisa. Morando num lugar perigoso, cinco filhos, duas meninas e três meninos. Depois veio minha irmã que é filha do meu padrasto e já é outra história. E aí é essa história da dona Zilda.

 

P/1 – Mas dona Zilda mora com quem?

 

R – A minha avó, hoje em dia, mora com o filho da minha tia. Aí tá, meu pai morreu aos 28 anos, ficou a minha outra tia, minha tia Sueli, que veio a falecer com 39. E aí ela criou os netos, filhos da minha tia. Então ela teve dois filhos, morreram os dois filhos, ela já perdeu quatro netos e vive agora com meus dois primos, minha prima e meu primo.

 

P/1 – Você vê ela sempre?

 

R – Sempre. Ajudo. Porque ela já é de idade, inclusive não tá nem enxergando muito, tem 95 anos.

 

P/1 – Ela é forte, né?

 

R – É forte. Ela é forte, só perdeu a vista. Essa é a história da dona Zilda. Ela sempre conta. Agora ela conta, né? Porque volta o passado. E a minha é essa, eu contei minha história. Aí eu fiquei com trauma da minha mãe nova com cinco filhos pra criar, pedia uma coisa e ela não podia porque tinha que dar, eu herdava tudo da minha irmã. Eu queria uma roupa nova: “Não, é da tua irmã mais velha”, passava pra cá. O sapato que era furado passava pra mim, aí eu falei: “Eu não vou querer ter filhos porque não pode dar uma coisa nova”. No Natal tinha que ser coisas de outras pessoas, aí fica esse trauma, fiquei adiando o casamento, ter filhos e acabou que depois eu não podia realmente ter.

 

P/1 – Vanda, me conta seu sonho.

 

R – Meu sonho é fazer uma faculdade de Sociologia, vou tentar. Nem sei porque eu quis fazer essa... Antigamente era Antropologia, mas aí fui lá ver a história, que era nome só, e a Sociologia já é a sociedade, então meu sonho é realmente fazer a faculdade.

 

P/1 – Vá em frente no seu sonho. Estuda, você é uma leitora.

 

R – Vou tentar.

 

P/1 – Tem que tentar seguir esse sonho. Queria agradecer você ter vindo aqui colaborado com a gente. Muito obrigada.

 

R – Nada.

 

 FINAL DA ENTREVISTA

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