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História

Salvando milhares de árvores

História de: Irany Dantas da Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/08/2005

Sinopse

Irany começou a beber cedo. Desentendia-se com a irmã e passava muito tempo fora de casa. Quando deixou de beber viciou-se em drogas, chegando a ser preso. Ao sair da prisão, abandonou as drogas e ajudou sua esposa a fundar uma cooperativa de catadores de material reciclável. 

 

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História completa

 

P/1 – Vamos lá, Irany. Eu vou pedir para você falar de novo seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R – O meu nome é Irany Dantas da Costa. Nasci [em] dois de dezembro de 1961 em Formosa e [fui] registrado em Cabeceira.

 

P/1 – Por que foi registrado em Cabeceira, você sabe?

 

R – Nasci na cidade e mudei para a roça, bem próximo de Cabeceira de Goiás, aí minha mãe resolveu fazer o registro lá mesmo.

 

P/1 – E qual o nome dos seus pais?

 

R – Osvaldino Vaz da Costa e Jaci Medeiros Dantas.

 

P/1 – O que seu pai fazia?

 

R – Meu pai, quando eu nasci, era lavrador, ele mexia com roça.

 

P/1 – Ele trabalhava em uma fazenda?

 

R – Era da gente mesmo.

 

P/1 – Ah, que legal!

 

R – Pegava os terrenos, parte de roça, mata para desmatar e plantar. Plantar arroz, milho, feijão.

 

P/2 – A roça era de vocês?

 

R – Era na meia, plantava na meia, com o dono do terreno.

 

P/1 – Você falou que com cinco anos, mais ou menos, você começou a ajudar seu pai. Com cinco, dez anos.

 

R – Sempre ia levar comida, era distante da fazenda que a gente morava. Eu ia levar comida e na parte da tarde eu ficava mais ele capinando, era carreando lenha pra minha mãe, minhas irmãs.

 

P/1 – Conte um pouquinho quais são suas lembranças mais antigas da sua infância.

 

R – Da minha infância é isso aí: eu, menino, ajudando. Passado o ano, crescendo e aprendendo coisa errada.

 

P/1 – O que é, fazia arte?

 

R – Fiz muitas artes.

 

P/1 – Conte um pouquinho para a gente.

 

R – Batia nas minhas irmãs.

 

P/1 – Brigava muito?

 

R – Brigava. Elas queriam ser [o] coronel da casa, aí vinham sempre aquelas briguinhas. Mas [era] coisa normal, isso acontece em toda família.

 

P/1 – Irany, vocês brincavam?

 

R – Brincávamos.

 

P/1 – Do que vocês brincavam?

 

R – Eu pegava lobeira e fazia carrinho com direção, fincava um pau e colocava as rodinhas de manga. [Quando] dava época de manga fazia as juntas de boi, carrinho de boi...

 

P/2 – O que é lobeira?

 

R – Lobeira é uma fruta que dá em uma árvore.

 

P/1 – A gente não conhece aqui.

 

P/2 – Descreve para a gente.

 

R – Ela é redonda tipo uma bola, mais ou menos assim, aí eu fazia as rodinhas, fazia os cravinhos como se fosse um tratorzinho, coisa assim.

 

P/1 – E tinha rio onde vocês moravam? Vocês nadavam, pescavam... Como era isso?

 

R – Nadava. Era muito pequeno, não sabia nadar ainda, fazia mais era beber água. Fui crescendo; passou um tempo [e] a gente mudou para a cidade. Fui alcoólatra durante uns seis anos, com quinze anos amanhecia… Amanheci várias noites em calçada. Dava oito horas da manhã, o pessoal passando para a feira e eu deitado lá, adornado na calçada.

P/1 – Mas vamos voltar um pouquinho. A família toda foi morar para a cidade. Por que vocês resolveram ir para a cidade?

 

R – Para escola, só que eu fui muito danado, não frequentei muito escola, não.

 

P/1 – Você não gostava?

 

R – Ia na escola mesmo só para brigar. Apanhei muito: apanhava na rua, apanhava em casa.

 

P/1 – Mas na rua, de quem?

 

R – Dos meninos de rua que iam mexer com negócio de engraxate. Era uma surra na rua e outra em casa; se saísse e apanhasse de novo, era mais outra em casa. Já levei surra de ter que tomar banho de salmoura.

 

P/1 – Nossa!

 

R – Apanhei muito quando era criança - da mãe, pai nunca deu um tapa.

 

P/1 – A mãe era brava, então! E ela tinha algum costume religioso, de vocês terem que ir à missa?

 

R – Tinha não, ela era tranquila. Hoje ela é evangélica, tem uns oito, nove anos que ela é da Assembleia de Deus.

 

P/1 – Que nem você?

 

R – É.

 

P/1 – E na cidade, o que mudou? Sair do campo e ir para a cidade?

 

R – Grande diferença, né? Porque na roça a gente tinha uma paz, diferente de cidade.

 

P/1 – O que você mais estranhou?

 

R – Esse negócio de uma multidão de gente, cidade crescendo.

 

P/1 – Tinha muito carro...

 

R – Muito carro e negócio de televisão, luz - era acostumado com lamparina. [Uma] grande diferença.

 

P/1 – Você já tinha visto televisão?

 

R – Não. A primeira vez que eu vi televisão, estava assistindo um jogo da Copa. O cara chutava a bola e eu puxava de lado com medo da bola. (risos) Coisa de...

 

P/2 – Que idade você tinha?

 

R – Eu estava com doze anos de idade.

 

P/2 – Com quantos anos você mudou para a cidade?

 

R – Eu mudei para a cidade [quando] estava com dez anos. A mãe falou: “Tem que ir para a cidade para estudar.” Aí fomos para a cidade, uns seguiram o caminho certo, eu já visei para o outro lado, comecei a beber bebida alcoólica.

 

P/2 – Com quantos anos?

 

R – Comecei a beber [quando] estava com dez anos.

 

P/1 – Você lembra o que aconteceu que você começou a beber mais?

R – É sobre a minha irmã. Eu gostava de assistir televisão, tinha uns programas que eu queria [ver] - igual de Tarzan, de Jerônimo, Herói do Sertão. Ela queria… Ela era coronel de dentro de casa. Enquanto ela não entrava dentro de casa, eu estava tranquilo; ela entrou, você praticamente tinha que ir para a rua. Eu ia para a rua, onde começavam as amizades, pessoal levando para o lado errado. E assim foi, sucessivamente, só afundando; tomei droga, essas coisas.

Com dezoito anos ainda bebia. Teve um dia [que] eu parei e pensei: “Eu com dezoito anos, cara bonito, bebendo desse jeito. Acho que vou usar droga.” Nessa época, tinha o quê? Tinha dois caras só que fumavam em Formosa, aí eu cheguei em um lá e falei: “Eu estou querendo largar de beber, mas eu não consigo ficar sem curtir [no] final de semana, então eu quero que você arrume um trem para eu poder experimentar.” Ele me deu, foi até uma cabeça de nego, na época. Fumo preto, deu umas duas bolas. Fui parar no hospital ruim...

 

P/2 – Passou mal?

 

R – Passei mal. Vixe, moça, como passei, pensei que ia morrer. Me levaram no hospital. [Quando] cheguei lá o médico me deitou na cama, abriu meu olho: “Pode levá-lo para casa, daqui a uma meia hora ele está bom.” Foi onde meus pais descobriram que eu tinha usado pela primeira vez. De lá para cá, usei a segunda vez, não passei mal mais, não dormi em calçada mais, larguei a bebida e comecei a fumar. Fumei até 98. Desde 98 eu peguei uma cadeia de nove meses.

 

P/1 – Nossa.

 

R – Passei Natal e Ano Novo preso. Falei: “De agora para a frente, vou parar!” Parei, foi na época que eu saí. Saí em um mês e a mulher já estava… Ela era agente de saúde, brotou na cabeça dela montar uma cooperativa por causa do trabalho dela, ver as dificuldades das pessoas...

 

P/2 – Que mulher? Sua mulher?

 

R – É, estava trabalhando de bóia-fria, daí teve a ideia de montar uma cooperativa.

 

P/1 – Ela era agente comunitária de saúde?

 

R – É. Eu falei para ela: “Se você… Eu estava na cadeia, de lá de dentro da cadeia eu jurei: o dia que eu saísse da cadeia nunca mais eu ia mexer com droga. Eu ia fazer de tudo para não mexer com nada de ninguém.” Foi onde eu encarei na cooperativa, ajudei a fundar e estou até hoje. Já acabei com o carro meu e estou lutando; hoje nós temos uma prensa doada pela Fundação Banco do Brasil.

 

P/1 – Espera aí que a gente vai falar do movimento. Eu queria recuperar um pouquinho, esse período até 98 você trabalhou do quê? Do que você trabalhava?

 

R – Eu era pedreiro.

 

P/1 – De pedreiro? Você começou ajudando seu pai?

 

R – Isso, de pedreiro e motorista.

 

P/2 – Motorista do quê?

 

R – Mexi com várias coisas. Tudo que tocava para fazer eu faço. Só não faço negócio de computador, leitura, mas falou em serviço, qualquer um.

 

P/1 – Você está encarando.

 

P/2 – Deixa eu fazer uma pergunta, e você foi para a cadeia por quê? Você trabalhava como pedreiro.

 

R – Trabalhava, mas a condição… Eu usava merla; comecei usando de quinze em quinze dias. Recebia, ia para a cidade… Fazia muitos serviços fora em fazenda, aí ia para a cidade, pegava a latinha, fumava um, dois. Aí meu pai faleceu, o trem parece que desandou: de quinze em quinze dias, eu passei a fumar todo dia. Chegou um certo grau que eu não tinha mais controle, não conseguia mais trabalhar. Ninguém me dava emprego. Assim foi durante três anos, fumando merla. Não servia mais fumá-la no cigarro, já tinha que queimar, fazer o crack.

 

P/2 – Merla é cola, não é?

 

P/1 – O que é merla?

 

R – Pasta da cocaína.

 

P/1 – Ah, aqui acho que a gente chama de outro nome.

 

P/2 – É.

 

P/1 – E nessa época você já estava casado?

 

R – Já.

 

P/1 – Como você conheceu sua esposa? A Ruth.

 

R – Eu a conheci em uma boate.

 

P/1 – É? Conta para a gente como foi.

 

R – Acho que é até melhor deixar esse trem dela de lado.

 

P/1 – É?

 

(risos)

 

P/2 - Tá bom.

P/1 - Irany, descreve para a gente como é a cidade de Formosa.

 

R – Formosa antigamente era pequena. Hoje, ela está com oitenta e poucos mil habitantes, crescendo bastante.

 

P/1 – E lá tem mais indústria?

 

R – Não, as indústrias que tem lá é coisinha mínima. Agora vai ter a [DuPont] Pioneer, que é de grãos. Vai começar a desenvolver a cidade, mais do que já está desenvolvida.

 

P/1 – Mais a parte rural mesmo, que tem lá?

Vamos tentar recuperar um pouco do movimento. A Ruth que teve a ideia?

 

R – Foi.

 

P/1 – Então conta um pouquinho para a gente o que ela começou a pensar, o que ela começou a ver.

 

R – Foi nessa época de 99, que eu saí da cadeia. Ela teve a ideia de montar uma cooperativa. Eu, na cadeia, já estava de ideia mesmo; quando eu saísse, nem [estava] pensando se arrumaria emprego, mesmo [que fosse] catar material na rua eu ia. Isso ia voltar mesmo porque eu já mexia desde… Dezoito anos atrás eu já mexia, só que deixei de lado, passei uns tempos trabalhando de pedreiro e as drogas também demais, parei. De 99 para cá eu peguei com mais garra mesmo, abandonei tudo quanto é tipo de serviço e falei: “Agora é esse e não tem nada que vai me tirar.”    

 

P/1 – Mas com dezoito anos para quem você… Você pegava que tipo de material e para quem você mandava esse material? Como era isso?

 

R – Esse material eu juntava no fundo do quintal e vendia para Brasília. Fazia a carga e ligava para o rapaz, ele ia lá e buscava.

 

P/2 – Isso com dezoito anos?

 

R – Não, dezoito anos atrás. Já estava com vinte e tantos anos, quase trinta anos.

Ela teve uma ideia: a gente junta as pessoas e forma. Hoje nós somos oitenta pessoas: cinquenta catadores e os outros são prestação de serviço - pedreiro, eletricista, porque a nossa cooperativa é mista.

 

P/1 – Ela é mista? E me fala uma coisa, começou ali no bairro de vocês?

 

R – Foi lá no bairro São Benedito, em uma igrejinha lá. O ______ montou uma sala para dar curso de cabeleireiro. Inclusive eu saí da cadeia em um dia [e] no outro já encaixei lá porque o juiz pediu, era para eu fazer qualquer coisa para poder ficar na rua. Eu entrei, fiz o curso de três meses; [ele] entregou o certificado para todo mundo, eu fiquei sem o meu certificado.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Não sei, isso é o que eu quero saber. Já cobrei várias vezes da Ruth, do ______. Disseram que iam arrumar o certificado para mim, mas até hoje...

 

P/2 – Você fez o curso de cabeleireiro?

 

R – Cabeleireiro. Corto cabelo, faço barba.

 

P/1 – Voltando à cooperativa, como você começou?

 

R – A partir [do momento] que a gente reuniu as pessoas e formou, eu já comecei a juntar, invadir um lote. Não tinha local para colocar, dentro do lote lá a mulher… Era muito apertado e tinha uma lanchonete também, aí eu falei: “Vou invadir um lote ali em cima e começar a juntar lá.” Eu comprei um cavalo, coloquei o cavalo e fui colocando o material. Isso já tem o quê? Quase seis anos que estou com esse lote lá. Até hoje nunca apareceu o dono. Já estou com água, luz, tem uma prensa, um centro de triagem já montado, que é nesse endereço que eu passei para a senhora.

 

P/2 – Hum, hum.

 

P/1 – Então é assim: todos esses catadores, hoje eles levam o material para o centro de triagem. Ali vocês fazem o quê?

 

R – Lá é feita a triagem, selecionamos todo o material e vai para a prensa, vai prensado para… O [plástico] PET a gente está vendendo aqui para São Paulo; o papelão, o papel branco e essas outras coisas, em Brasília. A intenção nossa é que o nosso material venha todo para cá.

 

P/2 – Por quê?

 

R – Direto para a fábrica, para tirar os atravessadores.

 

P/2 – Ah, tá.

 

R – Em Brasília não tem fábrica nenhuma, lá só é atravessador e fura o olho da pessoa mesmo. Eu estava vendo o preço de material aqui, vixe! Diferente demais do de lá. Igual papel misto, revista, jornal: aqui é quinze centavos, lá é três centavos, por isso, diferença grande, né?

 

P/1 – É.

 

P/2 – E eles mandam retirar, será? Eles mandam retirar em Formosa?

 

R – Como assim?

 

P/2 – Se você consegue uma pessoa aqui de São Paulo para comprar, eles mandariam retirar o material?

 

R – Manda. Esse moço que a gente está vendendo o PET para ele, ele pega na porta. [O] transporte [é] todo por conta dele.

 

P/1 – O movimento começou com quantas pessoas?

 

R – O movimento aconteceu através da Eliane, da Pastoral Menino de Rua, em Brasília. Em 2001 [é] que começou o movimento na real para a gente. Ela esteve lá em uma Kombi atrás de PET; foi onde ela falou, chamou a minha esposa para uma reunião em Brasília que ia estar envolvida a Cáritas Brasileira. A partir daí que as coisas começaram a flutuar mais legal para o lado da gente, bem melhor.

 

P/1 – E ela deu uma palestra lá, falou da importância disso? Como que...?

 

R – Ela foi lá, contou o acontecido e pediu para ir lá no encontro que ia ter. Eu não fui a esse encontro, quando sai um o outro tem que ficar. Ela foi no encontro, voltou superanimada, daí para cá a gente agarrou mesmo com garra e deslanchamos.

 

P/1 – Então explique para a gente. Você estava falando que tipo de material que recicla; que tipo de material que não recicla, que a gente não conhece?    

 

R – O que a gente não recolhe, igual vocês falaram das fraldas, e o isopor. Tirando daí, lata de óleo, todo tipo de material; só não-orgânico, porque o orgânico nós não... Estamos querendo fazer adubo com ele.

 

P/2 – Ah.

 

R – Fazer o adubo orgânico. Isso a partir da hora que a gente passar para o lixão, porque a gente tem todo… Tem assinada pelo prefeito a consignação do lixão, para a gente cuidar do lixo da cidade e dos municípios em torno da cidade.

P/1 – Vocês fariam a seleção, a separação desse material. O que é reciclável vai para ser reciclado e o orgânico?

 

R – Vai para adubo.

 

P/2 – Mas aí vocês vão estar trabalhando no lixão? Vai ter gente trabalhando no lixão?

 

R – Já temos pessoas lá já trabalhando, só que não está assim... Não tem galpão ainda, não está… Estão ao relento. Quando chega esse tempo das águas, o trem lá é feio.  

 

P/1 – Você já trabalhou no lixão?

 

R – Eu vou, toda semana eu vou lá.

 

P/2 – E trabalha lá?

 

R – Puxo material lá e vendo.

 

P/2 – E uma campanha de coleta de lixo seletiva, existe na cidade?

 

R – Estamos lutando para isso lá, pela coleta seletiva. Acredito que até o ano que vem agora já está bem adiantado porque o prefeito está dando apoio.

 

P/1 – A população não separa ainda?

 

R – Algumas pessoas já estão separando, através de palestras em colégio. Algumas pessoas já estão conscientizando, separando material.

 

P/1 – Porque se não tiver a conscientização não... Me fala uma coisa, vamos ver um lado mais pitoresco. O que você já encontrou no lixão de diferente?

R – Não vejo nada de diferente, não sei se é porque já acostumei com o negócio. A única coisa que eu tenho receio é dos fraldões - principalmente se for de velho, daqueles grandões, aí eu abandono mesmo. De criança ainda mexo, puxo de banda, mas aqueles fraldões grandões, aquilo ali desanima na hora.

 

(risos)

 

P/1 – Já achou coisa engraçada? Dentadura, que o pessoal perde?

 

R – Direto.

 

P/1 – E o que vocês fazem com isso?

 

R – Fica no contêiner.

 

P/1 – Fica no contêiner mesmo?

 

P/2 – Não tem como...?

 

R – Não tem como reciclar.

 

P/2 – Dente de ouro não achou?

 

R – Não, se eu achar eu arranco, eu o tiro fora.

 

P/1 – (risos) Irany, me fala uma coisa: quando você voltou a trabalhar, a primeira coisa que você fez foi fazer o curso de cabeleireiro. O que você começou a fazer quando você voltou a ter dinheiro de novo?

 

R – Eu fui construir minha casa dentro do lote onde eu estou, é um galpão grande, Tem duas mesas simplezinhas de madeirite, mas tem, para fazer a triagem. A gente coloca sacola e seleciona todo o material. Tem o apoio da Caixa Econômica Federal, já tem seis anos que eu pego material lá deles.

 

P/1 – Ah!

 

R – Chego a entrar dentro do cofre para pegar material.

 

P/1 – Papel, essas coisas?

 

R – Depois desse que eu comecei a mexer com isso daí, fui resgatando a cidadania porque eu estava… Para a sociedade lá eu era um bicho.

 

P/1 – E como você fez? Como começou, você começou a entrar em contato com as pessoas para pedir, para deixar separado? Como você conseguiu esse resgate de cidadania?

 

R – Lutando na rua, catando e conversando com um e com outro. Aí teve esse encontro com a Eliane, a gente já foi aprofundando mais. As coisas estão sempre melhorando.

 

P/2 – Onde vocês moram, você e a sua esposa?

 

R – É da gente mesmo.

 

P/2 – Mas aonde vocês moram?

 

R – Formosa.

 

P/2 – Não. Vocês têm uma casa; a sua casa, a sua moradia é perto do galpão?

 

R – A minha residência é no galpão mesmo. Eu vivo lá dentro o tempo todo. Feriado, Natal, Ano Novo eu estou ali mexendo. Só paro quando eu saio para fora, igual hoje. Saí, estou tranquilo, mas ontem quase eu cato material ali para ver onde que eu ia vender.

 

P/1 – Aqui em São Paulo?

 

R – É.

 

P/1 – Conte para a gente: foi a primeira vez que você andou de avião? O que você sentiu?

 

R – O povo falava que era uma coisa… Na verdade, na hora que cheguei no aeroporto eu fiquei olhando a hora que encostou o avião. Eu falei: “Pô, vou ter que entrar dentro desse bicho aí.” Nunca fiz isso, aí fiquei pensando [que] se tivesse jeito de eu ir de ônibus eu ia, porque sempre viajei de ônibus, viagem tranquila. O povo falava que era isso, era aquilo, mas eu vi que é a mesma coisa de estar em cima de uma canoa por cima da água, um trem normal.

 

P/1 – Você achou bonito lá de cima?

 

R – Muito bonito.

 

P/2 – Você teve coragem de olhar?   

 

R – Olhei. A primeira coisa que eu fiz foi… E olha que eu sentei no meio, mas mesmo assim ainda estava por cima do pescoço do outro lá. (risos) Entrei, sentei logo do lado da janela, pensei: “Vou sentar do lado da janela para poder ir curtindo.” Aí anunciaram que tinha que ser na poltrona certa, e logo no meio. Falei: “Pô, no meio. Como vou fazer para poder ver, não vou ver nada.”

 

P/2 – Na próxima vez, na volta, você marca, precisa pedir janela.

 

R – Desse jeito, não vou ver nada. (risos)

P/1 – Irany, você já tinha vindo para São Paulo antes?

 

R – Para São Paulo? Eu passei aqui na… Beirando aqui, indo para Caxias do Sul, ano passado.

 

P/1 – E agora que você está na cidade, o que você achou?

 

R – Pelo o que o povo fala que é, não vi nada de anormal. Parece ser bem melhor do que Brasília para viver, andar. Não vi nada. Dizem: “Tem que ter cuidado porque tem assaltante demais”, que aqui era o bicho. Hoje eu liguei para a mulher e falei: “Vocês fantasiaram que São Paulo era uma coisa, eu estou vendo outra totalmente diferente. Acho que nem vou embora daqui.”

 

P/1 – E você falou que ficou doido com o tanto de material que você viu aqui. Por quê?

 

R – Tem material demais aqui, eu vi papel ontem, vi material ontem. Não foi só  _________.

 

P/1 – Onde você viu?

 

R – Ali para baixo, para o lado do hotel que eu estou hospedado.

 

P/2 – Que hotel você está?

 

R – Nesse… Não sei.

 

P/2 – Só para saber o bairro onde estão jogando papel fora.

 

R – Aqui, ó.

 

P/2 – Pinheiros, nosso grande bairro.

 

P/1 – Então você acha que aqui tem muito material?

 

R – Como tem! Se Formosa fosse rica de material assim, os catadores de lá estavam feitos. Tem material e tem muito catador também.

 

P/2 – Tem muito catador em Formosa?

 

R – Aqui.

 

P/2 – Ah, aqui.

 

P/1 – Você viu também os catadores aqui?

 

R – Vi bastante carrocinha aí.

 

P/2 – Você falou com eles?

 

R – Eu conversei com um ali, mas ele parece que estava assim meio mamado, não deu muita atenção. Eu também não. As pessoas assim… Catador é bicho bruto.

 

P/1 – Por quê?

 

R – O bicho vem da ralé, do lixo mesmo, praticamente excluído pela sociedade. Então o bicho fica… O bicho dá patada de todo o jeito, se não souber mexer é até perigoso.

 

P/1 – Você acha que… Como você começou com o movimento junto com a Ruth, o que mais mudou na sua vida?

 

R – Só de eu ter largado dessas drogas, para mim foi uma mudança grande demais. Para quem tem mais de seis anos que não toma droga nenhuma, para mim está uma maravilha.

 

P/2 – E beber?

 

R – Desde quando eu passei a usar droga eu aquietei de beber. Bebia assim, em final de ano, raridade também.

 

P/1 – Isso você conseguiu sozinho?

 

R – Só, através da cadeia. A pessoa nove meses presa ali, tomando só banho de sol e indo em hospital quando está doente, não é brincadeira não.

 

P/1 – Não tinha trabalho lá na cadeia, vocês não faziam trabalho nenhum?

 

R – Não, tinha não. O trabalho que tinha lá era de artesanato, mas os policiais não deixavam entrar ferramenta nenhuma para a gente poder trabalhar nem nada, é muito difícil. Tinha que ter uma atividade para a pessoa trabalhar lá dentro, além desse artesanato.

 

P/1 – Para passar o tempo.

 

R – Para passar o tempo. Lá você… À noite, você não dorme.

 

P/2 – Não dorme?

 

R – Você troca o dia pela noite. Você dorme durante o dia e fica acordado durante a noite, não consegue dormir. O tormento ali é...

 

P/1 – Barra pesada?

 

R – Eu falo: se existe inferno, ali é um deles.

 

P/2 – Quantas pessoas por cela?

 

R – Lá é para quatro, mas abriram até [pra] doze em cada cela. Tem gente que dorme em cima das jegas, dos “bois” que eles falam, que são os vasos; outros [ficam] embaixo das jegas, é um rolo danado. Um dorme um pouquinho, aí marca no relógio duas horas para cada um dormir. Vai, dorme, o outro levanta e vai ficar em pé para o outro ir dormir. Vai revezando, dia a dia, até cumprir a pena.

 

P/1 – E no dia que você saiu, o que você sentiu?

 

R – O dia que eu saí foi bom demais, mas saí todo arrebentado de lá de dentro. Me quebraram esse maxilar aqui e o policial me levou para Brasília; o pessoal desceu para fora, não me matou porque os policiais não deixou. Eu estava perto da grade, os policiais me tiraram, mas eu passei por um mau pedaço lá dentro.

 

P/1 – Chegou a ser hospitalizado?

 

R – Eu fui para Brasília, para o hospital de lá, o HRAN [Hospital Regional da Asa Norte]. [Foi] esquisito, fiquei feio para danar, uma surra muito violenta.

 

P/2 – Mas por que fizeram isso? Você brigou com alguém?

 

R – Lá é o seguinte: tem as pessoas mais velhas que mandam lá e tem os… Como é que fala? Os laranjas, que eles falam lá na cadeia. O mais forte comanda ali dentro a galera. Por causa de conversa de outro da cela que eu estava, caiu tudo em cima de mim. Eu mesmo falei para ele: “O negócio é o seguinte, fala que fui eu”, porque eu não aguentava mais puxar cadeia não. Nove meses para mim, aí eu falei: “Pode jogar para cima de mim, fala que fui eu.” Aí eu saio daqui vivo ou saio daqui morto. Não deu outra.

Hoje estou na rua, graças a Deus. Nunca mais aprontei, nem apronto, para não voltar para lá mais nunca na minha vida.

 

P/1 – Quer distância, né?

 

R – Se pudesse, nem passar na porta. Ali é barra, imagino as pessoas que pegam dez anos, quinze anos.

 

P/1 – Como sobrevivem?

 

R – Não é fácil, não.

 

P/1 - Quando você saiu, o que você queria?

 

R – Quando eu saí de lá, saí disposto a voltar [a] mexer com papel, catar, limpar fossa, fazer qualquer coisa para arrumar dinheiro. Mas mexer com o que é dos outros para mim não servia, não. Emprego não arrumava - cidade pequena, conhecido, sai nome em jornal, anuncia em rádio, então quando você chega para pedir emprego e dá o nome, o cara: “Não estou precisando.” Às vezes até está precisando, mas te rejeita, aí eu falei: “Vou voltar a mexer com papel e dessa vez vou agarrar mesmo, vou abraçar mesmo essa causa.”

 

P/1 – Legal. E com a montagem da cooperativa, como o pessoal de Brasília começou a ajudar mais? A Eliane vai mais para lá?

 

R – A Eliane, na verdade, eu vi uma vez só. Foi nesse dia que ela esteve lá, fez o convite. A Ruth foi e [tem] direto reunião, saem para fora; até para o Equador ela já foi.

 

P/1 – E como vocês juntaram as outras pessoas para o movimento?

 

R – Lá a parte de… Tem os bóias-frias que falam, pobreza mesmo. Na época de colheita é nos ônibus, aí ela vendo aquilo, vendo o sofrimento do povo, teve a ideia. Abraçamos e estamos… São cinquenta catadores, fora os de prestação de serviço - eletricista, pedreiro, essas coisas.

 

P/1 – Então vocês foram pegar o pessoal que trabalhava como bóia-fria?

 

R – É. Agora já estamos passando para a segunda etapa do projeto, que é prestação de serviços. Estamos vendo com o prefeito; o prefeito já está… Vai mexer com a prefeitura.

 

P/1 – Aí vocês vão prestar serviço para a prefeitura?

 

R – Isso.

 

P/1 – Ah, que legal. Na cooperativa, vocês têm os catadores. Eles têm material que protege o corpo, luva, vocês usam alguma coisa assim?

 

R – A luva, é muito difícil a pessoa adaptar com aquilo. Tem mais a capa de chuva, a máscara. Esse é o essencial, luva é muito difícil da gente usar.

 

P/1 – Mas não é perigoso se cortar?

 

R – Não. Com jeito, não corta, não. Uns cortinhos bestas, um arranhão.

 

P/1 – Fale uma coisa: hoje, como é seu dia a dia? Você acorda a que horas? Você vai para a cooperativa, vai para o lixão, como é a sua semana?

 

R – Ir para a cooperativa eu não vou, porque eu já vivo nela, já vivo ali dentro o tempo todo. Levanto de manhã, cuido do que tem que cuidar na parte da cooperativa, do centro de triagem, todo mundo no seu lugar, e vou fazer as coletas. À tarde eu paro; quando dá nove horas da noite eu saio de novo, volto na faixa de onze, meia-noite.

 

P/1 – Porque esse horário?

 

R – [Pra] pegar material é um horário mais tranquilo. Tem mais material na rua porque durante o dia tem muito catador.

 

P/1 – Esse horário tem mais material?

 

R – Tem. Das sete até às nove é o horário deles estarem colocando o material para fora, para o lixeiro passar recolhendo no outro dia de manhã. Outros colocam de manhã e [quando] dá a noite os contêineres estão lotados. Eu saio à noite com a carroça, fazendo a coleta.

 

P/1 – A carroça é pequena ou é...

 

R – É uma carroça grande, puxada de animal.

 

P/1 – Aquele cavalo que você comprou?

 

R – Eu rodo a cidade toda.

 

P/1 – É? E tem gente, tem algumas casas que deixam separado para você, como é isso?

 

R – Tem, tem as lojas que faz a doação do material. Eles ligam para a gente ir lá buscar, igual a Caixa Econômica - já tem seis anos que eu pego material lá. Agora está tendo o Banco do Brasil, também passa material para a gente.

 

P/1 – Foram contatos que você foi fazendo?

 

R – Foi.

 

P/1 – Bacana.

 

R – Através de rádio, de palestra em colégio; a gente tem o apoio da Fundação Banco do Brasil, que fez a doação da prensa para a gente. Isso dá um debate danado lá; uns ajudam, outros ficam com ciúme, querem ajudar também. O trem vai andando.

 

P/1 – É bom para vocês. (risos) A Ruth continuou trabalhando como agente comunitária?

 

R – Não, ela saiu [do trabalho] de agente comunitária para mexer com essa cooperativa.

 

P/1 – Vocês se encontram com os outros cooperados das outras cooperativas? Vocês participam do encontro de lideranças?

 

R – Eu mesmo participei desses encontros em Caxias. A Ruth vai sempre em Brasília, vão lá. Eu participo mais quando vão lá; em Brasília mesmo só fui em algumas reuniões no Ministério de Tecnologia, sei lá o nome.

 

P/1 – Ciência e Tecnologia?

 

R – É.

 

P/1 – O que vocês discutem nesses encontros?     

 

R – Falam muita coisa sobre catador, essas coisas.

 

P/1 – Irany, qual você acha que é a importância do seu trabalho para o meio ambiente? O que você pensa disso?

R – Pelo que eu sei, cada quilo de papelão que você cata, você está dando vida para vinte árvores.

 

P/1 – Quantos quilos?

 

R – Um quilo.

 

P/1 – Um quilo?

 

R – É, equivalente a vinte árvores que as pessoas derrubam por aí. Poxa, já recuperei milhões de árvores para não serem derrubadas. O que eu tenho pegado de papelão, não é pouco. Então para o meio ambiente, nas águas, nas nascentes… A lagoa mesmo, estava cheia de lixo; hoje você vê pouco material reciclável indo para a água. A gente está em cima, está trabalhando mesmo para ver se não deixa poluir mais do que já foi.

 

P/1 – O que mais tinha na lagoa?

 

R – Na lagoa [tinha] essas garrafas de pet, esses trens… Estava cheio lá, lata de óleo, que as pessoas jogam, vem a chuva e leva. Então eu acho que é um papel muito importante o do catador; fazer essa limpeza o ajuda no alimento e ele ajuda o meio-ambiente também. Não deixa poluir os rios, as nascentes, o desmatamento que está demais, pelo jeito vai parando mais. Não é possível que com esse tanto de material que estamos recolhendo vão tirar árvore para fazer isso, voltando tudo para trás.

 

P/1 – É. Que material reciclável que paga melhor? Tem alumínio? Fale os vários tipos para a gente.

 

R – O melhor material que tem de mercado é o cobre e o alumínio, metal, o inoxidável - esses são os que alcançam melhor preço - e o PET. Os outros são essa faixa de centavos, não tem...

 

P/1 – O que mais aparece na cooperativa, o que mais tem? Papel, PET?

 

R – Lá vai de tudo, de lata de óleo até… Falou reciclável, vai tudo. Isopor eu juntei, fiz um monte de isopor lá. Não consegui vender, tive que retorná-lo para o lixão porque fica ocupando espaço, aí teve que ser recolhido de novo.

 

P/1 – Vocês fazendo essa parceria com a prefeitura...

 

(pausa)

 

P/2 – Queria só falar de uma coisa que você ainda não falou, nós também não perguntamos. Quantos filhos você tem?

 

R – Eu tenho cinco filhos.

 

P/2 – Eles todos ajudam?

 

R – Não. Só dois que trabalham, os outros três são menores de idade. Uma mexe no computador mais a mãe, faz alguma coisa, mas...

 

P/2 – E que idade que eles têm?

 

R – Uma está com dezoito.

 

P/1 – Fale o nome deles e a idade.

 

R – O Cristiano tem dezoito anos, a Míriam tem quinze, o Carlos Henrique tem dezesseis, o Gabriel tem doze e a Cássia tem dez.

 

P/2 – E o Cristiano?

 

R – Dezoito.

 

P/2 – Dezoito. Ele trabalha com vocês?

 

R – Trabalha, ele trabalha na prensa.

 

P/2 – E o...

 

R – Carlos Henrique.

 

P/2 – Carlos Henrique, de dezesseis?

 

R – Trabalha comigo na coleta.

 

P/2 – Na coleta. E o...

 

R – A Mírian.

 

P/2 – A Míriam mexe no computador?

 

R – Ela ajuda a mãe dela no computador. Está em um curso de computação, vai desenvolvendo.

 

P/2 – Então só quem não trabalha mesmo é a Cássia, que tem...

 

R – Só a Cássia e o Gabriel.

 

P/2 – E eles todos estão estudando?

 

R – Estão.

 

P/2 – E é lá perto?

R – É [a] dois quilômetros de casa.

 

P/2 – Você já fez palestra na escola deles sobre coleta de lixo reciclável?

 

R – Eu mesmo, não, mas a minha esposa já foi lá.

 

P/2 – Você sente que os seus filhos estão estudando, dão para o estudo?

 

R – Não tenho nada que achar dos meus filhos, igual meus irmãos, minha irmã falavam: “Filho de bandido vai ser bandido.” Pelo contrário, é um orgulho muito grande que eu tenho de ver meus filhos. Um filho com dezoito anos, nunca bebeu, não fuma, para mim é bom demais, dá até... Porque o pessoal fala: “Ah, vai ser bandido, vai ser pior do que o pai.” Mas não tem nada a ver.

 

P/1 – E o pessoal vendo você hoje, com a Ruth, liderando esse movimento que é tão importante para o meio ambiente? Como é que fica a visão da sua família, dos teus irmãos?

 

R – Com a minha família… Eu tenho muito pouco contato com eles, porque desde criança… Igual eu falei, era difícil, mas eles veem que não é igual eles pensaram que fosse. Igual o negócio dos meus filhos, não me dão trabalho. É ao contrário, os deles estão dando trabalho e os meus não. Os meus eram filhos de marginal e os deles? Não são filhos de marginal, estão dando trabalho.

 

P/1 – Sim.

 

R – Fumam, bebem, então eu acho que não tem nada a ver. O que o pai é o filho não é, não. Isso é totalmente diferente, isso está na cabeça da pessoa mesmo.

 

P/2 – E sua mãe? Você tem contato com ela?

 

R – Tenho. A minha mãe eu vejo toda semana. Toda quinta-feira eu vou à igreja, no culto de libertação. Todo domingo ela vai à minha casa, mas na casa dela passo três, quatro meses sem ir.

 

P/2 – Mas ela vai todo domingo à sua casa?

 

R – Vai. Eu passo tempo lá, porque a gente... Geralmente, [quando] eu vou à casa dela ela não está, porque ela não sai de dentro da igreja, direto. Deu seis horas da manhã, culto de oração; ali dá dez, onze horas. Ela vem, almoça, torna a voltar, aí vem, toma banho, torna a voltar. E fazendo visita, então você vai à casa dela [e] não consegue vê-la. Eu já nem vou. (risos)

 

P/1 – É mais fácil ir até a igreja.

 

R – É mais fácil ela na igreja, ou então no domingo ir lá em casa.

 

P/2 – E você entrou para a igreja por causa dela?

 

R – Não, eu entrei para a igreja. É o seguinte: eu desde sempre ia à igreja, fui muito à Igreja Católica, mas não sou católico nem sou evangélico. Eu gosto de frequentar, eu tenho Deus no coração. Eu acho que sou crente em Deus. Para ter contato direto com Deus não precisa estar dentro de igreja, eu creio que não. É o amor mesmo, coisa do coração. Eu acho que igreja não salva ninguém.

 

P/2 – O que salva?

 

R – Eu acho que é você fazer as coisas certas e o amor que você tem em Deus no coração. A igreja em si é o coração da gente.

 

P/1 – É.

 

R – A coisa que eu mais gosto é ir às quintas-feiras no culto de libertação.

P/2 – Por quê? Fale disso, como é esse culto?

 

R – As pregações. [Quando] eu vou ao domingo não acho graça, na quinta-feira eu vou. A coisa melhor que eu acho é ir às quintas-feiras.

 

P/2 – Você vai sozinho ou sua família vai junto?

 

R – Às vezes a mulher vai, eu vou mais é só.

 

P/1 – Mas é muito forte para você?

 

R – Hum?

 

P/1 – O culto de libertação é forte para você?

 

R – É.

 

P/2 – Testemunha de Jeová?

 

R – Não, Assembleia de Deus.

 

P/1 – E seus meninos, seguem a religião?

 

R – Eles vão, mas seguir mesmo, não seguem. Mas sempre eles vão, participam, assistem os cultos. Agora esse culto de libertação parece que ele dá… Limpa a alma da gente, parece uma força.

 

P/1 – É?

 

R – Muito bom.

 

P/1 – Você sai renovado de lá?

R – Saio renovado. Aí você vai até terça-feira; você está pesado, vai de novo, parece que...

 

P/1 – Descarrega então. (risos)

 

R – Deus dá uma força tremenda para a gente.

 

P/2 – Você doa dinheiro para a igreja?

 

R – Tem as ofertas, tem o dízimo que eu ainda não estou pagando, mas eu quero pagar o meu dízimo.

 

P/2 – Deixa eu fazer uma pergunta. Lá na igreja, você já pediu para falar sobre coleta seletiva de lixo?

 

R – Ainda não.

 

P/2 – Olha que é uma boa ideia, hein?

 

R – Na igreja.

 

P/2 – Você está lá mesmo.

 

R – É, e tem o pastor que está com a gente, fazendo esse trabalho com a gente.

 

P/2 – Que trabalho?

 

R – Esse negócio de projeto, essas coisas. Ele está sempre...

 

P/2 – O pastor da igreja?

 

R – É, o pastor da igreja está sempre dando uma força.

P/1 – Como você acha que o movimento lá em Formosa vai crescer? Qual é seu sonho, o que você gostaria que acontecesse dentro da cooperativa?

 

R – Eu acho que lá, para dar mais certo, tinha que ter mais união dos catadores porque catador é bicho bruto. Igual eu falei, é difícil você convencê-lo de uma coisa certa, tudo para eles é errado. Você está querendo o material deles, você está querendo passar a perna neles, mas na verdade não é isso, isso aí é melhora para o material deles e saber fazer as coisas certas. Eles sabem, só que eles não fazem, preferem fazer errado do que fazer certo. Igual o plástico, não custa nada a pessoa pegar o plástico e pôr tudo separadinho. Eles pegam fralda, enchem a sacola de água para poder pesar mais, isso é coisa errada, põe papel. Se você está vendendo plástico, é plástico, como põe papel junto? Falta de consciência mesmo.

 

P/1 – Tem que trabalhar um pouco essa conscientização?

 

R – Tem, e como tem! Eu fico brabo direto com esses caras lá.

 

P/1 – É?

 

P/2 – Mas os catadores, vocês compram dos catadores?

 

R – Lá é o seguinte: é uma cooperativa, mas o catador cata hoje para comer amanhã, então tem que ter o dinheiro para ir repondo o material que eles vão trazendo, senão some todo mundo.

 

P/2 – Entendi. Então eles acham, alguns dos catadores acham que estão só vendendo para alguém, ou todos estão engajados?

 

R – Alguns estão, outros não, porque com esse negócio dessa cooperativa… A gente que teve essa ideia dentro da cidade, não existia; lá só quem catava lá era eu e o Seu Mário. Hoje tem catador de tudo quanto é canto lá - fora os que já tinha com a gente, os cinquenta, que não eram catadores. Devido à bóia-fria ter só de ano em ano, eles resolveram pegar os carrinhos e ir para a luta na rua, não ficar esperando só pelo feijão plantado, que planta para colher.

 

P/1 – A próxima colheita.

 

R – Pelo pivô, aí estão lá lutando.

 

P/1 – Qual o seu sonho para a cooperativa?

 

R – Meu sonho para a cooperativa é um caminhão e que a gente vendesse esse material todo para cá. Tirar o atravessador do meio para a gente poder, para os catadores terem um melhor preço.

 

P/1 – Porque vocês estão vendendo para Brasília, lá não tem usina?

 

R – Não tem usina.

 

P/1 – E aqui em São Paulo tem?

 

R – Aqui tem.

 

P/1 – São Paulo vocês estão vendendo só o quê?

 

R – Só o PET, porque para vender para cá tem que ter grande quantidade, muitas toneladas mesmo. A partir da hora que a gente conseguir abranger os municípios, porque a gente tem que mexer com os municípios também, aí eu creio que vai dar para a gente negociar aqui. E [conseguir] a união dos catadores, porque se todos unirem mesmo, falarem: “Vamos, nosso material vai todo para a cooperativa. Vamos todos entrar na cooperativa”, a gente consegue uma grande quantidade para exportar para cá.

 

P/1 – Aí a ideia é pegar as outras cidades?

R – É, os municípios.

 

P/1 – Quais seriam esses outros municípios?

 

R – São quarenta e poucos municípios de lá.

 

P/1 – Nossa, abrange uma região bem grande.

 

R – Centro-oeste todinho. Tem Cabeceira de Goiás, é cidade demais, não dá nem para...

 

P/1 – Jóia. Você quer fazer mais alguma pergunta?

 

P/2 – Qual é o seu sonho e o que você espera para sua vida, para os seus filhos?

 

R – Olha, o que eu espero para os meus filhos é que a cooperativa está crescendo, que ela cresça mais e que… Hoje ou amanhã eu vou morrer; que eles assumam, façam a coisa continuar andando. Se chegar a cair eu… Caio eu, cai a mulher; se as pessoas não tiverem… Se os filhos não abraçarem a causa para levar para a frente, o fim dela é voltar para o zero de novo.

 

P/1 – Você acha que o Cristiano está nesse caminho?

 

R – Eu creio que está, eu acredito que ele vai abraçar mesmo, com gosto igual. Está abraçando.

 

P/1 – O que você acha, qual a maior importância do seu papel hoje? O que você vê que você mais contribui com o seu trabalho?

 

R – Eu acho que é na parte do meio-ambiente, da poluição. A gente está sempre ajudando para não poluir mais do que já foi poluído.

 

P/2 – Você tem orgulho disso?

 

R – E como tenho!

 

P/1 – Legal. Você acha que ficou faltando alguma coisa, Irany, para você falar, que você acha que não falou e gostaria de deixar registrado, mandar um recado para os outros catadores de papel, uma mensagem da sua experiência? O que você falaria para…

 

R – Tem em Brasília… Em Formosa, são 25 cooperativas; tem catador demais. Esses catadores que tem… A cooperativa foi formada não para prejudicar o catador e sim para ajudar. Todos os catadores que têm medo da cooperativa, que eles passem a frequentar as reuniões e conhecer mais o que é uma cooperativa, o que é uma associação, um grupo de pessoas trabalhando. E abraçar mesmo, porque a cooperativa não leva nada ruim para o catador, só é a melhora. Melhor preço no material que ele cata, um estado de vida diferente; você consegue estar no meio da sociedade. Eu era excluído da sociedade, hoje eu estou no meio. Entro em banco, entro em tudo, entro em delegacia de cabeça erguida. Devo para a justiça, estou pagando; mês que vem agora eu elimino com a justiça e não quero dever um centavo mais para a justiça. [No] começo de ano agora eu quero zerar e nascer de novo!

 

P/1 – Que bacana! Tem mais alguma pergunta? Estou até... O que você achou de ter dado essa entrevista?

 

R – Para mim foi bom.

 

P/1 – Ter olhado o próprio passado, ter refeito esse caminho todo da sua vida. Você já tinha feito isso?

 

R – Não, [foi a] primeira vez.

 

P/1 – O que você achou?

 

R – Para mim foi bom. Eu quero deixar um recado também para essas pessoas, usuários de drogas.

 

P/1 – Então pode falar!

 

R – Se eles acham que não conseguem largar da droga, porque tem uns que vai para esse… Como é que fala esse negócio de drogado? Vai, passa até ano, dois anos lá. Ele sai de manhã, quando é de tarde está lá de novo na boca, pegando. Se ele passar um ano lá dentro sem usar droga, ele sai e abraça o lixo, com gosto mesmo porque a ocupação da mente… Ele não vai ter tempo de pensar em besteira. Que ele abrace e não corra atrás, porque merla só é agonia e ilusão. Você gasta, gasta… Uma vez, você está com o dinheiro de comprar um pão, comprar arroz, fala: “Não, vou comprar uma cabecinha de merla. Vou fumar e vou repor esse dinheiro.” E nunca repõe, é um dinheiro que vai para o ralo mesmo, não tem... A pessoa fica naquela: “Vou gastar porque eu vou repor”, e nunca repõe. Se o cara ficar seis meses sem usar droga, ele não vai usar droga mais, para quê? Se ele já sabe o que é, se é só ilusão, então abandona de vez.

 

P/1 – Mas tem que ter uma força de vontade.

 

R – É, isso aí tem que ter.

 

P/2 – Tem que ter uma força de vontade como o senhor Irany?

 

R – Tem que ter, se não… E ocupar sempre a mente. Não tem nada melhor para ocupar a mente do que mexer com material reciclável. Se você cansa de um material aqui, você pula para o outro; se você cansa, você pula para o outro, então é um trabalho que você vai ter, enquanto você estiver vivo você tem serviço. Você não precisa estar batendo na porta de ninguém para pedir emprego, você é dono do seu próprio negócio e é isso aí.

P/1 – Tá jóia. Obrigada pela entrevista!        

 

P/2 – Obrigada.

 

            


 



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