Busca avançada



Criar

História

Saiu do sofá pra ser líder

História de: Eleneide Alves Cordeiro Carneiro (Leninha)
Autor:
Publicado em: 19/11/2014

Sinopse

Eleneide Alves Cordeiro Carneiro, a Leninha, nasceu em 9 de setembro de 1968, em Iguatu, Ceará. Seus pais eram o pernambucano Pedro José Cordeiro e a cearense Maria Socorro Alves Cordeiro, ambos agricultores. Leninha é presidente da Cooperfátima e da Central de Cooperativa da Agricultura Familiar e Economia Solidária do Estado da Bahia, Arco Sertão Central, uma central que comercializa os produtos de várias cooperativas da Bahia e de Sergipe.

Tags

História completa

Meu pai e minha mãe tiveram dez filhos, eu sou a mais velha das mulheres e era uma vida difícil. Antes não tinha todos os benefícios que têm hoje, e isso era muito complicado para a minha família. Como eram todos crianças, só meu pai trabalhava pra sustentar a casa, na lavoura.

Uma coisa que meu pai e minha mãe sempre faziam questão era que os filhos estudassem. Ela nem ler sabia, como meu pai também não sabe, mas faziam questão que os filhos estudassem. Muitos não quiseram. Eu mesma, quando vim embora pra Bahia, não tinha terminado a oitava série, aí terminei quando cheguei aqui. Vim pra cá com 18 anos.

Olha, não gosto muito da história de como eu vim pra Bahia, isso me deixa triste. Foi um trauma na minha vida porque eu estudava, trabalhava. Estava estudando à noite e tinha um namorado. Era jovem, tinha meus 17 anos, e aconteceu de eu ficar grávida. 

 Minha mãe não aceitou e isso me machucou, porque ela disse que eu não era mais filha dela, que eu tinha que sair de dentro de casa. Não era como hoje, que todo mundo sabe como é que... não tinha conversa com a mãe. E ela disse que eu não podia ficar em casa pra não dar mau exemplo às filhas dela.

Meu pai estava trabalhando numa cidade vizinha e eu fui lá falar com ele. Ele me apoiou e disse: “Não, você vai ficar dentro de casa, onde come 10, come 11, você não vai”. Mas a forma como ela me tratou já tinha me machucado, e eu não quis ficar. Eu tinha uma tia que morava aqui, irmã de meu pai. Escrevi uma carta e ela foi me buscar. Eu cheguei e tive minha filha, que faleceu, eu acho que de trauma, de tanta machucação. Morreu com 21 dias. Se ela estivesse viva, hoje estaria com 25 ou 26 anos, mais ou menos.

Eu nunca tinha saído de Iguatu, tinha só passado algum tempo em Fortaleza, mas nunca tinha saído do Ceará. Lembro que a gente veio de carona com um conhecido dela, de caminhão. Depois que eu tive a criança eu fui ajudar ela, trabalhar como vendedora, e fiquei. Aí passei cinco anos sem voltar em Iguatu.

Com uns três anos que eu estava aqui morando mais ela eu conheci meu marido. Estou há 25 anos morando com ele. A gente não tinha casa, era igual àquela música, não tinha nada. Fomos morar num quarto pequeno na casa dele. Aí eu me desentendi com a família dele e disse: “Olha, vamos procurar um lugar pra morar, porque morar de bolo não dá certo”. O irmão dele estava morando na cidade vizinha e a casa dele estava desocupada. Eu fui lá, pedi a casa dele pra morar lá e ele deu.

Quando o irmão dele voltou, a gente foi morar de aluguel. Juntando um pouquinho conseguimos comprar uma casinha, lá em Nova Fatima.  Eu me lembro como se fosse hoje, a gente juntou três mil reais, que era muito dinheiro há 15 anos, e compramos essa casinha. Eu já tinha meus dois filhos, Eusimar, que tem 22 anos, e Estefane que tem 19. Eu tive quatro filhos, dois faleceram e tem dois vivos.

A gente passou dez anos nessa casinha velha. Meus filhos cresceram, aí teve uma vez que chegou na cidade um programa do governo, o Pronager. Eu lembro que eu estava em casa assistindo televisão e o carro de som passou anunciando que ia ter uma reunião no clube, que era pra formar cooperativa, pra ensinar o povo a trabalhar. Tinha cursos de corte e costura, de laticínios, de defumados, vários. Eu levantei e disse: “Deixa eu ver o que é isso”. 

 Eu só trabalhava dentro de casa e na roça com meu marido. Levantei e fui. Pra quê? Desde que fui nesse dia, não parei mais dentro de casa. E olha que eu não era de sair, como ainda não sou. Cheguei lá, um monte de gente, mais de 500 pessoas. Depois que terminou o curso, o Pronager formou a cooperativa e escolheu os coordenadores. Eu já saí como coordenadora do curso de laticínio. Todo grupo tem uma pessoa que se destaca mais no que faz, na organização, no que produz. E como lá tinha em torno de 20 mulheres, eu que organizava, eu que via a questão de comprar os produtos, ver o que estava precisando. Fundamos a cooperativa Cooperfátima, que é a cooperativa lá de Nova Fatima, na época com 70 e poucos sócios-fundadores. Tínhamos nove cursos de produção e nove linhas de produção, com laticínios, corte e costura, defumados, avicultura, temperos prontos e jornalismo comunitário.

Esse projeto foi promovido pelo Governo Federal há 13 anos. A cada 45 dias eles estavam no município. Na nossa região foram criadas 23 cooperativas desses cursos, em 23 municípios. O grande problema é que não tinha comercialização. Em todo o país foram fundadas 26 Agências de Comercialização, ou Arco Sertão, e arco, no caso, quer dizer juntar, unir. Eu fui pra Arco Sertão como membro do conselho fiscal. A Cooperativa é assim, diretoria não tem salário, não tem renda fixa. E eu encontrei na Arco Sertão a forma de aumentar a comercialização lá da minha cooperativa, pra minha renda poder aumentar um pouco. E a das cooperadas também. As cooperadas passaram muitos anos trabalhando sem ganhar nada, quando repartia não sobrava nada pra pagar imposto, pagar contador, pagar tudo.... Hoje cada uma delas tira mais de um salário mínimo por mês. Mas foram mais de oito anos pra isso.

Tivemos que constituir uma central de cooperativas, porque pela legislação do país associação não pode comercializar. Aí lá vou eu novamente atrás das cooperativas pra poder ser fundada essa central. Cooperativa pode comercializar, mas eu queria criar uma central porque eu não tinha só uma cooperativa, na Arco tinha várias, como é que eu ia criar só uma? Tem que ser uma Central. Aí fui pra Brasília, saber o que era uma central, buscar ajuda, fui buscar outras experiências por fora pra poder implementar aqui dentro.

Em 2012 fundamos a Central de Cooperativa da Agricultura Familiar e Economia Solidária do Estado da Bahia, Arco Sertão Central. Agora, na última eleição, a gente mudou o estatuto para ser do Brasil, porque não são apenas as cooperativas daqui da Bahia que são filiadas a ela, nós temos cooperativas de Sergipe que trazem a produção.

Nós abrimos de segunda a sábado, das sete e meia da manhã às cinco e meia da tarde, no sábado até meio-dia. Mas o foco nosso não é a venda aqui em si, o nosso foco é o PNAE, o programa de merenda escolar. Eu não posso pedir: “Bora, quero 500 quilos de sequilhos”, aí vem um sequilho de um jeito e um de outro pra mesma prefeitura. E isso, todos os processos, nós unificamos aqui pra poder levar um produto de qualidade para a merenda escolar. Hoje nós fornecemos pra Capela do Alto Alegre, Nova Fátima, Serrinha, Sátiro Dias, Olindina, Teofilândia e Santa Luz.

O que eu vejo é que antes muitas pessoas não acreditavam que têm o poder de mudar de vida através do trabalho, mas viram que a região tem potencial pra dar certo, basta só a gente investir naquilo que nós acreditamos. E a agricultura familiar e a economia solidária são a porta do mundo, a agricultura familiar é quem alimenta a nação. Por que a gente vai mudar pra uma cidade grande e deixar o interior ao léu? Só pra viver em shopping, em festas, e esquecer da essência, que é a agricultura familiar?

Esse é o objetivo da Arco Sertão e esse é o meu objetivo de vida: fazer a agricultura familiar e a economia solidária darem certo, deixar de dizer que somos coitadinhos, que agricultor familiar é um povo coitadinho. Não, nós somos capazes, somos competentes e fazemos um trabalho decente. E, pessoalmente, ainda quero fazer uma faculdade. Se Deus quiser vou conseguir.  

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+