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História

Sábio das tocas

História de: Nivaldo Coelho de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/09/2008

Sinopse

Seu Nivaldo conta com orgulho a chegada da equipe da arqueóloga Niède Guidon e como a auxiliou na descoberta dos sítios arqueológicos de São Raimundo Nonato. Ele se tornou um grande apoio às pesquisadoras e com elas aprendeu técnicas de escavação. Seu Nivaldo lembra de quando ainda era criança e escutava do avô as histórias das pinturas rupestres e de quando parava para cozinhar na Pedra Furada, um dos sítios mais conhecidos do Parque.

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História completa

Nasci em um sítio chamado Esperança, em 1932. Nesse tempo, São Raimundo Nonato chamava Fazenda Jenipapo, não era uma cidade ainda! Meu pai era lavrador e plantava feijão, milho, arroz, Com dez anos, eu já andava no mato mais meu pai atrás de borracha de maniçoba. Era mais era por cima da serra que tinha borracha, aí eu ia furar essa borracha e na hora da chuva ou do sol que eu ia descansar, eu ia pra uma toca, onde os homens que estiveram aqui há mil anos atrás pintavam as paredes!

 

Aí o pai da gente dizia que eram uns caboclos bravos, uns índios que tiveram aqui, que eles eram caçadores e aí na hora da chuva eles iam pra essa mesma toca que nós ia e eles desenhavam o que eles viam: o mato, se tinham matado um veado ou uma onça, ou um capivara, ou pinha, que hoje não tem mais. A Pedra Furada era o lugar do meu avô fazer plantação. Lá tem até forno de torrar farinha de mandioca!

 

Essas pinturas não tinha importância nenhuma pra nós antes da doutora Niède chegar. Tinha até gente que morava nas tocas! Eles iam cozinhar, iam pra roça e iam cozinhar debaixo das tocas. A toca chamava Toca da Fumaça. Por eles acharem que aquilo não tinha importância nenhuma, a fumaça fez mal pros desenhos. Eu também achava que aquelas tocas não tinham importância nenhuma, aqueles desenhos… Achava que ela ia largar aquilo logo, mas aí todo ano que ela começou a voltar. E a cada volta dela, eu já tinha achado mais tocas, porque ela me pagava as tocas que eu encontrava. Eu fazia as trilhas, botava gente pra fazer as trilhas, que era dentro da caatinga, na chapada!

 

Aí eu já sabia o ponto, eu ia levar ela lá, nesse tempo ela tirava aqueles desenhos nas parede com plástico, a gente ia  ajudar com os plásticos, tinha paredona com os desenhos, amarrava uns plásticos, e elas riscavam de pincel por cima, aí depois eu penso que foi desenvolvendo mais as coisas, aí apareceu essas máquinas, que não precisava mais tirar o desenho com o plástico. Eu imaginava que esses homens, se eram mesmo esses caboclos bravos, esses índios que meu avô dizia, eram então um pessoal muito inteligente, não é? Sem cultura nenhuma, fazer um desenho daqueles!

 


A primeira vez elas vieram acho que em três, tudo de calça, assim como vocês usam, os meninos achavam que eram uns homens, nessa época quase mulher não usava calça. Elas pediam pra minha esposa fazer comida e aí a gente levava pra trilha. Uma vez fomos num sítio que hoje em dia pra ir para lá de carro, é mais ou menos 70 quilômetros, mas nós fomos de animal. Elas foram a pé e eu ia com o animal, só com as coisas que elas tinham. E aí começou também a escavação, que era só pra tirar os desenhos nas paredes, e depois na Pedra Furada. Eu sempre ficava ali junto da doutora, vendo o jeito dela escavar, e aí fiquei escavando, que ela já tinha uma fé neu, que ela dizia que eu estava mais prático que os formados que ela trazia de lá! Aí eu já fui ficando entendido, que eu já estava trabalhando escavando também! Hoje ela diz que todo mundo pode sair, menos eu!


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