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História

Sabendo gritar pelos seus direitos

História de: Lidiane de Sena Mendes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/01/2013

Sinopse

Família e infância. Curso e primeiro emprego. Escola. Primeiro namorado. Tráfico de drogas na comunidade. Apoio da Chevron e criação do Favela Point. Projeto e a transformação na vida das pessoas. Viagem para Teresópolis (RJ). O que mudaria no passado. Sonhos. 

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História completa

“Meu pai não conheci; minha mãe veio do Maranhão, nasceu lá, mas veio pra cá com seis anos de idade. Minha mãe teve o primeiro filho com 14 anos, a minha irmã mais velha, Samanta. Logo depois ela me teve, mas ela abandonou a gente; foi embora. Fiquei vivendo com a minha avó e com minha outra tia que me criou até os nove anos. Aí foi quando a minha mãe reapareceu, pegou um quartinho pra morar e me levou pra morar com ela. Minha irmã teve filho com 13 anos, aí foi embora, sumiu também. Aí fiquei cuidando do filho dela. Eu era uma criança; mas eu cuidei de mim, do meu irmão. Mais tarde minha irmã reapareceu; aí ficou com a gente lá, ajudou o quanto podia. Depois ela casou, foi morar sozinha e eu com a minha mãe. Nessa época, uma vez que minha mãe chegou, eu não tinha feito nada em casa pra ajudar e ela me deu uma surra. Aí cheguei na Escola toda marcada. Nesse dia era aula de Educação Física; aí tinha que botar um shortinho de lycra, uma blusinha e a blusa da Escola por cima. E eu não queria me trocar porque eu tava toda marcada. A professora viu, perguntou o que havia acontecido: 'Minha mãe me bateu'. Ela disse que ia ligar pro conselho tutelar. Cheguei em casa e disse pra minha mãe que ela ia perder a minha guarda. Ela ficou brava “Como que você foi fazer fofoca lá?” Eu falei: “Eu te ajudo pra caramba com criança e tudo, e você precisa de mim. Eu dependo da senhora, mas você precisa de mim também. E você ainda me bate?” Ela começou a chorar, foi na Escola, conversou com a professora, nunca mais encostou a mão. Foi ela que me falou desse projeto que ia começar, com mulheres. Eram vinte e cinco, no começo, mas foi baixando. Acabou com sete. Era pra montar um empreendimento e davam capacitação. A reunião só era à noite, então às vezes as mulheres tinham sua família, seus filhos, era muito difícil ir. Dessas reuniões, decidimos abrir o Favela Point, que era um três em um: bar, restaurante e lanchonete. Aqui na comunidade não tinha nada pra diversão, pra esse tipo de público. Às vezes ficamos até três da manhã, e cliente bombando. Agora, a segunda-feira a quarta-feira, quando dá uma, duas horas nós fechamos. Eles já têm na cabeça 'Ah, hoje eu vou no Favela Point porque está aberta'. Os outros bares abrem quando querem, fecham quando querem. Aqui em cima nós fazemos lanche, nós fazemos bolo, fazemos de tudo, tanto pra comer como pra beber."

 

 

P - Rosana Miziara

R - Lidiane de Sena Mendes



P/1 – Lidiane, você pode começar falando o seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R – Meu nome é Lidiane de Sena Mendes, moro na Ladeira do Barroso, no Rio de Janeiro (RJ). Tenho 20 anos; nasci no dia 11 de fevereiro de 1992.

 

P/1 – Aonde você nasceu? Não, mas Estado, que Cidade?

 

R – No Rio de Janeiro.

 

P/1 – Em que cidade, Rio de Janeiro?

 

R – Rio de Janeiro.

 

P/1 – Seus pais são do Rio de Janeiro?

 

R – Sim. Meu pai, não conheci. Minha mãe veio do Maranhão, nasceu lá, mas veio pra cá com seis anos de idade. Aí começou aqui; minha avó não tinha como criar ela lá, mandou ela pra uns parentes, pra ela ficar aqui. No caso, os parentes moravam na Central. Aí ficou até, minha mãe teve o primeiro filho com 14 anos, a minha irmã mais velha, Samanta. Logo depois, ela me teve. Mas ela abandonou a gente, foi embora. Abandonou e eu fiquei vivendo. Minha avó veio, trouxe o resto dos filhos; aí fiquei vivendo com a minha avó e com minha outra tia que me criou até os nove anos. Quando eu fiz nove anos de idade...

 

P/1 – Aonde que vocês moravam?

 

R – Aí já morava aqui na Providência, neste mesmo endereço, mas só que era na Ladeira do Farinha; agora que eu moro na Ladeira do Barroso.

 

P/1 – Aí, até os nove anos de idade, você viveu com essa avó e com essa tia?

 

R – É, com a minha avó e com a minha tia. Aí foi quando a minha mãe reapareceu, pegou um quartinho pra morar e me levou pra morar com ela. 

 

P/1 – Lá em Providência mesmo?

 

R – Aqui na Providência mesmo. Aí ela casou novamente, teve mais uma filha, que é a caçula, Milena. Hoje em dia, ela é solteira, mas na época, eu tinha o quê? Uns... Minha irmã [Samanta] teve filho com 13 anos; aí foi embora, sumiu também. Aí fiquei cuidando. Eu era uma criança, mas cuidei de mim, do meu irmão, dessa minha irmã, Milena, mais nova - no caso, a caçula - e duas filhas da minha irmã, que ela abandonou e foi embora. Aí era eu com a turma. Eles iam brincar, não faziam nada e às vezes eu matava aula pra cuidar dos meus irmãos e das minhas duas sobrinhas. Tinha que fazer almoço, que minha mãe trabalhava na Central. Esse ex-esposo dela tinha mercadoria, vender caixote. Aí tinha que fazer almoço, botar as crianças pra escola com a minha prima e ir lá embaixo, deixar comida do meu ex-padrasto com a minha mãe, subir pra ir pra escola. Então, às vezes, não dava tempo de ir pra escola. Matava muita aula. Fui pulando, que... Tipo assim, eu não corria atrás. E às vezes, aí, quando eu tava na terceira série, o outro já tava na quarta ou na quinta, porque eu corria. Eu ficava em casa, mas ficava lendo livro ou fazendo as coisas. Aí minha irmã reapareceu; ficou com a gente lá, ajudou o quanto podia. Depois ela casou, foi morar sozinha e eu com a minha mãe. Aí tá, sempre trabalhei com a minha mãe também. Quando eu não tinha aula no dia seguinte; quando era conselho de crianças na escola, eu descia pra trabalhar com a minha mãe. Chegava em casa umas quatro e pouca da madrugada, ia dormir pra acordar no dia seguinte, no mesmo processo – dar a comida das crianças, almoço.

 

P/1 – Que é que sua mãe fazia?

 

R – Minha mãe trabalhava de mercadoria na Central, ali, com caixote: vendia água, cerveja, Coca-Cola, essas coisas em lata. E eu ajudava ela quando podia; quando eu não podia, ela ajudava em casa com as crianças e fazia o almoço e [a] janta, e levava. Aí logo quando eu fiz uns 13 anos.

 

P/1 – Você não lembra de brincar as brincadeiras de infância?

 

R – Lembrar, eu lembro; mas foram poucas brincadeiras, porque sempre...

P/1 – Do que é que você brincava, quando dava?

 

R – Ah, de pular elástico, amarelinha. Quando era época de festa junina, eu e os meninos, tinha uma tia que adorava a gente, que era [de] onde eu morava, [e] fazia roupa com retalhos pra gente. Eu brincava também, brincava de boneca. Mas eram poucas vezes, era dia de domingo quando minha mãe tava em casa [e] eu podia brincar; ou então, às vezes, ela não tava, mas eu tinha que ajudar, eu não podia [brincar]. Eu ficava na janela às vezes. Fazia uma coisa, ia pra janela olhar as meninas, as minhas amigas brincar, mas eu não podia brincar com elas. E pra contar assim, eu não tive infância. Eu perdi tudo, porque eu tinha que olhar minhas sobrinhas e meus irmãos, e não podia. Quando eu brincava de alguma coisa, era na Escola, Educação Física, que às vezes a professora passava de pular elástico, pular corda. E eu brincava, assim, na Escola. Agora, em casa era trabalho, trabalho mesmo. E com treze [anos], aí, com doze pra treze anos eu fui, já tirei, tirar meus documentos com a minha mãe, fui correr. Aí tinha um curso nessa época, apareceu um projeto; eu ganhava cem reais por mês. Aí pedi pra minha mãe ir me inscrever; ela não queria, mas depois concordou, que minha avó conversou com ela, foi lá, assinou [e] eu fiz o curso. Aí, daí eu parei e pensei, falei: “Pô, agora eu não preciso mais ajudar a minha mãe. Os meninos tão grandes, minha irmã pegou as filhas dela. Agora é eu por mim mesma”. Aí comecei a fazer curso. Daí foi um trabalho, que era meio-período, quando eu fiz 15 anos. Aí me envolvi.

 

P/1 – Que trabalho você foi?

 

R – Eu, primeiro, trabalhei na cidade, ali na Buenos Aires, numa lojinha que não tinha nome, mas vendia roupa; era atendente lá. Depois, eu saí de lá e trabalhei com uma tia minha que trabalha de, [com] comida; trabalhei na cozinha com ela. Depois saí de lá, fiz o curso ali na Previdência Social, ali na Central; fiz o curso de Alimentação ali. No Cais do Dodô, fiz o curso de teatro e telemarketing; só não concluí o telemarketing, entendeu? Aí fui correndo atrás do meu objetivo, pra ver onde eu ia parar. E nisso, minha mãe tinha que trabalhar [e] eu tinha que ficar em casa, mas ia lá, assinava e deixava eu ir; com o maior sacrifício, mas deixava. Fui correndo. Aí, quando eu fiz treze anos pra catorze, minha mãe deixou; minha mãe não deixou, mas eu fui a um baile com umas amigas minhas. Aí se, [me] envolvi com um carinha que era casado, tinha uma filha.

 

P/1 – Você tinha quantos anos?

 

R – Catorze anos, tinha feito catorze anos. Tinha feito catorze; de treze para catorze. Aí quando a minha mãe descobriu, minha mãe queria me bater, fazer e acontecer. Não, eu pensei isso, porque tudo da minha mãe, ela não sabia conversar; tudo dela era bater e ela achava que ia resolver, não sabia conversar. E eu pra mim, falei: “Quando a minha mãe descobrir, vai querer me matar”, mas não foi assim. Eu conversei com ele, ele foi lá, conversou com a minha mãe e falou: “Pô, eu não posso; eu gosto da sua filha, eu gostei dela. Não posso falar pra você que amanhã vou largar minha mulher e minha filha, porque eu já tinha uma família. Mas ‘vambora’ ver até onde que vai ficar”. E minha mãe falou: “Não, então ela não fica com você”. Aí eu fiquei uma semana me encontrando com ele escondido sem minha mãe saber. Aí depois que minha mãe soube, ele largou a mulher dele e a filha dele pra ficar comigo; eu fiquei três anos com ele. Com dezoito anos, nós nos separamos.

 

P/1 – Mas você teve filho?

 

R – Não; não tenho filho, não. Aí com dezoito anos, me separei dele; ele foi morar em outro lugar. Agora que ele voltou realmente, mas foi morar em outro lugar. Aí eu fiquei sozinha, e até hoje. Foi quando, aí eu comecei a trabalhar no KFC. Minha mãe fazia o curso Mulheres da Paz e eu comecei a trabalhar de atendente. Aí quando minha mãe tava lá, acho que fazia uns sete, oito meses nesse curso, apareceu esse projeto lá quando o Elos dava um curso de capacitação e a Chevron dando apoio. Aí minha mãe me falou, só que não dava por causa do meu trabalho. Ela falou, aí ficou de ser à noite. Ela falou: “Ah, mas vai ser à noite”. Eu falei: “Tomara; eu chego cansada, mas dá pra ‘mim’ ir.” Aí fui lá, me inscrevi, passei pra Ana Carla – que a Ana Carla é minha comadre, minha amiga –, eu passei pra ela; fui lá, me inscrevi. Eu fui com ela, ela se inscreveu também. E tê aqui até hoje. De vez em quando, ela olha pra mim e fala: “Eu não acredito, tu fazia curso, tu entrava com maior garra, mas chegava no meio do curso quase terminando, deixava pra lá, não concluía. Esse daí você conclui, tá trabalhando, pode falar que é teu. Como é seu, é das outras meninas também, das outras seis”. 

 

P/1 – Vamos chegar aí já. Deixa eu voltar pro seu passado lá, que você fala super bem. Você já vai indo. Com quantos anos você entrou na escola?

 

R – Com quantos anos eu comecei a estudar? Com sete.

 

P/1 – Você lembra de alguma coisa da escola? Que é que te marcou nesse período, alguma lembrança forte que você tem, de professor?

 

R – Ah, eu quero chorar. Eu lembro assim de uma professora - que até hoje nunca esqueci ela -, que naquela época... Foi quando eu não tava com a minha mãe; minha tia, que me criava, me dava [o] maior apoio. Aí eu comecei, a minha tia foi lá e escreveu, mas só que a minha tia, ela não podia, tinha que ser a assinatura da minha mãe. Mas ela conversou com a diretora, falou que a minha mãe tinha dado um tempo, sumiu e quando ela voltasse... E a diretora ficou sabendo, porque ela conhecia também minha avó, já sabia das... Ela falou assim: “Ó, eu to fazendo isso pela Lidiane, por vocês, pela sua mãe que eu conheço há muito tempo, porque eu não posso fazer isso”, a diretora. Aí minha tia foi lá, assinou e eu comecei a estudar. Aí essa professora, a diretora, passou essa minha história pra essa professora, a Maria Rosa. Aí ela começou a conversar comigo; então, as mesmas amigas que eu tive naquela época, foi a professora e minha tia que me criou. Então ela chegava: “Lidiane, tu almoçou hoje? Que tu fez hoje? Não sei o quê”, eu sempre conversava com ela. Aí quando minha mãe voltou, eu comecei a morar com a minha mãe, mas continuei estudando lá. E aí ela sempre me perguntava: “Tua mãe, como é que tá?”, eu falava. Aí só que teve uma vez que minha mãe chegou, eu não tinha feito nada em casa e minha mãe me deu uma surra. Aí cheguei na Escola toda marcada. Aí ela virou pra mim: “Li, não pode”. Era, nesse dia, aula de Educação Física; aí tinha que botar um shortinho de lycra, uma blusinha e a blusa da Escola por cima. E eu não queria me trocar porque eu tava toda marcada. Aí ela: “Lidiane, vai no banheiro se trocar”. Eu falei: “Não, eu não quero fazer aula”, “Ah, por quê? Então eu vou te mandar pra secretaria, não é assim; você tem que concluir todas as aulas”, não sei o quê, não sei o lá. Nós fomos, ela falou assim: “Nossa, pode contar comigo”. Só que eu tinha uma coisa assim de contar pra ela. Aí comecei a falar, comecei a conversar e chorar. Aí ela falou: “Aconteceu alguma coisa”. Ela falou: “Levanta a calça, Lidiane”. Aí eu levantei e tava marcada. Ela falou: “O que é que houve?”. Eu falei: “Não, porque eu não fiz isso e isso em casa, aí minha mãe me bateu”, “Não é assim, vou te mandar para o Conselho Tutelar”. Aí eu fiquei mais chateada e falei: “Não, por favor, não faz isso, não”. Aí ela conversou comigo; ela falou: “Olha, tenho que chamar a tua mãe aqui na Escola então e conversar com ela, porque isso não pode estar acontecendo. Se isso continuar acontecendo, eu vou pedir sua guarda”. Eu falei: “Não, tudo bem. Se ela souber que eu te contei, ela vai me bater de novo; deixe que eu converso com ela”. Ela falou: “Tá bom”. Aí passou. E eu cuidando direito, quando eu chegava em casa e olhava para a cara da minha mãe, eu ficava com medo da Diretora ligar ou alguma coisa. “Cara, como que eu vou contar isso pra ela?”. Aí eu peguei e falei pra ela: “Mãe, eu fui pra aula de Educação Física, a professora me viu e falou que a senhora vai perder a minha guarda”. Ela começou a chorar e falou: “Como que você foi fazer fofoca lá?”. Eu falei: “Não, mãe, não fui fazer fofoca; era aula de Educação Física, eu tive que tirar meu short, ela viu as marcas, me perguntou o que é que foi. Falou que se a senhora continuar acontecendo isso, que eu te ajudo, eu não faço nada de mais [comparando com o] que você [já] fez. Eu te ajudo pra caramba com criança e tudo, e você precisa de mim. Eu dependo da senhora, mas você precisa de mim também. E você ainda me bate?”. Ela falou: “Não, mas isso não vai mais acontecer”, daí nunca mais. Ela começou a chorar e foi na Escola, conversou com a professora, começou a chorar. Aí foi, daí nunca mais ela me bateu ou me encostou a mão. Aí essa professora sempre, era eu e mais uma amiga minha que ela ficava perto de mim; às vezes, as mesmas coisas que aconteciam comigo, acontecia com essa minha amiga. As únicas meninas, as alunas que ela era mais apegada era a mim e a Manoela, essa menina. Aí ela pegava, trazia presente pra mim e pra Manoela, trazia tudo. E até hoje eu não esqueço dela. Às vezes eu passo, eu vou ao Posto com a minha irmã, ao Posto de Saúde, é lá perto dessa Escola; eu passo lá, procuro saber se ela tá lá, se ela tá bem - ela teve um filho agora. Mas a vida é assim, aprendendo e vivendo; vivendo e aprendendo.

 

P/1 – Do que é que você mais gostava na escola?

 

R – O que eu mais gostava era da aula de Educação Física, principalmente nesse dia, porque eu não queria trocar de roupa pra fazer a aula de Educação Física; e eu tava na quarta série, nessa época. E quando era passeio, dia de passeio.

 

P/1 – E na juventude, que é que você fazia na adolescência?

 

R – Eu fazia cursos. Eu estudava ainda à noite [e] fazia um curso de manhã, que era de telemarketing e teatro, de manhã. À tarde, eu trabalhava pro KFC, meio-período, de atendente; e à noite eu estudava no Rivadávia Corrêa, na Central. E daí, depois desse dia também, minha mãe não me privou mais de nada, porque ela sabia que qualquer coisa que acontecesse comigo, minha professora já tava de olho que ia ser ela e podia me mandar pro Conselho Tutelar. E então, daí, depois, ela ficou me apoiando, falou: “É isso mesmo? Você quer isso? Você vai estudar, vai fazer curso”, começou a me apoiar. Assim, eu amo minha mãe, eu amo ela, mas o que eu sou hoje devo à minha tia, que o tempo que eu tava com a minha mãe, que eu precisei da minha mãe, ela não tava comigo - eu não sei nem onde ela estava. E minha tia que me acolheu, o que ela tinha, ela dividia comigo, entendeu? E é isso.

 

P/1 – E aí você foi numa festa, assim, festinha?

 

R – Ia sim, mas só próximo, ali. Meia-noite era a hora certa; meia-noite, uma hora, tinha que estar dentro de casa. Só quando eu fiz os catorze anos, que quando eu comecei. Aí tinha baile aqui no, na Praça Américo Brum; essa minha tia que me criou, sempre ia. Ela me ligava e falava: “Vem, sobrinha. Se arruma e sobe”. E minha mãe falava: “Não vai, não vai”. Ela [tia] falava: “Deixa eu falar com a tua mãe”, Quando ela falava com a minha mãe, aí a minha mãe pegava e deixava; eu subia, mas três horas tinha que estar dentro de casa, no horário certo. Se não tivesse, ia ficar um mês sem sair, dois meses sem sair; aí eu morria. Mas aí, fazer o quê?

 

P/1 – E foi nessa festa que você conheceu esse...?

 

R – Foi num baile.

 

P/1 – Você já tinha tido namorado até então?

 

R – Antes disso, eu tinha, tinha tido namorado.

 

P/1 – Você lembra do seu primeiro namorado?

 

R – Lembro.

 

P/1 – Como que foi?

 

R – Ah, foi numa festa também na casa dessa minha tia que me criou; uns amigos do meu tio, dessa minha tia. Não, eles começaram a zoar, falar que eu tava bonitona, não sei o quê, não sei que lá e aí minha tia falou assim: “Lidiane, tenho que te apresentar”. Porque minha tia também [era] assim, ela fechava comigo  muitas coisas que eu contava pra ela. Então, ela fechava comigo. Ela me disse: “Tem um menino que ta apaixonado por você”. Aí eu: “Quem, tia?”, “Luis Henrique”. Eu: “Luis Henrique?”. Ela: “É, Luis Henrique. Ele não mora aqui, não; veio morar aqui agora”. Aí fui, eu conversei com ele; aí rolou beijinho. Minha mãe não queria deixar, depois ela deixou. E minha tia, quando minha tia falava com ela assim; quando eu falava, ela não queria me escutar, mas quando minha [tia] Dani e o meu tio Fernando falavam com ela, ela escutava. E quando eles conversaram com ela, ela falou que tá. Mas era ele indo me buscar na porta da Escola, me trazendo na porta da Escola, era um beijinho e tchau; ele não ficava na porta, nada demais. Que aí foi com, depois disso eu também não namorei mais. Aí eu fiquei sofrendo, fiquei com medo de sofrer ainda mais. Foi quando fui me relacionar com um garoto sério, que eu morei com ele; eu tinha catorze anos. Aí ele começou a morar lá em casa, fez obra, botou tudo, trabalhava; porque eu não trabalhava, só estudava. Mas aí vivi com ele três anos. Minha mãe, era a casa da minha mãe, só que eu tinha um quarto; ele começou a morar lá e ele morou num quarto comigo, fez obra lá, botou as coisas e nós fomos morando durante três anos. Quando eu fiz dezoito anos, ele foi embora. Nós terminamos e ele foi embora.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Por quê? A história é assim: porque ele tinha, era envolvido...

 

P/1 – Envolvido com quê?

 

R – Droga, com boca de fumo. Ele usava um tipo de droga; hoje eu não sei, porque eu não falo com ele. Mas tinha envolvimento com tráfico. Aí ele ainda era envolvido quando a UPP veio pra cá, então todo mundo que era daqui foi pra outro morro; ele foi junto. Aí nós nos separamos por causa disso, porque ele queria ir e me levar, eu falei que não ia, que eu não tinha participação de nada. Eu sei que eu amava ele e ele me amava também; mas eu mandei ele escolher: ou a vida dele, que ele já tinha há muito tempo, ou a que ele tinha começado comigo há três anos. Ele falou que ele ia ver como é que ia ficar a nossa situação; foi embora, falou: “Vou mandar meu telefone”, pra eu ligar, mas eu não liguei, não corri atrás. Hoje, ele voltou, me perturba, mas eu não quero mais.

 

P/1 – Ele voltou pra onde?

 

R – Voltou pro morro.

 

P/1 – Tá aqui?

 

R – Tá aqui, trabalha.

 

P/1 – Mas ele é envolvido ainda?

 

R – Não, agora não é mais não.

 

P/1 – Mas quando você casou com ele, ele era?

 

R – Assim, que eu sei. Quando eu fiquei com ele, ele era. Depois que eu fiquei.

 

P/1 – Que é que; sua família sabe disso?

 

R – Ah, ninguém; pô, se pudesse, não sei, matar, o que seria. Minha mãe queria me botar pra fora de casa, mas daí eu conversei com ela. Porque na hora, minha tia, meu tio, minha avó, todo mundo virou as costas pra mim. Então, a única pessoa que eu tinha ali era minha mãe. Eu conversei com ela, falei: “Mãe, não é assim; não sei o quê”. Minha mãe falou: “Você escolhe: ou sua mãe, sua família ou ele”. Eu fiquei naquela porque eu tava na adolescência também; eu, pra mim. Tipo assim, eu tive meu primeiro namorado, mas pra mim ele foi meu primeiro amor. Então eu falei: “Mãe, não é assim; vamos conversar”, e sentamos. Aí ele foi até minha casa, conversou com a minha mãe; foi aí que minha mãe deixou. Aí foi, minha família aos poucos foi se apegando; aí começou a falar com ele hoje. Quando eu fui ver, todo mundo já tava apoiando, entendeu? Tava e não tava. Tipo, tava assim do meu lado, porque eles gostavam de mim, não queriam me ver sofrer, estavam do meu lado; mas do lado dele, se não pudesse falar com ele, não falava. Eles chegavam lá em casa, ele tava lá, aí cumprimentava. Aí depois disso tudo que aconteceu que ele foi embora, ele foi, eu comecei a trabalhar.

 

P/1 – Mas ele o que, ele vendia?

 

R – É, não era... Tipo assim, eu não era bem ligada no que ele fazia. Eu sabia que ele tinha envolvimento, mas não sabia o que ele fazia.

 

P/1 – Dentro de casa não?

 

R – Não, não via nada. Ele chegava em casa normal, dormia, comia, saía, voltava; normal. Nunca chegou com nada dentro de casa.

 

P/1 – Alguma vez foi Polícia na sua casa?

 

R – Não, nunca. Só, assim, quando era... Era assim, teve uma época que tava tendo muita operação no morro. Aí aonde que eu morava, no AP - que o apelido de lá era AP -, eles revistavam, entravam na casa de todo mundo ali, mesmo. Aí entraram na minha também, mas só entrava, olhava assim e perguntavam quantas pessoas moravam. Se ele não tivesse em casa, perguntava quem morava lá, onde estava e saía; normal. Mas nunca foi lá com denúncia, nada.

 

P/1 – Você tinha medo?

 

R – Eu tinha medo, muito medo; tanto que quando me falavam que a operação no morro tava trabalhando, eu ligava pra minha mãe e falava: “Mãe, vem pra casa”. Minha mãe falava: “Não, não vou ir. Lidiane, tô trabalhando, não posso sair daqui. Por que, houve alguma coisa?”, “Não, mas olha só, os polícias tão chegando aqui no morro, vai ter operação”, “Não, mas não tem nada a ver; se eles pedirem pra entrar aí, você abre a porta, deixa eles entrar direitinho. Você entra atrás pra ver, [deixa] eles olharem e depois eles vão sair. Você tranca a porta de novo, fica dentro de casa com seus irmãos me esperando”, “Tá bom”.

 

P/1 – E aí quando veio a UPP, ele quis ir embora por quê?

 

R – É porque ninguém ficou, eu acho. Se ele ficasse, ia ser pego. Então foi embora todo mundo, e ele foi atrás - ele teve a escolha. Ele teve duas opções: ou ficar comigo ou ir embora; ele quis ir embora. Eu ia fazer o quê? Ia prender ele? Não tinha como. Aí ele foi.

 

P/1 – Você gosta dele ainda?

 

R – Não, ainda tenho uma coisa bem no fundinho do coração por ele, mas gostar e voltar, eu acho que não rola mais. Porque, pra mim, o que eu vivi quando eu comecei a viver com ele, eu ainda era uma criança. Vamos supor, uma adolescente, mas não tinha mente, eu tinha catorze anos, [e] ele tinha 24, 23. Então, não tinha mente. Pô, pra mim, eu tava apaixonada e ele também tava por mim, fiquei com ele mesmo. Aconteceu de ir morar junto, moramos juntos e deu no que deu, terminamos. Hoje em dia, não; tenho vinte anos, já sei o que eu quero e pode vir com o papo dele que for, que ele não vai virar minha cabeça de jeito nenhum. Antigamente, podia haver chances, porque eu ainda era novinha, eu gostava. Ainda tinha um sentimento por ele grande, que ele tinha ido embora, que ele podia voltar; antes, ao contrário, eu acreditava. Mas hoje em dia, não; cresci e aprendi.

 

P/1 – E como é que você ficou sabendo do projeto, o Favela Point?

 

R – Minha mãe fazia um curso, Mulheres da Paz.

 

P/1 – Que curso que é esse?

 

R – Essas meninas todas de lá da Favela Point todo mundo fez, só eu e a Ana Carla que não. Elas faziam pra andar no morro e mostrar os jogos pras meninas, pros meninos não se envolverem no tráfico; [e] as meninas não terem filho novas, cedo demais. Era isso, pra mostrar o que elas já sabiam, passar pra uma pra adolescente, pras adolescentes. Aí minha mãe ficou sabendo. Só que minha mãe não sabia de quantos anos era. Minha mãe perguntou pra uma senhora, a senhora falou, explicou; aí ela chegou em casa e me avisou. Eu falei: “Ah, mãe, vai ser amanhã. Eu tenho que ir pro curso de manhã e tenho que trabalhar”. Ela falou: “Não, mas é à noite”. Aí eu fui à noite, vim aqui que foi aqui na Praça Amarela, que foi a inscrição - é uma reunião que teve aqui na Praça Amarela. Depois, eu fui na inscrição e me inscrevi e to aqui até hoje; adorei tudo.

 

P/1 – Como que era quando você chegou lá? Quantas pessoas eram, como é que estavam?

 

R – Eram 25 mulheres; aí foi abaixando pra 24, dezesseis, dezoito, quinze. No final de tudo, ficou... Ainda quando teve, porque teve tipo um passeio, uma reunião num hotel, que eu não fui, mas as meninas que foram falaram que ainda tinham umas quinze mulheres, catorze. E hoje tão com sete; acabou com sete. Acabou e começou.

 

P/1 – Por que é que as pessoas foram desistindo?

 

R – Porque a maioria das mulheres tinha sua família. A reunião só era à noite; então tinham suas família, seus filhos. Era muito difícil, às vezes. Tinham as mulheres que tinham seus maridos, mas que trabalhavam, então não tinham... Era só ela, não tinha ninguém pra ficar com as crianças; não podia ir. Aí foi abandonando. Quando dava, ia; quando não dava, não ia. Depois, quando foi ver, já tava com uma frequência alta de faltas; aí conversamos. Aí quando viu que não dava pra concluir, parou no meio do caminho. 

 

P/1 – E aí, o que é que vocês decidiram fazer? Era pra fazer algum curso, era pra gerar dinheiro?

 

R – É, e aí foi passado pra mim que ia ter essa aula de capacitação e a Chevron ia entrar com o apoio que nós tínhamos que abrir esse negócio. Aí nós apostamos na pastelaria; começamos a trabalhar, pesquisar. Mas, na pastelaria, as coisas que nós íamos comprar eram caras demais e não ia ter lucro. Aí pensamos no mercadinho; também não deu. Depois, aí, quando nós estávamos pensando na pastelaria, que já surgiu o mercadinho, nós já ficamos naquelas de procurar um local. E aqui em cima, como têm essas obras, não tinha local nenhum pra alugar ou pra comprar. Foi muito difícil. Aí a última coisa foi a Favela Point, três em um: bar, restaurante e lanchonete; que aí nós decidimos ficar mesmo. Fechamos e aí começamos só a ir atrás de lugar, local e comprar as coisas. Pesquisamos na internet e no Mercado de Madureira, na cidade; na Uruguaiana, ver quanto é que estavam as coisas - fez pesquisa de tudo. Aí tinham três lugares: um era muito pequeno, que era lá na frente, lá perto do Cruzeiro; o outro é aqui do lado do bar mesmo, na Favela Point, mas só que tinha uma obra imensa pra fazer. Então, a maioria do dinheiro ia tudo pra obra, uma obra imensa, porque lá era uma situação precária mesmo. Aí foi quando o homem anunciou que tava alugando esse bar. Eu não sabia porque eu morava lá embaixo, as meninas daqui de cima é que sabiam. Foi quando conversou com ele, ele topou; aí chamamos a Eliana pra conversar e ela falou: “Vocês que sabem, eu to aqui pra escutar. Vocês querem? Acham que vale a pena fazer uma obra [e] que aqui vai dar dinheiro?”. Então, ali nós já sabíamos que ele já era um ponto, entendeu, dele. Ali, cliente bebe até de manhã - eu já sabia -, então nós pegamos a clientela dele, praticamente. Aí nós decidimos ficar, fizemos a obra e estamos aí até hoje, bombando.

 

P/1 – Nesse período todo, teve algum momento que você pensou em desistir?

 

R – Não.

 

P/1 – Isso nunca te passou pela cabeça?

 

R – Em desistir? Não.

 

P/1 – Que é que mudou na sua vida desde que você entrou nesse projeto?

 

R – Ah, mudou muitas coisas, porque eu não sabia, assim, como administrar um dinheiro; eu não sabia. Quando eu trabalhava, via um dinheiro: ia comprar roupa, sapato e ia botar uma comprinha lá na casa porque sempre - eu moro sozinha desde os 17 anos. Então, era pra comprar roupa, sapato, pagar as contas que tinha; e o dinheiro ia embora assim. Agora, não, é por mês. E até aqui é uma coisa nossa. Então, nós temos que ver o que tá saindo e o que tá entrando; tem que ter lá a conta de tudo. Eu não era muito boa nem de conta, eu vou falar. Agora eu tô o máximo de conta; é conta pra lá, é conta pra cá. Às vezes, eu já to até viciada em números. Então, mudou muita coisa. Calar, ouvir mais, que eu não sabia; os outros falavam, eu queria falar junto com os outros. Eu falava: “Não, mas é assim”, e os outros falavam que era assado, mas eu falava junto. Agora, não; eu calo, ouço, analiso se é isso mesmo, pra responder.

 

P/1 – E quais são as suas perspectivas? Assim, que é que você pensa em relação ao projeto, que é que você espera dele?

 

R – Ah, que como ele, tipo assim, veio, tá ajudando muita gente; que possa ajudar em outras comunidades também que precisam muito - que isso aqui é muito bom pra gente. Então, não sei nem como dizer. Eu tô muito feliz de estar participando desse projeto, de estar até hoje - não quero sair. Eu tô, eu larguei, tinha um outro curso que eu fazia; que eu ia começar, mas nem comecei. Eu quis ir de cara, de tudo. Tô esperando me estabilizar que eu acho que eu também ainda não estou estabilizada. Tô esperando me estabilizar mesmo pra viver um tempo. Quando eu começar a estudar de novo; eu vou arrumar um estudo, que eu parei na 8ª série. Falta pouco, mas tem que, é, querer.

 

P/1 – Você acha que esse projeto, de alguma maneira, mudou alguma coisa na comunidade? O que é que ele trouxe pra comunidade?

 

R – Ah, trouxe, aqui em cima quando dá dez, onze horas não tem mais bar nenhum aberto; é só lá pra baixo, lá no asfalto; ou bares que ficam até uma hora, é, ali no Barroso. Onde eu moro, tem uma lanchonetezinha aberta ali, mas às vezes eles não têm horário nem pra abrir [e] nem pra fechar. Às vezes abre uma hora, fechar outra. Não tem um horário certo. Aqui nós temos um horário certo pra, todo mundo sabe; quando dá, pode dar três, quatro horas de quinta-feira a sábado. Eles estavam três, quatro horas; nós ainda não estamos fechados, tá aberto ainda.

 

P/1 – Três da madrugada?

 

R – Da madrugada; nós estamos abertos às seis, oito horas, estamos aí virando com os clientes. Agora, [de] segunda-feira a quarta-feira, quando dá uma, duas horas, nós fechamos. Eles já têm na cabeça: “Ah, hoje eu vou na Favela Point porque tá aberta”, eles já têm noção. Agora, os outros bares abrem quando querem, fecham quando querem. E não tem um lugar pra se mostrar. Aqui em cima, nós fazemos lanche, nós fazemos bolo, fazemos de tudo; tanto pra comer como pra beber.

 

P/1 – E o que é que mudou com a UPP aqui?

 

R – Pra mim, só foi, assim, estar a UPP aqui, no caso, com o governo, que entrou as obras também, que não tinha. Agora, tá ficando tudo bonitinho; foi isso [o] porquê.

 

P/1 – E a questão do tráfico, das drogas?

 

R – Ah, você não vê mais arma na mão dos traficantes, vê na mão dos policiais; mas tráfico ainda continua, gente. Pra mim, eu acho porque às vezes eu passo no beco e vejo um ou outro gritando: “Não sei o quê, não sei o que lá”. Mas é difícil também ver, porque a UPP fica rondando pra lá e pra cá. É difícil ver, mas que acabou não acabou, entendeu? É escondido, mas tem. É isso.

 

P/1 – Tem algum fato marcante, assim, no projeto, que você queira contar? Um dia ou alguma coisa que aconteceu?

 

R – A viagem em Teresópolis.

 

P/1 – Como foi?

 

R – Ah, foi uma coisa lá, então, linda; foi muito bom. Porque eu sempre falo: “Ah, vai ser assim”, não contava com, que era; mas também...

 

P/1 – Mas conta, que viagem que é essa? Como que foi?

 

R – Foi a Teresópolis; nós fomos, ficamos três a quatro dias.

 

P/1 – Quem foi, quem convidou? Como que foi?

 

R – Quem convidou foi a, eu acho que foi o Fundo; eu não lembro muito se foi o Fundo. Mas já tinham levado as outras meninas. Nesse dia, foram todos os projetos: Batan, Borel; foram todas as meninas junto com a gente. Aí chegou dentro do ônibus, nós conhecemos todo mundo. Aí eu já, vamos logo pro meio da rua que a gente não sabia onde estava o ônibus; nós andamos naquela Central de um lado pro outro, nós fomos lá e encontramos o ônibus. Chegamos lá e eu não conhecia as meninas. As outras seis da Favela Point, conhecia. Do Batan, do Borel, conheciam as meninas todas. Só eu que não conhecia, porque ainda não tinha visto. Aí, nesse dia, eu conheci todo mundo. Foi muito bom, conheci as meninas de outros lugares. Passamos, eu passei, no caso, o que nós sabíamos pra elas e o que elas sabiam, elas passaram pra nós. Nós tivemos várias aulas assim de... De manhã, quando nós acordávamos depois do café, tinha um tempo tipo pra relaxar, ficar conversando sobre a vida, fazia algumas pesquisas, andava por lá. Ah, foi muito bom, muito bom mesmo. Essa viagem foi marcante. Mudou muito, porque nós conhecemos a vida, assim, um pouco da vida de cada uma e elas conheceram a nossa.

 

P/1 – Mas essa viagem, vocês fizeram pra que, pra treinamento?

 

R – Foi pra, assim, dialogar, no caso. Nós fomos.

 

P/1 – Mas vocês já tinham decidido fazer o Favela Point, foi antes ou depois disso?

 

R – Não, foi; nós ainda não tínhamos decidido o Favela Point, não. Sabíamos que já ia ter três em um, mas nós não sabíamos que [o nome] ia ser “Favela Point”. Nós sabíamos que ia botar Favela, mas o outro nome nós não sabíamos. E nós estávamos indecisas – ao mesmo tempo que nós tínhamos certeza do Favela Point, no caso, o “três em um”... No caso, não era “Favela Point, três em um”; nós queríamos voltar pra pastelaria, nós queríamos insistir naquilo [mesmo] sabendo que não ia dar, mas nós queríamos tentar. Então, nós fomos pra lá e quando nós viemos, fomos lá, parecia que nós flutuamos. Quando nós voltamos, nós voltamos decididas: “Vai ser Favela”. Aí ficamos, botamos Point, não sei o quê, não sei o que lá; aí decidimos Point e o “três em um”. Aí, foi daí que nós começamos. Lá, nós decidimos mesmo; que nós vimos a dificuldade de cada uma, de cada uma comunidade que teve. E que nós íamos ter muito mais do que nós pensávamos que nós já estávamos tendo; não, nós estamos tendo agora - agora que nós estamos começando. Elas já tinham passado tudo que nós estamos passando agora. E quando nós viemos, já viemos com a cabeça aonde que ia fundar, o que ia fazer. Nós já viemos com o nosso foco.

 

P/1 – E de todas as coisas que têm pra fazer, das atividades que têm no restaurante, qual que você... Você faz algo específico ou todo mundo participa de todas?

 

R – Não, todo mundo faz toda; mas eu, no caso, sou o horário da noite e, às vezes, nós ficamos de madrugada. Mas, sou eu, a Janice e a Sônia. Aí a gente faz bolo... Por exemplo, ela faz bolo, mas não sabe fazer o açaí; o meu açaí sai mais gostoso. Às vezes, chega o cliente lá e fala: “Ó, eu quero o açaí da Lidiane”, aí eu tenho que fazer. A Sônia sabe fazer pizza, a Janice sabe fazer empada. Cada uma sabe fazer um pouquinho de cada coisa, entendeu? E o que eu não sei, elas me passam e eu passo pra elas. Ali nós trabalhamos em grupo, uma passa pra outra pra não ficar pesado pra ninguém; todo mundo trabalha igual.

 

P/1 – Se você, olhando pra trás na sua vida, pudesse mudar alguma coisa, mudaria ou faria tudo igual?

 

R – Mudaria algumas coisas.

 

P/1 – Que é que você mudaria?

 

R – Não largava os estudos, que eu larguei; não abandonava a escola. Ah, acho que só isso mesmo.

 

P/1 – Mas você pode voltar.

 

R – É, mas eu vou voltar. Se eu pudesse voltar atrás, eu não largaria; mas já que aconteceu, foi de acontecer. Mas agora eu vou voltar a estudar, vou terminar.

 

P/1 – Qual que é o seu maior sonho?

 

R – Eu queria ser estilista, mas agora...

 

P/1 – Queria ser o quê?

 

R – Estilista. Mas eu mudei, eu queria focar numa área de Medicina, Pediatra; só isso.

 

P/1 – Que é que você achou de dar seu depoimento pra esse projeto, contar sua história de vida?

 

R – Achei muito importante, porque é difícil eu conversar. Praticamente, eu contei a minha vida toda  do começo ao fim. E é difícil eu parar pra conversar com alguém e falar a minha vida toda. Eu conto um pedacinho aqui, um pedacinho ali, ponto final; nunca conto assim direto. Pulamos alguns obstáculos, mas focamos. Foi mais marcante. Eu nunca conto assim direto e adorei.

 

P/1 – Queria agradecer. Muito bonita a sua história.

 

R – Obrigada.

 

P/1 – Obrigada.

 

[Fim do depoimento]

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