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Rumos de experiências e realizações

História de: Antonio Roque
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/07/2010

Sinopse

Antonio conta em sua entrevista como era a infância à beira do rio Tietê, quando ajudava seu pai a pescar e transportar materiais de construção. Além disso, relata como se dava a venda dos peixes conciliada às brincadeiras do tempo de menino e aos estudos.  Conheça também sua paixão pela música e por sua esposa.

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História completa

P/1 – Senhor Antonio, boa tarde!

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Obrigada por ter vindo ao Museu para dar sua entrevista. Eu queria começar pedindo para o senhor falar de novo o seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R – Meu nome é Antonio Roque.

 

P/1 – Antonio Roque. Local e data de nascimento?

 

R – São Paulo, capital. Bairro Vila Guilherme.

 

P/1 – E no dia?

 

R – O dia é 6 de janeiro de 1939 no documento.

 

P/1 – No documento?

 

R – É, porque eu nasci um pouquinho antes.

 

P/1 – Conta um pouquinho essa história pra gente, como é que foi isso?

 

R – É que lá se registrava assim. Muitos filhos, tinha onze filhos, tenho dez irmãos, então é complicado.

 

P/1 – E o senhor sabe o quanto mais velho é da data do documento?

 

R – Acho que meses.

 

P/1 – Meses. E qual é o nome dos seus pais?

 

R – José Roque, (Vassilissi?) de Jesus.

 

P/1 – E o senhor sabe a origem deles?

 

R – Portugueses.

 

P/1 – São portugueses. E como é que eles vieram?

 

R – Vieram fugidos de lá quando trocou o regime.

 

P/1 – E o senhor sabe como é que foi essa viagem?

 

R – Eu sei. Foi em um navio, no porão de um navio.

 

P/1 – No porão de um navio?

 

R – É.

 

P/1 – E o que eles faziam lá em Portugal?

 

R – O meu pai era pescador.

 

P/1 – E onde eles viviam?

 

R – Viviam perto de Mira, perto do Porto. É um lugar chamado Gafanha.

 

P/1 – E o senhor sabe como seus pais se conheceram?

 

R – Não, não tenho ideia.

 

P/1 – Não tem ideia. Eles já vieram pra cá...

 

R – É. Naquele tempo não se conversava com os pais, ninguém falava nada. Não dava pra você fazer pergunta que valeria pra hoje. Não tinha chance de perguntar nada.

 

P/1 – E então seus pais vieram de Portugal pra cá e foram pra onde?

 

R – Foram para ali na... Beirando o Rio Tietê. Na Ponte da Vila Maria, para o lado de baixo. Moraram sempre por ali, sempre perto do rio, porque o meu pai aproveitava e também exercia a profissão de pescador no Rio Tietê. E a vítima, o remador, era eu.

 

P/1 – O remador?

 

R – Era.

 

P/1 – Então o senhor passou a sua infância na Vila Guilherme?

 

R – Na Vila Guilherme, na beira do Rio Tietê.

 

P/1 – E o senhor pode contar pra gente como é que era um pouquinho esse cotidiano do trabalho de ajudar o seu pai de remeiro no barco?

 

R – Bom, nós fazíamos transporte de tijolos das olarias que eram lá para o lado de São Miguel, pra frente de Guarulhos. E nós tínhamos um barco, chamavam de “batelão”, um barcão, porque tinha os barcos menores. A gente transportava cinco mil tijolos, e vinha de lá porque não tinha estrada, era o rio que funcionava. Ele serpenteava e vinha até aqui onde hoje, muitos lugares, mas onde hoje passa o metrô; ali tinha uma Estação Areal do trem, aquele Cantareira. A gente chegava até ali.

 

P/1 – E quanto tempo demorava essa viagem?

 

R – Ah, isso aí era demorado. A gente pegava o tijolo de madrugada na olaria, devia demorar uma hora e pouco pra chegar aqui, porque o barco andava sozinho, o rio corria, não era como hoje, um rio morto. O barco vinha sozinho. O pessoal vinha só fazendo a manobra, então não era fácil não, muitos afundavam, porque o rio tinha lugares que jogava água pra dentro do barco. Tinha uma certa proteção, mas às vezes não era o suficiente, então era um prejuízo danado.

 

P/1 – E o senhor se lembra de alguma viagem nesse barco que foi marcante?

 

R – Não tem nada assim marcante. Eu lembro uma coisa marcante, mas quanto à minha pessoa (risos). Aí é um detalhe, não sei se adianta contar.

 

P/1 – Claro que adianta.

 

R – Eu era pequeno nessa época e o tijolo era colocado em cima em um, chamava-se no porto, um porto. Eu fiquei no intermediário, um irmão jogando tijolo pra mim e eu jogando... E o tijolo não era esse pequenininho que a gente vê hoje, ele era um enorme. Eu tenho uma lembrança em casa, eu tenho um deles. Então eu me cansei, era um moleque fraco, e o pessoal ficou rindo, ficou rindo, e eu larguei o serviço e vim embora. Então essa é a lembrança triste, porque eu levei uma surra daqueles paus de cambuí que chamam, de acender fogo de padaria. Eu levei uma surra com aquilo lá.

 

P/2 – Nossa.

 

R – A minha mãe que falou: “Você vai matar o menino”, e ele então parou, se não... E era assim que funcionava. E pra mim serviu, porque foi uma lição, eu sempre trabalhei na minha vida. Acho que eu fiquei com medo e trabalhei até pouco tempo agora. Todos na minha casa, todos trabalharam. Era uma lição, ele soube dar a lição dessa forma.

 

P/1 – Então vamos voltar um pouquinho. O senhor tem dez irmãos, e como é que é mais ou menos a ordem?

 

R – Eu sou o caçula.

 

P/1 – O caçula?

 

R – Caçulinha.

 

P/1 – E quantos anos mais velhos são os seus irmãos?

 

R – Ah, tem um deles que vai fazer noventa anos agora.

 

P/2 – Noventa anos.

 

R – Esse ano aqui faz noventa anos. Nasceu em 1920, é o mais velho. Os outros quase todos já embarcaram.

 

P/1 – E como é que era o cotidiano na casa de vocês com os dez irmãos?

 

R – Era uma luta, porque a gente trabalhava nesse tijolo, tinha uns que tiravam areia, porque a Vila Guilherme era um lago só, naquele tempo não tinha quase casas, então todo lugar tinha uma lagoa pra ser tirada a areia. E funcionava assim: uns trabalhavam naquilo, trabalhavam na areia. O meu pai era pescador e eu era remador naquele tempo no Tietê. Todo mundo tinha sua ocupação. Depois passaram essa fase, aí o pessoal já entrou em fábrica, essas coisas, começaram a trabalhar. Não era fácil, não. Aí já modificou um pouco. Quando consertaram o rio, bom, a gente já não estava há muito tempo porque não tinha mais peixe, tinha uma fábrica em São Miguel Paulista que é a Nitro Química, dizem que ela foi – não posso dizer aqui porque eu não... – mas dizem que ela foi a principal causadora da mortalidade dos peixes. O que aparecia de peixe morto, coitados. Os últimos que morreram lá foram os bagres, que eram mais resistentes, bagrinhos. Mandi, mas dava uma dó, porque eu cheguei a beber água do Rio Tietê. No fim acabou tudo, o rio morreu. Tem um peixe no Tietê agora, eu vou contar isso aqui, se alguém tiver, se alguém vir, vai pensar que eu estou brincando, mas há uns meses atrás eu estava em cima da ponte da Vila Guilherme e vi que tinha peixe no rio. Saía uma água de uma tubulação, isso é na Ponte da Vila Guilherme mesmo, do lado do Pari, então, tinha uma tubulação soltando água e tinha uns peixes ali que eles tentavam pegar aquela água mais limpa. É uma espécie de peixe quase que nem o Cascudo, alguém deve estar, se me ver falando vai saber o que eu estou dizendo. E tinha vários lá, eu percebi porque eles pulavam; eles estavam na agonia de certo ali, ou pegando alguma sujeira que vinha da tubulação. Bom, eu sei que no fim das contas tinha um pessoal limpando, varrendo a ponte ali, varrendo, pintando. Eu chamei o sujeito e falei: “Você acredita que aqui tem peixe?”. Eles riram de mim, eu falei: “Olha ali! Olha ali!”, eles olharam e viram os peixes pulando. É essa espécie de peixe. Mas depois choveu e aquela coisa rodou e depois eu voltei lá e não vi mais. Mas é, é lógico que se vê que é uma verdade mesmo, mas sumiram os peixes dali. Agora costuma ter ali aquela, aquele, como é que se fala? Aquele... O roedor lá, como é?

 

P/1 – Capivara?

 

R – Capivara. Porque elas fogem daquele parque ecológico e elas, acho que na enchente, elas vêm com a água e ficam por ali. Eu passei na ponte agora, faz três dias e eu passei de bicicleta, eu olhei lá embaixo e vi a pisada de uma, então falei: “Ah, elas ainda estão aí”. Mas a pessoa passa ali e nem percebe uma coisa dessas. Então, mas é porque eles ficam naquela água suja. Agora o negócio de melhorar a água que eles estão falando aí, isso é tudo conversa. Vai ser difícil. Se continuar assim nem daqui cem anos não tem peixe ali.

 

P/1 – E o senhor falou que no começo o senhor ajudava o seu pai a pescar lá, e que peixes que vocês pescavam?

 

R – Eram peixes de água doce.

 

P/1 – Tinha de tudo?

 

R – Saguiru, lambari, o tal de acará, macaré... É acará, que eles chamam. Todos esses peixinhos de água doce.

 

P/1 – E vendiam esses peixes?

 

R – A gente vendia trinta quilos daquilo por dia, porque nós tínhamos um reservado no barco, que ali cabia trinta quilos de peixe, onde a gente colocava uma lanterna de querosene para clarear a pessoa que estava jogando a tarrafa, aquela coisa. Tinha (mandique?), espetava a mão da pessoa, então eles, aquele... Como é que eu estava falando? Bom, era esse tipo de peixe que eu falei. Então agora nas lagoas, assim, em lugar fechado em que a gente pescava com rede, não tarrafa, com rede, aí sim pegava toda espécie de peixe, tinha traíra, essas coisas.

 

P/1 – A sua mãe em casa ficava ajudando, cuidando de toda a família?

 

R – Não. Tem um detalhe, esse detalhe que eu vacilei agora em não falar. Vinha um peixeiro de feira, ele vinha com o carro de manhã cedo buscar o peixe, mas tinha dias que o cara não vinha, ou tinha peixe, ou não ia na feira, que era aqueles carros antigos... Naquele tempo já tinha carro velho. Então ele vinha buscar esse peixe, mas tinha dias que não, não sei o que acontecia, e aquele peixe ficava ali e eu e minha mãe tínhamos que procurar uma feira pra vender, numa esquina. A minha mãe, coitada, já idosa, e ela pegava, arrumava um prato lá, um prato com qualquer pessoa e vendia o prato cheio, até acabar o peixe, até acabar, vender tudo pra vir embora. Não era fácil. Inclusive isso aí que dificultou os meus estudos. Eu comecei a estudar com dezesseis anos.

 

P/1 – Bom, o senhor falou também que bebia água do rio. Tinha outras atividades que vocês faziam no rio? Iam nadar...

 

R – Olha, naquele tempo tinha natação, tinha lá uma corrida, uma natação que o pessoal saía da Ponte da Vila Maria e ia até a Ponte das Bandeiras a nado. Fora corrida de barco, aqueles barcos que, não sei o nome daquilo lá, chamavam de sangolim, não sei por que, se é nome mesmo, e eles faziam esse trajeto. E o Corinthians também tinha embarcação, só que eles não vinham pra baixo, porque a água ali tinha uma, perto da Goodyear ali a água corria muito, então se o cara vem com um barco daquele ele afundava e ficava ali pro lado da ponte de Guarulhos, eles subiam, eles nunca desceram. E tinha o Tietê, tinha o Clube Esperia, que eles faziam esse tipo de...

 

P/1 – E o senhor chegou a participar de alguma dessas?

 

R – Eu? Não, porque era garoto, moleque. Mas os meus vizinhos lá, o pessoal, eles... O que eu fazia muito era atravessar o Tietê a nado. Eu tinha sete anos e nadava, atravessava o rio. Atravessava, desatravessava. A nossa brincadeira era essa, mais dentro d’água do que outra coisa.

 

P/1 – Então estavam aí, dentro d’água, quais suas brincadeiras favoritas quando era menino, foi crescendo?

 

R – Não, a gente brincava também... Essas brincadeiras todas de moleque, a gente fazia tudo isso. Tinham aqueles carrinhos de rolimã, aquelas que a gente fazia aquele barulho. Hoje a turma faz lá na minha casa e eu não gosto, mas eu já fiz isso para os outros. É, fazer o quê? Então, mas tem uma passagem de quando eu pescava com o meu pai que eu posso contar aqui porque eu acho interessante essa passagem. Não estou perturbando? Falando nada demais?

 

P/1 – Não, o senhor está aqui para contar histórias pra gente.

 

R – Não. Uma ocasião, porque naquele tempo não tinha a Rodovia Dutra. Da Ponte da Vila Maria até a Ponte da Vila Guilherme era um matagal. Um mato fechado. Bom, então eu estava pescando com o meu pai pro lado de cima da Ponte da Vila Maria, perto da Goodyear, ali tinham umas lagoas e eu estava pescando, e por infelicidade eu sentava no barco como eu estou aqui e eu deixei cair a caixa de fósforos na água, quando meu pai pediu pra acender o cigarro eu não estava mais com a caixa, aí o que o meu pai fez? Mandou encostar o barco, me cutucou com um varejão de tocar barco, não sei se vocês já ouviram falar, que tem uma coisa na ponta, ele me espetou com aquilo lá, me bateu, e eu desci do barco e ele ficou sentado. Eu fui até a minha casa, eu andei uma meia hora no meio do mato, abrindo o mato, fui em casa, buscar uma outra caixa de fósforo. Aí minha mãe falou assim: “Olha, leva duas e põe outra no barco, no outro bolso, se não a coisa vai ficar feia. É capaz de ele te matar lá”, falei: “Tá bom”. Então isso serviu pra mim depois, no passar dos anos eu vi que serviu, porque eu tenho pavor de cigarro. É, serviu pra alguma coisa.

 

P/1 – Como que foi a parte de juventude? Os namoros, as saídas?

 

R – Ah, a gente ia a parques de diversões. Naquele tempo eu tinha uma namoradinha lá em um parque, que quantas vezes eu queria ver essa namoradinha, que a gente era apaixonado. Eu queria ver essa garotinha, menina, lá no parque, eu sabia que ela estava lá, e eu estava passando dentro do “Tietêzão” remando o barco com o maior desgosto. Não é fácil não. Então tinha esses detalhes assim. Mas eu fazia brincadeira, era... Toda que se usa hoje, sem ser a computação, então fazia tudo.

 

P/1 – E o senhor tinha amigos no bairro?

 

R – Tinha, porque eu sempre joguei futebol, desde garoto eu participava de clubes lá. Eu joguei bastante futebol, até pra firmas, pra empresa aqui de São Paulo eu participei. Até a última foi essa, posso falar o nome? Pássaro Marron; eles vinham me buscar em casa, coisas que eu não devia ser muito mau jogador, pra eles virem... Mas sempre na várzea.

 

P/1 – E com esse grupo de amigos vocês jogavam bola, saíam?

 

R – Ah, sim, normal. Naquele tempo a gente não ia ao cinema, pra ir ao cinema tinha que botar gravata e nós lá andávamos de tamanco. Sabe aqueles tamancos de pau, não existe, lógico, mas a gente andava com aqueles tamancos na beira do rio; por ali só se botava um sapato pra ir em um outro lugarzinho, em um parque de diversões, essas coisas, no cinema não, por causa da tal gravata que lá ninguém usava. Tudo barqueiro, se alguém visse a gente de gravata ia dizer que o cara era afeminado. (risos)

 

P/1 – Bom, o senhor falou que começou a estudar com dezesseis anos. Como é que foi a escolha de estudar na escola?

 

R – Na escola? Ah, foi tudo bem. Eu estudei. Eu trabalhava em banco nessa época. Fiz, eles falavam Madureza na época, no Sindicato dos Bancários.

 

P/1 – Calma, vamos ver, pulamos um tempão. O senhor estava falando que ajudava o seu pai no barco. Como que foi disso pra ir trabalhar no banco?

 

R – Ah sim, depois eu fui trabalhar no banco, fui caixa, tesoureiro.

 

P/1 – E como é que o senhor foi trabalhar no banco?

 

R – Eu estudei pra isso. Antes eu fui trabalhar na feira e na feira a gente adquire uma prática tremenda, negócio de preço, de peso; a gente pega aquilo lá e sabe quanto custa qualquer coisa e adquire um jeito que eu conto tudo. Estou em um lugar, estou contando coisas. Eu conto, parece uma loucura isso, não sei se é. Eu conto até folha de árvores, eu sei quantas folhas têm. Quando eu vou no estádio eu faço a média, lógico que eu não sei, mas eu faço a média, sei quantas pessoas têm no estádio. Então é uma série de coisas que ficou na cabeça. Eu sempre procurei desenvolver esse lado.

 

P/1 – E a escola quando o senhor era pequeno, chegou a frequentar?

 

R – Frequentei escola. A escola está até hoje lá, chama-se Orestes Guimarães, é no Pari. Eu ia da minha casa à escola, era meia hora a pé, hoje tem gente que demora duas, três horas pra ir na escola, lá pra cima, mas eu demorava meia hora. Mas eu ficava lá ligado em uma campainha que tinha do lado, um sino, pra ir embora pra casa, pra poder encontrar a rapaziada pra ficar naquelas lagoas nadando – que coisa de louco, não? Mas não tinha coisa melhor. Então... Era interessante isso daí. Uma ocasião – porque a gente era barqueiro, sabe? – e barqueiro vivia dentro d’água, mais na água do que fora. Então em uma ocasião a professora, que naquele tempo era exigente, fez eu me lavar. Aquilo foi uma humilhação que eu passei. Ela fez eu me lavar, lavar, por completo em uma torneira lá no pátio. Quer dizer, porque eu andava cascudo. Era assim, a gente não tinha esse negócio de chuveiro, não tinha em casa, a gente tomava banho na lagoa. Mesmo depois quando eu comecei a trabalhar, a gente vinha do trabalho, tinha uma lagoa atrás de casa e tinha um trampolim lá e a gente nadava, mas não era só eu, era todo mundo, as mulheres também, as mocinhas todas faziam isso. Então naquele tempo lá passei essa vergonha na escola. Eu nunca esqueço isso. Fora os puxões de orelha que a Dona Odila me dava, a professora. Mas foi tudo, tudo é, tudo serve na vida, a gente vai aprendendo. Por isso é que vale a pena.

 

P/1 – E então o senhor chegou a trabalhar em feira.

 

R – É, eu trabalhei na feira um tempo e estudava de noite, e foi onde eu adquiri mais ou menos uma certa prática. Eu fui trabalhar até com uma pessoa, não vou falar aqui, eu fui depois chamado pra trabalhar porque eu adquiri prática em umas coisas que eu fazia, a gente tem que ser uma pessoa honesta. E eles me chamavam pra trabalhar com eles, até depois de aposentado ainda; eu passei na rua lá, uma empresa me chamou e falou: “Olha”, que o dono ia morrer aqueles dias, ele não se deu bem na operação do coração e eles me chamaram, falou: “Você quer?”. Eu fui administrar no lugar do cara que morreu aqueles dias. Fiquei trabalhando lá, mas trabalhei dez meses só, porque o dono fazia pouco caso dos funcionários. É um negócio triste aquilo lá que eu vi, que eu peguei, não dava. A pessoa chorava, vinha chorar pro meu lado e eu dizia: “Ah, não sou patrão, não sou nada aqui”. Falava: “Eu não sou nada aqui, eu sou que nem você, mas não sou nem empregado”, porque eu não era registrado.

 

P/1 – Bom, mas o senhor foi registrado no banco. Esse foi o seu primeiro emprego oficial?

 

R – Ah, fui registrado em banco. Eu trabalhei, eu trabalhei... Pode falar os nomes dos bancos? Eu trabalhei no Banco da América, o primeiro banco, que era no prédio Martinelli; trabalhei sete anos ali. Eu conheci até os moradores do prédio, aquelas lojinhas embaixo, tudo aquilo. Depois de lá o Banco Itaú comprou e eu fui trabalhar no Banco Itaú. Tudo, tudo, acho que deu sete anos, incluindo o da América. Mas depois eu pedi pra ser mandado embora, porque eu tinha um terreno, estava em questão judicial e eu queria construir ali pra ficar mais firme na coisa. E eu pedi pra ser mandado embora pra construir a casinha onde eu moro até hoje. Depois arrumei outro emprego em um banco mineiro, Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais, que depois esse banco era do Magalhães Pinto, também trabalhei lá mais uns sete anos e depois me chamaram pra trabalhar, que eu não vou dizer o nome, mas é um homem muito conhecido da televisão, e eu fui trabalhar com ele, administrar um setor lá. E fiquei administrando esse setor lá algum tempo, então eu sei que tinha muita coisa errada lá e eu consegui consertar. Pode falar detalhes?

 

P/1 – Claro.

 

R – Então, eu era uma espécie de... O serviço que eu fazia eu também inspecionava, eles tinham na época umas lojas que estavam dando prejuízo, eu saí pra ver e percebi o que era. Essas fábricas de móveis, esse pessoal, eles não eram cobrados, então o gerente da loja fazia tudo quanto era treta. Aí eu passei a pedir esse dinheiro das lojas, muitas lojas, e para o dinheiro ser levado pra um banco pra turma contar na minha presença. Então aí eu vi que a coisa era feia. Depois sabe o que aconteceu? Tinha um sujeito lá que era o – não tem problema eu ficar falando isso não? – tinha um sujeito lá que eu ia ser transferido para o setor dele. Vocês lembram dos Menudos? Ele era empresário dos Menudos esse cara. E eu via que a turma puxava muito ele e coisa. Eu não gostava daquilo lá, não admito essas coisas. Então eu pedi as férias e fui viajar com a minha senhora pra Bahia. Quando eu voltei, eles tinham me mandado embora. Quer dizer: eu estava pegando no calo do pessoal lá, estava apertando eles, e foi aí que aconteceu. Mas não tem problema, depois eu arrumei outro. Fui chamado pra trabalhar em outra firma porque eu, naquela época, fazia meu salário. Hoje é aquela coisa de currículo, aquela coisa toda, mas era assim: eles me chamavam, mas eu fazia meu salário, se não pagasse o que eu queria eu não ia. Inclusive na última firma que eu trabalhei me pagaram por fora, pra não ir contra os outros funcionários. E sabe o que aconteceu? Eu me aposentei e dancei, porque aí só constava aquilo que eu tinha na Carteira.

 

P/1 – Vendo a Vila Guilherme hoje, de como era na sua infância...

 

R – Então, eu fico olhando, eu tenho um amigo que mora na rua que era uma lagoa, ele comprou uma casa lá. Eu falei pra ele não comprar porque dá enchente, ele falou assim: “Ah, vou te fazer uma surpresa”, eu: “Que surpresa?”, quando fui ver ele tinha comprado lá. Ele pediu para que eu visse uma casa pra ele, mas não ali. Quando fui ver, ele tinha comprado na enchente, e eu falei: “Ah, quem vai ter a surpresa é você”. Na primeira época ele fez uma parede de mais de um metro de altura nesse lugar; lá se chama Vila Pizzotti, na Vila Guilherme. Então ele fez essa... Agora ele arrumou uma bomba, arrumou uma bomba e tira a água que cai do telhado no quintal ele joga pra fora, porque ele fez a parede. Só que tem uma coisa: dois dias ele fica dentro de casa, não pode sair de casa. Então, mas nesse lugar que ele mora eu falei pra ele: “Ó, eu pescava aqui nesse lugar, peguei peixe aqui onde nós estamos”. Eles ficam admirados, porque na Vila Guilherme o pessoal tirava a areia, como eu já falei, então todas aquelas casas que hoje são feitas ali, empresas, coisa e tal, aquilo era tudo lagoa, tudo mesmo. Tem coisa que eu vejo, às vezes eu vejo fotos daquela época e lógico que eu reconheço, mas dá a impressão que não foi ali naquele lugar, que mudou muito, apesar de que aquele trecho da Vila Guilherme é feio. A Vila Guilherme, a parte baixa, não tem nada de bonito não. Tem muitas empresas de transporte, porque não tem morro, é fácil de manobrar os carros. Então não, aquilo vai ficar sempre coisa feia ali.

 

P/1 – E a mudança do rio? As obras?

 

R – A mudança do rio pra nós, na época, foi um transtorno, porque eles tiraram as pontes, então eles faziam com tambores, com tambores de óleo, usando esses tambores de duzentos litros, colocavam um madeirame ali e era a nossa passagem pro lado do Pari. É interessante. E também teve uma época em que tiraram a ponte, que nessa época já tinha ônibus, então ele tinha que dar a volta lá pela Ponte da Vila Maria pra chegar ali. Era um transtorno, porque no tempo que eu era garoto – no tempo da Segunda Guerra Mundial –, a gente... Uma coisa puxa a outra... A gente ficava naquelas filas de pão. A gente ia às padarias e ficava na fila do pão. Assim, ia hoje, por exemplo, lá para as cinco horas e ficava até a padaria fechar e abrir, às vezes lavar, e a gente no dia seguinte pegava o pão. Aquele pão ruim que eles vendiam. Então a gente passava isso aí. Tinha que ir lá no Pari porque pra cá não tinha nada. Aquela, não sei se vocês conhecem, mas aquela parte da Vila Guilherme alta tinha um zoológico, daquela parte pra cima não tinha casa, nada. Dali de onde eu morava eu olhava pra lá, só via mato. Hoje em dia São Paulo todo tem, está um... Mas naquele tempo não tinha nada, nada, nada. Eram só nós, a turma dos barqueiros, então se conhecia. Quem é vizinho ali de mais de um quilômetro a gente conhecia, era amigo da pessoa. Hoje em dia na minha rua eles passam e não me cumprimentam. É, eles passam e não me cumprimentam porque não são de cumprimentar mais. Ninguém quer perder tempo, fazer uma amizade e fica por isso.

 

P/1 – E bom, o senhor falou da esposa. Como que o senhor conheceu sua esposa?

 

R – Eu conheci ela na Igreja Santo Antônio do Pari. A gente ia fazer aquela coisa que a turma faz na cidade do interior até hoje: as mulheres andam assim, os homens ao contrário, e eu conheci a minha senhora lá. Nós estamos casados já há 51 anos e meio. Vamos fazer 52 agora em julho, dia 28. Casamos na Igreja de Santa Rita do Pari, que era uma capela, não é a Igreja que hoje está lá. Então, mas a minha mulher era uma coitada, dessas mulheres que é melhor que aquela música da Amélia, muito melhor, superior àquela. Eu nunca vi aquilo lá. Se eu tento ajudar, ela não quer que eu ajude. Mas viu, a coitada sofre lá. Não é brincadeira.

 

P/1 – Mas então foi na saída da Igreja, como é que...

 

R – O quê?

 

P/1 – Que vocês começaram a conversar?

 

R – Não, a gente conversava na praça da Igreja. A praça está lá pra quem quiser ver. E eu conheci ela ali. Ela trabalhava de empregada doméstica na Rua Santa Rita, que tem uma firma lá; bom, eu sei que ela trabalhava lá. Eu conheci ali e não me arrependi até hoje. Se fosse pra casar de novo com outra pessoa acho que eu, mesmo que fosse jovem, eu não teria jeito.

 

P/1 – E qual o nome dela?

 

R – Maria José.

 

P/1 – Maria José. O senhor falou das viagens, que foi viajar com ela para a Bahia.

 

R – Ah, eu fui pra muitos lugares, a gente sempre teve um carrinho. Pra Bahia a gente foi de ônibus, mas pra outros lugares a gente foi de carro. Paraguai, esses lugares por aí, a gente foi muito. Bom, praia, essas coisas, a gente morou no Guarujá também seis anos e dali também ia pra outros lugares, quer dizer, a gente nunca parou. Agora estou querendo ir, mas ela acha que está muito idosa, já perde aquela vontade de sair de casa. Muitas vezes eu vou por aí e ela não vai. Eu mexo com música, essas músicas antigas, choro; o pessoal de São Paulo, todos me conhecem quem mexe com isso aí.

 

P/1 – E o que o senhor faz?

 

R – Eu canto.

 

P/1 – Canta?

 

R – Mas é tudo música antiga. Eu conheço 1,2 mil músicas. Então a gente vai por aí, em asilo, que é o lugar que ouve, que tem gente pra ouvir essas músicas é asilo mesmo. Outro lugar só louco que ouve. A minha mulher mesmo não gosta, fala: “Poxa, não sei como vocês ficam perdendo tempo com isso aí”.

 

P/1 – Mas o senhor tem um grupo?

 

R – Não, eu faço parte de vários grupos de São Paulo. Eles ligam pra mim e me chamam: “Ah, hoje é em tal lugar”, assim, assado, então a gente vai.

 

P/1 – E qual é a música que o senhor mais gosta de cantar?

 

R – Música? É música popular.

 

P/1 – É, mas tem alguma que toca mais o senhor, ou algumas?

 

R – Ah, olha, tem muita música. Como são muitas eu não tenho preferência por uma, porque eu gosto de praticamente todas, principalmente as que eu canto, eu gosto de todas, senão não cantava. Tem músicas desses cantores antigos que eu vejo que tem um programa do Silvio Santos que ele pergunta: “Quem é essa pessoa que está cantando?”, quer dizer, eu sei sempre. Aquele Roque também, o Roque também eu conheço ele, ele mora perto de casa, a gente se cruza lá e ele também sabe tudo. Ele vai lá e responde, mas eu se estivesse lá saberia também. Então é Chico Alves, Orlando Silva, Nélson Gonçalves, Gilberto Alves, Carlos Galhardo, todo esse pessoal da antiga. Eu ainda sou amigo de um deles que está vivo, o Roberto Luna, esse ainda frequenta; ele canta em um lugar lá em Santana, ele e a Edith Veiga, que acho que vocês, lógico, não conhecem. Então, e tem esse pessoal do chorinho que toca na televisão. São todos conhecidos, se perguntar pra eles de mim eles sabem. Mas eu sou mais um, eu não sou, eu não digo que eu sou cantor, eu sou um cantante. Cantor é outra coisa, o cara que vive disso, eu... Quem sou eu?

 

P/1 – O senhor sempre teve esse hobby de cantar? De onde veio isso?

 

R – Sempre, sempre, desde quando eu tinha dezessete anos eu frequentava uma academia musical, chamava-se Conservatório Musical Nepomuceno, era na Rua Bresser, onde tinha um negócio de hipódromo, era perto, naqueles tempos teve um hipódromo quase no final da Rua Bresser. E eu cantava, eu comecei assim. Depois fui cantar em estações, em programa de calouros, era muito interessante aquilo lá. Participei, comecei a ganhar prêmios. Eu era... Tinha um Clube dos Artistas na Rua Jairo Góis, do lado da Igreja do Brás, e quem frequentava lá era o Francisco Petrônio, a gente se tornou amigos, então a gente fazia programas e gravações na casa das pessoas. Até naquele tempo eu trabalhava na feira e eu ficava me ouvindo; era uma barato aquilo lá, naquele tempo que a fita era aquela de dois rolos. Era um rolão grandão, e eu botava, falava pro cara lá, ligava e falava: “Ó, liga pra mim aí”, então ligava e eu ficava me ouvindo cantar, então era um barato aquilo. Mas só porque se fazia festa, é. Eu ia onde a pessoa fazia aniversário, então ia eu e o Petrônio, aí levava lá, porque tem um edifício treme-treme do lado do Mercadão, está interditado esse mercado, e tinha a Rádio Cometa ali, e parece que ele era qualquer coisa, diretor, qualquer coisa, o Chico Petrônio, mas eu nem sabia que era ali, eu nunca fui lá, depois que eu me toquei que a Rádio era ali, mas eu nunca frequentei.

 

P/1 – A gente vai dar uma paradinha...

 

(PAUSA)

 

P/1 – Bom, vamos retomar. A gente estava falando de música e o senhor chegou a comentar de um prêmio. Foi isso?

 

R – Prêmio?

 

P/1 – Prêmios de músicas que o senhor começou a ganhar.

 

R – Não, eu, assim não. Era assim: não é prêmio. Eu comecei a cantar e o pessoal achava bem, e eu já não podia competir mais.

 

P/1 – Ah.

 

R – Então eles me apresentavam assim, como até hoje falam: “Ah, eu vou chamar uma pessoa aqui assim”, e tem pessoa que não sabe e nem acredita, porque o cantar é uma arte, você sabe, não pode atravessar, tem que... Sujeito pensa que é que nem atravessar uma rua. O cantar não. Tem que ser ali, uma matemática. Interessante. Por causa das pausas. Então não pode fugir àquilo. A gente canta conforme aprendeu pela gravação, só que tem uma coisa: tem muita gente que não consegue me acompanhar, porque o cara não conhece as músicas, tem sujeito, então... Eu ando em todo lugar e eu vou aos lugares que eles me acompanham bem, porque tem uns lá que não conseguem. Não conseguem e falam: “Ah, eu não conheço”, se não conhece não adianta. Porque eu canto músicas do Noel Rosa, aquelas músicas antigas do Noel. Aí até esses dias, faz pouco tempo, acho que um ano mais ou menos, a gente fez uma homenagem pra Carmen Miranda, lá onde foi feito os filmes do Mazzaropi, tem uma Vila. Maria Zélia, já ouviram falar? Vila Maria Zélia. Então, eles ainda conservam aquelas casas lá. Tem casa que tem mato nascendo dentro, não tem telhado. E nós fizemos uma apresentação lá em homenagem à Carmen Miranda. Então, eu não sei de cor não, mas eu dei um jeito lá e cantei as músicas da Carmen Miranda. E teve uma esses dias, também há pouco tempo agora, tem uma cantora, ela tem 82 anos, ela era do negócio de revista que eles falavam, e ela foi conhecida no Brasil todo. Ela me disse que não foi pra – é a Salomé Parísio – ela disse que não foi para os Estados Unidos no lugar da Carmen porque a mãe dela adoeceu, ela era muito chegada com a mãe, mas ela fazia o mesmo papel da Carmen Miranda lá. Eu estive com ela esses dias, foi uma satisfação grande. E ela, coitada, ainda trabalha numa escola na Vila Mariana, é professora lá. Ela faz a mesma coisa que fazia, ainda aquele rebolado, aquela coisa, aquele gingado. Aquela mulher é uma loucura. Uma mulher com 82 anos, é bonito de ver aquilo. Então, e tem outras por aí também que estão ainda... Tem a Iná, que canta com a gente na cidade lá, ela tem ido pra Europa toda. Ela é uma senhora. Eu não vou falar “uma velhinha” porque não pega bem, mas é uma senhorinha muito educada e não é uma mulher bonita, mas faz um sucesso porque ela canta direitinho, sabe cantar. Eu faço a minha parte.

 

P/1 – E o senhor se anima de dar uma palinha pra gente?

 

R – Aí não, não pega bem. Estou fora (risos). A minha palinha eu só canto em tom alto e gritado, se eu gritar aqui vai vir até polícia.

 

P/1 – Imagina, é só uma palinha.

 

R – É, essa eu vou ficar devendo.

 

P/1 – Tudo bem, não tem problema.

 

P/1 – Bom, o senhor então casou, teve filhos?

 

R – Três.

 

P/1 – Três filhos?

 

R – Meu caçula está com 47 anos.

 

P/1 – E o mais velho?

 

R – O mais velho 51.

 

P/1 – São três meninos?

 

R – É filha.

 

P/1 – Filha?

 

R – Tenho outra que tem 48.

 

P/1 – E o nome deles?

 

R – O garoto é Antonio Carlos, era bombeiro de profissão, trabalhava na Anchieta fazendo tudo o que tinha direito. Ele agora está reformado, mas o negócio dele é contar casos terríveis que tinha dos desastres de lá, não vou nem falar disso porque não dá pra contar. E ele ficou com aquilo na cabeça. Deve ter traumatismo pra contar isso assim; ele conta com certo... O que ele fazia saía no jornal, ganhava louvores, mas diz que não valeu nada pra ele aquilo, só sofrimento que teve por causa do que ele via nos outros, coitado. A minha outra filha, uma delas, casou. Não deu certo. E é muito boa, muito educada, mas os homens geralmente não gostam de mulher assim; eles gostam de mulher assim, daquelas da pá virada, que é pra saber que está sendo traído, ou imaginar que está sendo. E ali não tinha graça nenhuma. É verdade, o homem gosta assim, ele se sente realizado, aí ele briga e fala: “Você não sei quê. Você...”, aquela história. É um barato, mas é a natureza do homem, porque ele quer ser o bom e ele não sabe da situação que se passa quando ele  – bom, aí já é outra história – quando ele não está por perto. Fizeram uma pesquisa agora, não sei se foi aqui em São Paulo, diz que 15% das crianças não são filhas do casal. É muita criança, tem milhares que o cara trata como filho e não é filho. Já pensou? A gente fica imaginando... Que situação. (risos)

 

P/1 – E a outra filha?

 

R – A outra filha também, ela ficou viúva no dia 13 de maio, no dia da escravidão dos escravos, 13 de maio de 1988, fazia acho que cem anos se não me engano. E o marido tinha problema, problema com vício, e ele acabou morrendo. Ele foi me visitar, eu morava no Guarujá, foi me visitar lá e encrencou, coitado, quando ele vinha subindo naquela Estrada do Quilombo, chama Estrada do Quilombo, lá em Cubatão, ele bateu o carro, uma kombi, bateu num caminhão. Não sei se descuidou ou ele quis morrer, porque ele estava desesperado porque dizia que não largava o vício, pedia conselho pra mim, eu dizia: “Você tem que ser durão”, mas não deu jeito. E a filha ficou viúva, não casou mais. O filho tinha sete anos, agora vai fazer 29 em abril. Dia 2 de abril faz 29 anos o garoto. E ela não, nunca mais quis casar. E essa outra...

 

P/1 – E o senhor tem quantos netos?

 

R – Cinco. Tenho três bisnetos.

 

P/1 – E é bom ser avô? Melhor que pai? Como que é a experiência de ser avô?

 

R – Olha, eu não me ligo muito não, vou ser franco. Eu sou um cara que não gosto de ficar em cima paparicando nada. Eu acho que quem fez que cuide, porque eles pegam esses velhinhos que nem eu pra encostar, pra o cara virar empregado deles. Comigo não tem não. Um neto quis fazer uma casa, minha casa é grande e ele quis fazer uma casa no fundo. “Tô fora”, falei pra ele, “procura em outro lugar que aqui não dá não, eu quero sossego”. É, eu fico deitado no chão lá do meu quintal, deito na sala, vendo televisão ou lendo, ouvindo música. Ninguém me incomoda. Não tem coisa melhor. A única coisa que eu vou levar daqui é isso, sossego. Eu só tenho um cachorro lá que agora está me dando o maior problema; eu sempre ouvia falar do rottweiler e achei interessante aquilo lá, falei: “Poxa, eu gostaria de ter um cachorro desses”. Dizem que é assim, que é assado. E realmente é. É um cachorro que ele já me mordeu duas vezes, já mordeu minha mulher, mas é um cachorro que ele é muito grande, ele cresceu porque ele é cruzado com pastor alemão e ele é um cachorro... Ele pega as coisas na minha boca quando eu estou comendo e não sei o quê. Mas outro dia lá ele deu uma virada, não sei o que foi, ele fez assim pra mim, aí eu falei: “O que é rapaz?”, aí eu peguei e ameacei ele com uma coisa que eu estava na mão, uma pazinha. E quando foi de tarde eu estava sentado no quintal sem camisa, só de short, descalço, e ele veio, lambeu minha mão aí quando passou pro lado de cá ele me atacou. Ele me pegou na mão. Eu levei 12 pontos, ainda não sarou.

 

P/1 – Ah é, está machucado mesmo.

 

R – Isso aqui foi na sexta-feira que ia começar o carnaval. Então levei 12 pontos aqui. Agora estou querendo doar, se alguém estiver interessado. (risos)

 

P/1 – Depois dessa história. (risos)

 

R – Já que nós estamos aqui... Agora que ninguém vai querer, né? (risos)

 

P/1 – Para o senhor, quais foram as coisas mais importantes que já fez?

 

R – Que eu fiz?

 

P/1 – É.

 

R – Ah, eu fiz tanta coisa importante. Na minha vida o importante foi o casamento, que muda a vida da gente. O importante foi eu ter conhecido essa mulher que estou com ela todo esse tempo e outras coisas importantes. Eu jogava futebol, disputava, então era importante. Na música também, eu tenho muitos amigos e tudo isso aí. Tudo é relativo.

 

P/1 – E tem algum sonho, alguma coisa que o senhor queira contar pra gente?

 

R – Sonho?

 

P/1 – É.

 

R – Sonho.

 

P/1 – Alguma coisa que ainda não realizou, alguma coisa que está lá...

 

R – Olha, o sonho maior que eu tenho é impossível pra mim, mas é viajar. Viajar pra todos os lugares que pudesse. Fora, aqui no Brasil mesmo. Mais fora. Eu estou pra ir pra Portugal pra buscar um documento que você me falou, eu acho que vou acabar indo lá se não tiver outro jeito. E a gente está arrumando uma documentação do velho e falta esse detalhe, senão a gente não pode vender uma casa que a gente tem lá na Vila Guilherme. Uma casa em que eu nasci e nós estamos vendendo o terreno, mas o que já teve de invasor lá... Lá perto tem uma favela, um lugar que invadiram é uma antiga fábrica de moringa, tal de Antonio Nogueira (Saltz?). Eles foram os primeiros a fabricar moringas no Brasil, então esse pessoal está ali e eles invadem a casa. Quantos eu já tirei de lá... Mas é uma encrenca porque eu falo numa boa e eles acabam saindo, mas nossa, aquilo me enche a cabeça e eu queria ver se eu resolvia esse problema e está difícil. Até hoje se der tempo ainda vou passar no cartório pra retirar os documentos, que não vai dar certo e o sujeito vai me cobrar 20 mil pra fazer essa documentação. Eu até topei, pra resolver, porque ninguém mexe. Os meus parentes ninguém quer saber, eles deixam tudo na minha mão. A gente, não sei, acho que é mais bobo, procura fazer as coisas para os outros, então eu me intrometo muito, eu vejo uma situação difícil eu tento ajudar. Ah, a gente faz o que pode. Então, esse negócio aí está complicado; eu vou ter que pegar um avião e ir até lá, que eu tenho uns parentes ainda. Eles vão e vêm, vão e vêm, que eu tenho uns parentes que são bons de bolso, e eles vão sempre quando podem pra lá mas só que não me trazem o que eu quero. Eles vão, mas sempre sem o que eu quero.

 

P/1 – E caminhando para o final dessa entrevista, o senhor acha que a gente deixou de comentar alguma coisa que o senhor queira...

 

R – Não, acho que não.

 

P/1 – Não tem nada que o senhor quer contar de especial em que a gente não tenha tocado?

 

R – Não.

 

P/1 – Não?

 

R – Não. O que é? Eu fiz um curso na Polícia Civil e eu sou radiotelegrafista formado pela Academia de Polícia mas nunca exerci a profissão, porque naquele tempo não era como hoje que era unificado esse negócio. Eu ia perder vinte e tantos anos de trabalho, então não fui, não fui fazer o que eu até gostaria. Me chamaram pra trabalhar em um avião que ia pra Fortaleza, então eu ia ser aquele que fala a telegrafia, naquele tempo tinha telegrafia. Então eu ia, mas mesmo assim não quis perder a minha, senão não teria me aposentado, ia me aposentar com noventa anos. Então foi isso aí.

 

P/1 – Mas não se arrepende de não ter feito?

 

R – Não, porque eu sempre ganhei bem nas firmas que eu trabalhava. Trabalhava no que queria. Quando eu fui trabalhar nessa firma que eu não disse o nome eu fui uma espécie de inspetor. Bom, na verdade, é uma firma que vende carnê, que agora você já sabe quem é, e ninguém queria trabalhar com isso, ninguém, porque era uma coisa que só no Brasil pegou. Você vê que nos países não deu certo, só no Brasil, porque o Brasil, o brasileiro, é mais coitado, é mais inocente e aceitou. Essa é a verdade. Então o que acontece? Eu tinha que me comunicar com a direção de banco, a diretoria, pra arrumar um convênio para o banco poder receber esses carnês fora de São Paulo, que o negócio era só por aqui. Então eu passei a fazer isso no Nordeste, em todo lugar e eu que expandi isso daí. Se alguém deles lá estiver vendo vai saber que fui, porque eu nunca falei isso pra ninguém, mas e daí? Foi uma coisa que eu estava lá pra fazer e fiz, apesar de que não ficou documentado que eu fiz. Então, e tinha muita coisa que eu fiz lá. Eu fazia pagamento de 800 vendedores que tinham lá, eu pegava o dinheiro no banco e trazia naquelas malas cheias naquele tempo – que essa firma é ali na Rua Jaceguai –, então eu pegava o dinheiro lá no Banco Bandeirantes, na Brigadeiro Luís Antônio. E o negócio estava necessitado lá, eu pegava. Eles não sabiam que eu fazia isso, mas eu pegava, pegava o dinheiro, botava nas malas, um carro de praça já entrava. Se fosse hoje eu estava perdido, mas eu fazia isso pra adiantar as coisas lá. Era o que eu fazia e outras coisas mais quando eu ia nessas lojas que estava “empepinado”, a pessoa que vinha servir o café, eu ficava com dó, porque a bandeja tremia. Eu ficava com uma dó. Não. Eu não era nada, não era ninguém, mas a bandeja tremia, com o café no pires, dava uma dó, porque a turma sabia que era fria. Então, mas no fim ficou tudo pra lá, eles estão lá até hoje e eu estou aqui vivo, graças a Deus. E feliz.

 

P/1 – E como é que foi pro senhor contar a sua história pra gente?

 

R – Ah, foi bom. Foi bom. É uma história comum, mas é interessante falar sobre isso, sobre aqueles tempos. Tudo passou, tudo mudou, e a gente está aqui ainda pra contar história. Talvez seja a última história, a primeira e a última que eu vou contar, porque a coisa está meio complicada pro meu lado dada a idade, mas está tudo bem. Eu fiquei contente de poder falar. Se serviu pra alguma coisa, está muito bom.

 

P/1 – Você quer fazer mais alguma pergunta? A gente fica contente de ouvir. Foi muito bom, muito bom.

 

R – Obrigado.

 

P/1 – Então a gente agradece a presença do senhor.

 

R – Eu fico agradecido também de vocês me atenderem tão bem e ficarem escutando essas patacoadas aqui até agora.

 

P/1 – Imagina. É muito interessante.

 

R – No bom sentido.

 

P/1 – É interessante mesmo. As histórias do rio...

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