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História

Rumo a liberdade

História de: Carina
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Carina diz que não sabe onde nasceu. Quando se deu conta já estava em um orfanato junto com sua irmã. Em seu depoimento, conta que o mundo de fora era completamente desconhecido e ficava imaginando como seria sair na rua. Relembra de momentos traumatizantes durante sua vida, como a sua relação com sua mãe, a ausência do pai, sua relação com as irmãs mais velhas, suas duas gravidezes, seu envolvimento com tráfico e com a prostituição e os abusos sexuais e psicológicos que sofreu. O esforço para permanecer no projeto é contínuo, mas ela está decidida a continuar mudando e se tornar uma advogada.

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História completa

Meu nome é Carina. Não sei onde eu nasci. Eu só acho que foi no hospital, mas quando eu cresci, eu já estava no orfanato. Minha mãe me botou no orfanato, eu e a minha irmã, tenho uma irmã de dezoito anos, fomos criadas no orfanato e eu tinha dois anos. Minha mãe não tinha condições de criar a gente. Na época os custos financeiros eram muito altos. Eu e minha irmã passamos oito anos no orfanato. A visita das mães era só uma vez no mês. Chegou época da minha mãe, três meses seguidos, não ir me visitar. Ficava querendo crescer logo pra eu sair de lá. Porque a gente tinha visita uma vez no mês. Eu ficava lá, muitas vezes chegava, era no último domingo do mês, eu ia para o portão do orfanato, ficava esperando minha mãe, passava hora, minha mãe não ia. Eu ficava lá esperando e quando eu saí, com dez anos, fui trabalhar com a minha mãe, e minha irmã com onze. 

 

Só tinha menina no orfanato, era evangélico, e fazíamos ProJovem [Programa Nacional de Inclusão de Jovens, do Governo Federal], um projeto lá. Quem estudava de manhã fazia o projeto de tarde, quem estudava de tarde fazia o projeto de manhã e de noite íamos à igreja. Tinha uma igreja dentro do orfanato. 

 

A gente dormia lá mesmo, numa casa. A mais velha do orfanato tinha que tomar conta das outras. Então eu como era da casa um, eu era a mais velha, tinha que fazer penteado, cachinho no cabelo das outras, tinha que vestir roupa, passar a ferro, tudo isso. Tinha que tomar conta das outras, tinha oito anos. 

 

Eu achava bom porque a gente encontrava um meio de se divertir, brincava... Mas fora isso, dizer que minha infância foi boa, não foi, porque foi longe da minha mãe. O meu pai abandonou a minha mãe grávida, nunca foi nos visitar. E eu sem conhecer meu pai, sem falar. Eu ficava imaginando como era a rua, ficava imaginando como era, porque praticamente a pessoa está em um presídio, presa, porque não podia sair. 

 

Eu nunca saí de lá. No dia que eu saí, foi quando eu quebrei o braço no orfanato, me levaram pro Restauração [Hospital], eu nem sabia o que era. Vi um negócio tão grande, fiquei doidinha. Eu fui espancada no orfanato. Sumiu a Bíblia de uma tia. Como eu era a mais nova, a tia deu em mim, quebrou meu braço, fiquei enfaixada no braço… Eu era bem magrinha, ela me jogou, pegou no meu braço e me jogou. Só que bateu na cama e ficou doendo meu braço. Quando foi tirar tomografia, meu braço estava quebrado. 

 

A gente era espancada no orfanato. Tinha uma tia lá que obrigava a gente a fazer sabão com ela... Fazer sexo com mulher, tudo que acontecia com mulher, obrigava. A gente ficava: “Ôxe, como é isso?”, ela dizia: “É assim, faz isso”. Aí fazíamos, pronto. Aí no outro dia ela pegava outra menina, mandava: “Se você falar alguma coisa vai apanhar”. E o medo de apanhar que a gente tinha, era tanto medo de apanhar que ficava calada. O orfanato não sabia, só que a gente era criança, tinha medo de dizer, tinha medo de falar, insegurança de acontecer alguma coisa. Ela fez isso com quatorze meninas do orfanato. Ela batia na gente pra fazer com ela. Minha mãe quando soube ficou revoltada. Depois de muito tempo descobriram, essa menina foi pra fora do orfanato. Quando estávamos uma com a outra, diziamos: “Poxa, essa tia é tão ruim! Só faz mal com a gente”. Dizíamos: “Ôxe, vamos contar pra nossa mãe”. Aí eu: “Ôxe, não menina. A nossa mãe não vai acreditar”. Aí nós juntamos e fomos contar. Chegamos lá, tinha a sala da dona do orfanato, dissemos: “Ó, tá acontecendo isso e isso”. Chamamos ela, veio o Conselho [Tutelar], veio tudo. Essa menina não tinha nem mãe, nem pai, tava no orfanato por causa disso. Como já era maior de idade, mandaram-na seguir a vida dela. Foi seguir a vida dela, saiu do orfanato. Foi ligando pra mãe de cada uma falando que o orfanato ia fechar. A mãe que tinha condições pegou seus filhos e a mãe que não tinha. Eu vi a maioria das meninas chorando porque iam pra Funase [Fundação de Atendimento Sócio Educativo]. Todo mundo sabia que Funase, era um presídio mesmo, as mulheres eram maliciosas, faziam mal, matavam, esfaqueavam. Muitas meninas choravam: “Deixa eu ir morar contigo, deixa eu ir morar com tua mãe”, mas não poderia, o orfanato não liberava pra mãe. Vi muita menina ia pra Funase.

Éramos espancadas muitas vezes pra dormir. Tinha que dormir cedo. Como não queríamos dormir, a tia passava nas camas com cabo de vassoura: “Bora, vai dormir, bando de peste, vai dormir”. Tínhamos que dormir de todo jeito.

 

Minha mãe sabia que eu apanhava. Eu dizia: “Mãe, aqui eu apanho, aqui eu sofro”, ela dizia: “Ô filha, mais tarde, no futuro, como eu tenho uma coisa boa eu vou lhe tirar daqui”, eu dizia: “Tá bom mãe”. Eu só esperava. Quando ela ia me visitar, tinha hora pra ir embora, seis horas. Quando tocava eu ficava chorando, eu pequena, ficava segurando: “Vai não, mainha, vai não”, ela ia, tinha que ir embora.  A gente ficava lá. 

 

Ela trabalhava na cidade, juntava o mês, aí dava coisa pra mim. Comprava, fazia feira pra gente, levava feira, uma roupa, alpargata nova. Sempre levava quando estávamos no orfanato. As coisas que ela levava ficava pra gente só que tinha que dividir entre as outras meninas. Roupa, a gente usa uma vez a dá pra outra. Lá é assim, uma veste da outra, pede emprestado.

 

As meninas também brigavam entre si… Brigava, era pau, mas lá não era tão violento, porque não deixavam brigar. Brigávamos, mas era escondido. Quando as tias chegavam, separavam, mas brigava por besteira, coisa de criança. As tias também batiam na gente. Tinha muito medo das tias. Hoje em dia, tem uma que eu conheço, ela trabalha na cidade, na loja. Quando me vê, ela soube que eu era da vida errada. Ela olha assim, acho que tem medo, porque pensa no que fez conosco quando éramos pequenas, pensa que esquecemos, mas ninguém esquece, fica sempre ali. A que eu fiquei com mais raiva foi a que quebrou meu braço. Fiquei com muita raiva dela. Dava na gente de colher de pau, tabica. Lembro-me que fazia: “Põe a mão pra apanhar”. Por exemplo, se tinha oito anos, eram oito palmadas na mão. Que dor! A tabica quebrava na mão, ôxe! Aí tapeia pra não apanhar mais: “Ai, tô querendo fazer xixi”, aí ela parava de dar na gente. A minha irmã também apanhava. Todo mundo apanhava praticamente.

 

Estudo eu nunca tive problema, sempre estudei no orfanato. Eu gostava de estudar.  Era até boa a escola do orfanato porque tinha meninas de fora e meninas de dentro também.

 

Já pensei muitas vezes em fugir do orfanato, já até tentei. Muitas meninas já fugiram, mas eu sabia que minha mãe um dia ia me buscar, aí eu ficava lá. Também eu era pequena, não era tão... Não tinha maldade, não conhecia nada.

 

O orfanato hoje não existe, fechou. Muito tumulto acontecia ali. Já teve menina que foi descabaçada, deram na menina, o cabaço da menina rasgou. Só que eu nunca vi nenhuma morte. Tomavam conta das meninas, direitinho, mas aconteceu tanta coisa de apanhar, das meninas serem maltratadas pelas tias, aí fechou.

 

A minha mãe foi abandonada na caixa de sapato, ela não tem nem mãe nem pai, ela foi criada na Fundac. Quase toda a história de vida que eu tenho, a minha mãe também tem. Eu fui estuprada, a minha mãe também foi. Ela perdeu a virgindade estuprada, não tem nem mãe nem pai. Ela foi abandonada criança, foi socorrida, era recém-nascida. Quem a encontrou foi o Samu. Aí ela foi criada na Fundac. O que ela me contava da Fundac é que sofreu muito. E minha mãe, muito revoltada. Quando eu saí do orfanato, teve uns tempos que minha mãe jogava praga: “Tu vai se ferrar”. Quando a gente tem o mal, não podemos passar pros nossos filhos, porque a boca tem poder, porque tudo o que aconteceu com minha mãe aconteceu comigo. Hoje eu digo: “Porque não aconteceu com minha irmã? Só comigo!” Minha mãe sempre foi apegada mais à minha irmã e a mim, nada. Ela nunca ligou pra mim. Eu fui crescendo, fui me revoltando. Saí da casa da minha mãe logo cedo. Quando saí do orfanato, ela botou a gente pra trabalhar na rua, na cidade. Já vendi de tudo um pouco, meia, lápis, caneta, capa de celular, brinco, bolsa, tudo. Todo tipo a gente fazia. A gente trabalhava na ponte de ferro. Corria de fiscal. Muito difícil, mas sempre estudei. Largava e ia estudar. Minha mãe sempre dizia: “Estuda!”, “Eu vou, eu vou estudar”.

 

Quando o orfanato fechou minha mãe foi me pegar. A gente morava numa casa que não tinha nada, nada tinha. Tudo na caixa, nossa roupa, comida, tudo era na caixa, tudo. Só tinha um vaso sanitário, uma pia pra lavar prato, uns pratinhos. Era um quadrado. Tinha uma cama que dormia eu, minha mãe, minha irmã e o marido dela, que é meu ex-padrasto. Minha mãe o botou ele pra fora porque ele tentou mexer comigo quando eu era pequena, eu tinha dez anos. Só que ele não chegou a me estuprar. Quando a gente ia dormir, ele ficava me cutucando. Eu no outro dia disse à minha mãe. Minha mãe o chamou, minha irmã disse que viu também, porque eu fiquei beliscando minha irmã, minha irmã acordou, aí minha mãe botou ele pra fora. Minha mãe acreditou em mim, botou ele pra fora e não quis mais saber dele.

 

Final de semana a gente ia trabalhar, minha mãe botava uma bolsa de escola, dessa meio grande, cheia de DVD, daqueles portáteis que testam DVD e ia pra praia. Como minha mãe dizia que minha irmã era besta, ela ia pra um lugar com a minha irmã e eu ia pra outro, sozinha. Minha mãe dizia: “Ó, quando eu voltar eu quero dinheiro”, pra botar as coisas dentro de casa. Fomos crescendo assim, sempre trabalhando.

 

Minha mãe sempre deu comida, roupa. Hoje em dia a minha mãe tem tudo, tem geladeira, tem fogão. Mora na favela, mas como pobre tem tudo, tem computador. Isso tudo, trabalhando na rua, eu, ela e minha irmã.

 

Eu sempre fui esperta. Quando tinha uns velhos que davam em cima das pessoas, nem ligava. Eu tirei minha virgindade cedo. Conheci o pai da minha filha quando eu tinha doze anos e ele dezessete. no jogo de futebol. A gente se conheceu e namorou. Por incrível que pareça, não perdi a virgindade com ele. Já tinha perdido. Só que eu me perdi com uma pessoa que nem… Eu conheci o menino, namorei. Entrei no hotel e eu: “Eu sou virgem!”. O menino fez: “Mentira, se fosse virgem tu não entrava aqui”, “É sério”, “Tu tem quantos anos?”, “Tenho doze”, “Tu tem doze anos?”, “Tenho”, “É mentira!”. Aí pronto, aconteceu. Eu: “Já tô aqui mesmo!” Folgada, já era folgada. Criança, mas era folgada. Todo mundo dizia: “Mas tu é uma criança, se aquiete”, mas a vida é assim, a gente não pensa não. Fiz só por fazer mesmo, só por safadeza, eu nem conhecia o cara. Só o conhecia de vista, ele trabalhava na cidade. Eu acho que fiz isso  por falta de conselho, eu acho que se eu fosse criada com a minha mãe mesmo, eu acho que eu nem tinha passado pela metade da vida que eu passei. 

 

Depois dele foi com o pai da minha filha. Namorei com ele. Com o pai da minha filha fiquei três anos. Foi o único homem que eu amei, hoje eu não amo homem nenhum, por incrível que pareça. Foi o único, eu era doida por ele. Brigava por ele, pegava nega que ficava com ele, era pau! Foi o único homem que eu amei. Aí tive a minha filha, engravidei com treze anos, engravidei nova, tive a minha filha com quatorze anos. Minha mãe ficou revoltada. Foi na delegacia, deu parte dele, porque quando eu engravidei eu era menor de idade e ele era maior. Muitas amigas minha diziam: “Tira, tira”. Mas eu sempre fui uma pessoa esperta: Eu trabalho, minha mãe sempre me ensinou a trabalhar, eu trabalho sozinha, minha mãe não pode me botar pra fora de casa porque eu sou menor de idade. E minha mãe foi abandonada. Eu sempre botei na minha cabeça, minha mãe foi abandonada, foi criada na Fundac, criou eu e minha irmã. Por que eu com a minha mãe não posso criar o meu filho? Eu não vou abortar, não, eu sempre fui contra o aborto, nunca abortei. E o pai do meu filho era doido pra ter um filho, mas hoje em dia não assume. Agora ele trabalha, agora ele tá dando a pensão pela justiça. Ele dá todo mês a pensão da menina, e eu não falo com ele, não. Hoje em dia ele é casado, tem outro filho.

 

Quando eu engravidei, ele me deixou, arrumou outra. O amor começou e acabou quando eu engravidei, aos treze anos. Aí ele arrumou outra que é essa mulher dele atual, teve um filho com ela. Eu era doida por ele. Eu ficava o infernizando, ia à casa dele, fazia barulho, queria porque queria que ele ficasse comigo, mas ele não queria. Como eu cresci mais, a mente foi crescendo, eu: “Eu sou muito bonita, não vou correr atrás de homem não, à partir de hoje não sofro por homem nenhum”. Aí pronto, cresci assim. Fui ficando, já fiquei com outros homens. Por dinheiro também, mas passou, mas se apegar, nunca nessa vida.

 

Aí minha filha nasceu, fui trabalhando, tinha que dar duro. Eu tava trabalhando na cidade.Tive a minha filha com nove meses e três dias. Trabalhei até nove meses e um dia, porque minha mãe disse: “Tá pensando que eu vou ser essa mãe que vai lhe dar as coisas, você vai trabalhar, você mesma vai comprar”. Aí trabalhei, minha mãe foi comprando, guarda roupa, berço, carrinho, tudo. Nessa época eu vendia DVD, na ponte de ferro, na cidade. Nessa época eu também ia pra escola. Sempre estudei de noite porque eu ia ao antigo GERE [Gerência Regional de Educação]. 

 

Depois que eu parei de ir à escola, me envolvi com gente errada. Vai fazer três anos que aconteceu. Eu trabalhava no Carnaval, vendíamos cerveja, água mineral. No Carnaval do ano retrasado eu apanhei da galera, trabalhando, maloqueira, apanhei, fui parar na Restauração. Passei uma semana, quebrei meu braço de novo, fiquei com hematoma, com olho roxo. E ainda criança. Não sabia nem porque estava apanhando de vândalo. Desde antes do carnaval, minha mãe sempre foi daquelas pessoas de pegar as amizades e botar na casa dela. O melhor amigo da minha mãe me estuprou e tentou me matar, é essa cicatriz que eu tenho.

 

Faltava um dia pro Carnaval, eu tava atrasada e precisava guardar meus DVDs, tinha que prestar contas, eu já trabalhava pros outros vendendo DVD. Aí eu tava passando em uma ponte de baixo, onde eu fui estuprada, e senti aquele negócio,  ele segurando meu pescoço. Botou a faca no meu pescoço. Ele disse: “Não olha pra mim, não”. Só que eu reconheci a voz dele, desse amigo da minha mãe: “Não faz isso comigo, eu sei que é tu”. Ele olhou, começou a me beijar, ele falou: “Me beija”. Eu comecei a beijá-lo. Eu chorava que só, depois que ele fez tudo o que ele queria, aí… Ele me levou pra uma mata num cantinho na ponte. Ele botou a faca no meu pescoço. Depois que ele fez tudo o que ele queria, começou a me apertar. Aí aquele negócio, a falta de ar, a pessoa só pensa em Deus: “Meu Deus, eu vou morrer agora”, isso na minha mente, eu já fechando o olho: “Meu Deus, me leve pro céu, eu nunca fiz mal a ninguém. Se for me livrar, me livre”. Foi na hora que o meu cachorro começou a latir. Um noiado viu: “O que é isso?” Quando ele passou a faca em mim, eu corri. Eu corri, corri, quando eu me deitei lá na favela, todo mundo: “O é isso?”, um bocado de gente no meu pescoço. Conseguiram pegar ele, foi preso, aí pronto. Aí fui pro hospital, fiquei indo pra psicólogo, eu ficava fazendo exame. A psicóloga dizia: “Você vai fazer exame por uns tempos pra saber se você tem HIV”. No mesmo dia eu tomei a Benzetacil, dois remédios, a injeção anti sífilis. Tomei um monte de remédio. Eu tava com medo. Se um dia eu descobrir que tenho AIDS, eu me mato. Desde esse dia, eu não sou uma pessoa normal. Eu sou um pouco estressada. Isso me fez muito mal, eu não sou igual como eu era antes. Eu, aqui no curso mesmo, eu falo alto, eu sou um pouquinho estressada, já discuti aqui. Mas aqui é bom porque tem as tias que nos aconselha, tem psicólogo. 

 

Depois que você conhece a ruindade, conhece a vida errada, não quer saber de mais nada. Hoje em dia, se eu sentir alguma maldade, por exemplo, se eu sair num grupo de amigos, tipo como eu fazia programa antes deu entrar nesse curso, teve um dia que o cara puxou a pistola pra mim, queria ficar comigo. Eu disse: “Pode me matar, mas eu não vou ficar com você”. Quem já passou pela morte não tem mais medo de morrer. “Pode me matar porque se for pra ser estuprada e morrer, eu prefiro que você me mate”. A pessoa não tem medo mais de nada. Depois desse dia eu saí da casa da minha mãe, não quis mais ficar lá porque todo dia eu tinha que passar pelo mesmo caminho. Eu olhava, chorava só de pisar no mesmo lugar. Quando eu tô dentro do ônibus, o povo curioso ficava assim: “Moça, me desculpe perguntar, o que é isso?”. É uma coisa que a pessoa carrega pro resto da vida, onde a pessoa vai, as pessoas: “O é isso?”. Olha pro pescoço da pessoa e digo: “Não, foi um negócio aí que aconteceu”, “Foi uma facada?”, “Foi”. Aí a pessoa tem que falar a verdade pra poder justificar. A turma faz: “Poxa, tu sofreste que só”. Aí pronto, saí da casa da minha mãe.

 

Quando minha mãe soube que era ele me pediu desculpas, mas… Fiquei com muita raiva dela. Passei um tempo sem falar com ela. Entrei na vida errada, comecei a vender crack, cheirava pó, fumava maconha. Depois disso fiquei uma pessoa muito revoltada. Nunca fumei crack, porque eu sempre fui uma pessoa de mente forte. Eu via que as pessoas na favela apanhavam, viciadas em droga morriam. Aí eu disse: “Eu vou vender crack por dinheiro pra comprar as coisas pra mim, mas fumar, eu nunca vou fumar, porque eu sei que vou morrer”. Mas na vida errada não tem isso, morre de todo jeito. Porque é aquele negócio, ou morre pela polícia ou morre pelos próprios amigos. Eu já passei da polícia dar em mim, a polícia me pegava, ao invés de me prender, pegava nosso dinheiro, dava na gente. A polícia  dava rasteira, botava saco na minha cara, dava em mim. Isso faz o quê? Pouco tempo, faz uns seis meses que eu saí da vida errada. Faz três meses que eu tô no curso. Apanhava que só. Esse meu filho agora, nasceu de oito meses, meu filho só vive com problema, porque eu já levei tiro, corria de polícia, escutava tiro no pé do ouvido, aí meu filho nasceu.

 

Meu filho é muito assustado, nasceu de oito meses. Ele só vive doente, com pneumonia, saiu da UTI agora há pouco, anemia aguda. Passou de morrer. Saiu da UTI graças a Deus. Depois que ele saiu da UTI, eu disse: “Eu vou mudar minha vida, não quero mais isso pra mim, não”, pensar nos nossos filhos. Aí eu venho pro curso. De vez em quando eu até falto porque tava passando... Separei-me do meu marido, ajudei minha sogra. Com o dinheiro do curso eu paguei o aluguel. Não tenho sorte com amizade, minha sogra me botou pra fora da minha própria casa. Aí eu vim pro curso chorando. Falei com a psicóloga: “Não pra mim, não”. Muitas vezes a pessoa olha, dá vontade de desistir. Eu digo: “Eu vou fazer esse curso mais nada”. A pessoa passa o mês todinho pra ganhar quatrocentos reais. A pessoa, na vida errada, se prostituindo ou traficando, ganha dinheiro todo dia, mas depois a pessoa olha de novo, dinheiro amaldiçoado. A pessoa pega, gasta, não dura, vai embora o dinheiro. E a pessoa não pode pensar em quatrocentos reais, tem que pensar no futuro.

 

As pessoas falam pra mim: “estude, se você não estudar...”. Eu fico pensando: “Poxa, mas tudo é difícil, eu sofro que só o caramba”. Quando acontece uma coisa ruim comigo, no outro acontece outra. Fui assaltada, perdi meu celular, o que eu tenho na vida que eu sofro tanto?. Depois eu disse à menina que no começo do curso eu queria desistir, sem querer eu escrevi - de vez em quando eu gosto de escrever [sobre] a minha vida - aí eu escrevi um verso assim: Muitas vezes tem pessoas que desistem sem primeiro tentar, sem primeiro começar a tentar, desiste antes de começar de lutar. E nunca a gente consegue as coisas sem lutar. O pessoal daqui do curso diz que a pessoa só consegue as coisas se lutar, se a nossa vida tá mudando, ou pra pior ou pra melhor, mas tá mudando, a gente tá saindo do quadrado. “Sai do quadrado, agora sai do quadrado”, “Calma que eu tô saindo”.

 

Conheci um traficante, engravidei desse traficante, mas passageiro. Ele queria que eu abortasse e eu disse que não ia abortar. Quando eu conheci esse marido, eu tava grávida de dois meses. Ele me assumiu grávida. Ele disse: “Eu vou botar na casa”, mas só que ele era traficante também. Era amigo do pai do meu filho, traficante também: “Ó, não mexe com minha mulher não, que eu tô com ela agora, ok?” Aquela coisa. Ai o outro sempre dizia: “Quando o menino nascer eu vou fazer exame de DNA, se for meu, eu fico, se não for, você vai morrer”. Sempre dizia que ia me matar, dar tiro no meu pé. Morreu antes que eu, porque quem mata os outros, um dia morre.  Morreu quando eu tava grávida do meu filho. Eu me separei agora desse meu marido. Meu marido, eu não o deixei registrar, mas de vez em quando eu paro, fico pensando, quando meu filho crescer eu vou falar como à ele? Meu filho sem pai, como ele vai... “Mãe, cadê o meu pai?”, “Pois olhe, seu pai isso, isso, foi assim, assim.” Só ficava pensando, mas o importante é a minha vida, porque a minha mãe me criou sem o meu pai. 

 

Eu tenho o meu pai, eu sei onde meu pai mora. Agora no Dia dos Pais eu nem liguei pra ele porque ele nunca ligou pra mim. Conheci ele com dez anos, quando saí do orfanato minha mãe me levou lá. Eu fui pra casa do meu pai e disse: “O senhor que é meu pai, por que o senhor nunca foi me visitar no orfanato?” Hoje em dia, eu não acredito em nenhum dos dois. Minha mãe diz que meu pai a abandonou quando ela tava grávida, já meu pai diz que minha mãe saiu da casa dele e botou a gente no orfanato. Ele procurava saber onde era o orfanato e minha mãe nunca dizia. E eu sinto, eu não sei se é um pouquinho verdade, porque minha mãe, dos tempos que eu morei com minha mãe, ela é muito ruim. É aquela coisa, ela não queria que eu visse o pai da minha filha: “Você não vai vê-lo”, me deixava trancada, ela sabia que eu gostava. Eu ficava pensando, se ela fez isso comigo e com o pai da minha filha, o que ela fez com meu pai e com a gente? Eu quebrava o cadeado, ia ver o pai da minha filha, levava a menina. Eu chegava, apanhava. Mas eu ia e levava, eu sabia que eu ia apanhar, mas eu ia.

 

Quando a gente saiu do orfanato, eu já morei lá na casa dele, ele sempre [foi] aquele homem durão do interior. Não dava atenção como pai. Eu sempre quis ter um pai mesmo... Eu nunca ganhei um real da mão dele: “Toma, um real”. Eu ganhei dinheiro dele da justiça, pelo banco, mas na mão ele nunca me deu. Minha mãe botou ele na justiça.

 

Eu tinha uma irmã com 28 anos, por parte de pai. Ela morreu, com oito tiros. Mataram. Ela se envolvia com drogas, deixou oito filhos. A filha mais velha da minha irmã tem quase a minha idade. Minha irmã engravidou com onze anos. Ela era a única irmã que eu era apegada, porque eu tenho outra irmã que é viva, mas a única era ela.

 

Quando mataram a minha irmã, eu me lembro de que eu olhei pra cara dele. Minha irmã morreu sem falar com ele, porque ele também nunca criou minha irmã. Quando fui ao enterro, eu disse: “Por que o senhor tá aqui?”. Eu chorando, dizia: “O senhor não era pra tá aqui, não”, “Por quê?”, “O senhor morreu sem falar com a minha irmã”. Nisso, ele chorava: “O senhor morreu sem falar com a minha irmã. O senhor é pai? O senhor não é pai, o senhor é um palhaço. No dia que o senhor morrer” – eu disse a ele - “No dia que o senhor morrer, eu vou ao enterro só pra conferir se o senhor tá morto e ainda vou ajudar o coveiro a jogar um monte de areia na sua cara, porque o senhor era pra... Pai que é pai, é muito bom dizer que é pai aquele que cria. Pai não é aquele que registra”.

 

Único pai pra mim é meu pai e minha mãe, e minha mãe, por tudo que ela já me fez também, ela deu em mim de fio, minha mãe me espancou, já deu em mim, já trocou as amizade dela. Tinha uma amiga dela que eu apanhava direto. Minha irmã nunca, depois que saiu do orfanato, eu nunca vi minha irmã apanhando da minha mãe. Eu me lembro de que quando mataram minha irmã, eu tava grávida de oito mês da minha filha, da menina. Eu tinha passado na Olimpíada de Matemática, da escola pública. Fui a única que passei. Ia ter a segunda fase, no sábado, meu enxoval ia ser no sábado e a prova ia ser no sábado. Minha irmã tinha acabado de falar comigo: “Ó, vai um bocado de gente daqui pra aí”. De repente, meu celular tocando de novo, ligação a cobrar. Eu estava com treze anos, ia fazer quatorze, eu: “De novo!”, quando eu retornei, recebi a notícia dizendo que a tinham matado. Peguei um ônibus, fui embora pra lá. Ela tava lá estirada no chão, de barrigão, chorei a agarrando. Agarrava. O pacote de fraldas que ela tava na mão, com um rombo do caramba, de bala. Ela cheia de tiro. O policial me segurou, disse que eu não poderia abraçá-la no chão, cheia de tiro. 28 anos. Nova. Deixou oito filhos. Os filhos todos viram. Quando a mataram, ela tava com uma menina, ia fazer um ano. A menina ainda tava no braço, os cara pegaram com a menina e meteram bala nela. Hoje em dia os filhos dela são todos revoltados também.

 

Eu fui uma pessoa que já passou por tanta coisa, mas nunca deu uma maldade mesmo no meu coração, porque eu já saí pra roubar. A gente foi assaltar um ônibus – faz pouco tempo, antes de entrarmos no curso – fui eu, meu marido, eu ainda tava grávida, tava grávida de quatro meses do meu filho. Eu botei o casaco, a gente com o revólver: “É um assalto”. Todo mundo ia pro chão, com medo, aí a mulher escondeu o dinheiro. Quando escondeu, meu marido viu, quando meu marido foi matá-la, eu disse: “Não, mata não”, isso dentro do ônibus, o povo todo olhando assim pra mim, eu: “Não mata a mulher não, deixe-a”, aí ele: “Tu merece morrer. Se ela fizer isso da próxima vez eu vou meter bala”, “Deixa isso pra lá”. Ele ficou com raiva de mim porque eu não o deixei matar. Nunca tirei a vida dos outros. Eu nem fiz a prova da Olimpíada de Matemática.

 

Mas eu sempre fui uma pessoa que deu as coisas ao meu filho, mas amor mesmo, de estar com meus filhos, eu nunca fui uma mãe presente. Agora que eu me envolvi com a vida errada, que eu não fico mesmo. Não tava mesmo com meu filho. Nem com a minha filha. Ela não me chama de mãe, ela chama minha mãe de mãe.

 

Eu acho tão bonito quando olho uma mãe botando um filho no peito, mas quando meu filho nasceu agora, eu tava traficando. Eu só pensava em dinheiro, pensava na vida errada, não pensava nos meus filhos. Com dez dias de nascido, eu o dei à menina aqui do curso, ela tava tomando conta do meu filho. Quando foi agora essa semana, depois que meu filho entrou na UTI, mês passado, eu disse: “Eu vou pegar amor ao meu filho. Passei a dormir com a minha filha, quando minha filha olhou pra mim, quando eu disse: “Quem é tua mãe?”, “É bobó”, “Ôxe, eu vou pegar meu filho, porque já basta minha filha que me chamar pelo nome. Meu filho vai crescer e não vai me chamar de mãe? Ôxe, vou pegar meu filho”. Aí peguei a menina aqui do curso, ficou com raiva de mim, mandei minha mãe pegar as coisas do menino tudinho da casa dela e pronto.

 

Hoje eu tava pagando hotel. Tava dormindo na casa da minha amiga também. Hotel barato, dez reais pra dormir, porque minha sogra me botou pra fora de casa porque eu não queria mais o filho dela, ficou com raiva de mim, discutimos. Ele não é o pai do meu filho, mas ia registrar o menino, eu não deixei. Ele me conheceu quando eu tava grávida. Aí eu disse na cara dela que ele foi uma desgraça na minha vida. Ela veio dar em mim. Brigamos, eu chamei a polícia, ela me botou de casa pra fora. Ele tá na cadeia, tá preso.

 

Comecei a fazer programa há seis meses, depois que tive meu filho. Com a minha filha não, porque antigamente eu não tinha corpo. Sei lá! É influência dos outros, influência mesmo. E por incrível que pareça, minha mãe, um dia que minha mãe chegou e disse: “Eu prefiro você se prostituindo do que traficando”. Minha mãe chegou pra mim e disse isso. Aí eu falei: “Então eu vou me prostituir”. Porque traficando, no dia que ela viu policial metendo a mão na minha cara, na frente dela, ela disse: “Tu saiu da minha casa pra não apanhar, vai apanhar de polícia na minha frente?”. E quem é mãe sofre, vê o filho apanhando de policial. Ela: “Prefiro você se prostituindo porque você vai presa, deixa seus filhos tudo comigo. E você se prostituindo não, você vai fazer o seu. Só é ter cuidado, ter relação com os outro de camisinha pra não pegar uma doença, não engravidar de novo e dar as coisas ao seu filho”. Aí pronto.

 

O pior é o que a amiga dela fez: “Sabe onde tem? Tu ganha dinheiro, vixe. Tu bota o short bem curto porque assim de calça… Tu é bonita, bota o short bem curtinho, bota o salto, ajeita o cabelo, vai pra Boa Viagem ganhar dinheiro”. Eu chamei outra amiga: “Bora minha gente, bora!” A menina nunca tinha feito, a gente foi. Influência. 

 

O primeiro programa foi até bom porque o cara me queria e [queria] a minha amiga. Foi o primeiro que a gente fez. A gente: “Vai eu e tu, o cara quer nós duas”, aí foi o primeiro. Quando vão duas a confiança é maior, entendeu? Aí foram as duas, cada uma cem reais, mas o cara era chato: “Não, que eu quero assim, que eu quero assado”. Fomos pro motel. 

 

Com esse dinheiro eu compro roupa, não tenho nenhum móvel, só roupa. Dinheiro amaldiçoado. Minha mãe sempre disse: “O corpo é seu, você faça o que você quiser”, mas ela sempre disse: “Procura uma pessoa pra te mudar, pra tu sair dessa vida”. Tinha um coroa que eu ficava que ela gostava que só dele, me dava de tudo. Dava roupa, queria casar comigo. Eu disse: “Que casar? Quero casar com ninguém”. Já tô revoltada, vou casar com os outros? Só que ele era casado em Minas Gerais. Eu quero um solteiro que me tire dessa vida, solteiro. Eu ia destruir o casamento dos outros, porque ele ia deixar a mulher dele pra ficar comigo. Aí eu não queria, quero arrumar um homem solteiro, um homem que seja bom pra mim, que me ajude. 

 

Eu aprendi uma coisa, que dinheiro nessa vida não é muito, não. O negócio é atenção, carinho, é só isso que a pessoa precisa. Um homem solteiro que dê atenção à pessoa e que queira mudar a pessoa, porque o homem pra deixar a mulher mais revoltada do que ela é, melhor ficar solteira. Quero uma pessoa pra me mudar, mas pra isso primeiro eu tenho que me mudar. É isso que eu tô fazendo, mas não adianta eu chegar na favela e conhecer um traficante. Porque eu vou conhecer o traficante, vou vê-lo ganhando dinheiro, vou querer ganhar dinheiro também. Eu vou traficar tudo de novo.

 

Eu parei de traficar porque o meu melhor amigo tentou me matar. Eu tive que sair dessa favela onde eu moro. Os policiais quando me pegavam sempre me soltavam. Porque lá no Coque, de mulher mesmo, lá na favela onde eu tava, só tinha eu. E eu sempre ficava de sutiã, de shorts bem curtinho, os policiais me pegavam: “Pô, tu é tão bonita”, não sei o quê. Tinha um policial que ele era doido por mim. Dava no meu marido, dava tanto, tinha ódio dele. Aí todo mundo tava dizendo que eu tava ficando com esse policial e eu não tava, porque eu não gosto de polícia, eu odeio polícia. Inveja, as meninas com inveja, umas mulheres de traficante: “Ôxe, todo dia os homens pegam ela, solta, só dá nela, dá nela e solta”. Aí eu digo: “Vou fazer o quê? Porque os policiais ficam afim de mim? Só que eu não quero nenhum”. Aí o cara foi lá e disse: “Ó, você não tá ficando com policial?”, eu disse: “Não tô não, se tu quiser acreditar nos outros tu acredita, também”, aí ele: “Ôxe, é? Eu vim falar contigo, você vem falar comigo na ignorância”, ele pegou o revólver e... Eu tava ali ó, quando ele meteu um tiro, o tiro pegou na parede assim, eu saí correndo, mas não pegou em mim, não. Já passei de morrer em muita gente. Saí correndo, fui embora, deixei roupa, deixei tudo.

 

Desisti de traficar, e esse mês faz dois meses, desisti de fazer programa de uma vez. Não vale a pena, porque lá a pessoa morre de todo jeito. Tem homem doidão que mata a pessoa. passa aí no jornal: “Garota de programa morreu”. Não, quero isso pra mim não. É melhor aqui que o pouco com Deus já é muito.

 

Ainda tava traficando, soube desse curso, aí as meninas falaram: “Volta”, aí a minha mãe foi no juiz, teve esse negócio do estupro, pediu, disse pra conselheira que eu tava muito revoltada, que eu tava roubando. Nisso a Conselheira Tutelar ligou pra minha mãe: “Ó, eu vi sua filha assaltando o ônibus, passou na reportagem. Aí isso tudo foi encaixando. Aí tava fazendo psicólogo no Criar [Centro de Atendimento à mulheres e jovens vítimas de violência] e foi nesse negócio. eu disse que eu queria uma coisa pra distrair a minha mente, porque quando eu não venho pro curso dá vontade de fazer tanta coisa, tanta coisa errada. Mas só vindo pra cá mesmo, porque a pessoa distrai, tira aquele negócio. Igual tem na Bíblia: “Mente vazia é oficina do diabo”. A pessoa fica com vontade de fazer um monte de coisa errada, de traficar, de se prostituir de novo. É muita coisa. Eu nunca fui chegada a roubar os outros não, porque, sei lá. Muitas vezes aquele negócio que eu já trabalho na rua e sei que muita gente é trabalhador, só tem aquele dinheiro. Que nem o dia que eu fui assaltada, eu chorei tanto. Aquele dinheiro, muitas vezes a pessoa fala: “Eu só tenho esse dinheiro pro meu filho”, precisa roubar e ir pra casa sem nada. Roubar os outros nunca foi comigo, não. Mas de se prostituir e de traficar dá muita vontade. 

 

Eu ainda tenho vontade de traficar e me prostituir. A pessoa tem que ter muita fé, muita... Tipo aqui, de vez em quando tem palestra de autoestima e eu participo muito. Faço cartolina. Digo às meninas, eu já contei a minha vida às meninas. Digo que a pessoa primeiramente tem que ter fé em Deus, tem que ter perseverança e muita, muita fé. Aquele negócio: “Eu vou conseguir!” É um ano, um ano e meio o curso, um ano e três meses. Dá pra chegar lá. Já faz o que? Já vai fazer quatro meses. Dá pra ir. Aí dá vontade de desistir, é aquele negócio: desiste. Vai. Aí a pessoa tem que ter muita fé mesmo.

 

Quando a situação complica, dá um aperto, a pessoa passando fome, eu mesmo não tinha nem pra onde ir. O menino que eu ficava que pagou a casa. Fui conseguir alugar minha casa hoje, tava dormindo na casa dos outros. Os outros passam na cara. Ele pagou aluguel pra mim, que eu tava ficando com ele. Cheguei a dizer: “Eu tô tão alegre hoje. Consegui alugar minha casa!”. Ele pagou a minha casa. Tenho nada, eu dormindo no chão, tendo onde tomar banho, tendo as minhas roupas, a pessoa começa assim do nada, um dia a pessoa tem tudo.  Eu vi a minha mãe, minha mãe começou na caixa de sapato. A minha mãe conseguiu, por que eu não vou conseguir? A pessoa trabalhando... Quando eu sair daqui, com fé em Deus, eu vou trabalhar, vou ser alguém na vida. Eu vou mostrar pra todo mundo que a minha vida foi diferente das pessoas que jogaram praga pra mim, que já fizeram mal pra mim. Eu quero um dia crescer, crescer eu não cresço mais, mas terminar meus estudos, ser alguém na vida. Mostrar pra minha família, já chegou gente pra me dizer: “Tu vai morrer cedo. Tu vai ser igual tua irmã, morrer cheio de tiro na cara”. Minha mãe já me falou, minha irmã, tanta gente, e eu vou mostrar pra essas pessoas que eu vou ser diferente.

 

Meu sonho era ser advogada, mas eu tô fazendo esse curso – faço curso de imagem pessoal – mas eu gosto de fazer unha, fazer cabelo, eu só quero ter uma profissão, ter o que dar pro meus filhos, criar meus filhos e um dia ter minhas coisas. Ter uma geladeira, ter um fogão. Só isso, que hoje eu não tenho. Eu tenho casa, só que eu não tenho nada, só tenho minha roupa.

 

As pessoas tem que fazer diferente das coisas que as outras pessoas fazem. Eu já entrei em todas as vidas, já fui de tudo um pouco e sei que isso não é futuro, não. E eu quero que muita gente tenha a oportunidade que eu tive, mas tem muita gente que tem a mente fraca. Já vi gente... Já vi amiga minha se matar por mente fraca. Eu já tentei me matar. Todo Ano Novo eu vou pra igreja. Quando o pastor faz: “Agradeça a Deus pela vitória que você ganhou esse ano!” Eu olho assim: “Que vitória? Eu não tive nenhuma!”. O pessoal olha assim, mas a vitória quem faz somos nós mesmos. Se eu for pra igreja esse ano, Ano Novo, a vitória que eu tive foi ter mudado a minha vida, que só pelo simples fato de eu estar viva, todo dia Deus sentar perto de mim, olhar pra mim, me dar mais um dia de vida, eu agradeço a ele todo dia. Todo dia eu agradeço a Deus pela minha vida e pelo fato de eu fazer esse curso, de eu ter pessoas pra conversar, novas amizades. Tem gente aqui que não presta, mas tem gente também que não dá conselho. É muito bom pra mim, se eu for, eu digo: “Eu tive uma vitória que foi essa. A única vitória que eu tive”, mas é assim, cada derrota da pessoa é uma barreira derrubada pra pessoa chegar ao topo do sucesso. Isso eu aprendi.

 

Eu ainda quero ser advogada. Meu sonho é estudar, fazer uma faculdade, porque eu acho que são seis anos e meio, eu acho muito bonito. Eu ainda tô na oitava, mas desistir nunca, lutar se possível. Essa semana eu vi na televisão, uma mulher que foi estudar já idosa, foi a primeira juíza negra a ser…

 

Se os outros conseguem por que eu não consigo? Pronto. A pessoa tem que lutar. Eu já vi gente estudar tarde, idoso. Na minha sala tem idosos. Quando eu passar na oitava, eu faço o que? Eu só tenho dezessete anos, eu faço o primeiro, o segundo e o terceiro juntos. Vou terminar meus estudos com vinte anos. Daqui pra vinte anos eu termino meus estudos, faço uma faculdade, acabou-se, estudo, pago minha faculdade. Hoje em dia até faculdade de graça tem, se for um bom aluno. Precisa correr atrás. Tudo o que a pessoa quer a pessoa consegue, tudo.

 

Essa semana as psicólogas aqui perguntaram: “A gente pode prever a nossa vida? Prever não, determinar a nossa vida?” As meninas: “A gente não pode não, porque quando a gente diz uma coisa dá tudo errado, porque de vez em quando a gente pode até dizer: “Ó, eu vou fazer isso”, mas a gente acaba não fazendo, mas quem quer mesmo faz. Hoje teve um acidente ali em cima, o barco de jangada não tá passando. Tinha que subir lá pra... Eu liguei pro mototáxi, quis vir dar essa entrevista hoje. Liguei pro meu mototáxi, disse: “Olha eu tô sem dinheiro” - ele me cobra oito reais para me trazer do meu bairro pra cá. “Quando sair o dinheiro do meu curso eu te pago, pode me trazer?”, “Eu posso”. Aí eu vim explicando à ele o que é, ele até achou bonito, interessante. Ele fez: “Não se preocupa não, quando tu puder pagar tu me paga, me trouxe. Eu quis vir pra cá. Imagine se eu fosse esperar ônibus! Quando a pessoa quer a coisa, consegue.

 

O medo que eu tenho é do meu filho crescer e não me reconhecer. Mas eu acho, se no dia que eles crescerem não me reconhecerem, seria injusto, porque eles nunca foram pro orfanato. A minha filha chegou a ir. Eu não a coloquei, foi a minha mãe, com raiva do pai da minha filha e com raiva de mim, porque eu era doida por ele e ela não gostava dele. ] Aí eu disse a ela que eu ia esquecê-lo. O esqueci por causa da minha filha. Aí foi pra juiz, pediu autorização pra tirar minha filha de novo. Mas acho que no dia que meu filho não me reconhecer como mãe eu vou achar injusto. Minha filha não demorou no orfanato não, só passou umas duas semanas. Eu passei oito anos no orfanato e eu reconheço minha mãe. Minha mãe já deu em mim, já fez tudo, fez tanta coisa comigo e é minha mãe. No dia que meus filhos não me reconhecerem como mãe… Vão ser injustos, porque minha mãe já fez tanta coisa comigo, já aconteceu tanta coisa de ruim comigo através da minha mãe e eu não sou... Eu só não gosto de morar com ela, mas dou benção, mando mensagem pra ela, minha mãe, minha irmã e meus filhos são a minha vida. Eu amo a minha mãe, minha irmã, os meus filhos. Meu pai não. Também não odeio, mas não o amo, não. 

 

Mas minha família é diferente. Eu tenho medo do meu filho me reconhecer só como mãe, mas se eu pegar ele, o curso agora é de oito horas, a gente larga cinco e meia, eu tenho que estudar a noite. Com quem eu vou deixar o menino? Com quem eu vou deixar os meus filhos? Não posso deixá-los trancados em casa, por isso tem que ficar com a minha mãe mesmo. A minha mãe passou a trabalhar esse mês, quem fica é minha irmã. Minha mãe a ajuda, eu ajudo a minha irmã. Minha irmã nunca foi de trabalhar, preguiçosa, mas uma coisa que ela pode agradecer a Deus, muito, isso eu não posso agradecer, muita sorte ela teve. Nunca aconteceu nada de mal com ela. Se perdeu com o marido dela, que ainda é o atual. Vai fazer o quê? Seis anos que eles tão juntos, botou ela dentro de uma casa, casou com ela.

 

Eu só quero dizer isso: que a minha história sirva de exemplo como a de muitas pessoas, de lição, da pessoa lutar, estudar, trabalhar, pra ser alguém na vida, porque tráfico de droga, usar droga, se prostituir, não tem futuro. Dinheiro amaldiçoado, dinheiro fácil, vai embora fácil. E é o único futuro que a gente tem é o dinheiro do nosso suor, trabalhar, estudar, lutar até o fim. Ouvi muita gente dizer: “Você não vai conseguir, não. Vai dar tudo errado”, Vai nada, vai dar tudo certo, eu vou conseguir porque tem atleta que é paralítico que ganha medalha, vai pra Olimpíada. A gente tem dois braços, dois pés, duas mãos, por que a gente não pode conseguir.

 

Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista íntegra, bem como a identidade dos entrevistados, tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.

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