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História

Rosa e a fábrica de sonhos

História de: Depoimento de Rosa Maria Neumann
Autor: Tayara Barreto de Souza Celestino
Publicado em: 10/07/2021

Sinopse

Rosa Maria, colaboradora que passou por diversas estações e funções de trabalho dentro do Banco do Brasil, relata como foi a experiência dentro da instituição, onde dá detalhes de sua participação na Fundação Banco do Brasil e engajamento na criação e desenvolvimento do projeto “Criança e Vida”, que contribuía com o trabalho de diversos hospitais pelo Brasil no tratamento de crianças em situação oncológica.

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História completa

Projeto 20 Anos Fundação Banco do Brasil

Depoimento de Rosa Maria Neumann

Entrevistada por Aurélio Araújo e Eliete Silva

Brasília, 28 de janeiro de 2006

Realização Museu da Pessoa.Net

FBB_HV0011

Transcrito por: Lívia Oushiro

Editado por: Mariana Araujo Gomes


P/1 – Boa tarde.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Dona Rosa, eu vou pedir para você, mais uma vez, repetir o seu nome completo como a gente fez lá fora.

 

R – Rosa Maria Neumann.

 

P/1 – Local e data de nascimento.

 

R – Nasci em Nova Lima, Minas Gerais, no dia 23 de outubro de 1955.

 

P/1 – O nome de seus pais.

 

R – João Baptista Neumann e Erci Erbisch (?) Neumann.

 

P/1 – Qual a atividade profissional de seus pais?

 

R – Meu pai era eletrotécnico, ele ajudou muito na fundação dessas hidroelétricas aí de Paulo Afonso, da Cemig [Companhia Energética de Minas Gerais], e por isso ele foi convidado para Brasília e veio em 1958 para implantar a eletricidade aqui. Ele era encarregado de uma das áreas do DFL, que era o Departamento de Força e Luz de Brasília. E minha mãe sempre foi dedicada à casa e aos filhos. Então, eu sempre digo, eu venho de uma família tradicional e politicamente correta, porque uma família que pai e mãe viveram juntos até a morte do meu pai e que sempre se preocuparam muito conosco, mamãe sempre muito dedicada, apesar de que ela trabalhava fora antes de casar. Mas ao casar, ela fez a opção, nós somos seis filhos, e ela, a opção dela foi por cuidar dos filhos. Inclusive, quando viemos para Brasília, ela teve várias propostas de trabalhar na implantação da telefonia em Brasília, porque ela foi telefonista por muitos anos na cidade dela. Mas ela optou pela família, e é daquelas mães como galinha, assim, com os filhos debaixo das asas. Então tive uma infância muito feliz, a gente... meu pai sempre muito preocupado que a gente se divertisse, porque Brasília, no início, não tinha... a gente não tinha, era mato e terra vermelha. E então, a gente saía desbravando o cerrado. Meu pai... minha mãe arrumava aquela cesta de piquenique e a gente ia passear. Então entrava pelo meio do mato. Aí meu pai falava assim: "Eu estou ouvindo uma água; tem cachoeira que perto." Aí entrava no meio do mato, a gente tinha uma Kombi e ele entrava no meio do mato. Quando o mato ficava aquele cerrado fechado, ele descia, metia o facão, quebrava e a gente atravessava até encontrar uma beira de rio para a gente fazer o piquenique. Então nisso a gente teve uma infância muito feliz e, assim, com descobertas muito grandes de bichos do cerrado, a gente cruzava com cobras e não tinha medo. A gente pegava ou brincava, papai ensinou logo pra gente quais eram as venenosas e as que não eram venenosas; então, ou a gente brincava ou matava. Era assim, a gente já sabia se defender. Então, brincamos muito, tivemos... eu tive uma infância muito feliz, graças a Deus.

 

P/1 – Você teve irmãos?

 

R – Nós somos seis irmãos.

 

P/1 – Seis irmãos.

 

R – Tenho uma irmã que já faleceu há 20 anos de um câncer, mas os outros cinco, somos bem unidos. Inclusive com meu cunhado viúvo e meus sobrinhos, filhos dela, nós somos todos muito unidos até hoje.

 

P/2 – Qual a origem da sua família, Rosa?

 

R – Meu pai é filho de um alemão com uma portuguesa, e minha mãe é filha de italiano com uma mineira.

 

P/1 – Boa mistura.

 

R – É. (risos)

 

P/2 – E a origem do nome... é Neumannn?

 

R – É, é Neumannn [“nóiman”], é alemão.

 

P/1 – Alemão. Você frequentou escola aqui em Brasília?

 

R – Minha vida inteira. Eu fiz parte do... eu sempre estudei em escola pública. O ensino público em Brasília era de primeira. E quando eu entrei... a gente chamava de escola classe, cada quadra tinha sua escola classe. E eu estudava em escola classe, escola pública, uma preparação muito boa, e quando fui para o ginásio, fui pro Caseb. O Caseb foi instalado em 1960, e lá eu me formei. E até uma grata, tenho uma grata satisfação de dizer que minha turma de formatura dos anos 1970, até hoje a gente se encontra.

 

P/1 – Muito legal.

 

R – Quando foi no ano 2000, fazia 30 anos da nossa formatura. Então nós juntamos um grupo pequeno e conseguimos juntar um grupão, e fizemos uma festa de comemoração dos nossos 30 anos de formatura. O ano passado, como todos nós completamos 50 anos, nós fizemos uma festa dos “cinquentões” do Caseb. Então eu tenho, assim, também um álbum em casa com a história do Caseb. Eu fui ao Caseb, peguei como era o colégio na época e tal, tenho fitas gravadas, tenho todo um histórico do Caseb. Agora eu fui até convidada para participar de um trabalho de feitura, ou confecção, não sei como é que é o nome correto, de uma fita, montagem de uma fita sobre a história do Caseb, já que a gente está com uma turma que está seguindo junto, né? A nossa turma do Caseb é muito unida. Essa turma, é claro que não são todos que foram na festa do ano 2000. O grupo vai se reduzindo, sempre tem uma seleção natural, tem uma seleção que a gente mesmo faz de algumas pessoas, e tem a parte de pessoas que se mudam e tal. Enfim, mas nós temos um grupo pequeno dessa época, e que a gente fica, e cada vez que a gente se encontra, a gente canta o hino do Caseb, que foi feito pela professora Neusa França, que era a nossa professora de música e é muito conhecida em Brasília, ela é professora de música até hoje.

 

P/1 – Deixa eu te perguntar. Depois de acabar o segundo grau no Caseb...

 

R – Ah, tá. Não, o Caseb foi o primeiro grau.

 

P/1 – O primeiro grau.

 

R – Aí eu fui para o Elefante Branco. Para vocês terem uma ideia, na época, minha colega que hoje está nesse grupo nosso pequeno, Eleonora Passarinho, ela era... ela é filha do Jarbas Passarinho que na época era o Ministro da Educação. Então a gente fala, a escola era tão boa que a filha do ministro, os filhos do Ministro da Educação estudam na escola, tanto no Caseb quanto no Elefante Branco. E do Elefante eu tinha um sonho de fazer arquitetura, aí eu não passei no primeiro vestibular, e eu queria fazer, na verdade, era arquitetura de interiores, decoração de interiores. Isso só tinha em Belo Horizonte. Mas imagina, em 1973, meu pai ia deixar uma filhinha dele sair daqui com 17 anos para Belo Horizonte, para fazer um curso superior. Então, com esse impedimento, eu fiquei em Brasília fiz administração e me especializei em recursos humanos. E de lá pra cá, eu não fiz ainda nenhuma pós-graduação ou mestrado, só fiz, assim, vários cursos de formação e pretendo agora, depois de aposentada, fazer pós-graduação em estatística, em epidemiologia e administração hospitalar, porque o meu futuro é trabalhar com oncologia pediátrica.

 

P/2 – Bom, e depois você fez a universidade, fez onde e depois você, no momento da universidade, você trabalhou, o que você fez? Ou ficou só estudando?

 

R – Eu trabalhava. Quando entrei para a universidade, eu já tinha passado no concurso do Banco do Brasil. Eu primeiro trabalhei no Banco Real por uns meses, depois trabalhei na Telebrasília por uns meses...

 

P/1 – Só para registro, qual ano?

 

R – Eu comecei no Banco Real em 1974. Aí, em 1975, eu fui pra Telebrasília, trabalhei alguns meses lá e passei no concurso do Banco do Brasil e assim fui para o Banco do Brasil em 1976, fevereiro de 1976. E lá fiquei até o dia 23 de outubro de 2003. Foi o dia que eu completei 48 anos, e foi o dia... eu tinha 29 anos e pouco de trabalho, foi o dia que eu escolhi pra minha aposentadoria, o dia do meu aniversário. E então eu...

 

P/2 – Quando você entrou no Banco do Brasil, qual foi a sua primeira área de atuação?

 

R – No Banco do Brasil, eu trabalhei inicialmente na área de funcionalismo. Então, no primeiro ano de banco, eu fazia trabalho de escriturária. Era pegar as fichinhas e bater, que naquela época chamava fé-de-ofício; era uma folha que tinha todos os dados cadastrais do funcionário. E então vinha uma informação da agência: "Fulano de tal tomou posse nesta agência em tal data. Saiu da agência em tal data." E a gente colocava: "Foi nomeado gerente em tal data. Foi nomeado escriturário A, B, C, D em tal data." E a gente tinha só que registrar isso na fé-de-ofício de cada funcionário. Passei um ano fazendo isso e, em 1977, fui convidada a ir para a presidência do banco, onde eu trabalhei 14 anos. Trabalhei sempre como... a maioria desses 14 anos, a maior parte desse tempo, eu trabalhei como uma das secretárias do presidente, que nós éramos uma equipe para atender o presidente do banco. Mas trabalhei uma fase também na secretaria, foi uma fase até pós-parto que eu precisava de... eu quis diminuir meu tempo de trabalho, não queria mais trabalhar o dia inteiro pra ter mais atenção pro meu bebê. E eu... meu bebê, que hoje tem 26 anos. E eu então fui para essa área que era a secretaria. Aí lá a gente trabalhava, passava Telex, vocês nem sabem o que é isso... a gente fazia, tinha que bater na máquina uma fitinha, e a fita saía toda perfurada. Aí depois a gente conferia o texto e passava essa fita, e ela ia passando para o número de Telex. É como se fosse um fax, só que a gente, ao invés de passar um fax, passava por Telex porque era uma opção mais barata de comunicação na época, e a gente passava isso o dia inteiro. Dali eu também fui trabalhar na Comissão de Recursos Humanos da presidência do banco, porque o funcionário do banco quando recebia uma penalidade, ou ele era demitido, ou ele tinha uma penalidade, uma advertência, ou um afastamento obrigatório que ele tinha... que o banco... uma pena, como uma penalidade mesmo. Ele tinha o último recurso, que era recorrer ao presidente e se explicar e tentar... eram gerentes de banco, eram funcionários comuns, eram... qualquer um que recebesse penalidades tinha o direito de recorrer ao presidente, para essa comissão. E eu trabalhei lá, e foi uma época muito gratificante porque eu me identifiquei muito, porque é uma parte de recursos humanos que eu gosto muito, e ali eu tive a oportunidade de conviver com os problemas das pessoas das agências. Coisa que até então, aliás, nos 29 anos de banco eu nunca trabalhei em uma agência; a única experiência de tratamento com o público que eu tenho em agência foi do Banco Real, meu primeiro emprego. Então no Banco do Brasil, essa Comissão de Recursos me proporcionou essa oportunidade de lidar com os sentimentos das pessoas. Houve uma época no banco que o presidente do banco lançou o novo rosto do Banco do Brasil. Então ele... foram demitidos mais de 50% dos gerentes, trocados mais de 50% dos gerentes.

 

P/2 – Que época que foi essa?

 

R – Olha... eu acho que foi lá para 1983, 1984.

 

P/1 – A gente pode retomar um pouquinho? Você comentou que, por volta de 1976, ingressa no Banco do Brasil.

 

R – Sim.

 

P/1 – Pergunta que eu acho interessante saber para registrar: o que era ser funcionário do Banco do Brasil naquela época e por que a opção pelo Banco do Brasil? Quando você ingressa ali, o que que você está visualizando?

 

R – Olha, a minha decisão de ir para o Banco do Brasil foi muito racional, muito mais racional do que emocional. Eu sou uma pessoa que eu acho que eu sou mais emoção do que razão, mas nessa decisão de ir para o Banco do Brasil, eu fiz o contrário, porque eu tinha... eu estava recém-casada. Aliás, eu estava noiva, com casamento marcado, e pretendia ter muitos filhos. E eu trabalhava na Telebrasília, amava o trabalho que eu fazia porque trabalhava com o diretor de recursos humanos, eu era a assessora dele. Então, a gente lidava com todas as áreas de recursos humanos, de transportes e tudo o mais ali da Telebrasília. E esse meu chefe é meu amigo até hoje, a gente se encontra até hoje, foi uma relação muito importante pra mim de trabalho profissional, de conhecimento, e ele... e nós fazíamos um trabalho muito gostoso. E eu não queria deixar. Mas meus pais estavam se mudando para São Paulo; eu, noiva, ia casar, queria ter filhos. Aí eu pensei... e lá na Telebrasília, eu sempre fui muito dedicada ao trabalho; quando eu pego uma coisa, eu me dedico muito. Então eu não tinha hora para entrar, pra sair, eu não tinha sábado, eu não tinha domingo, e aí o meu noivo começou a puxar corda. Falou: "Olha, pensa bem. Você não quer ir para o Banco do Brasil? No Banco do Brasil você pode trabalhar seis horas, vai ter hora pra entrar, hora pra sair. Você não vai levar problema pra casa." E eu, cega pela paixão, quando a gente está noiva, a gente sempre escuta muito o noivo, né? E eu ouvi e usei muito a minha razão nessa fase e optei pelo Banco do Brasil porque eu tinha a opção de... eu ia ganhando menos do que eu estava ganhando na Telebrasília, mas eu trabalharia seis horas, não levaria serviço para casa, não teria horas extras, não teria nada disso – o que não aconteceu, porque assim que eu entrei no banco, eu comecei a me envolver, e na área que eu fui trabalhar, de funcionalismo, não tinha funcionário trabalhando seis horas, eu trabalhava oito. E só quando a minha filha nasceu, em 1979, e que eu tive um problema de pré-eclâmpsia, pressão alta, então eu tinha que controlar a alimentação até o final da gravidez, então eu pedi para trabalhar seis horas. Mas na própria presidência eles abriram uma exceção e eu era a única que trabalhava seis horas lá, com a promessa de que assim que passasse, que a minha filha crescesse, que eu retornaria ao horário normal e foi o que aconteceu.

 

P/1 – Deixa eu te perguntar. Você falou que você retoma... em 1985, você comenta que o presidente do banco, estava comentando com a gente, busca uma nova cara pro banco.

 

R – Isso, em 1983, 1984...

 

P/1 – 1983, 1984. E muitos gerentes foram trocados. Isso afetou o seu cotidiano de trabalho, o seu dia a dia de trabalho?

 

R – Afetou profundamente...

 

P/1 – Como?

 

R – ... porque essas gerentes que eram pessoas que eram consideradas autoridades, altas autoridades nas cidadezinhas deles, eles vinham na Comissão de Recursos pedir uma ajuda do presidente, pedir uma reavaliação do presidente e essas criaturas choravam copiosamente na minha frente. Eu recebia essas pessoas, e eles choravam, e eles falavam: "Eu não sei porquê que eu fui trocado. Minha agência estava dando lucro, eu tenho uma clientela boa, eu não sei como é que foi..." Quer dizer, desestruturou a vida dessas pessoas, a vida profissional, a vida familiar e emocional, porque eles começaram a questionar a capacidade deles. Então eles encontraram lá nessa Comissão de Recursos que era composta de cinco membros, pessoas, assim, muito especiais, pessoas muito humanas, e eu tive o prazer de trabalhar e aprender muito com eles. Então tive ali a oportunidade de exercer tudo o que eu tinha aprendido de recursos humanos e de aprender profundamente de como lidar com um ser humano. Até de não chorar junto com ele, porque a minha primeira reação era responder à emoção dele, né? Ver um homão daquele chorando na minha frente, sem entender porquê que a vida dele caiu de um pedestal de uma hora pra outra, era assim uma surpresa. Então tive que aprender, e foram meses de trabalho, desse trabalho. E ali a gente tinha uma possibilidade, essa Comissão tinha autoridade para avaliar cada caso, analisar e propor ao presidente reconsiderar ou não. Quer dizer, levavam ao presidente para ser assinado um parecer favorável ou não ao pedido do funcionário. Então, era muito importante pra mim ver aquelas pessoas, tão humanas, trabalhando com tanta seriedade e lidando com o sentimento das pessoas. E eles tinham esse poder de julgar sim ou não, e propor ao presidente que assinasse sim ou não. Então foi uma experiência muito gratificante.

 

P/2 – Bom, logo depois você foi para qual área lá no Banco do Brasil, depois de ter ficado nesse...

 

R – Aí eu voltei para ser secretária do presidente. Aí foi quando entrou o presidente Camilo Calazans, e eles queriam colocar pessoas com experiência já da presidência, porque o presidente anterior tinha trocado muitos funcionários. Como ele fez esse novo rosto nas agências, ele fez também na presidência. Então é o Rabelo, João Pinto Rabelo, que era o subchefe de gabinete nessa época, que cuidava desses assuntos do presidente, e ele me convidou. E eu amava trabalhar na Comissão de Recursos. Então eu perguntei ao Rabelo assim: "Rabelo, isso é um convite ou uma ordem? Porque se for uma ordem, eu vou cumprir. Agora, se for um convite, eu vou me dar o direito de declinar." Aí, ele disse: "Não Rosa, você não pode declinar. Você é uma pessoa que conhece muito bem o banco, conhece bem, assim, os assuntos de interesse do banco, você já trabalhou na presidência, você tem..." – como é que eu vou usar o termo... – "traquejo, ou descontração, discernimento para lidar com autoridades." Porque eu tinha feito isso já durante muitos anos... quem frequentava o gabinete do presidente do banco eram sempre pessoas de primeiro, segundo, terceiro escalão do governo. Então a gente recebia governadores, até Presidente da República. Então ele falou: "Eu preciso de alguém com essa experiência. Então considere que você não pode declinar." Aí eu chorei muito para sair da Comissão de Recursos, mas eu gostei de trabalhar, sabe? Aí fui trabalhar com presidente Camilo, trabalhei muitos anos com ele, e depois continuei ali com o presidente Mário Berard. E quando entrou depois o presidente Policaro é que eu então passei por uma fase que eu não, não... que eu quis mudar. Falei: "Tenho 14 anos já de banco e eu acho que eu preciso mudar, conhecer mais o banco e tal." E uma pessoa que tinha saído da presidência, que me conhecia, que tínhamos trabalhado juntos, estava trazendo a corretora de seguros do Banco do Brasil do Rio para Brasília. Então, ele me convidou para ir para a corretora. E eu falei: "Vai ser um belo desafio. Eu quero ir, sim." Aí fui trabalhar com ele e lá trabalhei... ele me disse que eu ia trabalhar com seguro Ouro Vida, e eu acabei trabalhando com a contabilização do seguro Ouro Vida, porque a pessoa, o contador que nós tínhamos lá estava muito sobrecarregado. E então a gente trabalhava e ao mesmo tempo tinha dezenas de caixas ainda no corredor para serem desencaixotadas, de papéis de trabalho importantes, que ainda tinham que ser feitos. A gente trabalhava 12 a 15 horas por dia incansavelmente. E nessa época... eu sempre gostei muito de organizar festas, eu morava numa casa grande no Lago Norte, e eu tinha uma varanda enorme, então a minha casa passou a ser a sede, a gente brincava, da "Ascor." A Ascor era a assessoria da corretora de seguros pertencente a um departamento, que era o departamento... Deban, Departamento de Operações Bancárias. Não tenho bem certeza. Mas era uma coisa assim, a gente era uma assessoria. Então lá em casa passou a ser a sede da Ascor. Então, às vezes eu estava lá trabalhando, e aquela correria, era sempre correndo contra o tempo. Aí, o chefe chegava assim, falava: "Rosa, está terminando um curso de seguros. Nós tentamos... para os gerentes de agência, e nós tentamos alugar, separar a churrasqueira lá da Associação Atlética Banco do Brasil, mas já está ocupada. A gente pode fazer um churrasco lá na sua casa?" eu falava: "Pode. Que dia que vai ser?" "Hoje." "Hoje? Não, então espera aí. Que horas são? Então eu tenho que ir para casa, parar de trabalhar pra ir pra casa organizar." E pra mim não tinha mau tempo; eu ia para casa, corria, organizava, e a gente num instante fazia festa, e eram festas gostosas, acolhedoras, porque a gente... era um ambiente nosso, né? E como a gente trabalhava muito lá na corretora, a gente tinha essa amizade, essa afinidade, esse sentimento de equipe, sabe? Esse trabalho de equipe que realmente, ou a gente se juntava para fazer um trabalho bem feito ou não ia dar em nada. E o nosso gerente geral, que era o Sequine (?), João Carlos Sequine, é uma pessoa extremamente agregadora. Então ele conseguiu que a gente fizesse esse trabalho de equipe e vivesse junto. Tanto que eu tenho amigos daquela época, que nós somos amigos de dar aquele abraço de meia hora quando a gente se encontra.

 

P/1 – Rosa, você comentou que trabalhou na presidência do Banco do Brasil, inclusive com o doutor Camilo Calazans.

 

R – Ahã.

 

P/1 – O Camilo Calazans, os entrevistados falaram que ele era muito querido...

 

R – É.

 

P/1 – ... que ele propôs uma série de mudanças na estrutura do banco...

 

R – Exato.

 

P/1 – ... e mudou a cara do banco, mas não no sentido que você falou de tirar pessoas, mas mudou a atuação do banco. E o doutor Camilo Calazans também foi o responsável pela criação da Fundação Banco do Brasil, do Centro Cultural Banco do Brasil...

 

R – Foi.

 

P/1 – Ao trabalhar na presidência nesse período, você tomou conhecimento da criação da Fundação Banco do Brasil?

 

R – Totalmente, totalmente. A Fundação quando foi criada tinha um secretário executivo que era o doutor Camargo.

 

P/1 – Isso.

 

R – Então, e como secretária, uma das secretárias do presidente, eu comecei a trabalhar, a gente viu... como a gente tinha que trabalhar muito tempo, nós dividimos em turnos. Então nós tínhamos as que trabalhavam de oito às duas, e as que trabalhavam de duas em diante. Como eu tinha criança pequena e as minhas filhas estudavam à tarde, eu optei por trabalhar de duas em diante. Acabou que esse duas em diante virava nove, dez da noite... depois, na época do Mário Beirar, uma da manhã. Muitas vezes, a gente saiu do banco nesse horário. E o doutor Camilo realmente fez uma mudança muito grande; ele era funcionário do banco e tinha uma, uma... característica muito grande de ser afetuoso com os funcionários, sabe, tanto com a gente quanto com o funcionalismo em geral. Ele lutou muito e conseguiu muita coisa, as mudanças que foram feitas em benefício do funcionário foram feitas na época dele. A Fundação não foi criada em benefício dos funcionários, mas foi criada em benefício da comunidade. E isso é o que a gente chama de solidariedade para com o próximo. E isso ele fez muito bem. E a Fundação, eu sempre tive um pé na Fundação desde que ela foi criada. Mesmo eu trabalhando fora dela, eu estava sempre acompanhando a Fundação. Acompanhei muito na época do Maurício Teixeira, porque o Maurício Teixeira da Costa, nós temos uma ligação muito grande, porque quando eu me formei, eu já estava na presidência e ele era subchefe do gabinete da presidência e eu me especializei na faculdade em recursos humanos. Na minha monografia eu fiz um trabalho para o banco, que era uma reavaliação da avaliação funcional e o Maurício foi o meu instrutor. Ele estava recém-chegado de Harvard, de onde ele tinha feito o mestrado nessa área e ele foi o meu instrutor. E nós somos muito amigos até hoje. Quando ele foi para Fundação, a gente sempre estava se encontrando, a gente sempre conversava, eu recebia os relatórios da Fundação, então estava sempre sabendo o que a Fundação fazia. E solidariedade, essa coisa, sempre foi uma coisa muito próxima, eu sempre vivi muito isso, porque eu já falei para vocês que a minha família era, assim, politicamente correta, e meu pai sempre muito preocupado com isso. Meu pai era eletrotécnico, ele coordenava um grupo de implantação de iluminação. Então, meu pai... o Teatro Nacional, meu pai foi o responsável pela iluminação na inauguração; a torre de TV em 1965, meu pai era o responsável; a rodoviária... todos esses monumentos importantes em Brasília, meu pai era esse chefe que coordenava... meu pai chegou a ficar preso dentro do Teatro Nacional porque eles queriam que ele, na época da Revolução em 1964, eles queriam que o meu pai cortasse toda a iluminação da cidade. E meu pai falou: "Não posso fazer isso sem a ordem do meu superior." Que o superior dele era o doutor Paulo Mello, que correu para se esconder para não ter que dar ordem; eles não iam fazer isso, né, ceder à revolução. Então meu pai estava dentro do Teatro Nacional trabalhando com a equipe dele e o pessoal da revolução trancou meu pai lá dentro, eles ficaram alguns dias trancados, porque eles queriam forçar como reféns, eles queriam forçar papai a desligar toda a iluminação de Brasília. E ele não fez isso, a coisa foi negociada, e ele foi. Então, eu tenho, assim, muito a ver com a história de Brasília, meu pai sempre foi uma pessoa que lutou muito; e nessa parte de solidariedade, eu vi diversas vezes o meu pai tirar a camisa do corpo para dar pra um funcionário dele se vestir, porque estava com o frio. Então, um de nós, filhos, perguntava: "Mas o senhor vai ficar sem camisa?" "Mas em casa tenho outra, e ele não tem o que vestir, está com frio." aí ele ia sem camisa até em casa, em casa ele vestia outra. Então eu fui criada dentro desse espírito, sabe, de ajudar o próximo, de pensar no próximo e tentar solucionar os problemas do próximo, aqueles que têm menos do que a gente. Por isso a Fundação sempre me chamou a atenção. Agora, quando eu fui e não sei se você já quer que eu passe para minha ida à Fundação.

 

P/1 – Não, a gente está tranquilo.

 

R – Quando eu fui para a Fundação, eu fui numa época que era o Rabelo, o João Pinto Rabelo, o presidente...

 

P/1 – Você pode falar o ano pra gente registrar?

 

R – Foi em 1996.

 

P/1 – Você sabe o período?

 

R – Foi em julho de 1996 .

 

P/1 – Julho de 1996 a senhora chega na Fundação.

 

R – O Rabelo me convidou, eu fui para a Fundação. E a Fundação estava passando por uma mudança. Ela tinha sofrido uma intervenção porque... eu nem conheço bem a história e não é o caso da gente ir a fundo nessa história. Mas a Fundação tinha sofrido uma intervenção por uma... a Fundação, até então, ela atendia projetos isolados...

 

P/1 – De balcão.

 

R – Qualquer associação... é o que a gente chama de demanda de balcão. Qualquer associação filantrópica podia fazer um pedido, era uma associação que tinha crianças, que cuidava de crianças carentes e queria instalar uma praça de esportes. Submetia à Fundação. Se a Fundação julgasse que aquilo era pertinente, que estava dentro das normas e tal, a gente pedia ao gerente da agência, era sempre o nosso procurador na localidade, ia lá, confirmava se o trabalho era uma coisa séria; sendo assim, vinha o parecer da agência que era uma coisa séria e a gente... e a Fundação então apoiava. Quando eu cheguei, justo nessa época, estava havendo uma mudança: a Fundação estava deixando de atender aos projetos de demanda de balcão para começar com os projetos estruturados pela própria Fundação. Foi uma coisa difícil, foi uma mudança aos poucos, porque o Brasil inteiro estava acostumado a pedir pra Fundação e a gente não podia fechar as portas de uma hora para outra. Então o Rabelo foi muito, teve muito jogo de cintura para fazer isso na época. E o Rabelo tem uma, uma... participação muito importante nessa fase de mudança da Fundação. Quando fui pra Fundação fui para área de desenvolvimento de projetos e lá eu trabalhei com praticamente todos esses projetos da Fundação, o BB Educar... Eu não tomei conhecimento, no primeiro momento, desses projetos pequenos, porque eu estava entrando numa área nova, que era para desenvolver projetos novos. Então nós tínhamos lá o BB Educar, que já existia em pequena escala com a FNAB (?), né, que até hoje ele funciona em parceria com a FNAB; a gente queria expandir isso, então vamos estruturar um projeto realmente e não acolher o que vinha sendo feito só em pequena escala.

 

P/1 – Rosa, eu só tenho uma dúvida. Você teve notícia da Fundação no momento da criação...

 

R – Desde a criação.

 

P/1 – ... desde a criação. E quando você estava trabalhando lá na área de seguros, você tinha ouvido falar de algum projeto, de algum programa... Você tinha ouvido falar do trabalho da Fundação antes de você entrar?

 

R – Eu recebia todo ano o relatório da Fundação, então eu sabia o que a Fundação vinha fazendo, foi na época que o doutor Maurício... mesmo com doutor Camargo lá, eu não sei, eu não sei te dizer se eu pedia esse relatório, ou se eu recebia o relatório pelo fato de eu estar na presidência. A gente recebia, e a gente tinha que tomar... a gente estava trabalhando direto com o presidente. A gente sabia, tinha que saber o que que o banco estava fazendo, né, então a gente... eu, pelo menos, me interessava em ler e saber tudo o que estava acontecendo no banco e eu sabia dos projetos da Fundação; sabia que a Fundação trabalhava com projetos de perfuração de poços artesianos, trabalhava com essas escolas que queriam criar a parte de esportes, praças de esportes para os alunos, tirar crianças de rua. Então tinha vários projetos pequenos, construção de padarias, de marcenarias, que tinham um potencial enorme de crescer, e na verdade, a gente ficava só... a Fundação – eu falo a gente porque me considero Fundação desde sempre – mas a Fundação só apoiava aqueles pequenos projetos, que eram projetos com potencial enorme de ser hoje o que é a Fundação, de ter um banco de tecnologias sociais, que tem projetos importantes, que podem ser reaplicados em qualquer situação, em qualquer comunidade. Então você criar em um centro comunitário uma padaria, você traz emprego, gera trabalho e renda, você traz dignidade às pessoas que estão ali trabalhando, traz sustento a essas famílias, traz conhecimento e traz progresso até para o lugar. Porque dependendo de quem está dirigindo – que a gente sabe que a administração de um projeto é muito importante para o seu desenvolvimento e crescimento – então dependendo de quem está dirigindo o projeto, ele podia crescer, estar se expandindo para as... não só para aquela comunidade, mas para aquele bairro, aquela cidade, cidades vizinhas...

 

P/2 – Agora, Rosa, no momento que você entrou na Fundação, você participou daquela área de desenvolvimento de projetos.

 

R – Sim.

 

P/2 – Você acompanhou o BB Educar, enfim, todos esses projetos que estavam acontecendo nesse momento do Rabelo. Mas como o que aconteceu o envolvimento com o programa Criança e Vida?

 

R – Ah, o Criança e Vida foi um presente na minha vida. O Criança e Vida, eu estava na Fundação há uns seis meses e um belo dia... eu sabia que o doutor Edson Soares Ferreira, que era diretor do banco e era membro do Conselho Curador da Fundação, ele tinha solicitado à Fundação que estudasse uma possibilidade da Fundação apoiar, ajudar criança com câncer. Ele tinha visitado um hospital no Rio Grande do Sul, o hospital da Universidade Federal, e ele tinha ficado muito comovido com o que ele viu lá. E eu não sei em que momento também, se foi antes ou se foi depois disso, ele começou a fazer parte do Conselho Curador da Fundação Orsa, que é uma Fundação importante em São Paulo, que trabalha muito bem com crianças e trabalha com humanização hospitalar também. A Fundação Orsa estava empenhada em ajudar o GRAAC, que também é um grupo de apoio à criança com câncer, cujo presidente ou diretor geral, não sei, mas a pessoa número um lá do GRAAC é o doutor Sérgio Petrilli, que é também o chefe... era na época, hoje eu não sei dizer se continua, era o chefe da unidade de pediatria do Hospital São Paulo, que é da Escola Paulista de Medicina. E o GRAAC foi criado como um anexo da EPM para... só para criança com câncer, porque ao longo do tempo a criança nunca teve um tratamento diferenciado, ela sempre foi tratada como um adulto. A criança tinha muito pouca chance de cura, muito menos do que o adulto. Com o tempo, alguns pediatras, alguns hematologistas foram se juntando e estudando as doenças do câncer na criança e perceberam... hoje, eu tenho a impressão que a Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica deve estar fazendo uns 26 ou 27 anos de criação. Com a criação, então desde esse tempo remoto que eles começaram, um aqui, outro ali a estudar isso e ver que a criança tinha uma resistência muito maior à quimioterapia que o adulto e em 1997 a experiência deles é que a criança podia ter até 70% de cura, e o adulto não chega a tudo isso porque, como a criança é muito, tem uma resistência muito grande, ela chega a aceitar uma quimioterapia três vezes mais agressiva do que o adulto; aí mata as células cancerosas com mais rapidez. Então isso tudo foi avançando e eu não sabia de nada disso. A única coisa que eu conhecia de câncer, em 1985 eu perdi uma irmã com câncer; ela tinha 30 anos e era mais velha que eu um ano e pouco. Ela tinha 30 anos, e eu a acompanhava na radioterapia, na quimioterapia, cirurgias que ela fazia no hospital, eu estava sempre acompanhando, ela morava em Sorocaba, mas se tratava no Hospital do Servidor em São Paulo. Então eu ia para casa dela, passava um final de semana, passava uma semana, a gente ficava se revezando na medida do possível, né? Eu, minha mãe, minha irmã, minha tia, e a gente ia se revezando para ajudar a minha irmã que tinha três bebês. Quando ela faleceu, os filhos tinham três, seis e nove anos. O câncer apareceu nela logo que ela teve o terceiro filho e então... é, ela tinha três bebês, né? Um recém-nascido, uma de três e uma de seis anos. Então a gente fazia o que podia para ajudar. E o que eu sabia de câncer era aquilo, era o que eu tinha lido sobre o câncer e o que eu tinha vivido com a minha irmã. Então eu, na verdade, não sabia nada. Quando foi em setembro, eu acho, de 1996 o doutor Edson Ferreira solicitou à Fundação que estudasse uma possibilidade da Fundação ajudar criança com câncer. A reunião do Conselho Curador acontecia a cada três meses. Então quando foi na reunião de dezembro, o doutor Edson cobrou da Fundação uma posição e a Fundação não tinha feito nada nesse sentido. O doutor Carlos Rischbieter sugeriu, que ele era amigo... amigo do Hospital de Clínicas da Universidade de Curitiba.

 

P/1 – Carlos Rischbieter era o presidente do Banco do Brasil.

 

R – O ex-presidente.

 

P/1 – Ex-presidente do Banco do Brasil.

 

R – E era conselheiro da Fundação nessa época; então, ele falou: "Olha, eu sou amigo, eu sou da Sociedade dos Amigos do Hospital de Curitiba, o Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Curitiba. Lá eles tratam criança com câncer. Eu posso levar vocês lá, apresentar vocês para o diretor e reunir a equipe de pediatras e tudo, e ver o que eles precisam para ter um ponto de partida." Então essa visita foi marcada, essa reunião aconteceu em dezembro e essa visita foi marcada para o dia 3 de fevereiro de 1997. Eu estava em férias na praia quando recebi um telefonema do Luiz Fumio, que até hoje está na Fundação, ele era o meu chefe, o meu diretor, e me perguntou: "Que dia você chega?" Eu falei: "Eu chego amanhã." "Você vem de quê?" "De avião." "Ah, então você chega no sábado mesmo." "Chego." "Então se prepare para no domingo à noite a gente viajar para Curitiba, que na terça-feira nós temos uma reunião lá, na segunda de manhã, às oito da manhã, nós temos uma reunião no Hospital de Clínicas." "Tudo bem." Não deu tempo nem de eu desfazer malas, já fiz outra mala para viajar. Aí, no avião, o Fumio me disse: "Nós vamos ver dois projetos em Curitiba. Nós vamos ao Hospital de Clínicas para ver sobre o câncer infantil." Eu falei: "Câncer infantil?" Ele falou: "É. Nós temos uma encomenda de estudar esse projeto e eu quero que você siga, que você comece com esse projeto, então nós vamos lá ouvir as necessidades deles. E depois nós vamos ao CEFET" – que é aquele Centros Federais de Tecnologia das universidades federais, né? – "porque tem um projeto que a Fundação já vem apoiando, e que de repente a gente vai transformar em um grande projeto na Fundação, em um programa da Fundação, que é de reconhecimento do indivíduo pela digital. Isso vai dar segurança em presídios, pode servir para colégios, tem várias aplicações." Então tinha um professor, um doutor em computação, um engenheiro, e ele então tinha um grupo dele desenvolvendo esse trabalho. Então nós participamos primeiro da reunião no hospital e percebemos o que o hospital queria, como a gente foi falar em câncer, a gente percebeu... a gente não sabia o que a gente queria, a gente queria saber o que que eles queriam para o câncer infantil. Aí eles falaram que precisavam de uma construção de uma casamata, que chama, é uma... é para o aparelho de radioterapia; o aparelho tem um efeito tão forte, não sei se vocês sabem, que as paredes têm que ter parede de aço e ela tem que ser uma parede enorme, é um paredão que chama casamata, e o aparelho de radioterapia fica ali dentro. Por isso que a gente ouve às vezes que muita gente morre dentro do aparelho, porque ele queima a pessoa. Então ele tem que ser muito bem feito, a radioterapia, porque ela tem um pontinho para ir queimar a célula cancerosa, o tumor, se não ela provoca prejuízos à pessoa. Hoje em dia não. Em 1997, 1998, a gente ouvia muito desses casos; hoje em dia já tem outro tipo de relacionamento e tratamento.

 

P/1 – Deixa eu fazer uma pergunta. O seu envolvimento inicial, pega de surpresa pelo Fumio, com o Criança e Vida, de alguma maneira essa perda da sua irmã aumentou a sua vontade de participar do projeto?

 

R – Com certeza. Quando a gente tem uma pessoa da família doente, você faz tudo o que você pode. Eu coloco nas mãos de Deus, mas a gente faz tudo o que pode e espera que a medicina também faça tudo o que pode por aquela pessoa. Quando você se sente incapaz, impotente, incompetente para fazer alguma coisa e vê que aquela pessoa vai embora, você pensa: "Puxa vida, eu podia de repente conhecer mais sobre isso e tal, e tal." então isso foi em 1985 que a minha irmã morreu; onze anos depois, vem essa surpresa para mim. Então eu falo que foi um presente na minha vida, porque eu sempre me lembrava da minha irmã. Quando eu ia visitar um hospital – o primeiro hospital que eu visitei foi o Incan, o Instituto Nacional do Câncer – e quando eu cheguei lá, e a médica, doutora Silvia Ferman fez com que eles chamam de passar à enfermaria, nós fomos vendo o caso de cada criança. Ela foi passar à enfermaria e depois eles juntam enfermeiros e todos os médicos para discutir os casos mais graves de cada criança e tal. Eles, naquela reunião, e eu sentada ali do lado esperando, porque a gente ia sair para almoçar, eu e a doutora Silvia. Então nós... eu prestando atenção, querendo captar o máximo possível que pudesse, até da linguagem, né, que era tudo novidade para mim. Eles estavam discutindo ali a amputação da perna de uma criança porque não tinha mais jeito, o tumor estava crescendo, tinham que amputar a perna; aí eu me lembro que o doutor Alberto, que era o cirurgião pediátrico lá da equipe, no final me disse assim: "Rosa, como é que você está se sentindo depois desse seu primeiro dia de oncologia pediátrica e ouvindo falar em amputação de perna. Você vai querer sair daqui e tomar um copão de chopp, né?" Eu falei: "Tsk, tsk, tsk?. Eu vou querer me afogar num barril de chopp para esquecer isso hoje e conseguir dormir." então, foi assim, um choque, mas ao mesmo tempo você começa a sentir a necessidade. "Puxa vida, a Fundação está me colocando para desenvolver alguma coisa, para tentar ajudar nisso." então eu tenho que sentir... quando você me pergunta a ligação com a minha irmã, eu chegava para uma criança, quando eu via uma criancinha daquela, carequinha ou cheia de tubos e tal, o sentimento primeiro que vinha pra mim era de chorar de pena, sabe, era assim mortificante, era uma vontade de chorar. Mas eu me lembrava da minha irmã, que até o último minuto de vida da minha irmã, ela lutou pela vida, e a gente lutou com ela pela vida, sempre com otimismo, sabe? Até o último instante, ela falava assim: "Quando eu sair dessa..." – ela era baiana e nunca tinha voltado na Bahia, saiu de lá recém-nascida, e ela falava assim, na véspera de ela morrer, ela disse: "Quando eu sair dessa, eu vou levar meus filhos para conhecer a Bahia. Eu vou conhecer a Bahia e vou levar meus filhos para conhecer a Bahia." Então, ela tinha aquele fôlego de vida até o último instante. Então nós também tomamos, assumimos um papel com ela de não ter pena, de não ficar: "Coitadinha de você e tal." A gente assumiu um papel de ser otimista. Então ela me ajudou muito com essas crianças, porque quando queria chorar, eu pegava o pezinho da criança, porque eu não sabia nem onde eu podia pegar na criança com medo de infecção, eu estava vindo da rua, né, estava vindo com roupa infectada de várias coisas da rua, eu pegava no pezinho da criança e brincava assim: "Você sente coceguinha? E não sei o quê..." Dava um beijinho, jogava beijo para criança e eu saía de lá e morria de chorar. Sabe, cada vez que eu ia a um hospital, era uma noite insone porque realmente era muito pesado. Mas a minha irmã me ajudou muito a dar um tratamento mais humano nestas visitas, tanto às mães, que eu queria que elas tivessem esperança, como às próprias crianças, que muitas... a maioria não entendia o que estava acontecendo com elas, né?

 

P/2 – Rosa, só pra gente retomar um pouquinho, que lá em Curitiba vocês fizeram aquela visita no Hospital das Clínicas e vocês ouviram toda aquela demanda. E aí, depois vocês voltaram para Fundação, como vocês começaram a pensar o projeto?

 

R – Aí a médica da oncologia pediátrica estava em férias. Então nós não pudemos ter um contato... eu fui, visitei toda a área de pediatria e as enfermarias que tinham a criança com câncer, que eram misturadas, uma coisa que é tecnicamente condenável porque uma criança com câncer não pode jamais ficar perto de uma criança com pneumonia, porque a imunidade dela estava lá embaixo. A quimioterapia que ela vai tomar a cada dia ou cada semana, tem que ser... a medida tem que ser de acordo com a imunidade dela; então ela tem que estar se preparando para ficar mais fortinha para poder tomar uma quimioterapia mais forte para brigar mais ainda com aquela célula cancerosa. E muitos hospitais não tinham condição de fazer isso. Então as crianças com câncer, elas tinham uma salinha de brincar, que as com câncer estavam ali com todas as outras, com pneumonia, todas as doenças crônicas, sabe?! E então eu conheci isso esse dia e fiquei de retomar um contato com a doutora Mara Pianovski, que era chefe do serviço, e o nome dela me tinha sido recomendado pelo doutor Rischbieter e os diretores do hospital. Foi a primeira visita que nós fizemos. Chegando a Brasília, doutora Mara em férias, e eu falei: "Eu não vou esperar a doutora Mara voltar de férias." aí, eu falei: "Bom, câncer, quem que vai me falar sobre isso?" Primeiro no banco vai ser a Cassi [Caixa de Assistência de Funcionários do Banco do Brasil] . Fora do banco, Ministério da Saúde; e a Fundação tinha um conselho técnico. Nesse conselho técnico nós tínhamos uma representante da saúde. Nós tínhamos um representante, eu não sei se esse conselho técnico continua até hoje, mas naquela época nós tínhamos um representante para cada uma das sete áreas da Fundação, tinha o representante da educação, da saúde... então o Romano, o José Fernando Romano me chamou e falou: "Rosa, você pode, vamos ligar para a doutora fulana" – que eu não me lembro do nome dela agora – "mas ela vai nos indicar alguém no Ministério da Saúde para você procurar." Tá, aí banco primeiro; procurei a Cassi: "Escuta, eu estou com a incumbência de desenvolver um projeto para criança com câncer. O que que a Cassi pode me dizer a respeito? Vocês têm alguma ligação?" Aí ela disse assim: "Olha, nós temos um médico que trabalha aqui conosco pela manhã e à tarde ele é diretor, ele é diretor do Hospital de Apoio. O Hospital de Apoio de Brasília tem uma... eles tratam câncer infantil lá." Eu falei: "Cadê esse médico?" "Ele só vai estar aqui amanhã cedo, é o doutor Jaime Bastos." Aí eu falei: "Ah, então você me dá o telefone que eu posso contatar ele e tal?" Aí eu sei que eu liguei pra lá de manhã no dia seguinte, falei com o Jaime e o ele me explicou, me pediu: "Você não quer ir lá no hospital, porque aí eu tenho alguns números, eu vou te colocar em contato com a doutora Ísis e o doutor José Carlos Córdoba, que são eles que fazem esse trabalho. Então a gente... se você for amanhã lá no hospital, ou dia que você quiser..." e tal, marcamos. Nós fomos, eu fui ao hospital e Jaime começou a despencar um monte de relatório em cima de mim, tantas quimioterapias por ano, tantos... aquele monte de relatório. E eu comecei a perguntar: "Mas escuta, essas crianças ficam internadas aqui quanto tempo e tal." E nesse dia que eu fui, a doutora Ísis e o doutor José Carlos não estavam no hospital. Aí eu... porque eles atendem, são responsáveis pela oncologia pediátrica em Brasília, eles atendem no Base, no Apoio, na HuB [Hospital Universitário de Brasília], em todo canto em que tem uma criança, eles estão correndo atrás. Então nesse dia de manhã não tinha nenhum dos dois, mas o Jaime me levou para conhecer a ala da oncologia pediátrica e a doutora Ísis e o doutor José Carlos ficaram de entrar em contato comigo para a marcarmos um dia. Ou eu voltava lá ou eles iam na Fundação. Aí eles foram à Fundação. E eu me lembro, outro dia a gente estava conversando e eles dizendo que também se lembram do jeito que os dois chegaram muito tímidos lá na Fundação, eu mais ainda que ia conversar com duas pessoas, dois cientistas entendidos do assunto e eu não se sabia nem o que eu queria ainda saber, eu não sabia o que perguntar para eles. Então eu... eles, da parte deles, eles chegaram assim: "Puxa, a gente luta com tanta dificuldade, e agora aparece alguém que quer nos ajudar. O que que nós vamos falar para ela?" Então havia aquele temor dos dois lados. E aí nós conversamos, timidamente conversando e tal, e eu falei: "Olha, eu não sei, vou confessar para vocês que eu não sei nada sobre isso. Estou esperando um contato da doutora Mara, mas eu quero que vocês me ajudem a dizer o que vocês precisam, o que a oncologia pediátrica precisa para que haja maior cura. Onde que eu vou encontrar esses números? Quantas crianças com câncer têm, aparecem no país? Como que é contado isso? Como que é a cura? Quantos morrem? Do que eles morrem? É um tumor só? É um tipo, a gente fala em câncer, é uma coisa só?" Aí eles foram me explicar que não, que existem as leucemias e linfomas e os tumores sólidos, que só as leucemias e os linfomas se dividem em várias e várias espécies, e que os tumores (?) também podem ser tumores, tem vários tipos e tal, e tal... E começaram a falar um palavreado, eu comecei a anotar tudo e começaram a falar em imuno-histoquímica, imunofenotipagem, citogenética, biologia molecular, transplante de medula óssea e aquilo foi caindo na minha cabeça e eu quase explodi de tanta informação. Mas fui anotando, eu era rápida para anotar e fui anotando. E então, aí eles me falaram: "Olha, uma pessoa muito boa para você conversar vai ser a doutora Silvia Brandalise e doutora Núbia Mendonça, por que nós temos a Sociedade de Oncologia Pediátrica, e elas são fundadoras da sociedade. Então elas vão ter muito para contar para você e tal." Mas aquele encontro já tinha sido riquíssimo para mim. Aí nisso eu e Romano ligamos para essa, essa nossa... eu estou com a fisionomia dela, mas não me lembro do nome, essa nossa conselheira técnica da área de saúde e conversamos com ela. E ela sugeriu que eu procurasse a doutora Selma Loch no Ministério da Saúde, que era a coordenadora da Alta Complexidade do Ministério da Saúde; o câncer está inserido na Alta Complexidade. Aí eu marquei com a Selma Loch, fui lá, ela é uma médica sanitarista, uma médica super envolvida com a... muito compromisso com o público, com o serviço público, com a comunidade, então é dessas também que trabalham sem hora, sabe? E ela começou a me mostrar umas coisas, e me falava assim: "Rosa, eu não tenho como te dizer quantas crianças são. Sabe porquê? Porque hoje nós não contamos as crianças, nós contamos o câncer, e nós contamos assim: até 19 anos é criança; aí de 20 a 30 anos é outra contagem; de 31 a 40 anos, é outra contagem. Então, se você me perguntar de zero a 19, eu não sei as idades." E a gente começou a trabalhar nisso junto, tanto que em 1998, em setembro de 1998, saiu o primeiro produto do Criança e Vida, assim, que a gente considera o primeiro grande mérito do Criança e Vida que foi uma portaria do Ministério da Saúde tratando da normatização de códigos para o câncer infantil. A partir daí, desta portaria, os hospitais tinham que contar, tinham que relacionar para o Ministério da Saúde a criança que entrou, com que idade, qual foi o tipo de câncer diagnosticado, tarará, qual foi o tratamento dado, parará. A gente começou a ter um número a partir de 1998. Quer dizer, em 1998 saiu a portaria em setembro, dia 2 de setembro. A partir de 2001, é que a gente teve a contagem do ano 2000; porque em 1999 os hospitais foram se adaptando, em 2000 eles já foram obrigados a fazer essa contagem. Em 2001 foi feito o primeiro estudo pari-passu: idade, tipologia de câncer, tarará, parará.

 

P/1 – Deixa eu perguntar. Em 1998, dois anos de Fundação já, você chegou em 1996, que você tinha comentado com a gente, não foi isso?

 

R – Isso, 1996.

 

P/1 – Satisfeita com a Fundação? Eu até pulei, retomando um pouquinho. Você sai de uma estrutura bancária, você sai da presidência do banco, cartão de crédito...

 

R – Cai no seguro, cartão de crédito...

 

P/1 – Seguro, a parte de atuação financeira do banco direta, que seria o objetivo final do banco, e de repente você vai para Fundação Banco do Brasil e existe uma mudança...

 

R – Trabalhar com o social...

 

P/1 – É, no perfil de trabalho. Mas depois de dois anos na Fundação, satisfeita? É isso mesmo que eu quero?

 

R – Eu me sentia um pinto no lixo, feliz da vida. Era tudo o que eu queria, sabe? Tinha tudo a ver comigo, era tudo o que eu queria. E toda a experiência que adquiri no banco, esse trabalho, porque durante o tempo de trabalho com seguro e com cartão de crédito, eu falava com agência o dia inteiro, inclusive fim de semana, eu falava direto com as agências. Então, eu fui pegando um traquejo de tratar com as agências, que isso facilitou muito porque o Criança e Vida, nós não fizemos nenhuma visita a nenhum hospital sem levar alguém da agência. Era uma forma de trazer o pessoal do banco para a Fundação, para conhecer o trabalho da Fundação; então, quando a gente ia fazer uma visita, a gente levava a Fundação para agência. O gerente reunia... primeiro a gente pedia uma reunião com o gerente, marcava a reunião no hospital às nove horas, às oito era na agência. Então a gente chegava, levava relatório, folhetos da Fundação, sabe, e levava, e falava para aquelas pessoas que eram os formadores de opinião ali, cada um... os gerentes juntavam os chefes de equipe. A gente falava da Fundação para eles, o que a Fundação fazia e aí eles saíam gratificados, e nós também porque eles ficavam felizes em participar com a gente. Eu tenho vários casos para contar, mas vou contar um de um gerente que uma vez disse assim para nós: "Olha, a visita é rápida? Porque eu tenho 15 minutos, a minha agenda está lotada, eu tenho 15 minutos para essa visita." Eu falei: "Olha, se você não puder ficar conosco, vai ser uma pena, mas se você não puder ficar, você participa então daquela reunião inicial que a gente faz com o diretor do hospital, aquilo leva 20 minutos no máximo, e aí você depois a gente vai seguir para conhecer o hospital e essa área de oncologia pediátrica. Aí essa parte você ficaria liberado. A gente entende perfeitamente, a sua agenda cheia e tal, não podemos que tome, fique o seu tempo inteiro com a gente. Tudo bem." "Ah, então tá. Vocês vão entender?" "Claro, perfeitamente." Aí nós fomos. Quando nós chegamos lá e começamos a falar do Criança e Vida, e ele assim, atendia o celular e mandava mensagem no celular e tal, e o hospital fazendo a apresentação e nós começamos a fazer a apresentação da Fundação para diretoria do hospital, que ele já tinha ouvido lá na agência. Então para ele não era interessante.

 

P/2 – Qual cidade que era, era aqui em Brasília?

 

R – Rio de Janeiro.

 

P/2 – Rio de Janeiro?

 

R – E aí ele foi, e atendia o celular, levantava, "Com licença", e atendia o celular e olhava o relógio toda hora. Aí nós começamos a falar do Criança e Vida, ele começou a prestar atenção, o celular ele começou... tocava, ele desligava, tocava, ele desligava e começou a prestar atenção, foi fazendo assim, e olhava pra gente, olhava pros médicos, e olhava pro diretor do hospital e tal. Aí na hora que nós terminamos essa reunião, que deve ter durado uma meia hora, eu disse pra ele assim: "Ô, Fulano, se você quiser, a partir daqui você está liberado, porque agora nós vamos fazer a visita ao hospital." "Não, eu vou acompanhar vocês." E era um hospital grande, e nós demoramos... nós chegamos à agência às oito, saímos da agência perto de nove horas para chegar no hospital, então devia ser nove e meia mais ou menos isso – estou fazendo um cálculo, assim, bem racional – nós saímos do hospital meio-dia e meia. Ele encostou numa mureta no hospital e falou assim: "Puxa, muito obrigado a vocês por essa manhã de trabalho. Eu nunca podia imaginar que nós, funcionários do banco, pudéssemos estar trabalhando num projeto como esse." As lágrimas escorriam. Foi uma coisa emocionante, que aquele cara racional do celular, da agenda, estava ali emocionado. E por quê? Por que que a gente fazia questão de dizer, de fazer reunião com a agência para dizer que cada funcionário era importante, porque o recurso para o Criança e Vida vinha da venda de seguros, vinha pelo percentual que o banco recebia pela venda de alguns dos seguros do banco. Então cada funcionário do banco era responsável por isso, não só aquele funcionário ali, o gerente, que atendia o cliente, que oferecia o seguro, mas aquele que processava, aquele... todo funcionário do banco é responsável pelo Criança e Vida. Então a gente falava isso pra eles, sabe? Então quando caiu a ficha nesse gerente, e isso aconteceu em vários lugares, mais esse foi o que mais me marcou, porque ele chorava copiosamente agradecendo por ter podido participar daquela reunião.

 

P/2 – Rosa, só pra gente poder entender um pouco a constituição do programa. No início vocês foram lá, fizeram aquele estudo, levantamento, você falou que em 2001 vocês conseguiram analisar os dados que vocês começaram a obter...

 

R – É, aí tem um parênteses grande para chegar até 2001. Aí depois dessa conversa com a doutora Ísis e o doutor José Carlos, eu sentei junto com os dois, e assim, eles não tinham tempo. Então eu ia para os plantões deles no Hospital de Apoio. Depois que eles passavam o plantão, eu ia para lá nove e meia da noite, dez horas, e a gente sentava para trabalhar. Aí, junto com eles, eu fiz um questionário para ligar para a doutora Núbia Mendonça...

 

P/1 – Aquela do ministério?

 

R – Não. Aquela de Salvador.

 

P/1 – Salvador.

 

R – E pro... para a doutora Silvia Brandalise para ter algumas respostas. Aí, nisso, a Selma Loch, do Ministério da Saúde já estava trabalhando com os dados para a gente ali dentro, o que ela podia fazer. Ela teve, assim, uma receptividade fantástica, sabe? Aí nós fomos, eu liguei para doutora Núbia e passei para ela por fax o questionário. E brinco até hoje com ela, porque logo depois ela saiu de férias e ela não me respondeu. Então, até hoje, eu falo, quando ela fica... "Porque o Criança e Vida, porque eu adoro Criança e Vida..." Eu assim: "Mas você me esnobou no começo, né?" (risos) mas foi, é muito engraçado, é uma brincadeira que eu fiz com ela, com a doutora Núbia, foi do nosso comitê diretivo e ajudou demais no programa.

 

P/2 – Esse questionário, era para quê?

 

R – Era para saber o que era o câncer infantil. No questionário, eu perguntava assim: "Quantas crianças..." Aí, pela linguagem da Ísis e do José Carlos, eles me disseram, e tinha que perguntar assim: "Quantos casos novos aparecem por ano? Quantas crianças hoje são tratadas? Quantos hospitais no Brasil têm técnicos especializados? Quantos são, destes médicos, reconhecidos pela Sociedade Brasileira Oncologia Pediátrica" Porque não existe uma residência, uma especialização em oncologia pediátrica. O médico, o pediatra ou oncologista, ele vai fazer, ou cirurgião, ele vai fazer, vai trabalhar, tem que trabalhar dois anos, mas não é fazendo uma residência; ele faz, ele trabalha por dois anos com isso num hospital, ele faz outras cirurgias, mas ele faz a cirurgia oncológica também; depois ele faz uma prova na Sociedade de Oncologia Pediátrica, e essa prova de titulação é que dá a ele o título de oncologista pediátrico. Então tinha hematologistas e pediatras pelo Brasil inteiro trabalhando com oncologia pediátrica, mesmo os oncologistas já adultos, trabalhando com crianças sem fazer parte da Sobope ou sem ter a titulação, e isso foi uma das coisas, isso foi um dos critérios no programa, para que o hospital participasse; eu acho que daí a gente vai falar disso mais adiante, mas muito poucos tinham essa titulação. Então, uma das perguntas era: "Quantos médicos têm o título de oncologia pediátrica no Brasil?" nessa época, a doutora Silvia Brandalise era presidente da Sobope. Aí eu liguei para a doutora Silvia, e ela... eu falei: "Eu posso passar um questionário para senhora?" A doutora Silvia Brandalise é a presidente do Instituto Boldrini, o maior em câncer infantil no país, em Campinas. E a doutora Silvia me disse assim: "Passa um fax para mim, que eu dou uma olhada nas suas perguntas, depois eu te ligo e respondo... posso responder à mão?" "Pode." "Tá bom." Mais tarde, ela me ligou e falou assim: "Menina, você está ficando louca? Você disse que ia passar algumas perguntas para mim, passou 42 perguntas? Eu não tenho tempo para responder isso tudo!" E ria, porque ela tem uma risada muito gostosa. E aí eu disse assim: "Ô, doutora Silvia, a senhora me desculpe..." – eu cheia de dedos, porque eu não conhecia, né? – "A senhora me desculpe..." – era a presidente da Sociedade de Oncologia Pediátrica – "A senhora me desculpe, mas nós queremos fazer o melhor e tal..." Ela falou: "Vamos fazer o seguinte: também não vou te deixar sem resposta não, porque tudo o que você me pergunta, eu sei a resposta. Eu tenho como te indicar onde tem a resposta. Então... só que eu, aqui no hospital, não tenho tempo de fazer isso não." Isso era um dia de tarde. "Se você quiser me ligar na minha casa às nove e meia da noite, você me liga. Aí a gente vai conversar, tenho mais tempo para conversar, que é a hora que eu chego em casa normalmente." "Tá bom." Nove e meia da noite, eu tum, tum, tum, liguei para ela da minha casa. E conversando assim: "Eu acabei de chegar, estou esticando as minhas pernas aqui para ver se eu descanso um pouco. Mas vamos lá, estou aqui com o seu fax. Primeira pergunta: parará, parará...; segunda, parará, parará..." De repente, ela falou assim: "Rosa, você sabe que horas são? Onze e meia da noite." Nós conversamos duas horas por telefone. "Eu acho que depois dessa eu nunca mais vou atender uma ligação sua." E soltou de novo uma gargalhada. Aí eu falei assim: "Eu duvido, porque agora já peguei no pé da senhora e a senhora não fica mais livre de mim." Ela falou: "Tomara que não, por que eu quero é mais que esse projeto dê certo, tal e tal." Então isso aconteceu em 1997, e uma das indicações que ela me deu pra pegar esses dados foi a doutora Maria Inês Gadelha que na época chefiava o departamento de estatística do Incan, Instituto Nacional do Câncer. E a doutora Inês, ela é assim, fissurada em dados. Ela chefiava o departamento de estatística não é à toa. Hoje em dia, ela chegou a ser diretora do Incan, hoje em dia ela está como, ela está no centro de... ô, meu deus, centro de transplantes, se não me engano, na regulação do centro de transplantes, porque normatização, isso tudo, ela é perfeita. Ela é uma pessoa muito preocupada, muito comprometida com o público, sabe, tudo o que é público... todos os hospitais deste país, não tenho um lugar nesse país onde a gente tenha ido, que a gente tenha citado o nome dela, que não conhecessem; uns gostando, porque gostam do trabalho dela, outros não gostam porque ela... são pessoas que estavam mais preocupadas em misturar o público com o privado e então não gostavam dela, porque ela como era responsável por isso no ministério, ela questionava o hospital pelos procedimentos incorretos. Então a Maria Inês Gadelha é perfeita para o serviço público, e é "ame-me ou deixe-me", entendeu? Então todo mundo conhece, ou a ama, ou a odeia. (risos)

 

P/2 – Foi ela que sugeriu essa coleta de dados?

 

R – Sim, ela tinha a forma como fazer isso que o Incan tinha um serviço de informatização crescente e muito... crescente de mês a mês, e muito, estava com uma equipe muito boa de informática, então ela... tudo o que ela pedia, ela conseguia, porque... isso foi uma coisa que eu aprendi também durante o Criança e Vida, que na informática você obtém tudo o que você quiser desde que você saiba pedir, que saiba fazer o pedido correto e que saiba alimentar o sistema com os dados corretos. Então isso eu aprendi muito também durante o curso desse programa. E o diretor de informática do Incan era o Altino, Altino Leitão, acho que continua até hoje; e ele se envolveu também pessoalmente com o Criança e Vida. Então ele muitas vezes fez um esforço pessoal para conseguir o que a gente precisava lá dentro do Incan. Tanto que, até hoje, Incan abriga o site da Sobope; foi ele com a equipe dele que criaram o site da Sobope, ele abriga lá dentro do Incan até hoje. Então, é uma parceria, assim, que deu certo, sabe, com o Incan e com o Ministério da Saúde. E o que deu, eu atribuo o sucesso do Criança e Vida a essa multidisciplinaridade que a gente deu à equipe: a gente tinha a Selma Loch, que era do Ministério da Saúde, era a coordenadora da Alta Complexidade, ela era responsável pelo câncer dentro do ministério; nós tínhamos no nosso conselho, comitê diretivo, a Maria Inês Gadelha, que respondia pelo Incan, Instituto Nacional do Câncer, que era normatizador do câncer no país; tínhamos a doutora Silvia Brandalise, que é a mais, talvez seja o nome mais respeitado do câncer infantil no país e no mundo, pelo que eu já senti – porque eu já viajei por aí e onde eu vou visito hospital de câncer para conhecer, para trazer alguma experiência lá de fora, eu cheguei em Madri no maior hospital público da Espanha e a chefe da oncologia pediátrica falou: "Eu gostaria muito de conhecer pessoalmente a Silvia Brandalise, porque eu conheço muito o trabalho dela e gostaria de a conhecer pessoalmente." Tanto que logo, eu passei um e-mail para doutora Silvia, e a doutora Silvia me pediu para eu, de lá, pedir pra essa doutora me passar o nome dos médicos responsáveis por cada protocolo, porque a doutora Silvia é presidente da Sociedade Latino-Americana de Oncologia Pediátrica, então médicos espanhóis são muito importantes para dar aula nos eventos que ela promove na América Latina, né, por causa do idioma e tal. Então eu fiz uma pequena biografia de cada um deles e mandei para doutora Silvia Brandalise. Isso já depois de aposentada.

 

(fim do CD 1/2)

 

P/2 – Só para retomar aqui. Então o programa, ele começa como um programa, ou ele começa como um projeto...

 

R – Ele começou como um projeto, porque era um projeto para ajudar criança com câncer. E a ideia do doutor Edson Ferreira quando ele se sentou com a Fundação Orsa para criar, para pedir à Fundação esse projeto, a intenção dele, pelo que eu sinto, a minha leitura do pedido dele na época é que ele... ele até expressou isso literalmente pra gente, era que a gente fizesse um outro GRAAC, ajudasse o GRAAC de São Paulo ali, porque era um centro que ia ter de tudo para a criança com câncer. Então que a gente ajudasse terminar aquele e criasse outro centro daquele em outro lugar de difícil acesso, tipo Manaus, em Brasília, que agrega aqui todo o centro-oeste, ou Goiânia, que fizessem, que a gente fizesse centros como esse para criança não precisar estar sempre correndo para São Paulo, que a gente fizesse a outros centros como aquele, o GRAAC. Aí nós sentimos na conversa com os médicos e conhecendo mais a questão, nós percebemos que tinha muitos hospitais no país que já estavam preparados para... precisavam melhorias, já tinha gente preparada no Brasil e no exterior, e que precisavam de financiamento, de infraestrutura para funcionar, para que eles aplicassem o conhecimento deles. E chegamos a uma conclusão com esse comitê diretivo. É... o comitê diretivo era composto pelo doutor Edson Ferreira, representando o Banco do Brasil e como conselheiro da Fundação; o Rabelo, que era o presidente da Fundação; o Ministério da Saúde, através da Selma Loch; o Incan, através da Maria Inês Gadelha. E convidamos a Fundação Orsa, que era uma... estava envolvida, né, convidamos a Fundação Orsa, e os outros quatro eram oncologistas pediátricos, era Silvia Brandalise, era o doutor Sérgio Petrilli, que era o diretor do GRAAC, a doutora Ísis e a doutora Núbia. Nós até, democraticamente, fizemos assim: são dez componentes, então cinco vão ser indicados pelo Banco do Brasil e cinco vão ser indicados pelo Ministério da Saúde, pra gente não ter aquela questão de... "Ah, nós estamos privilegiando fulano porque alguém indicou." Então a Fundação indicou cinco membros e o ministério indicou cinco, e assim funcionava o comitê diretivo. E nós chegamos logo à conclusão, logo de início, que o programa tinha que funcionar em cima de três pilares básicos, que era o diagnóstico precoce, o tratamento adequado e o capital humano. Então o que que era preciso fazer? Aí nisso foi realizada uma reunião em Campinas, que a doutora Silvia disse que não podia sair, e ela queria chamar outros médicos que eram ali de São Paulo; aí iria o que era naquela época, o atual presidente da Sobope, podiam ir outros médicos dali. Aí saímos de Brasília eu, a doutora Ísis e a Selma Loch; e foram José Roberto Rezende, que era o presidente da Sobope; a doutora Silvia Brandalise; Maria Inês Gadelha, que estava em São Paulo naquele dia, ela era do Rio, mas estava lá; e tinha mais umas... uma ou duas pessoas. A Fundação tem esse registro, que eu tenho uma memória, eu fiz uma memória de todas as reuniões. Mas nós éramos sete ou oito pessoas, e ali naquele dia, foi dia 3 de setembro de 1997 ..

 

P/1 – Foi 1999?

 

R – ... ou oito.

 

P/1 – 1998.

 

R – Acho que 1998

 

P/2 – Foi antes da portaria?

 

R – É isso que eu estou na dúvida, se essa reunião foi 1997 ou 1998. Eu acho que foi 1997 ainda, antes da portaria. A portaria já estava no forno. A portaria já estava no forno, porque todas essas pessoas já estavam em contato, sabe? Então no dia 30 de setembro ia haver uma reunião do conselho curador, e eu tinha que apresentar um projeto já estruturado. O que que nós vamos fazer e quanto nós vamos precisar gastar. Mas a coisa... era um leque muito variado, então eu ainda não tinha conseguido juntar essas peças todas. Então eu propus essa reunião com esse grupo, e nós fomos... ainda não tinha o comitê diretivo formado. O comitê foi formado só em 1998. Foi em 1997 essa reunião, o comitê foi formado em 1998. E então eu propus essa reunião e nós fizemos um dia inteiro de reunião, começamos às oito da manhã e terminamos às oito da noite. Nós comemos um sanduíche e cafezinho o dia inteiro, quer dizer, um sanduíche e cafezinho o dia inteiro e água. Não saímos da sala, porque senão a gente dispersava e era muita coisa e eu queria saber muito deles; e eles tinham muita coisa para me passar. Então saímos dessa reunião definidos que as linhas de ação do programa tinham que ser criação de centros de referência em diagnóstico laboratorial, a gente não mexeria com imagem, diacografia (?), nada disso, que a criança exige muito pouco isso, isso é mais para adulto. A criança raramente faz radioterapia, muito raramente. Normalmente o tumor da criança é operado, então essas coisas todas de imagem, a gente não ia mexer.

 

P/2 – Brevemente, você pode comentar essa diferença, quimioterapia e radioterapia, pra gente?

 

R – Ah, claro. A quimioterapia, ela é aplicada na veia, ela é um líquido, porque... é um líquido, é uma série de drogas, né, que são misturadas. Agora, cada... essa mistura das drogas é feita... eu não sou a melhor pessoa, porque eu não sou médica, né, para falar sobre isso, mas cada uma dessas doenças, cada um desses tipos de câncer, a Sobope hoje já tem reconhecido um protocolo terapêutico para tratar cada tipo. Então, em se é uma LMA com translocação 28 – isso é um palavrão para qualquer um de nós – então é isso quer dizer que é uma leucemia mialóide aguda com uma translocação, com uma mutação, uma diferenciação número 28, porque tem outros números. Então é um tipo, uma tipologia de câncer. Então esse, existe um protocolo para tratar isso. Para seguir esse protocolo, o médico diagnosticou que a criança tem esse tipo de câncer, a primeira coisa a fazer é combater imediatamente com a primeira série de quimioterapia. Então a criança toma quimioterapia. Essa quimioterapia pode ser uma vez por semana, uma hora, pode ser uma vez, de segunda a sexta, uma hora por dia; pode ser uma vez por semana, o dia inteiro; pode ser a cada 15 dias. Tudo isso depende da imunidade da criança. Para fazer quimioterapia, a criança chega, ela obrigatoriamente tem que fazer um exame de sangue para ver como estão os hematócritos dela, esses nomes vocês podem ver em qualquer exame de sangue que vocês fizerem, sempre medem lá, hemograma completo, sempre pedem, tem os hematócritos, é o que mede a força que o sangue da gente tem, energia que tem no sangue da gente. Não sei se isso é o termo médico mas, enfim, para vocês entenderem, é isso.

 

P/1 – E a radioterapia?

 

R – A radioterapia, ela é um equipamento tipo esses tomógrafos que você entra lá dentro. Nem o rádio-terapeuta fica lá dentro, ele fica numa sala protegida com aço, muito mais forte do que quando a gente vai fazer raio-X, que eles entram atrás daquela porta, que a gente veste aquela camisa de chumbo e não sei o quê, a radioterapia é muito mais perigoso do que isso, muito, muito, muito mais além. Porque ela queima o tumor, é uma luz que entra e queima o tumor ali. Então a pessoa entra dentro daquele aparelho, se vocês nunca fizeram um exame desse, já devem ter visto na televisão ou em algum filme, a gente entra num aparelho que é como um túnel, e ali vem a lâmpada da radioterapia. Então isso tudo é marcado, milimetricamente marcado com uma caneta, não sei se é essa, tipo essa caneta hidrocor da gente. Mas é uma... é marcado com uma caneta pro ponto, botar ali o ponto, o ponto está ali, o médico sai e liga a máquina, entendeu? Essa é a diferença.

 

P/2 – Agora, voltando. Então as linhas de ação do programa: diagnóstico laboratorial e...?

 

R – É, diagnóstico laboratorial, aí para detecção cada vez mais precoce, que quanto mais cedo detectar que tipo de doença, mais cedo você começa a tratar e mais sucesso tem o tratamento, mais condição de cura você tem. Aí vem o tratamento adequado, que você diagnosticou, então você tem que tratar adequadamente. Era o que a gente chamava, primeiro, primeiro... aí foi que nós começamos, transformamos em um programa com vários projetos, porque aí nós tínhamos, dentro do programa ‘Criança e Vida’ o projeto da criação de laboratórios, centro de referência em diagnóstico laboratorial para detecção de qual tipo de doença; o segundo projeto era o centro de tratamento. Então nós literalmente visitamos todos os hospitais de Manaus a Santa Maria, no Rio Grande do Sul, que atendiam à criança com câncer e tínhamos os critérios. Tem muito hospital que apresentava pro SUS, aí a gente já estava com os relatórios do SUS dizendo... o SUS cobrando a conta de criança com câncer, que até então não tinha essa diferenciação. Então a gente sabia quais eram os hospitais que estavam atendendo criança pela cobrança que faziam ao SUS, entendeu? Então nós começamos a pegar: "Bom, vamos pegar só hospitais que estejam atendendo cem casos novos por ano."

 

P/1 – Só é uma questãozinha para registro. A essa altura, o seu trabalho na Fundação atrelado ao ‘Criança e Vida’?

 

R – Aí eu fiquei por conta do ‘Criança e Vida’. Aí eu já estava só com o ‘Criança e Vida.” Tá? Já estava só com o ‘Criança e Vida’. Eu tive uma saída temporária pra área de planejamento porque o nosso coordenador de planejamento, a gente estava na plena implantação da qualidade na Fundação, quando o nosso coordenador de planejamento saiu para uma outra área do banco. Então, mais uma vez, o Rabelo me chamou: "Eu preciso de você lá, você é uma pessoa que tem jeito para lidar com a qualidade e essa coisa de lidar com as pessoas e tal, eu preciso de você lá." E eu falei: "Rabelo, eu vou repetir uma pergunta que eu te fiz há uns anos atrás: é um convite ou é uma ordem? Porque eu sou apaixonada pelo ‘Criança e Vida’. Eu acordo ‘Criança e Vida’, eu tomo café da manhã ‘Criança e Vida’, eu almoço ‘Criança e Vida’, eu transpiro ‘Criança e Vida’ o dia inteiro. Eu durmo e sonho ‘Criança e Vida’. Você me pedir... eu tenho participado da qualidade pela minha área, eu era responsável pela minha diretoria...

 

P/1 – Qualidade, qualidade seria, para registro, qualidade total na Fundação?

 

R – Na Fundação Banco do Brasil.

 

P/1 – Isso.

 

R – É. Então, eu era, na minha área, eu era responsável, então eu já estava envolvida com a implantação, mas eu ficaria responsável pela implantação na Fundação como um todo. E eu... e o Rabelo, mais uma vez, me disse: "Eu não tenho outra pessoa a não ser você aqui dentro da Fundação. Eu trazer uma pessoa nesse momento, que a gente já começou o trabalho, seria temeroso. Então eu preciso de você lá. O ‘Criança e Vida’ já está tomando perna, essas pessoas continuam." E eu chorei uma semana, chorei uma semana, mas fui.

 

P/1 – Isso quando?

 

R – Nós implantamos a qualidade, fizemos a implantação da qualidade no dia... em novembro de 1998.

 

P/1 – Novembro de 1998.

 

R – E...

 

P/1 – Quanto tempo você ficou?

 

R – ... logo depois, em 1999, é que fui para área de planejamento.

 

P/1 – E lá...

 

R – Lá eu fiquei até março do ano seguinte, quando a Eloísa tomou posse.

 

P/1 – Em 2000.

 

R – Março de 2000.

 

P/1 – E aí retornou ao ‘Criança e Vida’?

 

R – E aí... é. Aí eu tive um problema de saúde, eu fiquei dez meses afastada do banco, de novembro de 2000... não, aí eu continuei no planejamento até, até... continuei no planejamento não me lembro até quando. Eu sei que aí eu fui para uma outra área cuidar do prêmio de tecnologias, voltei pra área do Fumio...

 

P/1 – 2001, BTS.

 

R – Não, foi 2000 que nós começamos.

 

P/1 – Ah, vocês começaram a discussão...

 

R – Começamos em 2000...

 

P/1 – Isso, isso.

 

R – Então, a criação do termo, eu participei da concepção do termo "tecnologia social", que diferença que tem o termo "tecnologia social" de um projeto social. Então eu participei das discussões e a gente tinha um consultor do Rio, Márcio Schiavo, e eu trabalhei toda essa parte de prêmio, eu fui conhecer todos os prêmios que existiam aqui em Brasília nas universidades, no CNPq, nos ministérios, tudo para poder ver o que que a gente podia fazer como prêmio e dentro do banco, porque o banco, quando eu estava no cartão, nós tivemos uma fase que nós quisemos fazer uma premiação do cartão. Então quem fizesse tantos pontos no cartão, ganhava um prêmio. E nós enfrentamos uma questão burocrática muito grande porque o banco, por ser o Banco do Brasil - de economia mista - ele não podia premiar, ele não podia dar um prêmio para um cidadão, uma pessoa física. Então tinha, teve toda uma questão. Aí eu fui junto com... estudar, a gente ver isto, como é que podia ser. Voltei pro banco nessa área para ver como que o banco resolveu isso e tal, para ver como é que a gente ia fazer. Eu participei de toda a concepção do prêmio até quase chegar no primeiro prêmio. Aí eu tive um problema de saúde.

 

P/2 – Só pra gente retomar um pouquinho, Rosa. O que que foi a qualidade total do banco? Como que você trabalhou? O que significou para Fundação, em breves palavras?

 

R – Olha, a qualidade total tem um princípio muito importante, os princípios são muito importantes da qualidade total. Eu acho que existe um certo exagero nas empresas quando a gente quer, naquela época também, hoje já está bem diferente esse problema porque naquela época a gente estava começando, o banco também estava começando. Então, a gente queria seguir à risca o que existia. E não existia nenhuma empresa de terceiro setor, como é a Fundação Banco do Brasil, que tivesse a qualidade total implantada. Para nós, foi um desafio muito grande porque o que existia de qualidade total na literatura era para chão de fábrica, eram para coisas que eram feitas e podiam ser medidas, e nós não podíamos medir. Foi quando nós começamos a trabalhar também um trabalho que eu iniciei lá também, que participei da iniciação, foi a avaliação de projetos sociais; a gente mensurar, como avaliar projetos sociais? A gente tinha que dar uma pontuação para cada benefício que os nossos projetos estavam proporcionando à sociedade. Então, para o ‘Criança e Vida’ nós criamos vários itens para os hospitais responderem, pra gente poder no final avaliar o quanto que melhorou a cura. Como é que eu vou saber o percentual? É só pela cabeça dos médicos? Não, a gente tem que ter uma mensuração. Então nós começamos a trabalhar; foi um desafio, assim muito grande, mas foi um projeto que foi abortado quando entrou uma nova presidente, que foi a Eloísa; ela abortou o projeto da qualidade, ela considerou que a gente não estava caminhando. Não sei assim dizer exatamente, não sou a pessoa mais certa para falar qual foi a decisão dela, talvez ela possa... claro, ela vai poder melhor dizer isso. Mas nós tínhamos já consultoria contratada pra gente trabalhar com as pessoas, fazer um trabalho com as pessoas, nós tivemos que cancelar tudo isso, porque ela considerou que, naquele momento, a gente tinha coisas mais importantes do que trabalhar com qualidade total.

 

P/2 – Então vocês não avançaram?

 

R – Não avançamos.

 

P/2 – Vocês só construíram o projeto e não chegou no momento de execução?

 

R – Não, não executamos.

 

P/1 – Olha só, você ficou na Fundação, comentou até prestes do primeiro prêmio do banco de tecnologia social, seria a criação do banco e o prêmio de tecnologia. E depois de sofrer um afastamento?

 

R – É, eu vou até falar de uma parte muito pessoal da minha vida agora. Eu passei por perdas muito grandes na minha vida e eu sempre fui muito forte. Meu pai sempre dizia assim: "Minha filha, seja homem." Que meu pai sempre foi muito machista. Então quando ele falava para mim: "Minha filha, seja homem", era porque eu tinha que ser forte, sabe? E então ele... eu, desde muito cedo, eu me separei, eu fui separada; então eu criei minhas filhas praticamente sozinha. E meu pai, o tempo inteiro... dia dos pais, ele sempre me dava os parabéns, sabe, ele fazia questão disso, porque ele dizia que eu era pai e mãe. E então...e foram muitas perdas que eu fui acumulando, a perda da minha irmã, muita coisa grave aconteceu na minha vida, muitas perdas. E quando eu perdi meu pai em 2000, acho que foi a gota d'água. E isso, depois eu cheguei, com muita terapia e tudo, eu cheguei a essa conclusão, por isso que eu digo que é uma coisa muito pessoal. E eu caí numa depressão profunda. Eu cheguei no momento de... um dia, o Luiz Fumio me disse assim: "Você vai... Rosinha, faz isso aqui pra mim agora." "Eu não vou fazer isso. Eu não vou fazer isso, isto está contra as normas da Fundação! Como é que você me pede uma coisa dessas? Eu não vou fazer. Eu não faço!" E bati na mesa, subi nas tamancas, todo mundo ficou assim, porque não era do meu temperamento. Quer dizer, eu explodi, estava no auge da minha... do estresse. Aí o Fumio veio conversar comigo: "Rosa, eu espantei muito, eu sou seu amigo. E eu me espantei muito, e eu queria muito que você procurasse uma ajuda para ver o que está acontecendo com você, você está muito estressada e tal... Todos nós estamos estranhando o seu comportamento e tal." E isso já era fruto da depressão, então eu... que eu não sabia. Mas um belo dia o banco obriga a gente a fazer exame periódico. Então todo ano, depois dos 40 anos, todo ano a gente tem que fazer, e eu estava assim no limite. Eu tinha, naquele dia, era o último dia que eu tinha para fazer a consulta com meu cardiologista, estava marcada para duas e meia. Então eu saí dali do banco, fiquei sem almoçar porque eu tinha muito serviço, muita coisa para fazer, sem almoçar, duas e meia eu cheguei na consulta. Aí eu cheguei lá, minha pressão estava lá no alto. Aí meu cardiologista falou assim, me deu logo um remedinho sublingual, e falou: "Você vai ficar aqui em repouso até você melhorar e eu vou ligar... para quem que a gente vai ligar para te levar em casa? Ou eu vou chamar um táxi pra te levar em casa ou você vai chamar alguém para vir te buscar." falei: "De jeito nenhum, eu tenho que voltar para o trabalho. Deixei até o meu computador aberto. Eu estou no meio de um serviço lá, não posso deixar." E ele falou: "Esquece o serviço, você não vai trabalhar nem hoje, nem amanhã, nem depois." Isso era uma quarta-feira à tarde. E eu disse: "De jeito nenhum! Você está louco! De jeito nenhum! Eu estou cheia de serviço, estou com trabalho, com prazo, não sei o quê, parará..." E ele falou: "Você vai..." Enfim, me colocou de licença-saúde, e dali eu fui procurar, aí eu fui procurar a Cassi, fui procurar psicólogo, psiquiatra, não sei o quê, parará... e fui tratar da depressão. Aí fiquei dez meses afastada. Então quando eu voltei a trabalhar, eu tinha até receio de não voltar a trabalhar na Fundação, porque o banco tem como regra quando o funcionário se afasta por uma licença de mais de 180 dias, ele perde a comissão dele naquele lugar, perde a colocação, a vaga dele naquele lugar. Então ele é colocado para o Departamento de Funcionalismo que manda o funcionário para onde tiver vaga com ou sem comissão. E a Fundação foi muito generosa comigo, as pessoas da Fundação foram muito generosas comigo, porque entenderam que o meu momento tinha sido muito difícil. Eu, por muitas vezes, quis voltar a trabalhar e a minha psicóloga não tinha, não me liberava. E então eu... quando eu voltei a trabalhar e fui lá na Fundação, falei com o Fumio: "Fumio, minha licença vai acabar. Eu já pedi alta, recebi alta, e eu vou voltar a trabalhar, e eu queria conversar com você" – porque tinha sido o meu último chefe – "e eu queria conversar com você como é que fica minha situação." E morrendo de medo de não poder voltar para Fundação. Aí nisso o Fumio me recebeu, já com a Dulce Jane, que era a diretora que estava cuidando do ‘Criança e Vida’. E a Dulce Jane me disse assim, eu não a conhecia, e ela disse: "Rosa, eu não te conheço, mas pelo o que eu conheço da sua história aqui na Fundação, do que as pessoas falam de você, eu quis trazer você para trabalhar comigo. E você então... quero saber se você quer voltar pro ‘Criança e Vida’." Ah, eu desabei a chorar porque era tudo o que eu queria na vida, era poder dar continuidade ao ‘Criança e Vida’, né? Que, na verdade, enquanto eu fiquei de licença, eu não deixei de ter contato. Eu estava sempre em contato com o Jaime, os médicos me ligavam e perguntavam: "Minha querida, quando é que você volta a trabalhar? Nós estamos sentindo uma falta enorme de você. O ‘Criança e Vida’ não é o mesmo sem você." E eu ficava, aquilo me fazia bem, eu falava: "Eu já posso ter alta. Eu já posso ter alta e já posso voltar." Aí eu tinha uma recaída, porque a depressão é uma coisa física, né, química, então, até eu conseguir me liberar para poder ter alta e sair... mas quando consegui, e a minha psicóloga disse assim: "Você vai começar devagar. Você vai começar devagar." Eu, na segunda semana, já estava trabalhando dez horas por dia e não teve devagar pra mim não. E não tive mais problema nenhum.

 

P/2 – Isso foi quando?

 

P/1 – Em 2001?

 

R – Em 2001.

 

P/2 – E quais... você se aposentou em qual o ano?

 

R – Em 2003.

 

P/2 – Em 2003. Nesse período...

 

R – Dois anos.

 

P/1 – ... quais foram as fases do programa?

 

R – Que eu peguei?

 

P/2 – Isso, fechando.

 

R – Eu peguei o centro de tratamento. Até então, nesse tempo que eu fiquei fora com qualidade, com outras coisas, uma fase mais difícil do programa foi mapear os centros de diagnóstico. Porque os equipamentos eram, assim, 95% importados, equipamentos muito delicados e muito específicos. Então, nós tivemos que trabalhar com diversas pessoas, de diversos hospitais, de diversos laboratórios do mundo inteiro, porque o Jaime se comunicava com os amigos dele que ele tem pelo mundo inteiro, que ele trabalhou nessa área e tal e se comunicava com todos os fornecedores para saber a especificação de cada equipamento. Então ele perguntava pros laboratoristas: "O que que vocês querem ter do equipamento? O que vocês querem, que resultado vocês querem ter do equipamento?" E perguntava para o fornecedor do mundo inteiro: "O que vocês oferecem?" Aí o Jaime fazia aquela coisa: "Esse equipamento é o mais adequado." Aí vinha a questão da importação, eu fiz até curso de câmbio, nós tivemos que fazer para poder entender isso e tal e como é que ia acontecer. E então, nós... a parte que demorou, assim, a maturação, o projeto que demorou mais para maturar foi o centro de diagnóstico. Então quando eu voltei, eu cheguei a visitar os centros de diagnósticos inicialmente indicados. Aí quando começou toda negociação, quando eu voltei, já tinham todos eles assinado o convênio e tinham feito todo esse mapeamento, que foi feito pelo Chicão, pela Elisete e o Ed; acho que os três e foi feito todo esse mapeamento. Em cada hospital, "Você precisa disso, você já tem esse, esse e esse equipamento. Como você tem esse equipamento, você tem esse equipamento, mas se a gente acoplar esse o seu fica completo, você não precisa comprar um novo completo." Então foi todo feito com muito critério e tentando gastar o mínimo possível pra gente utilizar o recurso da melhor maneira possível. Então, quando eu voltei, os centros de diagnósticos já estavam em franca execução. Eles estavam, os hospitais estavam comprando os equipamentos e tal, então acompanhei tudo isso. E já tinham sido visitados alguns hospitais como centros de tratamento. Aí quando eu entrei, comecei a participar de todos eles e então eu deixei de visitar uns poucos hospitais, tinha sido só alguns. Quando a gente visitava o hospital, a gente já abria pro diretor do hospital quais eram os critérios que a gente gostaria que o hospital tivesse, obedecesse, para fazer parte do ‘Criança e Vida’, que é claro que aquilo fazia parte... a decisão dependia da gestão do hospital; no final a gestão, a diretoria do hospital se propusesse a fazer as mudanças que a gente considerasse necessária para se adequar, para formar uma estrutura igualitária, assim, equilibrada entre o centro de tratamento pertencentes ao ‘Criança e Vida’, aí que a gente ia avaliar a possibilidade de incluir ou não. E então, tanto que muitos hospitais, nós consideramos... a diretoria disse que faria mudanças, e a gente aprovou, mas eles não conseguiam, não fizeram as mudanças e não conseguiram fazer o projeto, e a gente acabou deixando de lado.

 

P/1 – Rosa, o seu envolvimento pessoal com a Fundação é muito grande. A gente percebe isso pelo relato. E hoje o ‘Criança e Vida’ um projeto que está findando, está em fase já de avaliação, já de conclusão. O doutor Jaime está em fase também de produção de um livro com as memórias do projeto. Mas que cria centros de diagnóstico que são referência e caminham com as suas próprias pernas, é um programa, hoje já tem... não existe mais a necessidade da FBB estar atuando, porque cada centro começa a caminhar como centro de referência e milhares de vidas salvas. Como é que você se sente?

 

R – Olha, eu me sinto muito gratificada, agradeço muito a Deus a oportunidade que ele me deu de me colocar naquele lugar, naquele momento, para eu participar desse programa, porque o ‘Criança e Vida’, eu tenho certeza, ele mudou a história da oncologia pediátrica no Brasil. Os médicos dizem isso, que existem dois marcos, existe um marco na oncologia pediátrica no Brasil: antes e depois do ‘Criança e Vida’. Qualquer um deles que você conversar vai dizer isso. E o ‘Criança e Vida’ não é mérito da Fundação, nem do Jaime, nem da Rosa, nem do Chicão, nem da Elisete, nem da Olívia, nem de ninguém. Nem dos médicos, nem dos ministérios. É mérito de uma equipe que funcionou, que deu certo. Um grupo grande que se juntou com os mesmos interesses, com a mesma seriedade, com a mesma garra. Então, o ‘Criança e Vida’ é fruto, o sucesso do ‘Criança e Vida’ é fruto disso. E com relação ao livro, eu acho que a gente... eu fiquei muito feliz quando o Jaime me disse que a Fundação tinha optado por isso, porque esse livro vai servir como cartilha para outras patologias. Como exemplo, eu posso te citar que há pouco tempo eu fui procurada pelo meu cardiologista, que disse, que me perguntou assim, se ele podia dar o meu telefone pra um cardiopediatra lá do Incor, aqui em Brasília, que queria fazer uma campanha para detecção de doenças cardíacas precoces, detecção precoce de doenças cardíacas no feto. Então ele queria ver se eu tinha algum caminho no Banco do Brasil pra ele procurar ajuda, pra ele fazer os cartazes da campanha. Eu falei: "Me dá o telefone dele." Aí eu liguei pra ele, aí ele falou: "Olha, eu estou no meio de um atendimento aqui, te ligo daqui a pouco. " "Tá bom." Dali a pouco, ele me ligou. Aí, nós conversamos duas horas e meia e terminamos a ligação porque acabou, ele estava no celular e eu nem sabia, e acabou a bateria dele, mas depois a gente continuou conversando. Então ele queria fazer cartazes do Incor, colocar e chamar as gestantes de Brasília para fazer ecografia, pra ver quem tinha. E eu falei: "Mas você não pode fazer isso. Quantas gestantes nós temos no DF? " "Cinco mil por ano. " Cinquenta e cinco mil, ou cinco mil por ano. "Vamos dizer que, se você faz a campanha no segundo semestre, que a gente tenha três mil gestantes no segundo semestre. Qual a sua capacidade de atendimento num dia?" "Ah, até duzentos exames." "E se aparecerem as três mil mães?" "Não, aí a gente marca pros outros dias." "Não, mas e se a gente pensasse em fazer por região e tal, por estágio de gravidez, tarará... Você já fez contato em Secretaria de Saúde? Você não pode colocar um cartaz em um posto de saúde se você não usou o chavão da Secretaria de Saúde." "Nossa, eu não tinha pensado nisso." "E não sei o quê, parará..." E conversamos... a conversar, eu falei: "O que você quer é o quê? É diagnóstico precoce, não é?" "É." "É tratamento adequado?" "É." "É capacitação de pessoal?" "É." "Você quer um ‘Criança e Vida’ pra cardiologia."

 

P/1 – É verdade.

 

R – Sabe, então, é a resposta. Como é que eu me sinto de ter participado disso? Presenteada.

 

P/1 – A gente está caminhando já para fase final da nossa entrevista. Como é que você avalia a sua trajetória na Fundação Banco do Brasil?

 

R – Antes de responder a essa, você me faz essa pergunta daqui a pouco, eu quero continuar uma que ela me fez, que nós paramos. Quando eu voltei pra Fundação, nós... os centros de tratamento estavam em encaminhamento. Aí a gente estava já, paralelamente, fazendo capacitação, a gente fazia treinamentos. Então, a Fundação, pelas normas dela... aliás, para o ‘Criança e Vida’, a Fundação teve que criar normatização própria, porque muita coisa a Fundação não podia fazer e o ‘Criança e Vida’ precisava. Então, o Rabelo deu muito apoio nisso e nós fizemos uma norma própria. E aí, o que que aconteceu? A gente foi fazendo... a gente não pagava passagem de médico pra ir pro Rio pra fazer curso no Incan, mas a gente podia pagar a despesa de um médico pra vir do exterior ao Incan dar o curso; a gente podia pagar o material técnico usado, você entendeu? A gente tinha algumas questões que a gente ajustava, mas sempre de acordo com as normas. Aí nós fizemos uma capacitação pro pessoal do PSF muito importante, esse tinha que ter continuado, que é o Programa de Saúde da Família do Ministério da Saúde. O Ceará é um estado em que o PSF está implantado em quase 100% dos municípios. Então nós fizemos uma capacitação, um treinamento com eles de dois dias, com o pessoal do PSF da região, só da região do Cariri; eu trezentas pessoas entre médicos – médicos com 80 e tantos anos, pediatras que estão no PSF – como enfermeiras recém-formadas, odontologistas, psicólogos... apesar de que os odontos e psicólogos não estavam ainda reconhecidos como fazendo parte da equipe, não estavam ainda sendo remunerados pra fazer parte da equipe; mas o Ceará já fazia isso, todas as equipes já contavam com odonto, pediatra... com odontólogo e com uma psicóloga. Nós fizemos esse treinamento pra trezentas pessoas, nós temos isso tudo gravado na Fundação. Se você vê o depoimento dessas pessoas depois do encontro, foi uma coisa fabulosa. Nós fizemos aqui em Brasília um encontro que foi muito importante pra uniformização do diagnóstico nesses oito centros. Nós pegamos, reunimos 32 técnicos, quatro de cada um dos oito centros de diagnóstico. Então o Incan é um centro de diagnóstico; o responsável pela anatomia patológica, pela imuno-histoquímica no Incan, o responsável pela imunofenotipagem, pela citogenética e pela biologia molecular, cada um deles. E fizemos uma dinâmica, contratamos duas pedagogas, uma delas com experiência na área médica, e elas fizeram uma dinâmica de juntar, num determinado momento, cada hospital, as quatro pessoas pra verem as dificuldades do hospital. Depois, só os responsáveis pela imunofenotipagem, por exemplo, cada grupo; eram oito em cada grupo. Depois tinha plenária sobre isso e aí tinha um resumo sobre isso. Esse trabalho tem na Fundação também, e é uma coisa fantástica pra ser copiada. E foi um trabalho que nós trouxemos as 32 pessoas e foi, assim, um trabalho de imersão que nós tínhamos até pensado: "Ah, de noite a gente vai sair com eles." Ninguém queria saber de sair de noite, eles queriam era trabalhar até cansar, até cair morto de sono, pra acordar no dia seguinte, sete horas da manhã e começar a trabalhar de novo, por causa da oportunidade de juntar desde o pessoal do Ceará, Recife, Rio, Rio Grande do Sul, Belo Horizonte, Brasília, entendeu, São Paulo... estavam todos reunidos ali, foi uma oportunidade única que eles tiveram, sabe? Então tivemos outros cursos. A gente participava dos congressos; nós mudamos, o ‘Criança e Vida’ mudou o Encontro Anual dos Voluntários de Apoio à Criança com Câncer. Os encontros eram mais de testemunhos, eu cheguei a participar de dois, que eram testemunhos: "Ah, porque nós mudamos isso na nossa casa", "nós agora atendemos os pais assim", "nós agora estamos fazendo bazares", "nós..." Então cada um trazia a sua experiência de melhoria nas casas de apoio. E nós falamos: "Não, nós só vamos ajudar se for dentro de capacitação." E o primeiro foi aqui em Brasília em 2000, em 2000, que foi a Hilda e a Peliz que era presidente da ABRACE, foram as responsáveis pela concepção e foi a primeira vez que houve capacitação. A partir de 2000, todos têm cursos.

 

P/1 – De capacitação.

 

R – De capacitação, capacitação para voluntários. Então tem como captar recursos. Você tem que ser... Tem que profissionalizar o voluntário. Não é sair pedindo: “Por favor, nós estamos cuidando de criancinha com câncer”. Não. “Nós temos aqui um projeto assim, assado, para ajudar crianças com câncer. Queremos saber se o senhor empresário está interessado de participar conosco e tal”. É muito diferente do que você ir pedir uma esmola.

 

P/2 – Agora Rosa, como você avalia essa sua trajetória nesse programa, assim, tanto no programa como na Fundação com um todo, já que você passou pela experiência lá da tecnologia social na qualidade total. Como você avalia a sua trajetória na Fundação?

 

R – É difícil dizer isso em poucas palavras. Porque eu me sinto... Eu dei tanto o meu sangue para estes trabalhos na Fundação, porque eles tinham tudo a ver comigo, em tudo o que eu acredito; de fazer o bem às pessoas, de estar tentando melhorar a condição de vida, de racionalizar recursos. Tudo isso faz parte, assim, da minha vida mesmo. Então lá eu pude levar essa experiência, essa seriedade minha para lá, então tenho certeza que eu ajudei muito em muita coisa, agora eu acho que ganhei muito mais, sabe? Eu ganhei muito mais com isso, com o aprendizado que eu tive na Fundação, nesses sete anos, com todos os trabalhos que eu tive especialmente o ‘Criança e Vida’. E o ‘Criança e Vida’ fez de mim uma lutadora pela causa da oncologia pediátrica. Tanto que eu, agora, ainda quero  fazer uma formação – eu não sei se já falei isso no começo...

 

P/1 – Falou.

 

R – Então eu não preciso repetir.

 

P/2 – Mas Rosa, você pode traduzir a Fundação em algumas palavras?

 

P/1 – Se você pensar em Fundação, o que que vem na sua cabeça?

 

R – Olha, eu até hoje recebo as revistinhas da Fundação, eu entro no site da Fundação, tenho seguido o que a Fundação faz, essa cadeia produtiva do caju que ainda está aí. Eu ajudei também na montagem da estrutura dessa cadeia. Eu trabalhei, batalhei nos convênios, o primeiro que foi assinado com a Embrapa e tudo mais, lá no Ceará, e eu tenho acompanhado bem o trabalho da Fundação. Eu acho difícil falar em poucas palavras, mas o que que é a Fundação? A Fundação, ela pode ser, assim, uma fábrica de sonhos, sabe? Ela pode ser considerada uma fábrica de sonhos realizáveis. Porque todas as pessoas que estão na Fundação também, elas têm uma característica, uma sensibilidade muito grande. Eu acho que ali está cheio de gente, pessoas especiais. Porque muitas entram e saem, porque se a pessoas são muito racionais ela não fica ali não. Não adianta, ela não consegue, entendeu? Primeiro porque a maioria aqui é mais emoção do que razão (riso) e bate de frente. A gente brigou muito ali. A gente batia muito de frente com algumas pessoas e tal; as pessoas são muito especiais. Então eu acho que a Fundação pode ser considerada uma fábrica de sonhos realizáveis.

 

P/1 – Para terminar a gente podia fazer uma breve avaliação. O que que você acha desse trabalho de registrar a memória da Fundação? O que você está achando desse trabalho da Fundação retomar a sua memória, por meio dessas entrevistas...

 

R – Olha, eu acho fundamental. Eu acho fundamental porque a Fundação teve um crescimento muito grande. Você vê, ela passou vários anos trabalhando, atendendo a projetos de balcão e nisso ninguém conhecia a Fundação, porque era e não resolvia. Eram projetos, abria um poço ali, um poço artesiano, aí vinha o prefeito e mandava fechar o poço se ele não queria. Porque o prefeito antigo era do partido anterior, aquela comunidade que trabalhava ali já não está mais ali, se mudou pra lá. Então eram coisas que não seguiam em frente, sabe? O recurso financeiro da Fundação era muito pulverizado, com isso não refletia em um resultado interessante. E hoje em dia não. Com estes projetos que a gente tem lá, esses programas que a gente tem estruturados e com possibilidade de serem utilizados em outras comunidades; como o ‘‘Criança e Vida’’ em outras patologias; a cadeia produtiva do caju, poder ser... do caju; da vassoura de cerdas, de garrafa pet, várias tecnologias sociais, isso faz com que a Fundação mostre para a sociedade que a gente pode fazer quando a gente quer. Esse trabalho do Lixão é uma coisa, eu conheço de perto o trabalho do lixão aqui em Brasília. É uma coisa impressionante. Como que as pessoas hoje se sentem valorizadas, pessoas que há uns anos atrás comiam lixo; hoje eles comem com o dinheiro que eles ganham com o que tiram do trabalho do lixo. É diferente. As pessoas começam a ter dignidade, a se considerarem cidadãs, participantes do mundo. Tem até aquela música ‘cidadão do mundo’, né? A pessoa começa a se sentir cidadã do mundo. Então isso é importante. Agora porquê? Porque é um trabalho estruturado. Então eu gostei muito da Fundação ter passado para essa fase e ter insistido, estar persistindo nessa função de replicadora de tecnologias, porque eu acredito que isso vai levar a ajudar no desenvolvimento no país. Aquela história que a gente fala, quando a gente conta a história do Brasil, se remonta lá aos problemas de Cabral, a gente fala: “a gente não pode mudar o começo, a gente pode, com certeza, tentar mudar o final.

 

P/2 – O que você achou de ter participado desta entrevista?

 

R – Olha, eu me sinto, assim, muito orgulhosa, sabe, e feliz de poder estar participando desta história e se o tempo não fosse tão curto, eu teria mais horas e horas e casos e casos para contar. Mas eu fico muito feliz de ter sido convidada a participar deste trabalho, acho que é um trabalho que vai contar uma história edificante para a sociedade brasileira, porque a Fundação virou uma fábrica de sonhos solidários, concretizáveis e realizáveis, né? Então eu acho que eu fico muito feliz e agradeço por ter participado.

 

P/1 – Em nome da Fundação Banco do Brasil e do Instituto Museu da Pessoa, a gente agradece a participação no Projeto FBB 20 anos e parabéns pela entrevista.

 

R – Obrigada.

 

 

 

--FIM DA ENTREVISTA--

 

 

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