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Rondon, esperança de Minas

História de: Rondon Pacheco
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/12/2004

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História completa



PESSOAL
Nome e nascimento Meu nome é Rondon Pacheco. Sou natural de Uberlândia, Minas Gerais. Nasci nessa formosa Avenida Afonso Pena, no ano de 1919, no dia 31 de julho e, por conseguinte, estou com 81 anos.

FAMÍLIA
Pais O nome do meu pai era Raulino Cotta Pacheco. O da minha mãe, Nicolina dos Santos Pacheco. Meu pai casou-se em Uberlândia, com Dona Nicolina dos Santos Pacheco, minha extremosa mãe, e com ela teve 12 filhos - atualmente, 11 vivos. Educaram a todos, são todos formados, oito homens e quatro mulheres. Meu pai era pequeno comerciante. Começou no comércio de uma papelaria e tipografia em Uberlândia, associado a Pedro Salazar Pessoa, na Avenida Afonso Pena, o que deu origem à própria Livraria Cosmos, tradicional na cidade. Ele, sempre muito idealista, fundou o Tiro de Guerra 243, o primeiro Tiro de Guerra da cidade, e era comerciante na Avenida Afonso Pena. Foi sócio de Afonso Sabastano, depois, resolveu montar uma casa comercial em Tupaciguara e lá esteve durante cinco anos. Voltou a Uberlândia e colocou um armazém na Avenida João Pinheiro. Este armazém se diversificou em uma pequena fecularia e em uma pequena indústria de carne. Para educar 12 filhos, o senhor pode imaginar a luta desse cidadão. Teve uma casa de brinquedos na Avenida Afonso Pena e, finalmente, terminou como avaliador judicial da cidade. Homem que merecia profundo respeito, uma grande força moral. Os juízes que chegavam a Uberlândia tinham na pessoa do meu pai um grande conselheiro e amigo. Minha mãe foi uma dama. Não vi ainda um enterro mais concorrido em Uberlândia. Na Avenida João Pinheiro, o passeio da casa onde ela morava ficou coalhado de coroas. Não havia espaço para colocar as coroas que ela recebeu. O Estado de Minas abriu uma página para homenagear minha mãe. Era uma dama tão perfeita, que ainda há o testemunho das suas vizinhas da Avenida João Pinheiro - todas eram como filhas dela. Tenho como lembrança o seu trato para com os semelhantes e sua polidez. Nunca um trabalhador da prefeitura que trabalhava nos paralelepípedos e no asfaltamento da avenida ficou sem café, às 2:00 da tarde. Ela fazia um pão de queijo, um café e mandava para os trabalhadores da prefeitura. Essa era a minha mãe. Avós Eu conheci meus avós. E com muito amor. Os nomes dos meus avós paternos eram João Cotta Pacheco e Alcina Messias Pacheco. Os maternos eram Terezinha Ethelvino dos Santos e Messias dos Santos Naves. A família Cotta Pacheco é uma das famílias pioneiras da cidade de Uberlândia. O pai do meu avô veio para cá como professor, e o meu avô, sempre um pequeno empresário, homem de classe média, também foi funcionário municipal e, depois, foi comerciante na cidade de Tupaciguara. Casa da infância Era uma casa modesta, mas muito digna, e todos nós saíamos para os estudos, voltávamos, e aprendemos a honrar o nome dos nossos pais. O cotidiano era como em toda a família numerosa, mas unida. Família numerosa, solidária e unida. E sempre lembrando aquela passagem do Evangelho em que São João Batista dizia: "A casa do meu pai sempre tem muitas moradas". Foi tudo muito bonito, muito formoso, muito harmonioso e muito construtivo. Era uma casa de muitos quartos, sempre com dois banheiros e, para essa família tão numerosa, tinha de ter um galpão interno, com os quartos também, que mais parecia um pensionato dos filhos. Primeira infância As brincadeiras eram constantes e perigosas, porque havia muito trânsito. Jogávamos beti - parece um beisebol, com aquela bola para derrubar aquela casinha. Brincávamos de jogo de maré, no passeio, e era uma vida que deixa muita saudade. Desde a idade de seis anos, eu tinha a obrigação de ir buscar o leite diariamente para o sustento lá da irmandade, da prole. Eu ia buscar a garrafinha de leite dos meus irmãos mais moços numa chácara próxima à cidade, antes de ir para a escola. Irmão Pela ordem cronológica, eu, com oito anos de idade, e o outro irmão do sexo masculino, com seis, ajudávamos meu pai. O Ubaldo Cotta Pacheco também é um esteio da família, muito dedicado à família, e eu fui estudar muito cedo fora. Eu saí de Uberlândia com 16 anos, fui para Belo Horizonte, e, aqui, ficou o Badu, o meu irmão Ubaldo Cotta Pacheco, muito identificado com meu pai, com a minha mãe e com toda a família. É o grande esteio, o grande suporte da família. Homem de bem, está aí plenamente realizado, como funcionário do Bradesco no setor de seguros.

EDUCAÇÃO
Primeira escola Minha primeira escola foi o Grupo Bueno Brandão. Comecei no Grupo Bueno Brandão, que é o atual Instituto de Educação, que eu, como governador, construí. O núcleo onde estudei e onde aprendi as primeiras letras era o Grupo Bueno Brandão, um grupo exemplar. O ensino primário em Minas sempre teve um alto nível. Tivemos ótimos Secretários de Educação, tivemos um Francisco Campos, um Abgar Renault, um Caio Benjamim Dias; tivemos nomes da maior respeitabilidade, pedagogos como Noraldino Lima e Cristiano Machado. Eu estudava pela manhã. Fiz o primeiro ano primário aqui. Professores A minha primeira professora ainda está viva aqui na cidade: Benedita Pimentel de Ulhoa, um nome tradicional no magistério mineiro, uma figura muito inteligente, irmã do Dr. Domingos Pimentel de Ulhoa, outra figura muito conhecida aqui na cidade. E a Dona Benedita, pela graça de Deus, ainda está viva. De vez em quando, eu a vejo. Formação escolar Meu pai se transferiu para Tupaciguara e, lá, ele morou por cinco anos. Lá, eu terminei o curso primário e vim fazer o admissão em Uberlândia - ele se transferiu para cá novamente. Fui estudar no Liceu de Uberlândia, onde estudei o admissão, e prestei o concurso no Ginásio Mineiro, que hoje é Museu, na praça Adolfo Fonseca. Ensino oficial. Fiz o meu curso ginasial aí. Ginásio Mineiro Cito nomes de moços que estudaram aqui no Ginásio Mineiro e que se projetaram como grandes cirurgiões no Rio de Janeiro: Josias de Freitas, outro no Instituto Penido Burnier, de Campinas, o Francisco Cotta Pacheco, o Pachequinho, irmão do Dr. Rui Cotta Pacheco, e, hoje, um número sem conta de jovens que saíram daqui do nosso ginásio e que se projetaram lá fora. Era um colégio vibrante e com uma cabeça pensante muito boa como seu primeiro diretor. Eu me louvo das informações históricas da formação do ginásio. Foi o próprio povo da cidade que se cotizou e construiu o prédio. Doou ao Estado, e o Estado instalou o ginásio. O primeiro professor foi o professor Juca Avelino. Depois do Juca Avelino, fundou-se um outro colégio na cidade, que é o Instituto Brasil Central, de outro grande professor, homem dedicado à educação, que era José Ignácio de Sousa. Foram os dois estabelecimentos da formação da juventude uberlandense. O primeiro diretor do Ginásio Mineiro foi um cidadão que veio para Uberlândia como promotor público: Mário Magalhães Porto, um homem muito brilhante. Um dos governadores que por aqui passaram ficou impressionado com o discurso do Mário Porto, e o nomeou diretor do Ginásio - foi o grande governador, o presidente Antônio Carlos Ribeiro de Andrada. Mas é interessante que souberam recrutar os valores. Nós tivemos um Nelson Cupertino, que era um autodidata, homem brilhantíssimo, conhecia botânica como ninguém. De física, o Nelson Porto, uma figura de muita expressão intelectual, mas um dos professores já do Liceu. Agora, Nelson Cupertino conhecia muito bem o idioma inglês. Naquela época, pouca gente falava inglês, e ele falava correntemente. O Domigos Pimentel de Ulhoa, recém-formado em medicina, veio lecionar no Colégio Estadual. Euclides de Freitas, o Aniceto Macheroni. Bastava vir como promotor, como delegado, e adicionavam. Iam para o ginásio lecionar, eram recrutados. E o Mário Porto, com muito amor à educação, fez, então, do Ginásio, o centro social da cidade. O teatro se realizava lá dentro. Por exemplo, houve a Revolução de 32, e ele escreveu uma peça, Itararé. Itararé seria a grande batalha da Revolução, mas a batalha que não se realizou, porque as forças paulistas estavam todas concentradas em Itararé. E, na Revolução de 30, o Quartel General foi o Ginásio Mineiro. As tropas vieram todas pra cá, porque Uberlândia é um ponto estratégico, de irradiação. Então, por exemplo, em 32, o 26 Batalhão BC, de Belém do Pará, veio pra Uberlândia. E o Quartel General, o Ginásio Mineiro. Então, nessa época, ficamos muito à vontade, porque não tínhamos aula. Estávamos gazeteando, porque, lá, estavam as tropas federais. Mas os professores informavam o que estava acontecendo no país, e até no mundo. Universidade Eu queria estudar no Rio de Janeiro, porque 90% dos jovens que daqui saíam, iam estudar no Rio de Janeiro. E o meu pai, por tirocínio, por formação e por intuição falou: "Não, Rondon. Você vai estudar na capital mineira, porque você se formando, já vai conhecer e se relacionar com a sociedade mineira". Fui para Belo Horizonte, com 16 anos, para ir fazer o pré-jurídico, ainda estudar dois anos, para depois entrar na escola de Direito. Meu ingresso na universidade se deu aos 19 anos. Foi uma convivência muito amena, porque eu já estava na Universidade porque, naquele tempo, a reforma do ensino obrigou ao aluno freqüentar dois anos, depois do curso ginasial. Se ia estudar medicina, era o pré-médico, se ia estudar direito, era o pré-jurídico. Então, os próprios professores da Escola de Direito lecionavam no pré-jurídico. E, durante dois anos, eu já freqüentei a escola. Nesses dois anos, eu já freqüentei o pré-jurídico, dentro da própria escola. Quando fiz o vestibular, já era quase um veterano. O trote já foi mais ameno. Se, na escola, eu fui o líder, como presidente do Diretório Acadêmico, naturalmente, devo ter ganhado alguma projeção no meio universitário. Em Belo Horizonte, o nosso professor de Direito Internacional Público, Alberto Deodato, organizou um júri simulado que empolgou toda a cidade. Sabe quem era o réu? Adolf Hitler. E os juízes eram representantes das nações aliadas. Sabe quem foi nomeado advogado do Hitler? Rondon Pacheco. Isso foi no ano de 1938. Queriam absolver o Hitler, você imagina? O professor é que não deixou. Sabe o meu argumento de defesa? Primeiro, o fator psíquico. Segundo, argüi a suspensão do tribunal porque o Hitler não podia ser julgado pelos inimigos, e o tribunal era suspeito. Quiseram reconhecer a suspensão do tribunal, e o professor não deixou, para condenar o Hitler. Mas eu e o Sebastião Pinheiro Chagas fomos advogados. O júri foi irradiado, o comércio judaico da cidade financiou aquele júri, foi todo irradiado; televisão não existia. E o Hitler apareceu fardado, com aquela farda de marechal do Hitler, tudo de flanela, tudo direitinho, gabardine, uma beleza. E a escola, repleta - foi nas dependências da escola - e todos os professores assistindo. Foi um acontecimento em Belo Horizonte. Fui tocar o viés técnico e argüi a suspensão do júri para julgar o Hitler. Agora, que ele era louco, eu reconhecia, que estava cometendo as maiores injustiças, estava, mas o crime dele era tão grande também que aleguei no crime sinelege que não existia lei definindo o crime dele. Ele era um chefe de Estado que queria dominar o mundo também, como Napoleão dominou e como todo o mundo quer dominar. É ou não é? Em todas as nações, querem dominar o mundo. Ele achou que era a vez dele. Errou, quando entrou no gelo da Rússia, cometeu o mesmo erro de Napoleão. Afundou lá em Stalingrado. O mesmo erro de Napoleão, que foi derrotado pelo inverno na Rússia. O Hitler foi derrotado na Rússia. O general inverno, seis meses de inverno. Eu tive depoimentos, mais tarde, quando fui à Alemanha, conhecendo oficiais da Wermacht, do Hitler, em que eles diziam: "Dr. Rondon, o senhor não calcula o nosso sofrimento, os nossos tanques não andavam, porque o gelo congelava o óleo, a gasolina, e suportar aquilo lá na Rússia foi a nossa morte". Vocação Fui enveredar para o lado do Direito, desde criança, quando ia assistir ao júri, e os juízes me chamavam para sortear os jurados. Quando havia uma sessão de júri, a gente ia assistir, porque, dentro das cidades, o júri era um dos grandes acontecimentos. Ouvir o discurso do advogado, a réplica, a tréplica, a primeira defesa, a defesa prévia. Eu não tolerava muito a leitura dos autos, porque aquilo era ruim. Mas, quando o juiz via uma criança lá assistindo aquilo, e eu era muito freqüentador, me chamava, me punha sentado ao lado da mesa de Sua Excelência, para a hora de sortear. Eram 21 jurados, sorteavam sete para poder julgar o criminoso. Eu, então, ia à urna para tirar o papelucho, para sortear os jurados, e aquilo já me dava... Achava bonita a defesa dos advogados, alegando a legítima defesa, alegando a inocência do réu. Eu achava aquilo muito bonito, despertei a vocação e fui estudar Direito. Via os comícios na cidade, as lutas municipais, o candidato a prefeito, isso a que nós estamos assistindo hoje. Acompanhava tudo aquilo com oito, nove, dez anos de idade. Achava bonita a vida cívica. Minha vocação surgiu nos bancos escolares. Havia um palanque em que eu subia, chegava um time de futebol na cidade, e eu era o orador oficial. Saudava o time que estava chegando, a comitiva, lá na estação. O meu tio, que tem o nome de Juca Ribeiro - o nome do primeiro estádio de Uberlândia -, era o comandante do esporte na cidade. Tive dois grandes amigos. Um comandava o futebol, o outro, o basquete. O basquete era comandado pelo Boulanger Fonseca, meu amigo, e eu, um dos atletas. E o meu tio, que era o do futebol, muito amigo do Alexandrino, o Juca Ribeiro, com os outros dois irmãos, que eu falo no prefácio, o Mário e o Wolninho, que vieram a ser parceiros, auxiliares do Alexandrino - o Alexandrino ajudou a abrir os caminhos deles na vida também, para vender arroz, vender cereais, comprar para ele. E essa amizade, essa coisa, surgiu daí também. Quando as comitivas chegavam a Uberlândia, o orador oficial era o ginasiano Rondon Pacheco. Mas, muito antes da Universidade, aqui em Uberlândia, como falei, o centro cívico da cidade era o nosso Ginásio, e eu fui escolhido o orador da turma. Fui o orador da minha turma ginasiana. Eu tenho o convite até hoje. Interessante é que houve a primeira campanha municipal de Cocão e Coió, antes do Golpe de 37, e foi em 36, com dois candidatos. O Cocão, como a eleição ia ser indireta, preferiu indicar apenas os vereadores. E os Coiós apresentaram os vereadores, mas apresentaram também o que seria o candidato a prefeito, no que levaram uma certa vantagem. E como Vasco Giffoni já era o prefeito nomeado, foi eleito. O meu partido perdeu, mas a Câmara ficou 5 a 4, empate técnico. Então, já assisti à primeira eleição. E nessa eleição, o Cocão, quando ia fazer comício, aqui, em Martinésia, Tapuirama, levava o ginasiano Rondon, para subir no palanque também. Usava o palanque. Estava no sangue. Na Escola de Direito, fui o presidente do Diretório Acadêmico. Então, política comigo surgiu assim, naturalmente, como uma vocação irresistível. Sempre fui um político, sofri todas as influências da época, todas as utopias também. Exército Eu fui soldado, fui convocado na guerra, fiquei três anos no exército, fardado. Não cheguei a ir na Força Expedicionária, porque era universitário. Fui para o CPOR de reserva, o comandante me mandou para o CPOR. Ex-ofício, não foi a pedido, não. A influência militar vem pelo meu próprio nome: Rondon foi por causa do marechal Rondon. Meu pai fundou o Tiro de Guerra de Uberlândia e ele era muito afeito à vida militar, frustrado por não ter sido militar. Rondon, o grande general Rondon, o homem que fez as linhas telegráficas deste país e que protegeu os índios, um dos grandes valores do nosso país. E eu paguei o meu tributo. Fui para o exército, fiquei lá três anos, prestei o meu serviço, conscientemente, e vim me despedir aqui dos meus avós, dos meus pais, porque a perspectiva era ir para a Europa, se a guerra durasse mais, até que a guerra terminou sem ninguém esperar. Fizeram a segunda frente, e o Hitler já estava esgotado na luta contra os russos, aquela coisa toda. O próprio Von Rommel, que tinha feito aquela grande marcha no norte da África, já estava vencido pelo Montgomery e já tinha ido ao suicídio, obrigado pelo governo alemão. Nesse tempo, eu passava o dia no quartel, estava licenciado e ia à aula. Lá no quartel, davam-me duas horas para freqüentar uma aula ou outra, mas ia fardado. Entrava fardado na sala de aula. Formatura Meu pai foi assistir à minha formatura. Minha mãe não podia, eram muitos filhos. Em me lembro desse dia, eu compareci. Fui o mais aplaudido, sabe por quê? Não é imodéstia, não, porque é um fato sui generis. Eu era o único fardado (risos). Eu não podia ir colar grau sem a farda, porque estava no exército, farda de soldado raso - nessa ocasião, ainda não estava no CPOR. Quando compareci fardado, o Cine Brasil quase veio abaixo, o pessoal aclamando o expedicionário, um futuro expedicionário - eu não fui expedicionário, mas fui convocado pela classe 19, foi toda ela convocada. Minha formatura se deu em 1943.

CORPORATIVO
Primeiro emprego O interessante é que eu estava no quarto ano ginasial e fui distinguido para lecionar no curso primário do Liceu de Uberlândia. Eu era professor também. À noite, eu lecionava, tinha de trabalhar. Lecionava português, aritmética, essas matérias do cotidiano. Foi meu primeiro emprego formal porque, antes, eu ajudava o meu pai, trabalhava com o meu pai, no balcão. Ele era comerciante. Eu atendia o balcão. Atendia assim, "subsidiadamente", porque não tinha nem idade. O que um menino de sete, oito anos pode fazer? Advocacia Deixei a universidade e fui advogar em Belo Horizonte. Tinha o escritório no edifício Mariana. Montei escritório, fiquei três anos com ele. Depois, a política não deixou mais. Fui ser deputado federal, fui para o Rio de Janeiro. Havia em Uberlândia um advogado, Dr. Jacy de Assis, e ele tinha amizade, apreço pela minha família e por mim e me via como um estudante de algum futuro no próprio Direito. Esse trabalho era de segunda instância, porque tudo dependia do tribunal. Ele me mandava para esses habeas corpus, para eu acompanhar e mandava a procuração. E as apelações eram obrigatórias, principalmente, no crime. No cível, os desquites. O próprio juiz que dava o desquite era obrigado a recorrer ex-ofício para o tribunal homologar. E a parte criminal, o processo, quando julgado na Comarca, o promotor apelava. Não era obrigatório o promotor apelar, mas a regra, por funcional, era o promotor apelar, quando perdia. E o Dr. Jacy me premiava com aquelas procurações todas, com muita honra para mim, eu era um estudante aplicado, sempre fui um bom estudante e tive muito êxito, no início da minha vida profissional. E as boas amizades No escritório Mariana, eu tinha escritório no 9º andar e sabe quem estava instalado no 8º andar? Milton Campos e Pedro Aleixo, que ficaram meus amigos. Que vizinhança Fui discípulo porque passei a ser o discípulo político de Milton Campos e Pedro Aleixo. Fui deputado e Milton, governador, pela primeira vez, quando fui constituinte. Política Sou fundador da UDN. Primeiro cargo eletivo A disputa para o primeiro cargo eletivo deu-se naturalmente. Houve a abertura política e as eleições para presidente da República e para a Constituinte federal. Em Uberlândia, meu partido apresentou um candidato para a Constituinte, que foi o Dr. Jacy de Assis. Ele não se elegeu, ficou como suplente, mas não conseguiu se eleger para a Constituinte. E eu, que já era presidente do Diretório Acadêmico e já tinha aquela vocação política muito marcante na minha vida, fui lembrado pelos próprios colegas de turma, que, como eu, também aspiravam ser candidato a deputado estadual e a Constituinte. Eu, então, tinha de tentar aqui em Uberlândia. Vim e visitei os amigos. O meu sogro, o senhor Guiomar de Freitas Costa, foi o presidente da UDN na primeira eleição aqui. Na segunda, quando fui eleito, já era o Sr. João Rodrigues de Castro. O Varão, o Sandro Varão, também aqui de Uberlândia, um homem da melhor estirpe, da melhor formação, como meu sogro, falou: "Ah, Dr. Rondon, o Dr. Jacy não foi eleito e ele também está aqui em Uberlândia há pouco tempo. Vamos escolher o senhor, que é um filho daqui, de família daqui, estudou aqui, nasceu aqui. E vai ser o primeiro deputado por Uberlândia". Eu tive sorte e fui para a Constituinte Mineira. Não foi fácil chegar lá porque cheguei inicialmente como suplente, mas com Milton eleito, fui convocado logo, porque muitos saíram para ser secretários de Estado. Minha votação principal foi em Uberlândia, que tinha apenas 11 mil eleitores. Hoje, são 200 e tantos mil. Cocão e Coió Meu pai tinha uma preferência partidária marcante. A cidade era dividida entre Cocão e Coió. Eu era Cocão, meu pai era Cocão. Hoje, se for analisar, eram ambas facções conservadoras. O chefe dos Cocões era um farmacêutico, Adolfo Fonseca e Silva. Homem muito inteligente - a praça do Ginásio tem o nome dele - e muito liberal, muito afável. Na farmácia dele, ele atendia de manhã à noite a todo mundo e aliciou um grande eleitorado. Tinha um irmão, que era o coletor estadual, José Fonseca e Silva, que foi prefeito da cidade, cuja família está toda aqui em Uberlândia hoje. E era um homem de um prestígio respeitabilíssimo, todo mundo gostava do Zé Fonseca, principalmente na zona rural. Foi um dos meus grandes apoiadores no início da minha vida pública, o Adolfo, o José Fonseca, a família Fonseca - já, tradicionalmente, porque meu pai era Cocão também. Mas, quando entrei na política, mudou tudo, porque foi depois da ditadura do Getúlio Vargas, e ele tinha acabado com todo o movimento político, naquele tempo era ditadura mesmo. Ele nomeava os governadores, e os governadores nomeavam os prefeitos, eram prefeitos nomeados. Os Coiós eram também gente muito boa, gente muito distinta, conservadora. Mas eu percebia que, em Uberlândia, na sua formação, o pequeno comerciante, o pequeno industrial, a pequena burguesia estava com os Cocões. E a aristocracia rural ia para os Coiós. Mas depois, não. Depois, com a abertura política, com a queda do Getúlio, aí veio a UDN, UDN e PSD. O PSD é o partido do governo, que nunca saía do governo, era governo mesmo, e a UDN era o partido democrático, que lutava contra a maré, para constituir o governo e que veio também a ser governo um dia. Era chefiada pelo brigadeiro Eduardo Gomes, que foi quem levantou a bandeira da oposição. O Partido Republicano Mineiro era uma sublegenda de um desses partidos, porque o que valia era a força municipal. A vida política se realizava dentro do município. O Estado estava muito distante. Aqui, existiam os perremistas, os progressistas, de tudo, mas os dois blocos eram dois blocos sagrados, municipais. As denominações Cocões e Coiós surgiram mesmo como um apelido, como há em todos os municípios mineiros. O mineiro tem uma vocação irresistível para a política e gosta da vida cívica, não quer fazer só o cotidiano e o privado, não, quer fazer o público também. Deputado federal Fui para a Constituinte Mineira em 47 e todo mundo achou uma temeridade, quando eu disse que era candidato a deputado federal em 50. Todos achavam uma temeridade: "O que esse menino vai fazer lá?" E fui. Aí, trocamos: eu fui o candidato a deputado federal, e o Jacy passou a ser o candidato a deputado estadual, aqui, em Uberlândia. Compusemos assim. Cheguei à Câmara Federal com 30 anos de idade. Com 37 anos, eu era líder da União Democrática Nacional. Uma bancada de 90 deputados e uma bancada que tinha Carlos Lacerda, João Agrippino, Bilac Pinto, Pedro Aleixo. Esses homens me escolheram para ser o líder, e eu, muito humilde, aceitei e procurei desempenhar minha missão. O líder da oposição era o Carlos Lacerda, porque a UDN era ligada ao PL, e eu, o líder do partido, da UDN. Nessa minha mudança para o Rio, eu já estava casado. Quando cheguei à Assembléia, estava casado. O meu sogro tinha sido presidente do partido, que teve também influência nessa escolha: foi até um prêmio para ele escolher um genro, apesar de que minha vocação já estava inicialmente realizada na advocacia - o serviço de segunda instância do Dr. Jacy, ele me mandava, pelo menos a parte que exigia menos trabalho, ele me mandava tudo. Quando era uma causa de grande responsabilidade, ele mandava uma procuração conjunta: Milton/Rondon, Pedro Aleixo/Rondon, e eu entrava como auxiliar na defesa. Suicídio de Getúlio Vargas O último período Vargas, que eu passei no Rio de Janeiro, foi traumático. O erro do Getúlio foi ele ter voltado à presidência, a própria família reconhece, o genro dele, o Amaral Peixoto. O Getúlio voltou, e o país tinha passado por uma grande transformação. A transformação do pós-guerra. Vocês já imaginaram o que é uma guerra na qual foi usada a bomba atômica? O que pode ser essa guerra? Morrerem 100 mil pessoas assim esmagadas, asfixiadas pela bomba atômica? O trauma que foi na humanidade a bomba atômica, a primeira em Hiroshima, a segunda em Nagasaki? Mas falando de influência, do que foi a transformação, eu, que entrei no terreno da transformação, acompanhei a criação da ONU, a Declaração Universal dos Direitos do Homem e as novas Constituintes. Não era só no Brasil, não, em todo o mundo, todo o mundo estava se reorganizando politicamente. Quanto ao avanço tecnológico, você já pensou o que foi a influência do radar, para detectar as bombas voadoras que iam para Londres, para antecipar a chegada delas e estourá-las no meio do caminho? Já pensou no avanço da técnica em tudo isso? As telecomunicações, o motor sem água, como fizeram o Volks, para ser o carro de combate, lá no deserto, na África, sem água e refrigerado a ar. Então, foi um avanço terrível, um avanço tecnológico admirável, nesse setor aqui de telecomunicações, em tudo, a bomba atômica, a água pesada. A Constituinte brasileira surgiu, então, nesse caldeirão efervescente. E aí volta o Getúlio, que era o pacífico fazendeiro lá de São Borja, onde tinha se exilado durante cinco anos, cuidando do seu gado, dos seus cavalos, mas, como tinha muito prestígio popular, foi lembrado e veio presidente da República e veio para sofrer, porque, quando ele sentiu que estava sendo traído pelos próprios companheiros, ele foi ao suicídio - porque houve aquele atentado contra o Carlos Lacerda, em que morreu aquele oficial da aeronáutica, o major Ruben Vaz, e ele veio a descobrir que os assassinos tinham sido os homens da sua guarda pessoal. Daí, ele se decepcionou. Falou: "É um mar de lama que está aqui dentro". Foi a expressão dele, e suicidou-se. Todos nós sofremos com o suicídio do Getúlio, porque ninguém desejava isto. Morrer por quê? Um homem que tinha governado o país por 15 anos, depois mais três, dezoito anos, com grandes transformações sociais. Ninguém desejava isso. Todo mundo sofreu com a morte do Getúlio. Foi um trauma. Houve uma retaliação ao meu partido. Todo mundo achava que a UDN e o Carlos Lacerda eram um "corvo" - foi o Samuel Wainer que inventou essa expressão, que o Lacerda era um Corvo. Todo mundo sentiu muito a morte do Getúlio, mas passou. Sucessão de Getúlio Vargas O povo brasileiro compreendeu que aquela foi uma etapa no seu destino, na sua vida, e o vice-presidente do Getúlio assumiu - era o Café Filho -, e aí houve a sucessão normal. O Café Filho, vice-presidente da República, presidiu o Congresso Nacional naquele tempo. Assumiu, governou um ano, ia terminar o mandato dele e tinha de eleger o próximo. O PSD indicou o Juscelino, o PDC, com o apoio da UDN , indicou o Juarez Távora. Juscelino ganhou a eleição, assumiu o governo. Houve uma sucessão normal. Houve a campanha de não se dar posse ao Juscelino, porque ele não tinha alcançado a maioria absoluta, mas seria alterar as regras do jogo, depois do jogo feito. O exército não concordou com isso e deu posse ao Juscelino. O general Lott foi lá e o colocou, em 11 de novembro de 55. Aquilo tudo eu vivi lá dentro e passei o 12 de novembro dentro do Ministério da Marinha, aguardando a chegada do cruzador "Tamandaré" - onde o Carlos Luz estava preso. Fui lá com o Milton Campos e a comissão. O Milton foi esperar o Tamandaré, para negociar a rendição dos rebelados, dos depostos, porque o Luz foi deposto. O Café Filho havia enfartado, estava doente do coração, na Clínica São Vicente, e o Carlos Luz, como presidente da Câmara, havia tinha assumido o governo e fugido no "Tamandaré", para buscar abrigo lá em Santos, para enfrentar o Lott, mas não teve suporte, voltou, no outro dia, e se entregou ao Nereu Ramos, que tinha assumido o governo. O Nereu Ramos era o presidente do Senado e havia substituído o Café Filho. Café Filho, doente, Carlos Luz, presidente de fato, foi deposto, impedido, e o Nereu Ramos assumiu e deu posse ao Juscelino. E, na volta do Tamandaré, o Carlos Lacerda asilou-se na embaixada de Cuba e, uma semana depois, foi para Portugal, onde ficou por uma longa temporada, porque não havia clima, e ele corria muito risco de vida, ao ficar aqui no Brasil.

CTBC
Empresas A telefônica chamava-se Teixeirinha, uma empresa telefônica daqui, com ramificação em Tupaciguara, Monte Alegre e Ituiutaba, e tinha o centro intermediário, que é um local chamado Vatinguara. Você, para falar em Ituiutaba, tinha de passar pela Vatinguara. E o Tito Teixeira manteve a Teixeirinha durante esses anos todos, viajando muito, porque vivia na estrada, fiscalizando linhas, funcionárias, funcionários, aquela dinâmica de uma pequena empresa. Até que o Tito resolveu vendê-la, pela idade. Na ocasião, não foi o Alexandrino que assumiu o controle, não. Eram sete. Para ter uma sociedade anônima, tinha de ter sete acionistas, e eles criaram uma sociedade anônima. Mas, dos sete, quatro apareceram mais: Alexandrino, Hélvio Cardoso, Aristides de Freitas e Francisco Caparelli. E havia mais 400 pessoas. Eram quatro que representavam 400, porque tinha de ter sete. Havia 400, 500 acionistas, porque esses quatro saíram pela cidade e conseguiram 400 ou 500 acionistas. Todo mundo queria colaborar, porque Uberlândia tinha mentalidade aberta para o futuro e queria ter uma empresa telefônica eficiente. Aí, lá no Rio de Janeiro, o deputado Rondon Pacheco apenas recebeu os quatro representantes, todos os quatro meus amigos também, muito amigos, e o seu public relations também, eles tinham um public relations lá no Rio, chamado Boulanger Fonseca, que é aqui de Uberlândia, que era funcionário e trabalhava para eles. Ele me procurava, era muito meu amigo, e eu tinha liberdade para conversar com eles, com a maior franqueza, com a maior liberdade e não conversava apenas como o defensor dos interesses e do progresso e do desenvolvimento de Uberlândia, conversava com eles como amigo também, do cotidiano. Minhas luzes jurídicas, políticas, valeram alguma coisa a eles, porque eles tinham as luzes empresariais, e eu pude adverti-los sobre muitas contingências. Eu acho que o grande lance do Alexandrino e seus companheiros foi se aliar logo à Ericsson, que era realmente um setor altamente especializado em telefonia. É sueca, e foi para a Suécia que ele mandou o Luiz fazer curso e estudar. O representante da Ericsson no Brasil chamava-se Kantif. Esse Kantif fez uma grande amizade com o Alexandrino, tiveram identidade, amizade, além das relações comerciais, e venderam logo, porque não era possível, a Teixeirinha estava superada, em face do estágio de 1951, 52; já era hora do telefone automático. Não comportava mais manivela, telefone a pilha e outras coisas. Já era estação automática. E eles compraram a central telefônica na Suécia, que é essa que mostrei, que está sendo inaugurada, nesta fotografia. Mas isso demandava uma postulação nos órgãos burocráticos, a Cexim era exercida por delegação, pelo Banco do Brasil. Cexim é Conselho Exterior do Comércio de Importação. Eu tinha conhecimento, e o Kantif não me dava sossego também, não era só o Alexandrino, não. O Kantif era um homem que estava, diariamente, lá nos corredores da Câmara: "Olha, Dr. Rondon, se Uberlândia perder essa central, o senhor não se reelege" Era um grande argumento: "O senhor não se reelege, a frustração lá vai ser total" Eu falava: "Ah, mas a minha responsabilidade não é tão grande assim porque sou oposição O governo aqui é que tem a maior responsabilidade. Eu sou da oposição". Mas valia mais, a oposição eles temiam e respeitavam muito mais. Fui lá, no Ministério da Fazenda, por várias vezes, e falei: "Alexandrino, Hélvio, Caparelli, Sr. Aristides, a sua importação está liberada. Podem ir lá buscar. A nossa Uberlândia vai ter uma central telefônica". E não se calculam os percalços do caminho. Naquela hora, naquela fase, naqueles dias, tinha entrado para o Ministério da Fazenda o Dr. Osvaldo Aranha, a maior figura do governo Vargas do momento, que já vinha com aquele prestígio de ter advogado a posição brasileira ao lado dos aliados e sentia a grande crise que o Brasil estava atravessando, a crise do dólar, da balança de pagamentos e faz a reforma cambial. E essa primeira central que veio para Uberlândia, na variação do câmbio - a moeda daquela época era cruzeiro - de sete, passou para 40. Imagina o impacto para esses homens daqui. O primeiro impacto deles: "Nós não podemos enfrentar essa desvalorização monetária". Tinha de pagar em dólares. A minha expressão para todos eles foi: "A grande conquista foi a licença de importação, e essa vocês não podem perder". Não foi difícil convencê-los, porque eles sabiam que não podiam perder, porque tudo dependia da central telefônica, e vieram para cá na mesma hora, arrumaram mais acionistas, aumentaram o capital e trouxeram a central telefônica. Aqui, está a fotografia, eu inaugurando a central. E, paralelamente, a central era um acidente, porque Uberlândia estava estrangulada em energia elétrica. A Prada, que era a companhia proprietária da concessão municipal, com o crescimento da cidade, também não estava conseguindo acompanhar o desenvolvimento. O mesmo trabalho que eu tive de fazer para o Alexandrino na central telefônica, tive de fazer para importar as turbinas da Prada, aqui da usina local. E o mesmo trabalho que eles fizeram aqui, criando, constituindo a empresa telefônica CTBC, a Prada fez em nome próprio, conseguindo representantes aqui na Associação Comercial, com o Sr. José Rezende Ribeiro e outros correndo o comércio, o Juquita Rezende correndo o comércio aí, arrumando novos acionistas para a Prada e para comprar, para que Uberlândia estivesse aparelhada na sua usina hidrelétrica. E veja o que é o destino do homem: o que eu vinha comprar como governador para a Cemig? Comprei a Prada Encampei a Prada E a incorporei à Cemig, para que Uberlândia pudesse dar seu grande salto, seu grande arranco e, no meu governo, mandei construir a usina de São Simão, que triplicou toda a geração da Cemig. Aqui, no canal de São Simão, porque, até Itaipu, era a maior usina do país. Foi construída no meu governo. Deslanchou o crescimento, mas, antes disso, eu já havia conseguido ligar Cachoeira Dourada a Uberlândia, com verbas federais, conseguindo verbas, subsidiando a Cemig, fazendo essa rede de intercomunicação elétrica, o que era o fundamental para a própria telefônica. Tinha de ter energia elétrica, sem o que a cidade não podia deslanchar.

EXPANSÃO
Expansão A partir desse momento, acompanhei tudo, toda a expansão da Telefônica. As concessões eram estaduais. Era, de todo modo, um emaranhado jurídico. Em 1961, eu era secretário de Estado em Minas, no governo Magalhães Pinto, e o Alexandrino passou a postular para ser o concessionário de todas as concessões caducas do Triângulo Mineiro. O governo deu as concessões a ele e, por uma dessas coisas do destino, eu estava acumulando a secretaria do Interior, com a secretaria da Viação, por onde se processavam essas concessões. Tive o privilégio de assinar a concessão, deviam ser umas 40 e tantas concessões, o que já corporificou muito a Telefônica. Deu peso, deu densidade e, depois, ele foi para Uberaba. Araguari demorou muito, acho que ele não conseguiu entrar. Ele foi para Franca, para Pará de Minas. Aí, o português se expandiu, aquele gênio colonizador de Portugal. Foi às Índias. Ele tinha uma particularidade muito forte, que é a idéia da telefonia como serviço público, e ele sofreu muito com isso, porque a dinâmica da empresa privada é uma e a dinâmica do serviço público é outra. Eu também sofri muito, porque fui ministro, e o presidente do qual eu fui o ministro imediato - era ministro extraordinário chefe da Casa Civil da Presidência da República - me chamou e disse: "Dr. Rondon, eu nomeei o primeiro ministro das Comunicações do país. É o Dr. Carlos Simas, um técnico que me foi indicado, um homem, um professor. Acertei nessa nomeação, não tenho a menor dúvida, é um baiano, mas ele tem que ter um teto para ficar aqui em Brasília. O senhor vai arrumar esse teto para ele num desses Ministérios". Eu era o auxiliar imediato, e o presidente de que estamos falando é o Costa e Silva: "Quero um teto para ele instalar o gabinete dele". Arrumei tudo lá, com o auxílio do Gabinete Militar. Arrumamos tudo, e o Carlos Simas chegou e se instalou. Grande figura o Carlos Simas, o baiano. Foi o primeiro ministro das Comunicações do Brasil. Quem criou o Ministério das Comunicações foi o governo Castelo Branco, e o primeiro a instalar e nomear o ministro foi o Costa e Silva. Ainda me lembro de uma dessas sabedorias políticas dos baianos. Costa e Silva era colega de Ministério do Juracy Magalhães, que era o ministro do Exterior do Castelo, e ouviu o Juracy sobre a nomeação do baiano para o Ministério. E o Juracy me chama e fala: "Ô Rondon, o general Costa e Silva me fez essa deferência e tal, mas nós sabemos que ela é muito honrosa, mas não é o bastante, não é o suficiente para a política". Eu falei: "Não, mas já cuidamos disso". Era ouvir o governador da Bahia, que era o Luiz Viana, para ele se considerar dono da nomeação. O interesse do Juracy era que o Costa e Silva capitalizasse plenamente o prestígio e o apoio da bancada da Bahia, escolhendo um baiano, indicado pela bancada. Então, fomos para lá, para viabilizar o Carlos Simas. A política é muito melindrosa, muito sensível. Não é para amadores. Agora, o Alexandrino sofria muito, por causa desse temperamento executivo dele. Ele queria as coisas mais depressa, mais presentes. E a dinâmica da burocracia é bem diferente da dinâmica da empresa. Na empresa, ele é dono, e tem aquela delegação dos acionistas e, lá na parte burocrática, é terrível, a burocracia é difícil. Mas, depois, veio a reforma administrativa, simplificou muito, mas a mentalidade brasileira ainda é muito cartorial, veio das Ordenações Filipinas, aquela coisa do português, da formação burocrática portuguesa, sabe que é muito rigor, eles não têm pressa. Depois que decidem, agem. Mas até decidir, é um pouco meticuloso, cuidadoso. Paciência, o Alexandrino tinha, mas o sangue dele fervia para realizar depressa, ele sabia que Uberlândia tinha pressa, que a área que ele trabalhava estava pedindo rédea. Ele tinha de dar rédea ao corcel, e a burocracia, às vezes, não deixava. Estatização Atribuo à capacidade funcional o fato de uma companhia como a CTBC ter se mantido privada inclusive durante todo o processo dos governos militares, que queriam estatizar todas as companhias. Ela estava preenchendo as suas condições, a tarefa lá já era imensa, até que chegou um ponto que foi preciso privatizar, porque, primeiro, houve aquela concepção que foi um pouco assim resultante da sistemática de segurança, tudo acontecendo muito depressa, a técnica militar, a defesa contra a bomba atômica, aquela coisa toda, o radar, e o Brasil avançou muito, avançou e compreendeu que tinha de desenvolver o sistema de telecomunicações e desenvolveu. Justiça seja feita, Telebrás e Embratel trabalharam muito e trabalharam bem, e o Alexandrino trabalhou muito bem também, a ponto de ter se conservado, não foi absorvido. Eles reconheciam o trabalho da Telefônica de Uberlândia. Ele deve ter sofrido muitas pressões porque Governador Valadares tinha a mesma coisa e entregou a companhia. Outros entregaram, e Alexandrino não entregou. Não se rendeu ao sistema de estatização. Ele nunca se rendeu ao sistema estatizante. E o sistema estatizante acabou aderindo à tese dele, que é a privatização. Mas aqui tinha um problema, eles forçavam sempre abrir mais o leque, não ficar empresa só dentro da família, mas isso o Luiz Garcia compreendeu e tem compreendido, e a nova mentalidade da empresa é outra. Essa profunda estatização do sistema aconteceu no mundo todo, foi um fenômeno universal, não um fato isolado. E o mundo empresarial partiu para a economia globalizada, no mundo, e o Estado não estava suportando enfrentar o problema da violência e tinha de cuidar de educação, tinha de cuidar de saúde, tinha de cuidar de transporte, como condições necessárias do dever dele. Como é que ainda ia cuidar de telecomunicações, como ele ia cuidar de energia elétrica? Se pudesse ficar com aquelas que já tinha, seria bom, em matéria de energia elétrica, porque gerava outras riquezas. E ia trazer associadas às que já tinha outras para ampliar, mas nem isso puderam fazer, eles foram vendendo muita coisa. O Alexandrino era uma ilha dentro de um arquipélago. Telecomunicação era encrada como uma questão de segurança nacional. No início, a própria companhia andou sofrendo umas pressões, especialmente a perda de alguma concessões, como Morrinhos. Quantas vezes tive de interferir. Eu lembro que o Luiz teve um problema, aí em Goiânia, que me telefonava às madrugadas, tentando, naturalmente, e o poder estatizante inconformado. Por exemplo, a própria mentalidade, uma empresa mineira, uma empresa de Uberlândia, dominando o Estado de Goiás, essa mentalidade era muito restritiva do poder. Por que uma empresa mineira vai dominar uma empresa goiana e assim por diante, se isso é estatizado, se é do próprio Estado? E a telefônica deve ter enfrentado problemas muito complexos nessa coisa toda, que exigiam diplomacia, clarividência, tirocínio, muita racionalização para o trato diplomático. E com uma circunstância: o setor de telecomunicações era estatizante, mas era também muito dominado pelo setor militar, em razão da segurança. A Embratel estava nas mãos do general Galvão, o Alencastro. Eram todos militares, e tinha-se de conviver com isso, mas houve muita compreensão. Eu era acionado pelo Dr. Luiz e pelo Sr. Alexandrino, quando necessário. Eles também sabiam das minhas ocupações, mas nunca tiveram cerimônia para me procurar, porque sabiam da minha identidade com os interesses superiores da nossa região, do Estado, do interesse público. Era o interesse público. Nesses momentos mais críticos, eu procurava os poderes de decisão, os centros de decisão. E eu estava sempre muito afeito a eles porque tive nas mãos, por destinação funcional, lá na Casa Civil - eu não estava assim como peixe fora dágua - de comprar várias brigas, por delegação do presidente da República, porque ele queria, precisava ser feito: "Eu quero inaugurar a Embratel, eu quero que o papa esteja falando para todo o Brasil e aqui seja visto". E na hora de conseguir o dinheiro, no Ministério da Fazenda: "Você procure aquele coloninho lá". Ele brincava, ele era um homem bem-humorado, às vezes chamava o ministro Delfim Neto de "coloninho", porque ele é descendente de italianos. Dizia: "Eu preciso", porque sabia que o Delfim era muito respeitado por eles, porque ele era um homem de muita imaginação e ágil também na ação administrativa, tinha visão. Ficou provado, ele fez aí uma boa administração nesse país, uma fase em que o Brasil se transformou na oitava economia do mundo, e o PIB foi a 13% ou 14%. Eu era obrigado a usar diplomacia. Algodão entre cristais. Mas isso era da rotina, da dinâmica, o meu dever era esse. Eu estava lá para servir o presidente. Eu lembro que houve um episódio, eu não sei precisar exatamente os lances, em que os policiais militares, o exército, ocuparam a central. Lembro do momento em que o Luiz ligou para mim, e eu disse a ele: "Luiz, me liga daqui a pouco que eu vou ver". E ele dizia para mim: "Não vou ligar, vou ficar na linha esperando o senhor voltar". Ele estava aflito, angustiado. E isso eu tinha de defender. O sistema de telecomunicações é o próprio tecido social do país, isso é o próprio país. E uma empresa como essa é uma tecelã. Está tecendo, está construindo, fazendo o bem e, muitas vezes, aparece gente para colocar areia, para dificultar. São os tropeços da burocracia. Essa visão eu tinha bastante nítida porque ela surgia, lá dentro, a todo o momento. A Embratel, por exemplo, em choque com a Telebrás, em choque com isso, em choque com aquilo. Isso é da índole humana, opiniões diversas sobre determinados pontos de vista, isso é da dinâmica do processo. Telecomunicações Sempre tive o privilégio de participar nos momentos decisivos. Minha avaliação é a seguinte: dentro dessa sistemática, eu encaro isso como sistema, nada individualmente, nada com preocupações, de qualquer vaidade, despido de toda a vaidade, de tudo, é uma realidade. Uberlândia é um ponto chave no contexto do Brasil Central. Se aqui nós fizemos a grande malha rodoviária, a grande central energética com São Simão, com todas essas usinas aqui do rio Grande, Furnas, Volta Grande, Jaguará, Cachoeira dos Índios, São Simão, Cachoeira Dourada, Catalão. Ah É uma escada de usinas, uma concentração, isso aqui é a Mesopotâmia, é o Paranaíba e o rio Grande. Então, vamos usar esse privilégio que Deus nos deu para somar esforços em prol do desenvolvimento, que centraliza, naturalmente, um ponto de irradiação. Falar de Mercosul, hoje, passa tudo por aqui. Minas também é o caminho para o Mercosul. Nossa aliança, próximo a São Paulo, como nós nos associamos bem a São Paulo, a nossa mentalidade também, comercial, em torno da criação do comércio atacadista de Uberlândia, por exemplo, isso não vem por acaso, vem pela energia do homem, pela capacidade criativa do cidadão, e o que não se pode perder é essa energia, esse esforço, essa mentalidade, essa formação, a juventude aí está, exuberante, estamos com essa universidade, essas escolas superiores todas e outras universidades já, dentro da cidade, nós temos de somar todos esses esforços e não perder terreno. O problema é não perder terreno, porque hoje tudo acontece no mundo muito depressa, tudo é muito veloz. Nós temos de ter consciência disso e despersonalizar as coisas. Nós temos de remar juntos, cada um pega o seu remo, e vamos remar, todos numa obra coletiva de desenvolvimento. O que precisa é isso, é termos essa visão, e o Brasil precisa disso também. O nosso Brasil tem as maiores possibilidades. Eu, quando paro um minuto para pensar no problema amazônico, eu quase fico doido de pensar o desafio que está ali. Nesse contexto, as telecomunicações são a defesa daquele patrimônio imenso. O Projeto Sivam não está lá, dando trabalho? Telecomunicação é prioritário. Um país dessa dimensão é o segredo americano, é o segredo do grande êxito americano. O americano se intercomunicou com o mundo com a maior eficiência. O japonês também está advertido para essa realidade. Eu uma certa vez estive no Japão e fui recebido pelo presidente do Keidaren, que era o senhor Toshio Doko, uma das grandes figuras civis do Japão. Ele estava chegando de uma viagem à Europa e ainda me recebeu, naquele fuso horário tão complicado, e eu disse: "Dr. Doko, o senhor não precisava nem ter vindo aqui para esse encontro, eu sei que o senhor está chegando de uma viagem à Europa". Ele me disse: "Briga por nada, briga por nada". E falei: "Briga por que, Sr. Doko?" "Ah, é porque vendemos três milhões de aparelhos de televisores para a Europa, e o Mercado Comum não gostou disso". É a realidade do mundo hoje.

COMUNIDADES
Alexandrino Garcia O Alexandrino, eu o conheci, quando ele me levava para fazer os discursos, para receber as comitivas esportivas, em Uberlândia. O Alexandrino era muito amigo do meu tio, o Juca Ribeiro, que era um dos diretores do Uberlândia Esporte. Ele já pegava o ginasiano Rondon Pacheco, para fazer os discursos, para saudar as comitivas que chegavam. Era amigo fraterno da minha família e meu amigo, desde a minha juventude. Ele veio para a UDN, era um dos financiadores da UDN, aquela coisa toda de cabo eleitoral. Eu me lembro de que o Alexandrino viajava, ia daqui para um sítio rural, a Tenda, arrumar voto para mim. Era muito dedicado, e daí surgiu a nossa amizade. Ele já mantinha relações com toda a minha família - mais abrangente, com meu pai e com meus tios. Ele tinha 10, 12 anos a mais do que eu. Sou mais ou menos da idade do Agenor. Ele era um homem polido, um gentleman, às vezes com o estopim um pouquinho curto, um pouco impaciente, queria fazer as coisas depressa, mas um homem educado, polido, trajava-se bem, era um self made man, é o que ele era. Comecei a travar relações mais institucionais com ele antes de ele estar na Associação Comercial. Ele era muito participante da vida esportiva, do esporte. E depois, na vida partidária, na militância dele como empresário. Ele cuidava muito das empresas dele, mas não era indiferente à vida política e ajudava muito o diretório. E lá na Associação Comercial também. Meu pai era um dos diretores da Associação Comercial, na época, e a presença dele era notada lá na Associação Comercial. Eu, quando estudante, universitário, Uberlândia em peso, correligionários e adversários, todos me mandavam serviço para Belo Horizonte. Serviços dos interesses do Tubal Vilela da Silva, que era do partido adversário, e eu era o procurador dele em Belo Horizonte, assim como era o procurador do Alexandrino, porque sabiam que podiam confiar. Eu trabalhava na Junta Comercial do Estado, estava com a mão na massa, e eu fazia aquilo sem maior interesse, e eles me remuneravam alguma vez, simbolicamente. Aquilo era para aprender mesmo, era para trabalhar aprendendo, na lida do dia-a-dia, lutando e pelejando, como dizia Camões, nos "Lusíadas". Educação pelo trabalho. O Sr. Alexandrino enxergava esse contexto todo, todas essas gestões, com muito realismo e muita combatividade. Ele era um empresário. Eu saía para fazer minha campanha eleitoral, no Triângulo, e encontrava o Alexandrino estendendo linhas telefônicas, ele, pessoalmente, com os empregados, vigiando a instalação dos postes de ferro, aqui, no Triângulo. Um lutador, um executivo, ele era um executivo. Esse depoimento eu dou, naturalmente, porque eu assisti, eu vi. Se, depois de todos esses anos, hipoteticamente, eu pudesse encontrar o Sr. Alexandrino, eu diria: "Alexandrino, você certamente está fazendo a sua última linha telefônica, aí no céu. Converse com a gente" Tito Teixeira Lembro-me dele demais. O Tito era filho de um pai que marcou a presença na vida empresarial e comercial de Uberlândia, porque o pai dele era o chefe de uma das casas mais tradicionais daqui, na época: Teixeira e Costa, ali na praça da prefeitura. E com uma irmandade muito grande: Tito, Fernando Terra, Arlindo Teixeira, as moças muito bem casadas, as filhas do velho Arlindo, muito bem casadas também. O Tito não participava da empresa lá, mas criou uma empresa à parte, que era a telefônica. O Tito era um homem muito expansivo, eu me lembro do Tito como amador na aviação, fez parte da campanha aviatória do Assis Chateaubriand, pilotando avião, como meu irmão também, o Badu, pilotando esses "Paulistinhas". O Tito vivia pilotando avião nos aeroclubes.

LOCALIDADES
Uberlândia A rua ainda não era calçada, era poeira mesmo. A Avenida João Pinheiro, até um pouco úmida. Eu me lembro bem de que, quando chovia, tinha seus problemas de inundação. Era uma rua puramente familiar, as principais famílias de Uberlândia residiam naquela rua, com um nome muito tradicional: Avenida João Pinheiro, um ex-governador do Estado, que emprestava e empresta até hoje o nome à avenida. Uberlândia sempre foi uma cidade que concentrava um número muito grande de caminhões - o papel do motorista de caminhão influiu muito no destino dessa cidade. Então, era preciso ter muito cuidado com o trânsito automotivo. A cidade de Uberlândia, por paradoxal que pareça, era muito diversificada. Tínhamos o carro de boi, que vinha e se instalava na Praça dos Carneiros e na Praça do Rosário, mas, ali, traduzia-se uma grande pujança, porque era o carro das grandes distâncias, era o carro de penetração, era o carro que estava ampliando nossas fronteiras e conquistando o sudoeste goiano. É esta via do sudoeste goiano, via pioneira, que demanda hoje a Goiânia, Santa Rita do Paranaíba, hoje Itumbiara e, depois, Santa Vitória, lá no extremo da ponta do nariz do Triângulo, Ituiutaba, que era Vila Platina e, depois, passou a Ituiutaba e os pequenos núcleos: Capinópolis, Canápolis, Ipiaçu e, mais próxima daqui, a cidade de Tupaciguara. E as três "gemas" tradicionais do Triângulo, que, por ordem de idade mesmo, são Uberaba, Araguari e Uberlândia. São as três "gemas". Cidades preciosas, de boa formação cultural e de densidade política, densidade cívica. Aprendemos muito com essas três populações, e também com Tupaciguara, com Ituiutaba, mas já eram núcleos mais recentes. Meu pai morava na Praça Coronel Carneiro, que é hoje a Praça do Colégio das freiras. Era uma distância considerável naquele tempo, eu vinha a pé, subia a Rua Tiradentes, que está lá até hoje, entrava ali na praça da Prefeitura, pegava a Avenida Afonso Pena e vinha até a Praça Tubal Vilela, que, naquele tempo, era Praça da República - tinha um nome muito pomposo, Praça da República. E lá ficava o Grupo Bueno Brandão. Nessa Praça, também era a sede do fórum da cidade. O próprio governo, quando criou a Fundação Brasil Central, sabe onde escolheu a sede da Fundação? Na cidade de Uberlândia. Sabe quem foi o primeiro presidente da Fundação Brasil Central? O João Alberto. Foi homem dileto do Getúlio, foi inclusive interventor em São Paulo. O capitão João Alberto foi o primeiro presidente da fundação. E a Fundação Brasil Central tinha sede aqui em Uberlândia. E por quê? Não era por acaso, não. Sabe por quê? Porque naquele tempo, que foi mais ou menos em 1936, 37, 38, Uberlândia já era o principal município brasileiro e sul-americano vendedor de gasolina em caixa. Gasolina com duas latas de 20 litros. Por que isto? Para os grandes percursos. Não tinha bomba de gasolina, não. Então, vendia-se gasolina em caixa, com 2 latas de 20 litros, para os grandes percursos. Os caminhões saíam daqui, demandavam para Goiás, para Mato Grosso, conquistando as novas fronteiras. Daí, a vocação do nosso comendador, do Alexandrino, que absorveu tudo isso, porque ele foi um dos vendedores da gasolina. O começo dele foi com as bombas de gasolina, com as máquinas de arroz, com a representação da Chevrolet, das companhias de automóveis. Esse foi o começo do Alexandrino. Mas ele enxergou mais longe, foi para o setor de telecomunicações, de avanço tecnológico. Ele percebeu que, adquirindo a Teixeirinha, ia ter na mão um grande instrumento de expansão e de comunicação. Eu me lembro e tenho muita saudade da figura do "cometa". Sabe o que é o "cometa"? Pois aprenda É o viajante comercial. E o viajante exerceu uma grande influência, nesta área do Triângulo, onde nós vivemos, porque ele é quem chegava com a notícia, porque o jornal demorava 15, 20 dias para chegar. O Estado de S. Paulo, o Diário de São Paulo eram as fontes de informação, mas, antes, existia o "cometa", que chegava e trazia a notícia quente. Não existia o rádio. O rádio surgiu em 1929, 1930, e, raramente, um ou outro tinha um aparelho. Eu me lembro de muitos "cometas". Um muito simpático, cunhado de minha mãe, um tio, tio Ladario Cardoso, irmão do Hélvio Cardoso, um dos fundadores da telefônica, junto com o Alexandrino. Eles já se deslocavam por ônibus, caminhões e automóveis, mas eu me lembro de advogados chegando a cavalo, porque as comarcas eram muito esparsas. Então, os municípios do interior eram subordinados à comarca. Em me lembro de advogados chegando a cavalo, porque havia as audiências marcadas, o dia de um júri, por exemplo. Muitas vezes, o Fórum era bem freqüentado por cavalos, que estacionavam, os das testemunhas e até os dos advogados. E eram homens de muito valor intelectual Nós temos aqui um Abelardo Pena, que empresta seu nome ao Fórum da cidade, que saía daqui e ia para Monte Alegre a cavalo. Um Dr. Jacy de Assis, mais recente, mas homem do maior valor intelectual, processualista. Um Sérgio Marquez, um Dr. João Edson de Mello, e, mais recentemente, um Regis Simão, que é muito brilhante, grande advogado da cidade. Quando podia, eu vinha de Belo Horizonte a Uberlândia. Sabe como? Às vezes, demorava três dias, porque saíamos na Rede Mineira de Viação, e eram 24 horas de Belo Horizonte a Uberaba. Tinha de dormir. Isso quando o trem não descarrilava, porque, às vezes, quando descarrilava - o que era muito comum -, demorava mais tempo. Dormia em Uberaba, depois, pegava a Mogiana - eu vinha na Rede Mineira e, no outro dia, pegava a Mogiana. O trem passava à 1:00 da tarde e chegava em Uberlândia às 6:00 da tarde. Mas era muito gostoso, eu tinha muito colega que viajava de segunda classe. Meu pai, com todo o sacrifício, fazia eu viajar na primeira classe do trem. Eu chegava com o guarda-pó todo queimado, porque era só fagulha. Viajava de guarda pó por causa do carvão da Maria Fumaça. As refeições eram feitas no trem, no carro restaurante. Praia Clube O garoto Rondon foi um dos pioneiros do Praia Clube de Uberlândia. Eu me lembro de pessoas muito responsáveis, cidadãos ilustres da nossa terra, como Cícero Macedo de Oliveira, José Guimarães e José Quércia. Esses eram os mais responsáveis: Joaquim Carneiro, Hermes Carneiro, o tio. Íamos para o Praia Clube e, lá, todas as tardes, nadávamos, e aquilo foi formando aquela sociedade esportiva. Os homens da minha geração, como José Rezende Ribeiro, o Juquita, na presidência do Praia, com José Guimarães, com José Quércia, com Cícero Macedo, com Bolivar Ribeiro Marquez e tantos outros foram construindo os primeiros trampolins, as primeiras pistas de corrida, o barracão de sapé que nos abrigava contra o sol, e hoje é esse primor que aí está, o Praia Clube de Uberlândia. Tupaciguara Tupaciguara quer dizer "Terra da Mãe de Deus", em língua indígena. Antes, era Abadia do Bom Sucesso. Meu pai se transferiu para lá. Tinha um sócio, que era um primo, Orlando Marques da Silva. Naquele tempo, em uma casa comercial, o estilo de vendas não era venda "a dinheiro", era venda a prazo, porque todos os consumidores viviam da lavoura. E, naquele tempo, surgiam, episodicamente, os primeiros automóveis, dos quais o meu pai, eu me lembro, foi um dos primeiros proprietários - tinha o seu carro, o seu Fordinho. E a grande clientela comercial era da zona rural. Então, aquilo era vendido com prazo de três, quatro meses, em razão do ciclo da lavoura. O sujeito que comprava tinha, primeiro, de colher, para, depois, pagar. Mas era o sistema. Belo Horizonte A ida para Belo Horizonte exerceu a mais profunda influência na minha vida, porque Belo Horizonte era uma cidade jovem. Naquele tempo, era uma cidade mais nova do que Brasília é hoje. Uma cidade de 40 anos de idade, uma cidade artificial, para onde tinha ido um caldeamento das cidades mineiras, em torno da universidade. Cidade de 100 a 140 mil habitantes. Adorei Belo Horizonte. Primeiro, o clima, depois, a bondade do povo, o acolhimento, o ambiente escolar, universitário, os colegas, a formação eclética, colegas de todas as cidades do interior de Minas. Aquela juventude exuberante. Fui para Belo Horizonte estudar e fui morar numa pensão de estudantes. Era ali na Savassi, em pleno coração da Savassi, naquela praça, no Abrigo Pernambuco. Morei ali na pensão da Dona Clara, senhora de Durval Gomes - e adorei -, no fundo do palácio; é só descer a Cristóvão Colombo ali, a 200 metros do Palácio ali. Eu mal sabia que eu, um menino estudando na Escola de Direito, tentando entrar na Escola de Direito, fazendo o pré-jurídico, fosse, um dia, freqüentar o Palácio como governador. Assim é a vida, não é? Nesse tempo, em Belo Horizonte, eu me comunicava com a minha família só por carta, porque o telefone era um drama. Você, para falar ao telefone, tinha de ficar seis horas na telefônica, numa fila, tentando falar. E aqui, a pessoa, em casa, não falava no interurbano. Tinha de ir esperar o chamado na telefônica. Eu falava de lá da telefônica de Belo Horizonte, na Avenida Afonso Pena, para a telefônica daqui. Este país era mudo Este país não tinha telefones. A conquista telefônica é muito recente no Brasil, quem fez isso foi a Revolução de 64. Foi quem instalou o sistema de telecomunicações no país e criou o primeiro Ministério das Comunicações. É preciso reconhecer por quem foi feito e quem o fez. Vimos a fotografia do Quandt de Oliveira, aí, agora mesmo.

MEMÓRIA
Revoluções de 30 e 32 A Revolução de 32, a Revolução Constitucionalista, durou muito tempo, mais de quatro meses. E Uberlândia cercada, porque a Revolução era em São Paulo, mas a ponte do Delta, aqui, era uma porta de entrada. Então, o governo federal concentrou grandes forças no Triângulo Mineiro. Mas o Brasil era uma terra de revoluções, porque nós crescemos ouvindo falar em revolução. Veja: a Revolução dos 18 do Forte, em 1922, depois a Revolução, que houve o bombardeio da cidade de São Paulo, em 1924, depois, veio a Revolução de 30, que é a de Getúlio, mas iniciada em Minas, conspirada em Minas, partiu de Minas. O chefe era o Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, que era o grande líder da Revolução, com a sua frase notável, uma frase primorosa: "Façamos a revolução, antes que o povo a faça". Era a frase dele, o lema da Revolução. Primorosa: "Façamos a Revolução, antes que o povo a faça". Por quê? Porque já tinha sido sacrificado o Rui Barbosa, com voto de pena, a "ata falsa", e ele criou o voto secreto, na Revolução de 30. Foi quando começamos com o voto secreto, é muito recente, é de 30 Mas Uberlândia também foi Quartel General da Revolução de 30, porque tínhamos de invadir Goiás, que era das forças federais, e o governador de Goiás, que fez Goiânia, Pedro Ludovico, saiu de Uberlândia para invadir Goiás, e invadiu por Paracatu. E eu me lembro, menino, com 11 anos de idade, que fui assistir com o meu pai à entrada das forças da Aliança Liberal, que eram as forças revolucionárias, na cidade de Santa Rita do Parnaíba, que é hoje Itumbiara. E os mineiros que lá moravam tinham sido quase todos presos, como revolucionários, inclusive o meu primo, figura muito querida, Alcides Cotta Pacheco, irmão do Dr. Rui Cotta Pacheco, que morava lá em Santa Rita do Parnaíba. Eu me lembro de todas essas reminiscências, já "falando" assim, dentro de mim, essa vocação política irresistível, que aflorou na minha juventude e me fez deputado a vida toda, ministro de Estado e governador. Eu falei que o Brasil era um país de revoluções. Realmente. Porque os revolucionários brasileiros exerceram uma profunda influência na política brasileira. O brigadeiro Eduardo Gomes foi um dos 18 do Forte. Veio a ser candidato à presidência da República. O Juarez Távora, um dos líderes da Revolução de 30, foi o príncipe do Norte, tomou todo o Norte para o Getúlio, veio a ser candidato à presidência da República, derrotado por Juscelino Kubitcheck. E nisso estamos falando dos revolucionários de 30. Em 32, a Revolução Constitucionalista de São Paulo. Os paulistas desconfiaram que o Getúlio queria continuar, perpetuar-se no poder, e fizeram a Revolução Constitucionalista, em São Paulo, esta que durou de quatro a cinco meses. Foi uma Revolução que sacrificou muita gente, morreu muita gente nos combates. E, depois de 32, outros incidentes revolucionários surgiram no país, em 35, a Revolução Comunista, e, depois, veio, em 38, a Revolução Integralista, o golpe de Estado dos Integralistas. Depois, aí, já havia o rádio, para nós que tínhamos nascido sob o troar dos canhões, em 1919, quando terminava a Primeira Guerra Mundial. Em 39, começou a Segunda, mas, antes de 39, já tinha havido a Guerra da Abissínia, a Itália já tinha ocupado a Abissínia, e, depois, o nazi-fascismo deu força à Espanha e derrubou o governo republicano espanhol. Então, a minha geração é uma geração que sofreu todas essas influências. Coluna Prestes Chegou muita notícia da Coluna Prestes. Na revolução de 1924, eu tinha cinco anos e me lembro dos provisórios gaúchos, centenas de provisórios gaúchos a cavalo, passando por Uberlândia. Os provisórios, as forças gaúchas, e a Coluna Prestes anunciando: "Pode aparecer aí a Coluna". Era a Coluna, mas o Prestes saiu do Rio Grande, entrou em Goiás e foi para o Norte. E depois sumiu. Em 30, era esperado o apoio do Prestes ao Getúlio, e ele recusou o apoio. Chegou a negociar com o Getúlio, segundo dizem, mas aí ele tinha se exilado na Bolívia e já tinha adquirido a formação marxista, a filosofia marxista e foi para a Rússia. Quanta gente aqui conheceu gente da Coluna... E Uberlândia, então, sofreu também muita influência dessas andanças da Coluna pelo interior do país, porque aqui estavam os pioneiros construtivos do país. Futuro Quando olho para a CTBC hoje, eu me lembro do Alexandrino, vejo o esforço do Luiz, vejo toda essa plêiade de funcionários que militam aqui hoje, vejo o esforço que fez o Mário Grossi, quando por aqui passou. Convivi com todos eles, e fico muito feliz ao ver que a CTBC está na cadência da marcha para o progresso, que aflora em Uberlândia, em São Paulo, que está aflorando nos órgãos mais responsáveis desse país. Foi o que eu procurei realizar em Minas, quando governador. Fui a Turim, trouxe a Fiat - que hoje é das principais exportadoras do país -, para gerar empregos, porque eu não me conformava de Minas ficar exportando minério e chapas, para, depois, importá-las em automóveis e geladeiras. Hoje, criamos a nossa indústria aqui. O que é preciso é isso: é o trabalho construtivo, e essa equipe comandada pelo Alexandrino, hoje pelo Luiz, alcançou esses objetivos. É preciso não perder o ímpeto, porque ele é constante, ele é permanente, não se pode atrasar no tempo e no espaço. E esse trabalho é permanente, porque o avanço da técnica é muito grande, o avanço tecnológico, hoje, é muito veloz. Mas eles têm consciência disso, e essa juventude que está aí está muito preparada. Hoje eu vejo a informática, na própria família, tenho um neto que morou um ano e meio em Londres, trabalhando lá, e, hoje, está num outro setor aqui no Brasil, com a Net, só fala em internet. Tenho exemplo na própria família. O problema é veloz, é presente e não se pode perder tempo. E temos de cuidar da juventude - porque esse problema de emprego é muito sério -, colocar esses moços e preparar o elemento humano, as relações humanas, o preparo humano, a pessoa humana, isso é importantíssimo, isso é o principal. Centro de Memória Eu me sinto muito feliz em ter dado este depoimento. Foi muito oportuno, e virei dar outros. Nós estamos apenas começando. E fiquei muito satisfeito com o seu humor, a sua capacidade de comunicação, a sua delicadeza, da sua companheira de trabalho, e de todos porque, realmente, o que nós precisamos é desse clima, o clima de compreensão.

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