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História

Ronaldo José Neves de Carvalho

História de: Ronaldo José Neves de Carvalho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/05/2004

História completa



Identificação
Museu da Pessoa - Boa tarde, Ronaldo Ronaldo - Boa tarde. M

P - Eu gostaria que você dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento. Ronaldo - É Ronaldo José Neves de Carvalho. Nascido em São Paulo a 22 de Maio de 44.

Pais e avós
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P - Eu queria que você falasse qual é o nome dos seus pais e de seus avós. Ronaldo - O meu pai é Thomaz de Carvalho. É farmacêutico formado em 32. Minha mãe é Eunice Carolina Neves de Carvalho. Também farmacêutica formada no mesmo ano. M

P - E eles nasceram aonde, Ronaldo? Ronaldo - Os dois são do interior de São Paulo. A minha mãe é da cidade de Rio Claro. Os avós dela, os pais dela também são da região de Rio Claro. O meu pai, o meu avô por parte de pai ele veio de Minas Gerais, veio do sul de Minas. M

P - De que região? Ronaldo - A cidade eu não lembro o nome. Eu sei que era sul de Minas. Vou tentar encontrar alguma coisa a mais ainda... M

P - Quais eram as atividades de seus avós? Ronaldo - É... Os dois eram fazendeiros, tanto da parte de pai, de...O meu avô por parte de pai e também por parte de mãe, os dois eram fazendeiros. E depois, no caso, as famílias eram muito grandes na época, então você já tinha a verdadeira reforma agrária. Um tinha dez filhos, o outro 15. O que tinha dez tinha mais dez filhos. Então, quando chegava na segunda geração você já tinha de dividir a terra por 40, 50 e cada um ficaria com um pedaço menor de terra e por conta disso você tinha que ir para outra atividade e foi o que eles fizeram. O meu pai teve a infelicidade dos pais dele morrerem muito cedo. Morreram... O meu pai é de 4, morreram mais ou menos em 16 numa gripe espanhola que dizimou acho que 14 ou 15 % da população brasileira. Foi realmente uma gripe muito forte que teve no mundo inteiro e no Brasil em particular. Então, os irmãos foram divididos. Cada um foi para um tio. Porque eles eram em nove então, não teria ninguém que pudesse cuidar disso e cada um foi para um lado. No caso da minha mãe, não. Ela pode chegar até a faculdade ainda com os pais, só depois que ela veio para São Paulo para fazer faculdade de farmácia.

Lembranças do pai e da mãe
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P - E seu pai foi morar com que tio? Ele foi morar na mesma região? Ronaldo - Não, ele veio aqui para São Paulo. Ele veio para São Paulo e veio trabalhar numa farmácia. Ele tinha acho que 14 anos quando ele começou a trabalhar numa farmácia como auxiliar. Fazia tudo: limpava, lavava vidro, porque as farmácias na época, eram farmácias de manipulação. Você tinha pouca mercadoria industrializada. M

P - E, quais eram as atividades dos seus pais? O seu pai veio aos 14 anos para São Paulo, ele estava estudando? Ronaldo - Na verdade era feito o curso primário e depois veio trabalhar em farmácia. Ele só fez depois um curso, um supletivo para poder fazer a faculdade. Isso... Ele entrou na faculdade quando ele tinha 23 anos. Então, ele só tinha o... E no caso da minha mãe, não. Minha mãe fez o ginasial e depois veio para São Paulo para fazer faculdade. E no caso especificamente dela, ela, quando estava na faculdade em 1932, ela tinha carro. Coisa que era muito difícil, primeiro, uma mulher fazer faculdade que era um número menor e segundo, mulher que tinha carro era menos ainda. M

P - Ela era filha única ou tinha outros irmãos? Ronaldo - Não, eles eram três irmãos. A irmã dela fez faculdade de farmácia também. O irmão dela era técnico de café na região de Rio Claro. M

P - E quando ela veio para São Paulo, os pais também vieram? Ronaldo - É, a minha, a mãe dela, a minha avó. O pai já era falecido. M

P - E o que eles fizeram com a atividade que eles tinham com a fazenda, já tinham vendido? Ronaldo - Eles venderam a fazenda. Quando a minha mãe veio para São Paulo venderam a fazenda, aquela parte que ficou com ela, que foi como eu falei, eles foram dividindo, dividindo, dividindo... No fim, vamos dizer, o meu bisavô provavelmente era uma pessoa muito rica, o avô mais ou menos, minha mãe tinha alguma coisa até que tinha carro em 1932 e depois foram, foram perdendo dinheiro, na verdade ao longo do tempo. M

P - O seu pai veio para São Paulo, você falou que ele começou a trabalhar aos 14 anos de idade e morava com um tio. Esse tio tinha que tipo de atividade? Ronaldo - Ele era ferroviário. Ferroviário, não sei se era, conduzia ou trabalhava na ferrovia. Eu sei que era na Araraquarense que ele trabalhava.

Pais
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P - Como é que você poderia descrever o seu pai e a sua mãe, Ronaldo? Eu queria que você falasse um pouco sobre eles. Ronaldo - Eu diria que primeiro são pessoas muito sérias, foram pessoas muito sérias. A grande preocupação deles era você não prejudicar o outro. Essa que era a grande educação e que às vezes incomodava um pouco, quando a gente era muito jovem aí quando tinha 12, 14 anos ela não queria que em hipótese alguma a gente namorasse alguém de perto da família, uma prima, uma vizinha porque aí poderia brigar com ela por algum motivo qualquer e isso ficaria ruim porque, então, até isso ela se preocupava, só para não prejudicar a amiga, ou a prima, ou um parente, e sempre dentro da filosofia de trabalho, embora minha mãe parou de trabalhar logo que casou, mas trabalhou até essa época e meu pai trabalhou a vida inteira, então, o que a gente pensava realmente é que você, na parte de trabalho, você consegue as coisas, então a primeira coisa que tem que ser, é ser sério. Depois, é ter capacidade e coisa. Mas a seriedade, a honestidade é o mínimo que você tem que ter. Isso foi o que eles transmitiam demais, esses valores. M

P - E, como os dois se conheceram? Ronaldo - É, eles tinham feito a faculdade juntos. Minha mãe sabia que ele tinha feito, mas não era da turma dela, porque a turma dela era o pessoal mais jovem, o pessoal que se divertia um pouco mais na faculdade e o meu pai não podia fazer isso porque ele tinha o negócio dele, tinha a farmácia que ele tinha que cuidar. Então, ele terminava a faculdade e ia para lá. E aí, alguns anos depois de formado, eles se formaram em 32, foi acho que mais ou menos em 39, o meu pai estava com, vendendo também, a indústria farmacêutica estava se instalando no Brasil, a fabricação de produtos e tinha então os revendedores. Então, o meu pai tinha a farmácia, mas além de ter a farmácia, ele era representante de uma empresa. Ele vendia produtos para farmácia. E foi aí que ele visitou a farmácia da minha mãe que era na Amaral Gurgel, não me lembro, acho que era Amaral Gurgel com Major Sertório, se não me engano, a farmácia dela. E aí ele foi visitar e elas o reconheceram. Ele não a reconheceu, na verdade. Ele foi visitá-la como representante comercial e não reconheceu que elas tinham sido colegas dele. Elas o reconheceram, como toda mulher de certo modo (riso). A mulher (riso), a mulher guarda mais a figura dos homens, principalmente quando eles são mais velhos. Quando eles são, quando está da mesma idade, guarda menos. Mas quando é mais velho, guarda, guarda muito. E aí sabia e conversaram, acabaram lembrando, aquele negócio, e acabaram começando a ter contato, namorando e casando. M

P - Você tem irmãos, Ronaldo? Ronaldo - Eu tenho um irmão mais velho. Nós dois fizemos o Liceu Pasteur. O Pasteur desde o pré-primário até o colegial. E aí entra um negócio que eu estava falando do porquê você lembrar do mais velho. O apartamento que eu moro hoje, eu comprei da Rita Lee. E sabia quem era a Rita Lee, mas não tinha idéia de onde viesse a Rita Lee. Quando eu vou ao primeiro contato com ela depois do corretor, ela chega para mim: "Ronaldo." Você está louca. Eu que tenho que conhecer a Rita Lee, a Rita Lee não tem a obrigação de me conhecer, embora eu seja alguma coisa pública, mas não a ponto de um artista me conhecer. Ela me conhecia porque ela tem cinco anos menos do que eu, ela está com 53 anos hoje, inclusive o pessoal do Jornal da Tarde, jornal não, Caderno 2 errou, disse que ela é sexagenária e não é. Ela tem 53 anos e ela fez o Pasteur. Então ela era uma inglesinha, ou uma americaninha sardenta, magrela, que olhava a turma mais velha que jogava basquete, fazia esporte. Então ela sabia, sabia tudo da minha vida, do meu irmão, conhecia tudo. Então, por isso que eu estou colocando, as mulheres olham os rapazes mais velhos.

Casa da infância
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P - Quando os seus pais se casaram, eles foram morar aonde? Ronaldo - Morar na Aclimação. Foi o primeiro lugar. Depois da Aclimação foram para o Jabaquara, para George Corbisier. O Jabaquara, na época não tinha nada. Eram praticamente chácaras que existiam lá. A gente morava numa casa de 2.000m de terreno e era um loteamento muito bom, era um miolo lá que tinha 40 ou 50 casas de bom nível. Na frente da minha casa eu enxergava o Aeroporto de Congonhas. Tinha então aí quase que uma fazenda. Devia ter alguns alqueires até chegar lá, e era uma propriedade só. Então você andava pelo meio do mato, e eu quando tinha 10, 11 anos eu ia andar, eu e a turma de lá íamos andar de bicicleta na pista do Aeroporto de Congonhas, porque tinha muito pouco avião na época e quem tomava conta, a polícia militar, fazia um policiamento a cavalo e aí a molecada entrava de bicicleta, que era uma beleza aqueles 3.000m para você andar, de concreto e de vez em quando você via um cavaleiro sair lá dum canto e a molecada correndo com a bicicleta e o coitado do cavalo atrás e aí você descia aquele morro lá que continua, a saída do aeroporto e descia de qualquer jeito para fugir deles e depois de dois dias voltava de novo. Qualquer moleque sempre faz bobagem. M

P - E, foi nessa casa do Jabaquara que você nasceu? Ronaldo - Não, eu nasci na Aclimação. Fui para o Jabaquara com dois anos, fiquei até os 14 e aí já estudava no Liceu Pasteur e então, a idéia dos meus pais foi pegar uma casa na Vila Mariana que fosse perto do Liceu Pasteur, que a gente pudesse ir à pé para o colégio. Aí morei na Rua Vieira Fazenda até os 20 anos, 21 anos. Aí, já na faculdade.

Brincadeiras da infância
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P - Vamos voltar um pouquinho para casa no Jabaquara. Você descreveu uma cena muito legal. Como era o cotidiano nessa casa? Fora às brincadeiras, como era a relação da família..... Ronaldo - A casa era interessante porque ela estava relativamente perto, fazia frente para duas ruas: a Avenida George Corbisier e a detrás que eu não estou lembrando o nome agora. Então você tinha tudo quanto é árvore lá dentro: você tinha jabuticabeira, bananeira, macieira. Jabuticabeira, acho que tinha umas oito jabuticabeiras. Então você subia na época que dá, que eu não me lembro mais quando é a época da florada. Você subia nos pés, comia jabuticaba no pé. Tinha galinheiro, tinha pato, tinha um laguinho para patos, então, quando a gente era criança gostava muito de ver a pata com aqueles patinhos indo atrás e naquele laguinho que foi feito para eles nadarem, é uma fase muito boa desse lado. E tinha essa fazenda, em frente praticamente, onde era uma mata, onde um cara cuidava, onde você ia lá subia em árvore, segurar em cipó. E não tinha risco, porque não tinha gente lá, não tinha risco. Então você saía, fazia brincadeira da rua, saía de bicicleta, andava cinco km lá sem se preocupar com nada. E sempre tivemos cachorros lá também. M

P - Certo. Vocês tinham cachorros também? Ronaldo - É, sempre cachorros de raça não identificada. Enfim eram sempre vira-latas que estavam lá. Normalmente tinham dois ou três cachorros no terreno. M

P - E quais eram as brincadeiras preferidas dos moleques, dos meninos de época? Ronaldo - Uma parte era essa. Era subir, andar, segurar no cipó, pular com cipó, andar de bicicleta. Empinar pipa foi uma coisa que eu nunca aprendi. Eu não sei até hoje como é que o pessoal faz. Não pude ensinar para os meus filhos porque não sei como é que empina. Achava uma coisa extraordinária como é que o pessoal chega lá e depois de dois ou três puxões faz com que a pipa levante vôo. Eu não consegui na época, quando tinha 10, 12 anos. Não consegui aprender e não vai ser agora? M

P - Como era a relação com seus pais? Seus pais trabalhavam? Sua mãe ficava em casa? Ronaldo - É, minha mãe ficava em casa, eu tinha a minha avó, morava em casa conosco e ela tinha um irmão que morava também em casa, que era aposentado. E meu pai trabalhava de segunda a sábado. Saía de casa cedo, voltava à noite, não tinha.... M

P - Você tem alguma lembrança que te marcou muito dessa época? Ronaldo - Não, uma parte é que... Disso eu fiz com meus filhos também, ele sempre teve arma em casa e sempre ensinou os filhos a usar arma, quer dizer, não adianta esconder a arma. Ou você tem arma, ou não tem arma. Se você acha que deve ter arma para se proteger ou por algum motivo dessa ordem, você tem que ensinar para a criança desde a época em que ela tenha condição de pegar a arma, a atirar e ver o estrago que faz. Então, a gente atirava no quintal. Então colocava alvo, atirava, que tinha 22, tinha 38 e você via o estrago que fazia na madeira aquilo, para você saber que se você for brincar um dia com isso, você vai estragar alguma coisa, então saber usar e saber respeitar a arma. E com os meus filhos... Eu tenho casa em Campos do Jordão e quando eles também tinham oito, nove anos eles começaram a aprender a atirar. E atiraram durante muito tempo. Hoje, ninguém atira mais. Mas se passou muito tempo da vida atirando e eu acho que com isso aí você aprende a atirar.

Primeira escola
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P - Vocês acabaram saindo dessa casa da região da Vila Mariana por terem... Ronaldo - Não, do Jababaquara. A gente saiu para ter uma casa na Vila Mariana para ser perto do Liceu Pasteur. Para que a gente pudesse ir a pé para o colégio. M

P - E vocês entraram no Liceu Pasteur desde o primeiro ano? Ronaldo - Desde o primeiro ano exatamente. Todos nós fizemos desde o primeiro ano até o colegial. O meu irmão, especificamente, saiu do colegial e foi direto para a faculdade, para Politécnica. Não fez cursinho, e eu fiz cursinho no último ano. Quando fiz o terceiro colegial, fiz o Anglo Latino junto com o terceiro colegial e entrei também direto. M

P - Como era essa casa em que vocês mudaram na Vila Mariana? Como era o espaço? Ronaldo - Era uma casa também... Era uma rua, essa Rua Vieira Fazenda é muito pequena, é uma rua que deve ter uns 150 metros só. Ela sai da Rua Dona Júlia e faz um ângulo reto e cai na Rua Vergueiro. Então é quase que fosse uma vila. Então, ela não tem trânsito, ninguém passa lá porque quem passar vai cair na outra e cai na Dona Júlia de novo. Então é uma rua muito estreita também, tinha uma casa de terreno bom, uns 600 metros quadrados, então era um bom terreno, a casa era muito boa. M

P - A turma que você brincava era a turma da escola? Ronaldo - Era o pessoal da escola. Não é que tinha um grupo, não. Que infelizmente a gente foi perdendo, quer dizer, no meu caso porque eu fui fazer a faculdade fora. Na verdade, no começo eu queria ir para Ouro Preto. Quando eu tinha uns 15, 16 anos eu queria fazer Faculdade de Geologia em Ouro Preto, talvez influenciado por causa de filmes, coisa assim, então. E outro ponto acho que eu queria sair de casa. Não sei o que era mais forte. Eu acabei indo para o ITA. E o ITA é em São José dos Campos, de qualquer modo eu acabei saindo de casa. E o fato de você sair de casa, o ITA tinha aula de segunda a sábado. Você perdia o contato com o pessoal de São Paulo e fui perdendo aqueles amigos que eu tive de colégio, acabei ficando sem nenhum. Acabei ficando com amigos da faculdade.

Colégio Liceu Pasteur
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P - Vamos voltar um pouquinho nessa sua lembrança na entrada do Liceu Pasteur. O que mais te marcou na entrada desse colégio? Tem alguma lembrança muito forte? Você se lembra da primeira professora? Ronaldo - Lembro. Infelizmente eu não lembro dos nomes. Isso me incomoda um pouco também. Eu devia ter forçado a algum tempo atrás, ter procurado um pouco mais o nome para ter essa lembrança. Infelizmente eu lembro muito bem da figura das pessoas e não lembro os nomes. É uma falha que eu tive de não ter registrado, não ter escrito e também o colégio. Eu passei acho que 20 e poucos anos sem voltar ao colégio, depois só quando faleceu há uns cinco anos atrás um professor de física, que a gente tinha uma simpatia muito grande, a missa dele de sétimo dia foi no Liceu Pasteur, aí foi quando eu voltei ao Liceu Pasteur. Eu nunca mais tinha voltado ao colégio. M

P - Você teve formação religiosa, Ronaldo? De que tipo? Ronaldo - Eu fiz a primeira comunhão. Aliás, vou até fazer os meus 50 anos de primeira comunhão agora em outubro. Porque eu durante uma época, o começo, até os 14 anos mais ou menos eu freqüentava a missa. Meus pais freqüentavam e eu freqüentava também, acreditava, fazia promessas. Eu até os 17 ainda fiz promessa. De entrar na faculdade, se fizesse isso, eu andava sei lá eu, 10 km de igreja tal a tal e fazia isso. Mas fui largando aos poucos a religião e fiquei muito tempo... Eu dizia que era ateu e a minha mãe sempre dizia que não, que isso era uma grande mentira, que eu fazia isso só para incomodá-la, aquela coisa. Um negócio que é muito difícil você discutir com os pais, esse problema de religião. E eu só voltei a acreditar em Deus mais ou menos há alguns anos numa missa de sétimo dia também, da minha tia, porque o meu pai tinha um irmão que ficou na Vila Maria. Ele teve farmácia na Vila Maria. E aí, esse tio, esse irmão dele comprou a farmácia que era dele e casou com uma senhora da Vila Maria e ele faleceu há mais tempo, depois essa tia faleceu há uns seis, sete anos atrás, e no dia da missa dela eu senti vontade de rezar. Não sabia porque. Todo mundo rezando e eu disse vou rezar para que? Não rezo, não sou mais católico. E naquela noite o meu filho estava perdido numa caverna. Ele entrou com um amigo, porque ele fazia a tal da Espeleologia, de entrar em caverna para pesquisar e fazer, e eles perderam a luz e perderam a saída da caverna. E aí ficaram porque não enxergavam absolutamente nada, não tinha mais ninguém na caverna. Tentaram sair, não tinha fósforo, não tinha mais nada. Aí, podiam cair em algum buraco, ficaram parados os dois, dormiram na caverna esperando que alguém entrasse. E naquela noite, eu rezei. Aí, no outro dia eles foram achados, então, por conta disso, voltei de corpo e alma.

Diversão na adolescência
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P - Você se lembra de alguma diversão preferida na adolescência? Ronaldo - Era bicicleta e patim. Patim inclusive eu andava muitos quilômetros, eu cheguei a ir ao colégio de patim. Da casa do Jabaquara até o Liceu Pasteur são uns 8 km, mais ou menos. Eu ia de patim, andando pela rua de patim, na subida, descida. M

P - Você aprendeu a andar de patim sozinho? Ronaldo - É, brincando. Brincadeira de casa. Andava muito de patins, andava muito de bicicleta. M

P - E de baile, cinema, carnaval, clube? Ronaldo - É aí mais ou menos lá pelos 13, 14 anos a gente começou a freqüentar, a ter aqueles que eram chamados bailes pró-formatura, que você tinha. Havia formatura de ginásio, aonde você tinha smoking de lã, no fim de ano, o que era uma piada, mas na época só tinha smoking de lã e você saía em dezembro para o baile com smoking de lã. É claro que a temperatura de São Paulo deveria ser um pouco diferente, em termos porque não tem muito sentido, mas é o que usava na época. Tinha madrinha, aquelas coisas todas. E é isso aí. Eu comecei, talvez por causa do tamanho, eu tenho 1,87 m e eu tenho isso desde os 14 anos mais ou menos. Eu cresci e depois parei. Tanto é que no meu certificado de alistamento militar que eu fiz com 17 anos eu coloquei 1,91 m, porque eles não mediram e eu disse: "Mas eu vou ainda continuar crescendo? Mas eu vou parar?" Mas já tinha parado. Eu não sabia disso. Então eu estou com o tamanho errado. Mas então, eu saía muito cedo. A partir dos 14 anos eu já ia para... Meus pais tinham apartamento em São Vicente e eu ia sozinho para lá. E não precisava de autorização. Você teria que ter autorização por você ser menor de 18 anos, mas eu entrava em qualquer ônibus, qualquer cinema porque todo mundo pensava que eu tinha mais de 18 anos. M

P - Nessa época da adolescência tinha turma que você andava, turma de rua? Ronaldo - Nós tínhamos uma turma do Pasteur que eram mais ou menos umas oito pessoas: quatro meninas e quatro rapazes e que a gente era amigo, na verdade. E a turma começou a quebrar quando um dos amigos começou a namorar uma das amigas aí atrapalhou tudo aquilo. Mas nós ficamos uns dois anos só na relação de amizade, só. Mas em turma assim de turma de, por exemplo, de violência, isso a gente não teve, quer dizer, eu nunca tive e também nunca, felizmente, nunca tive que enfrentar gangue nenhuma.

Namoro
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P - Como é que você conheceu a sua primeira namorada, Ronaldo? Ronaldo - Minha namorada, embora a minha mãe não gostasse, era vizinha. (risos). E no fim é o normal, né. Você tem aí os seus 12 ou 13 anos, você acaba namorando alguém que é perto de você, alguém que já é amigo, alguém que você já brincou. Essa é que vai ser a sua namoradinha, na verdade. M

P - E como é que ela se chamava? Ronaldo - Chamava Maria Aladi. M

P - E como era o namoro naquela época, com 12, 13 anos de idade? Ronaldo - Na verdade era como de esquimó: era nariz com nariz. (risos)

Atletismo
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P - Você saiu da casa de seus pais quando você foi para o ITA? Ronaldo - Exato. Eu tinha 17 anos, eu fiz 18 anos lá no ITA. E aí, comecei a passar a semana inteira lá e vinha no final de semana para São Paulo porque eu comecei a fazer atletismo com 16 anos: atletismo de competição, no Pinheiros. Eu sempre... Gostava de esportes também, aí tive uma competição pelo colégio, no Pinheiros e eles convidaram alguns para serem atletas militantes do clube. Onde você poderia freqüentar o clube, competia pelo clube, mas não tinha que pagar a mensalidade do clube. Era um profissionalismo marrom, como você não tinha profissionalismo na época, então era uma maneira de você trazer atletas. E aí eu fiquei no Pinheiros, competindo pelo Pinheiros uns seis anos. E foi o tempo da faculdade. Eu fazia salto triplo e 100 m com barreira. Esse era o básico mas, como competição universitária, eu fiz salto em distância, fiz arremesso de disco, fazia revezamento 4x100, 4x400. Então, eu não chegava a ser um primeiro colocado. Poucas vezes fui primeiro. Segundo fui muitas vezes. Mas, fazia muito ponto para a equipe, porque em qualquer modalidade que eu entrasse, eu fazia algum ponto. Às vezes segundo, às vezes terceiro lugar. Então, a soma... Você podia normalmente participar de dois revezamentos e três provas e eu pontuava nas cinco provas. Então isso para a equipe era muito bom. Eu não tinha o espírito de ser o primeiro, talvez. Para você ser o primeiro, você tem que ser de uma equipe de uma modalidade só. Você começa a fazer muita coisa, você não vai ser bom em tudo. Não dá para ser. E meus pais não iam assistir as competições, normalmente. E aí, uma vez eles foram assistir uma competição que estava tendo no Tietê, quase que descem a arquibancada lá correndo, porque eu estou saltando o triplo, daqui a pouco eles me vêem fazendo um revezamento, daqui a pouco vêem... Quer dizer, o que é que está acontecendo? Estão loucos, aqui? E é o que acontecia. Você saía, porque as provas eram simultâneas. Realmente era complicado. Mas eu gostava de fazer, ficava satisfeito. M

P - Você chegou a viajar competindo pelo clube? Ronaldo - Sim, dentro do Brasil viajamos bastante. Para competições, principalmente do Rio de Janeiro, Porto Alegre, Resende. Pelo clube e também pelo esporte universitário, pelo ITA. M

P - Você lembra de algum fato que aconteceu numa das competições? Ronaldo - Um deles foi quando nós estávamos fazendo com a Academia Militar de Agulhas Negras. Nós estávamos numa chuva terrível, aliás pelo menos umas cinco vezes, eu competi debaixo de chuva. Então é muito difícil porque você não consegue manter o aquecimento do corpo. Porque você pode ter uma distensão, então você tenta ficar se mexendo o tempo todo, coloca um blusão, ou alguma coisa para tentar se salvar um pouco da chuva. Só que tinha uma poça de água na tábua onde você ia pular. Então, aquele negócio de queimar o salto que você tem aquela linhazinha de areia, ninguém queimava porque você tinha a poça de água, você podia pisar na frente e tal, era perfeito, você podia ganhar uns cinco centímetros do salto. Então, não tinha isso. Foi terrível essa parte aí. E um outro também, isso, quando eu fiz, isso foi em 63, provavelmente. 18,19 anos por aí. Eu estava fazendo um campeonato brasileiro do sub-19, até 19 anos e eu estava.... Naquela época nós íamos ter uma competição na Venezuela, e os dois primeiros classificados iriam para a Venezuela e eu peguei terceiro lugar em duas provas: fui terceiro lugar no salto triplo e fui terceiro lugar no 100 metros com vara. E fiquei sabendo, alguns anos depois, que o cara que ganhou o salto triplo ele tinha mais de 20 anos e a Federação Paulista de Atletismo sabia, a Confederação Brasileira sabia certo? Só que, como o cara era muito bom, o cara ia lá para ganhar... Mas é o tal dos gatos da vida, os Wanderley da vida, é uma pena isso...

Época de faculdade
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P - E como foi para você mudar, sair da casa de seus pais e ir para São José dos Campos freqüentar a faculdade? Como foi essa mudança? Ronaldo - É como eu tinha colocado há pouco, eu acho que eu queria sair de casa. Não sei por que razão na verdade, mas eu queria ter um outro tipo de vida. Então, não fui até para Ouro Preto porque alguns amigos que eram amigos do meu irmão que tinham ido para lá, vieram contar que lá é muito bonito, a cidade é muito bonita, mas... Primeiro é muito longe e a faculdade não é aquilo que a gente pensava que fosse, então. Eles já estavam fazendo, um deles estava fazendo Geologia lá e isso influenciou um pouco, e estava começando a indústria automobilística aqui no Brasil. Na década de 60 exatamente que começou e, então, o jovem que gosta de carro e o que todo mundo queria fazer era Engenharia para trabalhar na Volkswagen, na GM, coisa dessa ordem, então, Geologia não iria trabalhar nunca nessa... Então o sonho era entrar numa faculdade de Mecânica, fazer Engenharia e trabalhar numa fábrica de automóvel. Então, por isso, acredito, por isso que eu tomei a decisão de entrar numa faculdade e entrar na faculdade fora de São Paulo para poder atender o meu desejo de sair de casa. Então vinha para casa às vezes no domingo, às vezes ficava lá também em São José dos Campos, vinha uma vez por mês, duas vezes por mês. M

P - Fala um pouquinho desse teu período da faculdade. Como foi fazer o ITA? Ronaldo - O ITA é uma faculdade difícil, quer dizer, claro que era um desejo de todo mundo fazer o ITA porque é uma faculdade difícil de entrar. Então você tinha um certo prestígio por estar fazendo o ITA, mas era um regime bastante difícil principalmente porque nós passamos a época da revolução lá dentro. E na época da revolução os sargentões da vida perseguiram tudo quanto era universitário e aconteceu isso no ITA também. Qualquer um que tivesse uma idéia um pouquinho diferente acabava sendo desligado do ITA, expulso do ITA e isso foi ruim. Não que eu tivesse idéias desse lado. Não, não tinha. Mas era ruim você ver um colega seu, um amigo seu ser desligado, ser expulso da faculdade por ele ter idéias políticas. Acho que você tem que ter idéias, você tem que discutir, você tem que ter a pluralidade. Você não pode ter um pensamento único. Esse eu acho que foi um dos erros da revolução, principalmente no começo. Depois ela teve outros erros porque ela ficou muito tempo segurando o poder. Ela tinha que ter... A Revolução foi feita para entregar o poder para um governo civil melhor do que aquele que tinha. Porque aquele que tinha estava indo para um lado muito da esquerda, que não seria o melhor lado provavelmente para o país. Mas eles deviam devolver e não devolveram. Ficaram 20 anos. Isso que eu acho que foi muito ruim. M

P - Você se formou em que ano? Ronaldo - Isso, no ano de 66.

Primeiro emprego
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P - E quando você se formou, você veio para São Paulo? Ronaldo - É, eu tive a oportunidade, chama Viana, é um engenheiro também do ITA, que ele se formou em 61. E aí ele foi até São José procurar duas pessoas para trabalhar na Companhia Brasileira de Cartuchos do qual ele já era engenheiro. E aí eu fui um dos que interessaram e pude trabalhar. Então, no último ano da faculdade eu fiz o meu trabalho de formatura na CBC. O meu trabalho de formatura foi planejamento de produção com base em previsão de vendas. E isso foi utilizado, teoricamente na CBC. Então, pegava dados do passado, jogava para o futuro em relação ao que a gente fazia basicamente na CBC era bala. Era cartucho e bala. Fazia um pouco de caneta também, tudo que fosse compridinho e fininho. Estamparia, né. Então se fazia para Shaeffer, para Parker, isso era tudo feito na CBC, mas o básico era bala. E aí teve esse trabalho e quando terminei o estágio, terminei o quinto ano, eles me convidaram para continuar na CBC e eu fiquei mais quatro anos como engenheiro. M

P - Então esse foi o seu primeiro emprego? Ronaldo - Foi o primeiro emprego. M

P - E você entrou como estagiário. Como foi a sua carreira profissional dentro da CBC? Ronaldo - É. Depois eu fui engenheiro de produção, dentro da CBC. Então, eu cuidava de uma determinada área dentro da companhia, era responsável por aquela área, pela produção, pela compra, por tudo que aquele setor entregasse. Então, eu tinha contato com o mestre, tinha contato com o peão e fazia o planejamento do que iria acontecer. Então, no fim, parte das vezes, eles não faziam... Quer dizer, você fazia o planejamento para fazer um estoque para não ter que... Você vai vender uma bala 38, vou ter que fabricar. Então, você já tem um certo nível de estoque para agüentar isso. Isso aí você fazia. Quer dizer, você não pode prever o futuro senão em base do passado. E tem a outra frase que é "você não pode prever o futuro com base no passado." É interessante isso, mas se você pegar quase que todas as coisas, as coisas se repetem. Se você vende numa feira 50 tomates por semana, você vende 50 tomates por semana. Você não vende 100 e não vende zero. E isso, às vezes é difícil das pessoas entenderem, das pessoas aceitarem isso, mas é o que acontece. Acontece com quase tudo. As coisas se repetem. E depois, repete com a estação do ano também. Claro, tanto no caso de fruta, verdura ou no caso de arma também, de bala também. E isso foi um convencimento que a gente teve que fazer lá, porque as pessoas têm que entender isso. Ao longo da vida a gente usou isso muito na Drogaria São Paulo e uma série de coisas.

Entrada na Drogaria São Paulo
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P - Você saiu da CBC para ir trabalhar na Drogaria São Paulo? Ronaldo - Não, eu já tinha a intenção de ir à Drogaria São Paulo, principalmente por insistência de duas pessoas, uma é o Doutor Renato Taglianetti, que já é falecido e que foi advogado da Drogaria São Paulo no início da Drogaria São Paulo e o outro, é o Doutor Roberto Ópice que também é advogado, tem escritório de advocacia que dá assistência para Drogaria São Paulo e também é sócio da Drogaria São Paulo. E eles é que insistiam que eu fosse, logo depois de formado. Eles diziam "Os seus pais já estão com uma... O seu pai já está com uma certa idade, os outros sócios já estão com uma certa idade e não estão com vontade de tocar a Drogaria São Paulo como poderia ser tocada." A Drogaria São Paulo é uma empresa basicamente de atacado, na época, de revenda para farmácias comprando de laboratórios e vendendo para farmácias, e tinha algumas lojas de varejo. E eu fui me convencendo ao longo do tempo que isso seria um bom negócio. Aí numas férias, eu não tirava férias e ia na Drogaria São Paulo. Fazia uma espécie de um estágio lá dentro. Começava a ver o que eram as coisas, como é que funcionava. Como funcionava a compra, como é que funcionava o pessoal de escritório, como é que funcionava a loja. Então, usava as férias, em vez de sair de férias, porque já era o meu desejo de ir para Drogaria, que eu acabei indo em junho de 71. Aí eu saí, porque na verdade, antes de ir para Drogaria, como eu trabalhava em fábrica, eu queria ter um pouco mais de abertura, de conhecer um pouco mais de pessoas, pessoas de um certo nível para poder discutir, falar. Então aí eu fui trabalhar numa empresa de consultoria e auditoria que chama Boucinhas & Campos e era associada a Coopers & Lybrand, que era auditoria a nível mundial. Então trabalhei um ano e meio, fiz vários trabalhos e um dos trabalhos, que eu acho o mais importante, foi na CMTC. A CMTC estava reorganizando as garagens e estava reorganizando algumas linhas, e havia um desejo na época, porque infelizmente queriam terminar com os trolebus em São Paulo, porque a indústria automobilística aqui, a fábrica nacional de motores, as GMs da vida queriam vender o motor e o carro como um todo, e quem fazia os trolebus, ou quem fez os trolebus foi a Grassi que fazia a carroceria e a Villares que fazia o motor. Então, eram empresas brasileiras que faziam o motor, faziam a carroceria e as multinacionais, que tinham sido convidadas aí pelo Sr. Juscelino, é que queriam vender o ônibus. Então, havia um desejo da CMTC de tirar o trolebus de São Paulo, e a gente conseguiu que não fosse tirado. A gente conseguiu... Porque é o transporte que as pessoas mais elogiam. Porque ele não polui, não faz barulho, sobe a rampa com facilidade porque o motor é sempre elétrico, ele funciona sempre no mesmo regime, enquanto que você, quando andando de ônibus você pega uma ladeira, você sabe qual é a dificuldade do ônibus subir. E a gente conseguiu convencer a CMTC que não devia tirar o trolebus e temos trolebus até hoje. Isso é um orgulho de ter feito esse trabalho em 70, 71. M

P - Você participou dessa empresa de consultoria e aí você foi para... Ronaldo - É, porque o desejo era ir para Drogaria. Aí depois, como sair da Boucinhas & Campos? Houve uma reorganização da Boucinhas, principalmente na parte de Processamento de Dados onde eu tinha um amigo que trabalhava lá também, e aí chegou o filho do Boucinhas que voltou dos Estados Unidos com mais idéias da parte de Processamento de Dados e resolveu mexer no setor. E mandou embora esse meu amigo. Aí eu fui para o José Carlos Boucinhas, que era um dos sócios da Boucinhas e falei: "Olha eu estou indo embora em protesto porque você mandou embora o meu amigo." Eu precisava, na verdade, de uma desculpa para sair (risos). Aí saí e fui para Drogaria.

Origem da Drogaria São Paulo
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P - Vamos entrar um pouquinho agora no mundo da Drogaria, Ronaldo. Como surgiu a Drogaria? Ronaldo - A Drogaria é uma firma fundada em janeiro de 43. Vai fazer, então 60 anos agora, daqui a alguns meses e ela foi fundada com um grupo de pessoas do qual o meu pai fazia parte, Thomaz de Carvalho. Eram três grupos principais: um era comandado por Thomaz de Carvalho, o outro era Claudio Duarte, que faleceu recentemente, tem dois meses mais ou menos que ele faleceu. E o outro, Francisco Brandi. Esse tem já tem uns 20, 23 anos que ele é falecido. E cada um deles tinha um grupo atrás deles, quer dizer, tinham amigos, tinham primos que deram dinheiro para eles constituírem essa firma. Já existia uma firma, na época, que fazia só atacado de medicamento que chamava M. Dellape & Cia Ltda., com o nome de fantasia Drogaria São Paulo. E o meu pai e o Francisco Brandi, eles trabalhavam numa outra empresa que chamava Drogafarma. Eles eram atacadistas, nessa época, eles tinham uma pequena parte na sociedade e eles eram vendedores. Ou vendiam por telefone, ou venda porta-a-porta, farmácia-a-farmácia... E essa firma estava sendo... Foi uma das firmas que constituiu a Drogasil... E era a época da guerra, nós estávamos em 42, e houve um problema com as pessoas de origem ou italiana ou alemã, aqui no Brasil. Algumas empresas criaram problemas com essas pessoas e uma delas foi essa Drogafarma, onde eles estavam. Então, o caso do Francisco Brandi, por ser italiano, ele era nascido na Itália. Então, o pessoal não gostava de ter um italiano como sócio. E aí, então, acabaram saindo e dizendo: "Então vamos comprar ou vamos montar uma empresa de atacado, que é o que nós já estamos fazendo e sabemos fazer." Então arrumaram o capital, eles eram em 32 pessoas, era o capital de 32 pessoas que compraram essa M. Dellape e fundaram a Drogaria São Paulo em janeiro de 43, na Rua José Bonifácio com o atacado para farmácia. E o atacado, nessa época, nessa década, era um atacado de balcão. Você tinha então, a porta aberta ao público, era o centro da cidade, a José Bonifácio está no centro da cidade, e as farmácias iam lá comprar. As pessoas é que iam até lá, faziam o pedido e era separado o pedido, entregava para a pessoa e a pessoa é que levava para sua farmácia. E aí entra uma coisa que é interessante, que é a drogaria. Porque era Drogaria São Paulo e Drogaria São Paulo significava em 43, atacado São Paulo. Não é o conceito que nós temos hoje, que foi distorcendo ao longo do tempo e ficou drogaria também aquilo que vende para o consumidor final. Mas a drogaria.... Como você tinha uma porta aberta na José Bonifácio, as pessoas que estavam passando na rua acabavam indo comprar e você vendia para pessoa física também. Então, se fazia atacado e varejo. E aí a definição que aconteceu em 73 foi que drogaria é o varejista que não tem laboratório de manipulação e a farmácia é o varejista que tem laboratório de manipulação. É essa a definição, hoje, em relação à manipulação. M

P - Essa coisa é interessante...Tinha uma diferença de preço para o atacado e para o varejo? Ronaldo - Aí é que começou o preço de drogaria. As pessoas que são um pouco mais velhas lembram disso, alguma farmácia dizendo: "Farmácia a preço de drogaria." A preço de drogaria era a preço de atacado. Mas era isso que você falava na década de 70, que não é tanto tempo assim, você falava, você usava esse slogan. Depois a drogaria começou na Rua José Bonifácio, depois começou a montar filiais. A primeira filial foi montada na Praça da Sé, no prédio Santa Helena, que hoje não existe mais, foi implodido quando a Praça da Sé se juntou à Praça Clóvis Beviláqua. Mas a drogaria já tinha saído de lá. Depois ela montou a segunda loja, que existe até hoje, na Rua João Pessoa, 24, em Santos. O que mostra inclusive qual é a importância de Santos em relação a São Paulo, porque foi a segunda loja que eles abriram, ainda em 43. Acho que foi em novembro de 43, abriram essa loja em Santos. Quer dizer, era um mercado tão bom, o mercado de Santos, que você ia para lá em vez de abrir uma terceira loja em São Paulo. Porque eles faziam nas lojas, atacado e varejo. Eles atendiam também no balcão das drogarias, ou das farmácias, eles também atendiam farmácias que iam lá buscar o produto. E assim foram abrindo até... Quando eu entrei na Drogaria eram 10 lojas que existiam fazendo atacado e varejo em cada balcão.

Estoque
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P - Você sabe dizer como era o estoque no início da Drogaria? Era grande? Ronaldo - É. Tinha um estoque central. Nosso depósito, continua um dos nossos depósitos, na Avenida Liberdade, 844 hoje. Era lá que tínhamos o depósito para distribuir para as lojas, comprávamos do fornecedor, da indústria para esse depósito e distribuía-se para as lojas. A distribuição era nossa, para as nossas lojas. E esse estoque não era controlado porque não tinha esse... Uma das primeiras coisas que eu fui fazer na Drogaria foi isso. Quer dizer, era planejar o estoque, você vai ter a mercadoria que sai com base no que saiu no passado. E isso foi difícil de eles entenderem. E foi difícil da indústria entender também, que você compra mercadoria quebrada, não quebrada. Quer dizer, você pode comprar 137 unidades e isso para indústria foi uma loucura, porque a indústria vendia três, seis ou doze. Eles não conseguiam entender vender 20, isso não existia na cabeça.... Você podia até pensar em caixa fechada. A caixa fechada tem 20, então eles facilitam, para indústria e facilitam para você. Mas não era isso, não. O problema deles era cultural, não conseguiam entender como é que uma farmácia podia comprar menos que três unidades. E isso que a gente começou a mostrar que se ela não vende nem uma unidade por mês, não tem sentido ela ter três unidades em estoque. Diziam: "Mas e o dia que o cara vem e quer as três?" O dia que ele quer que venda três, você não vende. Só que durante o mês inteiro você vai ter uma unidade. E nós pegamos que, mais ou menos 80% do estoque da farmácia, você vendia uma unidade por mês. E você tinha três, seis, vinte. Era a experiência do gerente. A experiência do gerente é que dizia qual o estoque, que loja é loja. E aí foi a briga, para brigar gerente com gerente, brigar com o comprador da Drogaria, até que eles entendessem que você pode prever a saída. Nunca com a precisão de 100%, infelizmente, mas com uma precisão muito grande. Com base no que saiu no mês passado, no mês anterior, no ano anterior, e assim por diante. M

P - E esse trabalho você começou a desenvolver logo que entrou na drogaria? Ronaldo - É. Porque já quando estava passando as férias lá, já tinha mexido nisso. Inclusive uma das primeiras compras que eu fiz, o nosso comprador na época, que já é falecido também... Chama Eugênio Cruz, ele colocou compras Dr. Ronaldo, quer dizer.... para dizer: "Se a compra está errada, eu não tenho nada com isso." (risos) E era complicado porque a indústria farmacêutica também vinha com esse plano. Dizia: "Não, você está comprando 500 unidades disso aqui, você tem que continuar comprando 500." Mas não interessa isso. Interessa saber quanto tem em estoque. Se você comprou 500 e tem 100 em estoque, você vendeu 400, ou vice-versa, se você tem 400, vendeu 100. Então, o que você precisa fazer é começar a marcar as datas que você recebe e o estoque que tem. Quer dizer, uma coisa relativamente simples. No começo a gente começou a fazer com fichas, depois foi evoluindo e para folhas de computador e depois, evidentemente, hoje está todo mundo com computador, então é muito fácil de controlar o estoque. Mas na época foi uma briga muito grande. Eu acho que no comércio varejista e atacadista, fomos nós que começamos esse enfoque cultural e que deve ter passado depois para os outros setores que também não acreditavam nisso. Quer dizer, na experiência do comprador. Não tem experiência nenhuma. Você pega qualquer indivíduo, ele marca quando comprou, o que chegou, qual o estoque e fica sabendo o quanto sai por mês. Não tem que entender de remédio, de perfumaria, de..., não tem que entender de nada. É só marcar o estoque, e acabou. A saída é essa mesmo.

Avanços e transformações na Drogaria São Paulo
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P - Quando você entrou na Drogaria, vocês tinham 10 filiais? Ronaldo - Eram 10 lojas de varejo, e eu entrei, basicamente para desenvolver o atacado, que eu achava que era mais interessante e a Drogaria já tinha, o grande potencial de venda dela era atacado, aquilo que ela vendia mais. Então, eu fechei o atacado das lojas. As lojas passaram a atender só o consumidor final e o depósito é que atenderia o atacado, é que atenderia as farmácias. Então o depósito teria vendedores que também fariam a entrega dos produtos. Ele vendia num dia e no outro dia ele punha no próprio carro a mercadoria e ia lá e entregava. Porque ele tinha uma zona, um setor para atender, ou fazia a venda por telefone, o tal do telemarketing, de algum tempo para cá. Isso era feito há 40 anos atrás. O que você tinha era vendedor - telefonista que ligava diariamente para aqueles clientes dele e queria saber o que eles queriam ou também recebiam os telefonemas. Evidentemente que a farmácia ligava para fazer o pedido. Então, você fazia o pedido, separava a mercadoria, emitia a nota, ia entregar ou ele ia buscar. Então, no começo tinha muita retirada de mercadoria e depois éramos nós que entregávamos, nós tínhamos frota para entregar a mercadoria nas farmácias. E aí fomos desenvolvendo esse setor. Colocamos gerentes de vendas, vendedores. Tivemos uma equipe muito grande e chegamos a ter um atacado muito forte aqui em São Paulo. M

P - Basicamente em São Paulo e não no interior? Ronaldo - No interior de São Paulo, também. Tínhamos vendedores que entravam para o interior, mas a maior parte da nossa venda era a Grande São Paulo. M

P - E quais eram os principais produtos que vocês vendiam, nessa época? Ronaldo - Eu lembro de um que infelizmente, que era a Novalgina, que ainda é um produto que vende muito, a Novalgina gotas... Mas que na época em que eu entrei era o ano da Novalgina. Não sei se ela tinha feito 50 anos de idade ou coisa dessa ordem, em 1970. Aí foi feita uma compra absurda. Porque era o aniversário, tinham que fazer uma campanha muito grande e com isso ia vender. O problema é que você só consome o produto quando você precisa e é isso que muita gente se engana, inclusive até médicos ou até Ministro da Saúde, farmacêuticos, profissional de farmácia. O incentivo ao consumo. Você não tem incentivo ao consumo em farmácia. Você tem no máximo o incentivo à compra, mas você em casa, só usa o produto se precisar. Senão, ele vai ficar lá até estragar. Ninguém vai abrir uma gaveta no banheiro e dizer: "Não, deixa eu ver, aqui tem uma Aspirina. Vou tomar." Isso é piada, de mau gosto. Infelizmente você tem pessoas... No Ministério da Justiça nós tivemos problema seríssimo quando nós estávamos com o Programa de Fidelidade, porque ele proibiu o Programa de Fidelidade e hoje novamente está proibido o Programa de Fidelização. Você não pode fazer.... que as farmácias, então, já tinham saído, a Drogaria São Paulo já tinha saído disso, mas outras redes estavam fazendo isso. Você acumulava compras, acumulava tickets de compras, e você trocava por prêmios. E ele proibiu isso para os remédios tarjados, para os remédios que exigem receita médica, porque isso aí estaria incentivando o consumo. Quer dizer, a burrice não tem limites. Não consigo entender que alguém está comprando um remédio para ganhar um prêmio. Ela está comprando para ganhar um prêmio, mas não vai tomar. Não é consumo, é o incentivo a compra em relação a,... em vez de comprar do concorrente compra de você. Isso sim, só que tem pessoas que infelizmente não entendem isso. M

P - Quando você chegou você fez todo um trabalho encima do.... Ronaldo - É. O primeiro trabalho foi parte de estoque que foi aquele que eu tinha citado anteriormente, é o trabalho que eu fiz na CBC, era o planejamento de vendas, então o planejamento de estoque com base no passado, então a primeira coisa foi acertar os estoques. Acertar as compras, as compras mais regulares a intervalos menores e isso foi a primeira discussão com a indústria farmacêutica, inclusive. Porque nós comprávamos uma vez por mês e nós passamos a comprar uma vez por semana. Isso já foi um choque, porque o que eles queriam fazer era o pedido, um pedido daquele tamanho. Mas não é pelo tamanho. O que nós temos que comprar, é o que nós vendemos e o que nós temos que ter é, na nossa farmácia, a unidade que o cliente vem buscar. Se nós tivermos uma unidade só e se for só isso que ele veio buscar, está o suficiente. Você não precisa ter três, ter dez, ter vinte. E isso foi um trabalho difícil também de entender, porque a indústria farmacêutica com aquelas firmas maiores como é o caso da Drogaria São Paulo, chegava o pedido de 10, de 10.000 ficava contente..., mas 10.000 é igual a quatro de 2.500. Só que é cultural também. É difícil... Não vai ter mais pedido de 10.000. Vai ter quatro de 2.500 ou coisa dessa ordem. Então, foi uma briga com a indústria, foi uma briga internamente, até a gente acertar o nosso pessoal, foi o acerto então, também racionalizar, quer dizer, farmácia está aberta para venda ao público. Porque o atacado é que estragava o nosso nível de estoque na loja. Porque o público é mais ou menos igual, quer dizer, se a loja nossa no Largo Padre Perez em Perdizes vende 120 Novalginas por mês, ou aproximadamente quatro por dia, ela vende quatro por dia, ela não vende 120 por dia, nem morto. Não existe isso. Agora o atacado, não. Se for uma farmácia lá, compra tudo. E no instante que comprou todo o teu estoque, você não atende o seu cliente de varejo. Ele vai lá e tem falta. Então, a primeira coisa que você tem que ter para o seu cliente de varejo é ter o produto. Então, foi isso que a gente foi fazer.... Tiramos o atacado da farmácia para isso também, para evitar que eles acabassem com o nosso estoque no ponto de varejo e vamos vender através de nosso depósito, né?

Relacionamento com Aché
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P - O produto que você citou foi a Novalgina. E outros produtos? Porque na Drogaria você também trabalha com outros tipos, não só remédio? Ronaldo - Então, teria no caso, produtos que eram grandes, razão de nossa visita aqui que era Moduretic, Aldomet, são produtos que vendiam. Vendiam não, porque vendem muito até hoje. São produtos do laboratório Aché e que agente sempre trabalhou com eles também... Eu tenho hoje no meu escritório, o primeiro livro de compras da Drogaria São Paulo. Então, se não me engano, a primeira compra da Drogaria São Paulo foi da Bayer. Foi a primeira nota fiscal que a Drogaria São Paulo recebeu em 43. M

P - Você tocou aí na questão do Aché. Como começou a surgir o relacionamento com o Aché? Ronaldo - Desde que ele existia como laboratório, porque ele é o laboratório mais antigo do grupo atual controlador, quer dizer, é um laboratório que já existia, era um laboratório pequeno e as pessoas que possuem o laboratório hoje eram propagandistas de outro laboratório. Trabalhavam em outro laboratório e viram a possibilidade de também ajuntar um capital e comprar o Aché e começar a fazer um trabalho mais profissional no laboratório. Começar a divulgar um pouco mais, ter um pouco mais seriedade perante a qualidade do produto, que infelizmente na época, os controles do Ministério da Saúde não eram tão bons como são hoje. Hoje, realmente, ou o laboratório anda na linha, ou ele é fechado. Isso é uma das coisas que a gente deve agradecer, principalmente a esse Ministro atual, que é ex-ministro, que é o José Serra que nesse ponto foi realmente muito sério em relação aos laboratórios. Ou o laboratório tem qualidade, ou sai do mercado. E isso aconteceu. Então, visita realmente o laboratório, há separações que isso já, agora, é uma tendência mundial, quer dizer, você não pode ter determinado.... Você não pode fazer antibiótico no mesmo lugar que você faz um remédio para coração, por exemplo. Não pode nem no mesmo lugar físico, nem no mesmo prédio. Pode ter parede, não é isso. Você não pode, o prédio tem que ser separado, tem que estar num outro terreno, então, para evitar uma contaminação de um produto no outro. Então, essa já é uma tendência mundial e que o Brasil seguiu isso aí. Então, hoje os laboratórios estão com uma qualidade excelente, realmente muito, muito fiscalizados. Mas antigamente você não tinha essa fiscalização. Então você tinha os laboratórios que você sabia que eram mais éticos, você supunha também que os laboratórios estrangeiros seriam um pouco mais éticos porque eles tem um nome a respeitar, quer dizer, se ele tiver um problema aqui no Brasil ele pode ter uma consequência a nível mundial e ficar ruim para ele naquele país onde ele tem uma fiscalização um pouco maior, e o Aché seguiu nessa linha, embora fosse um grupo nacional, mas sempre procurou muita qualidade e procurou muito a receita médica, porque o médico, começando a receitar um produto, a pessoa fica.... Nós acima dos 50 anos, nós somos droga-dependentes, quer dizer, não é narco-dependente, mas passamos a tomar remédios a partir de uma certa idade e felizmente vamos viver mais por isso, vamos viver melhor por isso, mas vamos consumir remédios até a morte.

Contato com Aché e atividade sindical
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P - Você se lembra da sua primeira reunião? Quando você entrou na Drogaria São Paulo já tinha uma relação com o próprio Aché? Ronaldo - Sim, já existia. Nós já comprávamos do Aché, já era nosso fornecedor e eu acho que em 71, era mais ou menos a época em que eles entraram também... essa história que eu acabei de contar, foi a história que o meu pai me passou, contando o que aconteceu com o Aché. Depois, eu fiquei conhecendo uma das pessoas do Aché, que é o Adalmiro Dellape Batista, que é conhecido como Miro, no mercado. E tive um contato muito grande com ele, primeiro pela parte de sindicato, porque quando eu entrei na Drogaria São Paulo, o meu pai era presidente do Sindicato do Comércio Atacadista de Medicamentos do Estado de São Paulo. E aí, eu passei a freqüentar o sindicato para acompanhá-lo também na coisa, cheguei a ser diretor do sindicato também, cheguei a ser diretor do Sindicato do Comércio Varejista também por medicamentos. Depois saí um pouco dessa parte de direção sindical, até voltar a uns anos atrás com uma entidade que a gente fundou - a uns nove anos atrás - que é a ABRAFARMA, a Associação Brasileira de Redes de Farmácias. E aí, tivemos muito contato nessa parte sindical, parte de preço, em 73, 74. Na época em que o Delfim Neto era Ministro da Fazenda, que foi uma das crises muito grandes que a gente passou no mercado farmacêutico, porque na época, a inflação foi mais ou menos de 20% e a indústria farmacêutica teve um aumento de 10% só. Porque os preços eram controlados e quem mexia nisso, era o Sr. Delfim Neto. Foi a primeira grande crise que a gente teve na Drogaria e acredito, no mercado farmacêutico como um todo. E aí que a gente tomou a decisão e, em 74 a gente saiu do atacado. Levamos 12 anos para sair, porque como 90% da nossa venda era atacado, se a gente parasse de trabalhar com o atacado, o nosso faturamento ia ser 10% e não ia dar para sustentar nada. Então fomos abrindo lojas e fechando o setor do atacado. Abria loja e fechava o setor de atacado e fomos nesse processo durante 12 anos até 86, que graças ao Sr. Sarney faltou tudo no país e mais um pouco, por incapacidade total da... E infelizmente na época, que eu lembre, tinha duas pessoas que falavam mal do Cruzado: era eu e o Ferreira Neto. Só. As pessoas todas acreditaram na época, no Cruzado. Acreditaram que você podia parar a inflação com um decreto, o que era uma piada, como se mostrou depois. As pessoas começaram a ter poder de consumo, começaram a consumir e acabou tudo que você tinha, e principalmente no caso da indústria farmacêutica. Porque a indústria farmacêutica já tinha o nome do produto. Os outros ramos foram se acertando. Quer dizer, você mudava a camisa, você mudava o modelo, o sapato.... Agora, o rabanete é igualzinho, a maçã é igualzinha, a Novalgina é igualzinha, o Aldomet é igualzinho... Então esses produtos que eram conhecidos é que sofreram mais. Então, nós sofremos muito naquele ano. Então estava faltando mercadorias... Se é para faltar mercadoria, vamos deixar faltar no atacado e não no varejo. Então vamos começar a ir cada vez mais para o varejo? M

P - A rede acabou crescendo em função dessa decisão que vocês tomaram nessa época? Ronaldo - Sim, porque a gente tomou primeiro a decisão de ir para o varejo, que a gente foi até 86 e depois ficou mais fácil, porque nós tínhamos um problema muito grande quando a gente trabalhava nas duas pontas. A gente trabalhava no atacado e no varejo. Então era um problema de marketing terrível. Se você melhora o seu varejo, você enfraquece o seu cliente e se você melhora o seu atacado, você fortalece o seu concorrente, quer dizer, é uma posição meio insolúvel esse problema de marketing. Então você tinha que ir para um dos dois lados e a gente acabou, felizmente indo para o varejo e desenvolvemos bastante a companhia e chegou no tamanho que está hoje. E o nosso problema hoje, infelizmente é uma sonegação brutal que tem esse país em nível de varejo. Não deve ser um privilégio do nosso setor, não deve ser um privilégio de farmácia, nem deve ser um problema de varejo de medicamentos, mas é uma sonegação brutal. E a reforma tributária que tanto se fala... Enfim, é uma grande piada. Bastaria mais fiscalização que as coisas mudariam.

Diferencial do Aché
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P - Vamos voltar um pouquinho para relação com o Aché. Eu queria que você falasse sobre sua relação, dentro da Drogaria, com o próprio laboratório? Ronaldo - A relação nunca foi... Quer dizer, sempre foi uma relação simpática, porque o laboratório é um laboratório nacional, um laboratório de porte, então a gente tinha um orgulho, até como brasileiro, de ter um laboratório que estivesse atingindo os níveis de qualidade e competência do Aché. Entretanto, era um laboratório que acreditava muito nele próprio. Então ele achava que os produtos dele venderiam porque tinha receituário. Então, você era obrigado a ter o produto, e na verdade era. E isso foi uma discussão que nós tivemos com uma pessoa que teve rede de farmácias também, que se chamava Osvaldo Zambon, já falecido há alguns anos, e que ele colocou uma vez para mim e disse: "O seu cliente não quer saber o seu problema com o fornecedor. Ele não quer saber se você tem desconto, se você ganha ou não ganha. O que ele quer saber é de encontrar o produto. Você tem que atender o cliente. Você tem que ter o produto que ele procura na hora que ele procura e se possível, pelo preço que ele quer pagar." E foi isso que a gente tentou fazer. E no caso do Aché, era mais ou menos também esse lado. Como eles faziam uma propaganda médica muito forte, você tinha que atendê-lo, porque senão você não atendia parte da receita. E o que acontecia com muito consumidor, é que se você não tinha um item da receita, ele não compra nada. Ele vai procurar uma farmácia que tenha tudo. Então, você teria que ter produtos Aché, quer ele lhe desse condições para você ganhar mais dinheiro, ou menos. E durante alguma época, a gente ganhou menos com o Aché. M

P - Por quê? Como era essa relação? Eu queria que você detalhasse um pouquinho mais... Ronaldo - É esse o ponto. Você tem uma margem definida da farmácia, uma margem máxima definida que hoje, é um pouco menos, mas seria por volta de 30% sobre o preço de venda. Você tem uma margem bruta de 30%. Você tem que colocar todas as suas despesas, impostos e tal. E aí chegar a alguma coisa líquida razoável. Agora, se você é um grande comprador, como era o nosso caso, que tínhamos 10 lojas no início, depois 15, 20, 50... nós fazíamos a nossa distribuição. Nós estávamos comprando a mercadoria e distribuindo para as nossas lojas. E estávamos pagando para o fornecedor, como se fossem 50 farmácias pagando. Então, ele tinha uma garantia de que iria receber aqui. Então, nós achávamos que nós tínhamos o direito de ter um desconto de atacadista e eles não aceitavam muito isso porque nós não tínhamos o risco do atacado, porque nós não estávamos na farmácia ia sempre nos pagar, porque era nossa filial. Então essa foi uma discussão que prevalece até hoje, na verdade, quer dizer, alguns fornecedores, até hoje, nós não temos a condição que o atacado tem por conta desse suposto risco.

Compra e distribuição própria
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P - Você nos colocou que o Aché de uma certa forma trabalhava muito com receituário, quais eram esses produtos e quais eram os concorrentes? Ronaldo - Os concorrentes dos produtos Aché eu não lembraria, eu lembraria alguns produtos Aché que eram de receita, inclusive de receita controlada que era o Moduretic que era um remédio para emagrecimento, de receita controlada e que era um produto grande de venda e que acredito que até hoje seja um produto grande de venda. O que acontecia com o laboratório Aché e que era a nossa discussão, por ter um depósito central e fazendo a distribuição para as nossas lojas. Nós temos que ter alguma remuneração por esse serviço, que era estocar no local, receber a mercadoria, conferir, estocar, receber o pedido da nossa loja, separar, conferir, emitir a nota, entregar na loja, é um serviço que tem um certo custo e este custo não era pago por alguns fornecedores e era um dos casos que é o caso do Aché. Se todos os laboratórios nos dessem a mesma condição que o Aché nos dava, que era zero, nós não podíamos ter a rede que a gente tinha, nós tínhamos que ser remunerados pelo impacto disso, quer dizer, esse custo nosso é pelo menos 5 a 6 % do valor de venda, então alguém estava remunerando esse serviço, quer dizer, uma Bayer da vida deve estar dando 10% para poder pagar o serviço que a gente faria para outro laboratório.

Diferencial do Aché
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P - Como foi a relação com o Aché? Havia alguma diferença na venda e na entrega desses produtos do Aché com relação aos outros concorrentes? Ronaldo - Nesse ponto eles sempre se preocuparam muito com o estoque também, sempre tinham a mercadoria quando se pedia. Isso era uma falha que algumas indústrias também faziam, não ter aquele estoque, e eles sempre tiveram. Deveriam ter tido algum tempo lá, alguém que devia saber fazer controle de estoque ou tinha estoque excessivo, não sei, mas eles sempre tiveram os produtos que eram solicitados, até talvez por ser nacional, não sei, mas o fato é que eles entendiam que não podia faltar o produto. Não faltando na indústria tem a chance de não faltar no varejo, agora se faltar na indústria com certeza vai faltar no varejo, então não adianta nada um trabalho de receituário para o seu cliente e quando vai a farmácia não encontra o produto, liga para o médico "Olha, eu não estou encontrando.", aí o médico troca por um semelhante. M

P - Eles ajudavam em algum material de divulgação, de lançamento, de propaganda? Davam esse apoio para vocês? Ronaldo - Eles davam a informação daquilo que eles iam fazer, para que era o produto e qual a importância de você ter esse produto na prateleira, por isso eles sempre fizeram a divulgação bastante grande por esse lado, que é importante. Você tem que saber, saber para o que é, mesmo que você não vá usar isso, no fim é o consumidor que vem pedir, ele que vem com o nome do produto ou com o receituário, infelizmente mal escrito até hoje. Aquela letra de médico, é uma verdade, muitas vezes ele não sabe o que escreveu. Então nós temos uma rotina na Drogaria São Paulo, que a pessoa lê o produto e leva para outro balconista e pergunta o que ele leu, se o que o segundo balconista leu é igual o que o primeiro entendeu ele pega o produto, se for diferente ele volta para o consumidor e pergunta se ele sabe qual produto que foi receitado, se souber também está resolvido, se não souber, vão tentar ligar para o médico, se não conseguir falar com o médico eles não atendem, se teve duvida do que está escrito a Drogaria São Paulo não atende o cliente, porque infelizmente os médicos costumam escrever mal. M

P - Vocês tiveram algum problema com esta questão, em algum momento da Drogaria? Ronaldo - Sim, infelizmente já foi feito, mas felizmente as pessoas pegaram antes porque sabiam para o que é. Outro ponto também que é uma discussão antiga por parte do pessoal do Ministério da Saúde ou de médico, é que não deveria ter bula o remédio. Eu acho errado, o remédio tem que ter bula, primeira coisa que as pessoas têm que fazer ao adquirir o remédio é ler a bula, primeiro conferir se é aquilo, porque ela sabe o que ela tem, ela foi ao médico para isso. Então se é aquilo que está dizendo a bula que é para aquilo, então está batendo no que ela foi, se está dizendo que é outra coisa então está errado. Segundo é ver o efeito colateral embora tem gente que se assuste com isso, até falam: "Se for ler tudo aquilo não tomo o remédio, vou ficar impressionado.", mas não é, às vezes você pode estar tendo uma interação medicamentosa, você pode estar tomando um remédio que o outro remédio que você está tomando pode interferir, e às vezes esse médico que te receitou esse último não lhe perguntou, não fez uma consulta inteira para ficar sabendo dos outros remédios que você toma. Então você sabe os remédios que toma, então se lá está escrito não bate com esse, não bate com aquele, então você já volta no médico "Eu estou tomando isso aqui e estou tendo uma interferência medicamentosa, como eu faço? Paro um, paro outro ou mudo para um terceiro sal? Como é que eu faço?" Então a primeira coisa, tem gente que quer proibir a bula no remédio, eu acho um absurdo.

Prescrição de remédios
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P - Por conta dessa questão você consegue avaliar por que o médico prescreve um determinado remédio de um determinado laboratório, o que ele leva em consideração? Ronaldo - Uma parte é o passado acredito eu, se o laboratório tem uma história, tem produtos de qualidade, produtos de casa ele acaba receitando isso também. E depois as experiências que ele acaba tendo com o próprio paciente ao receitar um determinado produto e o efeito que fez nesse paciente, então ele ter confiança nesse produto, naquela marca, naquele nome e sobrenome, ele continua a receitar aquele produto porque ele teve confiança que funcionou em algum paciente dele. Por isso que é muito difícil trocar de marca um médico prescritor e difícil também dele receitar um genérico, não adianta dizer que tem teste, que tem o diabo aí, não é isso, o médico tem que ter confiança, se ele tem confiança que o teste do governo - que o governo diz que faz - é confiável, pode ser que ele comece a receitar, mas ele tem que ter confiança, se ele médico não tiver confiança ele não receita outra coisa.

Relação com Aché: compras e entregas
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P - Voltando agora um pouquinho para os produtos do Aché. Você falou que passou a fazer pedido semanal. Eles mesmos entregavam ou vocês retiravam? Ronaldo - Eles entregavam, então o que a gente fez tendo o Aché como um dos nossos fornecedores, nós começamos fazer pedidos menores com uma freqüência maior, e com o Aché aconteceu uma história bastante interessante também, que nós chegamos a fazer com alguns fornecedores maiores, que era o caso do Aché, nós chegamos a fazer três pedidos por semana, eles faziam uma entrega única, nós tivemos que chama-los: "Vocês estão brincando, se nós estamos fazendo três pedidos por semana, vocês tem que fazer três entregas por semana para gente manter o nível mais controlado de estoque. Se é para fazer uma entrega só a gente faz um pedido só." Depois acabou-se entrando em acordo, as vezes as pessoas têm que fazer com que se entenda qual é o seu objetivo. M

P - E qual era o sistema de cobrança deles, eles cobravam mensalmente, como era? Ronaldo - Era por pedido, se você tem um prazo de 30 dias eram 30 dias de cada pedido ou o prazo que você acertava., mas normalmente era da entrega de cada pedido. Quando eu entrei na Drogaria, o que nunca aconteceu com Aché, o tal de fora o mês, 30 dias fora o mês, 15 dias fora o mês, isso é coisa do passado é de qualquer comércio, algumas tem até hoje na verdade, mas no farmacêutico isso existia, mas só quando entrei, logo depois começou a ser o faturamento a partir de cada pedido 30, 60 o quanto for, mas de cada entrega está contando um prazo.

Embalagens dos produtos Aché
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P - Me fala uma coisa Ronaldo, com relação às embalagens. As embalagens do Aché mudavam muito? Vocês tiveram algum problema em relação a questão da mudança de embalagem com o público final ou não isso não acontecia? Ronaldo - Não, não lembro de ter tido problema desse lado. M

P - E as embalagens não mudavam muito. Ronaldo - Acredito que não. Realmente eram embalagens muito bem feitas, muito bonitas. Ele sabe que o consumidor também quer ver isso, é uma confiança no remédio porque primeiro você tem que ganhar a confiança do médico para depois ele prescrever o produto. E depois tem que ganhar a confiança... A primeira coisa que o cliente vai ver é a embalagem do produto, ele está acreditando no médico evidentemente, ele acredita que o médico está acertando naquilo, mas embalagem tem que ser atraente para ele e isso o Aché sempre trabalhou bem desse lado, fez embalagens que dão uma certa confiança ao consumidor.

Expansão da Drogaria São Paulo
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P - Voltando um pouquinho na questão da Drogaria, como foi a questão da expansão? Ronaldo - É que nós vimos, quando nós estávamos no início, porque quando eu fui colocado eu fui para desenvolver o atacado porque eu achava que aquilo era mais ligado a área de Engenharia no qual eu me formei, então é questão de logística, de como você entregar, de como ser mais eficiente na separação, conferência, entrega, roteiro, como é que você pode fazer isso aí ganhar a eficiência desse lado e por conta disso vender mais barato. A gente não entendia muito bem que tinha esse outro lado negro aí da coisa, que é o lado da sonegação, então você trabalhava corretamente, como a Drogaria São Paulo sempre trabalhou e aí passavam, não sendo racista, mas um japonês da vida vendendo um remédio 100% mais barato e a farmácia comprava, porque para ela o que interessava era trabalhar com uma margem maior, não interessava a procedência, não interessava a qualidade porque nós tínhamos o nível que a gente chegou a ter na Drogaria São Paulo no varejo, a gente tinha exatamente o mesmo nível no atacado. Nós não queríamos ter falta nenhuma no atacado. Se a farmácia está nos pedindo dez itens nós temos que ter os dez itens, nós temos que ter nível de qualidade e para farmácia pouco ligava, ela não pensava nisso, ela queria ter o 5% de desconto a mais, se você entregasse a metade do pedido era a mesma coisa, ela pedia a outra metade em outra, ela não pensava nisso, que ela podia trabalhar com estoque menor também, ela demorou anos, inclusive na época, nós pedimos um pessoal de pesquisa de mercado que se chamava Nexus essa empresa, para fazer a pesquisa e a pergunta final deles era: "Mas vocês querem mesmo que esse pessoal melhore? Porque se esse pessoal melhorar eles vão te comprar menos." E não era isso que a gente tinha entendido, entendia-se que se a farmácia trabalhasse bem, ela ia ganhar muito, ganhando muito ela ia crescer e crescendo ela ia comprar mais nosso, era isso que a gente pensava na época. E esquecemos do fornecedor, principalmente o fornecedor multinacional, aí era um problema que não se tinha com o Aché, mas tinha com as Bayers da vida. Ele tinha um compromisso com o alemão e o alemão lá dizia: "Você vai ter que vender 50 milhões de dólares / ano." E o ano ia corrente, chegava em outubro, novembro e tinha vendido 40 ele tinha que ter vender os 50 porque ele colocou no baggage dele lá, se não cumpre o baggage a cabeça dele pode rolar e ele acabava fazendo vendas maior que o normal, e quem tinha que assumir isso era o atacado, no passado e continua isso até hoje. Então nós éramos pressionados pela indústria de um lado e pressionados pelo varejo do outro, que queria mais descontos e a indústria queria que a gente comprasse mais, então vamos sair disso ir para o varejo do medicamento que o consumidor não tem isso. É claro que o consumidor também quer preço, mas a primeira coisa que ele quer é nível, então foi a primeira coisa que nós fizemos foi nível de serviço, nós temos todos produtos, segundo é o horário de trabalho: "Vamos trabalhar 24 horas." Ele quer ter o remédio a hora que ele precisa, e vamos ter algum preço também, é claro que quando você já tem as duas primeiras coisas você vai ter que ter preço, que é o que nós temos hoje. As farmácias estão todas informatizadas de um modo geral, então eles sabem controlar estoque, eles também trabalham 24 horas, muitas são 24 horas e agora tem preço, tem que trabalhar com margens muito menores, é uma época difícil que está se passando em relação à concorrência.

Profissionalização da Drogaria São Paulo
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P - Como foi a sua trajetória dentro da empresa: você começou em 71 entrando na administração geral,... Ronaldo - A idéia quando eu entrei era para dirigir a Drogaria, que era uma companhia que já tinha na época quase 30 anos de existência. Uma companhia rentável com um certo volume de vendas, um prestigio dentro da indústria farmacêutica e a gente achava que ela podia crescer mais e só não crescia por alguma falta de ânimo que havia dentro da companhia. Então a idéia foi melhorar o atacado. Melhorou o atacado nós tivemos que voltar atrás por conta dessas dificuldades, tanto do lado do fornecedor como do lado do comprador, aí começamos mais do lado do varejo e em 73 nós convidamos um amigo nosso, formado pelo ITA também, que é o Luiz Matriucci que trabalhava na Pirelli na época, era Gerente de Marketing da Pirelli, e nós convidamos até porque um dos advogados que me convidou para trabalhar em São Paulo o Doutor Roberto Ópice - que a Drogaria já estava se mexendo, 2 anos que eu já estava lá, fazendo um outro nível de atividade -, ele me chama e diz: "Eu sou sócio da Drogaria São Paulo, você está crescendo e se você morre amanhã? Como fico eu como sócio?", então foi uma frase um pouco dura de se receber na época, mas foi correta. Quer dizer, primeiro você tem que ter alguém, primeiro que lhe substitua e depois que você possa discutir, alguém que tem o mesmo nível intelectual seu, que possa discutir problemas, discutir estratégias, discutir o que você vai fazer e que você possa com essa pessoa levantar a Drogaria, e depois mais uma, mais duas. Na verdade, foi só nós dois que ficamos até recentemente na Drogaria, depois em 90, nós precisamos ter uma diretoria contratada, ter mais Diretores porque fica difícil só dois tocarem. Não fizemos nada, esperamos mais ou menos até 99 acontecer e em 99 que tomamos a decisão de ter uma diretoria contratada e começamos a fazer isso aí, preparar. Tivermos a sorte de encontrar um executivo que tinha sido Diretor da Drograsil que é o Marcos Paiva, que foi convidado para ser o futuro superintendente da Drogaria São Paulo e ficamos mais 1 ano e meio com ele até ver se era aquilo que a gente esperava. Conhecia, mas não conhecia de perto: "Vamos ver se ele se adapta ao nosso ritmo de trabalho e nós também com ele." Tem um conhecimento bom e depois, esses outros três Diretores saíram da própria Drogaria, são pessoas formadas, um deles que é o Samuel Miguel que ele entrou como separador da Drogaria São Paulo, ele entrou com 14 anos na Drogaria São Paulo. Então ele entrou como separador, foi vendedor, foi para loja, foi balconista, foi sub Gerente, Gerente, Supervisor, Chefe de Supervisão e hoje é Diretor Comercial da Drogaria São Paulo.

Crescimento da Drogaria São Paulo
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P - E os outros dois também saíram da Drogaria São Paulo? Ronaldo - O outro que é o nosso Diretor Operacional também entrou no nosso depósito depois foi subindo. Foi conferente, foi Gerente do depósito. Nós temos dois depósitos, um aqui na Liberdade e outro em Diadema, porque como nós temos só varejo, o nosso negócio é logística de atendimento, não adianta você ir saindo para depósitos maiores porque você leva mais tempo para chegar na loja, então é melhor você ter núcleos, centros de distribuição. Então nós temos um na Liberdade e um em Diadema, cada um deles atende metade das lojas e continuando o crescimento da Drogaria São Paulo nós vamos ter um terceiro, um quarto ou um quinto, então nós gastamos menos tempo para sair do nosso depósito ir a loja e voltar. Então o caminhão carrega, vai às lojas - são cinco lojas mais ou menos que faz cada entrega -, volta carrega, faz mais cinco. Nós temos um carro central, no caso na Liberdade, que tem um eixo Leste-Oeste com 23 de Maio, quer dizer, é fácil sair para qualquer lado, e temos em Diadema ao lado da Imigrantes que também é fácil você ir para qualquer lado. M

P - Quantas lojas são hoje? Ronaldo - Hoje funcionando são 176 lojas. M

P - Todas em São Paulo ou também no interior? Ronaldo - É interior de São Paulo. A maioria é grande São Paulo, o básico, nosso centro é Município de São Paulo, nós temos um pouco mais de 100 lojas no Município de São Paulo, depois nós temos lojas em toda Grande São Paulo, em todo Município de São Paulo, temos uma presença forte no Vale do Paraíba que nós vamos até Caçapava, temos uma presença forte na Baixada também que é Santos, São Vicente, Praia Grande, Guarujá e temos na região de Campinas, agora que estamos abrindo mais lojas dentro de Campinas.

Mudanças no mercado farmacêutico
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P - Houve muitas mudanças no mercado de farmácia durante todo esse tempo? Ronaldo - Sim, o início que nós tínhamos no mercado varejista nós tínhamos o desconto no centro da cidade. Aqui em São Paulo o desconto estava localizado na Praça da Sé, era a Drogaria do Farto praticamente que dava desconto isso é mais ou menos desde a década de 50 que ele começou a fazer anúncio em jornal, que era um dos nomes do varejo, o nome dele era Onofre de Oliveira Farto falecido há uns 15 anos mais ou menos. Então ele veio e criou a Drogaria do Farto que era um andar na Praça da Sé, não tinha loja nenhuma e o slogan dele na época era: "Suba que o preço desce." E começou a fazer anúncio na Gazeta que era o grande jornal na época e a nossa primeira página era quatro, cinco remédios aquele preço e as pessoas não acompanhavam, inclusive porque a Drogaria São Paulo tinha o atacado e o varejo, então se ela fosse acompanhar no varejo esse preço os clientes dela iam reclamar, a outra grande empresa que existia era a Drogasil que tinha a mesma forma de atuação, as lojas também faziam atacado e varejo, então também não podia comprar e com isso a Drogaria do Farto foi crescendo cada vez mais e aumentando, as pessoas que vinham até de outro estado para comprar na Praça da Sé. E o negócio do Farto era ter uma loja só, então ele vendeu essa loja para uma outra pessoa e abriu uma outra loja na própria Praça da Sé que chama Drogaria do Onofre, que existe até hoje, que mudaram as pessoas e hoje é uma rede, mas foi dele também, aí ele abriu uma terceira loja chamada Onofarto que era sempre dele, então era o começo do nome dele e o final. Ele teve uma meia dúzia de lojas em São Paulo sempre sendo tendo uma só. Ele fazia a loja, levantava a loja e vendia para alguém, depois ia para outro lado, fazia loja, levantava loja, porque ele tinha um estoque muito bom. Sempre teve essa preocupação também de ter um bom estoque, tinha o preço e fazia o anúncio do preço. Então só pegando como história, esse que era o varejo na década de 60 e quando nós entramos na década de 70, que a gente começou aumentar em lojas a gente começou a levar desconto para os bairros. Nós começamos a sair do atacado que foi em 74, começamos então a dar desconto nas nossas lojas e um dos slogans que a gente fazia era propaganda para eles, porque a gente colocava nas nossas lojas; "Desconto que nem na Praça da Sé." Era essa a nossa comunicação com o consumidor, dizer que não precisava mais ir a Praça da Sé, ele podia comprar lá em Santo Amaro o mesmo preço que vendia na Praça da Sé. E aí foi criando-se este desconto e também a modificação da forma das farmácias. As farmácias... Foi uma coisa que nós vimos no Rio de Janeiro, era uma Drogaria que se chamava Drogaria do Povo que hoje acabou por vários problemas, onde eles colocaram as Caixas na porta, que nem já estava começando o auto-serviço como nos Supermercados. E nós fomos ao Rio e vimos que isso é uma forma de atender muito mais rapidamente o cliente, ao invés dele pegar o produto e ir até aquela caixa no fundo da loja, de vez em quando pegar o produto, então traz a Caixa para porta, ele vai ao balcão quando ele quer ser atendido no medicamento, apresenta a receita ou então pede o produto, o balconista lhe atende e depois ele tem a oferta dos produtos que ele pode se servir no auto-serviço, produtos de perfumaria ou algum produto de uso popular no medicamento e aí ele pega uma cestinha vai ao Caixa e paga, porque a gente começou. Fomos nós que começamos a fazer isso em São Paulo, mas foi uma cópia direta do Rio de Janeiro e isso mudou a cara, você só conhece para frente essa maneira de trabalhar. A outra foi o trabalho à noite, você já tinha em São Paulo algumas farmácias que trabalhavam à noite, eram poucas, umas quatro ou cinco normalmente no centro da cidade que elas estavam localizadas, e nós tivemos em Santo André. Isso também foi em 74, 75 onde o Prefeito de Santo André na época queria que as farmácias trabalhassem à noite e ninguém queria trabalhar porque ele queria um plantão noturno, então as farmácias trabalhariam: "Como é que você vai ter uma equipe para fazer plantão noturno? Não tem condição." Então o que a gente propôs ao Prefeito na época, porque ninguém queria fazer: "A Drogaria São Paulo pode fazer isso, só que ela faz desde que as outras farmácias indiquem que ela está aberta." Aí nós colocamos equipes para trabalhar à noite, nós tínhamos muito medo de assalto na época, e havia Guarda Municipal que depois acabou e voltou novamente, e o Município nos deu proteção policial, então às 6 horas da tarde encostava uma viatura e saía no outro dia às 8 horas da manhã. Então nós tínhamos proteção, não tínhamos assalto, o cliente nosso que fosse lá também comprar, também se sentia seguro porque não ia ser assaltado, e nós começamos a ter a propaganda das outras farmácias que nós estávamos trabalhando à noite, mas a gente fez realmente mais para resolver o problema de Santo André. A gente não percebeu que havia um potencial muito grande na venda noturna e talvez nem tanto na venda noturna, mas no conceito de trabalhar 24 horas e aí nós começamos a ver que a nossa loja começou a vender mais, então: "Vamos experimentar uma segunda loja." Uma segunda loja com 24 horas vende mais, aí uma terceira loja, aí começamos a fazer divulgação a motorista de táxi, começar a divulgar para os motoristas de táxi quem são as farmácias 24 horas porque a melhor coisa que tem é o taxista. O cara entra: "Eu quero ir numa farmácia." Ele ficar sabendo que a Drogaria São Paulo trabalha 24 horas e ficou sabendo ao longo do tempo e aí começaram as farmácias 24 horas que também como rede nós fomos pioneiros em São Paulo.

Sucesso da Drogaria São Paulo
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P - E quais são os fatores decisivos para o sucesso de uma empresa? Ronaldo - O primeiro é você pensar muito na frente, você não pode pensar na sua venda de amanhã. Sua venda de amanhã ou sua venda de hoje é importante, mas você tem que pensar no que você vai vender no ano que vem ou no outro ano, o que o consumidor vai ser. Era o pensamento semelhante, vamos dizer, em relação a Rede Globo, o tal do plin plin. O que você precisa para que a pessoa seja fiel ao canal, no caso da Globo você faz um trabalho de qualidade e você atrai as pessoas para que elas não mudem de canal. Hoje infelizmente tem controle remoto e todas as pessoas mudam de canal, mas na época quando começaram a fazer isso não tinha. Você precisa que a pessoa fique fiel a sua farmácia e que ela saiba que lá tem um bom atendimento, que tenha um estoque que você está querendo. Então no caso nosso, creio que de um modo geral, você tem que criar um hábito na pessoa, ela tem que ir aquele local sempre, tem que ter confiança que lá vai ser bem atendido, vai ter primeiro o produto que procura que é o mais importante. Eu acho que em qualquer caso, mas mais no remédio que você vai com o nome específico - ou o médico te receitou o nome ou você já tem aquilo lá porque você já tomou, já se sentiu bem, e aí é um erro inclusive que as pessoas coloquem que a maior parte dos remédios que você vende numa farmácia é sem receita médica, embora você tenha aquela tarja vermelha que diz que é remédio sob prescrição médica. De vez em quando tem uns repórteres da vida que erram nisso aí, porque ninguém vai tomar um remédio que é sob prescrição médica sem ter uma prescrição médica anterior. Agora ninguém também vai levar na farmácia a prescrição para mostrar em cada caso, ela vai mostrar no caso remédio controlado porque esse remédio é retido a receita, é só um problema burocrático que retém, também não sei para que, é uma grande bobagem porque infelizmente você quer comprar uma droga, as pessoas querem comprar as drogas elas sabem onde encontram, não é isso que é o controle, são regimes burocráticos que só incomodam as pessoas normais. Agora o que é sob prescrição médica, vamos supor, no meu caso específico, eu tomo 3 remédios sob prescrição médica e só usei a receita médica a primeira vez. Eu não vou a farmácia levar essa receita médica, não tem sentido eu levar, eu tomo aquele remédio, eu tomo remédio para pressão, eu tomo remédio para trombose, eu tomo remédio contra o colesterol. E vou ao médico freqüentemente, até porque o remédio para trombose, eu tenho que ter um controle mais freqüente e, ele me altera o receituário, o numero de comprimidos que eu vou tomar. Agora eu não vou levar a receita. Agora eu estou comprando remédio sob prescrição médica. Agora sob prescrição médica não quer dizer contra apresentação da receita médica o que infelizmente tem muita gente que acusa a farmácia de fazer a coisa errada, que não está fazendo, que está vendendo para pessoa que já tomou aquele remédio uma vez, duas vezes, 50 vezes. Esses remédios que estou tomando são remédios que vão me acompanhar a vida inteira, então há um erro técnico nessa parte, infelizmente é questão de cultura a pessoa tem que entender. Agora voltando a parte de procurar ter uma qualidade: é ter o produto, é ter um horário, é ter um atendente de nível que entenda alguma coisa que vai fazer, ter um farmacêutico algumas horas por dia. Eu realmente não vejo o por quê, existe uma legislação no Brasil que você tem que ter um farmacêutico todo horário de funcionamento da farmácia, o que eu acho uma grande bobagem, para que você vai ter um farmacêutico às 2 horas da manhã numa farmácia? Quem vai a farmácia às 2 horas da manhã já vai com o produto, vai com nome, não quer saber nada, a pessoa já está tomando o remédio, não quer nem saber se tem interferência ou se não tem, então a utilidade farmacêutica é zero essa hora. Entretanto tem um custo. Se você tiver um farmacêutico para trabalhar às 2 da manhã ele não vai querer ganhar um simples salário para trabalhar, entretanto a legislação existe e não é obedecida, e de vez quando você tem alguns problemas desse lado. M

P - Eu queria que você falasse um pouco desses fatores decisivos. Quais foram as medidas que vocês tomaram dentro da organização, internamente, e que permitiram crescer tanto a rede de Drogarias. Ronaldo - Primeiro sempre um respeito ao funcionário, isso foi uma coisa que sempre existiu na Drogaria São Paulo, desde da época que meu pai existia. Eu devia ter colocado antes: "Você ser sério e ser responsável com as pessoas que trabalham com você e agradecer essas pessoas." Elas têm que sentir vontade de trabalhar na companhia e você deve mostrar para elas, no caso, um horizonte de crescimento. Você aproveitar as pessoas para que elas possam se desenvolver dentro da empresa. Porque grande parte das pessoas - você tem o exemplo do meu pai, ele entrou aos 14 anos numa farmácia para ajudar na limpeza, lavar vidro e depois chegou a fundador da Drogaria São Paulo -, também teve um crescimento na profissão, de enxergar que isso é possível, desde que você tenha competência e tenha vontade, então esse encaixe é muito importante desse lado. E depois integrando as pessoas, procurando instruí-las sobre o assunto, fazer curso para que ela possa aprender e ter uma melhor qualificação dentro dela. A Drogaria São Paulo é a única empresa varejista de medicamentos que dá participação nos lucros para os seus funcionários - que há 6 anos que acho que tem, primeiro foi a medida provisória que foi durante anos até o pessoal votar e hoje é a legislação -, agora como não tem punição para as empresas que não dão participação, a grande maioria das empresas não dá participação. No varejo eu desconheço alguma que faça, no caso do varejo de medicamentos no país a única que dá é a Drogaria São Paulo, porque ela procurou transmitir aos funcionários que eles não são responsáveis só pelo trabalho do dia-a-dia, eles são responsáveis também pelo resultado final da companhia. Então parte desse resultado ele vai ganhar e ao ganhar a missa ele começa a se preocupar um pouco com isso, então ele faz parte do que nós estamos ganhando, ele está ganhando para nós e por ele, e se está ganhando para nós ele vai ganhar uma parte, entende? Acho que essa legislação que é do nosso Presidente, uma das coisas que eles acertaram acho que foi isso, infelizmente mal compreendida pela parte patronal. No caso de alguns sindicatos, no caso dos Metalúrgicos por exemplo, eles levam os Metalúrgicos aos acordos sindicais que são feitos na participação e no fim são iguais, o que a gente acha errado também, quer dizer, você dá o mesmo valor para todos funcionários, desde que ele seja um office boy até um Gerente ou Supervisor. A gente acha errado isso, deveria ter uma relação direta com o salário porque ele dá o trabalho de acordo com a competência dele. O que pode fazer um Supervisor ganhar na companhia é muito mais que pode fazer um office boy ganhar pela área atuação dele, então deveria ter uma relação direta com o salário e nós aproveitamos para fazer com freqüência com as pessoas, quer dizer, as pessoas não têm que ter faltas, em tendo faltas, não interessa sendo justificada ou não, não recebe, aí é uma briga muito grande com os sindicatos desse lado. A pessoa justificou a falta, ela foi ao médico, infelizmente às vezes a pessoa vai ao médico e o médico dá a justificativa sem ser correto. Agora se ele sabe que para ganhar a participação ele não pode faltar, ele não falta. É claro que pode acontecer da pessoa estar doente e até se sacrificar, nesse caso a gente procura analisar caso a caso e se a gente acha que é correto a gente paga a participação para ele, isso a gente tem feito. A gente acha que isso ajuda as pessoas a terem mais vontade ainda de trabalhar na Drogaria São Paulo e com isso ajudar a Drogaria São Paulo a crescer.

Mudanças na Drogaria São Paulo: diretoria contratada
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P - Você estava colocando que hoje vocês montaram uma diretoria, esse processo dos últimos 2, 3 anos como ele começou a ser trabalhado? Por que vocês resolveram criar essa diretoria? Ronaldo - Nós começamos arcar isso porque hoje nós somos oito sócios na Drogaria São Paulo, então teríamos o problema da segunda geração, quer dizer, eu sou a segunda geração na Drogaria, quer dizer o único que fui. Quer dizer o Thomaz é o fundador, os outros que fizeram, eu fui contra inclusive. Quando eu fui para Drogaria São Paulo eu disse: "Vou eu e eu. Não vai filho de mais ninguém. Se vier filho de alguém eu saio." Foi uma das condições que eu coloquei na época. Depois nós tínhamos por lance que um dos nossos filhos fosse pra Drogaria São Paulo. Esse foi um dos problemas difíceis que eu tive de relacionamento com meus filhos. Convencê-los que não seria natural que eles fossem para Drogaria São Paulo. É um problema que eu tenho até hoje na verdade, uma coisa que não foi bem resolvida, mas eu tento passar que eles são sócios da Drogaria São Paulo, não precisam ser executivos da Drogaria São Paulo, o fato deles serem executivos da Drogaria São Paulo primeiro eles tem que ter competência, pode ser que eles tenham, não sei, mas tem um outro problema que é número de pessoas. Quer dizer, eu tenho dois filhos, meu irmão tem três, o Luís tem dois, o outro sócio tem quatro. Quer dizer, se você pega e soma dá 20, não têm o que fazer, não tem lugar para 20 pessoas com nível superior na Drogaria São Paulo. Então para que criar isso? Se o problema é salário, faz um outro negócio. Uma outra coisa que a gente colocou e não acabou acontecendo é MacDonalds. O que o MacDonalds exige para ser um franquiado? MacDonalds, você tem que ter tido sucesso no teu negócio, você tem que estar disposto a jogar o teu negócio fora ou o seu emprego fora e arriscar a barriga no balcão aí você pode ser franquiado, e sendo franquiado e tendo sucesso na franquia você pode pegar uma segunda franquia. O MacDonalds não dá franquia para capitalista, ele dá franquia para pessoas de sucesso que vão, primeiro: ele já mostrou que tem competência porque teve sucesso naquilo que fazia, segundo, está disposto arriscar isso, e arriscar isso mostra que ela vai ter que ganhar na frente senão jogou tudo fora aquele passado? Então foi isso que a gente colocou também. Se for MacDonalds, quer dizer, você vai para fora, faz o negócio, ganha dinheiro, larga o teu negócio vem para cá a gente pode discutir. Infelizmente não aconteceu, mas seria uma maneira, mas não sendo isso é melhor ter uma diretoria contratada onde as pessoas têm vontade de fazer e você como sócio acompanha isso, acompanha com auditoria. Infelizmente está havendo casos de auditoria nos Estados Unidos que é um escândalo, quer dizer, não é por ter uma auditoria multinacional que a coisa é correta, infelizmente pode não ser. Mas é isso que está se tentando fazer, acompanhando para que eles tenham uma diretoria que trabalhe, que possa desenvolver a companhia e se não der certo é mais fácil trocar. Você trocar um Diretor que não está dando certo, você manda embora. Agora você mandar embora o seu filho é muito mais complicado. M

P - Em cima dessas medidas como você vê o futuro da empresa? Ronaldo - Uma facilidade de crescimento você tendo mais diretores. Você pode ir para alguns lugares que talvez nós não quiséssemos ir, não tivéssemos mais com ânimo para ir. Vamos dizer se a gente fosse fazer uma série de lojas em Salvador, na Bahia. A Bahia vamos dizer que está mal abastecida, as redes lá não estão muito bem, então vamos abrir 30 lojas na Bahia. Alguém tem que ir lá acompanhar o dia-a-dia na Bahia, a restauração. Tem que passar a semana ali e tem que ou largar a família aqui ou levar para lá e se não está disposto a fazer nem uma e nem outra? Agora pode ser que uma pessoa com 30, 35 anos esteja disposta a fazer isso. Ela vai encarar o negócio na Bahia e é o crescimento de qualquer companhia grande, ela tem que começar a crescer com pessoas contratadas e isso faz uma diferença, por isso que está extintando o contratado, porque é a maldita profissionalização da empresa. Acho uma frase errada, profissional a Drogaria São Paulo sempre foi, independente das pessoas estarem lá tendo capital na empresa elas atuavam como profissionais, então o correto é falar "Pessoas contratadas e não profissionais." Você pode ser sócio e não profissional.

Vida familiar
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P - Vamos voltar um pouquinho... Você se casou em que ano? Ronaldo - Em 69. M

P - Você tem dois filhos é isso? Ronaldo - Dois filhos. M

P - Como é o seu dia a dia com a família? Ronaldo - O filho mais velho hoje, ele tem um estúdio de gravação, ele grava cds. Tem um estúdio moderno em frente ao Teatro São Pedro, é um bom estúdio. Ele começou a fazer Administração de Empresa e não terminou e o mais novo fez Veterinária. Veterinária a minha mulher tinha um pet shop, ou tem um pet shop, mas a minha nora que trabalha no pet shop que é o Pet Stop em Higienópolis que é esquina da Albuquerque Lins com Marques de Itú e é um dos melhores pet shops que se tem por aí. Deu um outro padrão, outro nível de atividade, porque ela gostava muito disso, então você tem um pet com qualidade, com veterinário, com uma série de coisas que as pessoas hoje tentam correr atrás para ter o mesmo nível de qualidade, e meu filho tinha uma parte de animais exóticos no primeiro andar, tinha uma loja de bichos exóticos e de alimentação, iguana, cobra,... Só que nós temos também dentro da burocracia brasileira o tal do Ibama, que também não sabe muito bem onde está a frente, não deixa vender o produto importado. Porque ele ia trabalhar legalmente, quer dizer, você não tem iguana no Brasil, não é um bicho nativo do Brasil, você tem que trazer de outros países, então você tem que importar e o Ibama não dá licença de importação. Ou você trabalha com contrabando ou não trabalha. Evidentemente como você não pode trabalhar com contrabando ele acabou fechando a loja dele, foi uma decepção muito grande porque você vê dezenas de lojas vendendo produtos contrabandeados que é ridículo, mas é a visão errada que infelizmente alguns burocratas têm. Aí ele começou a se dedicar a corrida, é piloto de rally, acabou de fazer o rally do sertões. Não é profissional nisso, mas dentro dos amadores é muito bem conceituado. M

P - Esse é o mais novo? Ronaldo - O mais novo. M

P - E o mais velho é casado? Ronaldo - É casado, vai fazer 3 anos de casamento e ele não tem... Entre reclamações que eu faço eu criei há uns 5, 6 anos atrás o MSN que era o Movimento dos Sem Netos, eu e mais alguns conhecidos que não tinham netos, porque a preocupação é: "Quando é que nós vamos levá-los a Disney World?" Eu estou com 58 anos, para o ano que vem eu vou estar com 59, você vai ter daqui a 10 anos, você pode levar com 3 anos aí não adianta nada, para ele tanto faz aqui o SP Market ou lá, é igualzinho, para ter uma consciência do que é um passeio desse ou para esquiar tem que ter 8 ou 10 anos, é o mínimo. Eu vou estar com 70 anos, parei na mesa de Confins que eu podia estar com 50 anos com neto, isso já passou, só no próximo ano.

Sonhos
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P - Eu queria que você falasse o seu sonho pro futuro, qual é o seu maior sonho, Ronaldo? Ronaldo - Hoje o que tentar fazer no caso da Drogaria, espero que seja uma firma que continue a crescer, é uma firma que vai fazer 60 anos agora eu gostaria muito que ela fizesse 70, 80, 100 que continuasse pra esse lado, a gente tá procurando dentro da vida agora se procurar se preocupar mais com outras coisas deixar aquele dia a dia tão estressante que tem, infelizmente tem alguns casos que até aumenta que nós entramos agora com uma campanha muito grande contra a sonegação, nós fundamos inclusive com mais um grupo de empresas do setor farmacêutico a ABRADEM que é Associação Brasileira de Defesa do Mercado, na verdade não é defesa do mercado é contra a sonegação, porque nós descobrimos alguns anos atrás, que são quatro empresas que são a Drogasil, Droga Raia, Farmax e Drogaria São Paulo que tem dentro do estado de São Paulo 25 % do mercado, através de informações da própria indústria, dos institutos de pesquisa que acompanham isso, e nós recolhemos 80% do ICMS do estado de São Paulo, o que mostra uma incoerência muito grande, nós devíamos estar recolhendo 25%, o que mostra então que há uma sonegação ou uma renúncia fiscal porque foi criado o SIMPLES que são empresas de pequeno porte até x reais eu não pago nada, até não sei quanto eu pago um percentual sobre a venda, e isso poderia ser feito para empresas realmente pequenas, agora uma farmácia nunca pode ser uma micro empresa, você não pode ter uma farmácia que venda 10 mil reais por mês, a farmácia que vende 10 mil reais por mês ela fecha, ela não tem condições de sub existência e 60% das farmácias no estado de São Paulo se declaram micro empresas e o nosso Secretário aceita, o nosso Coordenador aceita, o nosso Governador aceita o que é uma grande piada, infelizmente a gente fala, denuncia, faz e nada é feito então nós estamos criando uma Associação para ver que com isso trazemos outros setores para discutir esse assunto, porque principalmente aqueles impostos em cascata que são o PIS e Cofins que o nosso setor que também é parte do nosso trabalho junto ao Ministro Serra, que foi ele que fez alguma coisa para o setor, metade dos medicamentos não tem mais PIS/Cofins é zero, a indústria não paga, o atacado não paga, nós não pagamos. A outra metade e parte da perfumaria se paga tudo em Cofins, então em vez da indústria pagar 3,65, 3 de Cofins, 65 de PIS ela paga 10 e pouco, a indústria então o preço é 10 e pouco de imposto, o atacado não paga mais, o varejo não paga mais. 50% houve renúncia fiscal, quer dizer não se paga nada, a arrecadação 3 meses após dobrou, a arrecadação de PIS/Cofins do setor dobrou, então é só fazer a regra de 3 e ver quanto que era a sonegação no país, é uma coisa muito simples que eles viram, estão vendo agora, o projeto hoje na Câmara o que o PIS vai ser cobrado só na indústria ao invés de 0,65 vai ser 1,65 porque ele já sabe qual vai ser o resultado a arrecadação, vai aumentar violentamente. E não passa o projeto, está parado no Congresso pelos vários interesses que tem que ser, teve um que falou que eram 300 picaretas que estavam lá, talvez tenham errado o numero.

Avaliação do depoimento
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P - Eu queria que você o que achou de ter contado a sua história para gente? Ronaldo - Eu acho bom, eu acho que o registro que você fez é muito interessante, é uma maneira de você passar para gerações futuras ou mesmo atuais, que você possa discutir, que as pessoas possam aprender um pouco mais com que a pessoa está falando. Não é o escrito porque o escrito sempre tem interpretação. Eu tenho uma experiência com a imprensa muito antiga, desde que eu entrei no ramo eu mexi com a imprensa, com vários repórteres com um certo conhecimento e infelizmente eu plantei muita notícia para imprensa, quer dizer, eu colocava informações que eu queria que saísse e que não eram exatamente aquilo que seria realidade mas que teriam interesse e o repórter colocava. Ou às vezes você coloca uma coisa que é correta, ele não consegue entender, coloca outra coisa, então aquilo que está escrito através de um jornal ou revista às vezes não é exatamente aquilo que aconteceu, enquanto que você falando supostamente é. Você hoje pode gravar em cima e você fala uma coisa ele está até no caso da dublagem, não é porque você falou aquilo que vai ser tudo gravado exatamente, então você espera que isso não seja feito. M

P - Eu queria agradecer o seu depoimento, a sua presença aqui com a gente. Ronaldo - Eu que agradeço.

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