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Roda de Histórias – Quilombolas da Serra do Juá

Sinopse

No dia 31 de maio de 2014 foi realizada a Roda de Histórias com mulheres quilombolas da Serra do Juá. O encontro aconteceu na Escola de Educação Infantil e Educação Fundamental Maria Iracema do Nascimento, Serra do Juá, Caucaia (CE). A escola é um centro cultural e aglutinador dos moradores que lutam pelo reconhecimento e titulação de suas terras. Relatos sobre uma pobreza extrema e o processo de reconhecimento e construção de uma tradição quilombola foram marcantes.  

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No dia 31 de maio de 2014 foi realizada a Roda de Histórias com mulheres quilombolas da Serra do Juá. O encontro aconteceu na Escola de Educação Infantil e Educação Fundamental Maria Iracema do Nascimento, Serra do Juá, Caucaia (CE).

A Serra do Juá é um daqueles lugares que vale conhecer. De seu chão batido, cercas, mangueiras, abundante mata e rostos cansados, pode-se aprender sobre algumas facetas do mundo em que se vive. Do aparente abandono e do barulho do ronco de motores de turistas pouco atenciosos, que circulam por seu coração com motos e jipes rasgando suas trilhas, encontram-se histórias ricas de emoção, luta, e superação. Por meio dessas narrativas, desvela-se novamente um Brasil que poucos conhecem.

De acordo com as moradoras e participantes da Roda de Histórias, no passado, a Serra abrigava muitas famílias. Apesar da pobreza, havia uma grande coletividade e vida cultural religiosa na região. Maria do Socorro, por exemplo, conta que: “Tinha muita família no passado, tinha família, família mesmo, que começava lá do pé da serra, aonde eu morava, daqui a acolá tinha uma casinha, e ia até na Dona Alaíde, não era? Aqui e acolá uma casinha, e todas as casas tinha muita gente, as famílias era grande, era muita gente. Quando tinha uma coroação aqui na tia Iracema, uma novena no mês de maio, essa estrada, você botava a vista lá naquela porteira que tem, ia lá na outra porteira que tem aqui na frente, a procissão, a coisa mais, só gente daqui do nosso lugar, porque era gente demais, criança, gente adulto, velhinho, velhinha, tinha muito. Agora, de certo tempo pra cá que tá se acabando os velhinhos, o povo indo se embora, era lindo, lindo”.

A proximidade da comunidade com o centro de Caucaia fez com que gradativamente as famílias fossem deixando a localidade, todos em busca de um sonho de prosperidade. Para os que ficaram, a decadência veio a galope; as cercas criaram pernas e o próprio estado deixou de olhar para seus moradores. O escasso número de habitantes já não justificava um posto de saúde, nem mais escolas.

Oriunda de imigrantes antigos, negros libertos vindos da Serra da Rajada, conforme afirmado por Cláudia, uma das lideranças da comunidade, o que se viu foi uma sociedade que se desenvolveu, declinou, e agora busca por uma nova chance por meio de seu reconhecimento como quilombo.

As histórias que vieram do grupo de mulheres foram carregadas de emoções. Relatos de costumes antigos, tradicionais, e também histórias de extrema pobreza, contudo, com a presença da ajuda do coletivo.  Situações que podem ser vistas, por exemplo, na fala de Cláudia: “Naquela época não tinha televisão e, quando tinha, era duas ou três famílias que tinham, aí se juntava todo mundo de noite naquela casa pra assistir aquela televisão, aquele programa na televisão, e tinha essa unidade maior da comunidade. A Dona Iracema, ela foi uma grande militante, quando as pessoas adoeciam, ela chamava, nesse tempo, né, a situação financeira era bem mais difícil, a gente tinha muito pouco, e aí a gente só tinha mesmo o que tirava do roçado. Porque esses produtos que hoje a gente já tem, nessa época ninguém tinha, não tinha inclusive mobiliário na casa, essas coisas, era tudo feito manualmente, as pessoas tinham, não tinham liquidificador, tinha o pilão, tinha as vasilhas de barro ...Tinha que fazer um ralo, pegava uma lata de óleo, furava todinha com prego, depois fazia um ralo e ralava o milho pra fazer a canjica, essas coisas. E aí a Dona Iracema chamava a comunidade e dizia: “Olha, alguém tá passando dificuldade, um pai de família que se cortou lá no roçado, vamos juntar aqui e vamos ajudar”. Então do pouco, do mínimo que todo mundo tinha, todo mundo ajudava e aí levava uma cesta básica grande, né, pra essa família, tinha muito isso”.

Foi muito importante ouvir e registrar estes pontos de vista da história da região. Um olhar de lupa. Uma história do cotidiano de uma pequena região. Hoje, já reconhecidas pela Fundação Palmares, elas continuam no processo de titulação da terra. 

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