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Nós, filhos da esperança...

História de: Milton Fagundes
Autor: Maria Beatriz Fagundes
Publicado em: 24/05/2018

Sinopse

Vivíamos tudo, tudo que nos era permitido viver. Nós, os meninos da "roda da esperança", nada tínhamos além da roupa do corpo e de esperanças. Esperávamos pelo próximo amanhecer, pela próxima refeição magra, mas quente, pelo final da guerra. Esperávamos pelo fim de nossa luta diária, silenciosa, anônima; o dia triunfal, quando alguém chegaria, escreveria um nome em nossos documentos de identidade e nos levaria para casa, para a nossa casa. A inocência era o anjo que nos protegia, pois esse dia jamais chegaria.

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História completa

Minha história não tem começo e tampouco nome, mas foi ganhando identidade, dia após dia, na medida em que foi sendo escrita. Quando me reconheci em uma fotografia, me dei conta de que estava no mundo, no meu mundo, solitário e quase miserável, mas vasto, tão vasto quanto minha imaginação infantil; estendia-se do centro de São Paulo, no bairro de Santa Cecília até a Alemanha nazista. Pois fora para lá que meu pai, imaginava, havia sido recrutado. E por esse motivo, só por isso, me fizera órfão em 27 de setembro de 1939. Enquanto pracinhas morriam longe de sua pátria, lutando contra um frio estéril em uma Europa totalitária, que eu nem sabia onde ficava, eu e mais algumas dezenas de meninos, filhos de ninguém, sobrevivíamos a nossa guerra cotidiana. Precisamos manter na alma toda a vida latente que pudesse caber em nossos pequeninos corpos; magros, desnutridos mas, ainda assim, aquecidos por um escaldante sol tropical. Vivíamos tudo, tudo que nos era permitido viver. Nós, os meninos da "roda dos excluídos", nada tínhamos além da roupa do corpo e de esperanças. Esperávamos o próximo amanhecer, o próximo passeio, a próxima refeição magra, mas quente, um final da guerra próximo. Esperávamos pelo fim de nossa luta diária, silenciosa, anônima; um dia triunfal, quando alguém chegaria, escreveria um nome em nossos documentos de identidade e nos levaria para casa, para a nossa casa. A inocência era o anjo que nos protegia, pois esse dia jamais chegaria. A roda da esperança já havia girado, e como uma caixinha de música, marcava para sempre, e sem início, a nossa canção de ninar. Nosso tempo não conhecia o passado, nem o futuro, era somente um tempo presente, sem começo, sem fim; ritmado pelas enfadonhas horas de rezas, estudos e tarefas domésticas. Mas de alguma forma a regularidade do tempo, dia após dia, também nos protegia de nós mesmos, nos arrancava de nossa triste essência de excluídos, obrigando à nossa tênue existência alguma vida. Nós, um pequeno exército de enjeitados, insignificantes, rebentos de quem sabe lá quem, nos orgulhávamos de, aos domingos, poder desfilar impecavelmente enfileirados, mesmo que à custa de muitos tabefes e bofetões, pela Rua Jaguaribe, seguindo em direção a Avenida Pacaembu, onde íamos brincar nos campinhos de várzea. Assim acreditávamos, vez ou outra, que nos era permitido participar do mundo; jogando futebol ou espreitando a felicidade pelas frestas dos janelões das casas de família. Quantas vezes desejei parar o tempo das coisas e viver plenamente o tempo dos pensamentos? Ganhar a vida da minha imaginação? Tais paisagens, rascunhos de memória, memórias passadas a limpo, não harmonizam com os imponentes edifícios espelhados e sem janelas que fotografo hoje, quando, de visita, vagueio pelas Avenidas Angélica e Pacaembu. Os vastos parques arborizados e os casarões desapareceram; e com eles a minha esperança de poder espiar através de uma janela, mesmo que por um lampejar de segundo, aquela que um dia, talvez num momento de desespero e insensatez, sentido-se tão desamparada quanto eu quando me percebi sozinho e sem nome, me deitou ali, só com a roupa do corpo e um chapeuzinho azul. A "Roda da Esperança", ao girar, disparou a seta do tempo e separou para sempre nossas trajetórias. Nascemos, vivemos e morremos em nossas histórias. Rostos e gostos que eu precisei esquecer, outros que, mais do que tudo, desejei conhecer. Histórias e desejos que se misturam e não se deixam fixar em palavras, tampouco em um único nome ou naquela imagem, quando me reconheço no olhar de criança triste em uma fotografia desfocada que, com o passar do tempo, foi perdendo a cor. Mas o passado, desbotado, também foi cedendo espaço para a vida (re)inventada, com passado e futuro. Eu, M. Fagundes, filho de não sei quem, esposo, pai e avô, também assino esta história, que agora continua com nome próprio, pois é uma história que não é mais só minha, mas também das seis mulheres que guardam em seus nomes, em suas esperanças e em seus corações, o meu nome, o nosso verdadeiro nome.

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