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História

Rocinha: a morada de um compositor pescador de sonhos

História de: Edgar Vieira do Rosário
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/07/2010

Sinopse

Infância no Rio de Janeiro. Trabalho como compositor, pescador profissional e funcionário público do governo estadual. Habitação na Rocinha. Reflexão sobre seu relacionamento com o governo, com empresas, com a comunidade e com a família. Aposentadoria e dificuldades em manter os cuidados com a saúde.

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História completa


P/1 – Douglas Tomás.

R – Edgar Vieira do Rosário.


P/1 – Senhor Edgard, eu vou pedir, pra gente começar a nossa entrevista, que você diga o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.


R – Meu nome é Edgar Vieira do Rosário, nascido em 04 de abril de 1931, morador aqui da Rocinha desde 1956. Sou o compositor mais velho da Rocinha.


P/1 – Senhor Edgar, onde é que o senhor nasceu?


R – Ramos (bairro na zona norte do município do Rio de Janeiro).


P/1 – E em que lugar o senhor mora hoje? Com é que é lá? Que lugar aqui da Rocinha que o senhor mora?


R - Olha, minha casinha é uma partezinha de 16 metros quadrados, dois andares e ainda tenho em cima um lugar onde eu coloco minhas roupas pra secar, tá entendendo? É pequena, mas eu tenho meu computador, tenho telefone de recado e comprei um fax com sacrifício, mas comprei porque eu larguei a Oi porque a Oi tava me cobrando mais do que eu podia pagar. Então larguei a Oi, tô passando fax. Vou passar fax até pro presidente da república. Eu me sinto à vontade. Meu acervo musical tem mais de 280 músicas, serestas, poesias, só não tenho funk, mas tenho hinos. Tenho dois hinos que eu vou dar pra Guanabara agora pro governador, pro prefeito. Governador não, ele tá fora do meu esquema. O governador tá fora do meu esquema, nunca me ajudou em nada, dei sempre voto a ele, nunca me ajudou em nada, tô passando fome. Tô passando fome, tô comendo batata doce e aipim e tomando chá de capim-limão. Muitas vezes passei por isso, tá entendendo? Passei por isso e de vez em quando eu passo. Eu compro toda semana dois quilos de batata, dois quilos de aipim pra não ficar passando fome dentro de casa porque o governador não me ajudou em nada. Tô recebendo um salário base de 157 reais, era 151, o governador deu um aumento monstro pra nós, seis reais! Estamos com um salário base de 157 reais. Eu recebo 600 reais porque tenho um cargo de chefia, que eu fui chefe no Palácio Guanabara de Faria Lima, Moreira Franco, tá entendendo? E tô vivendo assim, tô vivendo de uma miséria. Tô devendo a três bancos, quando o salário chega no dia 15 eu já tô devendo 400 reais. Quero dizer, eu tô vivendo uma vida de cachorro depois de velho, tá entendendo? Passar o que eu passei... Fui sempre bom funcionário, tenho coisa de, como é... Um papel de bom funcionário e tudo, não sei o quê. Quando eu trabalhava na veterinária quem fazia as campanhas no Rio de Janeiro - Rio de Janeiro que eu digo assim, Botafogo, Leblon, Copacabana, Rocinha, Barra da Tijuca - quem fazia as campanhas não eram os veterinários não, era eu quem dava entrevista aos repórteres, tá entendendo? Como é que ela agia, como é que ela não agia. Os morros, todo vagabundo de morro, amigos e coisa, tudo era meu amigo, todo vagabundo era meu amigo. Eu chegava a qualquer comunidade eles sabiam quem eu era. “Ah, esse daí é o Rosário”. Eu chegava lá, pedia a eles licença pra entrar na comunidade, eles mandavam chamar o chefe deles e ele vinha, eu dizia: “Eu sou o Fulano de tal, trabalho na veterinária, sou o responsável pela vacinação e eu tô querendo que vocês me arranjem um lugar pra eu vacinar o cão e gato todos daqui da comunidade de vocês”. Aí ele mandava o tenente deles ir comigo, mandava o Fulano de tal arranjar pra mim, no outro dia eu tava lá com a equipe vacinando. Era o Morro de Canta Galo, era o Morro do Querosene, era o Morro do Martelo, era o Morro Azul. O pior morro que nós tínhamos naquele tempo era o Macedo Sobrinho no Humaitá em frente ao corpo de bombeiros, aquele morro que é agora (antes) era só mato. Aquele que era o morro mais terrível, a polícia tinha até medo de passar.


P/1 – E o senhor morava aonde nessa época?


R – Eu morava aqui no Vidigal nesse tempo.


P/1 – No Vidigal? Quando era?


R – No Vidigal não. Nessa época eu tava morando na Pacheco Leão, na rua que tem o nome do meu tio, de um tio meu, era o Maestro Joviniano. Quero dizer, eu tô levando uma vida de cachorro, uma vida de cachorro. Depois de velho, aleijado como vocês estão vendo, tenho 15 operações, tenho que fazer uma prótese do joelho, não consigo. Já andei em tudo quanto é hospital, até o Hospital Escola de Niterói não quiseram mexer na minha próstata. Eu operei no dia 06 de janeiro de 2006, operei a próstata pela segunda vez pelo canal. Eles fizeram uma porcaria, até hoje eu tô aqui... É bom que vocês estão pra vocês verem. Eu uso assim, rolo de papel higiênico, papel toalha por causa da secreção urinária. Eu tô usando como modes, tá entendendo? E ninguém vê isso. A nossa lei é muito falha. O Estado me deve de 1967 e 1968, tá na minha apostila, me deve 30% de risco de vida que eles não pagaram em 1967 e 1968 todo. Tá ali escrito, ali assinado. Só quando, porque o Estado não tinha dinheiro, só quando a arrecadação melhorasse. As arrecadações melhoraram, mandaram pagar em 1977, só pagaram os apadrinhados, os outros ficaram de fora. O Chagas Freitas (Antônio de Pádua Chagas Freitas), aquele pezão, aquele pé grande, digo mesmo, eu não tenho vergonha de falar não, eu falo mesmo. Eu às vezes falo muito palavrão e falo mesmo, mas eu não vou falar palavrão agora pra respeitar vocês porque é uma entrevista séria. Eu mandei o motorista, porque eu era chefe deles, deixar o Chagas Freitas na rua porque ele entrava no carro porque tava aborrecido lá da reunião dele, metia aquele pezão número 60 nas costas do motorista e andava com um jornal do dia na mão enrolado, batia na cabeça do motorista. Eu disse: “Deixe-o na rua.” “Ah, mas seu eu deixá-lo na rua ele me manda lá pra...” “Não vai, não porque o teu chefe direto sou eu. Você vai ficar em casa. Comigo o senhor vai ficar em casa. Deixe-o na rua”. Mandei deixar o Chagas a pé. Eu mandei, mandei e falo mesmo. Você sabe como é que eu sou, eu sou estourado também. Faltou de má educação, o motorista servindo ele direito e ele “pô” atazanando o motorista. Olha, ainda tenho coisa pra falar que se eu abrir o bico mesmo eu vou mandar verificar certas coisas até no palácio de lá de... Da serra lá. Como é o...


P/1 – De Petrópolis?


R – O museu. Até do museu eu sei que roubaram até a espada do homem lá, do coisa. Mas eu tô quieto, eu tô quieto, eles que não mexam comigo. Eu já disse, me tiraram o meu orkut, tá entendendo? Aí eu digo: “Vocês não estão sabendo com quem estão mexendo. Se eu jogar no ventilador vai sujar todo mundo e eu vou jogar no ventilador”. Eu vou dizer muita coisa aqui que os governadores vão ficar horrorizados com o que eles vão saber. Eu não tenho papas na língua, não. Mandaram me tirar o orkut, eu fui na federal (Polícia Federal), fui na coisa. “Ah, aqui você não tem nada não, não sei o quê...”. Eu fui lá. Eu não tenho coisa, não. Eu vou lá, dou a mão a palmatória pra bater. Não tem esse negócio, não. O que vocês quiserem eu sou... Eu sou pescador profissional também, agora não tenho mais condições nem pra pescar. Tive três barcos, um na Lagoa de Camorim, dois aqui na Lagoa Rodrigo de Freitas. Tenho um projeto pra se o vereador daqui quiser fazer esse projeto, pro prefeito botar um barco próprio pra tirar esses peixes mortos em decomposição porque os pescadores aqui estão tirando peixes nos seus barcos. Então estão tirando toneladas de peixes em barcos cheio de caverna, cheio de coisa. O barco que eu planejei, mandei, pedi pra mandarem pro César Maia, César Maia colocou uma traineira dentro da lagoa que quebrou, não dava nem tu abaixado tu não dava pra pegar peixe dentro da lagoa. A traineira foi embora, quer dizer e, no entanto ele podia fazer com a terça parte, menos da terça parte que ele gastou na traineira, um barco próprio que ia pegar quase duas toneladas de peixe de cada vez. Era só chegar à beira, entendeu? Todo fibrado, barco de cinco metros e meio com dois metros e 20 de boca, com a proa em forma de leque, em forma aberta de bico de pato, né? Você chegava com aquela tonelada de peixe, era só dar um calço assim na traseira dele ele despejava tudo, ou então o caminhão do lixo mesmo com aquele sugador parava tudo. Um negócio fácil. Pô, sou pescador profissional, eu sei os defeitos que a lagoa tem, eu sei onde tem pedra, onde tem ferro, onde tá raso, onde é fundo, sei de tudo.


P/1 –Senhor Edgar, voltando aqui ao tema da moradia, essa casa que o senhor mora o senhor mora sozinho?


R – Não. Agora eu tô coisa que minha mulher depois de eu ficar doente, aleijado e cego, tá entendendo, ela foi morar em Niterói com as sobrinhas dela. Então pediu o divórcio, tô divorciado dela, não quero nem saber o que será que ela tá fazendo. Agora, sobre a Rocinha...


P/1 – Mas o senhor tá morando sozinho? Quantas pessoas moram na casa?


R – Tô. Agora meu filho veio me ajudar, tá até desempregado, mas eu tô vendo se o coloco na comunidade aqui, trabalhando aqui na comunidade.


P/1 – E a casa é própria?


R – É. Então...


P/1 – Quando que o senhor veio morar aqui na Rocinha? Desde quando?


R – Eu vim morar quatro meses antes do governador tirar aquele primeiro de janeiro que houve um desastre, foi um caos total no Rio de Janeiro, a Rocinha toda, quase toda caiu. Era gente tirando gente, desenterrando gente no morro. Aquele monte de gente morta aqui aonde é a garagem dos ônibus ali em cima e nós trabalhando, trabalhando, trabalhando, tirando os amigos que a gente conhecia e tinha enterrado. A gente trazia pra ali aquele monte de gente morta, tá entendendo?


P/1 – Mas o que houve?


R – Era terrível. Todo mundo aqui era barraco, quase tudo era barraco, quase tudo. Quem tinha casa de tijolo eram uns ou outros que tinham mais uns trocadinhos. Agora não. Agora se você vir dois barracos na Rocinha, tu tá vendo muito. Agora é tudo de tijolo, a vida melhorou porque...


P/1 – Mas o que houve nessa época? Foi um... O senhor veio pra cá... O que houve? Essas pessoas mortas. Por que tinha... O que aconteceu?


R – Porque eu vim pra Rocinha?


P/1 – Não. O senhor falou que tinha muita gente morta, soterrada. O que é que aconteceu?


R – Ah é. Tinha muita gente morta. A gente tava, o pessoal todo trabalhando desenterrando esse pessoal todo e trazia aquele monte de gente morta. Seis, sete, oito...


P/1 – Mas o que aconteceu? Foi a chuva?


R – Foi por temporal. Esse temporal de primeiro de janeiro, ele tirou o feriado do dia primeiro de janeiro, dia de São Sebastião, não é isso? Parece que São Sebastião disse: “Agora é comigo”. Mandou aquele temporal. Aqui na gruta da imprensa, se você passar da gruta da imprensa daqui pra lá você vai ver um lugar assim que tem uma amendoeira na frente, você vai ver um lugar assim pra morro, é liso, o descampado é uma pedra. Ali morava uma família, casa boa, casa boa, anos e anos, era do meu amigo Leo e do pai dele. Só escaparam ele e o pai porque o pai era frentista no Leblon, em frente ao coisa tinha um posto de gasolina daqueles antigos, ele ainda tava trabalhando lá e o Leo tava trabalhando também de motorista de escola. Salvaram-se, mas o resto todo foi pra dentro d´água, até hoje não acharam nada da família dele. Passados uns três dias, dois dias eu fui pra lá, fui andando pra ver, cheguei lá fiquei ainda procurando com ele, consolando o Leo. Ele é dono de armazém no Vidigal. Antes da segunda rua do lado direito, Leo é o nome dele. Ele é motorista de coisa e a mulher dele também. Motorista de autoescola. Não, de autoescola não, de levar pessoas, crianças pra colégio.


P/1 – E por que o senhor veio morar aqui?


R – Aqui?


P/1 – É. Por quê? 


R - Meu filho, a situação já tava meio preta, então eu tinha um irmão dessa minha mulher que morava aqui. Era barraco. Mas era terrível, o barraco quando chovia a gente corria pra dentro de casa, levantava aquelas tábuas era rato, barata, lacraia, era... Vida de pobre ao lado mesmo de barraco. Depois foi indo, foi indo, eu fiz o primeiro andar, trabalhava no palácio. Então, lá tinham aquelas... Sabe aquelas coisas que são meia manilha, mas pesa mais de 70 quilos cada meia manilha daquelas? Eu pedi ao meu chefe, ele me deu. Aí eu peguei, trouxe, manilhei aquele lugar, umas manilhas desse tamanho assim, é uma com a outra, desse tamanho. Manilhei aquela coisa e fiz a casa em cima. É a única casa que pode dar enchente que não tem problema nenhum, que a manilha ali é uma manilha de não sei quantas... É isso assim, tá entendendo? Quer dizer, e estamos vivendo até hoje, mas o governador foi muito canalha, muito canalha mesmo. Eu tô passando fome por causa desse governador e ele, no entanto tá com os cofres abertos. O homem abriu os cobres pra ele, mas vê se ele dá um aumento pros funcionários? Você manda ver os funcionários dos hospitais e qual é o salário base deles? É brincadeira isso. Eu queria fazer uma reportagem monstro pro homem lá fora ver: “Pô, vocês falam muito do Brasil, os funcionários estão passando fome”. Eu digo mesmo, olha aqui, a maioria dos meus amigos, de muitos amigos, não são todos, são camelôs vendendo isso e vendendo aquilo, que eu não preciso nem falar, pra poder sobreviver. Por que quem é que pode, com um salário base de 400 ou 500 reais, sustentar mulher e dois filhos, pagar colheres, pagar comida, pagar passagem, pagar isso, pagar aquilo? Então a pessoa tem que se virar. Eu era pescador profissional, eu tinha minha carteira que era pescador profissional. Tenho a música, vendia música. Muitas vezes vendi 13 letras musicais a troco de banana porque tava quase passando fome. Então passei a fazer cartinhas amorosas perfumadas pra essas mulherzinhas que gostam de maridinho, tá entendendo? Chegava lá, aí por dez reais eu fazia até carta perfumada: “Meu querido, isso e aquilo, não sei o que lá e tal... Eu tô com saudade de você, volte pra mim não sei o quê”. Aquele negócio. Teve uma que até depois casou, depois casou, ligou pra mim: “Olha, muito obrigado.” “De quê?” “Ah, meu marido agora voltou pra casa, nós nos casamos, temos mais dois filhos”. Quer dizer, assim, fazendo cartinha até de dez reais pra poder sobreviver. O Estado não me deu uma caixa de remédio. Processei o Estado três meses, a nona vara de fazenda pública, tá lá meu nome lá. Depois de três meses me deram três remédios. Mas eu tomo uma porção de remédios. Eu tomo remédio pra coração, eu tenho que tomar remédio pra circulação, eu tenho que tomar remédio pra dor, que de noite o meu joelho dói e tal. Às vezes, as mãos ficam presas, quer dizer, tenho que chamar o meu filho agora que tá comigo, chamo pra esquentar uma água, colocar numa caixa de plástico, dessa caixa de leite, pra eu colocar a mão na água quase fervendo e os pés pra poder ficar mais à vontade um pouquinho, passando remédio. Só o que eu gasto, se meu filho não estivesse aí eu tava gastando mais. Toda vez que vou no médico, comigo eu pago dez reais, pago mais quatro e pouco, cinco reais de passagem e você vai comer alguma coisa lógico que a pessoa que tá contigo vai almoçar também, comer também. Então é o dinheiro que eu gasto. O governador... O homem, diz o ditado vocês todos bem sabem, o marido é sempre o último a saber e o meu presidente é muito bom, nunca tivemos um presidente bom igual a ele, as finanças, tudo, mas quando tá errado eu digo: “Tá errado”. Ele não tá vendo que ele abriu os cofres pras coisas e que os funcionários do Estado estão morrendo de fome. Ele precisava saber disso. Por isso é que eu queria ir ao Ratinho fazer uma denuncia, mas eu não tenho condições de chegar ao Ratinho, passar dois, três dias lá em São Paulo. Eu quero dar essas mais de 280 músicas, hinos, tudo que eu tenho pra esses deficientes, mas não tenho condições de chegar lá, senão já tava entregue. Eu queria só uma coisa do Ratinho, dessas músicas bíblicas que falam em Deus com amor e alegria, ele fizesse um CD cantado pelo Raul Gil, Padre Antônio Maria, Padre Zezinho, tem a Fafá de Belém. Ia pedir até ao Ratinho que trouxesse a Perla, porque a Perla é amiga do Ratinho. Ia ser um chamariz pro CD. Esse cd seria vendido a dez reais, não pode passar de dez reais e 80% é pra ceder, tá entendendo? Quer dizer, eles iam me ajudar e ajudar a ceder. Era o que eu tenho em mente, é esse negócio, mas não consigo, tô sempre coisa... agora eu tô aleijado, capengando de muleta, vou esperar novembro pro Estado ver se vai me operar. Eu tinha que usar laser, só fiz quatro lasers na minha vista, tô quase cego. Tenho que usar um remédio que pinga quatro vezes por dia, eu pingo uma vez e às vezes tem vez que eu nem pingo, porque custa 16 reais o remédio pra pingar na vista por causa da coisa da vista, como que é? É glaucoma que eles chamam, mas é derrame na retina. Eu tô um homem morto, eu tô querendo doar esse acervo musical todo meu pra eu morrer descansado.


P/1 – E o senhor tem alguma ajuda aqui do pessoal da vizinhança? A vizinhança te ajuda?


R – Eu não tenho ajuda de ninguém. Só tenho ajuda de Deus que ainda tá me deixando acordar, levantar, ainda capengando descer minha escada, é uma escada de cimento do segundo andar que eu durmo no segundo andar, pra vir ao banheiro. Eu fui condenado pelos médicos, eu tinha o meu joelho, tive uma inflamação, tiraram 160 gramas de secreção do joelho, tu vê o tamanho do joelho que tava. A dor apavorando, depois quase de noite eles me operaram. Eu passei 27 dias pele e osso, a roupa não dá a volta na coisa, mas a pele dava, a minha pele dava. Então eu digo, minha filha foi lá, eu digo: “Minha filha, eu quero sair daqui que eu vou morrer aqui”. Minha filha: “Quer ir embora papai?” “Quero”. Foi falar com os médicos: “Não. Não pode que ele vai morrer se ele sair daqui”. Eu tomei Tanderil mais de três meses, Tanderil. Era Algi Tanderil, foi proibido, era um vermelho, aí passei aquele amarelado. Tomei mais de três meses, eu era um homenzão, passei a ter pressão alta, fiquei um homem inutilizado. Aí eu saí do peito de lá, a minha filha encostou o carro lá embaixo, me ajudaram, me colocaram no banco de trás. Eu cheguei aqui na Rocinha o pessoal todo que era da parada e que não era também me ajudavam: “Ô senhor Baiano, o senhor precisa de alguma coisa? Se precisar nós estamos aqui.” “Não meu amigo, muito obrigado e tal”. Eu nunca precisei ajuda deles, tá entendendo? Nunca gostei, eles me chamavam lá em cima pra festa e coisa, eu nunca fui porque eu não sou do meio. Então eu saía... 


P/1 – E o senhor já participou alguma vez de associação de moradores, algum movimento?


R – De quê?


P/1 – De associação de moradores, algum movimento, o senhor já participou alguma vez?


R – Não. Eu tava uma vez, eu tava dando força pro tal de Antônio Trajano, mas aí eu sou um camarada muito... Eu não gosto de falar mentira não, eu gosto que fale a verdade comigo. Então eu fui descobrir que ele não era muito catedrático, não tem aquela instrução. Então nego fazia ele de bucha, mandava-o assinar, ele assinava. Então eu descobri que tinha um negócio de 300 sacos de cimento que veio pra fazer não sei quantas casas, fizeram só uma casa e quem ficou com esse cimento foi um camarada que era dono de loja de ferragens. Então eu digo, eu vou meter a mão em vespeiro, tá entendendo? Então eu não quero não, saí fora, não quis. Nunca quis nada com a associação. Ajudo-os, tu vê como é que tenho... Ele viu aí o papel que eu mostrei?


P/1 – Não.


R – Ajudo a associação, a nova associação. Ajudo, se precisar eu ajudo, dou coisa, dou força enquanto estiver no meu coisa. Eu sou assim, eu perco por causa disso, porque eu sou um camarada positivo. Eu tinha uma agenda desde o tempo do JK, uma agenda com mais de 600 nomes. Agora tu vê, avô, neto, filho, filho do filho, mulher do coisa, não sei o que, funcionário que trabalhou comigo, tá entendendo? Então isso tudo numa agenda com mais de 600. Nessa eleição que teve pra deputado dois deputados que sabiam da minha agenda estavam paquerando. Aí mandaram me oferecer dez mil reais pela agenda. Eu devendo quase sete mil reais na época eu disse: “Olha, diz a ele” larguei na frente deles a agenda assim “que eu não vendo meus amigos”. E não vendi. Queimei a agenda, o resto que eu tenho de cabeça uma porção deles, mas não quero. Então os que votavam comigo votavam porque sabiam que eu nunca me vendi. Tenho muitos amigos, o próprio coisa que foi candidato aqui perdeu a coisa por 17 votos, era o chefe do... Aquele que mataram... Era dono do jogo de bicho que mataram em frente a coisa de... lá embaixo, a escola de samba, mataram ele. Ele perdeu sabe por quê? Ele tava me devendo, eu era chefe das roletas da Rocinha, jogo. Eu era chefe das roletas, eu que fazia a paleta, fazia a coisa, colocava ela mais dura, mais mole e coisa. Então eles estavam me devendo 27 mil reais, mixaria que eles me deviam. Não me pagaram. Foi candidato? Eu coloquei outro candidato, arranjei mais de 100 votos pra esse candidato, tirei dele. Ele perdeu as eleições por 17 votos o... Como é que é? O que entra pra ficar no lugar dos deputados depois?


P/1 – Suplente.


R – É. Suplente. Ele perdeu por 17 votos, eu digo: “Bem feito”. Quando ele chegou a entrar o mataram. Eu sou assim, não tem esse negócio não. “Pau a pau, pedra a pedra”, tô passando fome, mas eu não vou me arregar, não.


P/1 – Senhor Edgar, o senhor já teve problema aqui com problema de fiscalização em relação à moradia?


R – Como é? Eu não entendi.


P/1 – O senhor já teve algum problema com fiscalização, problema com a casa do senhor, moradia?

R – Não. Sobre isso não. Eles me respeitam só de saber que é o compositor Rosário, tá entendendo? São duas casas que eu mando todo mundo comprar e eu arranjo freguês pra eles, eu arranjei. É HP e a Microsoft. Você compra um produto da Microsoft, eles te dão garantia no produto, pagam pra você não pagar telefone, é 0800, mandam você mandar o coisa e se você mandar o papel do sedex eles mandam de volta. Toda hora estão ligando pra você. Eu comprei um fax na HP, arranjei dois amigos que compraram uma igual a minha e uma multi, mas toda hora fica chateado. “Como é que tá? Tá boa a máquina? Tá boa mesmo? Senão mando alguém aí”. Agora, não posso falar da Light, é uma safada, o corporativo da Light é safado, eu digo mesmo. Eu quero que sejam mesmo denunciados. A Oi é outra. Eu fiz denúncia da Oi, mostrei a Oi, mandei CD gravado, a porcaria, as caixas todas abertas. Eu levo vocês lá agora, mostro a vocês lá agora as caixas de telefone todas abertas. Nego passa com uma chave de fenda faz assim (entrevistado vocaliza som da chave de fenda nas caixas de telefone). Mas poxa, eu digo: “Meu amigo, você tá estragando... Às vezes até a tua mãe tá passando mal, precisando do telefone e não tem porque você estragou ali”. Eu sou contra isso, a pessoa botar fogo em ônibus, isso é vandalismo. O cara que bota fogo no ônibus amanhã quer sair, ele não pode sair, aí pega um temporal: “Ah, se tivesse um ônibus.” “Ah é? O ônibus que tu quebrou filha da polícia”.


P/1 – E o senhor acha que tem conseguido mudar alguma coisa fazendo esse, processando...


R – Lógico. Eles têm que me pagar... Já processei a Oi, ganhei. Já processei a coisa. Todos eles que eu processo, eu processo com base, tá entendendo? O processo eu mostro “mato a cobra e mostro o pau”. Eu sou assim. E a coisa foi a mesma coisa. E eles não tomaram vergonha, o Carrefour, porque cobraram um seguro, eu mostro a vocês, 12 reais o seguro se você queimar o telefone. Até tua casa se pegar fogo, até 300 reais, eles... Aí o telefone de recado queimou outra vez. Eu peguei, eu digo: “Bom, não tá no prejuízo, não”. Telefonei pro seguro, pro papel do seguro, ele disse: “Ah senhor Edgar, o senhor espera um pouco”. Aí ele foi ver: “Eles não estão pagando, não”. Quer dizer, coloca ali, desconta em folha, eu tô pensando que eu estou coberto, tô com uma capa na chuva e tô me molhando. 


P/1 – Senhor Edgar, a gente já tá terminando, eu vou fazer uma última pergunta. Como é que o senhor vê o seu futuro?


R – Meu futuro? Olha, só Deus mesmo que sabe se eu vou conseguir o que eu quero primeiro pra esses deficientes, doar esses negócios. O meu sonho é chegar lá em São Paulo, pedir pra reunir aqueles garotos, aquela rapaziada, aqueles deficientes e dizer: “Eu sou o compositor Rosário, fiz esse CD assim, assim, assim... Eu tô sendo beneficiado em 20%, 80% é pra vocês e o meu acervo musical todo é pra vocês. Vocês podem fazer o que quiserem deles. Não tenho nada, eu só tenho um conselho a dar a vocês, garotada: eu fui criado assim, assim, assim, não gosto de mentira, porque o cara mentiroso é safado. Então vocês sigam o que eu tô falando pra vocês. Vocês que já sabem ler peçam ao papai e a mamãe pra comprarem um livro pra vocês. Sabe que livro é esse? É o testamento de Jesus. Vocês quando tiverem vão brincar, vão estudar. Agora, tira uns 15, 20 minutos por dia pra ver a vida de José, de Maria, de Jesus, como ele nasceu, quem foi, quem é que foi o... E vocês vão ver muita coisa boa e bonita que vocês vão aprender. E quando vocês virem uma pessoa que tá precisando, que caiu, a tendência de vocês é o quê? Chegar lá e ajudar a pessoa, não é isso? ‘Ah, se machucou?’ Arranja uma pessoa pra cuidar do machucado dele.” É assim que é a minha vida. Eu matei muito passarinho, mas hoje eu peço a Deus perdão pelos passarinhos que eu matava, mas eu matava por fome, pra fazer farofa em casa pra comer. Eu fui muito pobre, eu saía sem comer... Meu pai me deixou com seis anos, antes dos seis anos. Eu saía de casa, às vezes, com os meus primos menores, que a minha avó também tinha sete filhos e era viúva. Naquele tempo os maridos morriam logo tuberculosos, assim foi meu pai. Eu saía de casa e pedia nos açougues osso pra fazer sopa, era nossa sobrevivência. Nas horas de Maria, vocês garotos novos não sabem disso, às seis horas tinha na rádio o Júlio Louzada. Vocês sabem que é o Júlio Louzada, já ouviram falar. Ele às seis horas rezava Ave Maria e tocava a Ave Maria, tá entendendo? Então essa hora eu e meus primos menores saímos de casa pra ir na... Com aquelas latas, não tinha balde de plástico nem nada, eram latas mesmo de banha, chegava a casa daquelas pessoas ricas que conheciam a gente pra apanhar as sobras de comida do dia. Eu passei muito isso e agora tô voltando, na minha velhice tô quase chegando a esse ponto por causa de um governador que não paga os funcionários.


P/1 – Tá bom senhor Edgar. Muito obrigado.


FIM DA ENTREVISTA

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