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História

O amor ao esporte e à joalheria da família

História de: Roberto Trabulsi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/03/2021

Sinopse

Apresentação do entrevistado; origens da família; descrição das profissões e dos negócios de seus avós paternos e maternos. A famosa pensão de sua avó e o comércio de seu avô, onde seu pai começou a trabalhar. A aposentadoria de seu avô e a venda de pastéis na cantina da escola. A entrada de seu pai para o ramo de jóias a convite de seu tio e cunhado de seu pai; a criação do cafezinho e a expansão da loja; seu pai, Raduan Trabulsi investia muito na decoração da loja e na vitrine; o amor de seu pai pelo esporte e o ensinamento de valores; Infância tranquila regada a muita brincadeira de rua. O gosto por exatas na escola o levou a estudar economia. Começou a trabalhar na loja aos 16. Com a chegada da pandemia reviveu os primórdios da loja. Observou a mudança de hábitos sociais e de consumo. A propaganda boca a boca fortaleceu a marca. O aprendizado com a mudança de consumo. A expansão para o Bauru Shopping, que rendeu prêmios. A propaganda boca a boca e a confirmação do legado. A mudança de profissão, de economista para joalheiro. A criação do cafézinho. Otimização e modernização da loja. Vida pessoal, casamento e a chegada dos filhos. A crise com a pandemia mundial e os aprendizados.

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História completa

          Meu nome é Roberto Trabulsi, e eu nasci em Bauru no dia 30 de setembro de 1969. Meu pai é Raduan Trabulsi Filho, e minha mãe é Sueli Toledo Trabulsi. Com o meu avô materno eu não tive contato. Ele é Miltino Martins e foi comerciante também, foi farmacêutico na Vila Falcão, no tempo que a Vila Falcão não tinha nem contato com a cidade ainda. Ele foi vereador. A minha vó materna, Dulce Martins, foi educadora, como a minha mãe. Por parte de pai, os meus avós paternos eram Raduan Trabulsi, de origem libanesa, e Salua Trabulsi. Minha avó teve uma pensão aqui em Bauru, aqui na Rodrigues Alves, muito conhecida na época. Aliás, tem muitos amigos do meu pai que falam que era a melhor pensão. Minha avó cozinhava muito bem a culinária árabe, e muitos desses empresários de hoje, aqui de Bauru, passaram lá pela pensão da minha avó.

          Minha avó teve esse lance materno, de receber todos aqueles representantes, os viajantes que passavam pela cidade, sempre despontando pela culinária árabe, que até hoje tem a fama. E teve uma curiosidade: outro dia eu estava aqui, entrou um cidadão que eu não conhecia e veio agradecer à vovó, porque ela tinha ensinado algumas coisas em questão de comida árabe, e ele montou um restaurante árabe numa cidade aí que não me lembro.

          Meu avô teve mercearia aqui em Bauru. Meu pai conta que ajudava bastante meu avô lá, carregando sacos, entregando compras em cestas, aquela coisa bem antiga, mesmo, pé no chão, a cavalo. A joalheria já é da parte do meu pai. A loja foi inaugurada em 1963, com o meu tio, e coincidiu com o nascimento da minha prima Márcia. Então, aí que vem o nome: Márcia Joias. E naquela época, a Rua Batista de Carvalho e todo o centro da cidade eram muito diferentes, muito movimentados. E a loja era bem pequena, só na frente, pois meus avós moravam no fundo, e meu pai morava com a minha mãe no meio da loja.

          Com o decorrer do tempo, meu pai comprou uma casa, e ficou o vovô morando aqui. A loja foi se expandindo, crescendo, conforme havia espaço pra isso. Mas era tudo diferente no passado, pois a loja tinha um outro perfil, um outro layout e uma outra estratégia de vendas. Pra você ter uma ideia, eu me lembro que não tinha porta de ferro antigamente, era só porta de vidro. Meu pai fechava mais cedo na sexta-feira, pra poder fazer vitrines diferentes, porque o pessoal passava à noite vendo. Naquela época tinha poucas opções sociais, de passeio, e uma das mais importantes era passear na Rua Batista de Carvalho pra ver as vitrines.

          Pra você ver como era tranquilo a gente trabalhar naquela época, vendiam-se muitos anéis de formatura, e tinha uma vitrine na loja exposta, sem proteção, onde eram colocados os anéis de ouro, brilhantes. A pessoa experimentava: “Eu gostei desse”. Ela passava pelo caixa e pagava. Hoje é impossível você fazer um negócio desses, é impraticável. Eu me lembro também, quando eu era pequeno, de que meu pai sempre gostava muito de investir em decoração de Natal. Então, o finado Paulo Keller, que tinha uma afinidade muito grande com a minha mãe, era o responsável por fazer toda a decoração da loja. E era bem caprichado, a ponto de algumas famílias tradicionais pedirem pra vir com a família fotografar a mesa da Márcia Joias, pra fazer o cartão de Natal da família, do final de ano. As árvores de Natal, a gente ia pegar no Horto Florestal, porque não tinha essas artificiais. Tudo manual, tudo artesanal.

          Meu pai sempre teve um tino comercial muito forte. Ele está com 84 anos, enfrenta balcão comigo até hoje e vende muito bem. Tanto é que nós estamos desde 1963, acho que são 58 anos aí de janela. E graças a Deus ele pegou o gosto. Meu tio logo saiu da sociedade, e meu pai continuou com a loja.

          Mas logo que meu irmão nasceu, houve a necessidade de ir pra uma casa, mesmo. Mesmo assim, desde que eu me dou por gente, eu venho pra Batista de Carvalho. Eu me lembro desse corredorzinho da joalheria que eu comentei pra você, que se transformou em um cafezinho: o portão tinha um metro de altura, só pra cachorro não entrar, entendeu? A gente brincava aqui, de domingo. O comércio fechava às 11 da manhã pra almoço. Lembro bem de tudo isso.

          Então, eu tenho essa lembrança desde pequeno, da Márcia Joias aqui no Centro. Tanto é que eu montei a loja no Bauru Shopping - fomos pioneiros lá. Abrimos uma Márcia Joias lá, mas eu não consegui trabalhar ali. O meu negócio é o centro. Eu gosto mesmo é do Centro, entendeu?

          Eu costumo falar que eu não tenho trabalho. Se você associar a palavra trabalho, vem alguma coisa meio cansativa. Eu não tenho trabalho. Eu tenho uma sala de visitas aqui na minha loja, e ninguém me procura com dor de cabeça, ninguém me procura aqui com tristeza. A gente sempre tem o convívio de pessoas com o astral muito bacana. Então, o prazer é muito grande de trabalhar aqui no centro. Eu sou o primeiro comerciante a chegar (risos) aqui no centro e um dos últimos a sair. Eu vivo o calçadão há muitos anos.

          Eu passei por todos os serviços da loja, desde os 15 anos de idade. Estudava de manhã e vinha pra loja após o almoço. Fiz todos os tipos de trabalho aqui da loja: eu fazia, no começo, trabalho de banco, que seria trabalho de contínuo. Daí comecei a colocar mercadoria na vitrine, tirar mercadoria da vitrine, esses serviços básicos. Depois, teve uma época em que as vendas estavam aumentando, as vendas a prazo, a parte do crediário estava precisando de uma força. Peguei, aprendi tudo sobre fazer o crediário. E eu tenho grande satisfação, tenho o privilégio de fazer parte de uma geração que informatizou as empresas. Minha geração trabalhou tanto no papel, como no computador.

          Além disso, a Márcia Joias sempre foi ponto de encontro político na cidade. Sempre, a vida inteira. Daqui saiu prefeito, saiu vereador, saía deputado. Depois que a gente abriu o Cafezinho, mais ainda. Agenda de governador, de presidenciável, agenda de presidente da República... sempre foi aqui. Tanto é que, de manhã, eu chego, vejo uma viatura parada, já pergunto: “E aí?” “Vai ter um político importante passando e vai querer tomar café aqui”. Você imagina, sábado de manhã, vem com sua esposa aqui, senta num estabelecimento onde tem 20 homens discutindo política... você vai embora. Então, o Cafezinho aqui do lado veio a calhar. Eu joguei todo esse povo lá fora, nas mesas, e o pessoal fica lá discutindo política. E é muito gostoso isso, de você participar da cidade, porque no centro da cidade acontece de tudo. É daqui que saem as coisas, os políticos, as passeatas. Político que se preze faz campanha onde? No calçadão…

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