Busca avançada



Criar

História

Rio São Francisco, pai de família

História de: Alírio Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/02/2009

Sinopse

Alírio Santos não nasceu à beira do Rio São Francisco, mas, mesmo assim, se considera filho dele. Natural de Muniz Ferreira, na Bahia, ele se mudou para Sobradinho aos 32 anos, bem na época em que a Companhia Hidrelétrica do São Francisco, a Chesf, trabalhava na construção da represa. Tornou-se funcionário da empresa, ocupou diversos cargos e se consolidou como motorista. Entretanto, mesmo como empregado, nunca deixou de criticar as ações com que não concordava, sobretudo quando tinham a ver com a população que se viu forçada a deixar a terra de origem quando as águas da barragem tomaram conta de muitas cidades. Ele conta sua história que, apesar de parecer se confundir com a da Chesf, segue um ritmo próprio e forte. Como se espera da vida de um filho do São Francisco. 

Tags

História completa

Nasci em 16 de novembro de 1940, Muniz Ferreira, próximo a Nazaré. Mãe era doméstica, e pai trabalhava no campo. Eles eram de São Felipe. Minha mãe era de Conceição do Almeida, e meu pai era de São Felipe.

Infância, o que era a infância? A gente saía de manhã, ia passear por aquela roça. Quando você está passeando pela floresta, você pensa que você não está no lugar que presta, mas você está no melhor lugar que deve existir. Você, quando volta da floresta, volta com a cabeça completamente diferente. É completamente diferente. Eu fico hoje invocado, e esses meus filhos aí foram criados de uma maneira, só computadores, só computadores. Isso aí acaba com o jovem. Você vê que o cabra tem que trabalhar sábado, domingo. Quando é fim de semana tem que ter um lazer. O lazer hoje de vocês não é igual ao meu. O meu foi melhor.

Em meu tempo, eu me preparei para entrar numa empresa federal igual à Chesf [Companhia Hidrelétrica do São Francisco]. Eu cheguei, e já cheguei acabando com tudo. Quando eu vim para Sobradinho, eu tinha 32 anos. Eu era justamente mecânico de primeira qualidade, mecânico de máquina de tecido, e motorista de caminhão. Encontrei um acampamento da Chesf, cheguei parecendo um besta, que eu gosto muito de dar uma de besta. “Rapaz, vocês não têm vaga para motorista, não?” Ele disse assim: “Não tem, não, me dê sua habilitação.” Foi quando saiu a carteira classe C, C2. Eu peguei a carteira de habilitação, dei a ele. Ele chegou, olhou assim. “Sabe, doutor, é desse que a gente está procurando.” O negócio já melhorou. Aí, me chamou, mandou eu preencher uma ficha, eu preenchi, marcou o dia de vir fazer o teste. Fiquei na Chesf por 32 anos. Estou com 34, no dia 8 de janeiro estou completando 34 só na Chesf.

Eu fiz estágio, trabalhei, fui emprestado cinco anos, fui o oitavo melhor em sismologia no Brasil, depois voltei, assumi o transporte da Chesf por sete anos. Fui primeiro lugar na Chesf toda. Fui primeiro lugar, eu tenho até carta aí. Eu tenho carta de elogio até de um ministro certa ocasião, quando, na campanha da meningite, eu fui recorde na campanha da meningite. A gente, a minha equipe, foram 285 pessoas que a gente vacinou. Eu ganhei até prêmio, foi ótimo. Foi ótimo, eu na vida não tenho nada de dizer sobre tristeza, não. Só tem vitória.

O Rio São Francisco eu vim conhecer aqui, em Sobradinho. E por sinal eu sou apaixonado. Apaixonei! Porque é o seguinte: você, quando chega num lugar, não se apaixona por uma coisa? Eu apaixonei pelo São Francisco. Eu sou muito apaixonado. Eu já levei muita cacetada dentro da empresa por causa disso. Eu sou um dos maiores defensores do São Francisco. Porque tem várias famílias, que os cara não olham isso, tem família com cinco filhos, tudo doutor, o cara trabalhou onde? Na Chesf. A primeira médica num congresso nacional saiu de Paulo Afonso, filha de um motorista. Quem foi que deu a luz, não foi o Rio São Francisco? Eu sou apaixonado pelo Rio São Francisco, disso aí não resta dúvida, não. Eu não chamo Rio São Francisco, eu chamo papai. Hoje, você tem uma empresa igual à Chesf, tem grandes irrigações, tudo que você tem hoje é com o Rio São Francisco. Nós todos dependemos do Rio São Francisco. Depois de Deus, nós dependemos do Rio São Francisco. Disso aí não resta dúvida. Esse negócio de desviar o Rio São Francisco, se era para ter água ali, o rio tinha nascido e ido para lá. Agora, esse problema do desvio do rio tem condições. O governo está fazendo um trabalho político, não é um trabalho social. Você chegava, fazia barragem em todas as bacias hidrográficas, igual ao Açude de Orós, não fez ele? Por que não fez até o Rio Grande do Norte? Mas não. Fez isso até lá. Se você quer tirar água do São Francisco, tem condições? Você precisava de uma barragem e tirava água de lá, mas não quer. Mas não querem, só querem do lugar justamente político. Não tem condição. O São Francisco não tem condições, e eu peço a qualquer pessoa: trabalhe pelo São Francisco. Que ele é um rio que é pai de família. Pai de família mesmo.

Quando fez a barragem, eu tive pena de uma coisa: quando a barragem encheu. Você atacou o meio ambiente com seriedade mesmo. Hoje, tem lugar que, quando o reservatório seca, você ainda vê os esqueletos das árvores. Você vê. Tem pessoas que, na hora de serem desapropriadas, não aceitaram que a barragem ia dar certo. Eu estive conversando com um cara essa semana lá em Barreiras. Teve cabra que ficou dentro da casa até a hora que a água invadiu a casa. Essa barragem foi construída no sistema militar. É o seguinte: você tinha uma casa, o cara fazia a avaliação em três mil, ou você aceitava ou perdia. Mas tem muitas pessoas que sofreram.

Meu maior problema na Chesf é o seguinte: é que eu sou muito da parte social. Já me disseram que era para eu trabalhar na parte social. Hoje, quando o cara vai para um hospital – você sabe que quando o plano acaba é um problema – eu vou lá e eu tenho um diretor que eu telefono. Já tirei várias pessoas de um hospital e botei no hospital pago. Eu faço isso, eu sou danado, sou danado para isso.

Teve uma história importante: numa ocasião, eu estava com três engenheiros no carro, eu era o motorista, até hoje sou o cara que eles respeitam mais, sou o mais respeitado. Um engenheiro chegou lá em Recife, coincidência, eu fazia daqui a Recife, sete horas, 860 quilômetros. Aí, o engenheiro João Paulo ia com Doutor Bené. Aí, perguntou a João Paulo: “João Paulo, vou lhe perguntar um negócio.” “O que foi?” Isso foi uma coisa que me marcou um bocado. “Por que esses caras só arranjam motorista bonito e tal?” Aí, ele disse: “Não me importo da boniteza, eu quero ver o profissional.” Arrasou o cara, e eu, dirigindo meu carrinho ali, eu fui e fiz de conta que eu não ouvi nada. Ele já estava querendo... Ele era racista, ele era racista, e quem resolvia tudo de João Paulo era eu.

O rio, há 15, 20 ou 30 anos, está precisando de um tratamento. O rio está um problema, igual a um canceroso. Se você abandonar um canceroso, ele morre logo. Se você tratar dele, ele sobrevive, e vai embora. O problema do São Francisco é sério, eu digo a você, é sério. Não é brincadeira, não. Eu ando por aí e vejo o assoreamento. Tem que se fazer urgente, plantar árvores, eliminar o esgoto do rio. O homem achou que o que mata mais o rio é o esgoto, você sabe disso? É o esgoto. Um médico em Salvador procurou saber por que na região do São Francisco o câncer é mais acelerado, por que tem mais gente com câncer. Eu expliquei a ele. Outro dia, um cara chorou lá em Irecê, porque ele perdeu duas sobrinhas. Aqui em Petrolina. Eu disse a ele: “Olhe, eu fiz uma reivindicação, porque o rio está aqui, quando ele enche, ele vem parar aqui, e aqui o cara planta cebola, melão, tudo. Quando ele encher, ele está aqui, ele vai fazer o quê? Lavar o veneno que foi pulverizado.” Você sabe que veneno não se acaba. E você sabe que a gente não suporta veneno, veneno é miligrama. Aí, o que acontece? Juazeiro, Petrolina, nessa região que pega aqui o Rio São Francisco está morrendo gente de câncer direto, e a trovoada vai atrapalhar a gente. Vai jogar terra.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+