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Rico em experiências

História de: Gunnar Vikberg
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

História de seus ascendentes. Infância. Casa de infância. Estudos. Segunda Guerra Mundial. Serviço militar. Especificidades em morar na Suécia em relação a clima e tempo. Trabalho na empresa Ericsson na Suécia. Mudança para o Brasil, a trabalho. Mudança de emprego. Trabalho na empresa Xerox. Trabalho na empresa Algar Telecom. Casamentos e filho.

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História completa

P/1 – Bom dia, senhor Gunnar. Eu queria que, por favor, para início de conversa, o senhor dissesse o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Bom, o meu nome é Gunnar Vikberg, eu nasci na Suécia, em uma cidadezinha que se chama _______, no norte da Suécia, e de fato fui criado numa pequena população que chama-se ________, três quilômetros abaixo do círculo polar, e foi aí que eu os meus primeiros passos, e também a primeira escola, uma escola que só tinha ________, e depois, quando tinha completado isso, tinha onze anos e meio, não tinha idade para poder sair da escola, mas é uma escola que tinha ano um, três cinco, um ano; dois, quatro, seis, outro ano, e se você não estava dentro desse... Nascido no ano certo, você estava um pouquinho fora do ritmo, vamos dizer assim. Então, conforme eu tinha completado seis anos, eu estava jovem demais, e para continuar eu tinha que baixar para cinco, que a minha mãe e pai não (relaxaram neste?) _______, então eu fui mandado para continuar a estudar fora. ______ tinha que ir para uma cidade que chama-se _______, hoje _______, também, atualmente trezentos quilômetros, mais ou menos, de _______. Levava um dia inteiro para chegar lá. Mas aí fiquei até [os] dezoito anos, quando fui para Estocolmo e entrei na escola chamada Instituto Real de Engenharia, que era uma das duas escolas universitárias para engenheiros que existia na Suécia na época, em 47. O fato é que eu só poderia começar a escola em 49, porque eu tinha que fazer o meu serviço militar. E como isso era logo depois da Segunda Guerra Mundial, serviço militar era alguma coisa compulsória, você tinha que fazer. Eu fui bom demais, tinha então ordenado a ser oficial, perdi mais um ano (risos), mas também ganhando algumas experiências, e de fato eu só comecei a escola de engenharia em 49, graduei em 54, porque eu tinha que fazer certos serviços militares também. Comecei na Ericsson, chamada Telefone ________________, aqui no Brasil é Ericsson do Brasil, em 1953, no dia onze do nove de 1953.

 

P/1 – Está certo. Senhor Gunnar, voltando um pouquinho atrás, o nome do seu pai e da sua mãe, por favor.

 

R – O meu pai chamava-se ______, e minha mãe, ____, aqui fica (Gota?), mas em sueco tem dois pontinhos em cima do ó, e fica (Göta?). 

 

P/1 – O senhor conheceu os seus avós?

 

R – Eu conheci os meus avós do lado materno, conheci a mãe do meu pai, mas o pai dele eu não conheci não.

 

P/1 – A origem dos seus avós, o senhor tem notícia? Se eles eram mesmo da região, se migraram para lá...?

 

R – Eles existiam lá, nasceram lá, mas de fato pertenciam a famílias que chegaram lá por causa de uma mina de prata que existia nas montanhas, que chama-se _____. E começou a ser explorado em… Acho que a primeira vez que falaram sobre ela foi em mil e setecentos e alguma coisa assim. E eu sou de, vamos dizer, uma raça de (Wallon?), que existe na Bélgica, que era normal. A Suécia importou essas famílias que sabiam como tirar ouro de peneiras, não só ouro de ouro, mas ferro. E assim eles foram importados para realmente ensinar os suecos como fazer isso. E eu costumava dizer: se eu colocasse o meu pai numa esquina lá no sul da Bélgica, acho que ninguém iria ver outra coisa do que era de lá (risos).

 

P/1 – Perfeito.

 

P/2 – Quer dizer, ele parecia...

 

R – Absolutamente assim como o pessoal [de] lá.

 

P/1 – Certo. E qual era a atividade do seu pai, seu Gunnar?

 

R – Ele nasceu lá, foi para o sul da Suécia, foi... Não sei como se chama em português, mas ele foi tomando conta de uma fazenda no sul da Suécia. Depois ele voltou e a primeira coisa que ele fez foi... Quando ele casou-se com a minha mãe, ele ficou o capitão de um barco a vapor que andava no lago chamado ______, que era entre a República que eu nasci, onde tinha o hospital, e ______, que era o outro lado, sessenta quilômetros, mais ou menos. Acontece que é o lago mais profundo da Suécia, 221 metros. E depois, em 1929, por aí, chegou a primeira estrada para ______. E o meu pai comprou um carro e utilizou isso como táxi. Então eu fui taxista também, na minha vida, quando jovem. E dirigi caminhão.

 

P/1 – E a sua mãe, seu Gunnar?

 

R – Ela era professora. Ela, desde pequena, depois ela foi para ____, na Suécia, numa escola que chamava-se __________ e se formou de professora, e ela foi professora lá em cima na Suécia, e não existiam escolas construídas, é interessante que aquela parte da Suécia chamasse Lapônia, e como não existia comunicações boas no Congresso Sueco, pensou-se em Lapônia como uma parte onde só viviam os nômades, que em sueco chamava-se (lap?), os lapões.

 

P/2 – Lapões.

 

R – Lapões, é. E foi decidido construir uma escola para eles em 1856, em ______. Mas os suecos não tinham escola. E no meu caso, o meu avô materno utilizou a sala da casa dele como sala de escola, então os meus primeiros anos na escola foram lá. Até foi construído uma escola em ______, também.

 

P/1 – O senhor tem irmãos, seu Gunnar?

 

R – Duas irmãs mais jovens do que eu, elas moram na Suécia.

 

P/1 – O senhor poderia descrever como era a sua casa de infância? Como era essa casa onde o senhor nasceu, seus primeiros tempos de infância?

 

R – Bom, é uma casa que ainda existe, mas hoje ficou um pouquinho mais moderna. Não tinha aquecimento central, nós tínhamos lareiras. Uma das coisas mais gostosas que eu me lembro é de acordar de manhã com aquela lareira acesa, que alguém tinha colocado. É uma maravilha, de certa forma o fogo falando, também, assim (risos)... Aí você levantar, ir lá, ficar lá em frente, colocando roupa... Foi muito gostoso.

 

P/1 – Como era essa casa, assim, fisicamente?

 

R – Bom, nós tínhamos um pequeno... Em português vai se dizer armazém, uma pequena loja de diversas coisas, diria que de alimentos, que era numa sala. 

 

P/2 – Isso para vender para fora?

 

R – Vender para fora. E também tinha uma cozinha. A cozinha era grande, este era um lugar onde todo mundo se encontra, também porque lá tinha um fogão, que deu calor, né? E tinha dois quartos, esta cozinha, e sala que estava ali uma loja. E, naturalmente, tínhamos vacas, três, quatro vacas, dependendo um pouquinho. Um cavalo. Eu aprendi como (que alça?), de tirar leite da vaca com as mãos, sei ainda, muitos fazendeiros hoje não sabem disso, mais eu sei (risos). E foi assim.

 

P/1 – E havia uma rotina, assim, as crianças tinham algum tipo de obrigação doméstica? 

 

R – Bom, sempre você tinha que ajudar, né? E muitas vezes eu fui para tomar conta das vacas, por exemplo. Tirar leite de manhã e à tarde. Quando tinha ido para essa escola fora de __________, meu lugar chamava-se __________, em __________, nas férias, não sei porque mas as empregadas tinham uma tendência de sair e a minha irmã, quatro anos mais jovem do que eu, e eu, tínhamos que tomar conta da casa. Impossível, porque este era na Segunda Guerra Mundial, o meu pai ficou como chefe de um pequeno destacamento de policiais perto da fronteira com a Noruega, nas montanhas. E a minha mãe fez escola em outros lugares. E tinha problemas de asma, às vezes, [ficava] doente. Então nós dois tomávamos conta das casas.

 

P/2 – E quantos anos o senhor tinha nessa época?

 

R – Bom, a primeira vez que eu voltei eu tinha doze anos e ela tinha oito. E nós tomamos conta da casa.

 

P/2 – Eu queria só fazer uma pergunta para o senhor. Quando o senhor foi para essa escola fora, a família toda mudou ou o senhor foi sozinho?

 

R – Não, não, não, eu fui sozinho. Fui mandado. A minha mãe me acompanhou e me colocou numa família que ela conhecia. Eu me lembro que no dia quando ela voltou, ______, acompanhei ela até a estação de trem, onze anos e meio, e lá foi, e eu ficava lá chorando.

 

P/2 – O senhor tinha onze anos e meio quando mudou-se?

 

R – É. E este foi no final de agosto, eu só poderia voltar para a minha família para o natal. Então eu ficava lá. Duas vezes por ano, além das férias de verão, mas para natal e para a páscoa. O resto, ficava lá. E as comunicações melhoraram, e assim, mas... Hoje, com nossas estradas, leva uns trezentos quilômetros, é menos até. Hoje, leva de carro umas quatro horas, assim. Mas na época era um dia inteiro, porque você tinha que pegar dois ônibus, e depois um trem, e trocar duas vezes de trem (risos).

 

P/1 – Nessa infância do senhor, nessa primeira infância, que tipo de diversão, de brincadeiras, de divertimentos que o senhor e os seus amigos tinham?

 

R – Bom, além do fato que... O meu avô materno seria um homem muito, muito interessante, político, mas ele nasceu em 1856, então ele tinha oitenta anos, mais ou menos, quando eu era criança. Mas ele foi quem me ensinou a remar. Porque nós fomos os pescadores. E como ele precisava de alguém para remar, ele me ensinou [a] remar, a primeira vez eu tinha quatro anos, algo assim. E para eu não cair, ele colocou uma corda, aqui, para me segurar (risos), para ele me tirar se por acaso eu cair na água. Então nós éramos os pescadores da casa também. E ele me ensinou uma porção de coisas, como sobreviver na natureza, se você puder fazer fogo, e foi muito interessante. E a minha avó, que chamava-se (Eva?), ela tinha uma memória fantástica. Então, naquele município, _________, apareceu uma doença que parecia ter alguma coisa a ver com herança, hereditária assim. E o médico, o único que existia, em tudo assim, mas na _____, ele telefonou para minha mãe muitas vezes, dizendo: “pergunta à Dona (Eva?) como é a pessoa tal, parente de fulano de tal.” E ela sabia tudo, foi assim. Vocês poderiam ter uma fantástica história se ela estivesse viva (risos).

 

P/1 – Certamente (risos).

 

R – Porque muitas dessas famílias, na época, tinham quinze ou mais crianças. Assim, as árvores eram enormes, mas ela sabia isso tudo.

 

P/1 – Conhecia...

 

R – É.

 

P/1 – Essa saída do seu local de nascimento, quer dizer, fora esse momento de solidão, que se encontrava, o que mudou na sua vida? Que novos horizontes abriu? Como foi isso na cabeça daquele garoto?

 

R – Bom, para começar, eu fui o terceiro do município de ________ a fazer uma escola além de seis anos, e é claro que você começa a sonhar, né? E a minha mãe queria que eu fosse médico, e eu pensei nisso no início, mas depois eu pensei que era mais interessante ser engenheiro, especialmente porque eu (não?) era radioamador, mas eu gostava de ouvir no rádio estações distantes do mundo, e você escrevia para essas estações e recebia ________ de volta, inclusive na época Rádio Nacional, Rio de Janeiro, Brasil (risos). Aí me interessei mais para o lado eletroeletrônico, e foi assim que eu decidi tentar entrar numa escola em Estocolmo, e consegui.

 

P/2 – A escola, nessa época, era de dia inteiro? O senhor ficava o dia inteiro?

 

R – Sim. Sim, era integral.

 

P/2 – E era muito rígida? Como era o ensino nessa...?

 

R – Bom, provavelmente era mais rígida do que hoje, né? (risos) Dependendo muito do professor ou professora. Lá em _______, eu tinha um professor que nós chamávamos de Calígula (risos). Então ele ficou bravo, a classe inteira, depois de um pouquinho, já estava em pé (risos).

 

P/1 – Essa vontade, essa tendência para engenharia, para as técnicas da propagação do som, tudo mais, o senhor, quando decidiu isso, a sua família aceitou, sem problemas?

 

R – Ah, sim.

 

P/1 – Mas isso implicava em mudar para a capital do país?

 

R – Sim. E uma outra coisa que implicava é que eu tinha que achar maneiras de financiar isso. 

 

P/2 – Porque a sua família não tinha, então?

 

R – Não, ajudou, mas não tinha. Então... Felizmente, _____________. Você poderia aplicar para ter o chamado empréstimo de estudantes. E eu tive isso. Paguei a última prestação disso quando eu estive aqui no Brasil. Eu tinha quarenta anos. Foi uma época, quando eu disse que se um dia eu tiver filhos, vou tentar de tudo para que eles não precisem ter essa necessidade de pagar os empréstimos para estudar. Só tenho um filho, ele está estudando ainda, 22 anos. Ele não vai ter empréstimos para terminar (risos). Deste tipo pelo menos, né?

 

P/2 – Porque é uma perspectiva muito longa, né, para...?

 

R – É. Mas... Foi uma época razoavelmente dura. Mas foi bom também, você aprende muito.

 

P/2- Só antes de prosseguir, eu queria perguntar uma coisa para o senhor, do frio. O senhor nasceu lá no... Como era, tinha dias que eram só noite, quantos meses, como era essa relação com...?

 

R – Bom, como é logo depois do círculo polar, o círculo polar é onde... Bom, se você pensa no pólo, tanto o norte como o sul, se você está no pólo mesmo, o ano tem só um dia e uma noite. Então lá em _____, nós tínhamos uma época que era parte de inverno, que no meio do inverno, basicamente, ficava um pouquinho menos escuro no meio dia, né? Mas em compensação, no verão, você tinha sol à meia noite. Não onde eu estava morando, mas lá na montanha, se você subia um pouquinho, você ia ver o sol a meia noite. E você aprende. Aí tem pessoas que dizem que tem problemas de dormir, porque tem luz o tempo inteiro. Nós não tivemos este problema, você aprende. Frio. Bom, às vezes fazia muito frio, né? O frio mais, que eu me lembro, foi 48 graus abaixo de zero.

 

P/2 – Nossa...

 

R – Mas é um frio interessante, porque lá, pelo menos, não era necessariamente assim em todos os lugares, mas lá... Frio de quarenta graus, nunca era com vento, estava absolutamente parado. E se você sair, era como a natureza parasse, ficasse completamente parada. Ao mesmo tempo, você tem uma propagação de som que é fantástica, de tal forma que você pode ouvir pessoas falando a quilômetros. Não o que elas estão falando, mas você está ouvindo que alguém está falando lá do outro lado, a dois quilômetros de distância. E naturalmente à noite, também, você tem o – como se chama, ________. Aquele... Você tem um espetáculo no céu.

 

P/2 – Não é aurora boreal?

 

P/1 – Aurora boreal.

 

R – Aurora, sim. Que é fantástico. Muito interessante. Mas tem que tomar cuidado também, porque se você pegar sem proteção num pedaço de ferro com quarenta graus negativos você fica preso, porque cola, queima de fato. Você não pode fazer isso, tem que ter luvas. E claro que com quarenta graus você não sai sem luvas (risos).

 

P/1 – Interessante.

 

R – Mas uma experiência que eu não gostaria de ter… Não vivido, mas por outro lado eu gosto mais de calor (risos).

 

P/1 – Senhor Gunnar, como foi, digamos, essa transferência daquele jovenzinho de um lugar como esse, que o senhor acaba de descrever, para a capital do país? Como era Estocolmo nessa época, como o senhor viveu lá? Para onde o senhor foi?

 

R – Bom, em Estocolmo... O fato é que fui fazer o meu serviço militar em Estocolmo. Logo fora de Estocolmo. Mas eu aprendi a reconhecer Estocolmo de bicicleta. Nos fins de semana você pegava a bicicleta, ia lá para diversos lugares. Esta era uma época quando você podia tomar banho no lago ________, porque Estocolmo está no Mar Báltico, mas também tem um lago interno, que se junta lá dentro de Estocolmo. Você poderia tomar banho, não no centro de Estocolmo, mas muito perto do centro. Depois foi proibido por causa da poluição. Hoje você pode tomar banho no centro de Estocolmo, porque tudo foi limpo. Mas aí cinemas, bicicleta para conhecer. Carros eram mais raros, não tinha o congestionamento que tem hoje. E Estocolmo é uma cidade muito, muito bonita. E rica em memórias, porque é uma cidade velha.

 

P/1 – E nessa época do seu serviço militar, como é que daí o senhor se transferiu para a escola de engenharia?

 

R – Bom, aí eu tinha que arrumar um lugar para morar em Estocolmo, e aluguei um quarto. (Com o tempo?) aluguei um apartamento, nós estávamos em dois rapazes dividindo o apartamento, um pequeno apartamento. E o tempo inteiro morando lá, até um dia que eu me casei, de fato antes de finalizar a escola. A minha mulher trabalhou no ________, na Telebrás da Suécia, na época, e isso foi bom porque ela ganhou dinheiro, e eu só gastei, né? (risos)

 

P/1 – Como o senhor a conheceu, seu Gunnar?

 

R – Opa (risos). Numa rodada de amigos. Nada especial, né?

 

P/1 – Como é o nome dela?

 

R – Ela chamava-se (Eva?). Ela morreu em 77, porque ela teve problemas de saúde. E uma das razões para que eu ficasse no Brasil, porque ela sempre sentiu-se melhor no clima quente. Então ela morreu em 77. Ela foi do sul da Suécia, mas estava em Estocolmo, e nos conhecemos, assim, casamos (risos).

 

P/1 – Nesse período o senhor voltava nas férias à sua cidade natal? Ia com frequência?

 

R – Sim. Com frequência, não. Para o natal, para o verão, e normalmente... Então lá eu já tinha dezoito anos, e tinha também carteira profissional, então ajudei o meu pai, eu (ajudava?), como eu disse, dirigir táxi ou caminhão. E tive muito... Foi também muito rico em experiência isso.

 

P/1 – E esse período da escola de engenharia, o senhor já vislumbrava alguma perspectiva de trabalho, o senhor já começou a pensar na telefonia?

 

R – Bom, eu comecei, muito antes da escola, também você fez estágio em diversos lugares. Eu fiz estágio numa instituição que era um instituto de pesquisa das forças armadas, e eu fiz estágio na Ericsson, e esse estágio na Ericsson me levou a um emprego na Ericsson. Interessante é que o meu diploma de engenheiro... Nunca foi perguntado, nunca foi requerido pela Ericsson. Muitos anos depois, disse ao Diretor de Recursos Humanos: “ah, mas vocês nunca se interessaram pelo meu currículo, o meu _____.” Ele disse: “não?” “Não, e (nem que você vai ter agora?).” (risos)

 

P/1 – (risos) Porque já conhecia o senhor, né?

 

R – É. 

 

P/1 – Está certo. E como era a telefonia na Suécia nessa época? Em que estágio de desenvolvimento ela estava?

 

R – Tem que lembrar que o nome da Ericsson, LM Ericsson, como era, Telefone _____ LM Ericsson, ele, __________ Ericsson, era contemporâneo com Graham Bell e fez o seu primeiro telefone na mesma época. Nós não vamos discutir se _______ fez primeiro ou segundo, mas o primeiro telefone dele foi feito em 1856, alguma coisa assim, lá por aquela época. E por causa disso o desenvolvimento de telefonia na Suécia foi muito rápido e cedo, de tal forma que Suécia normalmente era o país, o tempo inteiro, o mais denso de telefones, e era nessa época, também em cinquenta, 53, 54, quando eu comecei na Ericsson. E se você estudava a parte, vamos dizer elétrica, energia elétrica em si, o natural seria provavelmente que você começasse a trabalhar na ______. Se você estava na área de... Como é chamado...?

 

P/2 – Eletrônica...

 

R – Corrente fraca, (risos) o __________, eletrônica, o mais natural seria que você entrasse na Ericsson. Mas a minha mãe queria - esta foi a única vez que nós tivemos uma discussão sobre o futuro - ela queria que [eu] entrasse numa empresa que era estatal, no norte da Suécia, para ficar mais perto de lá, mas eu disse que não. Inclusive o meu salário inicial seria mais alto lá, mas o desenvolvimento seria mais lento. Na Ericsson você teria condições de subir mais rápido, dependendo do seu trabalho.

 

P/1 – Certo. Esse setembro de 53, quando o senhor entrou lá, qual foi a sua primeira responsabilidade na Ericsson? O que o senhor começou a fazer?

 

R – Eu estava num laboratório, eu trabalhava em desenvolver algumas (unidades?) para microondas, na época. E chegou a ________: nós estamos nos preparando..., nós não ganhamos esta concorrência, porque a Siemens ganhou, mas nós estávamos tentando ganhar a concorrência para criar o primeiro link de microondas de Estocolmo, para o resto da Europa poder transmitir a Copa de Mundo de 58. E, como dizem, nós não ganhamos, mas foi a primeira vez, eu acho, que foi televisionado a copa do mundo.

 

P/1 – Fora a participação brasileira na Copa, o senhor já havia ouvido falar no Brasil?

 

R – É, o Brasil era um mercado, aliás a América Latina era um mercado muito interessante para a Ericsson. Inclusive [o] Equador, o primeiro telefone em Equador, no início, chamava-se Ericsson. (O nome Ericsson era do telefone?). Agora, a Ericsson tinha operações no México, no Peru e na Argentina. E a Ericsson era o maior fornecedor de equipamento de telefonia em vários países na América Latina, menos no Brasil. Fez-se alguma coisa no Brasil, mas muito mais no México, onde, numa certa época, tinha duas operadoras em paralelo, mas que não se interconectavam, e você tinha que ter dois telefones, ________. Um era da (Whitaker?) e o outro era da Ericsson. E eu comecei... Sai desse laboratório bem cedo também, e comecei a viajar, aprender, estudar em outros lugares, a Ericsson em mandou para Londres, para estudar lá em ________, que era o British Post Office, na época. E depois fui mandado para o Líbano, que na época era um lugar fantástico, e também para Damasco, no outro lado. A distância entre Líbano e Damasco era mais ou menos 150 quilômetros, e muito bonito, não tinha os problemas políticos que tem hoje. E era uma cidade que... Beirute era uma cidade que era um sonho. Aí eu gostaria de ser aposentado (risos), mas isso foi naquela época.

 

P/2 – Mas o senhor foi para lá para instalar, a Ericsson estava entrando na Líbia e na Síria, é isso?

 

R – Eu era engenheiro de sistemas e vendedor.

 

P/2 – Ah, vendedor também? 

 

R – É. Então eu carregava a pasta para vender. Era interessante você ir… Aí a primeira vez na América Latina foi Colômbia, em 1957. Nós instalamos a primeira rede, vamos dizer, nacional, de interconectados, cidades: _________, ________, Cali, Medellín, aquelas cidades grandes. E eu era o chefe do grupo que tratava disso em Estocolmo, (aliás, na?) América Latina, eu tinha, de fato, tudo fora da Suécia.

 

P/2 – Ah, quer dizer, o senhor dirigia toda a expansão da Ericsson?

 

R – Sim, é. Na área que eu estava, que chama-se longa distância. E tinha a parte de computação. No caso do Brasil, primeiro morava aqui no Brasil um homem que chamava John Nilsson, muito amigo do Luiz Alberto. E ele voltou para a Suécia, e como ele conhecia o Brasil, ele trabalhou no grupo, mas então viagem para o Brasil era para ele, não era para mim. Então o Brasil… Só conheci depois de saber que eu ia ficar no Brasil. 

 

P/1 – Como era o nome dele, mesmo, por favor?

 

R – John Nilsson. Ele está vivo, se não morreu agora. Muito amigo do Luiz Alberto.

 

P/1 – Certo. E nessa época, o senhor ficava, digamos assim, em uma espécie de ponte aérea, o senhor viajava, ficava um tempo, voltava para Suécia...?

 

R – Você começou, na época de declarar no seu imposto de renda, quantos dias você recebeu diárias, ou o que for da sua companhia. Eu normalmente tinha 120 dias fora da Suécia. 

 

P/2 – Entre Líbano...

 

R – E outros lugares, Ásia, Indonésia, África, México, Colômbia e Venezuela, este foi mais...

 

P/2 – Mas a Ericsson tinha escritório em todos os lugares, ou o senhor estava indo para...

 

R – Na minha... Quando eu fui mandado para… Bom, isso foi em 68, mas tinha escritórios e representantes em (120?) países. A Ericsson, aliás, o _______, de vez em quando... Ele criou essa fábrica lá em Estocolmo, criou uma operadora que também... Então você tem que criar uma operadora para ter um cliente, né? Um dia, quando ele andou na fábrica, ele viu alguém que ele não conhecia. Aí ele disse: “Não, ____ companhia é _____ demais para mim.” Aí ele se retirou (risos). Aí depois ficou, vamos dizer, profissionalizado, mas… Ericsson foi a razão porque a Suécia ficou lá na frente, no caso das telecomunicações. E na área de longa distância, Suécia também ficou bem na frente. Nós tivemos trabalhos juntos com _____, muitas vezes nós estávamos na frente deles, e eles não gostavam. Mas todo mundo, na época, tinha acordos de tecnologia com a _____, eu também estive lá, estudando um pouco. E foi muito interessante essa oportunidade de conhecer não só o mundo, mas conhecer diferentes culturas. E é claro que como viajantes de _____, o que você mais conhece são escritórios, aeroportos e hotéis, né? Mas às vezes você pode conhecer alguma coisa a mais.

 

P/1 – Essas viagens não eram exatamente viagens, digamos, muito rápidas ou muito confortáveis, especialmente para lugares remotos, como Indonésia, que o senhor esteve.

 

R – Não, [a] primeira vez que eu fui para Nova York foi num dezesseis, né? Levamos treze horas, alguma coisa assim. Ainda assim foi bem mais rápido do que por navio.

 

P/1 – Certo. Pois bem, senhor Gunnar, nesse início dos anos sessenta, o senhor já estava, digamos, estabilizado na Ericsson e nas suas atividades e tudo o mais?

 

R – Sim. E também trabalhei muito num projeto no Egito, aí eu realmente tinha ponte aérea de Estocolmo para o Cairo. Viajei muito. E esta foi, também, uma época muito interessante, porque você tinha já o problema de Israel com os árabes, e tinha o – como se chama? Esse embargo que os árabes fizeram contra Israel lá? Se você fizesse negócios na parte árabe, não poderia negociar com Israel. No meu caso, eu nunca fui para Israel. Algumas pessoas, na época, quando iam para os dois países, eles foram para – como se chama? Chipre? – e foram lá no consulado, trocaram o passaporte, para depois ir para outro país (risos).

 

P/1 – Quer dizer, nessa época já havia conflitos...

 

R – Já havia conflito...

 

P/1 – Houve a crise do Suez, em 56.

 

P/2 – 67, eu acho.

 

P/1 – 67, enfim. Mas neste momento, na Suécia, o senhor conheceu o senhor Luiz Alberto Garcia, na Suécia, quando ele foi estagiar lá?

 

R – Sim, ele fez um ano de estágio na Suécia.

 

P/1 – Isso foi em 61, é isso?

 

R – É, e uma parte desse estágio, ele foi para diversas áreas da Ericsson. Ele passou mais ou menos três meses na chamada medição de longa distância e trabalhou junto com o John Nilsson neste grupo que de fato era chefe. Foi aí que eu o conheci pela primeira vez. 

 

P/1 – Como parecia ao senhor e aos seus colegas de trabalho aquela pessoa vindo do interior de um país distante, estudando junto com a...

 

R – Não, mas o Luiz Alberto foi..., (se eu entender bem?), não tinha contato com ele todos os dias, e não tinha tantos contatos, mas foi mais de uma vez. Eu estava viajando também, aí então... Mas ele era um ajudante muito bom, ele continua sendo um engenheiro extremamente interessado, estudava, aprendia, conhece, conhece detalhes, às vezes, ainda hoje, provavelmente, irritando o pessoal da CTBC, porque ele conhece coisas que eles não _____ (risos).

 

P/1 – E nessa época, quer dizer, o objetivo dele era mais conhecer todas as facetas de operação da Ericsson, para poder...

 

R – Ele se preparava de fato. O pai dele tinha mandado ele para se preparar para ajudar no desenvolvimento da CTBC. E ele foi o principal, vamos dizer, arquiteto técnico da CTBC. E foi para isso que ele estudou. Ele aprendeu e aplicou.

 

P/1 – Certo. E essa relação, embora ainda muito rarefeita, que o senhor teve com ele na época, como ela se desenvolveu? Depois que ele saiu da Suécia, fazia contato com os senhores, ainda? Tinha algum tipo de...

 

R – Foi mais via John Nilsson. E o fato é que quando foi mandado para cá, em 68, chegando no Brasil em 68, no dia dezessete do quatro. Um belo dia, telefonou o Luiz Alberto e disse: “o pai quer que você venha.” (risos) Aí, combinamos que eu ia para Brasília, e ele ia me pegar em Brasília. E foi assim, ele mandou o avião do táxi aéreo ____, na época era um avião monomotor, não me lembro se era um ____ ou um ______, sinceramente. O piloto Luiz Alberto sabe disto, mas não sei (risos). E foi a primeira vez no volante, eles me mostraram todas as instalações, e claro que uma das primeiras coisas que você foi ver de instalação seria a primeira estação instalada na base de 54, que era o chamado sistema OS, o ________, um sistema que chamava quinhentos, que era ta, ta, ta, ta, ta, ta, ta, ta, ta, ta. Assim.

 

P/1 – Era mecânica, né?

 

R – Era mecânica, eletromecânica, mas uma eletromecânica mais avançada do que os chamados ______, que também existia. São sistemas que eram construídos para ficar quarenta anos. Não é hoje, que você pensa nisso, por causa que a tecnologia está andando muito rápido, mas na época, eletromecânica também precisava [de] muito espaço, mas você ficava feliz quando entrava na estação, quando estava barulhento, porque aí você sabia que estavam sendo feitos telefonemas (risos).

 

P/1 – Tinha muita gente ligando, né? Eu queria retomar um pouquinho antes, seu Gunnar. Por que o senhor veio para o Brasil? Foi a Ericsson que mandou?

 

R – É. Bom, aí temos que voltar um pouquinho (risos). Eu... Numa certa época, na Ericsson, final de cinquenta, início de... Bom, por aí, a Ericsson teve alguns problemas, especialmente este lugar de longa distância. E você ficou naquela situação, e ainda estava jovem: “o que vai acontecer aqui? Não sei, mas vou (olhar?) meu futuro aqui, assim.” E foi sediado com outras partes da Ericsson, aí eu não sabia o que fazer. E fui falar com um diretor, que era o nosso diretor de marketing de venda da Ericsson, e eu tinha trabalhado junto com ele sobre alguns problemas de Colômbia e eu disse a ele, expliquei a minha situação, ele estava dentro do grupo de tarefas para resolver os problemas dessa parte da Ericsson. Eu disse: “se você fosse meu pai… Qual é a sua...”

 

P/2 – Conselho?

 

R – “Qual é o seu conselho? O que devo fazer?” Aí ele fez uma pergunta. Disse: “o que você quer ser dentro da Ericsson?” E eu respondi: “eu gostaria de ficar tão bom que fosse ser oferecido para ser o presidente da Ericsson, e que eu teria coragem de dizer não.” (risos).

 

P/2 – (risos) Nossa!

 

R – Aí ele disse: “não, bom. Você vai continuar onde você está. Ou você continua lá ou você sai da Ericsson. O seu futuro, dentro da Ericsson, é lá. Se você não gosta disso, então sai.” Eu voltei, continuei na Ericsson, subi rapidamente, fui o mais jovem engenheiro chefe da Ericsson, uma certa época. Aí o meu chefe de longa distância, de direção de longa distância, em 1962, ele foi mandado para uma escola chamada Escola de Diretores, lá na Suíça, na época, em _____, em _____. E o meu chefe do departamento do marketing de vendas, de todo mundo né, ele ficou o chefe de longa distância e eu ocupei a posição deste departamento de marketing e vendas e desenvolvimento de… E também sessão de sistemas, engenharia de sistemas. No desenvolvimento de produtos, nas teorias, assim, eu podia fazer. Aí o meu... Aquele homem que foi lá chamava-se __________, quando ele voltou, ficou presidente da Ericsson. Aí o segundo homem que foi mandado para lá, na escola ______, o homem seguinte, porque na época eram nove meses, ele foi, voltou e ficou o segundo homem da Ericsson. O terceiro que foi lá, voltou e ficou o chefe de uma das divisões mais importantes, que era a divisão eletrônica militar, na época, muito interessante, ainda é, aliás, e depois foi o quarto, e ele foi, voltou e ficou chefe da divisão de PABX, telefones, assim. Então em maio de 1966, me telefona esse Diretor de Recursos Humanos, que é _______ - disse que ele nunca [tinha] visto o meu diploma, né? - Ele disse: “eu quero falar com você.” Eu fui lá. Aí quando cheguei lá, ele colocou um formulário na minha frente e disse: “você quer preencher isso? É a aplicação para ir para ______.” Então, foi o (tinto?). E as pessoas não sabiam o que ia acontecer, mas este era o sonho de todo mundo na época, poder ir lá, (este parecia?)... Eu fico emocionado quando eu penso nisso. Bom, eu não disse não, eu disse: “vou.” Na ida para casa eu passei no chamado sistema, onde vende-se bebida alcoólica, que era o monopólio, ainda é, de certa forma, na Suécia, e comprei uma meia garrafa de champanhe – é o que eu tinha de dinheiro para fazer. E fui para casa, e quando a minha mulher chegou do trabalho dela, eu abri a champanhe, _________, nós ficamos lá, eu disse: “olha aqui.” Eu não tinha como falar, né: “olha aqui.” Aí choramos juntos. 

Bom, em setembro, no fim de agosto, foi, então, para ______, eu estava completamente desligado da Ericsson, da companhia. Nós éramos 39 alunos, de dezenove diferentes países, eu era o único da Ericsson, não o único da Suécia, tinha mais quatro da Suécia, e um dos alunos, aliás, e o filho do nosso presidente do conselho da Ericsson, chama-se _____________ e ainda hoje, no ________, (vive em família?) lá na Suécia. Aí não estava sabendo o que ia acontecer. Em abril, no final de abril de 1967, eu estava sentado estudando, como sempre – porque aí você estudava dia e noite, né? –, e minha mulher me fazendo café para me manter acordado, e aí era mais ou menos nove horas da noite quando telefonou _________, aquele primeiro que foi e disse: “Gunnar, eu estou aqui com o seu chefe, e eles estão dizendo que abrem mão de você. Eu queria te perguntar se você quer ir para o Brasil tomar conta dos postos da Ericsson no Brasil.” E a minha resposta, esta é literal, foi: “o que você espera como resposta? Um não?” Ele disse: “Não.” Eu disse: “então eu já decidi, então vamos.” (risos). Ele (não?) ouviu que depois nós falamos uma porção de outras coisas e o fato: quando terminei a escola, em junho, depois comecei a me preparar para ir para o Brasil, a minha primeira receita para o Brasil foi junto com este ________, não me lembro se foi outubro ou... Acho que foi por volta de outubro. Para uma inauguração da expansão da fábrica da Ericsson em São José dos Campos. E quem fez a inauguração foi Costa e Silva, na época. E foi quente, muito quente, todo mundo suando. O palanque, assim, eu nunca vi gente tão interessada em ficar num palanque na minha vida (risos). Todo mundo tinha que ir para aquele palanque, então felizmente não era um palanque alto, que ia cair. Mas esta foi a primeira visita, depois fiz mais algumas, duas ou três, antes de chegar no Brasil, vou chamar definitivamente, no dia dezessete de abril, 6:25 da manhã, no Galeão. 

 

P/2 – E qual foi a sua primeira impressão do Brasil? Da primeira vez?

 

R – Olha, primeiro eu gostei, claro que... Rio de Janeiro, Brasil é um sonho, um sonho para todo mundo de ir para o Rio. (Eu tinha?) uma música que... Costumava tocar uma valsa que se chama Rio ____ (risos). Então eu também... E a minha mulher, nós tínhamos decidido que íamos nos aclimatizar, aqui é onde nós vamos viver, então não vamos sentir falta de nada. E a minha mulher era muito comunicativa, então no Rio, pelo menos na época, você começava uma discussão só dizendo bom dia, né? (risos) Então, foi fantástico, foi muito bom chegar no Rio primeiro. Já estava decidido que ia mudar para São Paulo, então estava transferindo a matriz da Ericsson do Rio para São Paulo, e definitivamente eu morei em São Paulo a partir de fim de 69, início de setenta. E foi quando foi construído também o centro Ericsson, aqui em São Paulo. Nosso primeiro escritório foi na Avenida Paulista, 2002. E aliás, aí, nesse país tropical, aprendi que fica frio também, né? (risos) Como este prédio nós estamos não tinha aquecimento, e um dia fez cinco graus em São Paulo, à noite. Aí fica quase impossível ficar dentro do prédio, você saía para rua para se aquecer um pouquinho.

 

P/1 – Está certo. Nessa época a CTBC já era cliente da Ericsson?

 

R – Era cliente da Ericsson. Como vocês já sabem, o ____ foi o primeiro a assinar a ata de triagem da CTBC, e era um cliente da Ericsson, um cliente fiel da Ericsson, de fato. Então, por causa disto, é óbvio que nós estamos também gostando muito de ter a CTBC como cliente. Quando eu cheguei aqui, o Ericsson assinou o primeiro grande contrato para ampliação em São Paulo em 66 e mais um em 67, então isso de mudança do Rio para São Paulo era natural, porque no Rio a instalação foi feita para ITT. Então foi dividido, de fato. A CTBC, na época, dividiu o Rio para ITT e São Paulo para a Ericsson. E nessa troca de comando na Ericsson, a ITT tentou fazer um golpe para entrar em São Paulo também. E como eu era novo e inexperiente, eu achava que iam fazer isso. E eu ficava lá no escritório da Ericsson, na Presidente Vargas, esquina com o Rio Branco, décimo terceiro andar, esquina mesmo, 68, com todos aqueles... Às vezes um pouquinho de barulho nas ruas também, e fiquei lá como aranha numa rede, para tentar fechar os buracos, para não deixar o ITT que tinha feito uma carta de intenção com CTB para São Paulo. Aí um dia, eu não me lembro qual, mas deve ter sido por volta de agosto, eu cheguei em abril, agosto de 68, eu estava sozinho no escritório, um pouquinho mais tarde, deve ter sido por volta de sete e meia da noite, tem alguém batendo na porta, entra o secretário geral do ministério das comunicações, na época, que era José _______. Que era o primeiro engenheiro de telecomunicações no Brasil. Aliás, ele já tinha uns setenta anos, talvez. Ele entrou e disse: “Gunnar, você ganhou.” (risos) Eu disse: “ganhei o quê?” Disse: “não, CTBC acabou de decidir que Ericsson vai ser sozinho em São Paulo.” Bom, aí este foi um triunfo. Aí de qualquer jeito mudamos para São Paulo, expandimos a fábrica e tudo. E foi um dos mais importantes, porque a gente era CTBC. 

 

P/1 – E esse telefonema do Doutor Luiz lhe convidando para conhecer Uberlândia, como se deu? “O meu pai quer tê-lo aqui.” Como era isso?

 

R – Sinceramente, eu só me lembro que ele telefonou e disse: “Venha para cá. Você tem que vim nos visitar.” E nós combinamos, eu fui. Não fui direto, não. Ele disse: “você não vai para Brasília?” “Claro que vou.”, eu disse. Então: “quando você for a próxima vez para Brasília, então me informe e vamos te pegar em Brasília.” Daí foi assim. Muito fácil, de certa forma (risos).

 

P/1 – Certo. E o que o senhor viu em Uberlândia quando foi conhecer as instalações da CTBC?

 

R – Bom, CTBC era bem menor do que hoje, né? E Uberlândia também. Mas Uberlândia era uma cidade muito bonita, é hoje, o Luiz me levou para ver todas as instalações, nós fomos para vários lugares, e mostrou que ia ser construído um armazém de... Não, talvez eu esteja misturando agora. Estou pensando em Associativos, eu não lembro quando Associativos foi para Uberlândia, talvez foi mais tarde. Mas aí eu também encontrei o Alexandrino e foi uma visita, assim, de amigos.

 

P/1 – Que impressão lhe ficou do seu Alexandrino, que o senhor não conhecia, né, o senhor foi conhecê-lo lá nessa época...

 

R – Sim, é. 

 

P/1 – Como é que era o seu Alexandrino?

 

R – Você poderia até dizer: “gostaria que ele fosse o meu pai.” Ele era um homem que eu adorei desde o primeiro momento, é óbvio que ele era muito decidido, mas ele conhecia o que ele estava fazendo, ele estava muito interessado em também... Senti que ele estava interessado em pessoas, estava interessado em me conhecer como pessoa também. Acho que nós desenvolvemos um bom rapport, né?

 

P/1 – Não lhe causava estranheza, um executivo estrangeiro no Brasil, o fato de uma empresa como aquela manter-se privada no momento de grande fúria estatizante, digamos assim, nessa área de telecomunicações?

 

R – Bom, eu, na época, quando foi tirado o primeiro Telebrás, em 72, aí ia estatizar todos, mas felizmente tinha aquela cláusula que tinha que pagar por isto também, e eu não estava diretamente envolvido durante esse tempo mais sério que a CTBC tinha, porque então eu já estava na Xerox, mas eu estava muito amigo do Alencastro... 

 

P/1 – General Alencastro?

 

R – General Alencastro. E, às vezes, ainda hoje eu me sinto um pouquinho estranho quando se fala como Alencastro como grande inimigo (risos) quase, na época. Porque o Alencastro queria, queria tanto incluir a CTBC, que a CTBC é uma excelente empresa, né? E ficou uma pedra no sapato do Alencastro, que não conseguiu isso. Mas também não me surpreende porque o Alexandrino foi, desde o dia da primeira vez que eu vi ele, eu senti que ele era um homem que sabia o que ele queria. E era muito firme nas suas convicções. Até o ponto que quase quebrou.

 

P/1 – Tinha um leão de um lado, mas um leão do outro lado, né?

 

R – É.

 

P/1 – Certo. E nesse processo, depois do senhor ter tido esse primeiro contato com ele, os senhores conversavam com alguma regularidade, ou voltaram a se encontrar? O senhor chegou a ter uma amizade por ele, ou não?

 

R – Com Alexandrino?

 

P/1 – Sim.

 

R – Amizade, amizade, talvez não tanto, mas suficiente para que... Eu, como fiquei no Brasil, ainda em oitenta e alguma coisa, quando eu estava na Xerox, ele me chamou, ele quis que eu fosse lá para se encontrar com ele. Eu não tinha mais nada a ver com a CTBC diretamente, mas nós tínhamos uma filial na época em Uberlândia, da Xerox. Eu fui lá, e fui lá visitar o Alexandrino na casa deles lá perto do _________, no centro do _____... 

 

P/1 – Do _______, na Granja Marileusa...

 

R – É. Sim. Luiz Alberto costuma dizer: “Você ______________________.” (risos) E nós fomos lá e matamos as saudades basicamente. Eu estava na Xerox, na época.

 

P/1 – Como foi essa sua transferência da Ericsson para a Xerox? O que ocorreu na sua vida profissional?

 

R – Bom, é uma dessas coisas, também, que foi basicamente decidido muito rápido. Não tão rápido como a primeira vez, não, de ir para o Brasil, mas na Ericsson (não?) tinha utilizado o ________, que chamava-se __________, e na época chamava-se _______, eu acho, e ele, um belo dia, sabendo que nós íamos voltar para a Suécia, nós tínhamos sido chamados de volta depois de sete anos. Como __________, um excelente ______, ele conhecia a minha mulher também. As mulheres dos executivos, né? Ele sabia que a minha mulher não queria voltar para a Suécia. Aí, um belo dia ele me telefona e diz: “Gunnar, você gostaria de se candidatar para ser presidente de uma empresa americana no Brasil?” eu disse: “quem é isso, né?” Ele não disse o nome. Ele falou um pouquinho, assim. Eu disse: “Onde fica essa empresa?” Ele disse: “No Rio de Janeiro.” Ufa (risos). Porque a minha mulher sempre reclama que Rio era melhor do que São Paulo. Aí eu disse: “vou falar com o governo quando eu chegar em casa, hoje, ok?" Estamos jantando, aí eu disse a minha mulher: “______ telefonou hoje.” Ela disse: “Ah, e o que ele queria?” “Bom, ele queria saber se eu não gostaria de me candidatar a ser candidato a presidente de uma empresa americana.” Primeira pergunta dela foi: “E onde fica essa empresa?”

 

P/2 – (risos).

 

R – Eu disse: “No Rio de Janeiro.” Aí ela olhou, assim, nos meus olhos, e disse: “Se você não for, eu vou.” (risos).

 

P/1 e P/2 – (risos).

 

R – E isso facilitou um pouquinho da mudança, mas não foi fácil em si, porque eu fui declarado traidor da Ericsson, né? Por alguma época. Hoje... Com o tempo se esquece isso, mas foi um choque para _______, que era o presidente. Eu não sei quais eram os planos que ele tinha para mim, mas... Eu destruí alguma coisa para ele. Eu fiz, né?

 

P/1 – E tudo isso movido pela vontade da sua mulher de permanecer no país?

 

R – Sim, principalmente. O outro lado, também tenho que dizer que eu recebi uma oferta que comparado com a Suécia era no céu, né? Porque na Suécia eu ia pagar mais de oitenta por cento do meu salário em imposto de renda, na época – hoje é diferente. Aqui eu ia ganhar muito mais, com menos custos, e um imposto de renda infinitamente menor. Então isso ajudou, também, a decidir por ficar. Mas foi um pouquinho... Você trabalha 22 anos e vinte dias numa empresa, aí é claro que você se identifica com a empresa. Ainda hoje, vendo na televisão um anúncio da Ericsson, o meu coração começa a bater mais forte. Então foi rápido de decisão e difícil de implementação, mas também tenho que dizer que não foi nada que eu tenha me queixado depois. A minha mulher morreu dois anos mais tarde. Mas eu já estava aqui, continuei aqui, me casei de novo, e meu filho de 22 anos é deste casamento, e adoro o Brasil. Então também eu tenho que te dizer que na época, quando isso foi decidido, em 75, eu já tinha uma porção de... O que eu chamava de minhas crianças no Brasil, que eram as fábricas que nós construímos. _____ tinham fábricas, expansão de fábricas em todos os lugares do Brasil, e muito mais fácil de se sentir parte do desenvolvimento, do progresso do país no Brasil do que na Suécia. A Suécia, na época, era basicamente tal que eles estavam tentando destruir algumas coisas para construir de novo. Então mentalmente era muito satisfatório ficar aqui, eu me senti bem.

 

P/1 – Certo. Do ponto de vista dessa mudança radical de ramos de negócio, quer dizer, o senhor sai de uma empresa de telecomunicações para uma empresa produtora de documentos, com outro conceito, como isso se ajustou? Ou apenas era uma questão de gestão?

 

R – Bom, primeiro, os critérios para eu escolher, porque eu fui candidato e fui escolhido como ser da Xerox, e eu fui o quarto ____ da Xerox em dez meses, Xerox do Brasil. E eu encontrei uma empresa com muitos problemas. Tinha acontecido invasão de americanos, de xeroquianos de outros países, e o que _______ a escolher era alguém que não era brasileiro mas conhecia o Brasil e tinha algum conhecimento do modelo americano. Então, ______ era uma escola trabalhando com _______, eu conhecia o Brasil, e... Bom, fui escolhido, né? Aí, fui para os Estados Unidos, aliás, o Xerox tinha um parceiro brasileiro, que se chamava Henrique Sérgio Gregori, que aliás foi o primeiro diretor superintendente da Xerox do Brasil. E foi quem criou o Xerox no Brasil. E ele era um homem fantástico. Então eu estava nos Estados Unidos aprendendo um pouquinho mais sobre Xerox, os primeiros trinta dias ia ser estudar, depois de quinze dias, o Doutor Gregori telefonou para o meu chefão nos Estados Unidos e disse: “mande aquele rapaz de volta para cá, aqui está tomando o fogo. Está queimando tudo.” Então lá se foi, né? Isso foi em meados de outubro, no início de novembro, 75. Telefonei para o meu chefão lá nos Estados Unidos e disse: “_____, você me disse que tinha algumas serpentes por aqui, mas você não disse que para cada pedra que viro tem um ninho de cobras, né?” Porque o que tinha na época foi fantástico, mas...

 

P/2 – (risos).

 

R – A Xerox toda estava fazendo apostas, como bons brasileiros, de quanto tempo eu ia demorar para sair. E todo mundo perdeu, porque eu fiquei quinze anos (risos) Mas é...

 

P/1 – Era um momento turbulento na história brasileira, especialmente com a recessão dos anos oitenta, que o senhor pegou em cheio, né? 

 

R – Sim, mas _____________, que foi conselheiro da Xerox, ele, por volta de 89, assim, ele escreveu que a década de oitenta pode ter sido uma perda para o Brasil, mas para a Xerox do Brasil não foi. Nós tivemos... Dentro dos ambientes, você tem que se adaptar para o ambiente. Eu, uma vez, disse que nós temos cinco ou seis no Brasil que você tem que conhecer bem: primeiro, você tem CDI, Conselho de Desenvolvimento Industrial, que era uma – não vamos falar palavras feias, mas… - era uma coisa muito difícil. Você tinha que, para poder fabricar coisas, nós estamos fabricando coisas, fazer uma integração no Brasil que não era econômica. Mas no outro lado, como nós chegamos a índices que nenhum outro concorrente fez, nós tivemos vantagens, por causa disso, então CDI nos ajudou no final da história.

 

P/1 – Índices de nacionalização?

 

R – Índices de nacionalização. Você tinha CIP, controle de preços, é isso?

 

P/1 – Comissão Interministerial de Preços.

 

R – É, nem se fala. E muito do meu tempo foi dedicado a ir à CIP conseguir aumentos de preços. Só que por causa do CIP nós não conseguimos aumentar os preços suficientes para abrir mercado para os concorrentes. Aconteceu até que nossos concorrentes foram para a CIP pedir para aumentar os preços da Xerox para eles poderem competir. Então para nós era uma maravilha, de certa forma, porque ninguém poderia nos atingir no Brasil. E tinha Cacex, ufa! Aí como é que você consegue _______ de importação, mas como vocês estão fabricando, e começamos a exportar, aí os outros tinham que fazer a mesma coisa que (nos fazemos?), então, Cacex nos protegiam também (risos). O que eu estou esquecendo?

 

P/2 – CDI, CIP, Cacex...

 

R – Bom, tem... O que foi mais? Bom, o último, que não é exatamente “C”, era SEI, né? Secretaria Especial de Informática. Que uma vez, isso foi na época do _____, ele era o _____, que era chefe do SEI por muito tempo. Ele me chamou para explicar como a máquina Xerox era eletrônica, porque ele tinha ouvido isso no Japão, era uma máquina eletrônica. Aí eu tinha me preparado bem e fez uma exposição sobre a máquina Xerox, em que as diferentes tecnologias da máquina Xerox, assim. Falei cinquenta minutos sem mencionar a palavra eletrônica, na época ele não olhava para a pessoa, ele _____, mas ______ é muito meu amigo, aliás. Aí ele não aguentou mais, ele levantou a cabeça e disse: “mas o que é eletrônico na máquina?” Eu disse: “a parte do controle.” No início, a parte do controle era eletromecânica, e poderia ser isso hoje também, só que seria um desperdício de dinheiro e de tecnologia fantástico. Então hoje o controle é todo eletrônico, mas não a base, em si, de máquinas. Aí ele disse: “tudo bem. Então continua. Mas quando você introduz uma nova máquina, venha me contar primeiro, né?” (risos). Mas sei... Porque uma das coisas que nós começamos a fazer foi as grandes impressoras de lazer. E este era máquina eletrônica, mas não poderíamos dizer, então, sob controle da SEI. IBM tinha feito instalações de uma dúzia de máquinas, mas SEI começou, por causa da IBM, tinha aquela política um pouquinho negativa, vamos dizer, e de certa forma, uma das razões porque foi criado SEI, né? E aí a SEI começou quando chegou pedidos para importar máquinas de IBM, disse: “Vai falar com Xerox também, né?” E a SEI basicamente bloqueou as importações da IBM. Nós chegamos a... Acho que foram quase noventa máquinas instaladas, _____ quanto IBM importou, no máximo cinco, né? Então SEI costumavam dizer (no escritório?): “SEI é o nosso melhor vendedor de máquinas grandes” (risos).

 

P/1 – Curiosa essa leitura do cipoal burocrático que o Brasil oferecia... 

 

R – Não, mas... Por isso que eu estou dizendo: você tem que aprender a viver no seu ambiente, e tornar o ambiente positivo para você. Existe uma fórmula, um pensamento sobre produtividade industrial e qualidade, que sempre fala, mais ou menos uma fórmula, ______: você tem que tentar fazer a sua situação mais positivo que ____, né?

 

P/1 – Perfeito. Seu Gunnar, como o senhor foi tirado da Xerox e levado de novo para Uberlândia, agora não mais para passear, nem conversar com as pessoas?

 

R – Primeiro, eu sou aposentado da Xerox. A partir de primeiro de janeiro de 1990. Aí eu criei a minha própria pequena empresa de consultoria, chama-se _____, que tem um empregado, que sou eu. E tenho um sócio também, que é a minha mulher, mas é outra coisa. Aí comecei a voltar para a área de telecomunicações, mas direto, e criei duas pequenas companhias para uma empresa de origem sueca, com sede em Luxemburgo, que chama-se ______, criado por um sueco que hoje não existe mais, mas ele, em 78, disse: “Onde vou investir? Vou investir na área de telecomunicações, porque esse vai ser o futuro.” E começou a fazer isso nos Estados Unidos, na Suécia também. O maior concorrente da ________, da _______, hoje, da Suécia, é a organização dele, que começou a ser chamada _____, hoje é (Teledois?). Então tinha essa empresa de (Milicom?) e Luxemburgo que estava comprando, conseguindo licenças de criar empresas de telefonia celular no mundo inteiro. Tinha no México, tinha no Oriente Médio, tinha em vários lugares, tinha em Paraguai, conseguiram uma em Colômbia, tinha em Guatemala, e por aí, assim. E eles estavam olhando o mercado do Brasil. E na época era o Collor que começou. Então o chefe dele, de expansão internacional, era uma pessoa chamada _________, que teria trabalhado comigo na Ericsson. Então nos conhecíamos bem, ele me telefonou e disse: “você não poderia fazer isso, isso e isso?” “então vamos.” E nós chegamos até o ponto de ter feito todo planejamento, uma oferta pronta, (antes de entregar?), o dia seguinte, para uma rede no nordeste, que chegou a ser a área (três?). Com os parceiros sendo Tasso Jereissati e Albano Franco. Só que tinha sido muito aqui em São Paulo, idas e vindas, assim, lá no nordeste (não?) tinham proibido ainda, mas a noite antes de entregar as ofertas, alguém, não sei quem, telefonou para Hugo Napoleão, que era ministro das comunicações na época, dizendo: “se você não parar isso, você vai ser processado pelo Supremo amanhã.” Então cancelou à noite, né? E uma empresa ficou, que se chama (PCN?), ainda existe, mas nós já vendemos. Aí quando chegou a época de privatização, primeiro a banda B, aí eram regras completamente diferentes, então (Milicom?) não poderia participar mais. Mas eu encontrava Luiz Alberto às vezes, durante aquela época toda, ___________ lá em São Paulo. De vez em quando nós... Puf. E em 1996, novembro, nos encontramos em Nova York. Aliás, foi uma exposição sobre a economia no Brasil, que um parceiro meu, que chamava-se _________, nós ficamos, fomos ver, coordenando o painel brasileiro nessa conferência lá. E uma das pessoas convidadas foi o Luiz Alberto, para falar sobre telecomunicações. Ele foi lá, e fez uma boa exposição. No almoço, depois disso, nos sentamos juntos, aí ele disse: “Gunnar, você não queria trabalhar comigo lá?” Eu tinha uma pequena restrição na época, porque uns dois anos antes, eu não lembro exatamente, o que eu me encontrei, ele veio para falar comigo, disse: “eu gostaria que você olhasse (Metal Química?), _______________, lá em Campinas, ver o que nós podemos fazer com isso. Bom, você não quer ser chefe desta?” Eu disse: “antes de responder eu tenho que saber qual é a empresa”. Aí eu fui, levantei alguns dados, assim, voltei para o Rio, aí eu recebo um telefonema, não direto dele, mas de um assessor do Mario Grossi, que disse: “Mario Grossi quer jantar com você no Rio.” Tudo bem, fui jantar com ele. E aí Mario Grossi disse: “quem decide no _____ ou largar sou eu. O que você está fazendo lá na Xtal?” Bom, eu disse: “Luiz Alberto me pediu para ver.” Aí ele disse: “mas sou eu quem decide. Então, você não vai lá mais.” Eu disse: “tudo bem, eu não estou aqui para criar problemas não.” Então, tchau, tchau, tchau. E aí quando nós estávamos em Nova York, nesse almoço, aí Luiz Alberto: “você não gostaria de trabalhar comigo?” Eu disse: “fazendo o quê?” “Não, eu quero que você vá tomar conta do ___.” Eu disse: “se for para eu ser chefão, eu aceito. Mas como é que você vai fazer isso?” Ele falou assim: “tudo bem. Quando voltarmos para o Brasil, vamos falar.” E isso se desenvolveu até o ponto que um belo dia ele disse: “venha.” Aí foi no final de 96, eu fiquei lá 4 meses, até o Mario Grossi sair. Saiu definitivamente em primeiro de maio de 97, e foi nessa época que estava se discutindo muito Banda B, né? Estava-se planejando para se fazer consórcios, assim, e eu participei, mas não diretamente, na oferta, porque como eu cheguei ao ponto de fazer as ofertas para o leilão, aí se restringiu a um grupo de pessoas muito pequeno. Ia um representante de ______, os coreanos, um do Queiroz Galvão, era o José Mauro, do _______, que eu estava em Brasília, (noite?) antes para fechar isso, e quando uma linha telefônica foi (autografada?) com Mario Grossi, aí eles decidiram. E eu disse ao Luiz Alberto: “olha, eu não sei se é verdade, mas uma pessoa me contou em novembro de 96, mais ou menos antes de eu me encontrar com você, quem é que vai ganhar cada área. Vai ser assim, vai ser assim, assim, assim.” Luiz Alberto disse: “eu não acredito. Não podem fazer isso.” “Tudo bem.” Também eu não posso dizer que é verdade, né? Foi assim... 

 

P/2 – Telefone sem fio...

 

R – Telefone sem fio, né? (risos). Mas nunca me esqueci o que foi isso, então quando foi aberto as ofertas, apareceram quinze consórcios, empresas que estavam fazendo ofertas. E tinha lugar para dez. Aí começou aquela história de qualificação, e nós fomos desqualificados. 

 

P/1 – Nós, a Algar.

 

R – A Algar, sim. A Algar, algumas empresas nossas, que uma era _________, do _________ e a outra era Algar, o consórcio Algar. E tinha outros que entraram que não estavam previstos naquela lista dos três que eu tinha. Por exemplo, (TLA?), da Suécia, que chamava-se ________ no consórcio, né? Bom, eu fiz a minha lista lá, de todo esse, e como nós estamos... Bom, eles abriram área por área, menos logo no início, a área sete, que era o centro-oeste, só tinha uma oferta. Esta foi ________, e foi o que hoje é _______. Esta foi a primeira, vamos dizer, também a assinar a concessão de tudo, _________.

 

P/1 – ___________________.

 

R – É. E abriu-se também a parte de São Paulo. Não, antes disso, (eles tinham a qualificação?) antes de abril, e nós fomos desqualificados. Os cinco, vamos dizer, patinhos feios naquele quintal, que eu achei que existia, foram desqualificados, por coisas em parte não muito importantes, não. De tal forma que você tinha, também, possibilidade de reclamar contra os outros, né? E no nosso caso, do Algar, nós entramos com falhas contra todas as empresas, treze outras empresas, treze outros consórcios, só para mostrar que não foi só dos cinco que tinha problemas, não. Porque aí começou aquela luta de qualificado, não qualificado, blá, blá, blá, e no final nós fomos qualificados, mas houve muito, muito trabalho nisso, até chegar lá. Porque lá tem o Supremo, não é o Supremo, não. É STJ, né?

 

P/1 – Supremo Tribunal de Justiça.

 

R – É. Foi uma luta quase diária para conseguir, assim. Nós conseguimos contratar como nosso principal advogado nisso o antigo presidente do Supremo, Rafael Mayer, um homem de oitenta anos, mas fantástico. Opa, que pessoa! E ele fez toda estratégia, como fazer isso, e com certeza o Dílson pode te falar mais sobre isso, ele tem todos os detalhes do que aconteceu.

 

P/1 – Eu queria entender um pouco melhor, Seu Gunnar, esse processo foi todo liderado... Esse momento que o senhor chega é um momento de transição do seu Mario Grossi para o seu comando. Esse processo foi todo liderado pelo Seu Mario Grossi e José Mauro com o senhor no apoio, é isso que se deu no momento? 

 

R – Até feito a oferta, depois eu entrei no comando da Algar, então, a luta...

 

P/2 – Na hora de contestar, e tal, o senhor já estava...

 

R – Contestar e tudo, já estava lá. Foi eu que liderei, vamos dizer, a luta para ser qualificado. E este processo de qualificação, primeiro chegou ao ponto que, como nós não estávamos em São Paulo, e de uma maneira ou de outra em São Paulo é conseguido ser limpo, aí foi aberto as ofertas de São Paulo. E aí o BCP ganhou com aquela oferta fantástica, um bilhão a mais que o resto. Aí empresas qualificadas, aí vem a área dois, né? Abre-se ofertas de área dois, e para a surpresa de tudo, a oferta maior é da Tess, né? Ish, aí começou a luta de novo, para desqualificar, fazer, porque uma das coisas é que se você não ganhar você pode tentar fazer com que outro também não ganhe, né? (risos). E quem estava mais perto para ganhar a área dois era o consórcio onde estava entre outros, Andrade Gutierrez, (SPC?), eu não me lembro de todos, mas era este. E Tess estava aí, não conseguiram dizer que Tess era mal, mas também não queriam fazer contrato com Tess, na forma como o Tess foi apresentado, porque o parceiro brasileiro era CR Almeida.

 

P/1 – CR Almeida?

 

R – É.

 

P/1 – Sim, uma construtora do Paraná?

 

R – Do Paraná. O Cecílio Rego Almeida.

 

P/1 – O notório Cecílio Rego de Almeida.

 

R – Bom, isso sem comentários. Eu conheço o Cecílio pessoalmente. Ele, pessoalmente, é uma pessoa agradável. Mas também eu tenho que dizer que o único construtor que, às vezes, se orgulha de ter mais alugados do que operários, né? (risos). E aí era óbvio se ouvir que o problema para realmente adjudicar a concessão à Tess era que o governo não gostava de CR Almeida, né? Bom, tudo bem, é problema deles. Mas (pior que outro interesse?), porque você tinha que... (primeiro um, pediram dois, tinham três assim, né?)? Aí um belo dia o Luiz Alberto recebe um telefonema do presidente da Ericsson no Brasil, perguntando ao Luiz Alberto se a Algar queria entrar no lugar da CR Almeida. O Luiz Alberto gostou disso, aí me chamou e disse: “Gunnar, o que você acha? Vá investigar isso você, ok?” Aí eu fui posto em contato com os representantes da ATL, que, aliás, conhecia. Aí começamos uma discussão sobre isso, e aí como seria isso. Tinha o problema que nós queríamos ganhar o Rio, que era uma outra área nobre, entre um e seis, então um dos problemas era que nós não poderíamos ter mais do que 19,99% das ações de volta da Tess. E o C.R. Almeida tinha quarenta por cento do total. Aliás, eram 39% das ações ordinárias, 41... Bom, deu quarenta por cento total. E nós achamos uma engenharia financeira, como fazer tudo isso, aí eu disse: “mas antes de nós fazermos isso eu vou para Brasília para ver se realmente nós estamos pedindo, porque nós tínhamos ouvido que tinha sido dado indicações de algumas empresas, inclusive a BCP, assim. Mas _____ não chegou a um acordo com essas outras. Bom, era na época de Sérgio Motta já com esse problema de saúde. Aquele dia, quando foi à noite para Brasília e encontrei-me com Quadros, que era o substituto, e presidente da comissão de licitação... 

 

P/1 – Juarez Quadros?

 

R – Juarez Quadros. Não Jânio Quadros, Juarez Quadros. Aí também estava na sala o secretário particular de Mota, e Mota estava em Denver, fazendo alguma revisão.

 

P/1 – Em Denver?

 

R – Em Denver, Colorado, nos Estados Unidos. Aí eu fui lá, expliquei o assunto e disse: “só vamos entrar se vocês disserem que nós somos bem vindos". (Não vamos fazer esse negócio?) se não estamos realmente bem vindos aqui, né? Aí durante a conversa, esse secretário particular saiu, foi telefonar para o Sérgio Motta. E o Sérgio Motta disse: “diga a ele que ele está bem-vindo, sim. Pode.” (risos). Aí ele voltou e disse: “vocês podem.” Aí nós entramos, uma vez que isso tinha sido resolvido foi... Então foi este no início do ano 98, aí foi aberto... Foi feito o contrato, e nós estamos com esta participação no Tess. A Algar na Tess. Aí abre-se oferta número da área três, _____________________. Não sei se... Foi Algar, desculpem. O consórcio _________ foi no Nordeste e no Sul. Bom, clareando, conseguimos fazer... Tinham acontecido coisas antes, que eram problemáticas para nós. Por exemplo, lá no final de 97 – porque já estamos em 98 quando isso aconteceu –, teve problema asiático, inclusive na Coréia. E num dia, janeiro de 98, veio o representante da Coréia, ________, (Esca Telecom?), dizendo que nós não podíamos continuar, nós não tínhamos dinheiro para fazer isso. E isso foi um choque para nós, porque nós tínhamos conseguido, basicamente, limpar tudo, aí eles vêm e dizem que não têm dinheiro, não poderíamos participar. Felizmente, quem estava citado na oferta, que um dos problemas que nos deu foi este Telecom internacional dos Estados Unidos. Não da Coréia. De tal forma que quem ia fazer a integração de dinheiro era a (Esca Telecom?) internacional, não da Coréia. Diretamente, claro que Coréia para eles, mas não diretamente no Brasil. Aí eu disse que o representante do (Esca Telecom?): “olha, não fala isso agora. Deixe-me trabalhar um pouquinho. Se eu conseguir dinheiro para vocês, vocês continuam?” “Bom, eu vou tentar.” Ele disse assim, né? Mas foi quando nós começamos a discutir com (Willians?), como eles poderiam financiar a (Esca Telecom?), fazer um acordo com (Esca Telecom?), de tal forma que nós poderíamos preservar o consórcio intacto, mas que o dinheiro para a (Esca Telecom?) foi de uma outra forma, lá fora...

 

P/1 – Via subsidiária americana.

 

R – É. E eles se interessaram, foi uma discussão dura, eles tiveram uma discussão enorme com os coreanos, assim, mas no final foi-se resolvido o assunto, e não foi assim cem por cento aceito lá na Coréia, então em março, na última reunião que nós tivemos no Rio, foi dito: “tudo bem, nós vamos prorrogar a oferta mais uma vez, mas se não for resolvido dentro de mais uma vez, nós vamos nos retirar.”

 

P/1 – Os coreanos dizendo isso?

 

R – É.

 

P/1 – Mesmo com o dinheiro da Williams?

 

R – É. Bom, felizmente, então, chegamos no dia fantástico que Tess tinha assinado o seu contrato, dia seguinte foi… Acho que foi dia seguinte, foi aberta a oferta da área três. Ganhador: Algar, que foi outra surpresa, porque quem ia ganhar? Rio. Era o consórcio onde tinha o Globo, né? (risos).

 

P/1 – O Bradesco, né? _________.

 

R – ________, é. Bom, pelo menos acharam que iam ganhar. E nós estamos lá, com uma oferta mais ou menos cem milhões melhor do que eles, né? Ah... De qualquer jeito, então, não foi tão difícil de conseguir fazer os contratos e tudo e... O problema era de conseguir rapidamente ter todo o dinheiro que nós precisamos, né?

 

P/1 – Claro.

 

R – E quem estava, quer dizer, juntando dinheiro lá fora era o Citibank. E no início da semana, nós dizíamos: “tínhamos que ter isto, tatatata, vamos...” Tentamos, então, dizer que íamos assinar sexta-feira. Aí terça ou quarta de manhã, telefona o Sérgio Motta dizendo: “quero assinar amanhã à noite, às dezoito horas, quinta-feira.”

E como vamos conseguir isso, né? (risos). Bom...

 

P/1 – essa assinatura imediata implicava já o aporte de capital?

 

R – Sim. E o dinheiro, nós não tínhamos ainda. Aí telefonamos para Citibank, fizemos todo mundo trabalhar, e Citibank trabalhou muito bem. À noite, quarta-feira para quinta, às duas horas da madrugada, saiu a ordem de pagamento de dinheiro, vamos dizer, de Nova York para O Citibank em Brasília. E às dez horas, quando abriu o banco, antes de dez um pouquinho, já estava lá o... Como se chama o diretor financeiro da Algar hoje? 

 

P/1 – Nelson?

 

R – Não, não, não. Era tesoureiro. Ish...

 

P/1 – O Geraldo?

 

R – Geraldo.

 

P/1 – Geraldo Caetano?

 

R – Geraldo Caetano. Um homem fantástico, né? Ele estava lá esperando. Porque nós tínhamos que entregar o cheque antes do meio dia no Ministério das Comunicações. Bom, ele conseguiu o cheque, colocou no bolso aqueles seiscentos milhões de reais, o que foi, pegou táxi para ir para o Ministério da Fazenda, e o Ministério das Comunicações, e lá tinha um protesto de alguma coisa assim, no caminho. Ele tinha que sair do carro, andando no meio do protesto, com aquele cheque... (risos). Mas chegou, entregou, foi feita uma foto, também, do cheque, e no final tudo feliz, nós entramos no Ministério das Comunicações, à noite foi assinado lá, todo mundo presente, imprensa toda.

 

P/1 – Quem estava da Algar lá?

 

R – Era... Bom, nós já tínhamos criado a empresa de ATL, lá. Então representando a ATL era o atual presidente, o Carlos Henrique Moreira. E o representante do Queiroz Galvão, que era um dos participantes no consórcio. E do Algar, o resto era o Alexandre, representando o pai, porque o pai queria voltar, ele estava em _______, ele me telefonou dizendo: “não poderia atrasar para sexta-feira, né?” Eu disse: “olha, queria tanto, mas o Sérgio Motta (tem dito?) que tem que ser hoje. Então você vai me desculpar, mas vai ser hoje, né?” 

 

P/1 – O Luiz Alexandre, então?

 

R – O Luiz Alexandre que ficou lá representando o Luiz Alberto, e também o Luiz Alexandre deu um recado para o Sérgio Motta do pai, que ele não poderia estar. Eu fiz uma pequena palestra, também, agradecendo. E o Sérgio Motta disse... Tem uma fita dessa cerimônia, vocês podem verificar melhor, mas ele disse que... “Eu tive algumas discussões com o seu pai e nós sempre achamos a mesma coisa. Mas eu estou feliz que vocês ganharam aqui, aliás, o Triângulo Mineiro é mais São Paulo do que Minas Gerais, então vocês são aceitos na família" (risos). Ele teve alguns problemas de falar, tinha aquela máquina do lado, que ________, aumenta um pouquinho o oxigênio, e no final, quando nos despedimos, eu conheci Sérgio Motta um pouquinho antes que ele era ministro. E quando eu fui me despedir, ele disse: “____, satisfeito agora, sueco?” (risos) Eu disse: “agradeço, Mota.” O fato é que esta foi a última cerimônia oficial de Sérgio Motta. Porque no dia seguinte, ele entrou num hospital em São Paulo, de onde ele não saiu. Então ele queria tanto fazer isso, a vontade então, depois, eu tenho que dizer que também o fato que não esperar para Luiz Alberto, eu acho que foi compensado com o fato que este foi a despedida de Sérgio Motta de fato. Então, assim, aí começaram todos os outros problemas. 

 

P/1 – Aí que está, né, Seu Gunnar, foi uma vitória, mas também, o início, como o senhor bem referiu, de novos problemas, por que e a implantação da empresa?

 

R – Sim. Bom, no caso do Tess, desde já tinha um acordo com Ericsson, a Ericsson estava dando apoio com... A ATL é da Suécia, né? Porque a Ericsson que queria tanto que a Tess ganhasse em São Paulo, no interior, porque até aquela época, Ericsson tinha ganho nada nas novas concessões, porque BCP comprou do Nortel, e se não fosse Tess, também, não teria comprado da Ericsson para entrar em São Paulo, então a Ericsson realmente tinha interesse. O problema do Tess, na época, era que eles não tinham um chefe para a companhia. Foi um dos problemas do Tess. Eu costumo dizer que a diferença entre Tess e ATL é que ambos tínhamos candidatos a ser presidente da empresa, só que eu perguntei, o meu candidato, se ele queria, ele aceitou, e foi de fato ele que assinou a concessão. O caso de Tess, tinha candidato, mas esqueceram de perguntar se ele queria. E quando eles perguntaram, ele disse: “não quero, não.” Que era o Horácio, Manoel Horácio da Silva.

 

P/1 – Manoel Horácio da Silva.

 

R – Manoel Horácio da Silva, que trabalhou na Ericsson, aliás, entrou na Ericsson ao mesmo tempo, então sempre ele fala que: “o culpado para que eu esteja nas telecomunicações é aquele, né?” Eu (risos). Mas ele estava, na época, na Vale do Rio Doce, e tinha outros planos, então... Bom, de qualquer jeito, chegou no nosso caso, do Rio, como no início era intenção de ter equipamentos dos coreanos, só que não conseguimos mais financiamento e tudo isso, porque a situação de Coréia não era muito boa, então abrimos uma, vamos chamar, tomada de preços, e participaram disso, no início, Motorola, Nortel... Não, Nortel não, acho que não. Mas Motorola, ______ e Ericsson. E relativamente cedo foi concentrado entre _____ e Ericsson. E foi também duas tecnologias concorrendo uma com a outra. TDMA, da _____, e CDMA, da Ericsson. 

 

P/1 – TDMA e CDMA?

 

R – Sim. E (MEC?), desculpem, (MEC?) também, né? E (MEC?) oferecia o CDMA. Com a ajuda do ______.

 

P/1 – _________.

 

R – Bom. Por várias razões, não vamos entrar em detalhes, no final, dissemos que ______ ou Ericsson. E começou uma luta, assim. Como não eram uma compra estatal, você pode sempre negociar. Então se estamos recebendo o novo preço da Ericsson, logo depois chegamos no outro preço da ______, e eu estava lá em Uberlândia e estava óbvio que existiam pessoas que contavam para os outros qual era a oferta assim, né? E o preço baixou, baixou, baixou, até o ponto que eu fiquei com medo que um dia eles fossem dizer: “não está interessante mais.” E nós não íamos ter ninguém, né? Aí eu disse: “quem vai olhar isso sou eu. Só. Concentrei tudo em cima de mim. Eu sei que pode ser meio doido, mas... “Se a oferta vem para mim, quem vai conhecer isso?” Eu disse para os Estados Unidos que era _______ ou Algar. Disse: “Quem conhece é você e eu. Se fizer algum vazamento da situação, assim, não vem daqui” (risos) “Vai ser você.” Indiretamente, eu disse. Aí nós dois, então, começamos a trabalhar e fizemos várias tentativas assim, até um dia eu disse: “agora tem aquele que você quis, (aceitou?) essa oferta. Quem é ele? A Ericsson.” Eu disse: “Não adianta fazer mais, se nós fizermos mais alguma pressão aqui, o preço é bom, do (conjunto?) o preço é bom, as condições são boas. Se nós fizermos alguma coisa a mais, nós arriscamos que não vamos ter oferta, né?” Então, eu disse: “agora, então, vamos em frente.” Eu recebi uma... Foi antes disso, fui falar com o Luiz Alberto, eu disse: “vocês agora sabem isso, isso, nós somos três, agora, que conhecem a situação. Você concorda com isso?” Ele disse: “concordo.” Tudo bem. Aí, _________, à noite, foi no final de maio de 98, ele, depois de algumas horas, ele me mandou um fax bonito dizendo que: “________, você fez um fantástico trabalho, vou te vender tal, pode comprar (dez?).” Porque no nosso contrato com Ericsson e com Williams, tinha uma cláusula que nós (não?) íamos fazer uma coisa, assim, de comum acordo. Então foi observado isso. Então eu telefonei para o presidente da Ericsson e disse: “você quer assinar?” Ele disse: “quero.” “Então venha.” Aí ele pegou o aviãozinho e veio para Uberlândia, nós assinamos por volta de meia noite daquele dia, né? E graças a Deus, isso funcionou bem, e por isso a ATL existe, né? (risos).

 

P/1 – Certo. O grupo acabou se desfazendo da participação na ATL, né, na sequência dos acontecimentos?

 

R – Sim. 

 

P/1 – Por uma questão estratégica, por...

 

R – Eu diria, provavelmente mais econômica. Porque foi depois que eu tinha saído da Algar. Uma das coisas… É óbvio que quando nós entramos na Tess, _____ (fácil?) de dizer que economicamente talvez não foi uma boa decisão. Um dos fatos é que CTBC e a Algar são empresas familiar, e como empresa familiar, tem certas limitações em financiamento, se você vai manter o controle de votos, né? E a única, vamos dizer, diferença filosófica que Luiz e eu tínhamos e provavelmente temos hoje, (risos) é que controle existem de vários tipos. Para mim, o melhor controle é controle por competência. Não é controle por voto, porque também você pode ter controle por voto, mas se você não tem o suporte suficiente de dinheiro, não adianta. Você não tem controle nenhum. E aí que nossa, vamos dizer, diferença filosófica existe. Ele basicamente me disse uma vez, não sei se ele se lembra, que: “admito, mas não permito.” (risos) Mas é um problema de empresas familiares que não é restringido... Não é só na CTBC e no Algar. Eu convenci o Luiz Alberto e o Luiz Alexandre de ir para um seminário lá no ____, que chama-se _________. E um seminário muito, muito interessante, de Family Business de vários países do mundo, inclusive Filipinas, Argentina e Deus sabe o quê. E a única possibilidade para eu poder ir participar neste seminário foi se eu conseguisse levar o dono da empresa também. Sozinho eu não poderia, então eu consegui. E nós aprendemos muito lá sobre empresas familiares. E não mudou a filosofia do Luiz Alberto nesse ponto aí de controle, mas aprendemos algumas outras coisas, por exemplo, como liderar com família, enfim, que é difícil de uma empresa familiar. Inclusive porque uma empresa familiar normalmente é criada com um empreendedor que é o dono da empresa de fato, que foi o Alexandrino. Aí foi passado para Luiz Alberto, que de fato continuou como único dono da empresa. Porque na passagem do fundador para a próxima geração, dois terços das empresas morrem. E aquele terço que sobrevive, metade volta para ter um chefão, um, dois, só. Se tem filhos, outros irmãos, o que for, é um que toma conta, e ______. E quando chegar no terceiro estágio para os primos, e assim, aí só um por cento sobrevive, das empresas familiares. Se fecha, se faz, se vende, é assim, né? Então uma empresa familiar é uma coisa difícil.

 

P/1 – Qual o senhor considera que é o diferencial do grupo Algar em sobreviver a esse quadro que o senhor está mostrando?

 

R – O Luiz de fato é dono, né? E ele tem criado condições de tal forma que o próximo dono é um, que se chama Luiz Alexandre. Então, como diz ele, estatisticamente, a situação é criada para ela continuar a sobreviver. Pelo menos durante o tempo do Luiz Alexandre.

 

P/1 – Como o senhor avalia a trajetória do grupo, especialmente a partir do momento que o senhor deixa o comando e vendo de fora. Como o senhor avalia o desenvolvimento do grupo Algar, o papel que a CTBC desempenha, as suas mudanças organizacionais, como o senhor vê isso com um olhar distanciado?

 

R – Eu sempre gostei da CTBC e continuo gostando da CTBC. E essas pequenas críticas que eu posso ter feito agora, eles têm conseguido criar a situação onde a empresa tem todas as possibilidades de continuar sobrevivendo. Está dando excelentes serviços, um dos grandes problemas da Telebrás na época do Alencastro foi que ele não queria aquela empresa que estava fazendo tão bem (risos) lá no Triângulo Mineiro, e concorrendo com Telemig, inclusive. Então uma empresa que tem uma excelente qualidade, está andando com os pés no chão, hoje, e eu acredito que CTBC tem um grande futuro. Ela pode se expandir, pouco a pouco, como era a política do Alexandrino. No fundo, me parece que o que CTBC está fazendo é uma continuação do fundador principal, que era de expandir pouco a pouco. Se não fosse por Telebrás, a CTBC estava em Ribeirão Preto, estava muito mais. Então pouco a pouco se expandindo. E com esses espelhos tem possibilidade de fazer isso. Não é fácil, mas a CTBC, provavelmente no Brasil, é a única empresa que sabe fazer. Então esta é uma vantagem competitiva que eles têm possibilidade de fazer.

 

P/1 – Mesmo em um ambiente hostil, de concorrência muito acirrada, os grandes players se associando, quer dizer, que papel esse tigre pequeno, aí, esse leãozinho, pode desempenhar nessa arena?

 

R – Bom, essa é uma excelente pergunta, que eu não tenho resposta. Se fosse outra empresa que não a CTBC, eu diria: “não tem chance nenhuma.” Mas CTBC tem uma espinha dorsal que é muito, muito forte, e eu acredito que eles têm condições de sobreviver. Juntando um pouquinho com outros têm melhor ajuda, assim, mas na essência eles vão sobreviver. A não ser que alguém decida que: “agora eu não quero mais gastar dinheiro, já quero receber o dinheiro e sair fora.” Na história, acho que mais... Uma grande parte da sobrevivência da CTBC vai ser: “vamos seguir os rumos do fundador ou não?” Enquanto essa memória existe, eu acho que CTBC continua. 

 

P/1 – Seu Gunnar, o que o senhor diria para uma pessoa que fosse começar a trabalhar amanhã no grupo Algar, na CTBC, o que ele vai encontrar? O que o senhor diria para ele?

 

R – Bom, primeiro é uma empresa com uma tecnologia excelente. Você pode aprender muito na CTBC, é uma empresa que é muito técnica, mas com uma filosofia de atender os clientes, que no fundo é o que faz a empresa sobreviver, né? Se o meu filho disser: “eu quero começar na CTBC.” Vou dizer: “pode, não tem problema não (risos). Eu acho que você tem chance de fazer, se você quiser, um bom trabalho, vai lá. Não tem problema não.”

 

P/1 – Está certo.

 

R – É. Eu acredito que a CTBC é uma pérola que o Brasil não pode deixar de ter. Porque é um exemplo, também. Exemplo de alguém que criou uma coisa boa, não deixou de, vamos dizer, ser engolido, e hoje em dia, quando basicamente só depende... (não depende?) uma lei de que não pode existir, que a lei da Telebrás basicamente diz, então, hoje, se concorrer, se você pode concorrer bem. Existem pequenas empresas que podem fazer isso, inclusive nos Estados Unidos fazem isso. Não são muitos. É uma porção, (está engolidos?), mas... Hoje em dia, pelo menos como estão hoje... Eu não sei quem gostaria comprar a CTBC. A CTBC não é barata, hoje, não, em comparação com o resto que existe. Eu acho que... Vai em frente.

 

P/1 – Impressiona, Seu Gunnar, e eu acho que o senhor tocou bem nisso, como é que a marca do fundador fica, né? Como ela se cristaliza e ela perpassa o tempo, quer dizer, o rumo da empresa hoje é o rumo do fundador, né?

 

R – É. É claro que modificado um pouquinho, mas o grande... Para mim, o que eles estão tentando fazer hoje é continuar o que o Alexandrino fez. Não sei se... (risos) estão se lembrando disso, mas...

 

P/1 – Certamente estão. 

 

R – Eu acho que é.

 

P/1 – Seu Gunnar, eu acho que nós estamos satisfeitos. O senhor gostaria de dizer alguma coisa que o senhor gostaria de ter dito e não disse, ou nós não estimulamos o senhor a dizer?

 

R – Não, eu acho que nós falamos as coisas mais importantes. Primeiro, também, devo dizer que a área onde a CTBC atua pode ser uma área relativamente pequena, mas é uma área, também, relativamente rica. Não é qualquer área do Brasil, não é qualquer cidade do Brasil como Uberlândia, que Fernando Henrique, quando ele veio para inaugurar uma usina hidrelétrica, ele disse, sobrevoando Uberlândia, disse: “eu pensei que eu estava nos Estados Unidos.” Não é toda cidade aqui no Brasil que tem água e esgoto para todas as casas da cidade. Não são todas cidades no Brasil que estão entre as primeiras, às vezes a primeira, de qualidade de vida no Brasil. E um lugar que é excelente naquelas escalas das Nações Unidas.

 

P/1 – IDH?

 

R – É. Que é (em cima?), (dizendo, oito é?) bom, bom a excelente. Uberlândia, normalmente, (por volta, dizer?) 86, 85, por aí, né? Uma cidade com muitos jovens. Aliás, Uberlândia é uma cidade onde você tem, talvez, um dos lugares com mais moças e moços bonitos do Brasil, que em si é uma indicação de que eles vivem bem, né? E eu me lembro da minha passagem por aí com muito, muito prazer e orgulho de ter participado ________. Eu desejo que a CTBC sobreviva. Merece. E eu acho que vai.

 

P/1 – Seu Gunnar, como o senhor se sentiu dando esse depoimento para nós, o que lhe pareceu? Que avaliação o senhor faz dele? Como o senhor se sentiu falando para nós?

 

R – Gostei. Falei uma porção de coisas que normalmente não conto, mas se um dia fizer as minhas memórias, provavelmente vai me ajudar a escrever alguma coisa também, né? Gostei. E fico muito feliz de ter sido lembrado para fazer isso. Espero que vocês gostem também.

 

P/1 – Gostamos muito com toda certeza. A gente só tem a agradecer ao senhor pela gentileza. Foi ótimo.

 

P/2 – Foi. Interessantíssimo.

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