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História

Primeiros passos: marcas no cimento

História de: Ricardo Rodrigues Congro
Autor: Érika
Publicado em: 07/07/2021

Sinopse

Engenheiro, Ricardo aprendeu a dar os primeiros passos pessoais e profissionais e crescer em sua comunidade. Entre sua cidade, no Mato Grosso do Sul, e cidades em Minas Gerais, ele conta sua história sobre colocar a mão na massa e aprender pela prática. Coloca em prática seu crescimento profissional e, assim, ajuda crianças e adolescentes a crescer, também.

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História completa

Projeto Memória Instituto Camargo Correa Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Ricardo Rodrigues Congro Entrevistado por Luis Egito Minas Gerais, Ijaci, 28 de abril de 2011 Código: ICC_HV028 Transcrito por Paula Leal Revisado por Paula S. A. Nunes P – Boa tarde, Ricardo. R – Boa tarde. P – Obrigado por ter aceito o nosso convite. Eu queria que você começasse dizendo, por favor, o seu nome completo, local e a data do seu nascimento. R – Meu nome completo é Ricardo Rodrigues Congro, eu sou natural de Três Lagoas, no estado do Mato Grosso do Sul. P – Nascido em? R – Nascido em 7 de maio de 1979. P – Certo. O nome do seu pai e da sua mãe, por favor. R – Meu pai chama Hélio Congro Filho e minha mãe Mercedes Martinez Rodrigues Congro. P – Qual a atividade do seu pai? R – Meu pai é engenheiro civil e minha mãe é pedagoga. P – Certo. Lá em Três Lagoas? R – Meus pais moram em Dourados, no Mato Grosso do Sul. Eu nasci em Três Lagoas e com dois, três anos de idade fui morar em Dourados, Mato Grosso do Sul, até a minha formação quando eu saí para estudar fora, então toda minha família hoje mora em Dourados, no Mato Grosso do Sul. P – Você conheceu seus avós? R – Conheci meus avós. P – Todos eles? R – Todos os avôs. P – Fale os nomes. R – É, eu tenho um avô que já é falecido, chama Hélio Congro, ele é, a vida inteira morou, e nasceu, em Três Lagos; a minha avó por parte de pai é Zuleika Congro, também é viva hoje, tem 82 anos e mora em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul também; eu tive um avô, é, o apelido dele era, o nome era Antônio, todo mundo chamava de Nico, ele já é falecido também, morou em Três Lagoas a vida toda. E minha avó é Quitéria, também falecida já, morou em Três Lagoas a vida toda. P – E você chegou a conviver com eles? R – Chegamos, bastante convivência. Quando eu era mais novo férias, no segundo dia de férias eu já ia para Três Lagoas, meus pais acho que terceirizavam as férias para os avós [risos] e eram três meses lá na casa dos meus avós, bastante. P – Qual era o encanto da casa dos seus avôs? R – Casa do avô é um local, assim, que é muito gostoso, primeiro pelos primos, né, sempre tinha muito primo. E meus avós sempre foram muito diferentes o avô paterno e o avô materno, entendeu, o avô materno, meus avós por parte de mãe tinham uma casa que tinha pomares, tinha muita atividade para fazer de brincar na terra, andar descalço, entendeu, e a casa do meu avô e minha avó paterna era uma casa mais central onde a gente aproveitava para conhecer um pouco mais a cidade e os momentos de lazer eram mais no sítio que eles tinham que também se repetia muito a questão de jogar bola, de aproveitar, tinha cavalo, então essas situações, então foi uma época bastante gostosa, assim, da vida. P – Os avôs, tanto de um lado quanto de outro, eles eram originários ali da região? R – É, eles eram originários da região então conheciam bastante a região, sempre levavam a gente para os passeios, entendeu, ali na _____, eram todos de lá. Os pais, os meus bisavós, um tinha origem espanhola, o outro origem italiana, eu não tive contato com eles, mas os avós eram todos ali da região de Três Lagoas. P – E eles contavam histórias, assim, do tempo de infância deles, dos pais deles, contavam histórias para vocês? R – Contavam mas, assim, era, como que eu vou dizer, os avós, por exemplo, meu bisavô as histórias que eu tive mais contato com ele foi que meu bisavô foi uma pessoa de grande influência política no Estado do Mato Grosso do Sul, chamava Rosário Congro, então as histórias que eram contadas eram mais, ele era escritor também, dos livros que eles escreviam, que ele escrevia, de onde ele trabalhou na parte da política, na época chamava Intendente de Três Lagoas, ele foi até Intendente de Campo Grande também, então assim, contavam essas histórias mais para esse lado, o lado da minha, dos meus bisavós maternos a gente tinha mais histórias de como eles chegaram ao Brasil, mas eram histórias muito mais vagas também, não tinha tanto detalhe, era muito mais meu bisavô Rosário Congro que a gente tinha mais histórias, que era bastante conversado com a gente na época. P – Interessante. Vem cá, e lá em Dourados a casa onde vocês moravam lá, como é que era essa casa? R – Quando a gente foi para Dourados o meu pai, ele conseguiu uma casa, antigamente chamava BNH [Banco Nacional de Habitação], né, que era um projeto do governo, era uma casa pequena, mas com todas as condições que tínhamos, adequado para os filhos, né, os filhos e meus irmãos, e para eles também. Ele felizmente conseguiu uma boa colocação lá profissional, a engenharia civil estava em um momento de crescimento, depois a gente mudou para uma casa maior, era uma casa, é uma casa bastante ampla, meus pais estão até hoje nela, que consegue receber, a gente consegue receber os irmãos, já com as cunhadas também, com os cunhados, então já tem lugar para todo mundo ficar, para os netos, entendeu, então é uma casa boa onde dá para ter esses momentos de família agora que a família está maior com bastante pessoas que vão se agregando, então uma casa importante. Tinha um gramado importante para jogar bola também, tinha uma piscina, então é uma casa muito boa que tem lá. P – E você, entre os seus irmãos em que ponto você está na escala? R – Eu tenho duas irmãs mais velhas, eu sou o irmão, o homem mais velho e tenho um irmão mais novo. Meu pai e minha mãe contam que fizeram as irmãs mais velhas para os meninos não tomarem conta delas, não terem ciúmes, não ter, sei lá, mas são duas irmãs mais velhas, eu e depois o meu irmão mais novo. P – Mas a casa que você passou a sua primeira infância era essa casa do BNH? R – É, foi, na verdade de zero a três anos, então eu nem me recordo muito, as lembranças que eu tenho realmente foram dessa casa atual que é uma casa que fica em um bairro chamado Portal de Dourados, entendeu, então é lá em Dourados, Mato Grosso do Sul, então essa que é a grande lembrança que eu tenho. P – Certo. E ali como é que vocês se divertiam, como é que vocês brincavam? R – O que é o bom dessa casa é que ele fica em uma rua onde não tem saída, então fica bem em um balão que a gente chama, tem as casas, quando o meu pai construiu a casa o bairro não tinha muitas casas, ele comenta bastante que era a nona casa do bairro, e o bairro foi crescendo e hoje é um bairro já completo, um bairro que já está bem, já está com todos os terrenos praticamente construídos. E nós tínhamos muita amizade com os vizinhos, depois com o tempo quando foi crescendo as pessoas chegavam, meu pai, por ser… meu pai e minha mãe estarem primeiro no bairro ajudavam na política de boa vizinhança que antigamente tinha muito mais do que tem hoje em dia, né, e acabava fazendo amizade com as pessoas que moravam lá, então a gente tinha uma amizade muito grande com os vizinhos mesmo ali, de ir na casa, deles irem na nossa casa, na frente desse balão tinha um parquinho onde a gente brincava, entendeu, então além da casa ter uma área legal para a gente poder brincar tinha a área externa, que a gente brincava bastante e os terrenos que, quando começava a construção para criança, né, uma construção é, se descobre um monte de coisa. A gente ia brincar na construção, tomava bronca do pai: “Não pode ir lá, pode machucar.”, mas assim que a gente brincava, muito mais com os vizinhos realmente, alguns colegas de escola que não moravam no bairro mas às vezes iam para lá e efetivamente era essa que era nossa diversão que tinha lá. P – E como é que era essa cidade de Dourados na sua época de infância? R – Dourados é uma cidade, é a segunda maior cidade do Estado de Mato Grosso do Sul, mas cidade com jeito de interior, bastante, tem o jeitão do interior, então assim, é uma cidade bem tranquila, uma cidade pacata, na época da minha infância não tinha muitas questões de violência, era bastante tranquila. A situação hoje permanece em um nível bastante tranquilo quando compara com capital, mas era uma cidade que era boa, dava para a gente brincar bastante, meus pais não tinham horário, tinha horário para chegar em casa mas a gente sempre chegava atrasado, era dez horas, dez e meia da noite, porque ficava brincando de esconde-esconde, pega-pega na rua, às vezes fazia fogueira, entendeu? “Vamos fazer churrasquinho de batata assada.”, então a gente tinha, porque a cidade, era possível fazer isso na cidade sem problemas. A questão que ajudava mais ainda era por ser uma rua sem saída então tinha muito mais segurança, meus pais deixavam a gente com bicicleta andando, brincando, só olhava pela janela, tem barulhos, se estava muito quieto ia ver porque provavelmente tinha alguma coisa de errado quando tava muito quieto... criança, né? Mas era mais ou menos dessa forma. P – Vocês tinham obrigações, assim, em casa? Os garotos tinham que fazer alguma coisa, tinham tarefas para desempenhar? R – Meu pai e minha mãe nesse aspecto acho que eles acertaram na educação, eles sempre colocaram sim, a gente tinha uma disciplina em casa para seguir, a disciplina era a primeira coisa: tinha que arrumar o seu quarto, tinha que estar sempre com o quarto arrumado, então antes de ir para a aula eles pediam para a gente deixar sempre o quarto arrumado, é, meu pai nunca foi de dar mesada, entendeu, se você tivesse que sair você tinha que ter cumprido suas obrigações. As obrigações eram, claro, quando a gente era mais novo, primeira coisa era você ter o teu quarto arrumado e não fazer as bagunças, se você brinca deixa arrumado, essa era uma obrigação, até tinha uns momentos de ter painel de quantas vezes foi pego que o quarto não estava arrumado para quando fosse pedir o dinheirinho para alguma coisa: “Não, você não tem por causa disso.”, então a lei da recompensa, do teu esforço sempre foi muito claro lá em casa com todos os irmãos, então assim, meu pai nesse aspecto foi, quando a gente era mais novo, de sete a nove anos, assim, ele seguia nessa linha. Depois que a gente já começou a entrar na escola, que já tinha um pouco mais de responsabilidade daí com nota, com prova, a responsabilidade era a escola, então mantinham-se as responsabilidades que já tinha aprendido, porque vira costume acordar cedo, arrumar sua cama, ir para a escola, e aí a nota, então a nota era sempre tentar passar sem reprovação, sem recuperação, tinha que fazer as lições de casa, as tarefas, eles sempre exigiam nessas situações, se estivesse fazendo isso tinha a recompensa do dinheirinho para tomar o sorvete, para um lanchinho diferenciado, se não tinha você tinha que se esforçar para isso. Aí dos 12, 13 anos para frente meu pai tem o escritório de engenharia, pequeno, ele dividia a escala dos filhos para ter sempre algum dos filhos no período da tarde para auxiliar, é, às vezes nem auxiliava, ia fazer tarefa somente lá, mas ter o senso de responsabilidade de horário, então tinha uma escala na semana toda e que você ia lá, então se eu não estou na aula de inglês eu ia pro escritório, às vezes eu fazia trabalho de banco para ele, às vezes eu fazia, ia em alguma obra com ele para ver o que estava sendo feita, para ver o que podia ajudar, a informática estava iniciando e a gente tinha um pouco mais de facilidade, eu e o meu irmão, para naquela época ajudar ele também a implementar algumas coisas, então ele sempre exigia a gente nos horários dos quatro filhos estar sempre uma pessoa a tarde para dar apoio e se às vezes tinha alguma situação, não tinha nada para fazer, a gente fazia nossas tarefas lá, tinha que cumprir horário, isso ele era sempre bastante rígido. Rígido e importante para o crescimento, eu vejo que isso é um aprendizado que eu não tive problemas quando eu comecei a trabalhar porque eu já sabia de responsabilidade de horário, de que tem que ser feito, então eu gostava bastante dessa situação. P – Acabaram curtindo o espírito de disciplina, né? R – Isso. A gente, aí até às vezes como para criança também, 12, 13 anos você ter que ir não é um negócio também que, hoje a gente olha e vê os benefícios que trouxe, mas na época a gente não via só benefícios, então a gente via: “Pô, é chato, eu vou ter que ir, meus amigos estão indo na casa de não sei quem e a gente… ”, “Teu horário é teu horário, não marque compromisso quando você tem.”, e às vezes quando alguém tinha alguma deficiência, por exemplo, de alguma nota que está baixa, essa não sei o que, os horários eram aumentados porque você vai lá e você não vai ajudar no escritório, você vai estudar lá no escritório, entendeu, então tinha essa disciplina, meu pai e minha mãe sempre seguiram bastante importante demonstrar que a gente tem que ter os compromissos e que tem que fazer, que isso faz parte da vida, né? P – E as regras são claras. R – As regras são claras. E era muito justo porque era combinado com você, combinou com você e você fez não tem problema nenhum, você tem sua recompensa, se combinou e não fez, não avisou o motivo também com antecedência vai ter uma situação, às vezes era punição, às vezes era mais de vamos entender, vamos ter uma conversa do que aconteceu, então saía da zona do conforto quando alguma coisa fora do combinado não era feito, entendeu? P – Tá certo. Ricardo, e a sua primeira escola, você se lembra da primeira escola? R – Eu estudei no Erasmo Braga, é, eu não tenho muitas lembranças lá, eu tenho lembranças que eu estudei lá até a oitava série, entendeu, então a lembrança que eu tenho, na verdade, foi até a sexta série que eu estudei no Erasmo Braga. P – Que é um colégio público? R – Não, é um colégio particular, é um colégio grande, fica no centro da cidade. Eu lembro que tinha a professora, a primeira professora eu lembro, era a Tia Edna, isso eu estou começando a puxar na memória, era muito bom, até tenho alguns colegas ainda da época da escola que de vez em quando a gente encontra lá: “Oh, o que você está fazendo?”, perdemos um pouco o contato, depois cada um seguiu o rumo da vida, mas quando vai em Dourados que é uma cidade que por não ser muito grande, apesar de ser a segunda maior do Estado, a gente consegue ainda encontrar pessoas, colegas da época da antiga, né, então... P – Mas o que tinha de especial nessa Dona Edna? R – Eu não sei, ela, acho que o trato que ela tinha com os alunos era diferenciado, ela gostava muito, não só para ensinar, como pessoa, essa questão que eu me recordo agora, parecia que ela era a segunda mãe mesmo, assim, na escola. Ela gostava muito da gente, não era somente quanto você tirou na nota, não era um negócio, eu tenho essa memória dela, entendeu? P – Certo. E depois do Erasmo Dias, Erasmo Braga? R – Depois do Erasmo Braga eu fui estudar na UEDI (_______) , foi da sexta... P – UEDI significa? R – Não vou lembrar, UEDI era uma escola, porque o Erasmo depois ele entrou em uma crise, nessa época também uma escola particular, e o UEDI era mais próximo de casa, também tive boas memórias, foi o início da preparação para pensar em vestibular, né, da sexta a oitava série começa a falar um pouquinho mais nessa situação e aí UEDI também a gente viu que o livro para vestibular não estava tão legal e eu fui para o Imaculada Conceição fazer o primeiro, segundo e terceiro colegial para preparação para o vestibular. P – E já tinha, assim, mais ou menos desenhado na sua cabeça o que você queria ser quando crescesse? R – Meu pai, minha avó sempre contou, até na Páscoa agora eu fui visitar o meu pai que fez sessenta anos, né, teve uma festa e minha avó estava lá com a gente e ela vendo eu, minha esposa e meu filho, né, eu tenho um filho de três anos, ela falou: “Não Ricardo, parece que o que você falava que você ia fazer você fez.”, ela falava que eu queria estudar, me formar, não tinha muito claro ainda na época, mas casar, ter um filhinho e ter um cachorro, entendeu, hoje só falta o cachorro [risos], então assim, eu sempre pensei muito na questão do que eu queria fazer, eu sabia que era alguma coisa de exatas, entendeu, e quando começou a parte de informática, essa situação, eu comecei a querer engenharia da computação, esse foi o aspecto que eu quis me formar. Quando eu comecei a fazer os vestibulares eu vi que engenharia da computação estava muito restrito e tinha engenharia elétrica que é um ramo mais abrangente e a engenharia da computação queira ou não foi derivada da engenharia elétrica, então eu fiz vestibular para engenharia da computação e engenharia elétrica, acabei passando em uma federal, que é a federal de Itajubá aqui no sul de Minas e fui fazer engenharia elétrica lá em Itajubá. P – Em que ano que foi isso? R – Foi em 1997 que eu comecei a faculdade, então daí acabou, algumas engenharias da computação que eu tinha passado eu acabei descartando por falar: “Acho que vai dar um amplo mais importante para minha carreira profissional se eu for fazer engenharia elétrica.” P – E você discutia essas coisas com o seu pai ou era uma decisão solitária? R – Não, discuti bastante, até quando eu falei: “Pai, quero fazer engenharia.”, ele tinha alguns amigos que trabalhavam na Enersul [Empresa Energética de Mato Grosso do Sul], que é a concessionária de energia elétrica lá do estado, fomos fazer umas conversas com o pessoal: “E aí, como é que é? O que vocês conhecem de engenharia elétrica?”, eu falei: “Tô prestando Itajubá também.”, que eu tinha me inscrito e o pessoal falou: “Itajubá, pô, a maioria das pessoas da Enersul é de Itajubá.”. Nas concessionárias do Brasil Itajubá tem meio que uma máfia considerada dos alunos que saem e vão para concessionária, é muito importante nessa situação de hidrelétrica, de geração de energia no Brasil. Acabou que eu tive boas referências e falei: “Não, então vamos estudar lá, mesmo longe de casa, mil e trezentos quilômetros de casa, mas vou estudar lá em Itajubá.” P – Mas fora esses compromissos que você tinha com o seu pai você chegou a trabalhar efetivamente em alguma atividade profissional antes de passar no vestibular? R – Eu trabalhava com o meu pai. Meu pai, ele tinha essa situação mas ele fazia questão de registrar a gente oficialmente como funcionário, é, mas eu só trabalhei com ele, eu não tive experiência antes do vestibular em outros locais não. Aí trabalhava em diversas situações. Antes de ter carteira de motorista ia de bicicleta fazer banco, depois ia ajudar a levar peça se tinha alguma coisa na obra, então em diversas situações, mas não tive experiência profissional em outro local não. P – E a mudança para Itajubá foi a primeira vez que você saiu da barra da saia da sua mãe, vamos dizer assim? R – É, foi. Foi a primeira vez, até a gente relembra os passos, acho também que foi outro ponto muito inteligente do meu pai e da minha mãe a chegada em Itajubá. A gente chegou lá em uma sexta-feira que era o dia de fazer a matrícula... P – Foram todos juntos? R – Foi meu pai e minha mãe, foram me levar para ver a república que eu ia ficar, a gente conseguiu uma, uma prima da minha mãe tinha uma filha que namorava um rapaz que ia se formar em Itajubá e ele tinha uma república que tinha uma vaga, então acabei indo para essa república por indicações, entendeu, chegamos em Itajubá e ele falou: “Ricardo, agora vamos lá na tua faculdade que tem que fazer a matrícula, né?” eu falei: “Vamos lá.”, daí chegou na faculdade meu pai e minha mãe saíram de mãos dadas para um lado e eu: “Pai, mas eu tenho que ir no DRA" [Diretório de Registro Acadêmico], ele falou, virou para mim e eu acho que aí foi um negócio que na época foi, hoje a gente para para olhar como foi importante e eu não sei se eu faria isso igual com meu filho hoje, mas você vai vendo a situação: “Ricardo, a partir de agora a vida é você que vai seguir sozinho. É a primeira vez que eu estou na sua faculdade, eu vou conhecer com a sua mãe, eu não sei onde é o Diretório de Registro Acadêmico.” e eu falei: “Mas eu também não sei.”, ele pegou e falou: “Quem tem boca vai à Roma, a partir de agora é assim, você sozinho. Você precisa é saber andar com suas próprias pernas, entendeu?”, eu falei: “Pô, é verdade, deixa eu ir.”, e fui. Cheguei, fiz minha matrícula, liguei no celular dele: “Pai, acabou a matrícula.", “Ah, estamos te encontrando em tal lugar.” Mas foi um marco, assim, eu acho que muito bem pensado por ele, não sei se de propósito ou não, nunca cheguei a conversar com ele sobre esse detalhe, mas assim, que já demonstrou “Pô, a partir de agora eu estou sozinho.”, entendeu, aí eles ficaram comigo na sexta-feira, foram embora e eu fiquei sábado e domingo sozinho já na cidade e aí começou a vida de estudante com as dificuldades. No sábado fui lá na faculdade e liguei: “Oh pai, estou achando que é meio longe a faculdade.”, eu não tinha carro, ele falou: “Não, vai, passa lá e compra uma bicicleta então para você ir.”, entendeu, daí comprei uma bicicleta que me ajudou no período da faculdade, então assim, muito tranquilo mas é o marco que eu tenho essa chegada na faculdade para fazer a matrícula. P – Boa chegada. E vem cá, que cidade é essa que você encontrou lá, como é que era Itajubá? R – Itajubá tem várias histórias. Assim, quinta-feira a noite que a gente chegou lá para comer pizza, meu pai: “Vamos comer alguma pizza, vamos jantar fora?”, chegamos e não sabíamos onde tinha, né, daí a gente parou em um lugar e perguntou para um cara que estava no outro carro do lado: “Oh amigo, onde tem uma cidade, onde tem um local para comer pizza?”, ele falou assim: “Ah, fica em tal lugar mas faz o seguinte, eu levo vocês até lá.”, então é uma cidade muito hospitaleira, o cara foi com o carro, parou na frente, buzinou: “É aqui.”. Já demonstrou uma cidade muito hospitaleira, é um jeito muito diferente também da vida no Mato Grosso do Sul, não sei, lá no Mato Grosso parece que a coisa é mais agitada, não sei, as pessoas são muito mais, demonstram ser mais agitadas e o mineiro é um pouco mais tranquilo, entendeu? Então a gente lembra, fomos comprar uns fios que tinha que fazer umas extensões em casa e chegou na loja: “Oh, a gente precisa de um metro de fio.”, o cara: “Ah, ok.”, foi lá pegar o fio naquela calma, tranquilidade, medindo e eu, assim, eu, meu pai e minha mãe já agoniado, mas é o jeito deles, é uma cidade muito pacata, muito tranquila para isso e a facilidade porque é uma cidade estudantil, então tem muitas universidades, a própria Faculdade federal lá tem muitos estudantes então é muito fácil a integração para as pessoas que gostam de conversar, de se relacionar. P – E o teu regime de vida lá, quer dizer, como é que era a tua rotina lá pelo menos nesses primeiros anos? R – A faculdade você tem os horários de que você já tem a sua matrícula, né, que você tem as disciplinas que você vai fazer, então tinha aula das sete horas da manhã, era regime integral, até o meio dia, almoçava em casa e voltava a aula uma e meia até o final da tarde, até às cinco, então foi nessa linha. O primeiro ano, segundo ano. Cálculo muito puxado, eu sempre fui um aluno muito dedicado à essa situação, então festas que tinham quinta-feira que era o melhor dia de festa que na cidade o pessoal falava que quinta era o melhor dia porque sexta muita gente viajava, né, voltava para casa, eu nos primeiros anos acabei não tendo muito essa situação porque “Não, tenho aula no outro dia.”, daí depois você vai passando as matérias mais técnicas, mais específicas e você segue para aproveitar um pouquinho mais essa área, mas os primeiros dois anos foi muito dedicado ao estudo realmente. P – E a república era grande? R – A república eram seis pessoas, entendeu, são vários colegas até hoje, a gente troca e-mail, conversa de vez em quando, se encontra, eram seis pessoas. Lembro no primeiro dia em uma dessas festas aí na quinta-feira o cara chegou: “Vamos fazer um churrasquinho hoje?”, eu falei: “Vamos, tranquilo, mas amanhã tem aula.” “Não, beleza.”, daí ele foi e comprou uma caixa de cerveja, saiu com uma caixa, eu falei: “Pô, deve ser para sobrar mais para o final de semana, tal.”, e foi, deu onze e meia, meia noite e eu falei: “Vou dar uma descansada.”, fui dormir e no outro dia acordei e a cerveja tudo acabado, eu falei: “Pô, o pessoal não brinca não.” [risos], mas era a rotina na época. P – Vem cá, e como é que você arrumava tempo para visitar seus pais, para ir para o Mato Grosso? R – Eu ia visitar meus pais somente quando tinha feriado prolongado, mais de quatro dias, entendeu, então lá tinha uma semana de saco cheio no primeiro semestre, no segundo semestre então geralmente quando tinha um feriado eles aproveitavam para emendar porque tinha muito aluno de fora, então era nessas épocas e férias no final do ano, entendeu, quando eram férias escolares, era a única época que a gente ia, era mais ou menos duas a três visitas por ano. E durante o período da faculdade eu tive um período de três meses de greve, era faculdade federal, e acabou que eu fiquei também três meses nesse período e aí as férias de final de ano que foram prejudicadas que eu não fui, mas era mais nessas oportunidades, entendeu? P – Tá, e aí a sensação de voltar para a cidade da infância morando tão longe, assim? R – Era sensação boa, assim, eu gostava muito de Dourados, gosto ainda bastante de Dourados, mas ia com outro espírito também, ia com espírito mesmo para descansar, para colocar, e aí meus colegas, muitas pessoas ficaram em Dourados lá no Mato Grosso, combinava e ia encontrar as pessoas, mas assim, ia com foco mesmo totalmente de descansar porque eu sabia que tinha um outro ano, tinha um ano forte na faculdade de estudo, né, porque a faculdade puxava bastante também, não era tão simples a formação em engenharia. P – E você completou seu curso quando? R – Eu completei em dezembro de 2001. É, tive alguns percalços no caminho, não perdi ano, mas perdi matérias, mas em dezembro de 2001 completei, foi a formatura. A formatura foi no dia 28 de dezembro, foi legal por um lado que todos os meus parentes que a gente convidou conseguiram ir na festa lá em Itajubá, meu padrinho, meus avós, é, e aí a gente teve o, como que eu vou te falar, a gente teve o natal que o pessoal, algumas pessoas passaram com a gente, a gente fez a formatura e depois fomos passar a virada do ano em Ubatuba com todos os parentes, então foi muito legal, foi uma festa boa para ir, eu já estava muito tranquilo na questão porque eu já tinha conseguido emprego, entendeu, na própria Camargo, então já estava muito tranquilo para curtir as férias sabendo que daqui a uns dias começava o trabalho, então eu não estava naquela tensão “Será que eu vou conseguir? Será que eu vou me colocar?”, entendeu? P – Relaxou total. R – Relaxei total, foi muito bom. P – E como é que foi essa primeira relação com a Camargo? Como é que a Camargo apareceu na sua vida? R – É, a gente estava, eu estava em casa me inscrevendo para vários programas trainees, entendeu, pegando revista, colocando, entrando na internet, procurando, mandando currículo, buscando, aí eu me inscrevi no programa que eu vi em uma revista, o programa Trainee Camargo Correa Cimentos e falei: “Ah, não tem nada a ver engenharia elétrica com cimento.”, porque eu não conhecia do mercado de cimento, e eu falei: “Não, mas eu vou me inscrever.”, eu estava me inscrevendo para tudo. Me inscrevi, passou uma semana e pouco eu recebi uma ligação de uma consultora da empresa que eu fui contratado e a pessoa me ligou de uma forma tão tranquila que parece que estava meio escrito “Oi Ricardo, a gente viu que você se inscreveu.”, e os outros currículos, as outras seleções eram muito mais, não sei, muito mais formais, né, você mandava por email, não tinha uma ligação, daí a menina ligou: “Recebemos teu currículo, vamos fazer a dinâmica então? Deixa eu entender um pouquinho mais de você.”, já fez algumas perguntas: “Você tem problemas de mudar de local?”, “Não, não tenho problema, sou do Mato Grosso do Sul, estou estudando em Minas.”, “E para o interior do Mato Grosso do Sul?” “Não, também não teria problema nenhum.”, até que nessa época eu falei: “Eu sou do Mato Grosso do Sul.”, porque eu coloquei o endereço de Itajubá porque se eu colocasse do Mato Grosso do Sul ninguém chamava, porque São Paulo, entendeu, então foi muito tranquilo o primeiro contato que teve comigo, esse contato acho que me fez chegar na seleção mais tranquilo e acabei sendo aprovado no processo seletivo. P – E como é que era essa seleção e ocorreu onde, em São Paulo? R – A seleção ocorreu em São Paulo, teve uma prova de inglês, uma dinâmica de grupo, aí no final do dia a gente recebeu quem passou e quem não passou recebeu a notícia, então tinha um envelope que eles faziam a seleção e deixavam lá na portaria, lá na recepção do hotel, cada um chegava lá depois do almoço: “Deixa eu ver meu nome se foi aprovado.”, se foi aprovado você ia para uma entrevista individual para ser um detalhamento maior do perfil. Então, eu passei na primeira etapa, lembro até hoje, algumas pessoas. A gente acaba conhecendo as pessoas, fomos almoçar junto, na hora que foi pegar algumas pessoas, o estilo diferente de pessoas, um quer pegar abrir na hora “Pô, não passei.”, “Pô, passei!”, o outro pega e vai reservado, eu peguei o meu, fui no banheiro, falei: “Passei, legal, vou ficar aqui.”, fiz a entrevista, fui já informado que eu iria para outra etapa e a outra etapa era uma dinâmica com os diretores, é, que foi feito também em outra data em São Paulo, nessa dinâmica a gente tinha que conhecer um pouquinho o mercado de cimento e fazer uma apresentação da gente como um produto. Como que eu vou me vender para eles como um produto: a dinâmica era essa. Aí eu lembro que no meu estágio que eu estava fazendo eu tinha uma colega, ela chama Lúcia, eu mostrei minha apresentação e ela falou: “Ricardo, está muito chato essa apresentação que você vai fazer.”, “Mas por que está chato?”, “Cara, eu não compro esse teu produto nem a pau, vamos fazer o negócio diferente.”, e ela me deu umas dicas, né: “Qual é o teu apelido?”, meu apelido quando era em Dourados era orelha, né, por causa do tamanho da orelha [risos], aí eu: “Tá, mas o que tem a ver? Eu não vou em uma dinâmica falar mesmo que o lançamento do mercado for orelha.”, e ela me ajudou, ela era da área de marketing, a fazer uma apresentação um pouco mais não tão chata igual eu estava, quadradão. Meu nome é tal, e daí começou a fazer uma apresentação que quando acabou eu falei: “Mas olha, do jeito que está aí ou eles vão falar que está totalmente fora ou vão gostar muito do perfil.”, e ela falou: “Mas o que você prefere, ir na quadrada que eu estou te falando que não vai dar certo ou nessa daí?”, “Não, eu gostei mais dessa. Tô me sentindo mais à vontade de fazer.” Aí fui, fiz a apresentação, foi oito ou oitenta mesmo, mas foi felizmente para o lado do oitenta, gostaram demais, depois teve a dinâmica onde tinha alguns aspectos mais técnicos, de pessoal do RH [Recursos Humanos] avaliando comportamento, trabalho em equipe, fui aprovado e iniciei o trabalho na Camargo em 14 de Janeiro de 2002. P – OK, eu só não entendi uma coisa, quer dizer, você haveria de fazer uma apresentação um pouco mais vinculada ou focada no mercado de cimento que você disse que não entendi nada? R – É, na verdade eram duas etapas, uma que era eu vender eu mesmo, então essa apresentação que a menina me ajudou, e a outra era eu entender um pouquinho, é, eu ir lá para fazer uma dinâmica focada no mercado de cimento, eles iam dar um case que tinha assuntos do mercado de cimento, eu realmente não conhecia nada. Eu me preparei para essa dinâmica, eu fui em algumas lojas de material de construção para perguntar como que o cimento é, o que você precisa, entrei em três lojas lá em Itajubá, nessas lojas já falei: “Pô, não sei se eu tenho que ir para essa empresa.”, porque não tinha nenhum da marca da cimento Cauê que eu estava procurando, era só outras marcas, mas daí o pessoal explicou que o cimento não anda, daí eu já comecei, o cimento não anda, ele fica próximo às fábricas por causa de um custo logístico, o cimento é um material que não tem tanto valor agregado para você transportar muito longe. Então eu comecei a aprender um pouquinho, a própria Lúcia que era amiga lá no estágio tinha um amigo que trabalhava na Camargo Correa Cimentos, me deu o contato, eu liguei, o cara me explicou umas coisas de meso-região, que existe alguns segmentos, quando eu cheguei lá pelo menos eu falava algumas coisas, entendia algumas coisas que estavam sendo colocadas no case. P – Já não era grego. R – Já não era tão grego. Assim, era grego na questão de experiência efetivamente. Nas palavras, nos jargões que estava sendo tratado eu já conhecia um pouquinho. Essa foi minha preparação que acabou ajudando na seleção, entendeu, isso foi muito legal. P – E aí você foi admitido para fazer o que? R – Fui admitido no programa Trainee que era para ficar de 18 a 24 meses em desenvolvimento para assumir funções mais importantes da companhia. Esse desenvolvimento na empresa, é porque a empresa até hoje está no objetivo de crescer, a gente vem crescendo muito. Quando eu entrei era uma empresa de três milhões de tonelada e hoje a gente faz seis milhões e meio, então a empresa vem crescendo bastante, e aí eu entrei para essa parte de ter um processo de desenvolvimento especial. Acabou que em um ano do programa me fizeram uma proposta para eu continuar em Bodoquena. P – Desculpa, esse programa de Trainee era feito onde? R – Era feito, a base era São Paulo, o coorporativo que coordenava o programa, os trainees foram alocados para irem um em cada unidade, entendeu, para ficar um ano, e depois ia rodar mais seis meses outras plantas para adquirir outras culturas, outras competências de outras fábricas. Eu fiquei um ano em Bodoquena e quando acabou o programa eles falaram: “Ricardo, a gente não sabe para onde você vai ainda. Sai de férias”, nesse um ano todo os trainees saíram junto, “e quando você voltar já volta em São Paulo em uma reunião e a gente vai definir para onde vocês vão.” Nesse um ano que eu já saí de mala, eu tinha uma Pick Up Strada, já coloquei tudo que eu tinha lá, a casa era da empresa, então eram só as malinhas, tudo que eu tinha, o colchão, alguma coisinha, coloquei no carro e já saí de férias imaginando para onde eu iria. Chegou em São Paulo por surpresa eles falaram: “Ricardo, a gente está querendo te fazer uma proposta já uma posição de coordenação lá em Bodoquena e a gente quer saber se você assume.”, eu falei: “Oh, se vocês estão achando que eu estou preparado eu assumo, não tem problema nenhum.”, e acabei assumindo já uma posição, era coordenador de sacamento e expedição lá na época, lá em Bodoquena no Mato Grosso do Sul, entendeu? P – Tá, e essa primeira responsabilidade, assim, deu algum frio na barriga? R – Deu bastante frio na barriga porque muda muito, a gente quando é trainee está sendo desenvolvido, você tem todo o suporte da empresa, você tem uma dificuldade, as pessoas te ajudam: “Ah, tem que desenvolver.”, depois que você está na linha de fogo muda bastante as responsabilidades. Frio na barriga deu, mas assim, felizmente a pessoa que ia ser o meu chefe direto, que hoje é até gerente industrial da fábrica de Pedro Leopoldo, o Maurício, ele me deu muito apoio, então ele: “Ricardo, a gente está junto, vou te desenvolver, eu sei, eu coloquei o teu nome, uma indicação, não é uma indicação só do RH, não está vindo aqui porque alguém pediu para vir, é porque eu acredito junto com vocês e a gente vai junto.”, então, assim, a tranquilidade que o meu chefe direto estava me passando me fez superar facilmente os desafios, entendeu, na época, então isso foi muito tranquilo nesse aspecto. P – E o que tinha de diferente na Camargo, assim, na relação com as pessoas, com as chefias, com as normas internas? O que tinha de diferencial? R – Olha, eu vejo a Camargo assim, a oportunidade que eu tive profissional para escolher era uma empresa japonesa ou a Camargo, entendeu? Quando eu estava fazendo estágio na japonesa que eu tive a oportunidade de ficar ou a Camargo. Escolhi a Camargo por que? Porque a gente tinha pessoas que conhecia, entendeu, ouvia das pessoas e até na própria dinâmica pessoas jovens, entendeu, em posições importantes, é, e a gente conseguia perceber que as pessoas que fazem a diferença, que tem envolvimento, que tem vontade, que faz um trabalho legal consegue ter crescimento profissional. E foi essa situação que me fez escolher a Camargo e eu consegui ver isso na prática, acho que eu sou o exemplo. Hoje eu sou gerente de uma fábrica importante do grupo, com pouca idade, entendeu, minha experiência é importante, eu estava no lugar certo e na hora certa, dei meu resultado também é importante, mas assim, o que eu pensei na época, na escolha está claro, as pessoas que fazem a diferença é que conseguem se envolver, trabalhar, têm sucesso aqui na empresa. A empresa aposta muito na valorização interna, acho que isso é um dos grandes diferenciais hoje na nossa empresa. P – E o que dizer, assim, dos valores da empresa, daquilo que está, digamos, mais imbuído aí no dia a dia da corporação? R – Eu acho que um valor importante é o respeito às pessoas que tem, eu acho que a Camargo mesmo crescendo não perdeu essa questão dos valores que tem que ter com as pessoas. O respeito às pessoas hoje é um valor nosso, então, assim, a gente é bem tratado, pelo menos eu me sinto bem tratado, não sei se todo mundo percebe isso, mas eu vejo, com respeito por todos os níveis hierárquicos, então desde uma pessoa que não tem um cargo importante até o diretor, até o presidente da empresa você tem acesso, tem facilidade de conversa, e é tratado, as pessoas entendem. Nos momentos de dificuldade a cobrança existe, a pressão pelo resultado isso não colocam, mas nunca tem uma pressão: “Por que o Ricardo não deu conta?”,não, “O que está acontecendo que determinado resultado que o Ricardo é responsável não está dando conta? O que ele precisa de ajuda? O que a gente pode ajudar?”, então existe essa situação de realmente apoiar nas dificuldades, tem a cobrança, tem forte, mas, eu percebo isso como um grande diferencial na empresa, isso é questão de respeito às pessoas, eu pelo menos gosto muito do que faço e sou muito bem reconhecido e me sinto respeitado por todas as instâncias da organização, entendeu, não só profissionalmente como pessoalmente. Então às vezes eu preciso levar meu filho que está doente no hospital, parece que é um caso “Não, natural que a empresa vai te liberar.”, não é assim em todas as empresas, tem empresa que o filho é problema dele, arranja alguém para levar. Na Camargo se você tem que levar: “Vai lá.”, “Ah, mas eu tenho um negócio para ver.”, “Não, a gente se vira, não se preocupa não. Daqui a pouco se dar certo você liga, a gente vê se eu preciso de você também, mas vai tranquilo, primeira coisa é sua saúde, a saúde da sua família, depois a gente pensa.”, então existe muito essa facilidade de você colocar, não é um tabu os momentos críticos por alguma situação pessoal você ter que fazer uma viagem, alguma coisa, não é um tabu para a empresa, é normal, eles respeitam e apoiam isso, entendeu? P – É conversar. R – É conversar, é isso aí. P – Mas, nesse momento lá em Bodoquena com esse cargo de coordenação, você assume e aí, como é que foi o seu desenvolvimento nesse momento? R – É, eu digo assim, primeira coisa eu trabalhei muito, entendeu, na época que eu fui para lá eu já tinha uma namorada que hoje é minha esposa e eu fiquei dois anos lá em Bodoquena sozinho, então o meu foco era realmente trabalho e a minha esposa, minha namorada na época fazendo Enfermagem em Itajubá, então eu ia visitar ela uma vez por mês, uma vez a cada 45 dias, ela ia de vez em quando, então assim, meu foco era muito trabalho, então nesse tempo a adaptação foi mais fácil por causa disso. Eu não tinha muito desvio, entendeu, era realmente muito focado no trabalho, horas _____ de investida minha mesmo, eu falo muito que eu sentava lá às vezes na frente do painel de comando, e ficava conversando com o operador: “Me ensina o que você está fazendo, o que é aqui?”, então isso acabou, eu consegui aprender mais rápido a situação e conhecer a fábrica mais rápido, e quando você começa a conhecer você tem facilidade de implementar o seu trabalho, falar com mais propriedade, então se tinha problema de madrugada ao invés de atender somente por telefone muitas vezes eu ia para a fábrica, comecei a vivenciar mais problemas, então isso me ajudou a ter uma bagagem importante. Nessa época teve uma mudança de chefe, entendeu, meu gerente foi transferido para outra unidade aí chegou o Nilton Terron como gerente da fábrica, também foi um momento muito bom, uma pessoa que até hoje a gente se dá muito bem, ele é gerente também industrial de uma fábrica lá no nordeste, me ajudou demais naquela época, e o desenvolvimento foi, o ensacamento foi melhorando,. A fábrica estava em um momento crítico de mercado do cimento, estava caindo as vendas, entendeu, então a gente teve que fazer reestruturações difíceis de pessoas, até, tivemos que desligar duas pessoas lá da área, tinham 11 pessoas e ia passar a ter nove para economia de custo, momento do mercado, então para mim foi difícil porque eram pessoas que me ajudaram a desenvolver também na época que eu estava como trainee, mas tem que ser profissional nessa hora, conversei bastante, deixei claro que as portas... que estava saindo não por um problema das pessoas, mas por uma reestruturação, hoje inclusive uma das pessoas que foi desligada, um resolveu ir por um outro caminho, é funcionário da fábrica novamente, quando o mercado voltou a se aquecer a pessoa voltou a ser contratada, até em posição melhor do que ele estava na época. Foi um aprendizado legal. Quando chegou um novo gerente na fábrica continuava a mesma linha, uma pessoa que dava muita autonomia para trabalhar e nesse tempo o responsável pela manutenção da fábrica acabou sendo transferido para outra unidade, então eu fiquei nove meses interino também na manutenção industrial e operação de toda fábrica, isso eu tinha um ano e meio em um cargo de coordenação. Aí eu comecei a gostar desse negócio, cheguei para o meu chefe na época e falei: “Olha, eu estou gostando desse negócio aí, eu quero a vaga.”, e claramente a decisão deles foi: “Olha, a gente precisa de alguém com mais experiência, entendeu?”, “Ok, entendo, vou continuar fazendo o trabalho.” Fiz o trabalho e recebi uma proposta de uma empresa concorrente para ir em uma vaga da área de manutenção. Eu tinha muita abertura, muita transparência com o meu chefe e falei: “Recebi uma proposta, eu falei que gostei desse negócio, eu vou dar uma olhada no que estão me propondo.”, ele falou: “Ricardo, ok, vai lá olhar, não tem problema nenhum, vamos conversando.” O tempo foi passando aí na primeira conversa por telefone o pessoal ia agendar uma entrevista, o meu chefe chegou e falou: “Ricardo, você está fazendo um bom trabalho, os resultados estão melhorando. A gente vai te dar a oportunidade.”, então acabei que eu fui promovido com um ano e meio para responsável de manutenção e operação da fábrica por base do resultado que eu fiquei interino, por base da circunstância do momento, que Bodoquena não é fácil contratar ninguém também para ir para lá, uma cidade que fica muito distante, oito mil habitantes, é uma cidade que não tem estrutura, então você trazer um profissional mais experiente para lá não é tão fácil, a gente consegue, mas não é uma tarefa tão fácil, ainda mais em um momento de crise do mercado onde ninguém vai se propor a trazer com salários mais diferenciados e tudo o mais, então acabou que eu estava no momento certo, no lugar certo, fiz meu trabalhinho e tive minha oportunidade dessa promoção. P – Quer dizer, na verdade você praticamente vivia, morava na fábrica, né? R – Assim, Bodoquena nos primeiros dois anos eu trabalhei muito lá, então assim, o meu aprendizado ali, a curva de aprendizado foi muito mais rápida por causa disso. Mas o meu foco era esse, eu fui para o programa trainee, não tinha nada para fazer na cidade, realmente eu me dediquei bastante. Depois que minha esposa foi para lá aí eu já comecei... a gente nem tinha casado ainda, ela conseguiu um emprego na Prefeitura no primeiro ano e aí já diminuiu um pouco o ritmo, não podia deixar uma pessoa chegar de fora, longe, e eu ficar dentro da fábrica direto só trabalhando, então ali eu já comecei a desacelerar quando eu digo com presença física, o resto, cabeça até hoje a gente continua muito envolvido no trabalho, mas assim, presença física na fábrica diminuiu e aproveitando o que a região tem, porque Bodoquena apesar de não ter uma estrutura legal fica do lado de Bonito, fica a setenta quilômetros de Bonito que é um paraíso para a questão de ecoturismo, a própria cidade de Bodoquena é muito bonita também na questão de turismo, então a gente aproveitava mais isso, churrasco com o pessoal da vila, da vila de funcionários, acabou que os primeiros dois anos foram muito focados e depois que ela foi para lá deu uma desacelerada em termos de presença física, só quando realmente tinha alguma crise, alguma situação mais importante que tinha que estar presente, entendeu? P – Você disse que o cimento não viaja muito. Bodoquena tem um mercado consumidor de cimento muito importante? R – É, Bodoquena praticamente a produção toda fica ali no Estado de Mato Grosso do Sul, lá anda bastante, lá anda mais do que nas outras fábricas, entendeu, mas o mercado de Mato Grosso do Sul tem uma vantagem que o preço, pelo menos na época, o preço é um pouco mais alto e são poucos concorrentes, então a gente tinha muita facilidade de colocar o nosso produto lá no mercado, então praticamente o Mato Grosso do Sul pegava 60% da fábrica, é, tinha um pouco que ia para o Mato Grosso, que andava bastante, que aí era para não deixar a capacidade ociosa, e tinha um pouco de exportação para o Paraguai também, mas lá no Mato Grosso do Sul o cimento andava um pouquinho mais que a média das outras empresas. P – Nós estamos falando em que volume de produção? R – O volume de produção da fábrica de Bodoquena é 45 mil toneladas de cimento por mês, na época era de quarenta, 45 mil, e hoje está na casa de 51, 52 mil toneladas por mês. P – Matéria prima perto também? R – A matéria prima, fábrica de cimento tem sempre uma jazida de calcário muito próxima, e a jazida de calcário de Bodoquena é uma jazida que é muito uniforme, o filé mignon para fazer cimento é lá em Bodoquena, entendeu, então tranquilo a parte de processo industrial do cimento por causa da matéria prima de Bodoquena. P – De boa qualidade? R – De boa qualidade e abundância, lá tem duzentos anos de calcário, diz a lenda que o Sebastião Camargo quando chegou lá para ver falou: “Ok, tem duzentos anos de calcário. O que eu vou fazer depois?”, entendeu, então é um local muito importante de calcário, e se você pegar hoje as fábricas de cimento no Brasil a maioria das mais antigas estão localizadas um pouco mais longe, porque antigamente achava-se a jazida de calcário e fazia a fábrica, hoje em dia já existe novas técnicas de prospecção. EmIjaci já é um caso, tem calcário, mas está a quarenta metros de profundidade da terra, então antigamente não tinha tanta facilidade das pesquisas, então hoje já tem uma fábrica, essa deIjaci, mais bem localizada por causa das técnicas que foram ficando mais modernas, entendeu? P – Certo. E como é que deu a sua transição de Bodoquena, embora você seja um mato-grossense, para os cafundós de Minas Gerais, que não são tão cafundós assim? R – É, eu fiquei em Bodoquena como responsável da manutenção mais três anos, depois eu assumi a fábrica, a gerência industrial da fábrica em Bodoquena, fiquei um ano lá, e no momento em que a gente tinha acabado de fazer uma aquisição, a empresa comprou uma fábrica no nordeste, o gerente daqui que era o Terron, que era o gerente de Bodoquena que me promoveu à área de manutenção foi transferido para esse novo negócio, que tinha um negócio importante, uma posição muito importante e precisava de uma pessoa mais sênior nesse negócio lá no nordeste que não era só fabricação de cimento, era um negócio entrando em um novo estado onde a gente não tinha, então o Terron tinha muitas habilidades comercial também, então casou e a vaga aqui ficou em aberta. Me fizeram o convite para eu vir para cá pelos resultados do que a gente vinha implementando em Bodoquena. Na época foi um susto, entendeu, porque a fábrica aqui é muito grande, eu, a minha carreira na minha opinião foi antecipada uns três ou quatro anos, eu tinha objetivo de um dia chegar a Gerente Industrial de Ijaci, mas não na época, entendeu, em 2008 que foi a data, foi bastante prematuro no meu plano de carreira, entendeu, mas a empresa apostou, também novamente combinei bastante as regras do jogo de, eu sou uma pessoa de formação em engenharia elétrica, como a gente já conversou, e aqui tinha muito problema de processo na parte de engenharia química. Pedi ajuda nesse aspecto, então me colocaram um consultor de bastante experiência que era aposentado até, já tinha sido funcionário da Camargo, para me ajudar no processo inicial aqui, e aí o trabalho foi sendo desenvolvido, os resultados foram aparecendo, a fábrica hoje vem, está operando muito bem, mas assim, eu pessoalmente não tive problemas de vir porque para minha esposa a única dificuldade que ela teve foi que ela era concursada em Bodoquena e ela ia ter que abrir mão do concurso municipal para vir para cá, mas ela é de Itajubá, ficou mais perto da família da mãe dela, eu já conhecia o interior de Minas Gerais, né, porque me formei em Itajubá, uma cidade muito semelhante, com um pouco mais de morro do que Itajubá, Lavras e Ijaci tem muito mais morro, então vim muito tranquilamente, não teve problemas, também focado bastante no desafio profissional, e com uma outra situação diferente, que meu filho tinha acabado de nascer, então ele tinha um mês quando eu recebi o convite, na verdade eu recebi o convite e minha esposa estava grávida ainda, estava no finalzinho da gravidez, e teve uma transição, um tempo para fazer as coisas bem tranquilas, eu passar as coisas de Bodoquena para quem ia para lá, o pessoal daqui passar para mim como que estava sendo feito, então foi uma transição de dois meses, nesse tempo nasceu meu filho e acabou que eu fiquei os primeiros três meses dentro daquela linha de aprendizado rápido, eu ficava aqui de segunda à sexta, minha esposa ficava em Itajubá com a mãe dela e o meu filho pequeno lá em Itajubá. E aí eu ia sábado e domingo e aí nesse tempo também durante a semana era mergulhado na fábrica, até onze horas, meia noite, para ter uma curva de aprendizado mais rápida, então também isso acabou facilitando eu entender um pouco mais o processo da fábrica aqui e os problemas que a gente tinha que enfrentar e que tinha junto com a equipe. P – E a fábrica já estava em operação plena? R – A fábrica já estava em operação plena, tinha algumas dificuldades, é, operacionais por deficiência de manutenção, mas assim, em virtude desse cenário, tinha acabado de sair de um cenário de custo muito baixo, então tinha tido algumas reduções pensadas realmente de que nós não vamos fazer porque não tem dinheiro para fazer, só que tinha retomado o mercado, então o mercado estava ficando aquecido e a fábrica ainda não estava cem por cento preparada para essa retomada do mercado no crescimento brasileiro. Então o desafio era esse, era conseguir momentos de fazer paradas adequadas de manutenção sem prejudicar a venda da fábrica, esse era o grande desafio que estava tendo aqui na época. A equipe muito experiente, pessoas bastante já consolidadas, entendeu, então foi eu chegar, somar com a equipe aqui e dar as diretrizes aí para chegar, o desafio maior era esse. P – Uma parada de manutenção ela demanda muitos dias, como é que é? R – A gente na época, quando eu cheguei aqui, ele tinha quatro dias de estoque só na fábrica, entre cimento e clínquer que é o processo de produção, e para a gente fazer uma parada de manutenção são 18 a 20 dias uma parada adequada, imagine uma fábrica desse tamanho a gente parar 18 dias só tendo quatro dias de estoque. P – E aí? R – Então como que foi feito o planejamento? Primeira coisa, a gente começou a trabalhar em itens sobressalentes, então quando quebrava eu já aproveitava para trocar, já tinha as peças aqui, então se quebrava ficava dois, três dias parado, quebrava, já trocava e já arrumava um problema a menos, entendeu, então foi nessa linha, bastante sofrida. Em 2008 nós não conseguimos atingir os resultados previstos pela fábrica, ficamos abaixo em todos os resultados financeiros, custo... bastante pressão, mas eu estava com o prazo de validade novo aqui, então eu estava: “Olha, a situação é essa, tem que fazer isso, tem que fazer aquilo.”, então estava indo, estava tendo muito apoio da diretoria nesse aspecto, e quando a gente começou a melhorar a gente começou a ter 12 dias de estoque, não conseguimos fazer uma parada de 12 dias, de 18 dias em 12, foi melhorando e acabamos saindo de um ciclo vicioso que era: rodava mal, não fazia estoque e quebrava para um ciclo virtuoso, você roda bem, faz estoque, para para manutenção, faz estoque, para para manutenção. Hoje na fábrica a gente já tem... fizemos a parada agora em março, do mês passado, parada de vinte dias a gente tinha trinta dias de estoque na fábrica, então voltamos com dez dias, hoje já estamos em operação um mês depois com 12, 13 dias de estoque, já planejando a próxima parada que vai ser em setembro, entendeu? P – Em que período você tem que obrigatoriamente parar a fábrica? R – Fábrica de cimento geralmente para em um ano, é, uma vez por ano uma parada grande de 18 a 20 dias, e uma outra, intermediária, de oito a 12 dias, entendeu, que é feito, então chegam 600, 700 pessoas de fora, muito trabalho. P – É mesmo? R – É, bastante importante essa questão de segurança do trabalho, que chega gente que não está aculturado com nossa política, com a nossa forma de trabalho, uma fábrica que tem um grau de risco importante, é grau de risco quatro, então a gente tem que ter muito foco nesses aspectos aí de segurança e a qualidade técnica, tem diversos casos que você pega na área o cara fazendo errado, você vai ver a empresa contratada contratou um cara que era padeiro que estava precisando e veio e não tem conhecimento técnico, então esse que é o desafio. P – O que se faz, basicamente, nesses momentos, nessas paradas? R – Você tem troca de refratário, forno de cimento, de clínquer… tem refratário para a questão de evitar deformação do casco, você tem troca de concreto na torre, você tem troca de rolamento, troca de correntes que são responsáveis pelo arraste de material. P – É uma obra. R – É uma obra, uma obra. A parada nossa de março custou 13 milhões de reais, então é uma parada muito importante, tem que ter bastante planejamento, gastar certo no tempo certo. P – Oh Ricardo, nesse processo todo de desenvolvimento profissional, de acumulação de experiência e tudo o mais, qual foi o momento que você pela primeira vez percebeu que existia na companhia uma preocupação com investimento social, com um tipo de ação que transcendesse o negócio? R – Tá, a gente em Bodoquena, é, lá tinha um projeto que foi iniciado antes mesmo da mobilização do grupo Camargo Correa na questão de inspirar para as questões sociais. Existia... sempre teve no grupo o Instituto, os acionistas, sempre trabalharam desta forma, orientaram a gente, mas não tinha um processo tão estruturado como tem hoje através do Instituto Camargo Correa, mas lá em Bodoquena tinha um projeto que foi criado por pessoas da fábrica, entendeu, com a comunidade, e chamava Projeto Aroeira. P – Projeto? R – Projeto Aroeira, entendeu? Então o Projeto Aroeira tinha o objetivo de desenvolver pessoas da comunidade, tinha atividades de pessoas de 12 a 15 anos se eu não me engano, nessa faixa… onde tinha atividades extracurriculares para trabalhar, para aprender alguma coisa, então o primeiro momento que eu tive o contato social foi quando me convidaram pela fábrica, eu ainda era trainee, para dar uma palestra porque as pessoas em Bodoquena não tinham muito aspiração profissional, então dar uma palestra de eu falar um pouquinho da minha vida de: “Eu estudei, fiz engenharia, fui estudar fora.”, para as pessoas entenderem o que é uma engenharia, tentar abrir para esse grupo de criança ver que o mundo é muito maior do que acabar o ensino de segundo grau e parar, entendeu, porque era isso que estava acontecendo em Bodoquena. Esse primeiro contato que eu tive foi muito legal, entendeu, as crianças respeitaram, me senti também, estava muito recente, recém formado, me senti importante, gostei de fazer esse trabalho, e depois eu comecei a ajudar o Projeto Aroeira, então tinha mutirões de pintar, vamos lá, vamos instalar o ventilador, apesar de eu ser um péssimo eletricista, engenharia elétrica eu sei um pouquinho, mas na parte manual minha esposa fala: “Vou ter que contratar alguém aqui.”, porque não sei, sou muito ruim na parte manual de executar, essas coisas, não sou bom, apesar disso eu ia lá, ajudava a pintar, ajudava a instalar o ventilador, entendeu, eu fazia, tentava na parte manual onde possível: “Olha, o fiozinho que tem que ligar é esse, agora eu não sei ligar também não.” [risos], ajudava mais na parte e comecei a me envolver. Depois que eu assumi a gerência da fábrica eu assumi o Conselho Fiscal do Projeto Aroeira para ajudar na prestação de contas, ajudava nas reuniões, depois vieram os acionistas com uma carta de sustentabilidade que deu claras diretrizes de como o grupo deveria trabalhar, entendeu? O Instituto Camargo Correa com uma metodologia de trabalho bem diferenciada onde a gente não vai dar o peixe, vai ensinar e fortalecer as Instituições para eles pescarem, entendeu, para a comunidade conseguir andar sozinha, fortalecer a comunidade local, comecei a me envolver e até hoje estamos trabalhando nisso aí, é um negócio que eu gosto, demanda um pouco de tempo, mas agrega bastante, a gente se sente bastante recompensado por isso. P – E o que tem de diferente no trabalho do Instituto? R – O trabalho do Instituto que eu vejo é o seguinte, primeira coisa ele deixou claro onde a gente vai investir, eu falo isso, nós como gerente de fábrica a gente recebe solicitação de doações de cimento, de não sei o que, de diversos locais da comunidade, porque acham que por a gente estar localizado a gente pode estar doando, e com o programa do Instituto deixou muito claro a linha do Projeto Infância Ideal, o Projeto Escola Ideal e o Projeto Futuro Ideal, que são onde a gente vai investir. Isso também até ajudou a gente como gerente de fábrica quando tem uma solicitação que não está alinhado a esses três grandes objetivos a gente dá uma negativa, muito uma negativa claro onde a gente demonstra onde a gente atua, entendeu, não é uma negativa simplesmente uma negativa “Olha, este é um trabalho que é importante que eu sei, mas não posso te ajudar nesse momento porque nosso foco são esses três grandes projetos.” Em Ijaci, no caso, foi escolhido o Projeto Infância Ideal para a gente estar implementando, e aí a gente começou junto com o Instituto a fazer oficinas, a fazer diagnóstico de o que são as dificuldades da cidade, como a gente vai trabalhar para a gente efetivamente começar o desenvolvimento local da comunidade. P – Como é que se deu esse processo, quer dizer, eu queria que você relatasse um pouco a tua experiência nessa conjunção de interesses entre o Instituto, a comunidade, o poder público, como é que isso funcionou? R – Ok. Primeira coisa que eu acho que vem é: os acionistas quando deram a… eles foram muito hábeis em identificar que os funcionários da Camargo gostam disso, a maioria das pessoas adoram a questão de responsabilidade social. Muitos fazem trabalho social, então quando eles lançaram isso ficou um monte de gente falando: “Nossa, que legal, vai ter um apoio mais oficial e vamos fazer esse trabalho.”, aí veio a metodologia do Instituto que é vamos a primeira coisa fazer um diagnóstico do município, entendeu, como que esse diagnóstico é feito, não contrata consultoria, entendeu, vem uma consultoria especializada, mas fica como responsabilidade para a fábrica chamar as principais autoridades, as principais instituições locais, juiz, promotor, as pessoas da comunidade para a gente fazer um evento, uma oficina que é chamado, e a gente fazer um diagnóstico com todos de quais são os pontos que o município deve se desenvolver. Em Ijaci foi escolhido Criança Ideal, para crianças de zero a seis anos, então a gente chamou as instituições que trabalham com isso, com esse público, chamamos também promotor, mandamos mais de 180 convites e no dia do evento foram mais ou menos, 70, 75 pessoas. P – Foi uma boa resposta. R – Foi uma boa resposta, e a gente ficou dois dias reunidos, entendeu, com voluntários mesmo, pessoas que saíram do seu trabalho para fazer um diagnóstico pegando, pegava o que o IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] tinha de dados, o último IDH [Índice de Desenvolvimento Humano], índices que estão aí jogados na internet, com uma metodologia dessa consultoria que foi, mapeamos um trabalho e aí ficou claro quais eram os três grandes pontos que Ijaci precisava ser trabalhado. Ijaci tinha que se trabalhar no projeto creche, entendeu, por que? Porque hoje a cidade não tem uma creche, é um problema social importante que chega a época da panha do café, que eles chamam, as crianças, as mães e os pais precisam fazer a panha do café e uma criança de três anos fica com o irmão de sete anos tomando conta, entendeu, então é uma situação bastante complicada, tiveram inúmeros acidentes de crianças que se machucaram por não ter uma supervisão adequada, tem até bebês que ficam com crianças de quatro anos, então assim, saiu esse projeto, a gente tem que fazer uma linha de ajudar a Prefeitura a fazer uma creche, porque o Instituto tem claro que ele nunca vai substituir o poder público, nunca vai substituir cada instituição que tem a sua responsabilidade, então o que o Instituto fez nesse momento que a gente pegou o diagnóstico? Criamos um grupo de trabalho e falou: “Projeto Creche, como a gente vai trabalhar? Vamos pegar pessoas que conhecem de metodologia, que conhecem de leis”, pegamos até, inclusive, um rapaz aqui da área fiscal que tem mais essa facilidade, entramos no site do Ministério Federal e começamos a olhar, tem uma verba lá de creche no Fundo da Infância, não sei o que, e começamos a montar um projeto em conjunto com a Prefeitura, a Prefeitura disponibilizou engenheiro, e começamos a fazer essa situação. Foi legal que a Prefeitura nesse projeto creche falou: “Peraí, vocês estão fazendo um papel que não é de vocês, quem tem que fazer isso sou eu. A gente agradece a ajuda, vocês já mostraram o caminho, a gente vai andar com as nossas próprias pernas.”, entendeu, isso em 2009 com o Prefeito que tinha acabado recém assumido, e aí começou e esse ano, em 2011, a gente teve a felicidade de ele mostrar para a gente que foi empenhado 800 mil reais do Governo Federal para construir uma creche, vai ficar pronto em 2013, 2014 porque é um pouco mais lento as questões de verba, obra federal, obra pública… mas conseguiu, então o objetivo do projeto creche foi feito. Nós também saímos na época com outra linha que era o Projeto Lazer, que a gente tinha que trabalhar com o lazer das crianças, entendeu, e adolescentes, e aí a gente teve a idéia de fazer uma brinquedoteca para a cidade, aí foi um projeto que a Prefeitura tinha um prédio que estava muito velho, que estava bastante, e ele falou: “Olha, eu entro com a contrapartida de, eu dou o prédio, cedo para vocês fazerem a reforma, eu dou as pessoas que vão trabalhar lá depois e vocês me ajudam capacitando as pessoas e fazendo a reforma, a gente fez um projeto com pessoas também, muitos voluntários, conseguimos uma boa arrecadação de dinheiro do Instituto e também dos parceiros nossos, um valor significativo dos parceiros, chegou a quase 45 mil reais com os parceiros, o Instituto também entrou com uma parte importante, fizemos a reforma do local e hoje tem uma brinquedoteca que funciona e atende lá 120 crianças por dia, é muito interessante o processo de trabalho que está tendo lá. Então essa foi a segunda linha de atuação que a gente teve. A terceira linha de atuação que saiu do diagnóstico, porque saíram muitos, mas a gente priorizou essas três, foi a questão de rede, é, o que acontece em Ijaci, o Conselho Tutelar, o Conselho Municipal dos Direitos da Criança, os principais atores, a Polícia, a Secretaria de Saúde, os principais atores responsáveis pelos direitos das crianças e dos adolescentes, cada um atuava de uma forma, então a Polícia de uma forma, o Conselho Tutelar de outra forma, é, o Conselho Tutelar pegava um negócio e ele não tinha nem um arquivo para documentar o caso e mandar para alguém, ele já mandava para o Ministério Público para dar a tratativa, o Ministério Público junto também tem outras coisas para estar dando prioridade, acabava não conseguindo dar a tratativa necessária, então a gente viu que precisava unificar essa forma desta tratativa, então foi feito um projeto para dar capacitação para os principais agentes do município, essa capacitação foi de 11 meses e o projeto chamou Fortalecer para Crescer. E esse foi um projeto que a gente não imaginava, é, que teria tantos frutos positivos também, porque além da capacitação, as pessoas começarem a falar a mesma língua, isso hoje na prática a gente já consegue ver na cidade. Conselho Tutelar já pega uma pastinha e encaminha para a Secretaria de Saúde, para a Assistência Social a parte de psicólogo, então o pessoal já recebe: “Ah, esse aqui é esse caso, o aluno já veio tantas vezes, a criança já tem isso, o pai faz isso, o pai faz aquilo.”, já tem uma estrutura melhor de atendimento, mas facilitou que as pessoas começaram a se conversar, né, então tinha uma campanha para criança e adolescente na Secretaria de Saúde. Nesses encontros eu falava: “Oh, tal dia eu vou fazer a campanha, eu preciso só para vocês estarem presente.”, “Pô, legal, vou mandar alguém.”, então os órgãos hoje lá responsáveis por essa questão se conversam muito mais, então esse foi o grande trabalho do grupo Rede. Então as três partes que foi a creche, o lazer e o grupo Rede foi que a gente atuou e continuamos agora, nesse ano creche a gente vai conseguir, antes de sair a creche do Governo Federal vamos conseguir, estamos apresentando um projeto para o Instituto e vamos conseguir o recurso para reformar o local para ter creche para 60 pessoas para tentar já que 60 crianças na panha do café já seja beneficiada por isso, a Prefeitura já se responsabilizou em dar pessoas se tiver o local reformado, então agora novos projetos sempre nessas três linhas começando a implementar em Ijaci. P – É curioso ver você falar assim porque, é, isso não tem nada a ver com o negócio de cimento, ou tem tudo a ver com o negócio de cimento, né? Quer dizer, é um executivo, um gestor pensando um problema social que está a sua volta. Como é que você define isso? De onde vem essa expertise? R – Na verdade a expertise, projeto social faz você aprender algumas coisas, entendeu, bastante, você chega, por exemplo, em uma oficina onde tem diversas pessoas e tem caráter de ambiente político ali no meio, você tem que saber como você vai trabalhar, então é um aspecto que no seu dia a dia de trabalho você não tem, lá você tem política, tem pessoas que não gostam um do outro, então o projeto social já te desenvolve, você tem que saber falar muito bem na hora certa, você tem que saber colocar, tem que saber se posicionar, tem que saber ouvir porque muitas vezes quando a fábrica foi ser implementada aqui em Ijaci infelizmente na época tinha uma político na cidade que prometeu muita coisa, que a fábrica ia gerar dois mil empregos e não sei o que e que não se transformou em realidade, e a hora que a gente chegava lá: “Ah, vocês são daquela fábrica que prometeu um monte de coisa e não fizeram nada aqui?”, é, então assim, independente de quem falou ou não era o nosso nome, então a gente percebe nessas situações que você tem que ter uma habilidade maior e você acaba se desenvolvendo nesses aspectos, então não que nasceu preparado e que eu tinha, a gente acaba desde o momento quando eu comecei lá a dar uma apresentação para crianças, a pintar uma parede junto com pessoas que você está lá junto, você aprende a falar uma outra linguagem diferenciada, você vai desenvolvendo competências que no seu dia a dia profissional acaba que você não é desenvolvido. A gente tem casos aqui de gestores na nossa equipe também que tinham muita dificuldade de falar em público e com trabalho social tinha que fazer discurso, e na hora que chegaram lá aprenderam e hoje falam muito bem em público, então o trabalho social ajuda também a gente a desenvolver como profissional, agora tem um incentivo do Instituto Camargo Correa, também está claro na minha descrição de cargo que nós como Gerente Industrial depois desse incentivo nós temos que ter essa responsabilidade de ser o elo com a comunidade, de ajudar no relacionamento, de ajudar a desenvolver a comunidade local, então faz parte também do meu escopo de trabalho, eu não posso, se alguém quer ser um Gerente Industrial não pode abdicar de falar que não vai ter responsabilidade social, faz parte do trabalho e às vezes demanda até mais tempo de envolvimento e horas homens trabalhando do que efetivamente o processo de produção de cimento, mas isso é um aspecto muito importante para a gente. Mas você vai desenvolvendo, você começa a conhecer mais as pessoas, você também chega na cidade, aqui em Ijaci tem uma situação diferenciada porque principalmente a maioria dos gestores mora em Lavras, que é a cidade de maior estrutura, e a gente chega em Ijaci e as pessoas não conheciam a gente antes do trabalho social, e quando você começa a fazer o trabalho social você chega em Ijaci: “Oh Doutor Ricardo. Oh Ricardo.”, então você também começa a se sentir mais parte da comunidade quando você está trabalhando lá presente, não fica tão isolado em Lavras e vindo pra fábrica em Ijaci trabalhar somente. P – Tá certo. Eu queria que você relatasse um pouco a partir da sua perspectiva de visão o papel desempenhado por esse espaço em que esses atores todos se inter-relacionam, por exemplo, no CDC [Conselho de Desenvolvimento Comunitário]. Como é que se dá essa articulação e que papel o CDC desempenha nesse processo todo que você está relatando? R – Tá. O CDC é muito importante no papel de desenvolvimento da comunidade porque, assim, são pessoas que já tem… gostam de fazer responsabilidade social muito mais, são pessoas geralmente muito pró-ativas, entendeu, pelo menos as pessoas que hoje tem no CDC são assim. O CDC tem um público flutuante, as pessoas entram, alguns não gostam muito e saem, outros que ficam e hoje o grupo que está lá é um grupo que gosta, é muito atuante, então eu vejo que o CDC tem função de estar sempre provocando e puxando o tema de responsabilidade social, então o Projeto Fortalecer para Crescer que acabou agora no mês de março, é, o pessoal do CDC: “Oh, acabou os projetos, a brinquedoteca já está implementada, acabou a capacitação, a rede já está funcionando legal, o que a gente vai fazer? A gente tem que achar outra coisa.”, então já reunimos: “Nós vamos fazer essa creche, essa reforma junto com a Prefeitura. Vamos lançar a fase do Projeto Lazer dois, o Instituto está buscando.”, então assim, o CDC tem um papel primeiro de ter sempre alguém que já conhece a metodologia do trabalho do Instituto coordenando o projeto e principalmente de estar puxando, de não estar deixando a peteca cair: “Vamos lá, está acabando. Pô, fizemos a reunião e não foi ninguém.” “Oh, tal pessoa lá da Prefeitura disse que não vai ter gente para o projeto, o que a gente vai fazer? Vamos ter uma reunião com o Prefeito para avaliar se é verdade ou se não é, se estão falando.”. Então o CDC tem esse papel de entender mais a comunidade, puxar o tema e trazer para a gente discutir. Dentro do CDC tem algumas pessoas da Camargo, profissionais da Camargo Correa que trabalham, que são... fazem parte do cívico e que estão lá dentro com a gente, que mora na comunidade, então essas pessoas também ajudam a puxar internamente: “Vamos lá para a reunião, vamos fazer aquilo, vamos fazer uma agenda para o ano. Como é que a gente vai fazer?” então ajudam a gente a não deixar a peteca cair, porque dentro da rotina de trabalho a gente tem que também ser bastante realista, é uma rotina importante que a gente tem de colocar o cimento para ser expedido, de ter o custo adequado, de não ter acidentes de trabalho, ter um clima adequado de trabalho, não é somente responsabilidade social é uma parte importante do nosso trabalho que complementa isso. Então muitas vezes a gente se vê envolvido na rotina e essas pessoas puxando, às vezes eu puxando, às vezes alguém do CDC, do cívico puxando ajuda a gente a falar: “Opa, temos que focar nessa situação também.”, então no CDC o papel mais importante que eu vejo é isso, é provocar e estar sempre puxando para a peteca não cair. P – Ok, mas ele aqui especificamente em Ijaci tem um desempenho muito importante, né? R – Teve, o CDC eu vejo como um grande diferencial primeiro por essa informalidade que teve o CDC. Quando eu digo que tem uma população flutuante as pessoas entravam no CDC e tinham total autonomia para continuar ou não, não era nada imposto, e foram ficando as que gostaram realmente, então esse já acho que é um diferencial, as pessoas que estão no CDC gostam de responsabilidade social, outro aspecto foi essa capacitação que foi feito pelo Projeto Fortalecer para Crescer, essa era uma capacitação que acontecia a cada 15 dias e praticamente cem por cento do CDC participava lá da capacitação, então de 15 em 15 dias as pessoas estavam inseridas com a comunidade fazendo uma capacitação, então isso deu um caráter de trabalho em equipe, de companheirismo, de trabalho de além de ser integrantes do CDC eram amigos das pessoas, então isso facilitou o projeto e outra coisa que aconteceu, que aí eu acho que os projetos implementados em Ijaci o diagnóstico foi muito bem feito, a gente acertou na veia o que precisava, então a brinquedoteca que hoje é um sucesso na cidade era uma dificuldade, as mães não tinham onde levar as crianças de dois anos para frente para brincar a tarde, então a gente fez parquinhos na cidade, fizemos a brinquedoteca. O Projeto Rede que era essa situação que era crítico o Fortalecer para Crescer, as pessoas cada um atendia de um jeito as crianças e adolescentes, com o projeto todo mundo atende da mesma forma, tem um banco de dados da pessoa, não é encaminhado para o Ministério Público, as pessoas começaram a perceber efetivamente como deve atuar e começou a melhorar também essa questão de menos casos críticos, então com base nisso tudo os resultados do projeto, a vontade das pessoas, entendeu, e esse alinhamento que a gente tem foi perfeito para o CDC. P – Com o perdão do trocadilho o CDC é uma espécie de cimento nessa história toda, né? R – É, é isso aí. P – Última parte agora. Oh Ricardo, você disse ok, é isso mesmo, dessa forma como você descreveu, agora me fale pegando pelo mesmo aspecto da sua importância e do seu diferencial a atuação do Cívico que também é outra instância crítica em todo esse processo, né, como é que você avalia o trabalho que o Cívico desempenha e os resultados que ele oferece? P – Tá. O Cívico de Ijaci eu acho a primeira escolha positiva foram os integrantes que foram definidos para participar. São pessoas que têm habilidade, já tinham trabalhado com responsabilidade social e são da cidade, algumas pessoas que não trabalharam têm voz ativa na cidade, então o Cívico de Ijaci quando foi montado eu acho que o grande diferencial foi esse, foi escolhendo as pessoas certo, que tem vontade, e pessoas que felizmente conseguem na sua rotina de trabalho uma disponibilidade para falar em responsabilidade social. A gente não pode ter um integrante do Cívico que se você fala: “Vamos para uma reunião de meia hora para falar de responsabilidade social?” a pessoa fala: “Não posso porque eu estou atolado de trabalho.” Todo mundo está atolado de trabalho, mas essas pessoas pelo menos conseguem em alguns momentos flexibilizar sua rotina para ir lá e discutir um pouquinho alguns temas, então isso é o primeiro diferencial que eu vejo do Cívico aqui de Ijaci. Em termos de atuação prática acho que mistura muito o Cívico com o CDC, é, é um diferencial por quê? Porque as pessoas quando vão para a cidade lá eles não vão como Cívico, a gente nunca teve uma divulgação muito em massa quem faz parte do Cívico, quem que trabalha, entendeu, também temos um Cívico flutuante, apesar da pessoa não ser do Cívico a gente tem pessoas que atuam e vão lá participar de reunião do CDC com a gente e que na próxima reformulação do Cívico que tiver vai entrar como integrante efetivo do Cívico, então a gente tem o Cívico oficial e alguns integrantes esperando para formar, então eu vejo isso como diferencial, é, aqui em Ijaci para essa situação. Em termos de trabalho prático do Cívico como que a gente hoje define? Sempre desses três projetos que foram definidos têm o Cívico como Comitê Gestor dos projetos sociais, então está sempre o Cívico sabendo de todos, todo mundo fala a mesma língua, então os integrantes do Cívico sabem os três tipos de projetos que vão trabalhar e uma pessoa do Cívico ajuda a confeccionar o projeto, então eu tenho exemplos que o Projeto Fortalecer para Crescer, a Andréia que é participante do Cívico foi e ficou lá horas e horas junto com o pessoal fazendo o projeto que ia ser apresentado ao Instituto, e ela reportava ao Cívico como é que estava indo o andamento: “Tá atrasado, estamos precisando de mais ajuda. Tá legal, não precisa, está caminhando.”, então essa que é a orientação hoje e a forma de trabalho. Todos sabem de tudo que está acontecendo na cidade, participam do CDC, não como Cívico e sim como CDC, como parte da comunidade, e nos projetos na hora de escrever o projeto e acompanhar o projeto uma dessas pessoas do Cívico é deslocado específico por projeto para formar parte do projeto. P – Certo. Tem alguma gestão, algum encaminhamento junto à Abmp [Associação Brasileira de Magistrados, Promotores de Justiça e Defensores Públicos da Infância e da Juventude] para algum trabalho na área de infância e juventude? R – Hoje nós não temos um trabalho nessa linha, o que nós fizemos foi, nessa situação também não é nulo o relacionamento. O convite foi feito para todo o pessoal da promotoria, para os juízes dessas varas específicas para participar do diagnóstico, infelizmente não tivemos a presença deles, mas na capacitação do Fortalecer para Crescer o promotor, promotora até no caso aqui, ela dava muita orientação para a Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, então tem um relacionamento, a Presidente do Conselho e a Promotora, mas nós como Cívico ou CDC ainda não tivemos um trabalho estruturado, nenhum projeto que colocasse eles conosco. P – Certo, ok. Oh Ricardo, me diga uma coisa, quando você vai à brinquedoteca o que você enxerga nos olhos daquelas crianças? R – É, isso é legal, a gente vai lá na brinquedoteca e você vê, é muito legal você ver uma criança brincando, né, então quando a gente chega lá e a gente vê aquela alegria: “Oh tio”, eles chamando a gente de tio, a gente brincando, a gente fica muito feliz de ver que o trabalho nasceu de uma idéia, entendeu, teve o apoio do Instituto, a Prefeitura comprou a idéia e o negócio funciona hoje muito bem. Já estamos praticamente a dois anos operando lá sem nenhum problema e nenhum desvio crítico, então assim, é uma alegria muito importante para a gente e a gente se sente recompensado do tempo que foi investido no trabalho de responsabilidade social. Eu lembro bastante, em um dia eu estava em uma dessa inauguração e eu fui com o meu filho lá também, né, estava tendo a inauguração e ele ficou extremamente feliz, é, de ver os brinquedos, de querer brincar. O público é de Ijaci, ele no caso nem chegou a brincar, estava lá, era inauguração, mas você consegue ver nos olhos da criança a alegria que eu vejo no meu filho quando ele tem um brinquedo lá para poder brincar, então assim, a gente fica muito recompensado, é muito gostoso mesmo. P – Ali tem uma função, é, muito relevante que é o fato de quase que trabalhar um aprendizado, né, quer dizer, a brincadeira por si só leva a criança a um nível de socialização mais interessante e, ao mesmo tempo, uma abertura para o aprendizado que é única. R – Isso é importante porque o trabalho em si lá quando foi feita a brinquedoteca não é um local somente para brincar, entendeu? É um local para brincar, mas as crianças tem todo um trabalho pedagógico por trás, todas as pessoas foram capacitadas, as brinquedistas lá, para entender o que a brincadeira ajuda no desenvolvimento de uma criança, então lá teve toda essa parte de estudo, foi a própria Ufla [Universidade Federal de Lavras], um parceiro importante, que deu essa capacitação, tudo pensando no projeto de que a brincadeira tem um papel importante na vida das crianças, entendeu, então tudo bem desenhadas, as atividades que são feitas lá, desde uma atividade que tem que montar um quebra-cabeça até colocar uma fantasia, até ver um vídeo que tem lá, até ler histórias, tudo é pensado conforme foi o previsto no projeto inicial para desenvolvimento das crianças com base na brincadeira, atividades lúdicas e tudo mais, P – Tá certo. Essa sua sensação, assim, de realização e de satisfação é também compartilhada pelos outros parceiros desse projeto, quem apoiou, o poder público, os próprios fornecedores da Camargo que eventualmente tenham participado disso? R – É apoiar, as pessoas valorizam, gostam bastante de quando a gente leva eles lá e virou também, ajudam quando a gente tem, por exemplo, tem algum evento social, alguma necessidade, esses dias deu problema no computador da brinquedoteca, a gente chamou o nosso rapaz de TI e falamos: “Você pode ajudar a gente lá?”, ele foi com maior gosto, porque ele participou também na inauguração, no dia da instalação do computador, então assim, eles ajudam e estão sempre participando da manutenção também da própria brinquedoteca em coisas pequenas, em coisas grandes é lógico que a gente geralmente faz um projeto especial, busca em outros locais, mas eles gostam e hoje é cartão de visita até inclusive de empresas que ajudaram comentam e falam: “Oh, a gente ajuda também a Camargo Correa Cimentos.”, já ligaram para mim: “Tô recebendo referência de uma empresa.”, quando o cara vai fechar um contrato: “É verdade que essa pessoa ajudou vocês no trabalho de responsabilidade social?” “Ajudou, fizeram isso, fizeram isso.”, então assim, a gente também virou cartão de visita para outras empresas parceiras nossas desse projeto que eles ajudaram, entendeu? P – Quer dizer, então é um projeto que acaba pertencendo a mais gente, né? R – Com certeza. P – Tem este sentimento de pertencimento. R – Isso é importante, e até esses dias quando eu estava falando com o Prefeito, o Prefeito, esses dias teve uma reunião com ele e ele falou: “Ricardo, a brinquedoteca, esses dias me apertaram aqui, eu precisava de uma ou duas vagas de outras áreas e tudo o mais”, que é recurso limitado, é lei de responsabilidade fiscal, o Prefeito também tem um desafio grande lá: “E me deram uma sugestão de tirar uma pessoa da brinquedoteca, e quando eu fui conversar isso com a minha Secretária de Educação você não sabe, parece que eu falei a pior coisa do mundo e não sei quem, eu imaginei que dava para conduzir o trabalho sem uma pessoa a menos”, lá são quatro pessoas, porque assim, daí foi mostrado toda a linha de trabalho, o que cada uma tem de responsabilidade, é um trabalho muito completo, assim, tem apoio de todas as áreas, todo mundo se sente dono do negócio para não deixar acabar mesmo. P – Como participante da construção desse projeto como é que você enxerga o futuro dele, o que vem pela frente? R – A gente tem dois grandes desafios, primeiro a brinquedoteca agora já está em um momento de dar uma manutenção um pouco maior. Felizmente o CDC em conjunto com o Instituto conseguiu mostrar isso e a gente deve apresentar um projeto nos próximos dois meses aí para ter uma manutenção. Não são valores significativos como foi na reforma, mas é um valor importante que a gente vai ter que conseguir para dar uma manutenção, comprar alguns brinquedos novos, algumas fantasias já rasgaram, algumas coisas com o tempo, como é muita criança por dia que brinca acabaram se danificando, então esse é o primeiro desafio. O segundo desafio que a gente tem é a questão política, porque hoje a biblioteca é mantida, conforme foi combinado, pela Prefeitura Municipal, e daqui a dois anos nós vamos ter outra eleição no município, então dependendo de caráter político pode ser que o Prefeito caso, não sei as aspirações políticas dele, mas se não for o mesmo partido, se não for a mesma situação pode ser que o outro fale: “Não, isso é do outro, não quero mais manter.”, então a gente vai ter que desenhar isso muito bem, é, felizmente a gente já tem alguns contatos com algumas pessoas que querem ser candidatos e nós já estamos antes da pessoa ser eleita ou não vamos começar a fazer o trabalho de plantar a sementinha, levar a pessoa lá para demonstrar, para não ser somente surpresa na hora que for candidato, então esses dias eu já fiz conversa com umas pessoas que disseram ter aspirações, para uma conversa informal, não é para dar apoio, eu não dou apoio à ninguém, eu dou apoio aos projetos que realmente vão ajudar as comunidades deIjaci, mas para nós mostrarmos a forma de atuação, que geralmente a conversa é para ter um apoio inicial, mas o desafio é isso, não pode morrer por questão política porque a brinquedoteca não consegue se manter sem o apoio importante do poder executivo que é a Prefeitura, então são os dois grandes desafios da situação. A gente pensou em ampliar, mas a ampliação não vai ser feita em virtude de que nós temos o entendimento de que quando tiver a creche funcionando, ou essa segunda creche provisória, essa segunda creche que a gente deve fazer aí até agosto, se tudo correr bem, que essa creche já vai diminuir o nível de atendimento na brinquedoteca, dando espaço para aumentar na própria estrutura mais pessoas, então no nosso desenho a instalação física lá está adequada, só tem que ter a manutenção e garantir que independente de política isso vai continuar funcionando, e no bem estar da comunidade. P – OK. Como sempre essas tratativas e diagnósticos pensados em conjunto com o grupo do CDC? R – Isso, toda decisão é em conjunto com o CDC, entendeu, e é legal que no CDC essa parte de política já ficou muito bem entendido, entendeu, as pessoas que estão lá já não tem mais caráter político, isso é muito legal, tem vereadores que participam do CDC e às vezes eles apóiam até situações contra a política partidária deles por ver que é para o bem da comunidade, então isso é legal, mas é o CDC que decide, entendeu? P – Começa a ficar mais claro a necessidade desse sentido de permanência, coisas assim tem sentido quando permanecem, né? R – É isso aí. P – Muito bem Ricardo, nós falamos pouco da sua vida pessoal. Você disse que é casado... R – Sou casado com a Bárbara, ela é enfermeira, é, conhecemos, nós nos conhecemos em 1999, tivemos um filho em 2008, se chama Henrique, tem três anos hoje, estamos pretendendo ter mais um filho se tudo correr bem até março do ano que vem, ela ainda não está grávida, mas o planejamento nosso é esse. Na vida pessoal sou uma pessoa muito pacata, uma pessoa bastante tranquila, gosto de ficar em casa, é, tenho um hobby pessoal que é andar de jipe, aqui em Ijaci não consegui ainda, pelas questões pessoais, filho pequeno, meu jipe está parado. P – Jipe de trilha? R – É, jipe de fazer trilha, mas assim, eu gosto, e outro, como eu não fiz muito a parte de jipe, trilha, eu estou muito focado também no ramo, na área de eletrônica, eu gosto demais de eletrônica, computador, então também estou nessas duas. P – Arruma os computadores de casa? R – Arruma, às vezes quebra, né, às vezes acha que vai arrumar e piora [risos]. P – Vem cá, me diga uma coisa, como chama teu garoto? R – Henrique. P – Henrique, tá, e vem cá, quais são os seus sonhos, assim, sem te pedir nenhum exercício de futurologia, como é que você enxerga para frente aí, a tua atuação aí para frente? R – Eu, assim, pela minha idade que eu atingi uma posição bastante importante eu sei que eu preciso de um tempo maior também ainda para profissionalmente permanecer na função de Gerente, para até agregar outras experiências, outras situações. Então assim, eu não tenho muitas aspirações profissionais em curto prazo, sei que o mercado está muito demandado, mas eu sei muito claro alguns pontos que eu tenho que desenvolver para quando eu ter um crescimento eu ter um crescimento um pouco mais, com uma base mais concreta. A questão familiar a gente, eu, minha esposa e meu filho a gente não tem muito problema, a gente sabe que o tempo aqui em Ijaci parece que já faz três anos, de três a quatro anos em uma fábrica, daqui a alguns anos a gente deve ter uma movimentação lateral, isso está muito claro, não temos problemas de ir para outro local, então assim, estou muito tranquilo porque ainda permite isso, filho pequeno, a questão de educação não pega, então ele tendo uma escolinha para ele estudar, para ele brincar estou muito tranquilo, então hoje a gente está nessa linha de que nos próximos dois anos aí continuar em Ijaci já pensando, já se preparando para uma possível mudança lateral, ou uma promoção, alguma coisa assim, que faça a gente ter uma mudança de localidade aqui de Ijaci. Vida pessoal a minha esposa depois de ter esse filho, o segundo filho, ela pretende daqui a uns dois anos voltar a trabalhar, entendeu, então ela pretende também fazer um curso no próximo ano de capacitação, porque está fora já a três anos do mercado, entendeu, então ela pretende voltar a trabalhar, e curtir o menino crescendo aí, sempre ter tempo para ele, né, é mais isso. P – É inevitável eu te fazer essa pergunta porque é muito recente, o que significa no desenho corporativo a criação da InterCement, o que isso vai significar para o negócio de cimento no grupo? R – O negócio de cimento eu acho que a criação, primeira coisa, é uma ação prática do que nós queremos para frente, então a gente fala muito em crescimento, vem crescendo gradativamente, isso se pegar o histórico da empresa é quinze por cento, vinte por cento por ano, e a criação dessa nova empresa vem a demonstrar que a gente realmente vai se internacionalizar e vamos crescer cada vez mais. Isso é uma ação prática, então já demonstra isso. O que é importante também a gente avaliar é que quando nasce uma empresa nova, apesar de todo mundo continuar, também criam-se coisas novas, o que é legal é que nesse momento os valores colocados para essa nova empresa são valores muito alinhados com a questão de responsabilidade social, que é respeitar a diversidade, que é apoiar a multicultura, entendeu, então assim, é muito legal que a gente já está nascendo com aspectos diferenciados para um trabalho mais completo e também de internacional, entendeu, então eu vejo isso, primeira coisa, o fato da nova empresa ter iniciado, apesar de com as mesmas pessoas, inicia com jeitão diferente, as pessoas quebrando alguns paradigmas, é, com uma visão diferenciada de futuro que é crescer, acho que essa é a primeira ação prática do nosso crescimento que vai vir pela frente. P – Muito bem, Muito bem Ricardo, eu estou satisfeito, alguma coisa que você gostaria de dizer e eu não te provoquei? R – Não, não, eu que agradeço aí todo o tempo de vocês aí com a gente, e fico à disposição para qualquer outra situação. P – E como é que você se sentiu contando a sua história? R – É diferente, né, a gente [risos], primeiro parabenizar pela metodologia porque a gente falou da responsabilidade social, falou do que tinha que dizer que era o objetivo maior da entrevista de uma forma muito mais tranquila, então foi chegando e parece que quando a gente fala da gente é mais fácil, né, não tem jeito de errar de falar da gente, a gente já chega mais tranquilo, mais natural, é uma técnica interessante, até quando eu falo dicas para o pessoal quando vai fazer alguma apresentação, sempre que você vai apresentar e que você está nervoso fala teu nome e se apresenta, isso você não vai errar, por aí você já quebra o gelo inicial da platéia, então falar de mim acho que ajuda, é legal, é uma metodologia legal, agradeço o aprendizado que leva aí para a gente. P – Legal, a gente que te agradece muito pela beleza do seu depoimento. R – Tá bom, obrigado. --- FIM DA ENTREVISTA ---

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