Busca avançada



Criar

História

Rica em aventuras: das fazendas de café ao Lar das Senhoras Católicas

História de: Maria Albertina Prado Ribeiro Campos
Autor: Ana Paula
Publicado em: 19/06/2021

Sinopse

Nesta entrevista, Maria Albertina nos conta sobre sua vida e aventuras. Passou a infância em São Paulo e com os pais nas viagens até a fazenda de café da família em Pirajuí. Vivenciou o falecimento do pai e recebeu o diagnóstico de paralisia. Casamento com Ubirajara Ribeiro Campos e nascimento dos filhos. Morte da filha aos 7 anos. Viúva, reside no Lar das Senhoras Católicas.

História completa

Projeto - Museu Aberto Realização Museu da Pessoa Entrevista de Maria Albertina Prado Ribeiro Campos Entrevistada por ? São Paulo, 20 de maio de 2000 Código - MA_HV135 Transcrito por Ana Claudia Alves da Cruz Revisado por Cristiane Pessôa da Cunha P/1 – São Paulo, 20 de maio de 2000, às 14:45. Boa tarde, dona Albertina. R– Boa tarde. P/1 – Por favor, diga seu nome completo. R– Maria Albertina Prado Ribeiro Campos, como eu me assino. Mas meu nome de solteira, a família do meu pai é Castro Prado e a família da minha mãe é Egídio de Sousa Aranha. P/1 – O seu local de nascimento? R– Aqui em São Paulo. Foi até na rua Frei Caneca, na maternidade, mas meus pais residiam nos Campos Elísios. P/2 – Que dia a senhora nasceu? R– 11 de janeiro de 1926. P/2 – Qual o nome de seus pais e de seus avós? R– Meu pai chamava-se João Bierrenbach de Castro Prado. A mãe dele se chamava Albertina Bierrenbach de Castro Prado e o pai dele Antônio de Castro Prado. P/2 –Todos eram, todos são de São Paulo? Qual a descendência deles? R– A minha avó tinha um avô alemão. P/2 – De que parte da Alemanha? R– O avô dela era general que veio na guarda de honra da princesa Leopoldina, quando veio para se casar com Dom Pedro I. P/2 – Quantos irmãos a senhora tem? R– Eu tive um irmão que infelizmente faleceu há cinco anos. P/1– Qual é o nome dele? R– O meu irmão se chamava Rocio de Castro Prado. Ele era engenheiro. P/1– O Rocio era mais novo, ou mais velho que a senhora? R– Ele era mais velho do que eu, sete anos e meio. P/2 - A senhora lembra, assim, da casa quando a senhora nasceu, da casa da sua infância, alguma coisa que marcou? R – A casa quando eu nasci, eu não me lembro, mas eu me lembro dessa casa da Barão de Campinas onde eu saía pra tomar o leite que eu falei, os tais sobradinhos que nós morávamos, ladeados pelos tios. P/2 – Alguma coisa que aconteceu nessa casa que a senhora guarde assim com carinho, alguma estripulia que a senhora fez com seu irmão? R- Não fazia estripulia com meu irmão, porque nós tínhamos uma diferença grande de idade. Ele era um menino e eu era um bebê. E quando eu era menina, ele já era um moço. P/2 – E qual a lembrança que a senhora tem dos seus pais? R- As melhores ... P/2 – Nessa idade eles eram muito rigorosos? R- As melhores possíveis. O meu pai era muito condescendente, porque eu era menina e quando eu nasci meu irmão já tinha sete anos e ainda tinha o nome da mãe dele. E o meu pai dizia que ele não sabia brigar com mulher, por isso que ele preferia ter filho homem. A minha mãe era de temperamento severo. A família dela é de muita severidade. Mas era uma severidade que ela queria que a gente atingisse a perfeição. Entende? P/2 – Tá certo. E a senhora conheceu seus avós? R- Sim. Meus avós maternos. Meu avô que era coronel, José Egídio de Queirós Aranha. Ele não era coronel, no sentido pejorativo que se diz, ele era coronel da Guarda Nacional, porque ele era neto da viscondessa de Campinas e do lado da minha mãe são todos descendentes dos aristocratas nomeados pelo imperador. Minha avó era Josefina de Queirós Aranha e era prima-irmã do marido, por parte de mãe e por parte de pai. As mães eram irmãs e os pais eram irmãos. O que é considerado uma verdadeira loucura. Mas no tempo antigo, eles tinham preocupação com o nome de família e do dinheiro, né? Então, casamos com os parentes. P/1- Esses seriam seus avós maternos... R- Maternos. P/1 – E os avós paternos? R- Acabei de falar. P/1 – Ah, esse? Ah, tá. P/2 – Eram italianos. P/2 – Qual era a atividade do seu pai? R- Meu pai, ele era formado pela escola Luiz de Queiroz em agricultura e a atividade dele era o café. Na plantação, no comércio, na exportação. P/2 – Ele tinha uma fazenda de café também, várias... R- Eles tinham várias fazendas. P/2 – Qual sua lembrança de infância nessas fazendas, ou a senhora só ficava em São Paulo? R- Não, eu não ficava só em São Paulo, eu ia com eles. A lembrança na fazenda Coqueirão que era no município de Pirajuí Noroeste que era uma imensa fazenda, eu tenho excelente... porque sou muito apegada a ela. A princípio nós morávamos na casa do administrador. Em 1930 foi construída a casa da sede nova e eu me lembro até hoje quando mamãe disse: “Nós vamos mudar, mas você vai depois do almoço.” Porque criança dormia depois do almoço. Então me lembro até hoje, depois do almoço, de pôr minhas bonecas no carrinho e ir empurrando o carrinho e ir para casa nova acompanhada da governanta. P/1 – Certo. O seu pai tinha algum título, dona Albertina? R- De engenheiro agrícola. P/1 – E como ele trabalhava na cultura do café, qual era o nome que ele recebia? R- Como nome? P/1 – Ele era um dos grandes fazendeiros de café? R- Ele era porque ele tinha as fazendas dele, mas meu avô, pai dele, é que era justamente, vamos dizer, o chefe da organização. Mas o meu pai era o filho mais velho que se dedicou a isso. Além disso, meu avô era deficiente visual. Então, as fazendas eram do meu avô, como a companhia em Santos de exportar café que era ao lado das docas que também eram de meu avô. Essa era Sociedade Anônima, os filhos também tinham parte. Mas quer dizer, meu pai representava, ele encabeçava os negócios do meu avô. E eles tinham cinco fazendas no Estado de São Paulo, que naquela época diziam que ele era o segundo fazendeiro. O primeiro o Lunardelli e ele o segundo. P/1 – Então podemos chamar que seu pai recebeu o título de Barão do Café, que recebia naquela época. R- Mas ele não recebeu título... Eu acho que é uma coisa que dizem ai... P/1 – Eu digo assim... R- Ele era realmente um líder, vamos dizer, do comércio de café. Mas eu tenho sobre meu pai, um artigo lindíssimo escrito por Augusto Frederico Schmidt. Eu poderia trazer se um de vocês quiserem. P/1 – A gente gostaria muito de anexar aqui a sua história. Seria importante. P/2 – Mas na época ele era tido como um barão, apesar de não ter...? R- Não se dizia... P/2 – Não...? R- Hoje que fala essa história do barão do café. Antigamente não falava. Tinha o rei do café que era o Lunardelli e ele era o segundo, digamos. Agora que usa essa história, que tá até fora de moda, porque agora o que vale é a história da migração italiana por causa da novela. P/1 – A senhora me disse que seu pai herdou do seu avô, por volta de ... São cinco fazendas de café. R- Ele não herdou porque meu povo morreu aos 48 anos, antes do pai. Ele trabalhava com o pai, fazia parte da organização deles. P/1 – A senhora se lembra do nome dessas fazendas e a localização? R- Muito. A fazenda Coqueirão era no Noroeste; tinha uma em Araçatuba que se chamava Santa Clara e que pertence até hoje a uma prima minha. Tinha uma em Ribeirão Preto que se chamava São João e uma outra que se chamava Graciosa, que me parece que era no município de Descalvado. E uma outra em Campinas que se chamava Espírito Santo e que hoje deu nome ao bairro de Valinhos que era em Valinhos. P/1 – Certo. No seu período de infância a senhora se dedicava a que atividade, além de ir pra escola? A senhora tinha amigos...? R- Eu brincava com minhas amigas, muitas, como eu mencionei aí, a minha primeira amiga. Depois que mudamos para a avenida Angélica tinha uma amiga íntima, passeávamos de bicicleta, brincávamos, íamos na natação, na ginástica, essas coisas. P/1 – Certo. R- Festas. Festas maravilhosas. Tínhamos festas de Carnaval no Automóvel Clube. Fazíamos árvore de Natal, como eles chamavam. Tinha festa do Paulistano, fazia de Natal e de Carnaval. E no domingo, nós almoçávamos na casa do meu avô, eu com as primas todas e depois íamos às vezes ao cinema. Outro dia eu vi que o Paramount vai ser derrubado. Eu lembro que uma vez nós fomos no Paramount, pegamos uma fila toda porque nós éramos várias primas. P/1 – Certo. A senhora nos disse que morava ali por volta da Barão de Limeira, ali, Barão de Campinas... R- Por volta não, exatamente na alameda Barão de Campinas que fazia parte do terreno da Barão de Limeira que era a casa do minha avó, com esquina de Helvétia e no fim que era a Barão de Campinas que era deles também, no tempo dos cavalos e das carruagens e que depois que compraram automóvel fizeram esses sobradinhos prus filhos casados. P/1 – Ah sim! E a senhora tem lembrança dessa casa? A senhora gostava do bairro, da casa onde a senhora morava? A senhora poderia descrever um pouquinho pra nós? R- A casa não era uma casa de luxo, era uma casa que chamavam de sobradinho. Era uma casa relativamente pequena, com sua entrada, sua salinha, sala de jantar e uma saleta. Em cima, meu quarto era muito bonitinho porque mamãe era muito caprichosa. Mas não era nada de luxo. Era casa de casal que estava organizando a vida. Mas eu tenho boas lembranças, sobretudo porque eu ia a pé na casa do meu avô, mas como eu disse, tinha que sair na rua porque tinha muro. E nós vivíamos em função da casa grande da minha avó, onde eram as festas, os lanches, aquele sistema matriarcal. As filhas recebiam as amigas lá, porque aqueles lanches imensos e tudo... Então, a grande lembrança é a casa da minha avó. Que era enorme. Até tenho pena de não ter fotografia nenhuma e lá que era, mantinha muito a tradição. Então, por exemplo, domingo, ela reunia os filhos para rezar o terço e depois tínhamos o lanche. Aquele lanche imenso, daquelas coisas, ao domingos à tarde. E os almoços eram na casa da minha outra avó. P/2 – E algum canto da casa que a senhora... Qual era o lugar da casa que a senhora gostava mais, da casa da sua avó? R- Da casa da minha avó, eu acho que eu gostava do conjunto, né? Tinha a sala de visita que a porta era fechada com chave como se usava antigamente. Quando chegava a minha professora de piano, eu tinha que ir lá abrir... tomava. Mas era, assim, uma coisa meio reservada. O escritório do meu avô era bem grande, muito bem decorado pelo Liceu de Artes e Ofícios e tinha um termômetro em forma de anjo, na mesa, que eu tenho até hoje na minha casa porque me traz muitas lembranças. P/1 – Ah, sei. A senhora disse que tomava aulas de piano. O professor ia a sua casa? R- Na casa de minha avó, porque lá em casa, acho que não tínhamos piano ainda, nesta casa da Barão de Campinas. P/1 – Ah, certo! P/2 – Quantos anos a senhora estudou piano? R- Ah, eu estudei muito pouco, porque depois eu fiquei com esse defeito que eu tive da paralisia e o médico não queria mais que eu ficasse tantas horas sentada. Estudei pouquinho. Como se usava antigamente com a educação. Mas eu vou te dizer que quando o médico disse que eu não podia ficar mais sentada, eu fiquei radiante porque eu detestava estudar piano. Gostava de assistir, como até hoje. Acho bonito os concertos, mas para os outros tocarem. P/1- [risos]. P/2 – [risos]. P/1 – O bairro de Campos Elíseos, a senhora se lembrava como eram as ruas, se passava...? Qual era o meio de transporte daquela época? Como era a entrega dos comerciantes? R- A alameda Barão de Limeira era bastante larga e na alameda Barão de Limeira passava o bonde e todo mundo andava de bonde, mesmo as pessoas muito bem situadas porque o bonde estava vazio e era costume. Agora eu tenho poucas lembranças porque eu saí de lá com 7 anos. Eu era pequena. Eu ia a pé até a casa da minha avó e depois a gente saía de automóvel. P/1 – Sei. P/2 – E quando a senhora visitava seus avós, os avós paternos? R- Então, os meus avós paternos, como eu disse pra você, eu me lembro mais quando eu mudei pra Brasílio Machado. Essa virada da alameda Barão de Limeira para Angélica que eu disse pra você, que me deixava entusiasmada é quando íamos lá. Como meu pai trabalhava com o pai, o escritório era o mesmo, eles estavam o dia todo juntos no escritório. Mas como eles tinham um armazém em Santos de café, tinha uma vez por semana que meu pai saía cedo e ia para Santos ver o serviço. As estradas não eram como hoje. Então, quando ele chegava antes do jantar, ele ia fazer uma visita para o pai porque não tinha visto o pai nesse dia. E era aí que eu ficava encantada com a iluminação da avenida Angélica. E na casa dessa minha avó que se chamava Albertina, que era descendente de alemães, de quem eu tenho o nome, que era minha madrinha, é que nós almoçávamos todos os domingos, que tinha muitas primas com pequena diferença de idade para a minha. P/1 – E a senhora diz que chamava bastante atenção da senhora essa questão da iluminação, como era? Já existia luz elétrica...? R- Ah! Mas claro que existia luz elétrica. Na Brasílio Machado, eu falei que era lampião de gás. Existia luz elétrica dentro de casa. Na rua, quer dizer. P/1 – Na rua... R- Mas na avenida Angélica era iluminada nessa iluminação linda que eu falei, que eram glóbulos imensos e eram no meio da rua, porque agora me parece que é na lateral. P/1 – Sei. Como nós estávamos tomando algumas informações antes do início da entrevista a senhora falou, a senhora nos lembrou também a questão do leiteiro que passava, que chamava a sua atenção. R – Ah, sim... P/1 – Como era? R- Na avenida Angélica ainda era uma carrocinha que passava de manhã. O leiteiro eu não me lembro, mas passava o verdureiro; a cozinheira ia então na porta pra escolher as verduras. Passava o padeiro e tinha a carrocinha do padeiro, como eles diziam. E o padeiro vinha de manhã cedinho pru café, pru pão que eu acho que ele punha na caixa de pão. E na hora do almoço vinha com aquelas rosetas, aquele pão redondo, para o almoço porque, imagine você, vinha nova. E era comum dizer: “Meu Deus o padeiro está atrasado, o fulano já precisa almoçar”. Você não compreendia de outro jeito. P/1 – [risos]. P/1 – E daí, quantos anos a senhora tinha quando a senhora se mudou do Campos Elíseos? Aí a senhora foi pra... R- Rosa Machado... P/1 – Rosa Machado. Higienópolis, né? O bairro. R- Higienópolis. P/1 – A senhora tinha quantos anos? R- 7 anos. Foi em 1932. P/1 – E lá, como é que era sua casa? R- Ah! Essa casa era linda. Era uma casa muito chique, muito bonita. Depois minha mãe vendeu até para uma prima que ia se casar. A casa era muito bonita, tinha pertencido a um senhor da família Junqueira. Tinha sido feita por um engenheiro da época e a casa era muito bonita. O meu quarto era de frente, que eu gostava de sair na janela para ver o movimento da rua e o meu irmão tinha um quarto lateral e depois tinha um banheiro, que era novidade naquela época. Esse banheiro era pra mim, para o meu irmão e pra governanta. Minha mãe tinha outro quarto. Mas o apartamento da minha mãe era uma beleza. Você entrava numa sala, as paredes eram todas empapeladas, desse papel que tem desenho de veludo. E era roxo batata. Acho que daí que eu aprendi a gostar de roxo. O lustre era de cristal, também roxo. Depois dentro, tinha o quarto dela que era todo frezi, com sofá, cama, assim embutido e o banheiro dentro no quarto que também não era comum naquele tempo. E a porta do banheiro, do lado do quarto, era um grande espelho. Era muito bonita essa casa. Tinha sala de visita, hall, escritório do meu pai. E tinha uma saletinha de almoço, toda empapelada. Era bonita. Mas minha mãe gostava muito de casa, eles gostavam muito de receber. Então, passado uns tempos, eles queriam uma coisa maior e compraram a da avenida Angélica. P/1 – Ah, certo. Então a senhora morou na própria avenida Angélica, mesmo, né? R- Sim. Mas não perto dos meus avós. Nós morávamos lá embaixo, perto da Alameda Barros e meus avós moravam aqui em cima, perto da rua Bahia. P/1 - Certo. Quando a senhora foi pra escola, sua mãe foi inscrever lá na escola, fazer sua matrícula, para que colégio a senhora foi? R- Externato Ofélia Fonseca, na rua Bahia. P/1 – E como foi lá sua vida no colégio, as amizades, as professoras? Tinha alguma professora que chamava mais sua atenção? R- A nossa professora, porque era uma professora para tudo, porque era primário. P/1 – Certo. R- A nossa professora se chamava dona Nicoline. Ainda comentei isso ontem, com esse colega que eu encontrei. Dona Nicoline era muito boazinha. A dona Ofélia Fonseca era uma senhora de um valor muito grande, de uma grande cultura. Vamos dizer, muita garra, como se diz hoje, para organizar o colégio, mas era considerada bravíssima. Quando dona Ofélia chegava, todo mundo morria de medo. Eu entrei lá, no primeiro dia de aula do ano de 1934. E eu já era alfabetizada, porque eu tinha uma governanta inglesa, então já era alfabetizada. Foi alfabetizada em inglês. Então ela quis que eu fosse para o segundo ano, ao contrário da opinião da minha mãe que achou que eu nunca tinha estado em um colégio, que não ia dar certo. Mas ela me pôs. E no primeiro mês, eu fui a primeira da classe. Tanto que a dona Ofélia mandou perguntar pra mamãe se ela ainda queria que eu voltasse para o primeiro ano. Porque mamãe disse: “Olha, ela vai, mas se ela não acompanhar, ela volta”. E depois, eu fiquei três meses no colégio e não sai do quadro de honra, porque ia até o terceiro lugar. Nos outros dois meses, eu fiquei em terceiro lugar, porque eu falava demais e atrapalhava a aula das outras... P/1 – [risos]. R- Então, a nota, como se diz...? A nota de comportamento desceu. Mas não a de aplicação. Era um grande colégio. Daí, quando chegou perto do inverno, meu pai ia pra essa fazenda no Noroeste que era muito grande, ele precisava assistir a colheita. Eu só tinha 8 anos, então nos levaram. Mas dona Ofélia mandou uma carta lindíssima para mamãe, dizendo que era um absurdo ter me tirado do colégio. Mas as organizações familiares eram assim, antigamente. Depois, quando tinha 10 anos, eu entrei para o Colégio Assunção que era um colégio novo que tinha sido fundado no ano anterior, aonde eu chamo até hoje de meu colégio. Trabalho também na associação das antigas alunas que mantém asilo, mantém creche. Eu entrei em 1936, era um colégio de freiras francesas. Eram freiras muito finas. Algumas delas eram até da aristocracia europeia. Tinha uma que diziam até que ela era princesa da Bélgica, que era minha chefe de classe. E lá eu fiquei o ano todo de 1936, 1937 e 1938. Mas depois, foi quando eu tive essa febre que era paralisia, que a princípio os médicos não entenderam, pensaram que fosse coisa de pulmão, que era tuberculose porque deu um febrão e a minha paralisia foi localizada. Então na hora não dava pra eles perceberem nada. A febre foi embora e eles acharam que era uma gripe muito forte que passou. Mas como a paralisia foi localizada nas costas, depois entortou a espinha. Então, daí eu não podia mais estudar em colégio, foi daí que eu estudei em casa com os professores particulares todos. Tinha um professor de francês que vinha ensinar literatura francesa. Tinha o professor Marques da Cruz que me ensinava Português e Matemática e acho que também História. E daí, eu fiz meus estudos em casa. P/1 – Esse período difícil da senhora que a senhora foi acometida pela paralisia, ele durou... R- Ele dura até hoje, meu anjo, porque você vê que eu não ando com facilidade porque a minha espinha tá torta. P/1 – Mas quer dizer, da senhora ter superado essa coisa, pra tá saindo mais ... Porque aí a senhora não voltou mais pra escola, né? R- Para o colégio não, porque eu não podia ficar na postura de uma carteira, e também cumprir o horário. P/1 – Sei. Ah! Tá! R- Eu fiz depois de moça que tudo estava menos intenso, os tratamentos, um curso no Colégio Assunção que eu te disse que era, que chamam na Inglaterra de finishing school que chamam de curso de aperfeiçoamento que na brincadeira, na sociedade, diziam que era...chamavam de espera marido. P/1 – Ah, certo [risos]. P/2 – Nessa época de espera marido, como eram, assim, os bailes que a senhora...? R- As festas eram maravilhosas. São Paulo tinha festas maravilhosas. São Paulo tinha festas lindíssimas. Mesmo antes do espera marido, eu já ia em festas. Eu fui ao primeiro baile, acho que eu tinha 16 anos, E depois continuei indo. Nessa casa que hoje pertence à família Diniz, donos do Pão de Açúcar, antes pertencia à família Crespi e na inauguração dessa festa, eu me lembro que nós dançamos até as 7h da manhã. E às 7 horas da manhã serviram um chocolate. Mas eu sempre fui profundamente religiosa, desde menina. Era filha de Maria. E sempre fui e assim estou. E não é hoje que eu sou. Esse negócio de dizer que gente moço tem mais o que pensar, pra mim é um absurdo. Então, não havia missa à tarde, as missas eram só de manhã. Então, eu saí da festa, fui em casa, tirei o vestido de baile, troquei de roupa, fui a missa e depois voltei, dormi até as 4 horas da tarde. Apesar de gostar muito de frequentar, de gostar muito de festas, de fazer muitos programas, eu nunca deixei, nunca perdi missa. P/2 – Essa foi sua primeira festa, seu primeiro baile. R – Não, essa não foi a minha primeira festa, essa foi uma que nós dançamos até clarear o dia. A minha primeira festa foi na casa de uma amiga que foi primeira dama de São Paulo, que se chamava Maria Melão e que depois se casou com o Roberto de Abreu Sodré. Foi no aniversário dela. Até hoje, eu a felicito por essa lembrança. Mas essa eu era mais mocinha, foi uma coisa mais moderada. P/2 – Conta pra gente o que a senhora estava contando antes, que a senhora gostava de olhar a Guarda civil. Como era? R- Ah sim! Isso era na minha infância. Você estava perguntando as lembranças do Barão de Campinas. Porque como eu lhe disse a casa da minha avó era na esquina e depois tinham umas casas menores e a outra maior, que ficava no mesmo quarteirão, era a casa da família Baruel. Era uma casa muito linda, mas como era a Guarda Civil não era vedada, tinha uma grade muito linda, você via todo o jardim e via os guardas lá em posição. Eu não sei a organização da Guarda Civil, mas eu dizia:” Vamos ver o soldado” porque eu achava lindo ir ver o soldado. E nos era contado naquela ocasião que a casa pertencia a família Baruel e que estava alugada para a Guarda Civil. Agora, eu ouvi muitos elogios da Guarda Civil quando foi a Revolução de 1932 que eles foram maravilhosos e sempre a gente saía na rua, via aqueles guardas perfilados que nós chamávamos de grilo. P/1 - Grilo [risos]. R- Por causa do apito que eles apitavam. E que nos dava muita ordem. Hoje você não vê ninguém, né? P/1 – Hoje é difícil, né? R- E depois eu não sei o que aconteceu com a Guarda Civil. Teve um problema aí que eu desconheço. Não sei se eles ficaram aquartelados, não deixaram mais ir pra rua... Não sei. Eu sei que até a Revolução de 1932 eles fizeram uma beleza de trabalho. Eram muito bonitos,perfilados, muito bem vestidos. P/1 – A senhora nos disse também, na nossa conversa inicial, que a sua mãe chegou a receber a Guarda Civil na sua casa, lá... R – Não meu bem, não foi a Guarda Civil que minha mãe recebeu. Quando meu pai foi à Revolução de 1932, ela preparou na casa da mãe dela, na Alameda Barão de Limeira, o lanche, quatrocentos lanches para todo o batalhão dele. P/1 – Certo, é o pessoal que estava servindo na Revolução? R- É. O batalhão que meu pai fazia parte, o meu pai era segundo tenente e mamãe ofereceu o lanche de partida para todo o batalhão. P/1 – Certo. P/2 – E o que tinha nesse lanche? R- Por isso que eu digo pra você, o ovo cozido eu me lembro porque eu achava lindo, porque ela fazia também no meu lanche. E possivelmente, tinham que ser coisas que eles pudessem levar para comer, né? Porque eles tinham aquela... Que me falta o nome agora, aquela garrafa que eles penduravam aqui, que eles levavam a água. P/1 – Cantil? R – Cantil, que era redondo, com um feltro em volta e tudo. Pode ser que tivesse café. Eu não sei. Então, ovo cozido, eu não me esqueço. Agora possivelmente devia ter sanduíche, ou quem sabe uma fruta. Não sei. Que como eu disse, eram todos embrulhados em papel de seda das cores da nossa bandeira. Sendo que eu acho que o papel preto e o papel vermelho, era até uma imprudência. Acredito que minha mãe tenha posto a banana que tem casca, com isso. Mas como eu disse, naquele tempo, o entusiasmo falava mais alto, né? P/1 – Ah! Sei. P/2 – Qual a outra coisa que a senhora lembra da Revolução de 1932, fora seu pai indo...? R- Eu lembro muita coisa... P/2 – Sua mãe fazendo o lanche... R- Eu lembro muita coisa da Revolução de 1932. Meu pai foi, minha mãe fez parte da campanha que arrecadou ouro para o bem de São Paulo. A carta que ela mandou para o doutor Júlio de Mesquita prestando conta, ele publicou na primeira página do Estado de São Paulo. Eu tenho até hoje. Meu irmão foi ser escoteiro, ia de bicicleta entregar carta porque os carteiros foram requisitados. As senhoras todas iam com pacotes para costurar na Cruz Vermelha, porque os automóveis não estavam. Eu acho que não tinha gasolina e os choferes também tinham ido pra guerra. E eu me lembro de uma coisa muito engraçada: que nós morávamos na rua Brasilio Machado e naquele tempo passava ônibus na rua Brasílio Machado, depois deixou de passar. Passava só em cima e embaixo, mas passava o ônibus. E mamãe que era uma pessoa que não estava acostumada a andar de ônibus tinha seus compromissos lá, com a costura, com as coisas. E o chofer do ônibus tinha a maior das boas vontades porque sabia que todo mundo estava lutando por uma causa só. Então, eu me lembro de uma vez que mamãe saiu na janela do meu quarto, do andar de cima, e gritou para o chofer do ônibus que ela já estava indo. E o chofer esperou, parou, esperou e ela desceu e saiu pra pegar. Então, você imagina pensar isso no dia de hoje. P/1 – [risos]. P/2 – Só mais uma perguntinha, voltando mais ainda no tempo, a senhora sabe como seus pais se conheceram? R- Sei. Eu sei muito bem como eles se conheceram. Eles pertenciam, de um certo modo, aos troncos bem longe das mesmas famílias, como era antigamente as famílias tradicionais de São Paulo. A minha mãe me disse que ela foi fazer uma estação em Caxambu e meu pai foi também para Caxambu porque estava na moda. E se conheceram em Caxambu. E meu avô, pai da mamãe, era diretor da companhia Mogiana de estrada de ferro. Então, mamãe disse que foram várias vezes pra Caxambu, inclusive quando foram inaugurar a estrada de ferro lá. Eu nem sabia que a Mogiana ia pra Caxambu, porque Caxambu é em Minas e a Mogiana era em São Paulo. Mas, enfim. Mamãe quando era mocinha, ela só viajava em trem especial, com o pai dela. Não é vagão, trem especial, com locomotiva, tudo, porque era critério da diretoria. Os diretores todos viajavam assim, os diretores todos. Então, mamãe, às vezes ia modestamente, meu avô não queria, mas os colegas mandavam, porque ele também mandava os colegas porque era o regulamento, né. Então, eles se conheceram em Caxambu e quando eles se conheceram, começou um certo interesse. Daí meu pai falou para mamãe que gostaria de se casar com ela. E minha avó, que era muito rigorosa - imagina nos tempos de hoje o que ela não ia pensar. Daí, disse que meu pai tinha que se retirar de Caxambu porque desde que ele falou em casamento pra ela, não podiam ficar os dois no mesmo teto. Estavam no hotel. P/2 - [risos]. No hotel. R- É, no hotel de Caxambu. Daí meu pai veio embora. Falou que veio embora. Daí a família também voltou quando terminou a temporada. E daí o namoro prosseguiu. P/ 1- E aí depois eles vieram a se casar. R- Ah sim. Se casaram no dia 20 de junho, eu acho que de 1916. P/2 – Ah, certo. E como a senhora conheceu seu marido? R- Ah! Eu conheci meu marido no Rio de Janeiro. Ele era pernambucano. Eu conheci meu marido no Rio de Janeiro porque nós íamos fazer temporadas no Copacabana Palace. Meu pai já tinha morrido e mamãe disse que queria muito mandar pintar um retrato a óleo meu. Então, chegamos lá no Rio, tinha um pintor, (Grivutz?), russo. Ele até era casado com uma princesa russa. Essa princesa russa, dizem que o avô dela foi o último czar... O último ministro do czar. A mãe dela era princesa. No passaporte dela estava princesa de tal. E ele chegou de Paris, onde eles moravam, no Copacabana Palace, estava fazendo muito sucesso, e diziam que era um pintor de muito nome, dançava muito bem. Ele tinha feito em Paris o retrato da Coco Channel, né? Enfim. Mas, mamãe não entendia de pintura. Além disso, nós não tínhamos visto ele pintar nada. Contava-se no hotel. Daí mamãe já conhecia meu marido, por outros conhecimentos, ele foi visitá-la e mamãe disse: “Você podia me dar uma opinião sobre o serviço desse pintor porque ...” Até disse assim: “Porque ele, pra fazer o retrato de Maria Albertina, ele me pediu 10 contos, então quero saber se ele é ótimo.” Bom, então meu marido foi lá no ateliê do pintor pra saber e viu belezas na parede, mas não viu o pintor pintando. E meu marido era pernambucano, foi morar no Rio de Janeiro, então, você sabe, fica com o pé atrás, né? O que os franceses dizem, arrière-pensée . Então, ele, pra dar uma responsabilidade dessa pra minha mãe, falou: “Bom, se o que tem na parede foi ele que pintou, é muito bom, mas eu não vi ele pintando.” Então, depois ele ficou muito amigo desse pintor e eu contei pra ele: “Você sabe o que o Ubirajara falou de você? Que se o que estivesse na parede fosse feito por você…” Então, ele viu os livros. O Benezit, o Benezit é um dicionário dos grandes pintores e ele consta do Benezit. O meu marido entendia muito de Arte, porque ele fez o curso de Belas Artes do Rio de Janeiro, do Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro. Então ele era identificado, ele não só gostou da pintura, como viu que esse pintor constava. Então, daí começou a pintar o meu retrato e meu marido que gostava muito, foi lá para assistir as poses e começou o namoro. Enquanto isso, eu tinha um grupo de amigos muito grande, ia a muitas festas, a praia e tudo. Mas esse foi o verdadeiro namoro. Então, meu marido chegava lá e dizia: “Ah! Vamos passear, tá uma tarde tão bonita. Vamos passear na Lagoa.” Lá do Rio de Janeiro. Como é que se chama? Rego Freitas? P/1 - Rodrigo R- Rodrigo de Freitas. “Vamos passear na Lagoa”. Então, eu ficava lá minutos e ia passear na Lagoa. Acontece que o retrato não acabava, porque eu não posava, o retrato não acabava. É evidente que eu não ia falar pra mamãe. Nenhuma filha fala. E mamãe um dia telefonou para o pintor e disse “Mas o senhor disse que fazia em 10, 12 dias esse retrato, já faz quase um mês e o retrato não está pronto. Eu não moro aqui no Rio, eu moro em São Paulo. Eu estou construindo uma casa em São Paulo. Eu tenho meu outro filho em São Paulo. Eu preciso voltar e o senhor não termina.” E o pintor que viu que havia um namoro nisso, mas quis ser muito correto - mentalidade estrangeira-, ele disse pra minha mãe: “ Ah, a senhora sabe, eu realmente errei quando falei pra senhora, porque eu não estava acostumado com o clima do Rio de Janeiro. Eu sou de outro país e as tintas estão reagindo diferente. Mas a senhora pode estar sossegada que eu já me atualizei, já sei e que agora vai acabar logo.” Daí quando cheguei pra posar, ele disse: “Olha aqui, se você não ficar aqui pra posar, eu vou contar pra sua mãe que você sai com o rapaz.” P/1 – [risos]. R- Ele era russo, “Eu vou contar pra sua mãe que você sai com o rapaz”. Então, daí eu fiquei, daí o retrato acabou, está até hoje na minha cabeceira., no meu quarto. Ficou a história da minha vida. Depois o retrato era de mamãe. Eu morei cinco anos com mamãe, aqui em São Paulo, quando me casei, porque o meu marido era do Rio, morava no Rio. Então, veio aqui. Então, estava na casa dela, a casa era dela, então o retrato era dela. Daí quando nós construímos nossa casa, quando nós fomos embora, meu marido disse pra mamãe: “A senhora quer ficar com o retrato?” Ela disse: “Pode levar. Leve. Pode levar.” Como quem diz: “Já que vai levar minha filha, leve o retrato também.” E esse retrato acabou sendo a história da minha vida. P/1 – Certo. Dona Albertina qual o nome do seu marido? R – Ubirajara Ribeiro Campos. P/1 – Certo. Ele foi seu primeiro namorado e já se casou... R- Não, não foi meu primeiro namorado. Foi a maior emoção da minha vida, mas não foi meu primeiro namorado. Tive vários outros namorados. Casei aos vinte anos, comecei a namorar com quinze. Mas eram coisas ligeiras. P/1 – Na época de sua juventude, da sua adolescência, a senhora disse que frequentava muito as festas... R – São Paulo tinha festas maravilhosas. P/1 – É? E as músicas que tocavam, a senhora tem alguma recordação? O que tocou mais na senhora. Assim... R- Nós éramos da época dos Blues pras festas. Naturalmente o samba era no Carnaval. Agora a memória não tá ajudando muito, não estou preparada pra isso. Mas havia um programa de rádio em que você organizava o programa, você escolhia. E no dia que eu escolhi, eu lembro que escolhi Picolino. E tem outras músicas que ainda me falam muito, mas que eu não saberia dizer agora. P/1- E da música popular brasileira, a senhora não tem lembrança de nenhuma assim que tenha ficado? R- Tenho sambas de Carnaval, né. P/1 – Então, vamos falar um pouquinho do Carnaval agora? A senhora se fantasiava, ia no baile? R- Muito. P/1 – O Carnaval de rua como é que era? R- Uma que eu lembro, mas essa eu já não era tão pequena. [cantando] “Você sabe...”. Como era? “Cachaça, não é água não”. Não é? Tinha uma jardineira, parece. Tinha a mulher do padeiro. Tinham muitas músicas, mas assim de ... A primeira festa de Carnaval que eu fui foi em 1931. Eu fui fantasiada de Chapeuzinho Vermelho, como eu pus no meu relato. P/1 – Quantos anos a senhora tinha? R- 1931, eu nasci em 26. P/2 – Cinco. R- É. E essa fantasia era realmente uma beleza. Tinha uma senhora aqui, dona Cristina que só fazia fantasias. Ela era linda. Ela tinha milhares de babados vermelhos. E mamãe era muito caprichosa. Então, tinha uma cestinha que ela mandou pintar de dourado e ela arranjou miniatura de garrafa de vinho, mandou fazer pão pequenininho para por na cestinha. O lencinho era de tafetá vermelho escrito vovó. Ela mandou bordar de dourado. E tinha um chapelão. Só o que não combinava era a cabeleira, que não se dizia tanto peruca, porque a cabeleira tinha tranças, era loura, não combinava nada com o meu tipo. Mas enfim, era como eu estava. E eu ganhei o primeiro prêmio na festa do Trianon, que embaixo tinha uma festa. E eu tenho poucas lembranças que eu era pequena, mas eu me lembro que pegaram e me levantaram assim e teve aquela ovação em volta. Quer dizer, não era assim uma passarela, nem um palco. E esse retrato, há dois anos atrás, saiu num jornal aqui em São Paulo, dizendo: “Carnaval do passado”. E uma amiga me mandou pro Canadá. Que estava junto comigo, uma prima que já é falecida que estava muito bonitinha também. Então eu dei esse jornal pra filha da minha prima, porque não conheceu a mãe nessa ocasião. Mas eu tenho fotografia. P/1 – A senhora chegou a frequentar os bailes no Municipal? No Teatro Municipal? R- No Municipal, eu fui depois de casada, no Municipal do Rio com o meu marido, que era muito bonito. Aqui talvez eu tivesse ido a uma matinê no Municipal. Mas eu me lembro mais das festas da Hípica, do Paulistano e do Harmonia. P/1 – Certo. Carnaval de rua era animado? R- O Carnaval de rua era animado, quando eu era menina, na avenida São João. Eu não peguei ainda o corço da Paulista. No meu tempo já era na avenida São João. Era muito agradável, nós íamos de carro aberto, punham os microfones na rua e depois era só gente conhecida, cê descia do carro pra jogar serpentina nos seus amigos. P/2 – Como a senhora andava aqui em São Paulo? Era com a sua governanta, né, antes de casar? R- Não o tempo todo, porque depois que eu fiquei moça, não andava mais acompanhada. P/2- Que a senhora andava, do camarão. R- Ah! Isso era quando eu era pequena, com a tata. Mas era pra passear quando eu tirava nota boa, porque automóvel pra mim não era novidade, porque todo mundo tinha automóvel na família, né. P/1 – Conta um pouquinho como é que era o bonde. Esse nome de camarão. R- Ah! O camarão, chamava camarão, porque era vermelho e era um bonde fechado e ele persistiu por algum tempo. Mas na Alameda Barão de Limeira tinha um bonde aberto. Mas eu quase nunca andava de bonde aberto. Eu ouvia falar. Os homens andavam, até meus tios todos que tinham automóvel, tudo iam porque o bonde era vazio, passava devagar. P/1- E naquele tempo, era assim, tinha catraca, como tem os ônibus, tem metrô hoje? Ou ... R- Não, não, o bonde aberto era aberto, você entrava e sentava no banco. Eu tenho impressão que o condutor, tenho quase certeza, o cobrador ficava em pé no estribo, porque tinha estribo e vinha cobrando das pessoas. E no camarão só pagava quando descia, por isso eu gostava de passar a tarde inteira porque só pagava uma vez. P/1 – Então, a senhora ficava passeando pela cidade de São Paulo? Aqui no centro. R- Nós dávamos uma volta, duas voltas, três voltas e a tata concordava com tudo. P/1 – [risos]. P/2 – [risos]. P/1 – Fazia suas vontades a sua governanta? A senhora deveria gostar muito dela... R- Ela que gostava muito de mim. P/1 – É? A senhora era bem afeiçoada a ela, né? R- Até hoje eu tenho contato com a família dela. A sobrinha dela no interior até falei no telefone na semana passada. Elas me agradeceram o presente de Páscoa que eu mandei. P/1 – E como ela veio morar, veio se agregar a sua família, cuidar da senhora... Conta um pouquinho dela. R- Eles eram de uma família muito fina de Serra Negra. O pai dela era fazendeiro. O avô era fazendeiro, o pai morreu muito moço e eles então...essas atrapalhações de família não foram adiante. Tanto que ela tem um primo que é um pintor muito bom que assina Serra Negra. Mas o nome dele não é Serra Negra, o nome dele de família é Abreu. Ele prá fazer charme de pintor assina Serra Negra. Ele pintou uma igreja lá em Serra Negra. Mas a tata era professora substituta, gostava muito de crianças, sempre foi solteira. Morreu com 85 anos. Então eu sou uma mulher privilegiada porque quando eu fiz 60 anos eu ainda tinha a tata. A enfermeira da minha neta, falou: “Ué, vovó ainda tem tata?”. P/1 – E qual o nome da tata? R- Ana. Ela se chamava Ana. P/1 – Ana. R- Mas acontece que ela escrevia cartas lindas, ela era professora substituta, ela tinha uma letra linda e ela queria saber tudo que acontecia comigo. Depois de casada, assim, eu dei um jantar, servi isso, servi aquilo. Não sei o que. Mas o irmão dela que era mais moço, que foi copeiro da minha mãe, que já estava na casa da minha mãe quando eu nasci na Barão da Limeira. O irmão dela foi se empregar de copeiro e depois eles descobriram que ele era de família boa. Mas ele disse que eles ficaram sem nada e antigamente não tinham tantas ofertas assim. E ele teve um gesto muito nobre porque a irmã estava estudando e ele não quis interromper os estudos da irmã. Então ele foi se empregar de copeiro. E depois ele nem ligava, porque ele servia em todas as festas em São Paulo, conhecidas. Ele ficou assim mesmo. Eles eram pessoas de um nível muito bom. E ele era do lado da família da minha mãe. Mas quando meu avô ficou cego, esse meu avô paterno, minha mãe pediu pra ele ser empregado particular para o meu avô, pra ajudar. E quando o João, que era nosso copeiro, estava trabalhando na casa de mamãe, ele falou: “Eu tenho uma irmã que gosta muito de criança”. E daí a tata entrou na nossa vida. P/1 – Então, ela era assim a sua acompanhante, pra todo lugar que a senhora ia... R- E fazia barbaridades... P/1 – Que barbaridades? [risos]. R- Barbaridades, porque eu já estava casada com filhos, a minha filhinha era doente, tinha meu nome. E eu estava morando numa casa alugada enquanto construía a minha e eu sempre gostei muito de gente, de visita, de convidar. E fui para o Rio de Janeiro, convidei embaixadores pra jantar lá em casa e ela telefonou para minha mãe e disse: “Olha dona Carmelita, Betina...”, como ela me chamava, “Betina, imagine, convidou embaixadores para jantar, nós estamos sem cozinheira e a Albertina está doente.” Mamãe disse pra ela: “Você não venha me queixar não, Ana Maria. Porque a culpa é só sua, porque ela sabe que você resolve tudo por ela, por isso que ela faz. Se ela soubesse que você não resolvia, ela não fazia.” E de fato, eu sabia o que estava fazendo porque ela fazia tudo maravilhoso. Ela foi governanta de casa, ela cozinhava que era uma beleza, ela arrumava a mesa que era uma beleza, ela cuidava de criança que era uma beleza. Então era assim: “Ela inventa porque sabe que você faz, por isso não venha me reclamar”. P/2 – Foi seu anjo da guarda, né? R- Ela ainda fez um vestido de crochê pra minha neta, igual para boneca da minha neta. P/1 – Ah que lindo! P/2 – Nossa! Que xodó. Nossa que lindo. P/1 – A gente gostaria de saber agora, assim, entrando na fase do seu casamento. Como foram os preparativos, o seu pai e a sua mãe aceitaram. Lógico que colocaram aquela objeção quando vocês estavam no hotel pra ele poder sair... R- Isso foi na ocasião da minha mãe... P/1 – Da sua mãe... R- A minha mãe disse que quando meu pai falou que queria casar com ela, a minha avó disse que ele não podia ficar no mesmo hotel... P/1 – Ah sim! Não era a senhora... R- Não, isso era coisa de muitos anos. Que ele não podia ficar em Caxambu, no mesmo teto, no hotel. P/1 – Agora me lembro. R- Eu quando me casei não tinha mais pai, porque meu pai morreu quando eu tinha 12 anos. E minha mãe preparou, organizou tudo como pode. Não era uma coisa exagerada, porque mamãe era muito contra esses exageros que fazem hoje, que convidam mil pessoas, pessoas que você conhece de cabeleireiro, muita gente de cruzar na rua. Você convidava as famílias que eram mais amigas, que frequentavam a sua casa. Era uma coisa mais discreta. Mas foi tudo muito bonito. O vestido era muito bonito, feito pela melhor costureira de São Paulo que se chamava dona Maria ____. Ela punha a gente em pé em cima da mesa pra arredondar o vestido. Eu tive como dama de honra, uma grande amiga minha, vizinha da avenida Angélica de quem eu sou amiga até hoje. P/1 – Qual o nome dela? R- Maria de Lourdes. Ela era Camargo, depois ela estava casada com o Sérgio Bardella. Nós somos amigas desde 1936. Até hoje, nos falamos duas ou três vezes por telefone. Ela foi minha dama de honra, ela estava linda com um vestido muito bonito, todo branco, mas a parte de baixo tinha três listras: azul claro, rosa claro e amarelo claro. Quer dizer, a saia. Depois tinha várias saias de organza por cima. Então quando ela andava parecia um vidro de perfume. Com uma grande capelini. E foi o cardeal que fez meu casamento na igreja do Coração de Jesus. Eu tenho um filme do casamento. P/1 – A senhora se lembra do nome do cardeal da época? R- Sim, pois ele rezou minha missa de bodas de prata. Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos e Silva. P/1 – Mota. R- Mota. Ele fez o meu casamento e vinte cinco anos depois ele rezou uma missa na Aparecida porque estávamos morando lá, de Ação de Graça nas minhas bodas de prata. P/1 – Certo. E a data do seu casamento? Exatamente. R- 11 de dezembro de 1946. P/2 – A senhora tinha 20 anos, quando se casou. R- Eu fiz 21 anos um mês depois. Nós fomos para Buenos Aires e voltamos pra passar os 21 anos aqui na casa de mamãe. P/1 – Então, quando a senhora se casou, a senhora foi morar aonde? Em que bairro aqui de São Paulo? R- Então, Jardim Paulista, na casa da minha mãe, na rua General Mena Barreto, esquina com Henrique Martins. P/1 – Ah, certo! R- Hoje é um prédio, estilo francês. P/1 – A senhora passou lá quanto tempo? R- Cinco anos. P/1 – Daí a senhora foi? R- Daí aluguei uma casa no Itaim enquanto construía a minha na rua Jacarezinho. E foi em nossa casa no Itaim que também faltava água, que eu quis dar esses jantares que a tata se queixou, mas deu conta muito bem. P/1 – Quer dizer que a tata acompanhou. Assim que a senhora se casou, ela foi ... [risos]. R- Ela resolvia tudo. P/2- E quando nasceu seu filho João Pedro, a senhora morava com a sua mãe. Foi o primeiro neto dela? R- Primeiro neto. P/2 – Conta mais um pouco do seu irmão. R- Meu irmão me queria muito bem, fazia muito minhas vontades. E como eu lhe disse, ele tinha 7 anos quando eu nasci. Então meu pai tirou um retrato meu no jardim quando eu era bebezinho. Foi meu primeiro retrato, porque você sabe que naquele tempo, naquele tempo, 1926, não tinham aparelhamentos tão bons assim pra amadores tirar dentro de casa, essas coisas. Então, o primeiro dia que eu pude sair no jardim estava sol, então o meu irmão pôs a mão assim que era pro sol... Eu admito, eu vi esse retrato que ele tá com a mão assim, protegendo, pra me proteger do sol. Então, eu digo que ele começou naquele retrato e a vida toda, ele sempre quis me proteger. Ele me queria muito bem e eu o queria muito bem. Nós tínhamos o gênio completamente diferente. Tínhamos um modo de pensar, em várias coisas, completamente diferente. Então, nós até achávamos graça, porque um contava pro outro o que queria fazer, mas já sabia de antemão que o outro não ia aprovar. Mas contava. P/1 – [risos]. R- E depois eu fui pro Canadá e eu estava lá quando fui chamada que ele estava mal, teve um problema de coração. E quando eu cheguei aqui, infelizmente ele já estava em estado de coma. Isso vai fazer agora, dia 14 de junho, cinco anos. P/1 – Ele faleceu acometido por qual doença? R- Pois é, ele tinha uma pequena coisa no coração e parece que alterou a parte respiratória. Mas ele era viúvo da primeira mulher, Maria Helena (Quartin?) Barbosa. Depois ele casou uma segunda vez, com Raquel de Toledo Pisa, mas os quatro filhos são do primeiro casamento. Meus sobrinhos queridos que até hoje acompanham a minha vida, sendo que o mais velho que é meu afilhado veio de surpresa almoçar comigo no dia das mães. P/1 – Ai que lindo! R- Então, quero muito bem a eles Só tenho uma sobrinha mulher que era afilhada do meu marido. Meu marido gostava muito. Quero muito bem aos meus sobrinhos, todos. P/1 – Certo. A senhora disse que tinha 12 anos, dessa questão, dessa fatalidade na sua vida, a morte do seu pai. Ele veio a falecer de que? R- Meu pai tinha pressão alta, devido ao mau funcionamento dos rins. Ele tinha 48 anos quando ele morreu. E ele foi pros Estados Unidos, para Mayo Clinic nos Estados Unidos, que foi onde descobriram a minha paralisia, porque até então, ninguém sabia o que tinha acontecido comigo. Eu tive um febrão em outubro, pensaram em pulmão, fizeram uma radiografia, mais isso e aquilo, mas não era pulmão, daí passou, acharam que não tinha mais nada, era uma gripe forte. Daí nós fomos para os Estados Unidos e meu pai foi, quando falei daquele cartão que o carteiro entregou direto pro professor de inglês. Fomos pra Mayo Clinic para meu pai fazer uma operação que se fazia na ocasião, que cortava uma veia dos rins ao coração para que o mau funcionamento dos rins que ele tinha não afetasse o coração. Mas ele chegou lá, não pôde fazer a operação porque o estado já era muito adiantado e o médico disse que não era possível. Então, estavam se preparando para voltar ao Brasil. Meu pai era uma pessoa muito otimista. Eu tenho carta dele, escrevendo para Edmar de Barros que era nosso interventor, ele depois da operação se fosse bem sucedida, ele ia representar o Brasil no pavilhão do DNC na exposição de São Francisco. E eu ia pra um daqueles colégios de meninas, daqueles colégios internos que eu me lembro que veio o catálogo, uma beleza, as meninas passeando de bicicleta, o uniforme era lindo. Ai, meu pai teve um derrame e faleceu na Mayo Clinic, então nós voltamos pro Brasil. P/1 – Então, ele veio a falecer no exterior? R- Nos Estados Unidos. Mas foi lá nos Estados Unidos que assim que ele chegou e começou a fazer os exames que eu também fui fazer os meus que descobriram que o meu desvio era disso. Daí nós voltamos pro Brasil e minha mãe não falava inglês, falava só francês porque ela morou em Paris muito tempo. E eles levaram um secretário americano para fazer a parte do inglês. Meu pai falava inglês, mas ele estava doente. Mas acontece que esse secretário como bom homem de negócio, quando viu que meu pai morreu e que ele estava nos Estados Unidos, ele resolveu ficar. E minha mãe só soube que ele não vinha quando estava dentro do navio. Eles tinham um contrato com esse secretário porque naturalmente, eles pagaram a viagem e uma quantia para ele. Ele tinha que trabalhar pra minha mãe até dia 14 de janeiro, para meus pais que na ocasião meu pai imaginava de já ter sido operado e ter voltado a vida. E nós chegamos aqui em São Paulo parece que no dia 6 ou 7 de janeiro, portanto chegamos uma semana antes do tempo que ele tinha obrigação. Disseram pra minha mãe que ela podia questionar, mas questionar o quê, meu pai já tinha morrido, nós já tínhamos chegado, ela já estava tão contrariada. Então, ele que foi para se encarregar de tudo, avisou pra mamãe que não vinha. Então, o navio era um navio inglês e quem cuidou de todas as coisas fui eu com 12 anos, porque acontece que as comunicações eram péssimas, não havia telefone e os telegramas chegavam todos truncados. Quando nós paramos em Recife, meu irmão já havia escrito pra amigos que foram nos esperar, tinha até uma carta do meu irmão lá e assim que nós chegamos no Rio de Janeiro, meu irmão entrou a bordo pela lancha da polícia, antes do navio ancorar. E mamãe era da família Aranha, prima do Oswaldo Aranha, o chanceler Oswaldo Aranha que mandou o governo recomendar. Então, o cônsul de Nova York foi a bordo e disse ao comandante que papai era recomendado pelo governo do Brasil. Então quando chegou em Santos, o caixão de papai foi suspenso com a bandeira brasileira no guindaste com aquele toque fúnebre que fazem e desceu no cais do porto de Santos. E no cais do porto de Santos tinha essa companhia que era do meu avô, junto com os filhos. Chamava-se Companhia Internacional de Armazéns Gerais. Era uma Sociedade Anônima. O meu avô era o maior acionista, mas os filhos também eram acionistas e meu pai foi diretor por muitos anos. Depois ele tinha cedido o lugar para uma outra pessoa que precisava e minha avó descendente de alemães era muito formal, então o cais do porto estava a bandeira a meio pau, nesse armazém e os empregados da companhia... Eles eram empregados que carregavam saca de café, então eles estavam do jeito que eles usam, mas todos com (fumo?) no braço, porque minha avó era descendente de alemães e os alemães usam muito. E o cais do porto estava repleto de amigos nossos, todos de luto fechado, era janeiro, um calor horroroso e daí desceu o caixão do meu pai e veio em trem especial que já estava lá no desvio que essa companhia tinha desvio. Veio para São Paulo na estação da Luz. Chegou aqui na estação da Luz, também tinham muitos amigos lá e foi enterrado na Consolação. Não havia mais terreno na Consolação para vender, o prefeito Prestes Maia mandou fechar uma rua pra fazer a sepultura dele, porque não havia mais terreno para vender. Agora eu acredito que haja, porque as pessoas se desfazem. Tanto que atrás do túmulo dele fechou uma rua e tem uns acessos, atrás. Foi uma coisa horrorosa, até hoje me marcou a morte do meu pai aos 12 anos, nessas circunstâncias e ele me fez muita falta. P/1 – E falando nessa falta que o pai da senhora fez, a relação entre a senhora, seu pai e a sua mãe, a senhora era mais próxima do seu pai, ou mais próxima da sua mãe? A senhora tinha afinidade com quem? R- Não é que eu fosse mais próxima do meu pai, ele que era mais próximo de mim. Porque fazia tudo que podia por mim. E você sabe, mãe é mãe, e foi ela que teve a maior parte da nossa educação. Mas papai era muito alegre, trazia muita alegria pra dentro de casa, gostava de tudo. O estilo de vida mudou muito, inclusive financeiro. P/1 – E depois, a vida de vocês, como é que ficou sem o seu pai? R- Nós conseguimos ser sempre muito amigos, sempre empenhados os três com as coisas que nos aconteciam. P/1 – Certo. A senhora tem um filho de nome Pedro? R- Não, João. Que era o nome do meu pai. P/1 – Ah, certo! E além do João a senhora teve mais algum filho? R- Tive uma menina que morreu com 7 anos. P/1 – Acometida de que? R- Ela nasceu asfixiada, então ela tinha um problema. E como tudo pra mim tem que ser meio trágico, ela morreu no avião da Varig, no céu do Rio de Janeiro. Porque ela foi pros Estados Unidos fazer recuperação, depois que ela piorou me chamaram, eu fui buscá-la e quando nós vínhamos voltando com ela, ela faleceu. P/2 – O que que ela teve? A senhora disse que ela ficou vários anos doente. R- Sete anos. Digo doente no sentido de que ela não andava e não falava. Como ela nasceu asfixiada, ela ficou com a parte motora afetada. E nos Estados Unidos tinha esse hospital que fazia a recuperação. P/2- Qual era o nome dela? R- Maria Albertina. Nós a chamávamos de Maria Albertina. Foi escolha do meu marido. P/2 – Tá certo. E seus tios? Fale um pouco dos seus tios. R- Ah, eu tenho sempre muitos tios de todos os lados. Do lado da minha mãe, como eu disse, na Barão de Limeira, eu era a caçulinha da família, então eu era mimada não só pelos tios, como pelos primos, porque todos eram mais velhos. A minha mãe tinha uma irmã casada com um Bandeira de Melo, sou muito amiga até hoje, ainda são da minha família, os descendentes. Esse meu tio, morava vizinho, foi quem me levou ao altar quando eu me casei. Ele era Bandeira de Melo, ela era irmã de minha mãe. E eles tinham tido uma filha que morreu na infância. Então, eles só tinham dois filhos homens. Então faziam mil agrados pra mim. Depois na outra esquina morava uma tia, tia Carmem. Ela era a prima do marido que era irmão de mamãe. E ela era uma pessoa muito comunicativa, muito alegre, muito disposta, gostava também de criança e a filha dela já era moça e eu ia todas as manhãs fazer as unhas de tia Carmem. Agora você imagina, todas as manhãs, uma criança cheia de ferramentas. Mamãe dizia: “Eu fico boba de ver a paciência de Carmem”. E uma vez eu fui ao cabeleireiro com a mamãe e ela estava lá fazendo as unhas. Eu fiquei furiosa porque ela estava corrigindo o meu serviço. Eu sou amiga até hoje, da filha e da neta, das netas dela. Depois tinha um... Esses moravam vizinhos. Um outro tio que não tinha filhos, mas que também era muito gentil, mas ele morava mais afastado. E tinha a governante da casa da minha avó, que era uma senhora italiana que criou a minha mãe que foi minha madrinha de Crisma que se chamava Marieta, que nós chamávamos de Eta, a quem eu queria um bem muito grande. Foi uma espécie de avó também. E do lado do meu pai, meu pai também tinha vários irmãos. Tinha o caçula, a viúva dele está viva até hoje. Fez 95 anos, agora em fevereiro. Ele custou muito a ter filho, tanto que o filho dele era mais moço que os nossos. Do que os meus e os das minhas primas. E eu tinha primos irmãos, Bandeira de Melo e Aranha dessa minha prima, que eu fazia as unhas da mãe dela. Meu pai tinha esse irmão mais moço, chamava-se Plínio de Castro Prado. Ele fazia parte da Hípica. Ele gostava muito de montar cavalo. Naturalmente, como todos da família, tomava conta de fazendas. Mas ele jogava polo. E depois tinha minha tia Lilian que se casou com o engenheiro Zózimo de Abreu. Parente do senador César Franco. Ele era engenheiro e foi diretor dessa companhia do meu avô, em Santos, essa de Internacional que meu pai era diretor, mas que depois ficou pra ele quando ele se casou e porque meu pai cuidou de outras coisas. E tive um tio, Cid de Castro Prado, que foi deputado federal. Que era muito viajado, falava várias línguas, gostava muito de viajar. E a esposa dele, apesar de ser minha tia por afinidade, me queria muito bem. Me queria um bem enorme. Ela tinha três filhas moças, mas ela sempre me agradou muito, sabe? Sempre gostou que tudo desse certo pra mim. Queria um bem enorme. Depois tinha a irmã mais velha do meu pai que se chamava Zuleica, mas ela casou-se mais tarde com um médico. Que aliás, nós gostávamos muito, mas eu tinha pouco contato porque ela viajava muito. Ela não teve filhos. P/2 – Nossa! Fala um pouco do seu marido. R- Pois é, como disse pra você, meu marido tinha uma diferença grande de idade minha. Acho que por isso, talvez, ele fizesse muito minhas vontades. Dizem os psicólogos, o fato de eu ter perdido meu pai criança, talvez, por isso eu tivesse escolhido um homem mais velho, porque eu tive outras oportunidades que não me interessaram. E ele veio pra São Paulo que ele morava no Rio, mas ele era uma pessoa de muito bom senso, então ele disse: `Em geral, é a mulher que acompanha o marido. Mas o Rio de Janeiro não é a minha cidade. A minha cidade é Recife. O Rio de Janeiro, eu vim pro Rio de Janeiro. Então, não vou tirar a Maria Albertina do convívio familiar dela, pra trazer pro Rio que eu não tenho o meu pra oferecer.” Então, ele resolveu vir morar em São Paulo. Morou em São Paulo. Trabalhou. Ele era corretor, mas antes ele foi diretor de uma firma que se chamava Cipava que fazia negócios imobiliários. Tem até hoje o Jardim Cipava em Osasco. Depois ele ficou no escritório dele na Avenida Paulista. Ele era corretor, mas assim, vamos dizer, um pouco especializado, o que eles chamavam de freelancer. Sempre que uma pessoa chegava e dizia assim: “Olha eu preciso de um terreno pra minha fábrica em tal lugar”. Fazia assim coisas mais especializadas. Não é esse tipo, anúncio de apartamento e coisa. E ele gostava muito de artes, como eu falei ai, do museu que nós fomos. Ele era amigo do professor Bardi desde a fundação do Museu de Arte em São Paulo. Acompanhou muito e depois foi até do Conselho, como eu falei naquele meu relatório. E ele participava muito dessas reuniões todas de arte. Fundou a Sociarte que é uma sociedade aqui em São Paulo que foi feita sem fins lucrativos, para proteger o artista. Porque as galerias, as donas de galerias, onde eu tenho muitas amigas que me perdoem, mas as galerias ficavam com grande parte do lucro do artista. E a Sociarte promovia exposições onde o artista tinha mais chance. Justamente quando inaugurou o museu na Avenida Paulista que foi inaugurado pela rainha da Inglaterra como ele era do Conselho e os outros todos, nós todos fizemos parte de uma ala de casais. Estávamos com capelins, chapéus grandes, luvas altas. Ficamos ali, fazendo a cerca, vamos dizer, pra rainha passar, com o marido dela e o governador Sodré e a senhora dele, dona Maria do Carmo. Então, são lembranças boas. Fizemos bodas de prata, demos um grande baile no Jockey Clube, porque meu filho havia ficado noivo na véspera. Casamento de muito gosto, uma família toda, muito nossa amiga que passou a ser desde então, uma segunda família minha. P/1 – Sei. P/2 – Nessa época a senhora já fazia algum trabalho voluntário? R- Ah! Desde menina. Quando eu era mocinha, eu trabalhei na Cruz Vermelha durante a guerra. Eu organizava as festas em benefício da Cruz Vermelha. Essa parte que eu conheço, essa parte mais social. Fizeram uma exposição de bonecas, que a Estrela deu as bonecas de presente. A Estrela estava começando. Fizeram uma exposição de bonecas em benefício da Cruz Vermelha. E a gente tinha que pedir para as pessoas apresentarem bonecas. A -------- , por exemplo, deu bonecas riquíssimas, todas bordadas e com trajes riquíssimos. E mamãe contratou uma costureira em casa e nós imaginávamos e vestíamos as bonecas. Porque a Estrela deu as bonecas comuns, estavam vestidas, era aquela coisa padronizada. E eu me lembro, fizemos uma baiana. Fizemos bonecas muito bonitas [risos]. P/1 – E como se chamava a Associação... Chamava não, chama, porque a senhora participa até hoje, né? A Associação do trabalho voluntário, do trabalho social que a senhora faz. R- É o seguinte. Chamava-se Obra de Preservação dos Filhos de Tuberculosos Pobres. Depois eles acharam que não ficava elegante, tiraram os Pobres. Era um preventório na cidade de Bragança, onde a viscondessa de Campinas, a muitos anos atrás, com várias amigas, das quais fazia parte a minha avó materna, fundaram essa organização. Eles pegavam os filhos de tuberculosos, levavam pra lá e criavam. Nunca houve contágio. Não teve contágio nenhum. Os pais tinham direito de visitar os filhos e era uma beleza. Eu visitei lá várias vezes, tinha plantação, ensinavam marcenaria. Mas depois o terreno foi desapropriado e coincidiu que o governo achou que não devia mais morar lá, porque a tuberculose hoje em dia, já não é mais uma coisa tão grave. Então, fecharam tudo e agora, nós temos aqui um posto aqui em São Paulo que é um posto de atendimento. Os tuberculosos ficam na casa deles, recebem os remédios que são doados por uma organização aí. Mas eles têm um posto de atendimento, com uma monitora e uma caminhonete que vai visitá-los em casa pra saber se eles estão tomando o remédio direito. Porque diz que se você não tomar o remédio direito, no prazo, tudo direito, aquilo fica crônico. E também, se estão comendo o que nós damos da cesta básica, se não estão vendendo prus vizinhos os mantimentos. Então tem esse controle, mas lá é muito bonito, fizeram festa de Páscoa, tem o dentista que vai uma vez por mês, sabe? Atendimento. Até eu telefonei pra ela semana passada pra ela mandar uma carta para uma fábrica de lã, se mandar que eu faço o tricô, eu faço pra eles. Eu estou fazendo agora para Liga das Senhoras Católicas porque eu moro no hotel pertencente a Liga das Senhoras Católicas. E nós ganhamos... Eles compram lá. Esse serviço do meu colégio que era o Colégio Assunção que mantém também um asilo que no meu aniversário até eu fui visitar, eles ganharam 800 novelos de lã do Cotonifício Jorge. Então, eu fiz uns cachecóis, mas agora estou me aventurando a fazer um suéter. Vamos ver o que dá. Eu já fiz, mas a muito tempo. P/1- [risos]. Essa obra social, ela é vinculada a alguma instituição aqui em São Paulo? Ela foi fundada por quem? R- Você quer falar do Colégio? P/1 – A obra social dos tuberculosos. R- Ah, os tuberculosos! É tudo registrado com aqueles médicos que me falta o nome agora que combatiam a tuberculose. Considerado órgão oficial, essas coisas, decretos e tudo. P/1 – É que a senhora tinha falado alguma coisa das ex-alunas do Colégio. R- Essa é outra obra. A outra obra se chama AME – Associação Madre Maria Eugênia. É uma obra fundada, essa já é bem mais recente, das antigas alunas do Colégio Assunção. Ela também mantém uma creche, também mantém um asilo. E foi esse asilo que eu visitei no meu aniversário. P/1 – Ah, certo! Então, desde jovenzinha, a senhora se dedica ao trabalho voluntário, ao trabalho filantrópico. R- Ah sim, porque você sabe, mocinha a gente compartilhava festas em benefício... E depois eu tinha muitas amigas que eram diretoras, por exemplo, da Liga das Senhoras Católicas, eu tinha muitas amigas. Eu ajudava elas. Eu trabalhei um pouco na correspondência, tudo. Mas eu não podia fazer demais, porque fiz a vida inteira muitos tratamentos por causa do meu problema físico. Agora que eu não estou fazendo porque tive que fazer uma operação, pus uma prótese e agora o ortopedista não quer. Agora não estou fazendo os exercícios. Antes, no meu tempo, era mais de papelada, de telefonar pedindo. Essas coisas. P/1- E agora a senhora fica assim, num trabalho mais artesanal de preparar, por exemplo, os suéteres... R- De correspondência, porque eu adoro papelada pra eu arrumar. P/1- [risos]. A senhora gosta de escrever. R- Gosto de escrever assim, de organizar, classificar. Que eu trabalhei no fichário do Padre Sabóia, classificar. E trabalhei quando meu filho estava no Colégio Santa Cruz, também na Fundação Santa Cruz. P/1 – Ah, certo! E falando no seu filho, o João, como era assim, o dia a dia da senhora com o seu filho. A senhora o levava ao colégio? R- Eu não, nunca dirigi automóvel, quem levava pro colégio era o meu marido e eu gostava de dormir de manhã. P/1- [risos]. R- Mas eu estava em casa sempre às cinco horas quando ele chegava e recebia os amigos deles todos lá. Muitos dos quais hoje são executivos de muito nome e que eu quero muito bem. P/1- E o João era um bom aluno? Um bom filho, ele era... R- Ele era maravilhoso. Ele entrou no Colégio Santa Cruz entre os 10 primeiros e teve sempre as primeiras notas, mesmo lá no Canadá. P/1 – Ah, certo! E ele hoje, ele é um alto executivo? R- Bom, nós estamos chegando do Canadá há pouco tempo, a situação aqui não está garantindo fazer muita coisa, mas lá quando nós fomos pra Vancouver, ele foi diretor de duas companhias, todas muito importantes. Aqui ele teve uma imobiliária na Avenida Europa, na ocasião que ele se casou, que se chamava Demolan Campos. Tinha 40 corretores trabalhando lá. Mas antes disso, ele assim que se formou, trabalhou numa firma que se chamava Univest, aqui. Uma firma que se chamava Univest que era uma corretora, uma das maiores de São Paulo. Ele era mocinho, era assistente da Diretoria. Mas depois o dono da Univest teve um problema de coração e fechou a Univest. Então, daí é que abriram essa imobiliária, porque o dono queria fazer alguma coisa, que era na Avenida Europa, numa casa muito bonita. Hoje até é o escritório dos Diniz. Depois no Canadá, ele ocupou esses lugares e depois nós estamos apenas chegando aqui, faz um pouco de medo se meter em uma iniciativa. P/1- De se aventurar, né? P/2 – E como foi a sua ida para o Canadá? R- A minha ida para o Canadá foi muito fácil. Eu era viúva, não tenho filha, não tenho irmã. Naquele tempo, ainda tinha meu irmão. Eles disseram que iam morar no Canadá, não tinha escolha. P/2- Quanto tempo a senhora ficou lá? R- Sete anos. P/2- E como era seu dia a dia lá? R- Ah, meu dia a dia lá era muito bom. Porque pra começar nós não tínhamos empregada, quem cozinhava era minha nora que cozinha muito bem. Eu não cozinho muito bem, mas o que eu faço, eu faço de gosto. Então, eu ajeitava um pouquinho e trabalhava na igreja católica, no serviço que nós fazíamos de artesanato. Outras coisas também. Lá tinham reuniões. As coisas que elas achavam que estava de moral, nós combatíamos. Uma vez foi engraçado, nós mandamos uma carta pra uma pessoa do governo, lá muito influente, censurando uma coisa que estava errada e ele respondeu: “Eu acho que as senhoras têm toda razão. Isso está erradíssimo, mas eu gostaria que as senhoras me dissessem qual é a solução que a senhora tem pra isso.” [risos]. P/1 – [risos]. R- Eu também tinha muitas amigas lá. Lá eles convidam muito. Eu tinha muitos convites para chá e também com minha nora organizamos muitas festas em benefício. P/1 – Mesmo lá no Canadá, a senhora continuava... R- Ah, lá mais ainda, porque lá nós éramos ligadas a Igreja e fazíamos bazares e também recebíamos muito em casa porque todo brasileiro que ia lá que nos conhecia né? P/1- [risos]. E a senhora gosta muito dessa coisa de receber. R- Ah, gosto! P/1 - Sempre rodeada de pessoas. R- É isso que eu sinto de estar lá no hotel da Liga porque eu tenho muita coisa bonita e eu gosto da minha casa, de receber. Quando eu tive esse apartamento, embora um ano só, eu já dei festa pra sobrinhos, hospedava afilhados. Mas enfim, tem fases na vida que a gente tem que se adaptar às circunstâncias, né? P/1 – Ah sim, correto. Deixa eu ver o que mais. P/2 – Porque a senhora... Ah, desculpa. P/1- Não, vamos falar do Canadá. P/2 – Porque seu filho resolveu voltar pro Brasil depois de sete anos no Canadá? R- Eu tenho a impressão que meu filho voltou mais porque a família inteira queria voltar. E o motivo de eu voltar tá escrito aí no meu f------ que eu disse, minha filha, que é um país maravilhoso, mas não é o nosso. É o que dizem os ingleses homesick. Mas eu não influi nessa decisão. Eu vinha para São Paulo em visita, sobretudo meus sobrinhos que tinham perdido os pais. Vinha passar três meses aqui e quando eu estava, por surpresa minha nora me disse que eles tinham vendido a casa e iam voltar pro Brasil. P/1- Ah, certo. E daí quando a senhora... Vamos falar um pouquinho da sua relação com a sua família, seu filho, a sua nora. A senhora tem netos? R- Tenho uma neta de dezessete anos que é uma grande amiga que foi ao teatro comigo a semana passada. P/1 – Qual o nome dela? R- Sílvia. Ela tem o nome da mãe. P/1 – Sílvia, né. E a sua nora, como ela é. R- Minha nora é um anjo. Eu não mereço a nora que eu tenho. Minha nora é uma bondade, um anjo, uma moça finíssima. Muito culta, muito amorosa, muito cumpridora de suas obrigações. Está casada há vinte sete anos com meu marido. Com meu filho. P/1- Quando a senhora veio morar aqui no Lar das Senhoras Católicas? No hotel aqui. R- Agora em outubro vai fazer dois anos. Mas não foi uma coisa escolhida assim por gosto. É que eu tinha acabado de fazer a operação de prótese e eu não podia nem ficar em pé direito. Para ser mais clara eu não podia nem calçar a meia sozinha e lá na Liga eles têm enfermeira 24 horas, é só tocar a campainha. Eu não tinha estrutura pra morar sozinha assim. Além disso, meu apartamento que era muito bonito que estava muito bem arranjado, era alugado e o dono tinha umas exigências que naquela ocasião, com tanta coisa pra resolver ao mesmo tempo, nós não tínhamos condições de aceitar. P/1- Certo e aí a senhora veio aqui... R- Aí entreguei o apartamento e fui pra Liga. P/1 – E como é seu dia a dia aí na... R- A minha vida é a mesma, porque eu não faço a vida da Liga. Eu tenho o meu telefone no meu quarto, eu tenho os meus compromissos, as minhas amigas, tenho um carro que trabalha pra mim. E continuo almoçando com as minhas amigas, passando o dia, fazendo a minha vida normal. P/1- Então, quer dizer que a senhora está lá rodeada de amigas. R- Ah bom! Amigas eu tenho desde que nasci, mas são as mesmas. Não são lá. Lá eu trato todos com muita cortesia, tem umas senhoras muito boas, até muito gentis, mas eu não me integro naquela vida lá, porque eu tenho a minha, né? P/2- Qual é o seu maior desejo? R- Bom, eu acho que eu não tenho um maior, eu tenho vários, mas... Uns eu não gosto de revelar. Eu acho que quando a gente quer muito uma coisa a gente não deve revelar até que consiga. Em termos de viagens que eu fiz muito, eu gostaria de conhecer o Egito, que eu não conheço. E outros eu prefiro guardar pra mim. Se acontecerem, daí eu te conto. P/2- Voltando pra questão de viagens, a senhora viajou muito, né? R- Muito não, mas bastante. Com 8 anos eu fui pra Argentina, foi a primeira vez que eu saí do Brasil. Com 12 anos eu fui pros Estados Unidos, como eu disse pra você e depois eu fiz várias viagens com o meu marido e com o meu filho. Quando o meu filho terminou o ginásio, nós fomos em dezenove lugares. Saímos pela costa da Califórnia, depois de lá fomos pra Europa. Fizemos tudo aquilo, Inglaterra, França, Espanha, Áustria, toda aquela volta. Itália, Espanha, Portugal, voltamos pra Nova York e para o México. Isso foi uma grande viagem que eu fiz quando meu filho se formou, de primário. Depois que meu filho estudou no Canadá, eu fui lá visitá-lo e sempre passava pelos Estados Unidos onde nós tínhamos amigos. Depois fiz outras viagens com o meu marido, inclusive essa que eu chamei de lua de mel da despedida que foi Espanha e Portugal, onde foi o casamento dessa princesa, filha de Dom Pedro, nosso príncipe de Petrópolis que foi um casamento maravilhoso e uma viagem muito boa, também. Para o Rio de Janeiro que nós íamos muito. O Rio de Janeiro no tempo que era Capital era uma coisa maravilhosa. Quer dizer, ele continua bonito, mas naquela ocasião havia muitas festas. Eu frequentei sempre muito o Rio. P/2 – Mesmo apesar de todas essas viagens, São Paulo era sua cidade. R- Ah, é, [risos]. P/1 – A gente percebe, a senhora é apaixonada por São Paulo. [risos]. P/2 - A senhora teve alguma decepção na sua vida? Alguma coisa que a senhora fez e que não gostaria de fazer novamente. R- Não. Se a senhora está levando pro lado de remorso, eu não tenho. Agora decepções eu tive muitas. Quem não as tem? Desapontamentos com pessoas que tiveram comportamentos que nos fizeram sofrer, mas eu prefiro não comentar isso. P/1 – A gente respeita. E no caso, o que a senhora espera da sua vida? Hoje, no ano 2000, mês de maio. O que a senhora vislumbra na sua vida? R- Eu acho que nessa altura da vida a gente tem que ser mais condescendente com os outros, com o comportamento dos outros. Abrir mão de certos detalhes, não fazer planos demais porque a estrada da frente não é tão grande assim. Viver a vida normalmente, né? P/1 – Certo. R- Sem pensar, sem ficar muito afeita ao passado. Tenho boa memória, eu tenho alegria, mas eu fico satisfeita. Fui ao teatro com a minha neta, pra mim foi uma noite maravilhosa, conversamos, trocamos ideias. P/1 – E sonhos assim, a senhora chega a sonhar, a senhora não idealiza nada? R- Eu sonho muita coisa, mas eu não quero revelar [risos]. P/1 – Tá bom. P/2 – Qual sua maior qualidade? R- Eu não tenho nenhuma. P/2 – A senhora não se classifica, isso eu sou... P/1 – Uma autoavaliação. R- A única coisa que eu digo sempre é que entre meus defeitos, não está a ingratidão. Quando uma pessoa me faz um bem, uma gentileza, um favor, eu sei ser grata. P/1 – Eu diria pra senhora, geralmente a gente não pode opinar, mas eu diria que a senhora é uma pessoa muito solidária. Só de ouvir... R- Ah, sim. Solidária sim. P/2 – Tem facilidade nos relacionamentos, porque é muito social, flui assim, né. P/2 – Eu acho que ... P/1 – A gente gostaria de saber a sua opinião, a respeito do nosso convite, a respeito da senhora ter sabido do museu da pessoa e hoje especialmente, a senhora tá aqui conosco, dando o seu depoimento. R- Bom, quem me falou sobre isso foi o meu filho, como eu lhe disse. Eu acho que ele viu na internet e ficou muito encantado com aquela história da lavadeira que levava roupa pra lavar, na Alameda Barros, porque eu conhecia a Alameda Barros, asfaltada e iluminada, porque justamente, entre a Alameda Barros e a Baronesa de Itu que era nossa casa da Avenida Angélica. E era virando por ela que eu via as iluminações como eu disse no meu relato, que eu dizia: “Eu acho que o céu é como a Avenida Angélica”, porque nós vínhamos de uma iluminação de gás e passamos pra essa elétrica. Então, eu não estava nem entendendo muito bem o que que eu vinha fazer aqui. Me interessei porque eu gosto de São Paulo, gosto de história, de lembranças. Muitas amigas já me disseram que eu deveria escrever um livro. Mas eu não acho que a minha vida vai interessar para as pessoas. Agora, não deixa de ser uma forma, essa gravação. Então, eu gostei imensamente, achei a senhora muito simpática, estava desolada de saber que a senhora tinha me passado para outra pessoa. Fiquei feliz que isso tivesse acontecido, estou muito contente de estar aqui. E estou às ordens de vocês, se eu puder ser mais útil sobre São Paulo antiga, como eu disse, fotografias, gravuras e mais coisas que vocês precisarem, que vocês me digam. P/1 – Sim, a gente gostaria muito porque tudo que diz respeito a história, interessa ao Museu da Pessoa. Então, a gente vai continuar mantendo os nossos contatos. E nós temos aqui um equipamento, onde a gente recolhe o material da senhora, os documentos e a gente faz, a gente vai escanear. A gente faz a cópia do documento aqui e depois a gente devolve o original pra senhora. A gente vai querer sim que a sua entrevista seja acompanhada de algumas fotos, de algum material que a senhora tenha. Certo? Não sei se a senhora gostaria de falar mais alguma coisa? P/2- [risos]. Então, a gente só tem a agradecer a senhora, dona Albertina, a gente ficou muito feliz com a senhora aqui, sabe.... R- Eu que tenho que agradecer essa oportunidade. Foi diferente. P/2 – Muito obrigada, por conhecer a sua história, de ouvir a sua experiência. P/1 – A gente vai tentar entrar em contato com a direção lá do seu hotel, lá das senhoras católicas e vamos tentar fazer um trabalho pra ver se a gente envolve um número maior de pessoas. E ai, como a gente tem o caso da dona Zoé que é um caso, que ela tem dificuldade de se locomover, provavelmente tenha outras pessoas nas mesmas condições e a gente gostaria de tá desenvolvendo um trabalho lá, assim de memória com vocês. P/2- Obrigada. P/1 – Obrigada, uma boa tarde pra senhora. P/1 – Dona Albertina, nós estamos chegando ao final da nossa entrevista, a senhora teria mais alguma coisa pra falar? Como a senhora gostaria de se despedir. R- Eu termino esse meu rememorar, fixando meu pensamento no meu filho, o sustentáculo moral de nossa família e minha nora, essa moça que por suas imensas qualidades enfeita nossa vida nesses anos todos. Agora pondo um laço cor de rosa em minha imaginação, vejo minha neta de 17 anos, hoje uma grande amiga. Num elo de recordação, retrocedendo aos anos, chego a sua infância, quando alegrou com seus encantos os dias ainda entristecidos de minha recente viuvez. Assim, eu falei da família inteira. --- FIM DA ENTREVISTA ---
Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+