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História

Revolta, rock e propaganda

História de: José Carlos Minervini
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/10/2011

Sinopse

Em seu depoimento, José Carlos Minervini fala sobre sua família de origem italiana e suas brincadeiras de infância, além dos bailes e cinemas na adolescência. Conta sobre seus trabalhos na área de Propaganda e Marketing e como lançou diversos artistas e marcas com seu trabalho. Aborda também sua militância na Legião dos Revolucionários durante a ditadura militar e do seu contato com o movimento cultural dos anos 60 em São Paulo, como a Jovem Guarda.

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História completa

Meu nome é José Carlos Minervini. Nasci em São Paulo, capital, no bairro do Bixiga, Maternidade de São Paulo e a data do meu nascimento é 28 de fevereiro de 1944. A origem da minha família, reportando há mil anos que somos descendentes de mouros negros que se estabeleceram no sul da Itália e na Calábria, ficando 900 anos ali. Pelo estudo, pela formação etimológica da palavra, descia até aquele ponto de pesquisa. Sou descendente de mouros negros da Mauritânia, porém italianos. Meus avôs maternos de origem calabresa e os meus avôs paternos de Florença, da Itália se aportaram no Brasil no final do século XIX, sendo que parte da família oriunda foi para a Índia, Argentina, Brasil e Estados Unidos.

Minha família ficou na cidade, sendo que se estabeleceram no local que hoje é denominado Vila Mariana, chamava-se Cruz das Almas. São eles os legítimos fundadores do bairro, cujo bairro é o único que consta uma bandeira. Tem uma bandeira para o bairro de Vila Mariana. E junto com a família Klabin e Cantarella formaram uma grande parte da Vila Mariana, tomando parte lá, cercaram tudo e venderam lotes.

Eu te conto mais ou menos a forma. Não foi fácil para se estabelecer. Oriundos de uma terra longínqua como a Itália, embora acostumados ao trabalho árduo a partir de lá. E havia carência, naquela época como hoje, havia uma distribuição de gás em São Paulo, em termos de bujões. Eles visualizaram a possibilidade de mercado, favorecendo assim a entrega de sacos de carvões, porque não existiam bujões a gás, nem nada. Era o carvão mesmo em forno de carvão, então eles eram distribuidores de carvão. Foi aí que eles começaram um trabalho pioneiro, e a posteriori, meus tios foram crescendo e formaram a primeira rede de casa de carnes da zona sul, sendo todas elas da mesma família. Família Martini.

Era pitoresca, era bucólica a cidade. A cidade de São Paulo nos anos 50 não tinha criminalidade. O único ladrão que tinha famoso era o Meneghetti, que roubava as carteiras nos ônibus, conhecido, mas não se tinha crime de morte, não se matava ninguém. Havia o respeito, podia-se roubar, mas não se podia matar. Mas os ladrões eram tão poucos que não se falava disso. Podia-se andar à noite, sentar-se nas calçadas, conversar ou nas fogueiras nas festas juninas em que o céu ficava coberto, faiscando de balões.

E a posteriori, quando ficamos um pouquinho mais velhos, tipo com 13 anos, já pegamos gosto por cinema. Então tinha lá, desde a Praça Dom Pedro II, onde se tinham os cinemas mais modernos do Brasil, que eram o Dom Pedro I e o Dom Pedro II. Tudo aveludado de vermelho, um cinema finíssimo, chique. O bonde deixava o pessoal aos sábados. E era de gala, o pessoal ia arrumado, não se andava no cinema sem gravata, era muito alinhado. E nem no colégio, nem na escola, mas isso é outra história. E o bonde fazia, subindo a Rua Vergueiro e já começava ali na Praça da Liberdade, com o Cine Joia. Olha, como o cinema tinha... Depois tinha o Cine Liberdade, Cine Leblon, já no Paraíso, Cine Cruzeiro, na Praça Ana Rosa, que foi o maior cinema que existiu no mundo, 2650 lugares e tinha até mezanino. Imenso, só lotava quando tinha uma cena de dois segundos de sexo, não explícito, mostrando alguma nudez rápida, lotava de homem. Então, o Cine Teatro Phoenix, logo adiante, e era isso a cada 500 metros. Cine Sabará, Olido, o Nilo. No Olido tem um caso interessante, a gente entrava lá e saía acho que carregado por pulgas. O que tinha de pulga naquele cinema era uma coisa incrível. Pulgueiro mesmo, muita pulga. Eu falei isso, que na próxima história vou contar a história do cinema, tinha muita pulga. Depois, vinha o Cine Estrela I e II, que eram um ao lado do outro, Cine Jabaquara, e lá no Jabaquara já o Maringá. Eram 13 cinemas em sequência, que fizeram da Praça da Sé a Zona Sul, e eu conheci todos.

Você está olhando para um revolucionário da época, não de 64, político, como também social, porque eu virei a mesa em termos sociais. Não aceitava mais entrar de gravata na escola. Mesmo porque, a economia em 1958, eu saindo à noite do colégio já quase no final do ano, saindo da rua, não sei de onde veio aquele som. Não sei, mas ouvi uma música sendo cantada, que depois eu vim a saber quem era. Era Blue Moon of Kentucky, quem cantava era Elvis Presley. Mas aquilo mudou minha vida, minha forma de pensar, aquele hino despertou e nunca mais fui o mesmo homem. Fui revolucionário, fui rebelde, confesso.

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