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Retratos do povo brasileiro

História de: Rosa Jandira Gauditano
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/12/2012

Sinopse

Rosa inicia essa entrevista ao Museu da Pessoa com a história dos pais: uma brasileira e um italiano que se apaixonaram na Europa durante uma viagem. Lembra-se com carinho da casa da infância onde brincava com os irmãos em contato com a natureza e dos tempos de escola em que fez amizades duradouras. Narra sua trajetória como fotógrafa cujo início se deu nos anos setenta, no contexto de mobilização social e resistência à ditadura militar. Conta como se envolveu com os povos indígenas e o trabalho na ONG Nossa Tribo. Considerada membro da família dos xavantes, compartilha suas vivências e admiração pela sabedoria indígena.

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História completa

R –  Eu nasci em São Paulo, em 3 de abril de 1955.

 

P/1 – Rosa, me conta um pouquinho a história da tua família, a origem dos teus avós...

 

R –  A família do meu pai é italiana, do Sul da Itália, de Nápoles. O meu pai veio para o Brasil para casar com a minha mãe. A minha mãe é brasileira, é daqui de São Paulo mesmo, eles se casaram, e tiveram quatro filhos, eu sou a segunda filha. Eu tenho duas irmãs e um irmão.

 

P/1 –  E qual o nome deles?

 

R –  O meu irmão mais velho chama Cármini, depois veio eu, Rosa, depois a Diana e a Giancarla.

 

P/1 –  E o nome dos seus pais?

 

R –  O meu pai é Giovanni Gauditano e a minha mãe Lúcia Vampré Gauditano.

 

P/1 –  E você sabe o nome de seus avós?

 

R –  Jandira de Campos Pereira Vampré, a mãe da minha mãe, Leven Vampré o pai da minha mãe, e Rosa Mocerino Gauditano, a mãe do meu pai, e o meu avô, marido da minha vó eu não conheci, você sabe que agora que você tá me perguntando eu não lembro o nome. 

 

P/1 –  E Rosa, me conta um pouquinho com é essa história do teu pai ter vindo pro Brasil casar com a tua mãe? Como isso aconteceu?

 

R –  Então, a minha mãe foi viajar de navio pra Europa e conheceu meu pai na Piazza di San Marco, em Veneza. Meu pai era bersaglieri, meu pai trabalhava – bersaglieri é como polícia militar aqui – ele trabalhava lá e conheceu a minha mãe e eles se apaixonaram, começaram a namorar lá no meio da viagem, e depois a minha mãe voltou e depois eles ficaram se correspondendo por carta, e ele veio para o Brasil para casar com ela, aí casaram.

 

P/1 –  E você sabe o que seus avós faziam em Nápoles? 

 

R –  Olha, quando a minha vó, eles eram pequenos agricultores. O meu avô morreu acho que quando meu pai era pequeno e a minha vó criou todos os filhos e eles tinham um pedaço de terra que eles têm até hoje, um pequeno pedaço de terra. Essa região de Castello di Cisterna, de onde é a minha família, é uma região de pequenos agricultores, os terrone, na Itália falam que é terrone quem trabalha na terra, e eles plantavam berinjela, pimentão, plantavam verdura e eles eram muito pobres né, e aí eles, assim, batalharam muito né, é uma família bem simples, hoje eles estão superbem. Mas é assim, Castello di Cisterna é tipo uma provinciazinha quinze minutos de trem de Nápoles, hoje é tipo um bairro de Nápoles porque tudo cresceu e juntou tudo, mas assim, ali é uma região de pequenos agricultores, de pessoas simples que trabalhavam na terra.

 

P/1 –  E os seus avós aqui no Brasil?

 

R –  O meu avô aqui, ele trabalhava, ele tinha um cartório, tem, que é o Cartório Vampré aqui de Pinheiros e a minha avó era dona de casa.

 

P/1 –  Rosa, você tem alguma memória de infância de contato com os avós, ou até no próprio cartório, você tem...

 

R –  Tenho, tenho sim. A minha vó morava na Haddock Lobo, 1459, nunca me esqueço, ali, era uma casa grande né, era uma casa térrea, aliás, não era térrea, era um sobrado grande, tinha um jardim grande também, e nós nascemos todos nessa casa. Quando o meu pai veio da Itália e casou com a minha mãe, eles ficaram morando com os meus avós, e aí nós todos nascemos lá nessa casa, e a gente brincava no jardim, era uma casa com um jardim grandão, com quintal, com galinheiro, garagem, tinha um quarto em cima da garagem cheio de coisas, a gente vivia xeretando lá. E era um quintal grande, tinha mangueira, tinha abacateiro, a gente gostava de brincar lá, a gente morou lá na casa dos meus avós até..., eu tinha uns quatro anos, então até 1960 mais ou menos, 61. Aí meus pais compraram uma casa e a gente mudou pro bairro da Previdência que é aqui no começo da Raposo Tavares. E assim, do meu avô eu lembro muito pouco, porque meu avô também morreu cedo, mas eu lembro que ele tinha uma biblioteca muito grande. E assim, tinha, a biblioteca dele, era uma sala grande, tinhas umas janelas, tinha umas três janelas e tinha prateleiras do chão até o teto inteirinhas, cheio de livros nas quatro paredes, era uma coisa assim, que eu me lembro bastante assim, que ele ficava na cadeira lendo e algumas vezes eu entrei lá e ele conversava comigo e, lembro também de algumas festas que eles faziam na casa, a casa era uma casa grande, então tinha muita gente né, então eu era pequena, eu lembro que eu ficava meio que olhando todo mundo no cantinho assim sentada, enquanto eles me deixavam né, ficar antes de dormir. E, aqui depois, o cartório era lá no centro da cidade, ele era na, era ali perto de um viaduto ali, Maria Paula, e algumas vezes, o meu pai foi trabalhar nesse cartório e levava a gente lá. Então algumas vezes eu ia, passava o dia com ele lá, e aí a gente andava ali pelo centro, ia comer, comer esfiha, (risos) e depois eles mudaram aqui pra Pinheiros, na Cardeal Arcoverde e depois eles mudaram de novo ali mais perto da Rebouças em Pinheiros também.

 

P/1 –  E Rosa, você falou dessa casa até os quatro anos, dos seus avós que tinha um jardim grande, eu queria saber quais eram as suas brincadeiras preferidas, do que seus irmãos brincavam, vocês tinham amigos no bairro...

 

R –  Não, a gente brincava entre a gente, não tinha amigos no bairro, assim, eu lembro que a gente frequentava o jardim da infância ali no Clube Atlético Paulistano, e ia pra piscina, tinha tipo um jardim da infância pras crianças que eram sócias né, que eram sócias do clube, e a gente ia pro jardim da infância, então a gente brincava com essa criançada de lá e ali a gente ficava mais os quatro mesmo né, bagunçando e com os meus primos também que vinham né, a gente era tudo mais ou menos da mesma idade. Ah, a gente gostava de brincar de casinha, a gente brincava no jardim, tinha muito pé de uma florzinha que é roxinha, que dá umas borboletas pretas e amarelas, manacá, a minha vó tinha muitos pés de manacá, na entrada assim, do jardim. E a gente gostava de entrar ali, de andar pelos manacás, porque os manacás, o manacá, ele dá um tipo de borboleta que só dá nessa planta, que é uma borboleta preta e amarela, então elas faziam os casulos, a gente ficava observando, olhando, xeretando, pegando os casulos e aí morriam as borboletas, a gente enterrava as borboletas (risos), fazia cemitério de borboleta, mexendo lá nas coisas lá do jardim, e quando os meus primos vinham também a gente fazia essas brincadeiras. Brincava de correr, brincava de casinha, era gostoso.

 

P/1  –  Rosa, você falou das festas também na sua casa, tem algum Natal, aniversário, que você lembre que tenha sido especial, como eram essas festas?

 

R –  Eu não me lembro muito não, me lembro mais depois na casa da minha mãe e do meu pai, e, dessa festa que eu te falei, era uma festa que eu lembro especialmente que era na parte debaixo da casa, na sala de jantar que aí tinha sala de jantar, sala de visita, sala de estar, a casa era grande e, mas o Natal a gente sempre passava na casa da minha mãe já na Previdência, aí era aquela comilança de italiano (risos). Italiano tem sempre mesa farta, meu pai cozinhava bem, então a gente ajudava na cozinha, fazia um monte de comida, aí vinham as minhas tias que eram madrinhas da gente, tinham duas tias solteiras que eram madrinhas minhas e das minhas irmãs, e, então elas sempre vinham. Vinha a irmã da minha mãe, a minha tia Jandira, que era a irmã mais nova da minha mãe com os quatro filhos, que eram mais os nossos amigos né, que tinham a mesma idade, e a gente, aí era aquela festa com árvore de natal, presente na árvore né, e sempre assim, muita comida (risos).

 

P/1 –  (risos) E Rosa, como era São Paulo naquela época? Vocês passeavam, tinha algum lugar que você gostava de ir?

 

R –  Olha, a gente não tinha carro né, então a gente andava, quando a gente foi morar na Previdência, quando morava na Haddock Lobo, a gente andava a pé né, então a gente ia pro Clube Paulistano, a gente ia pra igreja, a minha vó ia na igreja ali na Nossa Senhora do Brasil, então a gente ia a pé pra igreja com a minha vó, com meu pai, com a minha mãe, a gente andava pelo bairro e ali o bairro é muito bonito né, e era muito tranquilo né, hoje em dia o bairro é chique e tal, mas naquela época, eu lembro assim bastante, meu pai andava muito com a gente aí na rua. Lembro que o Santa Luzia era na esquina da Oscar Freire com Haddock Lobo, era uma mercearia, sabe aquele Santa Luzia que hoje é chique? Era uma mercearia. A gente ia lá comprar tomate, (risos) comprar coisa, eu lembro que eu ia com meu pai lá, engraçado, e depois eles abriram esse outro. Então era muito assim, meu pai conhecia as pessoas do bairro, então a gente descia na rua Augusta, entrava nas lojas, ia na farmácia, o bairro era muito tranquilo, e a gente andava por ali mesmo, a gente não saía muito, e depois aqui na Previdência a gente ia de ônibus, tinha um ônibus na Previdência que acho que até hoje tem um ônibus que passa lá, que era o alto da Previdência, que a gente pegava e descia na Rebouças, na Oscar Freire, no ponto da Oscar Freire, aí a gente andava da Rebouças pela Oscar Freire até a Haddock Lobo pra visitar a minha vó, e aí, pra ir no final de semana almoçar e tal, e aí a gente voltava de ônibus né, a gente andava de ônibus. E depois assim, a gente andava por ali mesmo, a gente ia no Butantã, a gente ia na cidade universitária né, depois quando eu comecei, a gente começou a estudar, que todo mundo estudou no colégio Virgília Rodrigues Alves Carvalho Pinto que era lá na Previdência, que é um colégio estadual, que era muito bom o colégio, naquela época ninguém estudava em colégio particular, todo mundo estudava em colégio estadual, colégio do governo, os colégios eram bons e todos nós estudamos lá. E todos os nossos amigos são dessa época do colégio, até hoje eu encontro as minhas amigas, domingo passado, sábado passado teve uma reunião lá na minha casa das minhas amigas do colégio, a gente tem amizade, a gente é amiga até hoje, é assim uma “tchurma” da pesada. E a gente andava a pé, a gente tinha um cachorro, um Collie, o Duque, aí a gente com o cachorro, a pé pelo rio, tinha um rio embaixo ali na Previdência, que hoje tá, já encanado né, canalizado, então a gente andava pelo lado do rio, era cheio de árvores grandes. A gente tinha um caminho, a gente andava pelo rio, atravessava ali pela Raposo Tavares e ia pra USP, passeava na USP, voltava, ia pro Butantã e voltava, ia ver as cobras, aranhas, no Butantã e voltava (risos), esse era o nosso passeio. Depois, mais tarde, quando a gente ficou maior, a gente, aí o meu pai comprou o título de um clube, lá na BR116 tinha um clube de campo, aí a gente ia nesse clube de campo, ia de ônibus também, e aí a gente ia pros bailinhos né, aí tinha piscina, e era sempre essa turma que me acompanhou a vida inteira, a turma lá da Previdência. Os nossos passeios eram esses, era raro a gente sair pro centro, assim. Ir pro cinema, quando ia no cinema era o maior acontecimento, assim: “Oba, vamos no cinema”, todo mundo já se arrumava e ia no cinema. Tinha um cinema na São João que era um cinema tipo esses “três D” de hoje né, que ele era acho, não sei se a tela era redonda, ele dava uma sensação diferente e de vez em quando meu pai levava a gente lá.

 

P/1 –  Você lembra a primeira vez que você foi ao cinema?

 

R –  Olha acho que foi nesse Cinerama, eu acho que chamava Cinerama, lá na São João com o meu pai e com meus irmãos. Meu pai de vez em quando levava a gente na Praça da República também. A gente ia passear na Praça da República, tirar fotografia pra mandar pra minha vó da Itália, aí a gente ia naqueles “lambe-lambe” da Praça da República, todo mundo ia tirar foto na Praça da República (risos) pra mandar pra minha vó. Meu pai mandava pra minha vó, porque tem o meu nome, a minha vó, chamava Rosa, chama Rosa. 

 

P/1 –  Teve algum filme, assim, quando você era pequena que te marcou? Ou que tenha ficado...

 

R –  Eu acho que esse filme que a gente viu lá, foi ”As sete Maravilhas do Mundo”, que até hoje me lembro assim que a gente ficou impressionado, que eram as sete maravilhas né, os lugares mais legais, assim eles tinham filmado.

 

P/1 –  E Rosa, você mencionou o seu pai agora, de tirar as fotos, mandar pra sua vó, você falava italiano com seu pai, falava italiano...

 

R –  Não, meu pai sempre teve sotaque, mas ele sempre falou, tentava falar em português. Com a gente, ele nunca falou italiano, com a gente. E tanto é que depois que ele morreu, eu fui pra Itália conhecer a minha família que a gente não conhecia, e é engraçado porque a gente chegou lá e não sabia falar Italiano, né, mas de tanto escutar o sotaque dele, logo, logo, eles falavam: “Não, mas você fala italiano!”. Eu falava; “Não, eu não falo italiano!”. “Não, você fala italiano!”. Porque eu acho que você fica com o ouvido acostumado né.

 

P/1 –  Rosa, você falou um pouquinho nesses seus, nessas suas amigas de escola que ficaram, eu queria saber um pouquinho da sua trajetória escolar, como foi o começo, a primeira semana de aula, os primeiros dias, a primeira vez que você foi à escola...

 

R –  Olha, a gente quando foi na escola, o grupo era, o grupo da Previdência não era ainda esse colégio, o Virgília, era um grupo escolar de madeira que tinha na parte de baixo da Previdência, porque a Previdência tem a parte de baixo e a parte de cima. Em cima é em cima do morro onde a minha mãe mora e a parte de baixo você tem que descer o morro, tinha que atravessar o rio, e lá tinha um grupo escolar que era o grupo da região, que eu acho que eram umas três ou quatro salas, assim, um grupo de madeira sabe, um negócio de madeira com as salas, e aí tinha de primeira à quarta série lá, que a gente estudou. Depois foi construído esse colégio que é esse Virgília Rodrigues Alves, que juntou com esse outro grupo, e fizeram lá em cima também. E aí a gente descia ladeira, e a minha mãe levava a gente na escola, a gente fez acho que de primeira à quarta nesse grupo. E que não tinha nada. Naquela época você ia pra escola, entrava, estudava e saía. Não tinha lanche, não tinha né, o recreio você ficava ali mesmo na frente, não tinha nem uma..., era aberto né, eram umas salinhas como são as escolas de interior ainda, né. Muitas escolas indígenas, ainda são assim, (risos), que nem uma escola indígena né, só aquele galpão de madeira e depois foi construído lá em cima, e a gente transferiu pra lá, né, porque aí demoliram essa parte de baixo, esse galpão lá que era a escola. E aí a gente estudou o ginásio e o colégio lá. E depois eu fiz a faculdade, fiz faculdade de Jornalismo, na Alcântara Machado, que era lá na, no Jabaquara.

 

P/1 –  E Rosa, deixa eu, só vou voltar um pouquinho, depois eu vou querer saber mais dos seus estudos, mas nessa primeira fase teve algum professor que te marcou, teve alguma coisa que você mais gostava de fazer na escola? Assim bem pequenininha ainda...

 

R –  Olha, de primeira à quarta série que era lá embaixo, eu não lembro muito, só lembro que eu ganhava medalha todos os anos (risos). Eu era a primeira da classe, sempre eu tinha medalha, eu ganhava aquele monte de medalha, eu parecia um general. Sempre assim, os primeiros da classe ganhavam medalha né, naquela época. E eu lembro que eu tinha um monte de medalha, todo ano eu ganhava duas ou três medalhas, era um monte, e depois lá em cima também continuava, que assim, os primeiros da classe ganhavam medalha, então eu tinha um monte de medalha, então eu sempre ia bem de Português, de Matemática, de História, de Geografia. E aí já quando era lá, quando passou para o Virgília, o Virgília já tinha quadra, já tinha Educação Física que lá embaixo não tinha, e aí tinha essa turminha que são as minhas amigas até hoje, e aí era uma farra sempre né, porque no recreio a gente se juntava, a gente ia embora tudo junto pra casa e quando era de tarde todo mundo, depois das seis elas, iam todas pra casa, almoçavam todas em casa, e aí a gente ficava a tarde inteira brincando, jogando baralho na minha casa, era uma farra. E disso assim durou anos, porque gente fez todo o ginásio e o colégio né, com essa turma e depois só que eu fui pra faculdade, que eu fui a primeira delas que entrei na faculdade, que era CDF né (risos). Eu entrei na faculdade acho que eu tinha dezessete anos, dezessete pra dezoito anos, e aí eu fui estudar e a gente não se viu mais tanto né, depois eu também saí de casa né, fui morar sozinha, e aí a minha vida ficou bem independente mesmo, esse povo aí, a gente foi se encontrar mais pra frente.

 

P/1 –  E Rosa, quando começou a passar na sua cabeça fazer Jornalismo, o que era a primeira coisa que você queria fazer quando crescesse?

 

R –  Eu queria ser fotógrafa. Eu, quando morava na casa do meu pai e da minha mãe, um dia eu estava no meu quarto olhando umas revistas e aí me deu um insight: “Gente, eu queria fazer foto igual essas revistas!”. Me deu uma coisa assim, aí eu pensei: “Onde é que eu vou estudar Fotografia?”. Aí naquela época, você na faculdade, você tinha um exame unificado né, era, você fazia um exame pra, aí era USP, FAAP e Alcântara Machado, em Comunicação. Se você tirasse nota melhor, você caía na USP, segundo lugar, na FAAP e terceiro na Alcântara Machado, então era tipo assim, duzentas vagas pra São Paulo inteiro, era tipo assim, era uma loucura entrar na faculdade naquela época, era muito concorrido. Era Cescem, Cecea e Mapofei, eu acho que era comunicações, esse exame unificado, e eram só essas três faculdades. Então eu caí, eu prestei Psicologia na PUC, e comunicações nesse Cecea, e aí, sendo que USP era grátis e as outras duas eram pagas, e eu entrei na Alcântara Machado em Comunicação, Jornalismo, mas porque eu queria fazer Fotografia né, por isso que eu me inscrevi lá e me inscrevi também, e se fosse fazer na FAAP, queria fazer Cinema, porque na FAAP tinha curso de Cinema, e me inscrevi na PUC, entrei em Psicologia na PUC só que perdi a matrícula (risos), descobri depois que eu tinha entrado, porque saía no jornal a lista, aí eu vi, no dia que eu vi era um dia depois, aí eu fui fazer a matrícula e tinha perdido, aí fui fazer Jornalismo lá, mas aí desde o começo do curso de Jornalismo já não era uma coisa que eu queria muito porque naquela época, Fotografia no curso de Jornalismo não eram seis meses, como é hoje, também tem pouca Fotografia, e aí eu fiz uns dois, três anos, não terminei, eu larguei, e aí eu viajei, fui pra França, eu consegui assim, uma passagem pra ir pra França, e aí eu fui. Quando tinha vinte e um anos, fiquei em Paris um mês, um ano, morando lá sozinha. Aí eu voltei, quando eu voltei de lá, eu pensei: “Puts, agora tenho que encarar essa coisa de ser fotógrafa”, né? Porque até lá me inscrevi na Sorbonne em Cinema, e eu consegui ser admitida em Sorbonne, em Cinema, mas era muito difícil assim, aquela época você ficar lá, ninguém quase viajava pra fora do Brasil, não é igual hoje que todo mundo viaja né, era caro, então a minha mãe me mandava um dinheiro todo mês, e era muito difícil assim, pra eu ficar, mesmo eu trabalhando. Eu me virava, mas não tive pique assim, fiquei um ano, depois eu tinha que ficar mais quatro anos pra fazer o curso de Cinema, não aguentei, aí eu voltei. Aí quando eu voltei, eu resolvi, não agora eu tenho que ser fotógrafa, agora eu vou batalhar. Aí eu comecei, eu tinha uma máquina, comecei a fotografar pra uns jornais da imprensa alternativa, aí eu olhava, via assim o que estava acontecendo no jornal, interessante, e ia, fotografei movimento social bastante tempo assim, era uma coisa em que eu me envolvia então, movimento de custo de vida, movimento de mulheres, movimento negro, todas as greves do ABC, na época em que o Lula nem era ainda presidente do sindicato. Depois o Lula foi eleito presidente do sindicato, eu acompanhei tudo, eu tenho material dessa época, década de setenta, foi o meu primeiro material assim, eu me pautava, pegava o ônibus e ia pra São Bernardo fotografar sozinha (risos). Pegava o ônibus e ia lá, uma manifestação, greve, e ia lá pra fotografar. Aí voltava pra cá, eu tinha um laboratório preto e branco, revelava, ampliava as fotos e aí eu comecei. Um dia eu fui procurar na Capote Valente aqui em Pinheiros, tinha um jornal “Nós Mulheres”, aí não sei quem me falou: “Ah tem um jornal de mulheres, tal, vai lá levar as tuas fotos”. Aí eu bati lá e era nesse prédio, nessa casa do jornal “As mulheres” funcionava o “Versus”, que era um jornal da imprensa alternativa, assim muito legal que tinha na época, e aí as meninas do jornal “Nós mulheres” não estavam e aí quem atende a porta era o Marcos Faerman que era o editor do “Versus” e era, foi um grande jornalista do “Jornal da Tarde”, Marcão. Aí o Marcão me atendeu e falou: “E aí”. Aí eu falei: “Não, eu queria falar com as meninas aí, eu sou, tô fazendo fotografia”. Aí ele: “Ah deixa eu ver sua fotos”. Eu estava com uma caixinha assim de fotos, aí ele começou a olhar as fotos e falou: “Nossa, que legal o seu trabalho, pô que interessante”. Ele falou: “Você não quer vir numa reunião aqui de pauta amanhã, no Versus?”. Eu falei: “Reunião de pauta, o que é reunião de pauta?”. Ele falou: “É, reunião de pauta é quando a gente decide o que vai entrar no jornal, achei teu trabalho legal, você podia fazia umas fotos aqui pro ‘Versus’!”.  Falei: “Ah, então tá, eu vou”. Aí eu comecei a ir nas reuniões do “Versus” e entrei pra equipe do “Versus”. Eu virei fotógrafa do “Versus”. E foi muito legal porque ali assim, estava a nata do fotojornalismo de São Paulo, no Versus né, das pessoas de esquerda, aquela época era uma época da ditadura brava né, e eram os jornalistas, que assim que batalhavam contra a ditadura, tal, era um jornal que no começo ele falava sobre a América Latina, cultura da América Latina então escreviam todos os grandes escritores da América Latina, colaboravam com o “Versus”, era muito legal. Marcos Faerman realmente foi um grande cara assim, um grande jornalista, aprendi muito com ele, sem contar que a gente ficou muito amigo e ele assim, ele era amigo de todos os escritores latino-americanos e jornalistas e essas pessoas mandavam matéria pro jornal de graça, e o jornal publicava né, Gabriel Garcia Marquez, todos os grandes escritores latino-americanos mandavam matéria pro jornal e isso por causa do contato do Marcos né, do Marcão, e aí eu fiquei, virei fotógrafa, virei editora de fotografia do jornal né, e era uma equipe superincrível né? Realmente assim era muito legal e era um jornal mensal, né, e depois ele foi, o pessoal entrou pra Convergência Socialista, o Marcão entrou, e aí o Matico, que era Omar Barros Filho, que era um dos editores também, e aí a equipe se dividiu né, porque uns ficaram do lado da Convergência Socialista, que era a Quarta Internacional no Brasil, toda a luta da Quarta Internacional assim na área de comunicação acabou passando pelo “Versus”, e a gente que não estava muito a fim de entrar nessa história de Quarta Internacional, meio que dividiu em dois blocos o jornal, e no fim a gente acabou, assim dividiram, rachando, e aí a Quarta Internacional entrou no jornal e tomou conta do jornal, a Convergência Socialista tomou conta do jornal. O jornal ficou chato pra caramba, ficou feio, porque ele era um jornal bonito, plástico, artístico tal, aí ele virou um jornal que só falava de Trotsky, de Lenin, de Marx, de revolução, então ficou chato, então eles faziam aquelas reuniões de domingo, eles queriam que a gente fosse, aí fui um dia eu falei: “Gente eu não vou ficar escutando esse negócio, essa lavagem cerebral desses caras”. Eles: “Trotsky, Lenin, Marx…”. Tudo bem que eu era de esquerda e tal, mas aquele negócio era muito chato, eu achava muito chato, aí eu falei: “Cara, não vou ficar aí, não sou carnê desse caras, eu vou sair”. Peguei e saí. Aí também eles viram que eu não estava muito a fim, trouxeram um fotógrafo do Rio, da Quarta Internacional lá que era lá da convergência, puseram o menino no meu lugar, aí eu falei: “Ah”, fiquei chateada e fui embora. E foi, e era louco, porque o jornal daí começou a ser distribuído, foi muito louco isso, porque aí, quando tinha greve dos metalúrgicos da Quarta Internacional, era um dos partidos de esquerda que fomentava né, as greves né, os jovens, tinha toda uma equipe, e o jornal começou a ser dirigido pras greves de São Bernardo ele virou tipo, quase um panfleto né, da esquerda mais radical, desse povo da Quarta Internacional e ele era distribuído em São Bernardo nas greves, tal, aí eu já não estava mais. Eu continuei a fazer o meu trabalho freelancer, eu ia lá, cobria tudo e aí eu comecei vender, quando o Versus publicava eu vendia também, tinha o “Movimento” e tinha o “Em Tempo”, eram três grandes jornais de oposição da Convergência, ah da oposição da política né, da ditadura aqui em São Paulo, era o “Versus”, o “Em Tempo”, e o “Movimento”. E aí, eram todos jornais tabloides, pequenos, não sei se vocês conhecem, se vocês já viram, são bem legais esses jornais, então ficaram pra história do jornalismo né, e eles compravam as fotos assim, a gente fazia, tinha um grupo de fotógrafos que cobria essa área assim de manifestações e tal, de oposição ao governo, aí a gente fazia umas fotos boas, aí eles compravam. Então comecei a publicar nesses outros jornais, no “Em Tempo”, no “Movimento”, aí alguém do “Em Tempo”, não, alguém do “Movimento”, eu fotografei um material “Abaixo a censura”, quando aí teve o AI5, você não podia, na época do AI5, o AI5 era um ato institucional e o governo podia mandar a polícia entrar em qualquer redação de jornal, então eles entravam, eles levavam todos os jornais que acabavam de sair, prendiam as pessoas sem, sem, é, chegavam e prendiam né, eles tinham essa coisa né, de poder chegar nos lugares sem o papel que você tem que levar pra pessoa ser presa. Quando os caras achavam eles iam lá e prendiam, e levava a equipe inteira, levava os jornais, levava, era uma zona desgraçada (risos), então toda a hora estava a polícia no “Versus”, era um caos. Chegava lá, às vezes, e falava: “Cadê fulano?”. “Ah, fulano foi preso, ah Matico foi preso, o editor tá preso, tá mundo na cadeia.” Sabe, eu chegava lá, estava todo mundo na cadeia, ficavam dois, três dias na cadeia, aí vinham os advogados, na época era o Eduardo Greenhalgh, que dava suporte pra gente, aí os advogados vinham e iam lá, tiravam eles da cadeia, puta, era, era uma zona, era uma barra pesadíssima. E aí eu comecei, eu fiz um material “Abaixo a censura”, e alguém, acho que do movimento, ah foi publicado no movimento e aí a “Veja” liga pedindo pra comprar a foto, aí eu vendi pra “Veja”, foi a minha primeira foto assim pra grande imprensa. E aí o pessoal da “Veja” começou a me conhecer através, né, conhece o meu trabalho através dessa foto que eu fui lá levar e tal, naquela época não tinha internet, você tinha que pegar a foto e levar pro cara né, (risos), aí o cara olhava e falava: “Eu quero essa”, aí comprava (risos). Aí eu fiz um contato lá, na época era o Sérgio Sade, que era diretor de fotografia, Pedro Martinelli que era o fotógrafo e aí eles começaram a passar freelance pra mim, eles viram que eu era boa e falaram: “Pô, vou dar uns freelance pra essa mulher”. Aí, e assim como eu, eu tinha feito um ensaio sobre prostituta, o primeiro ensaio que eu fiz de fotografia, foi sobre prostituta, Avenida São João, ensaio preto e branco, foi o meu primeiro trabalho assim, mas nem foi um trabalho, foi uma curtição que eu fiz junto com um amigo meu lá da Previdência, que era um grande fotógrafo também, o Ayrton de Magalhães, foi fotógrafo do Babenco, do “Beijo da Mulher Aranha” e do “Pixote”, do filme do Babenco. Ayrton foi meu amigo de infância, a gente estudou na escola junto. E aí o Ayrton falou: “Ah vamos lá fotografar as prostitutas na Avenida São João”. Aí eu falei: “Porra, Ayrton, como, prostituta?” “Não, eu sou amigo delas lá, vamos lá fotografar!”. Aí eu: “Ah, eu nunca fui na casa de prostituição”. “Não, vamos comigo!” Aí, eu tinha uns dezoito anos, foi uma das primeiras fotos que eu fiz. Aí a gente ficou um mês indo lá numa casa de prostituta, a gente fazia as fotos, a gente ia no laboratório, ia no banheiro né, o laboratório era no banheiro, aí a gente revelava lá no banheiro da minha casa de noite, revelava os filmes, ampliava, editava, ampliava as fotos, e depois no outro dia, a gente levava pra elas, e aí a gente quis dar pra elas e elas não queriam que a gente desse, elas queriam comprar, e como a gente queria fotografar pra ver como elas moravam, como elas viviam, a gente cobrava assim tipo um real, dois reais. “Ah eu vou mandar pro meu pai, vou mandar pra minha mãe.” Elas compravam pra mandar pra família, as fotos. A gente fazia retrato delas assim, mas elas de roupinha sabe, de calcinha, de sutiã, (risos), de roupinha de trabalho lá, e a gente, e elas, a gente entrava no quarto e fotografava, foi uma experiência muito interessante isso, nós dois fotografando. A gente entrava junto, aí ela falava: “Ah faz uma foto aqui na cama sentada, ah faz aqui na janela”. Aí eu fazia de um lado, eu fazia do outro, a gente fotografava junto, e aí esse foi meu primeiro ensaio, e modéstia à parte, é um ensaio que até hoje assim eu olho e falo: “Como é bom!”. Ele é muito bom assim, porque a gente não tinha ideia, a gente fazia porque achava interessante, entendeu? E o meu ensaio e o ensaio do Ayrton foram completamente diferentes, no mesmo lugar, com as mesmas pessoas, mesma luz, mesmo filme, mesma máquina a gente tinha, né, não usava flash, a gente só usava luz natural.

 

 

R –  É, então, foi interessante porque veio um artista plástico que depois ficou superfamoso, o Antonio Montadas, ele foi, dei uma namoradinha com ele naquela época, quando ele veio aqui pro Brasil, ele era, ele é um catalão, ele. E, o Antonio, um dia ele veio e a gente mostrou as fotos, e a gente colocou no chão os dois ensaios e o Antonio ficou, ele falou: “Mas nossa, que diferente!”. O meu e do Ayrton e aí a gente prestou atenção nisso aí, um negócio muito louco, e aí eu aprendi o seguinte, você pode ter cem fotógrafos fotografando uma coisa, exatamente a mesma coisa, cada um vai fotografar de um jeito. Porque a gente usava a mesma máquina, a gente usava uma Pentax, uma Pentax SP3 eu acho, SP2 acho que era, filme Tri-X, o mesmo filme, a mesma luz, o mesmo lugar, as mesmas pessoas, o mesmo quartinho, e o meu olhar e o olhar dele era diferente. Esse dia, assim, quando o Antonio olhou e disse: “Nossa, que diferente o trabalho de vocês dois”, e aí ele observou isso, eu nunca mais esqueci isso, porque realmente assim, o enfoque do retrato era diferente né, e pra nós foi um aprendizado, foi muito legal. E depois, quando eu fui pra França, esse material ficou aí, e naquela época tinha a revista Fototica, a única revista de fotografia que existia aqui, e alguém tinha visto o material, a gente tinha mostrado pra umas pessoas, assim, a gente não tinha muito contato, né, não trabalhava na área ainda, mas conheceu, tinha um grupo de fotógrafos que se encontravam, alguém pegou essas fotos, não sei se foi o Ayrton mesmo, e levou pra Fototica e a Fototica quando eu estava lá na França, publicou o ensaio e, depois, publicou o meu ensaio e o dele, e depois ele continuou fazendo o ensaio, que foi o melhor ensaio sobre esse tema que eu já vi no mundo, sobre os travestis de São Paulo, ele ficou um ano fotografando todas as noites, os travestis de São Paulo. O Ayrton tinha um trabalho fantástico, eu não sei o que aconteceu com o Ayrton mais, eu acho que ele morou, tá no Sul, não sei, nunca mais tive contato com ele, mas realmente, ele fez um trabalho fantástico. E assim, esse foi o meu primeiro ensaio que até hoje tá no meu portfólio porque realmente era uma coisa inédita assim, primeiro que as pessoas não fotografavam isso, segundo que nunca ninguém tinha publicado, imagina, prostituta, que foi uma coisa que acho que o pessoal da Veja quando olhou, ficou muito impressionado comigo, porque eles como fotógrafos profissionais nunca tinham fotografado, porque era uma coisa que não se falava. Naquela época da ditadura, era uma coisa muito fechada também moralmente, então tinha certas coisas que não se publicava, por exemplo, a Veja a partir desse meu ensaio das prostitutas, eles pautaram pra eu fazer um ensaio sobre lésbicas, eles me pagaram, acho que uns dois meses eu fiquei fotografando lésbicas em São Paulo, que também naquela época era uma coisa fechadíssima. Eu também não conhecia, os caras falaram: “Olha, vai lá, no lugar lá, vai lá e batalha”. Eu peguei, comecei a batalhar e conhecer umas pessoas e ali naquela região da Rua Augusta, mais pra baixo, no centro e umas pessoas iam indicando as outras, tinha uns barzinhos gays e eu comecei a ir, eu não sou gay nem nada, mas vou (risos), e aí as meninas ficavam me cantando, aí eu falava: “Ai meu Deus, o que eu vou fazer?!”. Mas aí eu comecei a explicar: “Eu tô fazendo um trabalho pra Revista Veja, a revista Veja tá com uma pauta no Brasil inteiro”, ninguém conseguiu fotografar, só eu, as pessoas não conseguiam chegar. É muito difícil você fotografar uma coisa que as pessoas não querem né, e eu sem querer, não sei, acho que assim, aos pouquinhos eu fui conseguindo fazer o trabalho. Um dia eu conhecia uma pessoa, outra indicava a outra, aí falava: “Vai na minha casa!”. Aí: “Ah, você não quer fotografar, né, lá em casa?”. Aí eu comecei a abrir esse leque, né, e comecei fazer o trabalho, e aí eu levei um monte de material pra eles, eles ficaram muito impressionados, porque aí, eles falaram: “Olha, de todos os fotógrafos, você foi a única que fez o material!”. Os caras fizeram umas fotos assim meio en passant porque as pessoas não queriam, você tinha que pedir autorização pra fotografar. Como é que você ia publicar um negócio desses, sem a pessoa autorizar, né? Então eu falava: “Ó, vai sair publicado, se você quiser eu te fotografo, se não quiser...” “Ah, eu não quero!” Eu falava: “Então não vou fotografar”. Eu fiz o trabalho que, aliás, nunca foi publicado. Eles me pagaram, mas era um tabu, isso década de oitenta, setenta e, sei lá final de 1970, 1980, isso ainda era tabu, eles nunca publicaram como vivem né, essas pessoas. E imagina, de lá pra cá mudou muito né, hoje em dia você tá no metrô, você tá lá, essas meninas se beijando do lado, imagina... Antigamente, nem pensar! Era outro esquema né. Então assim, eu acho que, eu tenho um amigo que é o Moraes, que é um grande editor também, que ele foi editor da “Ícaro” muitos anos, fiz muito trabalho pra eles, ele falava assim: “Ah você é a fotógrafa daquelas (risos), daqueles que ninguém fotografa: dos índios, dos pobres, dos negros, das prostitutas, das lésbicas”, porque realmente assim, pra mim não é um problema né, fotografar essas pessoas assim, eu acabo entrando no universo delas e quando eu vejo eu tô fotografando, mas daí eu percebi assim que não são todos os fotógrafos que tem essa facilidade, e que o meu trabalho na minha vida inteira se norteou em cima disso, né, é o que eu gosto de fazer, eu fotografo de tudo, né. Eu trabalhei na Veja, trabalhei na Folha de São Paulo, quando você trabalha em grandes revistas, você tem que dar nó em pingo d’água, você tem que fazer retrato do presidente, você tem que fazer o diretor sei lá da onde, você tem que fazer foto de estúdio, você tem que fazer objetos, você tem que fazer tudo bem feito, eu sei fazer tudo, mas assim, fazer moda, futebol, esporte, eu tiro de letra, eu faço tudo. Agora assim, realmente o meu trabalho pessoal, né, hoje eu vejo, trabalho meio independente há muitos anos já, eu resolvi realmente fazer o meu trabalho sobre as pessoas que não têm voz, na verdade isso sempre foi o que me incomodou na minha vida inteira, eu acho que antes eu fazia instintivamente, hoje eu já faço um trabalho muito mais consciente. Hoje em dia assim, eu documento os povos indígenas há mais de vinte anos, e de repente já virou um trabalho político né, já virou um, é um trabalho de documentação porque eu acho que é um trabalho importante a ser feito. Agora, antigamente não tinha essa, eu nem parava pra pensar porque eu estava fotografando aquilo ali, entendeu? Porque eu queria fotografar aquilo ali e não queria, porque eu podia ganhar muito dinheiro se eu quisesse, tipo fazendo moda, fazendo retrato de madame, de cachorrinho de madame, essas coisas dá dinheiro (risos), aí realmente eu não tenho muita paciência, eu prefiro assim, fazer o trabalho que eu acho que eu né, que eu possa passar que eu sinto, o que eu penso. Eu acho que a fotografia é um meio de expressão né, mais do que tudo, pra mim é um meio de viver, eu sempre ganhei dinheiro, comprei a minha casa, tenho as minhas coisas e tal, com o dinheiro da fotografia, do meu trabalho de fotografia, mas pra mim, mais do que ganhar dinheiro, é um meio de expressão né, é um meio de eu deixar o meu recado. Então eu acho que assim, todo esse trabalho que começou lá atrás, com as prostitutas até hoje, de tempos em tempos eu tenho que organizar né, rever o meu trabalho, ultimamente assim, eu tenho um arquivo muito grande né, que é do Studio R, que é a minha empresa, né, então eu vejo assim que o principal material que eu tenho lá é esse material (risos). O Moraes fala pra mim: “Você nunca vai ficar Rosa, você não quer ganhar dinheiro, fica fotografando”. “E eu vou fazer o quê, Moraes, eu gosto de fotografar o povão...” Sabe, então acho que cada um tem uma viagem. 

 

P/1 – Rosa, eu queria te perguntar, começando a mexer com todas essas coisas, prostitutas, as lésbicas, os movimentos sociais, como que foi mudando os teus valores, como isso foi mudando a tua cabeça, fala um pouquinho disso pra gente.

 

R –  É, eu acho que na verdade os meus valores já estavam ali do lado deles né, então quando era proibido fazer passeata e as pessoas faziam passeata e eu estava na passeata, eu já era alguém que estava contra o estabelecido, então quando tinha uma passeata do movimento negro, eu era a fotógrafa do movimento negro, você acha... O “Versus” (risos) tinha lá uma página do movimento negro, tinha jornalistas negros, e, o começo do movimento negro, só eu tenho foto, às vezes o pessoal liga e fala: “A Rosa tem lá”.  “Puts, eu vou olhar lá no meu arquivo.” Puts, lá na época do Versus, as passeatas que o movimento negro fazia né, só eu que tenho foto, ninguém fotografava, aí lá ia eu fotografar porque eu tinha os amigos negros, tinha os amigos que eram jornalistas, que tenho uma amiga até hoje, que é a Neusa Maria Pereira, que ela é, até está fazendo um jornal aí de mulheres negras, até me mandou esses dias, e ela era super assim combativa, era uma pessoas superinteligente. Tinha o Hamilton Cardoso que foi um grande jornalista negro que já morreu, que ele era o editor das páginas do “Versus”, das páginas negras, pô só dava gente legal lá, eu só convivi com artista e gente legal, sabe. A minha vida toda, depois que eu saí da minha casa que eu fiquei independente, os meus amigos sempre foram pessoas especiais assim, sabe, pessoas que batalham contra coisas estabelecidas que não são tão legais, são artistas, são políticos, assim né, jornalistas, então eu acho que naturalmente eu já me “bandiava” pra esse lado (risos). Então eu ia lá, né. Falavam: “Rosa, vai lá”. E eu: “Oba, vamos”. Movimento estudantil, vamos lá, aí movimento de mulheres, pô vamos lá... movimento de custo de vida contra a ditadura, Praça da Sé, vamos lá, tem um material gigantesco disso. Todo esse material desses anos, eu tenho tudo guardado, tá tudo assim legal ainda, tá, de vez em quando eu mexo lá, tá intacto ainda, até preciso “escanear” pra colocar no meu site novo, porque a gente acaba não mexendo, imagina, tem mais de trinta anos né, então puts, mais de trinta anos. Então assim, eu acho que é aquilo que eu te falei, né, quando você trabalha em cima de uma causa, naturalmente você pode ter uma opinião ou não, eu meio que entrava junto e, porque eu acreditava naquilo. Eu acreditava que os negros tinham que ter espaço, acreditava que as mulheres tinham que trabalhar e ter o seu espaço, né, então pra mim foi uma batalha assim, porque eu tive filho com vinte e quatro anos. A minha filha hoje tá, eu sou vovó, tenho um netinho de dois meses, e hoje eu deixei ela lá na casa de uma amiga dela lá na Previdência e vim pra cá e estava pensando, eu falei: “Pô, realmente assim, como era diferente quando eu tinha a Camila, porque quando eu casei, logo eu fiquei grávida da Camila e eu estava começando a me profissionalizar em Fotografia, então era superdifícil porque eu ficava superdividida né, com nenezinho pra tomar conta e querendo trabalhar com fotografia, querendo ficar independente com o meu trabalho, e naquela época era muito difícil. Pra você ter ideia assim, eu fui trabalhar de fotógrafa, o meu emprego foi de fotógrafa no Bradesco, (risos), alguém no sindicato do jornalista, eu andava lá no sindicato do jornalista, era amiga dos fotógrafos, aí pintou um dia lá, ligaram perguntando de um fotógrafo, aí me indicaram, daí tinha o Mário, que era o fotógrafo da Folha mais famoso, ele era meu amigo, ele falou: “Acho que tem uma fotógrafa, acho que vocês podiam contratar”. Ele sabia que eu queria trabalhar, aí ele falou: “Ó, vai lá que eles... eu te indiquei”. Eu falei: “Ah tudo bem”. Eu estava com a Camila pequena, ela tinha um ano e eu queria trabalhar, aí eu peguei e fui contratada no Bradesco, fiquei um ano lá. Comprei o meu carrinho, tal, arrumei uma escolinha pra ela né, e aí eu comecei a trabalhar profissionalmente e de lá, aí eu fui fazer realmente o que eu gostava que era trabalhar na imprensa, e aí fui pra Folha de São Paulo, depois eu fui pra Veja, mas era uma batalha, porque pra você ter ideia assim, quando eu fui contratada pra Folha de São Paulo, tinha um staff de uns vinte fotógrafos, trinta fotógrafos, a Folha, tudo homem. E aí eles deram uma revirada lá, contrataram uma moçada nova, e aí nessa leva nova tinha quatro mulheres: eu, a Renata Falzoni, Avani Stein e a Eliana Assunção, quando a gente chegou na Folha de São Paulo (risos), foi uma revolução, menina, não tinha mulher na imprensa, nós viramos matéria da Isto É, uma página. “As meninas da Folha”, tiraram as fotos da gente fotógrafa, não existia fotógrafa na imprensa, imagina! E isso na década de oitenta. A gente virou matéria! Não tinha mulher trabalhando. Então a gente era assim, as glamurosas, porque eram todas lindinhas também, bonitinhas e boas fotógrafas (risos), então, puts, a gente quando entrou lá, a gente brincava com eles porque tinha umas salas, do tamanho dessa sala assim, cheio de armários cinza onde guardavam os equipamentos, e aí a gente brincava e falava assim: “Gente, olha, amanhã a gente vai pintar tudo de cor de rosa, vamos trazer um monte de flor, esse negócio aqui é muito triste, muito chato”. Eles: “Hum”. Eles já ficavam olhando pra gente (risos). “Que? vocês vão mexer aqui na nossa sala?” “A gente tá achando essa sala aqui muito chata, gente, muito feio.” Eles tudo assim, eram fotógrafos bem velhos, tinha o Júlio Passarelli, tinha cinquenta anos de Folha, cinquenta anos quase que ele trabalhou lá. Era um velhinho. Todos de cabelinho branco, eles eram uns amores, sabe, mas gente que estava ali há muito tempo, então eles ficavam meio assim: “Pô, aquela moçadinha né, jovenzinha, mulher”. “Pô, será que essas mulheres vão...”. Aí eles punham a gente em fria, assim, mandava fazer treino de futebol. Primeira vez que eles mandaram eu fazer treino de futebol, eu nunca tinha visto um jogo de futebol na vida, porque eu nunca gostei de futebol. Ai eu falei: “Gente, como é que é?”. Eu chamei o Jorge Araújo lá que era o fotógrafo da Folha que também é um bam bam bam da Folha, super meu amigo hoje, aí eu: “Jorjão, como é esse negócio de futebol?”. Aí ele: “Ah Rosinha, você não sabe... você não sabe?”. Eu falei: “Jorge, me explica como é o jogo, porque eu nunca assisti um jogo de futebol”. Aí ele falou: “Olha, você tem que ficar esperto, acompanhar a bola”, nunca me esqueço disso. Se acompanhar a bola, porque é superdifícil fotografar futebol, é uma das coisas mais difíceis de fotografar. Ele falou: “Se você acompanhar a bola, você vai ser...” E aí falou: “Olha, tem uns três jogadores importantes: fulano – eu não lembro quem era fulano –, fulano, e ciclano, aí você fica em cima desses caras porque esses caras são bons”. Aí cheguei lá no campo, né, falei: “Quem são, fulano, fulano e fulano?”. “Ah, aquele, aquele” Eu falei: “Tá”. Aí fiquei na minha, sentei lá no lugar, no meio do campo, fiquei no meio do campo aquela pele desse tamanho, porque é gigante, um peso desgraçado, na mão, não tinha nem monopé, porque às vezes você põe monopé, né, mas segura na mão, aí fiquei lá, acompanhando a bola.  Ele falou: “Acompanha a bola” (risos). Em cima dos caras e na bola, aí cheguei no outro dia, eles tirando o maior sarro. Falou: “Puts, ela não vai fazer uma foto!”. Chegou lá emplaquei, acho, não sei se foi capa, a gente emplacava a capa, eles morriam de inveja (risos), toda semana a gente emplacava a capa. Folha de São Paulo, capa: Rosa Gauditano, Eliana, Renata, a gente era, dava, eles não ligavam pra gente, a gente... E aí nesse dia, eles: “Pô, você falou que você não sabia futebol e fez umas puta foto!”. Eu falei: “Gente, eu não entendo nada de futebol, agora, sou boa fotógrafa!”. Vamos… uma coisa é o futebol, outra coisa é sei lá, fazer uma boa foto. Então eles começaram a falar: “Opa, vamos tomar mais cuidado com essas meninas, porque essas meninas estão... arrasando”. Era legal. Então a gente ia ocupando espaço, assim, mostrando, porque o que adianta, porque homem é diferente de mulher, homem chega dizendo: “Não, eu sou o melhor, eu fotografei isso, eu fiz não sei quantas mil fotos disso, aí eu ficava na minha né, aquele monte de homem, de repente nunca tinha feito a tal bola né, do futebol, eu falei: “Bom, vou contar que vantagem?”. A única vantagem é trazer uma boa foto, meu. Várias boas fotos. Nossa, eles ficaram tinindo comigo naquele dia: “Você disse que sabia, mentira...”. Eu falei: “Gente, eu nunca tinha ido”. “Pô, mas você fez umas puta foto!” Eu falei: Ah” (risos). Então assim, quando eu entrei na Folha, na Veja, também, eram vinte fotógrafos no Brasil, só eu de mulher. Na Veja de São Paulo, que era a redação mais importante, é a redação mais importante porque a sede é aqui e o staff mais importante de fotógrafos, era aqui. Então quando eu entrei, porque eu estava, a Veja me viu na Folha e me contratou, me chamou da Folha pra Veja, então eu fui ganhando o dobro que eu ganhava na Folha. Eu não queria ir, eles pegaram, me ofereceram uma grana, eu falei: “Puts, agora eu tenho que ir”. Aí fui morrendo de medo. Aí fiquei pensando: “Eu nunca trabalhei em revista, trabalhava com cor”. Na Folha era só preto e branco, não tinha cor, aí eu estava meio assim insegura e tal, aí um amigo meu falou: “Não, vai”. Rosemberg, que depois foi até meu sócio e é super meu amigo, era chefe da Veja, ele me chamou e falou. Eu falei: “Ah Jorge, não vou, não sei fazer cor, não sei fazer cromo”, morria de medo. “Não imagina, Rosinha, com dois toques você aprende”. Aí eu fui. Tinham vinte fotógrafos e eu de mulher, e eles também, eles ficavam tudo: “Que que essa mulher tá fazendo...”, e cheguei com maior salário do Brasil, porque como eles tinham dobrado meu salário da Folha, a gente ganhava muito bem naquela época. Já ganhava bem na Folha, aí como eles me chamaram e eu não quis ir, eles dobraram, entendeu? Porque eu acho que eu estava emplacando muita coisa legal na Folha. “Pô, vamos chamar essa mulher aí, essa fotógrafa é boa!” Aí eu fui pra lá, ganhando o maior salário que se pagava naquela época, em São Paulo. Porque os salários da Veja, da Abril, eram os salários mais altos e eu depois descobri, que eu fui ganhando mais do que todos os fotógrafos da Veja, eles ficaram “p da vida” que depois: “Ah você ganha mais que a gente, você chegou aqui, você é amiga do chefe”. Eu falei: “Como assim eu ganho mais que vocês?”. “É, você ganha mais do que a gente, porque você foi contratada por tanto e a gente ganha tanto.”Aí eu: “Gente”, e eu não sabia. Eu falei: “Gente, é uma boa oportunidade de vocês irem lá e pedirem aumento. Então vocês vão no departamento pessoal e diz o seguinte: que a Rosa tá ganhando tanto e que vocês querem ganhar tudo igual, porque não é todo mundo igual?” (risos) Aí eles foram reclamar, e eles conseguiram equiparar o salário, aí eles ficaram meus amigos (risos). Mas menina, eu cheguei lá e eles já estavam com quatro pedras na mão: “O que essa mulher veio aqui, fazer aqui, mulher e ainda ganhando mais do que a gente?”. Então tinha que ficar assim, né, porque se você vai de pedrada, os caras te puxam o tapete. É assim que funciona, não é? O mundo. E aí, assim, aos poucos, mostrando o trabalho publicado, as pessoas começaram a me respeitar. Porque o único jeito que eu tinha das pessoas me respeitarem era mostrar o meu trabalho. O que eu ia fazer? Mas eu “pisando em ovos”, porque numa equipe, eu tratava todo mundo bem, né, mas todo mundo numa grande empresa, sabe, homem é uma coisa diferente de mulher, o homem ele é mais, ele é mais combativo, ele compete, é mais competitivo, né, a mulher não é tanto, a mulher vai por outros caminhos, né, isso é uma coisa interessante. Eu aprendi isso, o homem é competitivo, quando ele pode e ele tá no mesmo lugar que você, ele te puxa o tapete, tem que ficar esperto. Se ele não te respeitar, ele te puxa o tapete, entendeu. Então eu percebia que alguém tentava me prejudicar e eu não estava nem imaginando, aí eu falava: “Porra, por que esse cara tá fazendo isso, meu?”. Aí eu falava: “Pô, ele tá com medo, porque eu to ali, ele tá no mesmo cargo que eu, e eu tô fazendo as coisas, de repente tô fazendo melhor que ele, ele tá com medo”. Aí ele tentava puxar o tapete, entendeu? Aí ao invés de dar a réplica, eu ia lá, falava, e ficava amiga do cara. Falava: “Olha, você não quer que eu te ajude?”. Sei lá: “Ah, vamos trocar umas figurinhas”, e assim no fim, todo mundo me amava, menina! (risos). Às vezes quando tinha cobertura grande assim, por exemplo, presidente, cobertura de presidente, é o maior mico né, porque são poucos credenciados... então o presidente vem pra São Paulo, você tem vários jornais e várias revistas, naquela época, né, que os jornais e revistas publicavam foto, porque hoje em dia, nem publicam mais nada. Mas naquela época que os jornais e revistas tinham seus staffs de fotógrafos, então a Isto É e Veja, por exemplo, tinham os seus staffs de bons fotógrafos, quem publicava a melhor foto saía na frente, entendeu? Né, as pessoas compravam a revista porque tinham coisas melhores, então era uma competição. Então, se você tinha um credenciamento, por exemplo, pra presidente da república, que era uma coisa superchata de fotografar, era super careta, mas que você, eram poucos fotógrafos que podiam chegar perto do cara, né, aí você chega lá, tem trinta cara armário, gigante, como é que você vai passar, você pequenininha, na época eu era bem magrinha, mais magrinha, eu olhava e pensava: “Caramba, eu não vou conseguir”. Eles chegavam cedo, eles não deixavam ninguém ficar na frente, então: “Ah, você não tá lá na frente, como você vai fotografar?” Aí eu falava: “Cara, como é que eu vou entrar...”. Não dava assim, eles todos aqueles armários de homem grande, gigante, (risos), tudo forte, e eu “Caraca...”, aí eu olhava em volta, aí eu falava: “Cara, como eu vou me resolver agora?”. Porque eu tinha que fazer a foto, aí eu olhava um muro assim, do lado e pensava: “Cara, eu vou subir naquele muro” (risos). Então, por exemplo, teve um dia quando estava o Tancredo, no Incor, teve lá uma coletiva, uma coisa, puts, não dava pra entrar, eu peguei e subi no muro, então estava aquele bando de homem lá embaixo, e eu em cima do muro. Subi numa escadinha por trás lá, pus lá e fiquei lá sozinha em cima do muro, pelo menos de lá eu via e fotografava. Falei: “Melhor uma foto mais ou menos, do que nenhuma, né”. Ah os caras, não podia chegar lá, e não fiz, nunca você ia chegar e dizer que não fez, né, ainda mais quando todos os teus concorrentes fizeram (risos). Aí de repente, no outro dia, a minha foto saía publicada e a deles não, por quê? Porque tinha vários fotógrafos da minha equipe, lá, porque eles faziam tudo igual, e eu tinha feito uma diferente, de outro lugar, com outro ponto de vista, o editor falava: “Pô essa daqui tá muito melhor, porque olha, ninguém fez!” (risos). É assim, né, a gente tem que fazer as coisas do jeito que a gente..., com criatividade, porque fazer o que, né, não dá pra você ir no mesmo lugar, o tempo todo que todo mundo, entendeu? Então eu acho que isso é uma característica minha também, quando tá todo mundo indo pra lá, eu to indo pra cá, entendeu? Quando tá todo mundo: “Ah, eu quero isso”, eu falava: “Ah eu não quero”. Eu nunca gostei da mesma coisa que todo mundo gosta, sabe, então às vezes eu fico achando: “Será que eu sou um peixe fora d’água?”. Acho que eu sou um peixe fora d’água! Porque as pessoas não gostam das coisas que eu gosto, e eu não gosto das coisas que a maioria das pessoas gostam, (risos), então, às vezes é bom, te facilita a vida, mas às vezes também é difícil. 

 

P/1 –  E Rosa, me conta como foi essa coisa de começar a fotografar os índios, qual foi a tua primeira ida à uma tribo, à uma aldeia, conta pra gente um pouco.

 

R –  É então, eu saí da Veja e fui trabalhar na Fotograma, que era uma agência de fotógrafos, éramos quatro, três fotógrafos, depois viramos quatro fotógrafos e que era assim um modelo, tirada do modelo das agências francesas de fotografia da Magno, principalmente. A Magno era uma agência onde fotógrafos independentes trabalhavam, podiam fotografar o que eles quisessem, se pautavam e ganhavam um dinheiro, sobreviviam com isso, era o nosso sonho né, porque você ficar preso num trabalho, mesmo num trabalho como a maior revista do Brasil, como é a Veja, como era a Veja, não sei se é ainda, você fica muito limitado nas pautas, então a gente sentia, como eu trabalhava em São Paulo, eu tinha que fotografar o tempo todo diretor de empresa, dono de empresa e sabe, vocês ficavam nos escritórios o tempo inteiro, e me enchia a paciência. Tinha dias que eu ficava muito deprimida, de ficar fotografando esses caras, entendeu, porque é sempre a mesma coisa, você fica falando do establishment, as matérias são as matérias da economia, da política, do sacana, dos caras que tão fazendo as coisas, o que não tão, o que tão falando, o que não tão, essa coisa do jornalismo de escritório, né? E eu queria fazer o Brasil, queria fotografar o mundo do meu jeito, entendeu? Eu queria fazer as matérias no Brasil, coisa que as revistas não cobrem, né, o que acontece nas redações? As redações, naquela época já, já era difícil porque o Brasil é muito grande, você mandar um cara pra Amazônia, já só de passagem aérea já é caro, o cara ficar lá dez, quinze dias, ficar desfalcado aqui em São Paulo, vou ter que por um freelancer no lugar do cara, porque o cara tem trabalho aqui e o cara não vai estar, e mais dinheiro, né, você tem que mandar um jornalista e um fotógrafo, é caro. As revistas hoje, ninguém mais faz isso, naquela época já não fazia, hoje em dia, ninguém mais faz, é a coisa mais rara. O que as pessoas fazem? O que as revistas fazem? Elas se pautam, hoje em dia com internet então, é uma desgraça. Ninguém sabe o que acontece nesse país! Você vai pros interiores do Brasil, não precisa ir longe, vai pro interior de São Paulo, as pessoas, as revistas não sabem o que acontece no interior de São Paulo! Sabe, as revistas não sabem o que acontece lá na beira da estrada, onde os xavantes estão, retomaram a terra lá em Marãiwatsédé, que os fazendeiros estão matando gente. Você pensa que, primeiro que sabe, ou às vezes sabe e não quer fazer matéria, porque: “Ah, vou fazer matéria contra o fazendeiro, contra os donos das grandes plantações, que são os fazendeiros”, que são os políticos, que são os caras que exportam cana e soja, que são os caras mais ricos do Brasil; que são os caras que anunciam nas revistas e nos jornais; os políticos, o governo, então, é uma coisa muito louca porque o jornalismo hoje não existe, não existe mais, então o que é que vende? Ah, vende você falar do shopping center que abriu uma loja nova da GAP, não sei aonde... “Ah, isso vende porque as madames compram revista.” Vão lá, vão comprar. “Ah, então a GAP vai anunciar.” Então tudo é assim. Não existe um jornalismo que fale das realidades, das coisas que acontecem. A gente queria falar da realidade, eu queria falar das coisas que aconteciam aqui, né, então a gente pautou. Voltando ao negócio dos índios, por um acaso eu tinha uma amiga que era amiga do pessoal do Instituto Socioambiental, do ISA, e eles estavam na organização do encontro de Altamira, no sul do Pará, que foi em 1989, e aí a Rita falou: “Olha vai ter uma reunião de imprensa, vai lá Rosa! Eles vão fotografar, ver uns negócios de uns índios lá”. Eu falei: “Ah, vamos lá ver né!”. Chego lá, uma coisa que me chamou atenção: não tinha uma imprensa jornalística brasileira, só tinha correspondente internacional, na reunião, por que? Porque falou em índio, falou em pobre, falou em negro, folclore, revista não cobre, não manda jornalista gastar tempo pra fazer pauta. Então nessa reunião de pauta, nessa reunião, já não tinha, a divulgação da imprensa, né, a reunião pra imprensa, não tinha nem Folha, nem Isto É, nem Jornal da Tarde, nem Estadão, nem Diário Popular daquela época né, não tinha ninguém. Aí me chamou atenção, eu falei: “Mas o que esses correspondentes estrangeiros estão fazendo aqui?”. Mas eu, né, uma “freela”, freelancer da Fotograma, dona de uma agenciazinha “desse tamanho” de fotografia. Ai fiquei com a pulga atrás da orelha daquele negócio, aí eu percebi quando eles falaram que ia ser um encontro que iam mais, muitos povos indígenas e tal, eu falei: “Cara, eu vou nesse lugar, porque esse negócio vai dar jogo, principalmente, porque se não fosse dar jogo, não tinha tanto jornalista estrangeiro aqui, olhando que negócio que é esse!”. Entendeu? Aí a gente vivia de pauta, então eu oferecia pras revistas as pautas: “Ah, olha, tá afim de fazer o encontro de Altamira?”. Liguei pra todo mundo, todo mundo me conhecia. “Ah não, índio, coisa de índio, imagina.” Ninguém quis, eu falei, porque eu queria que eles me pagassem na época, filme, que existia filme ainda e era caro pra caramba, filme e revelação e a viagem: avião, hotel... Ninguém quis, e aí na véspera do encontro de Altamira, eu peguei e comprei a passagem, eu falei: “A Fotograma vai bancar isso, eu vou comprar essa passagem!”. Me deu um cinco minutos e eu resolvi comprar a passagem. E comprei a passagem, da Varig, sorte, porque existia Varig ainda, e aí me liga o editor da revista “Ícaro”, da Varig: “Rosa, olha...”. Ah da Varig não, desculpa, Transbrasil, revista, ele trabalhou na Varig e Transbrasil, era Transbrasil, e aí ele falou: “Olha, eu resolvi pautar a viagem lá dos índios, pra você ir”. Eu falei: “Ah Moraes, que coisa boa, comprei a passagem da Transbrasil ontem”. Aí ele falou: “Ah, então tudo bem que a gente vê aqui, a gente tira a passagem e você não paga a passagem”. Porque acho que eu tinha reservado a passagem, não tinha comprado, aquela época ainda se reservava, agora você não reserva mais. Reservava ainda. “Ah eu vou tal dia.” Aí o Moraes me mandou. Aí eu estava lá, fiz as fotos e tal. Puta, foi um puta encontro gigante, menina! Tinha trezentos jornalistas estrangeiros, tinha trezentos jornalistas do mundo inteiro, foi, um fim de mundo, Altamira lá onde estão fazendo o Belo Monte, e foi trinta, e foi 1889, foi uma reunião que foi feita pelos índios contra a usina de Belo Monte, naquela época. Foi lá que eu comecei a fotografar os índios, e quando eu vi aquele monte de gente, eu falei: “Cara de onde vem esse monte de gente? Que monte de gente diferente”. Eu falei: “Gente, quanta gente diferente, de onde vem esse povo?”. Brasileiro, esse aí é o povo brasileiro, aí que eu descobri que existem duzentas, mais de duzentas e vinte etnias diferentes, falando cento e oitenta línguas diferentes no Brasil. Eu falei: “Mas onde que vive esse monte de gente, que eu sou jornalista e não conheço?”. Aí eu me dei conta que se eu que sou jornalista, não conheço, que ando por aí, imagina o povo que tá nas redações? Menos ainda. Aí nesse dia que eu estava lá, que eu fiquei acho que foi uns três ou quatro dias naquele encontro, uma semana, nem lembro quanto eu fiquei, aí todo mundo começa a ligar no meu telefone, não, me procurando, acho que não tinha celular aquela época, 1989, sei lá, eles começaram a me procurar não sei de que jeito, pedindo foto. “Ah, cadê a Rosa?” “A Rosa tá aí?” “A Rosa disse que ia tá lá.” Porque começou a bombar na imprensa internacional, foto do encontro de Altamira, e os jornais brasileiros, eles são tão sem criatividade, que eles não se pautam assim porque é uma coisa, só se pautam, se as revistas estrangeiras, News Week, Times dão, entendeu? Quando eles viram que a Times deram matéria sobre o encontro de Altamira, aí os caras ficaram: “Porra, não mandamos ninguém!”. “Ah, mas a Rosa, lembra aquela freela, tá lá!” Aí eles: “Porra”. Aí todo mundo ficou atrás de mim, né?

 

P/1 –  E Rosa, todo mundo começou a te ligar, e você lá, e como é que foi?

 

R –  Não, eu não estava lá, eu fiz as fotos lá pro Moraes...

 

P/1 – Ah!

 

R –  Fiz um supermaterial, agora que eu tô me lembrando, porque não tinha celular naquela época, porque eu lembro que não tinha Internet. Tinha, a gente passava a foto pela, uma máquina, que tinha que ir pelo fio do telefone, era um negócio não lembro como chamava (risos).

 

P/1 –  Telégrafo?

 

R –  Era tipo um telégrafo, mas era de foto, era Telefoto.

 

P/1 –  Ah.

 

R –  Telefoto, que eu lembro que o João Ramirez que era da Veja de Belém estava com uma Telefoto dessas, lá. Aí eu voltei pra São Paulo, todo mundo começou a me ligar, querendo, aí eu vendi foto pra todo mundo, né, porque ninguém tinha mandado ninguém. Mas aí eu comecei, aí lá que me deu esse insight, e eu pensei: “Gente, esse é o meu trabalho, eu vou começar a documentar esses caras!”. Ninguém conhece esses caras, e eu fiquei muito curiosa porque eles são muito diferentes, né, falando aquelas línguas que você não entende, e se vestindo de um jeito diferente, se pintando de um jeito diferente. Eu fiquei impressionada, como todo mundo fica impressionado, eu voltei no tempo de 1500, porque quando eu cheguei lá, te digo sinceramente né, eu fiquei muito impressionada, foi muito interessante. Né, você, veio gente do mundo inteiro cobrir. Então é que a gente se dá conta que o Brasil tem tantas coisas incríveis, que todo mundo dá valor, menos a gente, né?. E a imprensa brasileira é isso, não dá valor, as pessoas, os brasileiros não dão valor pras coisas que tem, pra cultura que tem. Então além dos índios, eu fiquei, eu fiz também um trabalho antes, desde 1984, sobre festas populares brasileiras, festas folclóricas, todo mundo olhava e falava: “Ai que coisa mais cafona!”. Naquela época era cafona, era antigo, entendeu? “Ai que antigo, que coisa mais brega, foi lá fotografar a festa do Divino, de São Luiz do Paraitinga.” Era brega, sabe, você ia fotografar o reisado, congada no interior, ninguém ia, só ia eu menina, não tinha ninguém, só ia eu e mais uns dois ou três gato pingado freelancer fotógrafo, amigo meu. Eu fiquei fazendo, eu fiz um projeto, porque também assim, eu gostava de fazer, aí eu peguei um mapa do Brasil e fiz um levantamento, uma pesquisa, as quarenta principais festas populares mais legais que ninguém nunca fotografou, que ninguém documentava, aí eu peguei e comecei a documentar isso, durante anos eu fiz isso, e eu propunha pras revistas, pras revistas comprarem pra eu poder ir, né, porque eu não tinha dinheiro pra ir. Às vezes eu conseguia vender, às vezes não, às vezes eu ia assim mesmo. E eu fiquei anos fazendo isso, fiz um grande livro, em 2003 foi editado, chamado “Festas de Fé”, da editora Metalivros, que é sobre festa populares do Brasil, que é o livro mais completo que tem de festas populares, modéstia à parte, de festas populares do Brasil, muito louco. Foram, eles fizeram uma edição de cinco mil exemplares, esgotou rapidinho, por quê? Porque é um livro de referência, virou um livro de referência, porque não tem. Aí as pessoas, eu lembro que o editor, falava pro editor, né, que eu queria que ele vendesse o projeto pra eu poder editar o livro, ele falava: “Mas isso daqui é muito brega, mas você só fotografa pobre, negro e índio”. Eu falava: “Mas cara, pobre, negro e índio é que fazem as festas populares brasileiras, cara, não é os caras que vão no Shopping Ibirapuera que vão, que são do grupo folclórico!” (risos) Aí ele falava: “Mas esse povo é muito feio!”. Eu falava: “Pô, mas é o povo brasileiro, cara, esse é o povo brasileiro!”. São essas pessoas, né, que são essas manifestações folclóricas. Mas no fim, quando virou o governo e uma coisa foi bom o governo do Lula, quando o Lula assumiu em 2003, eu consegui vender todos, dois projetos, meus projetos, eu batalhava há mais de dois anos, de índio, de festa (risos), e isso foi porque mudou a política, mudou o enfoque. Antigamente as grandes editoras de livros só publicavam coisas mais... não publicavam coisas de povão. E nesse ano de 2003 eu consegui vender e a editora conseguiu vender pra um patrocinador livro das festas, e eu consegui vender pra um banco o livro, eu também estava fazendo um trabalho há muito tempo sobre os rituais xavantes, que foi um trabalho que eu fiz durante vinte anos, documentando. E eu não conseguia, menina, fiquei anos procurando patrocínio. Os caras olhavam: “Índio...” Ninguém queria investir, imagina dinheiro de fim de ano em arte de índio, ninguém queria porque é muito complicado, né, assim, a empresa ter o seu nome associada à essa coisa do povo. Com o governo do PT, quando entrou o Lula, eu achei assim que mudou a coisa das empresas, porque as empresas começaram a ter que fazer trabalho social, porque as empresas tinham que mostrar pro governo que elas estavam fazendo trabalho social, porque senão o governo não dava trabalho pra eles, não dava dinheiro pra eles, né, porque o governo financia muitas grandes empresas, então essa coisa do trabalho social, do trabalho que as empresas hoje fazem começou realmente quando o Lula assumiu, por uma imposição, porque o governo começou a dizer que só ia financiar empresas que tivessem trabalhando junto com a população. Então mudou, o Brasil mudou realmente nesse ponto, é uma coisa legal. Agora, hoje em dia, né, se você tem um terceiro setor superforte, que começou nessa época né, as ONGs, as pequenas empresas que trabalham com cultura popular, né, e festa popular virou chique, hoje em dia você tem na Vila Madalena, um monte de curso de festa de ciranda, você vai, vou nas festas das amigas da minha filha, tem ciranda, todo mundo fazendo batuque, vem uns grupos do interior. Menina, isso antigamente era, puts, era assim o ó do... (risos), sabe, negócio que não era legal, e hoje em dia virou moda, isso é uma coisa muito legal, né, a gente tá incorporando a nossa cultura hoje, então assim, o Brasil realmente mudou muito. Agora tem que mudar mais, né, porque do jeito que as coisas estão, com toda essa roubalheira, com todo mundo metendo a mão, as coisas deveriam andar, mas não andam, né?

 

P/1 –  E Rosa, e nessas viagens provavelmente deve ter ido pra diversos lugares de difícil acesso, você chegou, você falou dos xavantes, você chegou a ir pro Acre, Amazonas, conta um pouquinho pra gente.

 

R –  É aí nessa peregrinação dessas fotografias dos índios, eu tenho hoje, eu acho que eu tenho o maior arquivo de povos indígenas do Brasil, de fotos é o meu, isso sem sombra de dúvida, porque assim, eu sou uma pessoa que há muito tempo tô fazendo esse trabalho de formiguinha, com as comunidades. Então, e por conta disso também eu abri em 2004 uma ONG, chama “Nossa Tribo”, pra poder trabalhar junto com as comunidades, pra dar uma força na comunicação, na divulgação do que são essas comunidades hoje, fazer essa ponte entre essas comunidades e a gente aqui na cidade que não conhece nada. Então, por conta disso também, assim eu sempre fotografo e eu já fui no Alto Rio Negro, no Sul do Pará; no Paraguai; em Mato Grosso eu vou bastante porque eu acabei virando da família dos xavantes. Então tem uma aldeia que assim, que são pessoas bem especiais que é o Wederã, lá em Pimentel Barbosa, Etenhiritipá, que é outra aldeia onde tenho grandes amigos, hoje em dia a gente assim, é meio família, eles vêm pra São Paulo, eles ficam na minha casa, assim, se tem algum problema, eles me ligam, a gente tenta ajudar daqui, e na Nossa Tribo nós temos dois xavantes dessa aldeia que fazem parte do conselho consultivo, então a gente não faz nada sem conversar com eles. Eu viajo muito ainda, indo pras aldeias, fazendo projetos com esse povo, e fotografando também. Então assim, é um outro mundo né, gente, realmente é outro mundo. Por isso, às vezes eu paro pra pensar e falo: “Gente, realmente”, é muito difícil porque mudou muito, eu acho que de uns dez, quinze anos pra cá, essas pessoas têm mais visibilidade, governo federal pois muito assim, muitos projetos pras comunidades indígenas poderem divulgar os seu trabalho, pras associações indígenas crescerem né, e aparecerem mais nas cidades e as escolas também, a escolaridade tá aumentando. Eu há vinte e oito anos atrás, quando cheguei em Pimentel Barbosa, tinha uma escola com duas classes de primeira à quarta série. Hoje já tem ginásio, acho que eles já estão colocando colégio, quer dizer, é diferente agora, a escola já é maior, eles já estão com várias salas, na outra aldeia também já tem, hoje já tem telefone, antes não tinha como se comunicar, então tem dois telefones públicos. Na Wederã, o Cipassé, que é o cacique, é uma pessoa bem informada, ele conseguiu antena de satélite, eles têm internet, de vez em quando, quando funciona a gente fala por Skype, então tá mudando, nesses últimos quinze anos, essa região, essa área negra do povo brasileiro que são os índios, né, essa coisa que estava na sombra, começou a sair um pouco da sombra. Agora, a parte de saúde é uma coisa que continua punk, e através da Nossa Tribo eu percebi, porque eu achava que fundando a Nossa Tribo, eu poderia ajudar de alguma forma, essas comunidades, porque tem uma mortalidade infantil muito grande ainda, os índios, as crianças indígenas morrem cinco vezes mais do que as nossas crianças, e morrem das coisas assim, mais ridículas: diarreia e pneumonia, é o que mata todos os povos pobres do mundo, né, e os índios também, então não é uma coisa só dos índios. E assim, eu percebi uma coisa muito triste, fazendo esses trabalhos, eu percebi o tamanho da roubalheira que existe nesse país, é muito maior do que a gente imagina. Então, por mais que o governo federal solte dinheiro pras comunidades, pra trabalho com as comunidades, os funcionários públicos e os políticos que estão no meio do caminho desse dinheiro, roubam esse dinheiro indiscriminadamente. Isso é uma coisa que me deixa muito de baixo astral. Sabe, foi uma coisa assim que realmente percebi como funciona o negócio, é muito punk, por exemplo, a saúde indígena recebe muito dinheiro, muito dinheiro, todo ano. O povo Xavante, que é o povo com quem eu trabalho, recebe um dinheiro razoável que daria pra cuidar deles muito bem, se esse dinheiro fosse empregado. Mas o dinheiro é roubado, o dinheiro é desviado no meio do caminho, é desviado por funcionário, por funcionários da FUNASA, funcionários da FUNAI, funcionários, sabe, por compras que não são feitas, por vendas que não são feitas, por notas frias, por prefeituras, por hospitais, é uma vergonha, mas é uma vergonha assim muito grande. E por que eu tô falando assim com tanta certeza? Porque a gente fez um projeto em 2003 do Criança Esperança que chama “Nutrição infantil povo Xavante”, onde eu consegui assim, um projeto piloto pra essa aldeia Wederã, que são sessenta índios, sessenta pessoas, e nós conseguimos uma verba de cento e dois mil reais pra gastar em um ano pra fazer esse projeto. Com cento e dois mil reais em um ano, eu contratei uma equipe de um médico pediatra, da equipe da UNIFESP, do projeto XINGU, que é a melhor equipe de médicos indígenas do Brasil, que estão acostumados a trabalhar no XINGU há cinquenta anos, contratamos um médico desses, contratamos da universidade lá de Goiânia, contratamos um engenheiro florestal especializado em cerrado, todo mundo ganhando dinheiro como se eles estivesses trabalhando na cidade. Contratamos índios que trabalharam no projeto, compramos uma câmera de vídeo, tipo essa que vocês estão me gravando, compramos filme, e compramos passagem, comida e pagamos todo mundo, com cento e dois mil reais durante um ano. Então (risos) gente, era muito pouco dinheiro, porque era uma média de doze mil por mês, dez mil por mês, mesmo assim nós fizemos um supertrabalho lá com eles, ah, imprimimos uma cartilha e fizemos um DVD de quarenta e cinco minutos, vinte e seis minutos que é o projeto que os índios gravaram, que é o vídeo que os índios gravaram desse projeto. Só com esse dinheiro a gente fez tudo isso, aí você percebe que assim, que vem tanto dinheiro pelo site da FUNASA, pelo site do Ministério da Saúde, não da FUNASA, você pode ver o caminho que o dinheiro vai pra cada município do Brasil. Hoje, o acesso é supercomplicado, mas a gente lá, com ajuda do pessoal lá de uma moça que estava fazendo pós-graduação dela sobre formação de agente de saúde indígena, ela fez essa pesquisa e ela mostrou pra gente na internet o caminho do dinheiro, e você tem quanto dinheiro vai pra cada município do Brasil e quanto dinheiro é pro índio e quando dinheiro é pros brancos. Você tem, o dinheiro sai separado de Brasília, então você tem como saber quanto de dinheiro chega na cidade de Canarana, no Mato Grosso pra uma população de dois mil e quinhentos índios, tá lá “x” dinheiro porque é contado por pessoa, o dinheiro. Então o dinheiro da saúde pública, custa tanto pro governo por mês, aí são tantas pessoas, aí sei lá, são dez reais vezes duas mil e quinhentas pessoas, aí você tem o tanto de dinheiro que chega. E aí você vai pra aldeia e você vê que a aldeia não tem nada, não tem remédio, não tem agente de saúde, não tem médico, não tem enfermeiro, e as pessoas estão morrendo, você vê as pessoas morrendo, eu já vi várias pessoas morrendo por falta de atendimento médico na aldeia Xavante. Então é muito louco, né, porque você vê que não é o governo que não solta o dinheiro, o governo dá o dinheiro, só que os funcionários, os maus funcionários que estão no meio do caminho, desviam o dinheiro. E como as populações pobres não têm acesso à comunicação, eles não sabem que têm esse dinheiro, eles vão receber não sei quantos mil reais de dinheiro pra saúde de Xavante de Canarana. Então a Nossa Tribo, a função da Nossa Tribo, passou a ser isso, sabe? Gente, vocês têm que ir lá. Olha, é assim, assim, assim, vocês têm que ir lá. Chega tanto por mês, vocês têm que ir lá no prefeito e falar: “Olha, quanto de dinheiro veio pro hospital de Canarana? Cadê os leitos dos índios de Canarana?”. Porque você vai nos hospitais de Canarana, não tem cama pros índios, você chega lá, o cara tá no chão. Você vai na casa de saúde indígena, de Barra do Garça, não tem colchão nas camas, as pessoas estão dormindo em cima das camas sem colchão, os doentes, não tem remédio, sabe, e não porque não tem dinheiro, tem dinheiro. E os caras compram não sei, faturam não sei quanto de remédio e não compram os remédios, entendeu? É uma desgraça, é uma desgraça. Eu não sei se o Brasil vai ter jeito se a gente não tirar esse monte de político e esse monte de gente que passa mão no dinheiro, né? Então eu continuo aqui assim com cinquenta e sete anos ainda não acreditando que realmente as coisas funcionam, as coisas não funcionam, as coisas não funcionam, só funcionam pra gente que tá na cidade, pra gente que tá em São Paulo, nas capitais. No interior, menina, olha, você vê os médicos, o médico que é mau médico que deixa a mulher morrer com o nenê na barriga. Eu tenho uma amiga lá que perdeu o nenê assim, sabe, morreu no parto, o nenê, nove meses, estava bem, sabe essas coisas, então assim, são maus funcionários, né, são pessoas, e muita falta de informação, porque nos lugares do interior do Brasil, você não tem muita informação, se a pessoa não tem escolaridade, ela não tem muita informação. Então o legal que tá acontecendo, principalmente com os xavantes, a minha menina dos olhos são os xavantes porque eu trabalho mais com eles, né, eu tenho uma comunicação maior com eles, assim um dos meninos que fez a câmera de vídeo no projeto nutrição, ganhou prêmio de melhor vídeo indígena das Américas, nos festival “Vozes do silêncio”, no México. A gente só ganhou prêmio com o vídeos indígenas que a gente faz. Eles fazem vários vídeos. Esse menino, o Leandro, ele tá hoje em São Paulo, porque ele acabou de chegar de Viena de um congresso que ele foi convidado, sabe, ele falou: “Olha Rosa...”. Ele me ligou do Rio: “Estou editando o material lá da aldeia”. Sabe, ele aprendeu a editar, fez um curso com a gente, tem a câmera, ele tá com a câmera, e grava, e hoje ele é o videomaker da aldeia, e ele é o cara que faz o vídeo da aldeia, e hoje ele é o cara que viaja pra Viena pra mostrar o trabalho dele. Então isso é o legal, eu acho que o caminho é esse, o caminho é as pessoas aprenderem, as pessoas terem escolaridade. Então eu falo: “Olha, vocês têm tudo que ir pra escola, virar médico, advogado, dentista, engenheiro, fotógrafo, cineasta, vocês têm que fazer o trabalho de vocês, não somos nós, né”. Porque o enfoque deles é um enfoque diferente da gente, a realidade deles é muito diferente da gente. O que mesmo eu que sou uma pessoa que convivo bastante com os xavantes, que convivi com eles mais de vinte anos, às vezes eu acho que penso o que é bom pra eles e às vezes eles falam: “Não, a gente não quer isso!”. “Como não?” Aí que eu percebo, gente a minha visão de branco é diferente, a visão deles de vida é outra coisa, pra eles não é importante terem dinheiro, pra eles é importante eles terem a terra, pra eles não é importante eles terem uma posição social, pra eles é importante estarem bem, a família deles estar com saúde, as crianças estarem felizes, as mulheres estarem bem, ter comida. A felicidade pra eles é isso, ter equilíbrio, uma natureza equilibrada sem agrotóxicos, do jeito que tá aquele Mato Grosso lá, não tem mais nada que não esteja contaminado. Menina, o negócio tá tão punk, tá tão punk, eu estive no Mato Grosso há dois meses atrás fotografando os Guarani Kaiowá, que é o povo brasileiro indígena, são mais de trinta mil pessoas que estão na beira das estradas, expulsos das melhores terras do Brasil, por quem? Pelos plantadores de cana e soja. Quem são esses caras? Esses caras são os juízes, são políticos de Brasília, são... Os donos das fazendas de Mato Grosso são todos políticos. Quem são esses caras? São caras que estão hoje ganhando a maior parte do PIB brasileiro, o que é isso? É o dinheiro da exportação da cana e do açúcar, da cana pro álcool né, do álcool da cana de açúcar e da soja. O quer dizer isso? Isso quer dizer que o povo brasileiro original, que são os índios Guarani Kaiowá, estão lá ferrados, na beira da estrada, fudidos, sem comida, sem escola, no sol, embaixo da lona preta, ferrados, enquanto os caras mais ricos do Brasil estão do outro lado da cerca, na terra que era deles, isso é muito louco, né? E eu fui lá fotografar pra um projeto, estava tendo uma colheita de soja, isso há dois meses atrás, tava tendo uma colheita de soja, aquela máquinas, eu nunca tinha visto, são umas máquinas gigantes que o cara fica lá dentro numa cabine de ar condicionado, de vidro assim, você vê o cara lá na cabine, aquele calor ferrado lá fora, e aí ele estava cortando a soja, a máquina cortando a soja. A mesma máquina que corta a soja, ela já mói aquele monte de agrotóxico, são toneladas de agrotóxico, eu fiquei de cabelo em pé, gente, toneladas de agrotóxico, então assim, os caras jogam veneno pra tudo. Então jogam remédio pra plantar né, pra nascer mais rápido, depois deu a soja, pra secar, pra crescer mais rápido, pra dar soja mais rápido, pra secar mais rápido, então eles tinham jogado o treco pra secar, estava tudo seco, e aí a máquina passa pra cortar. Na hora que a máquina passa pra cortar, ela era gigante, um negócio gigante, ela já vai fazendo lá dentro, moendo todas as folhinhas da soja, tirando os grãozinhos, o caminhão já tá lá, aí vem um treco assim, e joga as bolinhas da soja já limpinhas no caminhão. E na mesma hora que corta, ele já planta o milho, e ele já joga o veneno junto pros bichos não comerem sei lá. Então eles já jogam agrotóxico e o milho, na hora que eles tão cortando a soja, gente é tão impressionante! Uns três, aí eu estava fotografando isso junto com um videomaker, comecei a ficar com uma dor de cabeça, e a gente ficou uns vinte minutos só, na estrada assim, e a máquina passando ali e a gente fotografando, aí começou a me dar uma dor de cabeça, mas uma dor de cabeça fulminante, aí eu falei: “Cara, tô me sentindo mal, tô com uma dor de cabeça”. Falei: “Acho que é o calor, vamos embora?”. “Vamos.” Aí a gente entrou no carro e fomos pro hotel, menina, a gente estava indo pro hotel, comecei a passar mal, com uma ânsia, mas uma dor de cabeça fulminante. “Cara, o que eu tenho? Será que eu comi alguma coisa?” – pensando no carro, né? Aí chegando no carro, aquele calor desgraçado, tomei um banho frio, deitei na cama, passando mal, mas passando mal, isso uma cinco da tarde, menina, eu dormi até o outro dia, dormi a noite toda até o outro dia de manhã. Aí a minha amiga bateu lá: “Rosa tu não quer jantar?”. “Eu não.” “Rosa não quer jantar…” E eu gosto de comer, né? (risos) “A Rosa não quer jantar, ela tá doente.” Menina, eu fiquei mal, aí no outro dia nós fomos lá pra escola de novo, nós estávamos fazendo um trabalho na escola, aí eu falei pra professora: “Nossa, ontem eu passei mal”. “Ah é do veneno.” Eu falei: “Que veneno?”. “Do agrotóxico que eles estão jogando aí pra plantar o milho.” Eu falei: “É do veneno?” Aí que me caiu a ficha, a gente se olhou, e o rapaz que estava comigo, também tinha tido dor de cabeça, um dia antes, e ele tinha sentido um cheiro forte do veneno, e aí ele, caiu a ficha, ele foi na internet olhar, aí ele mandou pra mim, eu estava no meu quarto, ele mandou pro meu e-mail e falou: “Rosa, dá uma olhada”. A gente estava em Dourados. Dourados é a primeira cidade do Brasil que, no ranking de morte por contaminação de agrotóxicos e de câncer por causa do agrotóxico, é a primeira cidade do Brasil. As pessoas estão morrendo de câncer, indiscriminadamente, por causa dessa quantidade de agrotóxico que esses caras estão jogando na soja, transgênica. Aí te digo a experiência da soja transgênica, gente, se eu não tivesse visto, eu ia falar que era mentira. Tinha a escolinha né, e aí tinha a casa de reza dos índios, então a gente ia da escola pra casa de reza a pé com as crianças, eu fotografando pela essa estrada que estava lá a plantação. Os caras colheram a soja e plantaram o milho, esse milho começou a nascer, estava desse tamanho, de manhã cedo que a gente passou pra lá, quando a gente voltou de tarde, eu olhei, porque eu fotografei, né, eu fui fotografar de novo, eu falei: “Gente, esse milho cresceu cinco centímetros, ou eu tô ficando louca?”. Aí as crianças caíram na risada: “Cresce mesmo, cresce assim”. “Como assim, cresce assim?” Esse milho transgênico, gente, cresce uns quatro centímetros por dia. Aí a professora falou: “É isso mesmo, Rosa, nós fomos fazer uma experiência outro dia com régua, fomos lá de manhã, medimos o pé do milho (risos), de manhã ele estava assim, de tarde ele estava assim, cresce quatro centímetros por dia. Cresce a olhos vistos, gente se eu não tivesse visto eu não acreditava. Cara, esse é o país que o Brasil tá virando. Cara, é soja transgênica cheia de agrotóxico, fudido, ferrado, os índios na beira da estrada, e os caras enriquecendo. Quem tá vendo o dinheiro lá, quem é que tá vendo esse dinheiro? Eles, porque nós não estamos? Esse é o Brasil da Dilma, esse é o Brasil que o PT tá fazendo, cara. Porque o governo federal poderia organizar um pouco mais essa coisa, não digo não utilizar agrotóxico, porque em grandes plantações você precisa de ter veneno, agora cara, é indiscriminadamente, são toneladas. Agora, vai ver se vai alguém lá, algum cara do governo olhar se esses caras estão jogando mais ou menos agrotóxico nesse treco, que as pessoas estão ficando doentes, que tá todo mundo morrendo de câncer. Aí se você vê as fotos aéreas dessas regiões, por exemplo, da região do Mato Grosso do Norte, Canarana, que de vez em quando eu sobrevoo lá, as únicas áreas de cerrado ainda em pé, são as áreas indígenas. Gente, é só plantação de soja e cana. O Xingu, hoje ele é uma ilha de floresta cercado por fazendas de soja por todos os lados, e o mapa do Xingu, ele é meio reto, ele é assim, assim, assim. De avião você vê certinho o mapa, os caras chegam até a divisa, então você olha de cima, é terra, se tem plantação de soja, é soja, ou então terra e a floresta do Xingu onde os índios estão morando ainda que é a área indígena do Xingu, que é diferente do Xavante né, a área indígena do Xingu, você tem lá hoje acho que são vinte e quatro etnias diferentes, que é diferente da área, das terras indígenas Xavante que são nove terras indígenas e ilhas pequenas diferentes, o Mato Grosso, elas não são juntas, e Pimentel Barbosa, onde eu faço o trabalho é uma dessas manchas de terra. Então de avião, você vê a área indígena delimitada, é o cerrado natural ainda, em volta é soja com veneno, tudo envenenado, então o que acontece? Eles jogam essa quantidade de veneno na água, e eles assoreiam as nascentes, quando passam os caminhões, quando passam essas coisas, ah, fazendeiro não liga, né, uma nascentizinha pequena, o cara nem sabe que tem nascente ali, o que são essas nascentes? Elas são formadoras dos riozinhos que são formadores dos grandes rios. Então quando eles passam com aquelas máquinas, eles assoreiam, não sei se é assoreia que fala, eles passam por cima de tudo e fecham as nascentes. Então aquele treco, tá mudando tudo. Aí: “Ah tá em grande seca” ou  “Ah amazonas tá enchendo, ah o Amazonas tá seco”, porque todos os rios do cerrado, os grandes rios do Amazonas, eles nascem no cerrado. O Xingu nasce no cerrado e sobe, o rio das Mortes vem do cerrado e sobe, ele sobe pra né, então tá tudo sendo afetado, o cerrado ta sendo cortado, mas tá afetando diretamente a Amazônia, porque os grandes rios, eles nascem ali e eles sobem, é que nem as veias. Vai subindo, vai juntando, e cai no amazonas. Então: “Ah, grande seca do Amazonas”, tem lá o efeito do climático que menos geleira derreteu, mas com certeza as nascentes dos grandes rios estão todas ferradas. Então assim, pra mim, o governo federal podia fazer muita coisa, é melhorando as leis ambientais, não dando tanta corda pra esses caras aí, e que por causa do PIB, né, são os plantadores, são os caras que estão trazendo dinheiro pro Brasil, né, exportação, agora poderia ter exportação, poderia ter tudo, agora, podia ser uma coisa mais equilibrada, mas não é. Altamira que tá sendo, que foi aprovada pelo Lula, no último dia antes do Lula sair que ele apagou, que ele aprovou, Altamira não, Belo Monte. O Belo Monte sim, vai mudar a curva do rio Xingu, vai mudar todo uma espécie, uma parte superdelicada do rio, que tem vários povos indígenas morando ali em volta, então é tudo uma meleca, os caras já estão fazendo.

 

P/1 – Mas essa questão da saúde...

 

R –  Ah essa questão da saúde é a mais punk. Tem muito ladrão nessa área da saúde, menina. É uma vergonha, muito funcionário público metendo a mão aí. 

 

P/1 –  Então Rosa, eu vou encaminhar pra parte final… Então eu queria voltar um pouquinho pra parte mais pessoal assim, você falou que tem uma filha, o que ela faz, o que vocês gostam de fazer nas horas de lazer, fala um pouquinho da Rosa no dia a dia.

 

R –  Hã hã. 

 

P/1 –  Pode falar, pode falar.

 

R –  Então, eu tenho uma filha, Camila Gauditano, ela tem trinta e dois anos, fez Ciências Sociais na PUC e fez Antropologia, mestrado em Antropologia, na USP, ela é antropóloga. E a tese de mestrado dela é... sobre as mulheres xavantes, sobre a transmissão do conhecimento das mulheres xavantes. Então imagina, o que eu fiz com a minha filha (risos). Não fui eu que fiz, na verdade, foi ele que fez sozinha, porque eu nem queria que ela fizesse Antropologia, mas assim ela me acompanhava nas férias quando ela era pequena, e quando eu comecei a fotografar os rituais xavantes né, lá em Pimentel, quando eu comecei a fotografar Pimentel, a primeira vez que eu fui, ela estava de férias, e foi um grupo de estudantes alemães que vieram da Alemanha pra conhecer os índios xavantes, e aí foi um ônibus, e aí a gente aproveitou  levou, eu levei a Camila e uma, as pessoas que estavam organizando também levaram as filhas que tinham a mesma idade, e aí o primeiro contato da Camila com os xavantes, foi em 1991, foi a primeira vez que eu fui, ela foi comigo, e o bichinho assim do amor bateu, e ela trabalhou no Instituto Socioambiental cinco anos, ela acabou fazendo a tese dela de mestrado sobre as mulheres xavantes. Eu fiquei muito orgulhosa, e os xavantes mais ainda, quando souberam, nossa, ficaram muito emocionados, porque viram ela crescer, né, a primeira que vez que ela fo,i ela devia ter uns doze, treze anos. Eles acompanharam a trajetória dela, e hoje agora ela é mãe, né, e aí tá aí com um nenezinho pequenininho, casou, tá com nenezinho de dois meses, mais bonitinho, o Martim, e é né, eu vejo assim de um jeito ou de outro é a minha continuação, essa coisa de filho e neto é muito legal, nossa eu tô a vovozinha mais coruja (risos).

 

P/1 – (risos) E Rosa, de toda essa trajetória, desde que você começou a fotografar até hoje, quais você acha que foram os maiores aprendizados pessoais que ficaram com você?

 

R –  É eu acho assim que a coisa mais importante que eu observei em todos esses anos né, nas aldeias e observo ainda nas aldeias que eu vou, é o jeito certo de viver, é o jeito deles. Eu acho que as coisas mais importantes, a coisa mais importante do mundo é você ter uma família, né, você ter amor e você viver num mundo equilibrado. Então, as aldeias, os índios, eles querem isso, eles querem viver bem, ter comida, trabalhar pra comer, plantar, dar risada, passear nas terras deles, sabe, e apreciar a natureza, essa acho que pra mim, é a grande riqueza que a gente tem, não tem outra, então, eu acho que todas as outras coisas que a gente na nossa sociedade acha que é importante, pra mim elas não são importantes. E eu acho que por isso eu me identifiquei tanto com os índios, porque no fundo, no fundo, eles é que estão certos, a vida deles é equilibrada, e eles realmente são felizes. Você chega numa oca xavante, numa casa xavante onde moram trinta pessoas. Uma casa um pouco maior que essa sala aqui, mora uma família, o avô, a vó com todas as filhas, os maridos das filhas e os netos e os bisnetos. Você olha pra aquelas pessoas, você fala: “Gente, parece tão pobres, tão feinhos, assim com as roupinhas sujas tal”, mas na vida íntima deles, na intimidade, eles são muito mais felizes que a gente. Eles são muito mais tranquilos, eles são muito mais equilibrados, eles cuidam dos filhos como ninguém da nossa sociedade cuida, eles cuidam muito bem das crianças, eles dão educação primorosa pras crianças, eles, a gente não sabe nada. Eles têm um conhecimento... Cada vez, depois desses vinte e poucos anos ainda, que eu convivo com os xavantes, cada vez eles me surpreendem, porque eles não são pessoas que ficam contando das coisas deles, então, às vezes você observa, você tá lá um tempão, e eles são muito na deles, então você não percebe as coisas, de repente você descobre alguma coisa, você fala: “Nossa”. Eles falam: “Ah, é assim mesmo”. Então eles são muito na deles, e eles têm um conhecimento milenar, que também eles não falam, de como é a estrutura deles, é supercomplexa a estrutura de uma aldeia xavante, é supercomplexa, a gente não tem ideia. As leis que regem tudo, olha, pra você ter ideia de uma coisa que eu acho bárbaro, genro não fala com sogra (risos). Eu acho o máximo. Os genros não podem falar com sogra. O Kaime, meu amigo... “Fala lá com aquela senhora.” “Não, eu não posso porque ela é minha sogra, eu não posso falar com ela.” Falei: “Como não?” “Não, genro não pode falar com sogra”, é uma norma. Gente, quer coisa mais inteligente do que isso? Outra coisa, eles são polígamos, os xavantes, ele pode ter uma mulher, duas mulheres, três mulheres, até quatro mulheres se ele puder sustentar todo mundo, e é uma coisa muito engraçada porque às vezes eles têm uma ou duas mulheres, elas convivem na mesma casa, todas têm filhos com o cara, ele trata as três, tem um lá que tem três, ele trata as três com o maior respeito, as três. O que ele dá pra uma ele dá pras outras, o que ele faz pra uma, ele faz pras outras, o que ele cuida do filho de uma, ele cuida do filho das outras igual (risos) é uma coisa de equilíbrio, minha filha, que na nossa sociedade não existe, porque o que acontece na nossa sociedade, a gente diz que a gente tem, os homens e as mulheres, diz que não existe poligamia aqui, né, então o cara tem uma mulher, e tem uma amante, duas amantes, tem uma novela aí que o cara tem três amantes né, três mulheres diferentes, então, é uma coisa normal no Brasil isso, só que os caras, não tem a oficial que é a mulher aí tem a amante que não é oficial, às vezes o cara gosta mais da amante do que da mulher, não é assim? (risos) E eles não, eu achei esse negócio tão honesto da parte deles, essa coisa da poligamia, e tem leis tão organizadas, porque não é uma zona total, é tudo organizado. Então assim os costumes são refinados, são coisas refinadas. Sabe assim, você não acha que são uma coisa muito mais honesta já que você gosta das três mulheres, você ficar com as três na mesma casa? (risos) Não é muito mais honesto, pensando aqui, tirando a moral? E aí é muito louco, por exemplo, uma sai, a outra fica com os dois nenês, ela amamenta os dois, tem dois nenês amamentando, ela amamenta os dois. Então elas cuidam, um cuida da outra, uma ajuda a cuidar do filho da outra, é uma beleza, então assim, é muito interessante, eles são muito mais equilibrados do que a gente. Você não vê ninguém falando alto, você não vê ninguém brigando, as pessoas estão sempre felizes, estão sempre rindo, estão sempre de bem com a vida, cara, aqui não, a gente tem que ir pro psicólogo, ó aqui falando, tô igual psicólogo hoje, né, falando, falando, falando, eu estava meio estressada hoje, te confesso, cheguei aqui, eu estava cansada, eu estava mal, você começa a falar, falar, falar, você melhora, né? Então lá não tem essa coisa da pessoa ficar de baixo astral, tá com raiva, ah assim, tem certas lutas, por exemplo, tem um, o primeiro, os xavantes, os rituais, eles passam os rituais desde a idade de dois anos até a idade adulta, que isso é o trabalho que eu fiz no livro de fotografia, né, que chama “A raiz do povo Xavante”. Então assim, o primeiro ritual participam nenezinhos de dois anos, criancinhas bem pequenas, porque o Xavante é dividido em dois clãs: então quando as crianças estão brigando muito na aldeia, os velhos falam: “Ih temos que fazer o Oi’o que essas crianças estão brigando demais”. Aí eles fazem esse ritual do Oi’o. O que é o ritual do Oi’o? Os dois clãs que são sempre competitivos, que casam entre eles, a mulher é de um clã, o homem é do outro, eles sempre, eles fazem assim, são intercâmbio, então as crianças de dois clãs, elas se organizam, pinta, tem todo um ritual, e aí eles têm que brigar, eles têm que lutar, e aí nessa luta quando acaba o Oi’o, fica uma beleza, minha filha, porque daí ninguém mais quer brigar, não tem espaço pra você brigar (risos). Então o ritual faz os caras porem pra fora, as raivas (risos), então a criançadinha, eles brigam até... Então é uma coisa muito legal, porque serve pra desestressar, né, e serve pra criança aprender as regras e aos pouquinhos passando todos os rituais durante a vida, são muitos rituais, ele vão aprendendo regras e eles vão crescendo intelectualmente porque eles vão recebendo informações dos mais velhos, então eu acho que é isso que eu aprendi mais, sabe. Eu me identifico hoje muito assim, e ao mesmo tempo teve uma época, te confesso que eu fiquei muito entre dois mundos assim, porque você entra tanto dentro desse outro mundo diferente, que você fala: “O que eu tô fazendo aqui, cara, eu devia ter nascido lá, devia tá lá”. Aí eles falam: “Rosa, você tem alma xavante”. Eu falo: “Não, eu sou branca”. “Não, você é xavante, você nasceu xavante.” Aí chegou um tempo que eu até meio que incorporei isso, porque de tanto que eu convivia, que eu pensei: “Cara, mas...”. Não é, entendeu, porque eu tô aqui, né, e eu não posso viver do jeito que eles vivem lá né, ficar lá, passando todas aquelas porque é uma vida simples, e é uma vida muito pobre também, a gente tá acostumado com a boa mordomia aqui na cidade. Chuveiro quente, por exemplo, é uma mordomia, eu sinto falta quando eu vou na aldeia, eu falo: “Gente, dez dias tomando banho frio, eu quero chuveiro quente”. Então certas pequenas coisas que a gente incorporou na nossa cultura, na nossa vida, no nosso jeito de ser. Agora, eu acho que são as pessoas sábias do Brasil. Os sábios não são os intelectuais, os caras que leem, que estão aí dando aula nas universidades, os sábios são esses caras. Esses caras têm coisa pra ensinar pra gente. Olha o que eles conhecem de cerrado, por exemplo, o Xavante, o que eles conhecem, cada planta, cada bicho, cada coisa pra que serve. Gente, olha, tem um velhinho lá, o Cidaneri, que eu sou da família dele, o meu vovozinho lá, o Cidaneri, que pediu pra fazer o projeto Nutrição Infantil, ele que pediu pra mim, ele falou: “Rosa, eu quero que você faça um projeto porque o meu povo tá morrendo, porque a alimentação mudou desde que vocês fizeram o contato. E nós provamos no projeto por “A mais B” que o Cidaneri tinha razão. O projeto é “Nutrição Infantil”, é sobre nutrição, né, então foi todo um projeto, uma pesquisa sobre nutrição, o que comia antes, como eram os costumes antes, o que come depois do contato, foi toda uma pesquisa que foi feita lá, pela universidade de Goiânia, tal, pelas mulheres lá, as nutricionistas. E realmente a gente provou que Cidaneri estava certo. O Cidaneri, gente, ele sabe mais do que qualquer doutor de qualquer universidade do mundo, o que aquele homem conhece cerrado, cada planta pra que serve, sabe, cada remédio que tem ali, cada, gente, e muito minucioso. São conhecimentos que vêm de gerações milenares, de muito tempo, milenares não digo, mas que vêm de muito tempo, e essas informações são passadas pras pessoas e são conservadas por aquelas pessoas. São informações científicas, então é um negócio muito louco, a gente não tem ideia, sabe da sabedoria que essas pessoas têm, a gente não respeita, eu descobri isso assim um pouco convivendo porque eu também no começo, falava, eu só ficava pensando se as fotos tinham a luz bonita, se o céu estava azul, se o cara estava pintado bonitinho, no começo pra mim era aquela coisa visual, mas depois quando eu fui entrando, fui conhecendo, eu falei: “Gente, é um outro mundo”, e eu acho que eles é que estão certos, nós que estamos errados, estamos aí ferrando tudo, envenenando tudo, cortando todas as matas, o mundo aí, o oceano subindo, as geleiras derretendo, e os caras metendo a mão na grana e deixando as pessoas morrer de diarreia e de pneumonia. Eu acho que isso é a coisa mais importante.

 

P/1–  Agora pra gente encerrar eu queria te fazer mais uma pergunta, eu queria perguntar o que você acha desse projeto de recuperar a história das pessoas, voltar lá atrás, como é que foi pra você sentar na cadeira, contar a tua história aqui.

 

R–  Eu acho que foi muito legal porque você para pra pensar, fazer assim um movimento de análise, uma coisa que me surpreendeu, que eu não lembro o nome do meu avô paterno, o pai do meu pai, até vou tentar saber, porque gente, eu não sei o nome dele (risos), mas eu acho assim, que é legal esse projeto porque é documentar o que as pessoas, as histórias, as percepções que as pessoas têm do mundo, eu tenho a impressão que vocês devem ouvir altas histórias diferentes, que deve ser bem legal trabalhar aqui. Que é muito legal saber as experiências das pessoas, eu aprendi muito fazendo entrevistas assim, grande, grandes entrevistas com pessoas interessantes, cara, o que as pessoas falam tipo, Tom Jobim, foi um cara que eu tive o prazer de fazer uma grande entrevista com ele uma vez. Ver ele falando o que ele pensava do mundo, da vida né, então assim pessoas como sei lá, Alceu de Amoroso e Lima, o que ele pensava, sabe grandes escritores, grandes pessoas, sabe, as pessoas tem percepções do mundo incríveis, então deve ser muito legal, né, vocês estarem aí do outro lado e pra gente que tá sentado aqui, também acho legal, porque de repente o meu ponto de vista tá aí documentado, e aí vai ser divulgado, de repente tem um monte de gente que pode achar legal a apoiar e mudar o jeito de pensar às vezes, das coisas porque a gente parar pra pensar.

 

P/1–  Então Rosa, muito obrigada, a tua história é incrível.

 

R–  Obrigada você. 

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