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História

Retrato de um artista

História de: Jorge Francisco de Carvalho Mello
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/11/2013

Sinopse

A entrevista de Jorge Francisco de Carvalho Mello foi gravada pelo Programa Conte Sua História no dia 19 de setembro de 2013 no estúdio do Museu da Pessoa, e faz parte do projeto "Aproximando Pessoas - Conte Sua História". Jorge Francisco de Carvalho Mello nascido em cidade pequena e filho de comerciantes extremamente religiosos conta uma trajetória de sair de cidade pequena e ir atrás do seu sonho de Músico. Jorge conta que sua decisão pela música vem desde os 13, 14 anos, depois de desistir da ideia de virar padre. Aprendeu a toca sanfona sozinho, apenas ouvindo e mexendo no instrumento. Sempre esteve ligado a música, aprendendo partituras, compondo e a partir dos 14, 15 anos já compunha músicas que hoje são gravadas. Conta também sua ligação forte com a literatura de cordel, o depoente tem uma coleção de com mais de 16 mil livretos catalogados e guardados. Uma pessoa muito sonhadora e determinada a seguir seu sonho até o final.

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História completa

Meu nome completo é Jorge Francisco de Carvalho Melo. Nasci no interior do Piauí, em Piripiri, no dia 27 de novembro de 1948. Depois da minha mãe também ter juntado um dinheirinho por ser funcionária pública federal, foi que ela disse: “Olha, com meu casamento vão me transferir aqui da cidade, já me falam isso demais, só não me transferem porque eu moro com meu pai, minha mãe velhinha também. Vão me transferir daqui. Pra cidade que a gente for a gente vai montar uma estrutura fixa pra você, que é um comércio”. Então juntou o dinheirinho deles tal e eles foram pra Batalha, que é uma cidade perto, também uma cidadezinha de dois, três mil habitantes. To falando de vilazinhas, e lá papai investiu na atividade comercial, montou uma quitanda, uma bodega. Bodega é aquele lugar onde você compra um cigarro, ela vende de um a um cigarro, você compra 100 gramas de arroz, porque é o que o cara pede. Fumo, pedacinho de fumo de um, dois dedos, dá praquele cidadão. É uma bodega. Mas também tem, pensando assim hoje, de chinela japonesa à acordeão. Cofre a fumo, entendeu? É um empório, tem tudo. Papai teve isso a vida toda. A casa do meu pai era um quintalzão imenso perto do centro da cidade, quer dizer, no miolo da cidadezinha de Piripiri, uma casa grande com um quintalzão imenso cheio de fruteiras. Porque o meu pai por ser um cabra do interior e sem formação, ele não tinha contatos com aquela coisa formal que a gente chamava os ricos da cidade, os doutores, o filho do médico, tal tal, com quem eu jogava bola. Mas minha mãe tinha porque a função dela é uma função social de empregada pública, mas de papai foi sempre de bodeguerão bruto lá do mercado. Sempre aquele bodeguerão. Nunca bebeu, era ele que abria e fechava a igreja cinco horas da manhã, minha mãe fechava à noite, religiosíssimos os dois, e de uma ética ímpar. Os circos que vinham no interior que se armavam tinha um terreno vazio e o nosso quintal era parte do muro do circo pra fora, e isso me divertia muito. Me deu essa coragem até de dizer ao papai, 14 anos: “Eu to indo”. Quando eu fui embora ele botou um bilhete dentro da minha mão, que é a contracapa do meu primeiro disco, você vai ver. O bilhete dizia. Eu disse pra ele: “Papai, estou indo embora. Eu preciso, você sabe”. Só tinha três chances de uma pessoa que mora no Piauí se educar, três chances: fazer um concurso daqueles que tem em capa de gibi, você compra um gibi da Luluzinha, um gibi do Tarzan, a última contracapa é: “Faça o concurso de sargento” e eu preenchia todos pra ver se me chamavam. Fui chamado em um deles pra Agulhas Negras, mas não fui. Ou você saía para o seminário, porque os frades te levavam e tu se educava, vários colegas meus assim optaram, minha mãe queria pra mim esse destino, ser padre: “Não, Jorge Melo quando chegar nos 14 anos a gente leva ele pro seminário e ele vai fazer carreira, vai virar frade”, que é o franciscano. Lá tinha um seminário de franciscanos na região e os frades de lá eram franciscanos, e era a segunda opção, que na época me agradava um pouco ainda, quando criança. Depois que eu conheci Beatles com 13, 14 anos, conheci Chico Buarque, conheci Gil, aí essa opção pulou fora. A sanfona, o papai vendia, ele tinha no seu comércio. E o Luís Gonzaga era quem ditava o sucesso, era sucesso total. E todo mundo comprava aquela sanfona, só que elas iam ficando lá na bodega, elas iam ficando no balcão e eu ficava atrás do balcão mexendo, e aprendi de ouvir, sem ninguém me ensinar. Mas, quando chegava nas férias, meu pai me mandava para uma outra cidade onde eu ficava num hotel sozinho, com nove anos, hospedado durante o mês de férias e as férias de fim de ano que são três meses. E lá eu aprendi a ler partitura com dona Edne, professora de música da cidade vizinha chamada Campo Maior, se fosse aqui Campinas. Lá eu aprendi, estudei, aprendi partituras. Hoje eu faço show lá na Abril e já falei lá dentro. Eu disse: “Rapaz, eu tenho uma coleção que vocês aqui não têm”. Eu tenho todas as revistinhas de Tarzan. Do Fantasma, olha a cabeça de um moleque sonhador, do Fantasma eu tenho mais de cinco mil revistinhas, é um universo louco. Isso minha mãe não gostava, meu pai batia muito em mim porque eu lia aquilo. Cordel, hoje uma das maiores coleções de cordel do mundo é a minha, eu tenho 16 mil livretos de cordel lidos e catalogados porque eu nunca joguei fora. Todos aqueles vendedores de cordel, seja aquele ceguinho da rabeca, ou aquele vendedor de cordel da praça do mercado, eu ia lá, comprava um e guardava. Eu ia lá no dia seguinte, comprava outro e guardava. Até que agora, como intelectual morando em São Paulo, eu vi que eu tinha um ouro porque ninguém guardou cordel da década de 20 e da década de 30 senão eu. Eu preservei a cultura popular, a cultura e a memória popular do Brasil, guardei tudo. Eu compunha desde criança, desde sete, oito anos, tenho música minha desde pequenininho. Sempre musiquinha infantil, não tinha valor nenhum. Mas a partir de 14, 15 anos já tem músicas minhas gravadas. Eu tenho mais de 300 músicas gravadas, algumas eu tinha 15, 16 anos quando eu compus. Eu fui diretor musical em Fortaleza com 18 anos de idade. Contratado e já tinha um programa dirigido por mim. Aí eu botei nesse programa quem? O Fagner, o Belchior, eu chamei a rapaziada que eu já conhecia das universidades, não só os profissionais. Esse programa chamava “Porque hoje é sábado”, que eu dirigi, o primeiro que eu dirigi. E chamei o Belchior para dirigir comigo parte musical. Era eu e ele dividindo esse programa. Dois anos depois, já com patrocínio, tal, o programa cresceu e virou “Gente que a gente gosta”. Nesse a gente já trazia um artista daqui do Sul pra lá, por exemplo, Jorge Ben, e ele nos via junto com a gente, duas horas de programa cantando junto, tal. Assim a gente se vendeu para o artista daqui, a gente se mostrou pra rapaziada daqui. Escolhemos o Rio porque eu tinha um contrato de trabalho com a TV Tupi, eu fui diretor musical da TV Tupi. Eles foram lá, e lá vendo o meu trabalho, a dinâmica que eu dei na TV Ceará, que era deles, TV era do Sistema Associados, a TV Tupi era dos Diários Associados, do Chateaubriand. E eles falaram: “Uma pessoa como você merecia ser muito importante no Rio”. Quem me chamou foi Manoel Carlos e a Cidinha Campos, esse que hoje faz novela pra Globo. Aí eles foram lá, conversaram comigo, lá no Bar do Anísio. Disseram: “Jorjão, você tá certo, tá na hora. E tem emprego pra você no Rio”. Aí eu vim e assumi a direção musical do programa Dia D da Cidinha, do programa A Grande Noite, do Isaac Karabischevski, o maestro, do programa do Ivon Curi, Na Tarde e no programa da Edna Savage de manhã, na TV Tupi. Com isso eu montei uma estrutura no Rio e todo mundo hospedava em minha casa. É uma aventura muito louca, muito maravilhosa. Se você perguntar: “Jorge, você faria tudo de novo?” “Exatamente igual, não mudaria uma nota”. Tenho hoje muitos sonhos. Sonhos totais. Escrever muito mais do que estou escrevendo, exercitar a minha criação até o último dia de minha vida. Comecei também a fazer uma atividade que é a pintura. E ampliar esse meu sentido na Literatura. Ampliar, buscar formas novas, textos novos, características novas.

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