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Retalhos da minha história

História de: Patrícia Freire
Autor: Mauricio Dias Duarte
Publicado em: 17/04/2019

Sinopse

Na entrevista, Patrícia Freire de Almeida inicia sua trajetória contando suas origens familiares, onde tanto tuas origens paternas como maternas são provenientes de Pernambuco, muito embora tenham se conhecido em São Paulo. Sua infância em São Paulo é lembrada pelas suas vivências no bairro do Parque São Lucas e posteriormente no Jardim Iguatemi, ambos na Zona Leste de São Paulo, mas em regiões bastante distantes uma da outra. As brincadeiras de criança, sobretudo relacionados a vida familiar junto de suas irmãs e irmãos, também são perpassadas as responsabilidades de um para com o outro, assim como a convivência de perto as máquinas e práticas de costura, onde prática profissional e de moradia se apresentavam sempre imbricadas. A aproximação do trabalho com costura desde pequena aparece em suas falas tanto do ponto de vista do desgaste e dos aspectos dolorosos da prática, mas também como uma experiência que hoje ela sempre traz em seu trabalho como produtora cultural, como na conexão com o mundo e com as pessoas através do mundo do trabalho, vendo nessas formas possibilidades de construção. Em sua adolescência destaca sua inserção ao Ensino Superior, no curso de História, e seus primeiros contatos com a questão do patrimônio histórico e com a produção cultural, um mundo completamente novo para ela tanto de atuação, quanto de experiências possíveis somente a partir de um projeto encaminhado por meio da um programa universitário, Universidade Solidária, em Alagoas, seu estágio na Casa de Cultura de São Miguel Paulista, e sua participação junto ao NUA (Nova União da Arte), estes dois últimos na Zona Leste de São Paulo. A participação junto a eles trouxe contato junto ao Movimento Cultural da Penha e a Comunidade do Rosário dos Homens Pretos da Penha de França, culminando em sua mudança para o bairro da Penha e o engajamento direto em diversas ações culturais ligadas tendo como eixo a questão dos patrimônios históricos, tendo como um dos desdobramentos os processos que deram origem ao Grupo Ururay, grupo do qual se desenvolve ações em rede para valorização dos patrimônios históricos e culturais da Zona Leste.

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História completa

Meu nome completo é Patrícia Freire de Almeida, eu nasci no hospital São Cristóvão, na Mooca, em São Paulo. Sou filha de pais nordestinos que vieram para cá com meus avós, se eu não me engano na década de 50, 60, mais ou menos, acho que foram várias fases de vinda da família. Meus pais se conheceram aqui em São Paulo, mas ambos vieram de Pernambuco, de regiões diferentes, e quando chegam aqui se encontram, se casam e vão formar a sua família. Sou a segunda de uma família de cinco filhos, nasci em 83, na década de 80, 10 do 6 de 1983. Minha mãe se casou nova, aos 15 anos, com meu pai, uma coisa meio arranjada, eles não admitem, mas é um pouco isso, porque minha mãe já estava ficando mocinha, precisava arrumar alguém para ela. Aí nessa o meu pai trabalhava na mesma empresa que meu avô, e ele falou: “tem um cara legal lá, o seu José”. Aí foi que se aproximaram e casaram. Ela já era costureira, trabalhava com costura, minha avó também, mas era uma costura mais por encomenda. Chegava alguém, arrumava calça, fazia roupa para a família toda, era isso.


Meus pais quando se casaram foram morar no Jardim Iguatemi, mas pela distância do trabalho do meu pai, que era no centro, fizeram de tudo pra morar num bairro mais próximo da região central, indo pro bairro do São Lucas, onde passei minha infância e tenho mais recordações. Vão morar com os 5 filhos, como eu disse. São três mulheres e dois homens. Os mais novos são os homens. A gente vai morar em casa de aluguel, porque é década de 80, inflação pegando, abertura política, está um arranjo social ainda muito forte, ainda era isso de pouco trabalho e o que tinha se apegava para não perder, era aquele medo de investir muita coisa. Mas ao mesmo tempo, eu lembro que uma época meu pai começou a comprar coisas em casa, enceradeira, batedeira, é uma coisa que eu lembrei agora e depois eu vejo onde liga do ponto de vista econômico do Brasil. A gente pagava aluguel, minha mãe trabalhava em oficinas de costura e meu pai trabalhava em restaurantes na região central. A gente ficava em casa, todos novinhos, a gente nunca teve alguém que cuidasse da gente, era um cuidando do outro. Eu tinha seis, sete anos, apesar de eu ser a segunda mais velha, a minha irmã mais velha, eu cuidava mais dela do que tudo, porque ela era muito terrível. A Michele era difícil, era muito brincalhona. Então esse senso de responsabilidade, de cuidar um do outro, eu já tinha que ter de imediato. Minha mãe saía para o trabalho e falava: “cuida do seu irmão”. Já tinha depositado essa responsabilidade mais para cima de mim. Nesse período, criança, a gente ia para a rua, ela deixava a porta fechada, mas a gente descobriu onde estava a chave e descia. A gente morava em uma vilinha, eram várias casas de aluguel, uma área social, então tinha um portão que dividia para a rua.


A questão da escola é interessante. Porque essa escola que eu estudei era uma escola incrível. Era uma escola pública, resquício ainda de um período da década de 80, eu lembro que tinham muitos professores que eram muito PTISTAS, eram muito aguerridos com a questão da educação. Não escondiam essa bandeira política, eles falavam abertamente. Eu era pequenininha, não entendia muito bem, mas minha mãe falava: “os professores de novo falando de política”? Eu lembro que ela ia nas reuniões comentando isso. Mas eu acho que talvez por isso preservou uma estrutura mínima de uma boa educação na escola.


Como eu estava em um bairro que eu diria que tinha muitas pessoas com um poder aquisitivo um pouco melhor, eu convivia com famílias que tinham já uma certa estrutura. Minhas colegas falavam de ter viajado, ido para a praia, eu ainda não tinha aquela situação, mas eu ouvia e achava super máximo. Isso foi até a terceira, acho que quarta série. Aí foi quando eu cheguei em casa e recebi a notícia que a gente ia se mudar. A gente ia para um bairro mais a leste, mais para a periferia. Despedimos dos colegas, da escola. Aí falaram: “a gente vai para lá porque vai sair do aluguel”. A gente vai morar na casa no mesmo terreno da minha avó. Como eu falei, minha avó já veio para São Paulo e tinha uma casa no Iguatemi, então tinha uma casa vaga. A gente ia para lá. Eu falei: oba, a gente vai sair do aluguel, vai desafogar um pouco. Minha mãe estava contente, foi uma época que ela estava muito contente e meu pai também, só que para ele ia ser mais difícil, porque mais tempo de estrada todo dia para ir para o trabalho, e ela ia ter que se arranjar com outros trabalhos. Ela estava inclusive pensando em formar uma oficina de costura. Até aí tudo bem, a gente foi ver escola, eu fui estudar na escola que ela estudou.


Esse período foi o período que ela ficou mais tranquila, porque ela viu uma perspectiva de ganho. Foi também quando a gente se colocou para ajudar ela no arremate, na organização, nessa época eu aprendi a cozinhar, fazia faxina, ia para o mercado, fazia tudo dentro de casa eu e minha irmã mais velha, mas a Michele não tinha tanta responsabilidade. Mas era muito excessivo e pesado aquilo para uma criança pequena. Eu ia sentir depois isso. Na época eu juntava com brincadeira, mas não era muito fácil não.


De novo casa pequena, então ela improvisa, esquece sala na casa, é quarto, oficina de costura e cozinha. Tudo junto. Teve uma época que a gente colocava o beliche no lugar onde era a oficina de  costura. Era a casa do meu tio, a principio ele pediu pra deixar a garagem livre pra ele deixar o carro, mas quando ele viu que estava tudo apertado pra minha mãe liberou a garagem para minha mãe montar oficina na garagem, mas continuou não tendo sala porque ai foi colocado dois beliches na casa. Foi ai que eu aprendi a costurar, acho que eu tinha 13 anos.


Me lembro que de criança eu que pedi para costurar, eu já era altinha então já alcançava, fazia coisa fácil, controlava a máquina, fechava argolinha, fazia manga. Minha irmã mais nova também aprendeu, eu tinha 13 na época, Andreia tinha 10, aprendeu. A Michele um pouco depois aprendeu também. Aí veio uma fase que era a fase da costura. Nossa rotina de brincadeira diminuiu e a gente trabalhava muitas horas. Minha mãe nunca colocou ninguém para trabalhar nessa época com ela. Era ela e a gente. Meu pai continuou trabalhando como cozinheiro, ia todo dia super cedo, chegava super tarde. Posso falar que eu gostava de costurar, mas não gostava da questão intensa da costura. Até hoje eu gosto. Adoro, porque depois eu vou para a escola de teatro e vou fazer figurino. E agora eu passo na USP também com moda. Essa parte de desenvolver a peça, ter noção de molde, cortar, foi fascinante para mim. Concertar roupa, criar, adoro. Fora daquele ambiente eu mergulhei na leitura, também por uma dificuldade de me adaptar na escola, chegando a ler uns três livros por semana quando não tinha oficina, mas via que também era para a cabeça sair. Quando você costura é muito mecânico, era o tempo todo aquele movimento. A sensação que eu tinha era que você ficava imaginando mundos dali. E você tirava repertório dos livros. Eu não gostava muito de TV, é engraçado isso. Eu gostei de TV até toda aquela fase da cultura. Mas quando adolescente eu não gostava muito de TV, não me interessava muito. Mas a leitura acessava uns espaços diferenciados. Era outro mundo. Um dos primeiros livros que eu li foi voltado para a idade, indicado pelo professor, a sala de leitura da escola que eu estudei do Padriuso, a sala de leitura da primeira escola era incrível, essa também eu tive a sorte de ser ótima. Era uma coisa linda. E as professoras de lá me adotaram, porque viam que eu gostava de ler, enquanto pegavam um livro ou outro eu pegava dois, três, deixavam eu pegar mais. Viam que eu estava super interessada.

 

A experiência da costura tem horas que você fica na imaginação, mas tem horas que bate ansiedade e você faz contagem regressiva. Eu vou ficar com o olho molhado mesmo. Deve ser diferente de um adulto trabalhar tanto tempo quanto eu trabalhei, e de uma pré adolescente trabalhar tanto tempo quanto eu trabalhei. Porque a expectativa que a gente tem quando está trabalhando é a de estar em outro lugar. Não que o adulto não tenha, mas ele tem um pouco mais de consciência de que aquilo ali é um período. Um adulto diz: dali eu vou para outro trabalho, é uma fase, ele começa a se conscientizar dessas questões. Quando você é adolescente, não tem perspectiva de quando aquilo vai terminar. Tem dia que você tira de letra. Você olha e tem aquele monte de coisas, aquela pilha de peças. Eu fazia muita blusa, camiseta, pijama, legging. Eu pegava muito gola, ia muito na galoneira, que é uma máquina pesada, a gente até tinha umas máquinas que eram leves do ponto de vista do controle dela, mas essa era muito pesada. Quando eu chegava em casa e almoçava, já sabia que tinha que ir para aquele serviço. E no primeiro momento você tem que ir com muita energia, se você desanima parece que aquilo multiplica. Nas primeiras semanas que eu comecei a costurar, quando eu ficava um tempo sem costurar, doía as costas. E dá muito chulé no pé também, porque sua muito. A gente costurava de chinelo havaiana mesmo. No fim do dia você tinha que tomar um banho, se não desse para tomar um banho você tinha que lavar o chinelo sempre, para tirar o cheiro, e fazer algum movimento para relaxar as costas, porque ela fica tensa. Você não pode fazer movimentos abertos, são movimentos menores. Se você faz movimentos maiores, você perde tempo. Se você faz duas golas por minuto, se fizesse alguma coisa diferente você perdia aqueles segundos. É o valor dos segundos para uma costureira de produção. Depois de duas horas direto você dá uma pausa. E não tem exercício, nada disso. Quando era adolescente, eu gostava que tinha uma barra de ferro em casa que ficava no quintal. Eu adorava subir ali e me balançava. Meu sonho era ser ginasta olímpica, que eu adorava ficar me pendurando. Aquilo me relaxava. Brincava de bola com os meus irmãos e depois voltava para a máquina, tinha o período da janta e ia até às 11h da noite. Até acabar o trabalho. Tinha dia que era umas 12 horas quando não tinha escola, ou umas seis ou sete quando tinha. O que era legal é que eu e meus irmãos a gente brincava muito, fazia muita piada. Mas eu via no rosto que todo mundo ficava muito cansado. Os quatro trabalhavam. O Leonardo costurava, eu, a Michele e a Andreia. Meu pai uma época saiu do trabalho, eu lembro até hoje quando ele falou e eu achei que a casa caiu. Ia depender mais da oficina e a responsabilidade ficou muito grande.


Foi até legal falar dessa coisa do corpo e da costura, porque era uma coisa tão direcionada e limitada que eu queria fazer qualquer coisa, não queria deixar de ir para a escola. Eu queria no primeiro momento fazer na área de artes, que eu adorava desenhar, desenhava nas horas vagas. Quem morava na periferia não tinha essa perspectiva. Aí foi que um ex professor de filosofia falou que tinha uma universidade que ficava em São Miguel, que eles estavam oferecendo bolsas 100 porcento. Aí eu vou tentar. Na primeira faculdade a gente pensa que vai partir para uma coisa que vai conseguir dinheiro. Aí eu tentei enfermagem. Não consegui, porque para conseguir bolsa 100 porcento em enfermagem você tinha que conseguir uma pontuação maior. Aí eu fui ver os cursos que a pontuação necessária era menor. Geografia, história, música. Aí eu fui fazer história. Prestei, passei. Eu teimo até hoje que minha mãe não ficou nem um pouco satisfeita com a história, eu não tive nenhuma comemoração. Me lembro que vi lá e tinha passado entre as cinco primeiras. Fiquei chorando do ônibus até em casa. Muito feliz. Minha decepção foi quando eu falei para os meus pais, nenhum abraço. Mas eu entendo isso. É porque a faculdade com esse valor eu que dei, eles não tinham isso. Era uma alegria muito grande minha, e talvez uma decepção por eles não terem tido a mesma situação. Eu já tinha tido uma experiência anterior que eu tinha passado para uma escola técnica, para fazer um curso que hoje é o nome de designer. Na época eu não vou lembrar o nome. Era uma área das artes. Foi um conflito de sentimentos, porque para mim era importante, mas eu percebi que para eles não era tanto. Eu tinha passado para o curso técnico em uma escola, eu ia ter acesso a plataformas digitais da época, de desenho, ia realizar esse sonho que eu tinha. Minha família na época não pôde dar nenhum incentivo. Eu precisava pegar ônibus, eu estava no último ano do ensino médio. Eu falei para minha mãe que se eu tivesse um apoio agora, eu conseguiria me virar depois. Eu via que teria condições, seria possível, mas para ela não tinha valor. Ali eu aprendi que se eu não pegasse firme, não iria fazer. Eu acabei desistindo dessa escola. Eu fiz três meses, mas eu não conseguia acompanhar, porque tinha que pegar ônibus e o dinheiro não vinha. Eu não recebia um salário na oficina. Quando eu passei nessa daí, eu falei que essa eu ia ter que segurar firme. Eu já tinha brigado muito com ela porque eu precisava de um salário, quando eu entrei na faculdade eu já tinha um salariozinho. Agora eu vou ter que ter a minha independência para pagar ônibus e comida, minimamente. No primeiro ano na faculdade fui atrás de estágio, peguei um estágio na casa de cultura de São Miguel, que foi uma indicação de um amigo na época que morava na região, que conhecia os produtores culturais da época, o pessoal do MPA, movimento popular de arte, foi o primeiro contato que eu tive nessa época. Abriu um outro universo que eu nunca imaginei. Eu mergulhei nessa coisa da cultura, fazer projetos. Eu acho que tudo aquilo da disciplina na época da costura, do foco, da seriedade, da responsabilidade desde pequena veio tudo de uma vez nesse período. Eu levei tudo isso para a cultura. E eu fiquei sempre ouvindo das pessoas que trabalham na cultura que não tinha esse lugar, essa prática, era tudo muito livre. Eu trouxe toda essa minha bagagem e demanda para essa situação. O Júlio na época trabalhava na cultura, tive um contato com ele, e ele me convidou para fazer parte do movimento cultural Penha, nessa época. Eu tinha acabado de me formar, não queria dar aula, eu tive uma experiência não muito boa não com os alunos, mas com a educação institucional de uma maneira geral. Eu queria fazer outras coisas.


R - Eu tive uma professora excelente que foi a Maíra. Curso de história, que a gente já tem essa ideia de que é um curso que vai discutir as questões sociais do mundo, direita e esquerda. Já lá os professores tinham uma visão mais conservadora. Tinham uma visão de mundo mais elitista. Tinha outra parte que era muito mais aberta. Esses eu simpatizava mais. Apesar de estar fazendo uma licenciatura, eu tinha disciplinas como psicologia da educação, que eu gostava muito com a professora Rosana, eu tinha uma disciplina com a professora Maíra de história do Brasil que era excelente, era uma palestra a fala dela e dava uma noção macroeconômica também, tinha uma abrangência legal a aula dela. E tinha uma fala muito forte, uma experiência de vida incrível. E nessa época na faculdade, eu tive uma experiência que eu me inscrevi para participar de um projeto chamado universidade solidária, que a gente viajava para algum outro município do Brasil que tinha o IDH baixo para desenvolver algum tipo de ação no território. Isso era uma ideia para formar melhores profissionais e estudantes. Eu fui uma das escolhidas, pude viajar, até então não tinha essa noção de viagem, eu fui para Alagoas em Santa Luzia do Norte. Foi muito legal essa experiência. Fui a historiadora do grupo, tinham grupos de outras áreas da faculdade. Mas também foi a experiência do trabalho com outras pessoas. Até então eu me relacionava com meus irmãos, minha família. Se a gente tivesse algum problema, a gente se pegava. Ali você tinha que criar uma relação. Eu fui para o jogo de novo, igual na escola, eu sempre fui muito brincalhona então sempre tentei trazer para esse lado de criar uma empatia com a pessoa, e com muita seriedade. Eu nunca fui muito paz e amor na cerveja e não encaminhava relatórios, eu tentava fazer os dois. Mas é essa experiência que foi legal na faculdade.


Desde fazer atividades ligadas à comunicação, essa experiência de Santa Luzia, mas muito pequena. Eu fui realmente ter essa ação mais forte quando eu fui para a casa de cultura de São Miguel, porque aí eu fui ter contato com as pessoas da cultura e da arte, e eu via uma movimentação muito grande por parte dessas pessoas. Porque foi um período da época da Marta. Estava também no governo Lula na época, estava uma explosão de incentivos para esses grupos. Eu percebi que muitos grupos abraçaram isso, foi uma efervescência. Quando o Júlio me chama para participar do movimento da Penha, outro bairro, outro local, para trabalhar memória. Eu fazia o curso de história e trazia muito forte essa ideia de trabalhar a memória local. Aí eu falei que eu queria trabalhar nessa área, não queria dar aula, queria fazer outro tipo de projeto. Aí eu tenho contato pela primeira vez com a festa do Rosário. Para mim foi incrível. Eu lembro de ter o primeiro contato com pessoas da cultura popular, eu lembro de ter chorado picas quando eu vi o pessoal da folia de reis do oriente, porque eu achei aquilo lindíssimo. Tocou alguma coisa em mim. Eu lembro de uma imagem muito forte de quando a gente começou a desenvolver algumas atividades, que a gente fazia alguns trabalhos com as escolas, desenvolvia palestras lá e estimulava para que os alunos fossem ver as atividades no lago do Rosário no período da festa. Era um movimento trabalhando em pequenos períodos do ano. Eram coisas mais espaçadas. A gente planejava em abril, maio tinha isso e junho era o grande momento. E nessa de estimular os alunos, a gente estimulava eles a pensarem e trazerem outras atividades para apresentar no lago do Rosário, para outros colegas deles aqui do bairro. Eu me lembro até hoje de ver as meninas se arrumando atrás dos tapumes para se apresentar. A maioria crianças negras, se arrumando colocando roupa, para dançar a dança afro no lago do Rosário. É uma imagem que aparece para mim.


Você estava em um local que tinha uma peculiaridade, que ela tem uma memória e aquilo de alguma maneira muda o presente. Citam muito coisas: “é muito boa a sensação de estar aqui, isso conecta com a minha história, eu não sabia que tinha isso”. Quando a gente conta que foi construída pela antiga irmandade dos homens pretos, as pessoas não imaginam. Eu fiz faculdade de história e não tinha essa informação. As narrativas que eram construídas e formadas era como se a população negra nunca tivesse contado isso. Nunca pudesse ter registrado isso. Existe, por que a gente não conta essa história? Deu um curto circuito e intuitivamente eu vi que ali também tem alguma coisa, potência. Engraçado que aquilo ali ainda não estava relacionado com a minha história particular, mas estava também. Foi um pouco o processo de pensar como trabalhar essas memórias com esses jovens. Até hoje a gente pensa isso.


Quando eu vim fazer esse trabalho aqui na Penha, eu não tinha remuneração nenhuma. Projeto a gente tinha, mas não tinha financiamento desses projetos, eu terminei a faculdade e eu me vi tendo que voltar para a oficina novamente. Eu não tinha trabalho. Eu cheguei a dar aula em escola particular três meses, achei horrível. A relação com os jovens não era ruim, é que eu não entendia o projeto pedagógico, aquilo para mim não fazia sentido. Nessa época eu participava dos projetos no final de semana, saía do NUA e ia para o Movimento, e o pessoal dava risada porque durante o dia eu estava NUA e a noite eu estava no movimento. Era uma tiração de sarro. No movimento também eu comecei a encaminhar projetos. Aí saiu o primeiro vai, uma parceria com a prefeitura que foi o primeiro recurso que a gente conseguiu provar. Em seguida saiu o do ministério de cultura. E eu fiquei tão contente com aquilo, conversando com o Júlio que na época estava próximo, eu falei que chegou a hora de eu sair da entidade, porque essa estabilidade que a nova união da arte me deu, me possibilitava ficar mais no movimento e encaminhar o movimento. Porque de fato o nua puxava muito energia, era muita coisa. Eu faço isso. Peço as contas lá em Vila Nova e vou para a Penha de vez.


De 2004 à 2010 foram seis anos entre amadurecimento desse projeto no movimento, a minha experiência em Vila Nova, no Nova União da Arte, escolas que eu tentei trabalhar. Porque na verdade o que eu queria mesmo era atuar na área da cultura. Quando eu estava aqui já na Penha, a gente começou a focar mais no trabalho do Rosário. Tentar levantar mais informações sobre essa igreja. A gente lança o primeiro livro nosso em 2011, que é o recado aos nossos ancestrais, que é um projeto que a gente conseguiu financiamento. Esse primeiro livro também definiu algumas questões que a gente queria trabalhar que era com produção cultural, memória, na época tinha a educomunicação, arte. Mas focado era produção cultural, isso subentende todas as ações que consigam relacionar memória, patrimônio. O Júlio tinha uma articulação muito grande na zona leste como um todo. Conhecia muita gente, circulava muito. Nessas andanças, ele conversando com o padre Ticão na época, a gente percebeu que, as palestras que a gente participa era a chave para a gente entender, talvez, porque as políticas públicas ligadas aos patrimônios não chegavam aos territórios. E tudo isso era coisa que a gente conversava, tomava um café e pensava. E tinha até um certo acúmulo de falar: eu estou no caminho.


O Júlio ele vinha muito para Penha como esse agente cultural interessado. Ele não vinha ainda com a ideia de movimento enquanto cultura, entidade. Porque a gente ainda não morava aqui. Nesse paralelo que eu falei que tinham seis anos, antes de eu vim morar para cá, eu não morava aqui, então eu não vivi esse lugar. Eu achava importante, interessante, mas a presença de estar aqui era importantíssima. Acho que quando eu vim morar aqui que eu fui entender um pouco melhor, me relacionar de ir na casa do outro. Criar essa relação com o território ela foi imprescindível depois. A gente estava ainda em processo de amadurecimento e nessas idas e vindas, como eu falei, a gente conseguiu até encaminhar alguns projetos, em 2011 a gente consegue publicar um livro, outras parcerias começam a aparecer, articulação com outras comunidades, principalmente aproximação com a Igreja do Rosário dos Homens Pretos. Eles já estavam fazendo a festa desde 2001, algumas pessoas do movimento já tinham essa relação com esse momento. Essa autonomia do grupo e sua própria articulação ainda não era tão forte.


Por parte de nosso trabalho e questões da época, o aprofundamento sobre o conceito de patrimônio ele foi imprescindível para a gente entender esse espaço. As políticas públicas também estavam ligadas a isso. A questão da preservação histórica também entrou na pauta, porque tinha uma urgência na questão do espaço. Precisava pintar, fazer uma série de coisas e essa preservação aparecia como uma forma de engessar essa preservação em torno do lugar. E eu fiz faculdade de história, mas essa questão de patrimônio e de memória, principalmente patrimônio, ela passava muito baixo. Eu vou me aproximar sobre isso, se aproximam outras pessoas nessas áreas, pesquisadores historiadores etc, primeiro relacionado ao Patrimônio Material, e hoje expandindo o conceito pros imateriais também, dessas reflexões surgem o Ururay a partir de três seminários promovidos no Centro Cultural da Penha, exercício que permitiu que as pessoas se aproximassem da gente, veio uma galera legal, veio Mônica, Maurício, Lucas, Danilo, veio pessoas que não eram historiadoras, uma bibliotecária chamada Neide.


O Ururay é dado por um nome de uma aldeia indígena do século XVIII, e esse aldeiamento indígena ainda é do período colonial, então ele não é esse aldeiamento que a gente entende com oca, círculo, ponto central etc. ele já vai ser um terreno, um pequeno sítio que vai produzir para esses donos desses loteamentos. A região do Ururay é uma região enorme, gigantesca, quem abarca essa região hoje é a zona leste, para além de outros municípios. Poá, agora eu não lembro o território total. O Ururay significa filho de pássaro ou passarinho, e esse aldeiamento também é um outro nome que se dá para esse trecho do rio Tietê, que pega ali a penha, para a zona leste, é que eu sou péssima de lugar, mas extremo Poá, Guarulhos. Para homenagear esse grupo a gente dá o nome do nosso de Ururay. Ururay com Y, como eram as escritas antigas antes. Para isso a gente pensa em todo um projeto, quais vão ser os objetivos, com base em que, em que questões nós vamos pautar o patrimônio, para nós é fundamental a questão da museologia social, das outras narrativas, de pensar o turismo, mas um turismo que insira a população no processo, a gente começa a pensar quais questões o patrimônio pode estar relacionado ao desenvolvimento econômico também. Também tinha essa pretensão. E todos os valores que pudessem ser referências para nós pensarmos Ururay. Para a gente não cair na armadilha de estar falando de patrimônio e estar trazendo um outro escopo de trabalho, pertencente a um outro tipo de lógica, que já estava negando.


A maioria das pessoas falavam que vinham de discussões da faculdade, que vinham de experiências de outros coletivos então meio que traziam essa experiência. A gente escolheu o memorial para ser essa conversa, tanto é que depois, recentemente, quando a gente consegue um recurso via culturas de periferia, a gente consegue pensar outras possibilidades de discutir patrimônio, para além da discussão da memória. A gente tinha acabado de lançar um livro, territórios de Ururay, em 2016, para nós foi um documento muito importante para dizer: tem muita coisa que dá para desdobrar em outras ações. Essa experiência hoje com o edital do projeto dos fomentos das culturas de periferia, eles nos possibilitam a gente ter experiências práticas de produção cultural para além dessa pesquisa. Usa a pesquisa para desencadear outros processos. O Ururay, como eu disse, outras pessoas passaram a saírem, outras entraram, a gente está em movimento. Atualmente o projeto tem um núcleo de pessoas que está mais maduro dentro do processo. Mas não inviabiliza a gente criar aproximação com outras ações e outras pessoas.


Eu gosto da ideia de trabalhar com outras pessoas e construir junto. Eu só queria dizer que depois da minha trajetória desde criança, eu tenho revisitado, eu me relaciono muito com as pessoas através do trabalho. Eu falo mais do trabalho do que questões amorosas. E para mim não é trabalho, eu tenho percebido isso ultimamente. E eu tenho acionado todas as minhas experiências, conhecimentos, a conexão através do trabalho é muito forte. Só queria deixar registrado, acho que é uma percepção recente.


Nessa revisita eu percebo que tem coisas de alma, eu me construo quando costuro, funciona também no sentido metafórico da minha relação com o trabalho. Quando eu posso, eu sempre trago a costura no meio. Mas eu sei que não é por acaso que eu estou passando por isso, que vão ter outras questões que não vão ser tão apaixonantes, mas vão ter. A costura mesmo tem total relação com isso, porque quando eu aciono essa relação da costura, desde pequena, quando eu estou costurando na criação, vem o momento que eu estou me conectando com a minha mãe, com a minha família, com meus irmãos. Eu aciono cor, tramas, eu percebo essas coisas delicadas. Quando minha mãe fala: “se você corta dessa maneira, você tem um outro tipo de efeito no pano se cortar de outra maneira”. Quando eu costuro, eu lembro dela falando aqui comigo, ela está comigo nesse momento.

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