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Ressignificar vidas

História de: Maria
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

A história de Maria é fundamentalmente de uma mulher sonhadora e que quer ser professora, e no meio do caminho encontra o trabalho social. Neste trabalho ela se depara com situações e histórias de vulnerabilidade social, tráfico, exploração e abuso sexual. Maria conta como se deu o seu envolvimento com a área social, o seu trabalho no Crescer com Arte, como conheceu o Projeto ViraVida, sobre algumas situações que teve que enfrentar nesse projeto, as transformações causadas nela e nos jovens, além de falar da potência, importância e o apoio da família na vida desses jovens.

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História completa

Me chamo Maria e nasci na Região Nordeste do país. Meu pai é artista plástico, ele pinta, o estilo dele é Naif, pinta quadros e expõe na beira-mar e a minha mãe é professora, minha família toda é de professoras.

 

Eu sempre tive muito orgulho dele apesar de eu não ter convivido muito, porque eles se separaram quando eu ainda era muito nova, tinha dois anos, mas nos víamos nas férias escolares e sempre quando tinha alguma exposição dele, sempre tive muito orgulho do meu pai nesse sentido.

 

Minha mãe é minha inspiração, eu escolhi essa carreira pela vivência junto a ela, ajudava corrigir provas quando eu ainda era pequena, sempre fui muito boa de leitura, então desde muito cedo eu a ajudava, quando ela me levava para escola que ela ensinava, eu ajudava os alunos.

 

Eu estudei na escola que a minha avó e a minha madrinha trabalhavam, minha madrinha é irmã da minha mãe.

 

Quando eu nasci, morávamos só eu, meu pai e minha mãe, depois nasceu a minha irmã, nós duas somos do mesmo pai e aí logo em seguida eles se separaram e eu fui morar na casa da minha avó e lá também morava com tias, primos, eram sete crianças, eu e meu irmão e os outros eram primos e  também moravam as tias, todo mundo junto, lá em casa tinha um jardim muito grande, com muitas plantas e passávamos o dia brincando nesse jardim, era o nosso mundo da fantasia.

 

A minha família por parte da minha mãe é de origem italiana, minha avó é Terezinha Giacome, e por parte do meu pai é de origem portuguesa, Alves. Na verdade é a família dela, minhas bisavós, tataravós que são italianos, essa parte eu não conheço muito não, só sei que vieram e minha avó, na verdade, é do Cariri também, ela nasceu em Missão Velha que é uma cidadezinha pertinho do Crato e Juazeiro.

 

Minha avó é formada em Geografia, na época de escolher a profissão e vestibular, minha mãe queria que eu fosse advogada ou médica, ela não queria que eu fosse professora e eu queria ser professora, porque é o que eu gosto, o que eu me identifico, o que eu sei fazer. E aí a minha avó conversando comigo, ela disse: “Não, então não faz Pedagogia, faz Geografia, por exemplo, que foi o que eu fiz” e aí ela me contava como era o curso e eu gostei e me inscrevi, passei.

 

A faculdade é um mundo totalmente diferente do que estamos acostumados no Segundo Grau, porque sempre tinham os professores ali cobrando e na universidade você é muito autônomo, então você que faz seus horários, se você quiser você estuda, se não quiser os professores não vão te cobrar, então tive que ir aprendendo aos poucos a coordenar essa autonomia de uma hora para outra, até em casa mesmo os pais já não cobram tanto, mas eu sempre fui muito responsável então eu consegui fazer direitinho, terminei o curso no período correto. 

Eu gostei muito de Pedologia, de Geomorfologia também, que era mais a parte da Geografia Natural, me identifico muito com a natureza, eram essas mesmo. O professor Elton Castelo Benevides que ainda está na lá na US, que foi um grande professor.

 

Eu me formei no dia 29 de julho de 2005 e no dia primeiro de agosto de 2005 eu já estava contratada pela FUNCI [Fundação da Criança e da Família Cidadã], que era uma fundação da Prefeitura de Fortaleza, fui convidada a participar do núcleo de participação e logo em seguida já estava contratada, me formei, dois dias depois já estava contratada e trabalhando. Nós começamos a conversar com as crianças e adolescentes da fundação sobre ter direitos, em especial o direito à participação, criava momentos de participação na cidade de Fortaleza, como fórum de discussão, os levava para participar dos OPs, Orçamento Participativo da Criança e Adolescente, das conferências municipais, ajudava a organizar e levava as crianças e adolescentes para participarem, e como eu sou formada em Geografia eu também fiquei a frente da Agenda 21 de Fortaleza com a participação de crianças e adolescentes.

 

O direito de participação é um direito inerente a cada pessoa, sendo que desde criança tem um direito a voz, tem um direito a falar o que pensa, um direito de se expressar, de ser ouvida e de ser compreendida e na medida do possível ser atendida naquilo que está sendo colocado, acho que é isso.

 

Era um trabalho que começava com as crianças e incitava a família a vir participar também, e a gente explicava para as famílias sobre essa questão dos direitos, porque muitos não conhecem.

 

Até hoje eu tenho esse sonho de ser professora, um dia, eu ainda faço planos para isso, eu não sei por que na minha vida vão acontecendo as coisas e eu vou seguindo, mas eu ainda tenho esse sonho de ser professora, estou terminando a especialização em Coordenação Pedagógica, a gestão possivelmente mude, eu não sei o que vai ser, se eu sair da gestão eu vou atrás de alguma escola para lecionar.

 

O Crescer com Arte é um projeto, um programa da Prefeitura de Fortaleza, previsto em lei, e o projeto em que eu participo é Crescer com Arte Bela Vista, que está dentro do programa Crescer com Arte Cidadania. Esse projeto trabalha com arte, com arte educação, através de várias temáticas que a Secretaria de Direitos Humanos traz, relacionadas aos direitos, direitos da cidade, o direito à liberdade de expressão, o direito à igualdade racial, então através dessas temáticas trabalho com a arte, ensinando crianças e adolescentes a transformar suas vidas através da arte. No Bela Vista só temos adolescentes de doze a dezoito anos, mas em Fortaleza temos dez Crescer com Artes, desses alguns trabalham só com criança, outros só com adolescentes, como é o caso do Bela Vista e alguns com criança e adolescente.

Eu sou Coordenadora Pedagógica responsável pelo projeto político pedagógico, todas as ações. Nós temos cinco arte educadores e temos os educadores sociais, então eu fico responsável por coordenar toda a equipe, todas as ações, nós temos no Bela Vista oficinas de artes visuais, dança, teatro, audiovisual e informática, e os educadores sociais são responsáveis pelas visitas às famílias, pelos engajamentos, pelos desligamentos e por encaminhamentos a outros projetos, como é o caso do ViraVida.

 

Todo ano é definido junto aos arte educadores qual vai ser a temática que vai ser tratada durante aquele ano. E durante o ano, nas oficinas, é trabalhada aquela temática norteadora que nesse ano, por exemplo, é a História de Fortaleza, durante todo o ano levamos os adolescente para conhecer espaços de Fortaleza, conversa sobre a história e eles transformam isso em arte, então o pessoal das artes visuais vai visitar a Praia de Iracema, por exemplo, falamos da história, quem foi Iracema, a importância para a cidade e quando eles voltam para oficina e transformam aquilo que eles aprenderam em grafite, em tela, ou em bonecos de biscuit, em uma dança, um ritmo tradicional e transforma aquilo, ensina pros meninos, então é nesse sentido.

 

Os adolescentes que frequentam o projeto são adolescentes em situação de vulnerabilidade social, geralmente de baixa renda, que moram na periferia de Fortaleza, no nosso caso nós atendemos adolescentes de toda a regional três de Fortaleza, especificamente dos bairros Pici e Bela Vista, geralmente são crianças e adolescentes que tiveram seus direitos violados de alguma forma, que sofrem violência física, abuso sexual, abandono, ou estão em algum conflito familiar que pode vir a gerar alguma violação mais na frente, então trabalho para que eles consigam ressignificar as suas vidas.

 

Quando o Coordenador Pedagógico detecta alguma violação de direitos, a equipe faz toda uma investigação com os educadores sociais, acionamos o Conselho Tutelar para nos acompanhar nas visitas, e repassamos o caso para o Conselho Tutelar, quando necessário, encaminhamos também ao Creas e para a Dececa, mas tudo em parceria com o Conselho Tutelar.

 

Eu achei o Projeto ViraVida muito importante, nessa ressignificação de vida dessas crianças e adolescentes porque esse tipo de violação, de abuso ou exploração sexual é muito marcante, para criança ou adolescente, então dependendo da forma como é trabalhado vai deixar marcas profundas na sua vida toda, e o ViraVida possibilita mostrar uma outra forma, mostrar que a sua vida não foi só aquilo que aconteceu com você, que você pode transformar e fazer seu futuro daqui para frente, não olhar para trás.

 

Eu trabalhei no Disque Direitos Criança e Adolescente, onde recebia denúncias, existem em muitos bairros de Fortaleza, não existe em um bairro concentrado, é uma situação muito séria, percebe-se que realmente os agressores são na maioria das vezes pessoas conhecidas da família ou do próprio adolescente, da criança, o que é complicado, até a forma como chegar para família e demonstrar que aquilo ali que está acontecendo é uma violação de direitos, às vezes o próprio adolescente não tem essa percepção porque às vezes é um irmão, é um tio, é um parente, é um primo, é uma coisa que vai mexer com a família toda e nós, enquanto instituição, temos essa obrigação de fazer algo, não podemos ficar sabendo da situação e não fazer nada, fingir que nada aconteceu, nós enquanto instituição temos que denunciar, temos que procurar outros meios de transformar essa realidade.

 

A parceria do Crescer com Arte com o ViraVida é importantíssima, porque o projeto Crescer com Arte não é um projeto de profissionalização, é um projeto só para a criança e o adolescente sair da situação de vulnerabilidade social, porque é em um horário que eles estão na escola e no outro horário a maioria das vezes não tem o que fazer, oferecemos o projeto para que ele tenha um tempo onde ele vai passar de forma saudável, vai conviver com outros adolescentes, vai ter alimentação, então o projeto funciona das oito às onze. Quando eles chegam eles têm um lanche e onze horas tem o almoço, aí vão pra casa para ir à escola e a segunda turma que chega a tarde, uma hora almoçam e ficam até às quatro, onde eles lancham e vão pra casa. O Crescer com Arte é um projeto para tirar essas crianças, esses adolescentes da rua, de casa, dessa situação de que não estão fazendo nada. Já o projeto ViraVida não, é um projeto onde ele tem um plano de vida, onde eles têm profissionalização, capacitação, tem uma perspectiva de futuro, eles ensinam como fazer o seu projeto de vida, tem a bolsa que eles recebem e eles ensinam como gerenciar essa bolsa, isso é bacana porque, às vezes, o adolescente não tem noção disso ainda, no ViraVida eles aprendem a gerenciar essa renda, e tem a ressignificação mesmo, porque o ViraVida tem várias atividades, tem a profissionalização, mas tem também as oficinas, têm o acompanhamento psicológico, tem o acompanhamento com a assistente social, tem a parceria com o SESI, possibilitando o tratamento médico quando necessário, odontológico, tem a alimentação, então é um projeto completo que realmente muda a vida do adolescente e, às vezes, quando o Crescer com Arte encaminha o adolescente ele não está nem estudando, o ViraVida também tem essas parcerias com escolas, com o EJA, com o próprio SESI,  então muda completamente a vida dos meninos e meninas que participam.

 

Aqui em Fortaleza a Rede de Atendimento para Criança e Adolescente é muito bem estruturada, nós temos a sociedade civil bastante organizada com várias ONGs que realmente lutam pelos direitos da criança e adolescente, o Codiga tem um grande peso nesse sentido, porque realmente faz o seu papel, a parte governamental também, tem a Secretaria de Direitos Humanos com a Coordenadoria da Criança e Adolescente com vários projetos que contemplam e atende à criança, todos os direitos da criança e adolescente, temos medidas sócio-educativas municipalizadas, tem projetos para família, como famílias defensoras de direitos de criança e adolescente, tem os Crescer com Arte que são projetos para a prevenção da violação de direitos e temos projetos profissionalizantes como o Adolescente Cidadão e outros, aqui em Fortaleza é muito bem estruturada essa rede de atendimento e existe essa comunicação entre a Rede e também os Creas e os Cras, também são importantes na luta e na defesa desses direitos.

 

Tem a história de um adolescente que me marcou, inclusive ainda está no ViraVida, mas no processo de profissionalização, já está trabalhando, ele estava na exploração sexual para o uso de drogas, então ele mesmo explorava o corpo para obter dinheiro para comprar drogas e ele foi do projeto. Lá no projeto identificamos que ele era o perfil do ViraVida e encaminhamos, ele tem uma família bem difícil, bem trabalhosa, a relação dele com a família é bem complexa, e a equipe fez todo um trabalho de conscientização, encaminhamos ele para o ViraVida,  e sempre dávamos um apoio quando ele estava com dificuldade de alimentação em casa, então oferecemos para ele ir almoçar no projeto, quando ele estava com dificuldade de transporte para vir para o curso do ViraVida conseguimos um vale, aqui no ViraVida ele teve todo o acompanhamento psicológico com a assistente social, ele fez o curso e ele foi encaminhado depois que terminou, hoje ele está trabalhando no Banco do Nordeste e está frequentando o CIEE, que é toda essa parte de profissionalização, então hoje a equipe está feliz com a situação dele,  no projeto.

 

Para nós é muito importante, quando vemos que a equipe fez a diferença na vida daquele jovem, se não tivéssemos feito nada talvez hoje ele estivesse numa situação pior do que ele se encontrava naquele momento, ou seguindo o rumo em que ele estava talvez não tivesse nem vivo, porque estava se envolvendo com traficante. Então para nós é muito importante saber que fizemos a diferença para um jovem, foi um jovem que conseguimos transformar a vida.

 

Os jovens podem chegar com doze anos no projeto, eles podem passar dois anos lá ou se chegar com dezesseis, por exemplo, eles podem ficar até dezoito anos, então nesses dois anos que eles ficam no projeto, os educadores sociais são responsáveis por fazer as visitas, fazer um acompanhamento social e aí nesse acompanhamento se vai percebendo quando há alguma violação de direitos, e quando se detecta a questão do abuso ou da exploração que é o perfil no ViraVida, nós encaminhamos, tem uma ficha, o ViraVida manda no começo do ano qual é a ficha, qual é o perfil e aí no decorrer do ano… E já vamos percebendo quem são os adolescentes que a equipe vai encaminhar no ano que vem para o ViraVida, esse ano, por exemplo, agora semana passada já identificamos um adolescente no projeto que está grávida, tem dezesseis anos, então já se está trabalhando com ela essa questão para que no ano que vem ela possa ser inserida no ViraVida. 

 

Em relação ao que mudou na minha vida quando eu entrei em contato com os jovens e com o ViraVida foi a esperança, esse é o principal, porque diante de toda a realidade em que vivemos principalmente com relação às violações de direitos de crianças e adolescentes, quando eu estava no DDCA, o Disque Direitos Criança e Adolescente, nós recebíamos as denúncias, toda equipe ficava meio assim: “Meu Deus, como é que existem tantas situações como essa, com crianças, com adolescentes, como vai ficar esse mundo?”, ficamos meio desesperançosos, mesmo achando que não tem solução pela quantidade de denúncias, e agora eu estou trabalhando no outro lado, que é diretamente com a população, diretamente com o atendimento ao público, encontramos um projeto como o ViraVida que possibilita essa transformação, mudança de realidade, então cada adolescente que a gente encaminha e que a vemos que se transformou aquela vida é uma esperança de que é sim possível um mundo melhor, de que é possível sim transformar a realidade.

 

É muito bom quando vemos que os jovens conseguem superar. Eles voltam no projeto, e contam como que estão, como é que estão suas vidas, convidamos para falar aos outros jovens também, para dar um testemunho, para ser o diferencial, para mostrar que uma outra realidade é possível, nós vemos eles felizes, alguns já estão casados, já tem filhos e vão lá mostrar os filhos, todos olham e veem o quanto aquela pessoa conquistou e fica pensando assim: “Poxa, olha o que essa pessoa conquistou hoje e olha o que ela poderia ter sido se não tivesse passado pelo ViraVida”, lógico que ninguém é vidente para ta adivinhando o que, mas todos veem as histórias e sabe mais ou menos qual seria o rumo se tivesse continuado na vida que tava levando, e aí quando a gente vê que conseguiu ressignificar a sua história,  e o orgulho, o brilho no olhar deles nos mostra que valeu a pena.

 

Mas já aconteceu de perdermos jovens, porque não adianta só o projeto querer, não adianta só o ViraVida dar as ferramentas, o principal deve ser a vontade de mudar, tem que ser a vontade de transformar a sua vida. E quando acontece a equipe toda fica triste com essas situações, em que o adolescente ou a família, e só nós enquanto projeto não dá para dar esse suporte todo, tem que ter o apoio da família, a família tem que ser trabalhada nesse percurso e às vezes o jovem não consegue ter esse apoio e aí desiste. Para nós é uma perda, é difícil, é complicado, quando ficamos sabendo tentamos, fazemos visitas novamente,   tentamos mostrar a história desses outros que foram histórias felizes, histórias transformadas, mas às vezes tem uns que não querem mesmo, mas infelizmente a gente não pode fazer mais do que o que já fazemos, porque temos um limite até onde podemos ir, dali por diante tem que ser o próprio adolescente.

 

Quando eu cheguei para assumir a coordenação desse projeto, do Crescer com Arte Bela Vista, tinham três irmãs que tinham sido abusadas pelo irmão mais velho e a mais velha é que tinha sofrido maior abuso, mais vezes, e esta irmã conseguimos encaminhar para o ViraVida, ela começou a fazer o curso, só que no decorrer do curso ela se casou com um rapaz da idade dela e engravidou e no período da gravidez ela começou a faltar ao curso e o ViraVida entrou em contato para fazermos a visita, fomos na casa, levamos ao posto de saúde para fazer o pré-natal, mas ela disse que não conseguia, que não tinha disposição para ir ao ViraVida, e o projeto é muito sério, tem as regras, então tem um limite de faltas, o adolescente tem que querer e ela... Chegou um momento em que disse que não queria mesmo, e aí é triste.

 

Quem trabalha essa questão da superação do problema em si são os psicólogos do ViraVida e as assistentes sociais, nós enquanto Crescer com Arte, como não temos esses profissionais na nossa grade de profissionais, damos o apoio inicial de investigação, de se for necessário denunciar, de acompanhamento com o Conselho Tutelar, mas depois daquele momento inicial onde se forma esse elo de confiança, onde eles se abrem, contam a sua história, tentamos não tocar nesse assunto porque é um assunto que traz recordações não muito boas, no próprio ViraVida é que faz esse acompanhamento depois.

 

Mas o apoio da família é primordial. Em primeiro lugar a família mesmo tem que se conscientizar da violação do direito, porque muitas vezes a família não acredita, a família culpa a criança ou adolescente pelo o que aconteceu, acha que foi porque quis, ou foi porque incitou, porque forçou, e sabemos que não é, porque a criança e o adolescente têm uma situação de desenvolvimento, eles não têm maturidade suficiente ainda para saber o que é certo e o que é errado, eles estão aprendendo, muitas vezes se vê mães que colocam a filha para fora de casa porque o padrasto abusou e a mãe culpa a adolescente, ao invés de se conscientizar do problema, e o que a mãe faz é tirar a adolescente de casa. Portanto deve começar esse trabalho pela família, de conscientização. Algumas famílias não funcionam assim, algumas têm a consciência, denunciam, vão em busca desses direitos, apoiam quando queremos encaminhar para o ViraVida, mas tem outras famílias que acham que isso é uma coisa normal ou que a culpa é do adolescente, infelizmente.

 

A parceria do ViraVida é fundamental, começa por esse apoio psicológico, por esse apoio social, a assistência social que visita, faz todo o perfil da família, acho interessante isso, que eles não trabalham só com adolescente, trabalha a família também, porque o adolescente todo dia volta para casa e aí quando chega em casa encontra lá a sua filha, o seu filho, a maioria tem filho,  ou às vezes ainda mora no mesmo bairro onde o agressor está, onde o agressor frequenta, tem que ter esse apoio da família, da mãe principalmente, é um grande apoio da mãe de dizer assim: “Eu estou do seu lado, eu lhe apoio, eu lhe dou forças para você continuar”. Para nós é muito importante quando se vê, por exemplo, para uma festinha de São João aqui no ViraVida e que se vê as mães acompanhando, as mães vêm, participam, tem as reuniões com as famílias, nós nas reuniões com famílias, às vezes, enquanto instituição parceira participamos porque os pais não vem, então a gente vem representando os pais e é interessante quando vemos que o pai apoia, que a mãe apoia, que tá aqui junto, mas tem alguns que não apoiam, por isso vamos representando a família.

 

O principal do ViraVida é a ressignificação de vida, transformação, mudança através de testemunhos, através de fatos concretos, histórias comprovadas, verídicas, de crianças e adolescentes que transformaram e mudaram a sua história e que hoje são grandes profissionais, que têm suas empresas, que trabalham, que refizeram a sua vida completamente, que estão casados, que têm filhos e que mudaram completamente sua vida.

 

Os meus maiores aprendizados trabalhando com o ViraVida é: Primeiro que a gente tem que ter força de vontade e querer mudar a nossa história, isso é a primeira coisa, depois que é possível ser uma pessoa melhor, que é possível você construir uma nova história e que você pode ser exemplo para outras pessoas porque geralmente os adolescentes que participam do ViraVida sentem orgulho de ser quem são, você vê isso no olho deles, você vê isso quando eles falam, eles têm orgulho de ser, da trajetória de vida deles, de superação e isso é muito importante.

 

As minhas expectativas para o futuro é que eu gostaria muito que o ViraVida pudesse ampliar, que pudesse atender mais crianças e adolescentes de Fortaleza, porque é uma experiência muito boa, é uma experiência positiva, tem bons resultados, então o futuro é que isso possa ser contemplado para mais crianças e adolescentes, mais pessoas possam participar e também ter essa experiência.

 

O meu sonho é continuar com esse trabalho. Eu me encantei com o projeto ViraVida, inclusive disse até que vou mandar o meu currículo porque é algo que é verdadeiro, que é forte e que transforma realmente, então eu me encantei com esse projeto e acho que, o que eu puder, onde eu for de agora em diante eu vou tentar continuar com essa parceria, mesmo que seja em outro projeto que eu participe, eu vou continuar esclarecendo pras crianças e adolescentes que existe esse projeto e o quanto é bom.

 

O que mais me agrada no ViraVida são as pessoas que trabalham, a equipe é maravilhosa, a equipe é muito boa, é uma equipe muito atenciosa, tem todo um cuidado tanto com os adolescentes quanto com os parceiros, são muito comprometidos, interessados mesmo em cada adolescente que participa, então eu gosto muito da equipe de trabalho do ViraVida.

 

Se eu pudesse deixar uma mensagem pra aqueles que vão ingressar ainda no ViraVida eu falaria que é você mudar a sua vida, que a sua história é você quem faz e que o ViraVida lhe dá todas as ferramentas, mas você é quem pode transformar.

 

"Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações."

 

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