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História

Responsabilidade na gestão de entrega

História de: Flavia de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/08/2021

Sinopse

Lembranças da infância. Amor pela matemática desde a escola. Primeiro trabalho na adolescência. Faculdade de Sistema da Informação. Consultoria em desenvolvimento de software. Identificação com gestão de entregas e mudança de área. O dia a dia na gestão de projetos para varejo e e-commerce. As responsabilidades de um líder de projeto. A evolução da tecnologia desde que começou. Mulheres nesse mercado de trabalho. Desafios de criar uma rotina em meio a uma pandemia e adaptação. Projetos marcantes. Intercâmbio na Irlanda.

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História completa

P1 – Oi, Flávia, tudo bem com você?

R - Olá, tudo bom, Grazi. E com você?

P1 - Ai, tudo ótimo! A gente vai começar pelo básico, então: qual é o seu nome, local e data de nascimento?

R - Meu nome é Flávia de Souza, sou de São Paulo (SP) e nasci 19 de julho de 1982.

P1 - Qual é o nome dos seus pais?

R - O meu pai chama Roberto de Souza. A minha mãe, Gladis Soares Ribeiro de Souza.

P1 - E qual que é ou era a profissão deles?

R - Meu pai é torneiro mecânico, hoje em dia, aposentado. A minha mãe, durante alguns anos teve um salão de beleza, mas depois ela fechou e aí ficou como dona de casa, mesmo.

P1 - Eles são de São Paulo mesmo ou vieram de outro lugar?

R - São Paulo, os dois.

P1 - E você tem algum irmão ou irmã?

R - Tenho dois irmãos. Um mais velho, eu sou a do meio e tenho um irmão mais novo.

P1 - Você lembra da casa onde você passou a sua infância?

R – Lembro. É a casa, inclusive, que meus pais moram até hoje. Eles não saíram, né? Eles estão lá, só os filhos que acabaram casando e saindo. Enfim...

P1 - E como era essa casa? Ela era grande, assim?

R - É uma casa grande. É um quintal com duas casas, na verdade, então na casa dos fundos moravam os meus avós paternos e aí, na casa da frente, moravam os meus pais, com os três filhos: eu e meus dois irmãos. Então, é uma casa... Atrás é um sobrado, a casa da frente é uma casa térrea, grande e com quintal. Enfim, ali foi onde nós crescemos.

P1 - O que você gostava de brincar, quando criança?

P1 - Bom, eu tinha dois irmãos, né? Então, as brincadeiras, geralmente, eram: bola, empinar pipa (risos)... Todo mundo até fala: "Mas uma menina não brincou com as coisas, né, com outras brincadeiras?", brincava também, mas eu acho que, pelo fato de estar muito próxima com os meus irmãos, a casa sempre cheia com os amigos dele, as minhas brincadeiras geralmente foram essas, mais, assim, sabe? Bola, bicicleta, “skate”, empinar pipa e na rua também, a gente... Tinha bastante criança da mesma idade e a maioria, também, eram homens, então as minhas brincadeiras sempre foram voltadas pra essas brincadeiras mais, né, junto com os meninos, vamos dizer assim.

P1 - E quando criança, você tinha algum sonho de "eu quero ser isso quando crescer"?

R - Eu nunca tive muito certa, assim, sabe, um... Um objetivo só. Na verdade, eu acho que tinha vários. Por muito tempo eu achava que ia ser médica, porque eu pensava que... Pensava, não, era um desejo cuidar das pessoas, mas aí você vai crescendo, vai mudando. Aí quando eu comecei a estudar, fui tendo contato com os números [e] já queria fazer alguma coisa voltada mais pra Matemática, porque eu me identificava com aquilo, então... Mas, assim, no decorrer da vida, eu acho que foi mudando muito. Eu nunca tive um desejo só, sempre tive vários.

P1 - Aproveitando que você está falando de matemática e números: você tem alguma lembrança, as primeiras lembranças da escola?

R – Tenho. Eu lembro, assim, das matérias, sabe, que eu gostava mais. Então, geralmente, quando tinha Matemática, coisas relacionadas a números, assim, eu me identificava mais, gostava mais. Então, quando já era mais Português, aí eu ia, mas já não me identificava tanto. Eu já não me via, sabe, fazendo tanto… Nada relacionado a tanta leitura. Era engraçado, assim. Mas quando tinha, geralmente, Matemática… Eu adorava Matemática. Assim, quando tinha aulas de Matemática, eu super me identificava, gostava de ir. É uma lembrança boa, remete uma lembrança muito boa.

P1 - E teve algum professor que te marcou, dessa época?

R - Ai, um... Eu acho que não teve um específico, assim. O que marcou mais, mesmo, acho que foi a matéria, sabe? Tiveram alguns que passaram, no decorrer, alguns excelentes, mas não um específico. Acho que eu gostava do contexto.

P1 - E a sua escola era perto da sua casa? Você ia a pé?

R - Sim, era uma escola estadual. Estudei no estado. Era próximo da casa onde eu morava. A princípio, né, no início, a minha mãe me levou, acho que até o terceiro ano. Na quarta-série, eu lembro que pedi que queria ir andando, sozinha, porque os meus amigos já iam. Aí, da quarta-série, como era próximo também, a minha mãe acabou liberando. Da quarta-série em diante, eu lembro que eu ia a pé, sozinha, com meus amigos. Ia e voltava, assim.

P1 - E você saía bastante com os seus amigos? O que vocês faziam?

R - Quando eu era criança? Você diz, na infância? 

P1 - É, pode ser na infância, até na adolescência mesmo.

R - Saía, com o pessoal da rua. Assim, como eu disse, a gente tinha, na rua onde eu morei, bastante criança e adolescente, tudo na mesma idade. Então, esse era o público, assim, sabe, de amizade que eu tinha, que eu convivia. Até mesmo na infância, a gente acabou estudando meio que junto também. Então, esse é o público, assim, tudo de vizinho, sabe? Eu lembro que a gente era os mesmos que estudavam juntos e aí se encontrava no período - estudava de manhã, a maior parte do tempo eu estudei de manhã - da tarde, a gente se encontrava na rua. Então, era aquele convívio, tanto com escola, quanto no dia a dia ali, de vila. É um bairro residencial, assim, então, era uma vila super tranquila. Eu lembro bastante, assim, dessa fase de ficar com o pessoal na rua. Enfim.

(07:06) P1 - Você conviveu com esse pessoal desde a sua infância, até o ensino médio, mais ou menos?

R - Até o ensino médio. Aí depois cada um meio que foi seguindo caminhos diferentes e hoje até tenho contato com poucas pessoas. Perto do que a gente convivia, hoje são poucos que eu acabo tendo contato.

P1 - Depois da escola, você lembra qual foi seu primeiro trabalho? [E] se você lembra também como usou seu primeiro salário?

R - Não, não lembro como que gastei o primeiro salário, mas lembro do meu primeiro trabalho. Eu tinha quinze para dezesseis anos, estava pertinho de completar. Eu trabalhei numa escolinha de informática. Era uma escola que ministrava treinamento para mexer no pacote Office. Eu era recepcionista. Não lembro... Assim: eu lembro da emoção do primeiro emprego [e] ao mesmo tempo, aquele nervoso, não saber direito como ia ser meu dia a dia. Eu estudava ainda, então, era no período da manhã/tarde. Eu saía... Lembro que entrava às oito da manhã, saía às três da tarde e estudava à noite. Mas eu não me recordo com o que gastei, não.

P1 - E em seguida você começou a faculdade? Quando que foi?

R - Não. Então, aí eu fiquei nesse emprego um tempo, acho que um ano e meio, quase dois anos. Aí, depois, eu fui para um outro, também como recepcionista. Nesse emprego, era uma administradora de condomínio. Eu tive a oportunidade de participar de uma seleção interna, para mudar de área; que eu queria já sair da recepção. Eu já começava, comecei, né, a pensar em futuro. E, engraçado como as coisas vão fluindo. Assim, eu sempre tive contato com a tecnologia, primeiro emprego [foi em] uma escolinha de informática. Aí, nessa empresa, apareceram duas oportunidades: uma para área comercial, negociação, ajudar em questões de preparar contrato e uma outra oportunidade, que era na área da tecnologia, que era para dar suporte nos sistemas; quando dava problema, ajudar as pessoas, era do tipo, a pessoa do “help desk”. E eu quis participar dessa vaga, falei: “Eu acho que me identifico mais”. Sempre fui muito curiosa, assim, sabe? Eu ficava pensando… Não tinha a menor noção do que seria, mas eu ficava imaginando, tipo, como seria trabalhar nessa área, como que é resolver os problemas dos sistemas. Assim, eu ficava imaginando como seria o dia a dia. Aí eu lembro que tinha um menino que trabalhava nessa área e perguntei para ele, né, da vaga e o que ele fazia: "Me conta como é seu dia a dia". Aí ele me contou e eu fiquei encantada, falei: "Meu Deus, quero ver como é isso!", participei do processo e consegui ser transferida. Então, saí da recepção e fui trabalhar na área da tecnologia, com suporte, suporte ao cliente interno, lá, que eram os funcionários, e foi aí que eu consegui. Aí melhorou meu salário, né, eu comecei a ganhar um pouquinho a mais [e] entrei na faculdade. Entrei na faculdade de Ciências da Computação, mas, ainda assim, o que eu ganhava ainda não dava para pagar. Era uma faculdade muito cara na época. E aí eu fiz um ano de Ciências da Computação, mas, financeiramente, assim, já não estava ficando viável, né, porque eu tinha outras despesas na época, foi quando eu mudei. Eu fiz um ano de Ciências da Computação. Depois eu mudei, eu fiz, fui pra Sistema da Informação. Até porque, depois de um ano, também, eu já conseguia ter um pouco mais de noção do que era tecnologia, o que eu me identificava mais, porque o mundo da tecnologia é bem amplo. E aí eu vi que eu gostava mais de análise, a parte de desenvolvimento. Aí eu falei: "Acho que, se eu mudar pra Sistema, está dentro ainda do que quero fazer", mudei e dei sequência, aí terminei a faculdade.

P1 - Na época da faculdade, você sentiu que a sua vida mudou de alguma forma?

R - Ah, mudou no sentido de muito mais responsabilidade, porque eu trabalhava, estudava, então era uma vida de compromissos. Tinha compromisso com trabalho, aí no período da noite com a faculdade. (risos) Então, mudou nesse sentido. Eu era uma pessoa que vivia cansada (risos) e trabalhava nessa época, era na Paulista, eu ia de fretado e o fretado passava super cedo, sabe? Acho que é a vida que muita gente passou, né? Acordar super de madrugada, assim, pra conseguir pegar fretado. Aí trabalhava o dia inteiro, [depois] tinha que voltar pra faculdade, saía tarde da faculdade, pegava ônibus, ia pra casa. Então, a minha rotina, basicamente, era essa: trabalhar e estudar; e final de semana estava morta, (risos) só queria saber de descansar, assim. (risos) Eu pouco saía, nessa época de faculdade.

P1 - Foi aí que você teve seu primeiro contato com o Mercado Livre ou foi depois?

R - Não, foi depois. Eu ainda tive uma trajetória. Depois, eu saí dessa administradora de condomínio, aí foi quando eu fui para trabalhar com consultoria mesmo, então eu virei consultora e comecei a trabalhar em várias empresas porque, quando você trabalha na consultoria, você é alocada em vários projetos. Então, passei por diversas empresas, na área de programação mesmo. Eu era desenvolvedora de “software”. Fiquei bastante tempo em consultoria, passei de uma para outra. Eu não tive vários empregos porque, geralmente, quando eu entrava nas empresas, ficava bastante. Eu passei por duas consultorias. Aí, depois dessas duas consultorias, eu fui para um Banco. Trabalhei em um Banco, em uma instituição financeira. E depois dessa instituição financeira, é que eu fui ter contato com o Mercado Livre. Aí foi onde eu participei do processo de seleção e entrei no Mercado Livre. 

P1 - Dentro dessa área de Sistema de Informação, você acabou mudando o que você queria trabalhar ou continuou no mesmo, desde o início?

R - Mudei. Comecei com desenvolvimento de “software”, aí eu consegui... Foi ali que eu tive a sequência de carreira mesmo: então, eu comecei como júnior, depois fui para pleno, para sênior. Fiquei alguns anos como desenvolvedora, aí eu tive contato com gestão de projetos, né, comecei até a fazer mais a parte de gestão das entregas e me identifiquei muito. Nessa época, eu ainda estava na consultoria. E aí foi quando eu fui meio que migrando, assim, fui saindo um pouco do desenvolvimento, aquela parte só técnica e já comecei a ir para uma parte mais de análise, gestão de projetos e gestão de pessoas. Foi aí que eu fui, até me tornei coordenadora, então eu tinha ainda uma parte técnica, mas eu já não aplicava tanto, ficava mais já na parte só de gestão do projeto e pessoas. E aí, desde então, eu não voltei mais tanto para o técnico, dei sequência mais como gestora de pessoas e projetos.

P1 - E qual é sua principal função, no Mercado Livre?

R - Bom, hoje é fazer a gestão de projetos também, então a gente tem aqui toda uma cadência de entregas de projetos, dentro da área de tecnologia. Eu estou em um contexto que é um produto específico para “e-commerce”, que é “plug-ins”: disponibilizar um meio de pagamento para o universo de “e-commerce”. Então, eu estou liderando uma equipe de desenvolvimento de “plug-ins” aqui dentro. Minhas funções, basicamente, são fazer toda gestão do projeto, das entregas e cuidar dessas pessoas também. Cuidar no sentido de fazer a gestão delas, evoluir carreira. Eu falo muito assim: "Eu sou a facilitadora ali, do dia a dia, para tirar os impedimentos, ou de projeto ou se a pessoa também está precisando de uma orientação". E o gestor entra muito forte aqui, nisso, em orientar essas pessoas, evoluir a carreira delas. Então, a gente tem um papel muito forte aqui, com essa trilha, para essas pessoas: ajudar, orientar.

P1 - Você sempre gostou de trabalhar com pessoas, ou foi algo que surgiu assim: "pulou nas suas costas" (risos)?

R - Surgiu, foi meio automático. Fui saindo daquele técnico e indo mais para a gestão. A princípio era gestão de projetos, eu ainda não liderava pessoas, mas foi meio que natural, me achei assim. Sabe quando você se identifica? Foi o tipo de atividade que eu comecei a fazer e, de repente, falei: "É isso que eu quero". Eu acho que quando você é gestor de pessoas, conseguir ajudar as pessoas a evoluir numa carreira, a conquistarem os objetivos dela, sabe, é muito gratificante. Aí eu comecei a me identificar muito com isso, sabe, querer estar perto e ajudar essas pessoas. Claro que depende dos dois lados, não é só o líder que vai conseguir fazer todo um trabalho de evolução de carreira de alguém, óbvio, tem sempre os dois lados, mas você estar junto, conseguir acompanhar, orientar, aí eu me identifiquei. É onde eu falei: "É aqui que eu quero estar, é aqui que eu quero seguir."

P1 - Você acha que a área de TI, desde que você começou, mudou bastante?

R - Mudou. A tecnologia como um todo, né? Eu falo que acho que o maior desafio de quem está na tecnologia, hoje, é conseguir se manter atualizado. Ela evolui muito e evolui muito rápido, então, eu que estou em um contexto de desenvolvimento de “software”, a gente tem que estar se atualizando sempre. A cada hora é uma linguagem diferente, então a gente tem que estar antenado para tudo isso, para determinado problema que eu estou: o que é melhor, o que é pior. Então, sim, eu acho que é uma constante evolução. Não dá para dizer. Assim, as próprias linguagens que eu comecei hoje em dia, nem se falam mais, já são outras. E tecnologia, acho que é isso: estar antenado com o que está acontecendo, se atualizando, se identificando no que você mais gosta de fazer e seguindo.

P1 - Você sente que tem uma receptividade diferente para mulheres e para homens, nessa área?

R - Eu acho que, antigamente, quando você olhava pra área da tecnologia, parecia ser, até nas faculdades eram mais homens, até quem buscava esse tipo de curso. Hoje em dia, eu já acho que não. Assim, acho que está muito igualitário. Eu já vejo, hoje em dia, muitas mulheres buscando a área da tecnologia, para ter uma formação, para seguir carreira. O próprio Mercado Livre tem várias mulheres. Então, eu não sei dizer se é 50/50, mas posso dizer que, hoje em dia, tem muita mulher na área, muita mulher procurando essa área e se identificando. Quando eu comecei ainda eram bastantes homens. Assim, eu lembro da faculdade, era uma turma super grande, acho que tinha quarenta e cinco pessoas. Eu lembro, sei lá, acho que eram dez mulheres, pouquíssimas. E ainda, no final do curso, não terminou as dez, acho que terminou com sete, mas hoje já não vejo dessa forma. 

P1 - No Mercado Livre, também tem bastante mulheres nessa área?

R - Tem bastante mulheres, de todos os níveis, não só de gestão, não: programadoras, líderes, diretoras, em todos os níveis.

P1 - A gente já está caminhando para o final e eu queria saber: hoje, quais são as coisas mais importantes para você?

R - A gente está, também, em um contexto tão peculiar, de meio de pandemia, assim. Para mim, é tentar achar o equilíbrio, sabe? Assim, de tudo. A área de tecnologia é uma área que demanda muito, a gente tem que estar sempre muito presente, muito “on-line”, sempre se atualizando. Requer muito. E eu acho que você tem que tentar achar o equilíbrio de tudo disso: a vida pessoal; é fazer atividades fora, talvez, desse contexto; é você se identificar; é você conseguir conciliar uma vida profissional legal, bacana, que tenha sentido pra você, também e, ao mesmo tempo, a sua vida pessoal. Então, é o profissional e o pessoal ali, andando juntos, mas tudo fazendo sentido. Tem que fazer sentido para a pessoa, né? E é isso que eu busco muito hoje, o equilíbrio. Eu tive minha fase de trabalhar muito, alucinadamente e estava tudo bem. Hoje, trabalho muito ainda, mas com equilíbrio, sabe, tentando conciliar tudo para não ficar pesado.

P1 - Aproveitando que você falou da pandemia, você acha que teve muitos desafios, com esse contexto novo? O que mudou na sua vida pessoal e profissional?

R – Teve. Acho que talvez, até, para todo mundo. Para mim, foi um contexto muito novo, no sentido de ter que trabalhar cem por cento “home office”. Eu nunca tinha trabalhado nesse formato. Lá no Mercado Livre, a gente até tinha, uma vez por semana, uma pessoa fazia “home office”, mas no contexto, a gente estava lá, presencial. Era um ou outro que estava em casa e fluía super bem. De repente, todo mundo [está] cem por cento em casa. Então, a gente teve que se adequar, no sentido de criar uma rotina de trabalho, porque, quando você está presencial: você está do lado, escuta, pede ajuda, vai na mesa. É o olho no olho, você sabe se está tudo bem. Você consegue, ainda mais para um líder, ter aquela percepção: "Poxa, a pessoa ali, hoje, ela não está bem, então tudo bem, não vou exigir, talvez, tanto". No presencial, você perde esse tato... Desculpa, no “home office”, você perde este tato, né? Então, o desafio foi esse: conseguir criar uma rotina que você tenha uma proximidade com as pessoas, mas, de certa forma, também, não tão invasiva. Não é porque você quer controlar se a pessoa está ali, se está sendo produtiva, se ela está trabalhando o tempo todo. É de saber se ela está bem, se está conseguindo fluir bem ali, no dia a dia dela. Então, o começo foi muito isso: a gente se identificar nesse contexto novo e se organizar. E super fluiu, assim. Hoje, eu posso dizer que eu estou super adaptada, a minha equipe também. Todo mundo conseguiu se adaptar, se sentem mais produtivos. Acho que é um momento também, não tem mais aquele desgaste, talvez, do trânsito, de chegar. Já está todo mundo ali, em casa, consegue ter um planejamento de tempo melhor. Então, agora, a gente está nesse contexto e fluindo. Pelo menos na minha equipe, conseguimos criar uma rotina e está super fluindo para mim e para eles, para todo mundo.

P1 - Tem algum projeto que você pense, que te traz algum orgulho, que você queira compartilhar?

R - Projeto? Você diz um projeto pessoal ou um projeto mais profissional?

P1 - Pode ser qualquer um dos dois, mas eu me referi mais ao profissional, mesmo.

R - Teve vários, assim. Bom, eu estou em um contexto de tecnologia faz vinte anos, então eu lembro com muito carinho, aqueles primeiros, assim, sabe? Fazer um projeto do zero e sozinha. Poxa, eu lembro que era um projeto contábil, tinham várias regras financeiras, então era aquele desafio. Tinha a parte técnica, que era algo que eu estava aprendendo e, ao mesmo tempo, eu tinha que fazer um projeto contábil. Lembro desse pelo fato de ser o primeiro, sabe, aquela minha primeira entrega, naquele contexto que, além de estar aprendendo, era um projeto importante. Mas tiveram vários, no decorrer. Quando eu fiz uma transição também, de linguagem. Eu fui trabalhar com Cobol uma época, que todo mundo até falava que: "Ah, Cobol, nossa, daqui a alguns anos nem vai ter mais". E mesmo assim eu arrisquei, falei: "Eu vou lá, vou aprender". Mesma coisa, outra sensação, pelo motivo de eu ter trocado de linguagem, fui aprender Cobol e entregar um projeto em Cobol. Acho que no decorrer tiveram alguns, assim. Aqui, no Mercado Livre, também: fui trabalhar com “plug-ins” e eu nunca tinha tido contato. Então, aprender esse universo de “plug-ins”, aprender o universo todo de “e-commerce”, esse ecossistema todo. Acho que são vários projetos. Se eu falar só um, assim, não sei se estaria sendo justa. Lembro de vários, com bastante carinho.

P1 - E na sua vida pessoal, teve algum momento marcante, que eu não citei, que eu não perguntei e que você gostaria de falar?

R - Também, algumas conquistas. Bom, um momento marcante na minha vida: eu sempre quis fazer um intercâmbio e, por questões financeiras, eu não consegui fazer quando era mais jovem, que até acho que, geralmente, quando todo mundo consegue, gostaria de ir quando está mais jovem, de fazer uma experiência dessa. Eu fui em 2018, fiquei oito meses na Irlanda. Então, esse foi um momento bem marcante. Eu não era tão nova, mas foi quando consegui me planejar financeiramente para fazer e realizei, era um sonho. Esse é um sonho que eu sempre tive e consegui realizar agora. Então foi um momento bem marcante na minha vida, foi uma experiência incrível, assim. Foram oito meses de pura experiência, de conhecer pessoas, cultura, foi muito marcante na minha vida. Eu voltei diferente, assim.

P1 - Tem alguma experiência de lá que te marcou?

R - Então, quando eu fui pra lá, já fui com uma mentalidade que eu não queria fazer nada voltado para a área da tecnologia, queria ter contato com…. Eu queria trabalhar, mas com alguma outra coisa, alguma coisa que me desafiasse: e fui cuidar de idoso. (risos) Totalmente diferente, mais voltado para área da saúde. Aí eu fiz cursos lá e fui cuidar de idoso. Fiquei durante alguns meses. Foi uma experiência incrível, porque era uma troca, assim, sabe, eu cuidar deles e, ao mesmo tempo, você acabava conversando com eles e aí você entendia, tipo, a história de vida daquelas pessoas. Por isso que eu falo que voltei diferente: eu conversei com tanta gente, com histórias de vida tão diferentes, conquistas diferentes. E aí, pra mim, eu percebi que o que agrada um não é o que agrada ao outro, assim, também, como no meu dia a dia. Até quando você faz liderança é isso também: o que motiva um não é o que motiva o outro. E eu tive muito isso lá fora, assim, sabe, de viver com essas pessoas e perceber que os motivadores são diferentes. Então, foi uma experiência incrível. Em um primeiro momento, eu falei: "Gente, será que isso vai dar certo? Não é muito ousado?", mas não, deu super certo. Sou eternamente grata por essa experiência. A escolha que eu tive e a experiência que eu tive, foi muito bom.

P1 - Flávia, quais são os seus sonhos para o futuro? Pode ser mais de um: profissional, pessoal...

R - Eu não consigo pensar muito para frente. Eu sei que essas perguntas geralmente vêm: "Ai, como você se vê daqui três, cinco anos?". Eu sou uma pessoa que vive muito o presente. O presente tem que fazer sentido para mim, as coisas que estou fazendo agora [devem] estar fazendo sentido para mim e elas estão. O que eu penso, daqui para frente, é tentar manter esse equilíbrio que eu acho que achei agora. Como eu disse, óbvio, tem dia que é um pouco mais agitado, tem dia que é um pouco mais perturbado, a vida não é sempre cem por cento plena, mas de ter essa consciência, assim, de equilíbrio, não pesar nem sempre muito, não me cobrar demais, nem no profissional, nem no pessoal. Tentar achar uma forma de vida e de trabalho que faça sentido para mim, ter contato com a minha família. É isso, assim. Como me vejo daqui pra frente, alguns anos? Construindo carreira lá no Mercado Livre. Super me identifiquei com a empresa, eu adoro trabalhar lá, então, me vejo sim construindo carreira lá. Mas, assim: "Onde você quer chegar?”, não sei. O que eu falo é assim: o dia a dia vai me levando. Os méritos, eu acho que vão levando a gente para algumas coisas. Acho que seria mais isso.

P1 - Você é bastante próxima da sua família?

R - Sou, tenho bastante contato com meus pais, com os meus irmãos, bastante. 

P1 - E agora, nossa última pergunta: o que você achou de contar sua história?

R - Adorei. Na verdade, eu nunca tinha participado de uma entrevista assim. Foi interessante, que vocês resgatam desde a infância. Eu não sabia como iam ser as perguntas, então, nossa: “Como foi sua infância, com quem você teve contato", acabou resgatando memórias que, no dia a dia, às vezes, a gente nem lembra. Então, foi meio que foi construindo, desde a minha infância, como eu fui tendo a minha trajetória técnica, de profissão e de carreira, até onde estou hoje. Achei super interessante, mexeu com emoções e, ao mesmo tempo, eu estou com sentimento, tipo: "Nossa, eu estou bem e feliz onde estou hoje". Eu acho que a vida foi me levando, fui seguindo ali e trilhando toda uma carreira. Estou bem e estou feliz com as minhas escolhas e onde estou hoje. Foi bem bacana.

P1 - Que bom! Então, em meu nome e em nome do Museu da Pessoa, eu agradeço a entrevista. Foi muito legal! Obrigada!

R - Obrigada, Grazi! Obrigada a todos!

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