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História

Resolvi ser médico

História de: Armando Porto Carreiro de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/11/2014

Sinopse

Armando nasceu no Rio de Janeiro e viveu praticamente a vida toda na Tijuca. Aproveitava a cidade e em especial o bairro, e na sua história conta das lembranças de como era o bairro quando ainda havia cinemas de rua e entregador de leite. Cresceu, estudou em colégio só para meninos e acabou fazendo medicina. Hoje é diretor e médico de hospital público na cidade.

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História completa

Eu nasci em dez de julho de 1963 na Cidade do Rio de Janeiro, e fui nomeado pelo meu pai e pela minha mãe Armando Porto Carreiro de Souza. O meu pai é Alberto Porto Carreiro de Souza, minha mãe é Marlene Pessoa de Souza. O meu pai sempre foi uma pessoa que tentou passar pra gente que era importante você se dedicar às coisas que você fazia, né? E minha mãe como uma grande mãezona, sempre teve presente com a gente em todos os momentos, tentando entender a gente.

Até meus três, quatro anos de idade, a gente morava num apartamento pequeno no Rio de Janeiro, na Tijuca, eu me lembro que eu dormia no quarto do meu pai. A primeira grande mudança na minha vida foi quando a minha irmã nasceu, que eu tive que sair do quarto dos meus pais pra dormir no sofá da sala. Aí vai trabalhando, vai melhorando de vida, a gente passou pra um apartamento de um quarto e meio, isso foi até os nove anos, quando o meu pai construiu uma casa pra gente na Tijuca. Era um bairro no Rio de Janeiro que tinha uma praça central do bairro, que é a Praça Sáenz Peña. Em volta dela tinha uns 12 cinemas. Então eu lembro algumas coisas muito peculiares, eu lembro de um domingo por mês eu indo a Metro Tijuca pra assistir Festival Tom & Jerry, aquilo era o máximo pra mim. E a cultura do bairro sempre viveu muito em torno da Praça Sáenz Peña. Hoje acabaram todos, não tem mais nenhum cinema em volta da praça, né? Mas eu me lembro de coisas simples, eu me lembro do leite entregue com garrafa na porta da casa da minha avó. A minha avó morava numa casa nesse bairro também, a minha família inteira sempre morou na Tijuca.

Quando eu era menor, o meu pai tinha um escritório no centro da Cidade do Rio de Janeiro, eu adorava ir pro centro, primeiro que brincar no escritório do pai era uma coisa que dava muito prazer pra gente, mexer nos papéis, nos carimbos. E segundo, tem uma confeitaria muito tradicional no Rio de Janeiro, Confeitaria Colombo, e sempre que a gente ia no escritório do meu pai, eu minha mãe e minha avó, a gente ia na Confeitaria Colombo. Eu gostava muito também que os meus avós por parte de mãe, Seu Manoel e Dona Amélia, eles moravam num local não tão glamoroso como seria a Tijuca naquela época, e a coisa que eu mais gostava é que eu podia tomar banho de tanque.

Na infância eu brincava muito com a minha irmã, a gente brincava no corredor do prédio. A gente brincava muito de fazer pesquisa, minha mãe incentiva muito isso na gente. Então a gente pegava um livro, eu falava: “Vamos pesquisar sobre as formigas”, aí escrevia um pouquinho sobre as formigas. A minha avó por parte de pai tinha uma casa na serra, a cem quilômetros do Rio, e a gente ia quase todo final de semana, e todas as férias eram passadas lá. Então lá era o grande paraíso pra mim, eu me libertava daquele um quarto e meio e andava de bicicleta, andava a cavalo e corria.

Eu me lembro como se fosse hoje o meu primeiro dia de aula. Minha mãe tava procurando uma escola pra mim, eu tinha três anos e meio. Como filho de professora, já vinha semialfabetizado de casa. Chegou numa escola, a Baby Garden, minha mãe encontrou uma colega de turma dela como dona da escola. Fiquei lá até os nove e fiz a quarta série numa escola pública no Rio de Janeiro. Aí eu fui estudar no Colégio São Bento, um colégio beneditino, o único colégio que não é misto no Rio de Janeiro até hoje. Eu fiz o antigo ginásio, o científico e de lá saí pra universidade.

Teve uma coisa interessante na época de escola: o Brasil na Copa de 70 treinava no Itanhangá, entre São Conrado e Barra, ali no Rio de Janeiro. E tinha um colega de turma, tijucano também, Vagner Chirol, que o pai dele era Admildo Chirol, que era um dos preparadores físicos da seleção brasileira, então ele organizou uma visita da nossa turma ao treinamento da seleção. Eu tenho uma foto, assim, histórica, que é o Zagalo, Pelé e eu no meio, com sete anos de idade, entendeu, abraçado com os dois.

Eu me lembro a primeira vez que eu fui ao cinema sozinho, foi um marco na minha vida, entendeu? Acho que eu devia ter 15 ou 16 anos, fui ver um filme que foi uma choradeira total, como eu me lembro das coisas, “Uma janela para o céu”, a história de uma esquiadora americana que na preparação fica tetraplégica. Pô, foi um marco na minha vida ir ao cinema sozinho.

Eu tinha um tio, irmão do meu pai, que era meu padrinho, que eu gostava muito, e ele era farmacêutico, e eu me encantava, visitava ele às vezes nos laboratórios que ele trabalhava na indústria farmacêutica, e me encantava com aquelas coisas e tudo. Então eu queria fazer Engenharia Química a minha vida inteira. No terceiro ano, poucos meses antes do vestibular, é que eu resolvi ser médico. Eu mudei de ideia quando eu comecei a participar de movimentos sociais da igreja católica. Eu achei que eu queria fazer uma coisa que eu pudesse ajudar mais diretamente os outros, né, foi aí que eu resolvi ser médico. Eu queria impactar de uma forma mais direta na vida dos outros. Eu me formei, aí entrei logo na residência médica, entrei na residência médica, acabei a residência médica, fiz logo mestrado, mas eu trabalho desde os meus 17 anos. Eu promovia vendas de viagens à Disney, era promotor de viagens à Disney. Eu passei pro segundo semestre da faculdade, então aquele meu primeiro semestre inteiro eu trabalhei: dei aula de catecismo, de religião, fui treinador de time de handebol, que eu jogava handebol também.

Sou casado, casado há 14 aos. Segundo casamento, eu fui casado a primeira vez e com cinco anos separei e casei de novo, tem 14 anos. Eu casei muito novo, eu tinha 25 anos e na época eu tava começando a ganhar um dinheirinho melhor. A gente trabalhava muito, eu acho que o que atrapalhou muito o meu primeiro casamento é que eu via a minha mulher três dias na semana. E ela hoje é uma pessoa que é minha amiga, a gente ocasionalmente se fala, quando um precisa de alguma coisa, fala com o outro, não tivemos filhos, ficou uma relação muito boa. A minha segunda esposa eu conheci fazendo uma arteriografia num paciente com um tiro na perna, né, eu tava trabalhando com o paciente quando ela chegou: “O que que é isso aí?”, eu falei: “Filha, não atrapalha, não, fica de fora, por favor, que eu tou trabalhando”. E foi assim que a gente se conheceu e a gente tá casado desde 2000, temos duas filhas, Ana Clara tem 12 anos e a Ana Carolina tem nove anos. Eu adoro as minhas filhas, adoro estar com elas.

Em relação ao paciente, muitas vezes eu, como cirurgião, pra minha intervenção cirúrgica funcionar, dar certo ou ter menos complicação, eu preciso de um paciente mais bem nutrido possível. Então muitas vezes o tratamento não começa quando eu abro a barriga dele pra operar, começa quando eu preparo ele nutricionalmente pra ser submetido a um procedimento cirúrgico. E, quando eu faço isso, eu tou diminuindo infecção, tou diminuindo complicação, eu tou dando mais qualidade de vida desse paciente, porque ele fica menos tempo internado, com menos complicação e volta mais apto pra sua família. Hoje em dia a gente se orgulha de ser um dos poucos hospitais públicos que oferece o preparo nutricional pro paciente, pra ele levar pra casa e tomar antes de ser internado. Meu primeiro aprendizado é que eu preciso de mais nutricionista no hospital, eu tenho pouca pros projetos todos que a gente quer desenvolver. Segundo, é muito legal lidar com o jovem, com o aluno, né?

A gente se prepara no dia a dia, você cria conceitos que você acha que são importantes, de tentar relativizar a perda, mas pra quem perde aquele é único, não tem muito como relativizar. Nesses 26 anos de médico, de cirurgião, trabalhar com terapia nutricional, a gente vê muita coisa boa, muita coisa ruim, mas a gente não pode perder nunca é a capacidade de se emocionar. É a capacidade de ocasionalmente chorar com a família, ocasionalmente ficar muito chateado, porque uma coisa que você queria fazer de uma forma o resultado foi outro, é se questionar: “Será que esse resultado não foi tão bom, porque eu não tava preparado, não me preparei tão bem pra aquilo?”. E botar uma coisa na cabeça: todo paciente, por mais que pareça igual ao outro, é diferente; e você tem que se preparar pra cada um deles, e a preparação não termina nunca, você tem que estar se preparando a vida inteira pra receber aquele paciente, pra escutar a queixa dele, pra entender o que que tem de importante, o que é só um desabafo dele, o que você pode intervir como um cirurgião, o que você pode intervir muitas vezes como ouvinte só daquele paciente, daquela família. Todos nós temos limites, temos finitude e não vão saber tudo, não vão saber resolver tudo. E, se eu tivesse que ter um sonho, é que as pessoas tivessem a mesma conduta que elas têm tanto na medicina privada quanto na medicina pública.

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