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História

Resistindo com graça

História de: Mouzar Benedito da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/03/2014

Sinopse

Um grande contador de causos e histórias, Mouzar Benedito deve seu nome ao compositor Mozart e a São Benedito. Passou a infância em Nova Resende, pequena cidade em Minas Gerais, onde brincava de roubar fruta, de escolinha, jogar bola, montar no cavalo em pelo... Fez ginasial em Contabilidade, e desde os sete anos já era contratado para pequenos trabalhos, com os quais ganhava um "troquinho". Após terminar o colégio, trabalhou um tempo na barbearia de seu pai, grande ponto de encontro das diversas personalidades da pequena Nova Resende, mudando-se depois para São Paulo, onde entrou no curso de Geografia da Universidade de São Paulo. Sempre trabalhando, experimentando diferentes áreas, com sessenta e cinco anos já completou por volta de oito carteiras de trabalho. Durante a graduação, se envolveu no movimento estudantil, alcançando posições de liderança. A política nunca deixou sua vida, e durante alguns anos foi filiado ao PT. Leva a vida com sinceridade e muita graça, fazendo piadas até quando foi preso pela ditadura, e passou quatro dias no Dops. Mais velho, cursou a Cásper Líbero, e a profissão de jornalista tornou-se o carro chefe da sua trajetória profissional. Trabalhou bastante com cultura, desenvolvendo projetos no SESC, SENAI, entre outros órgãos públicos, sempre, porém, dando pouca atenção para as questões burocráticas e não se amarrando aos empregos por nada que não o gosto de estar trabalhando com algo interessante. Escreveu diversos livros com causos que contava, além de romances, sempre com o tom irônico e divertido, que o acompanha em tudo o que faz. Não acredita que exista um "sonho pessoal", analogamente ao "sonho soviético", mas, nesse momento, deseja que o Saci, folclore base de um de seus projetos culturais, seja o mascote da Copa do Mundo de 2014. 

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História completa

P/1 – A gente começa perguntando o nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R – Mouzar Benedito da Silva. Local de nascimento é Nova Resende, sul de Minas. Data: 22 de novembro de 1946, mas registrado no dia 23.

 

P/1 – Vamos voltar lá atrás. Eu queria que você dissesse o nome dos seus pais, o que eles faziam...

 

R – Começar pela pré-história (risos). Meu pai chamava-se Antonio Germano da Silva, era barbeiro quando eu nasci, mas antes disso havia sido trabalhador rural braçal. E minha mãe, Ignácia Ourives Torres. Na verdade, ela se chamava Ignácia Torquato Torres. O meu avô, pai dela, tinha mania de pôr o nome do santo do dia nos filhos. Ela teve o azar de nascer no dia de São Torquato (risos), ela odiava isso. Até que um dia, ela  foi ao Cartório - em Minas funcionava tudo assim - e apagou o Torquato. Minha família, por parte do meu avô materno, tinha o apelido de 'Ourives', por causa dos primeiros caras que foram para Minas nessa região para mexer com ouro. E ela disse: “Todo mundo vai me chamar de ‘Ourives’ mesmo”. Apagou o Torquato e pôs o Ourives no lugar: ficou Ignácia Ourives Torres. Casou e manteve o mesmo nome. Eles eram de Bom Jesus da Penha, um distrito de Nova Resende. Quer dizer, meu pai era mesmo da zona rural, minha mãe já era do distrito, que hoje é cidade. E eles viveram na zona rural até o quarto filho, em vários lugares. Eu fui o quinto e fui o primeiro a nascer na cidade, em Nova Resende, que não era tão cidade assim: tinha dois mil habitantes.

 

P/1 – Você conheceu os seus avós?

 

R – Eu conheci os avós por parte da minha mãe; do meu pai já tinham morrido. Meu avô dizia que era descendente de Bandeirante, mas na verdade não era não. Não existiam mais Bandeiras, que eram os aventureiros que saíam de São Paulo, lá pela virada do século XVIII para o XIX, eles iam buscar ouro nessa região de Minas. Segundo o meu avô contava, eram dois irmãos de sobrenome Brito... até hoje tem um bairro na zona rural chamado Britos, que eles ocuparam lá. Manuel Antonio de Brito e José Antonio de Brito moravam em São Paulo. Um dia, andando pela rua, viram a polícia prender uma moça. E aí eles foram lá perguntar: “O que aconteceu?”. O policial falou: “O intendente daqui...” - intendente era equivalente a prefeito, governador, sei lá - “…tentou 'comer' ela na marra, e ela deu um tiro no cara”. Eles pegaram, tomaram a mulher da polícia e um deles falou: “É uma mulher dessas que eu quero”. Tomou a mulher da polícia, passou em um lugar em que estava hospedado o Frei Caneca, e segundo ele, eles se casaram, foram para Minas e não voltaram nunca mais. Isso é o  que conta o meu avô. Ele se chamava João Guilherme Torres, apelidado de “João Ourives”. O apelido desses caras era 'Ourives', apelido hereditário. E a minha avó, mulher dele, Antonia, apelido Tonica, era de uma outra família, Negrão Cardoso... era um monte de mistura de sobrenome ali. Da família do meu avô também, tinha uma outra parte que tinha apelido de “Barulho”, porque o primeiro cara que apareceu dessa família em Bom Jesus da Penha no século XIX... a família diz que eles gostavam de festa, por isso que tinha o apelido de “Barulho”, mas outros, que não são da família, dizem que qualquer coisa ele saía dando tiro, daí pegou o apelido de “Barulho”, por causa disso. Sei que também virou um outro apelido hereditário: um ramo da família do meu avô era 'Ourives' e o outro, 'Barulho'. E por parte do meu pai, eu acho que tem índio, negro, branco, tudo misturado. Quando foram as primeiras Bandeiras para aquela região, havia uns quilombos também, tinha índio.O meu pai era analfabeto, e ninguém da família dele sabe como apareceu por ali. Gozado que minha mãe era professora rural, e depois se casou com ele (risos). Professora leiga. Então, eu não conheci meus avós por parte de meu pai, acho que eu devia ser bebezinho quando o último deles morreu. Mas era tudo família muito grande: ele tinha uns onze ou doze irmãos; minha mãe tinha sete ou oito. Da parte do meu pai, acho que já morreram todos os irmãos dele; da minha mãe tem um irmão mais novo e a irmã mais nova, ainda moram lá em Minas.

 

P/1 – E como os seus pais se conheceram?

 

R – O distrito devia ter uns quatrocentos habitantes, todo mundo se conhecia. E o meu pai tem fama de muito namorador, ele tinha o apelido de 'Antonio Bonito'. O pessoal dizia que ele namorou todas as mulheres que depois se casaram com os irmãos dele. E a minha mãe obedeceu ao meu avô. Quando era hora de casar, o meu avô sugeriu que ela casasse com o meu pai, ela topou, e ficou morando ali em Bom Jesus da Penha, nos Britos. E nasceram meus irmãos mais velhos: minha irmã que chamava Antônia; depois a minha irmã apelidada de 'Dica', chamada Piedade. Eu brincava com a minha mãe: “Como é que você põe o nome de Piedade em uma criança?” (risos). Ela falou: “É que quando eu estava grávida, sonhei com Nossa Senhora da Piedade, ela estava tão bonita!”.  “Mas como a senhora sabe que era Nossa Senhora da Piedade? Como vai identificar uma santa dessa?” (risos). Aliás, lá em casa, todo mundo tem seu santo protetor. Então, Toninho, o santo dele é Santo Antônio; da 'Dica', Nossa Senhora da Piedade; depois vem o João - que nasceu num bairro rural chamado Usina - João Rosário, Nossa Senhora do Rosário. Depois nasceu Amélia, Amélia dos Anjos Torres, protegida pelos anjos. Eu, ela escolheu São Benedito para me proteger, que é um santo interessante porque ele é o santo da cozinha, que não deixa faltar comida. Realmente, eu já me virei muito por aí, passei por muita encrenca, mas nunca passei fome. Depois vem 'Mariinha', Maria da Consolação, Nossa Senhora da Consolação. Aparecida, Nossa Senhora Aparecida. Depois Vicente, São Vicente; depois vem a Rita, que é Santa Rita. E a Regina de Fátima, Nossa Senhora de Fátima. Então, somos em dez filhos.

 

P/1 – E de onde veio o seu nome, Mouzar?

 

R – A família morava em um bairro rural chamado Usina, onde tinha uma usina hidrelétrica pequena que abastecia a cidade e mais um distrito. E lá era um lugar que tinha umas chuvas violentissimas, com muito raio, muito vento. A família morava lá e tinha quatro filhos. Aí, teve um dia em que uma chuva derrubou todas as casas. Tinha umas quarenta ou cinquenta casas no bairro rural lá, espalhadas, sobrou só metade da casa de máquinas da usina, na qual eles abrigaram as mulheres lá. Saíram socorrendo quem precisava, e tudo. Nisso, meu avô, que morava em Bom Jesus da Penha, soube dessa chuva, buscou minha família e deixou só o meu pai para reconstruir a casa. Quando ele acabou de reconstruir trouxe a família de novo. Aí, deu uma outra chuva dessas, derrubou tudo de novo, e a minha mãe falou assim: “Se você quiser ficar aqui, você fica. Eu vou embora”. Nessa época, havia um tio-irmão da minha mãe, que era barbeiro e tinha barbearia lá em Nova Resende. E ele tinha ficado viúvo, estava muito triste, não queria mais ficar em Nova Resende. Resolveu mudar para o  Paraná e foi para Bela Vista do Paraíso. E ele queria vender a barbearia. O meu pai já praticava um pouco a profissão de barbeiro na roça, cortando o cabelo dos vizinhos, fazendo barba, essas coisas, só que ele não tinha dinheiro. Meu tio vendeu fiado para ele, e aí a minha família mudou para a cidade, alugou a mesma casa, manteve a barbearia, e aí eu nasci... foi no final de 1946. E o primeiro amigo do meu pai, na cidade lá, era um cara muito culto, que colocava nomes clássicos nos filhos dele. Um deles era Mozart, mas com pronúncia de Mozár, e o meu pai resolveu homenagear o filho dele, não diretamente. Ele escolheu Mozart, em homenagem ao filho do amigo, e a minha mãe escolheu Benedito, que é o meu santo protetor, e ficou por aí (risos).

 

P/1 – Nome incomum.

 

R – Mas lá não é incomum, não. Em Nova Resende tem muitos Mozart. Um dia eu até comentei: estava jogando futebol uma vez, contando o juiz, éramos quatro Mozart (risos). Só que cada um escrito de um jeito, o escrivão não acertava um (risos), em cada nome ele colocava uma coisa no meio. No meu, ele colocou um u no meio e tirou o t (risos). Mas éramos quatro nos dois times de futebol e o juiz. Até hoje ainda tem um pouco ali; nessa fase do tempo de criança tinha mais, hoje em dia são menos.

 

P/1 – E como era a Nova Resende na sua época de infância?

 

R – Não tinha calçamento, era uma praça até bonita, uma rua que subia, outra que descia. A gente diz subia porque a praça é no alto de uma serra, numa linha de cumeeira numa serra. Aliás, a cidade fica em um espigão na linha de cumeeira, e é divisor de águas ali. As águas que nasciam no quintal da minha casa, por exemplo, corriam todas para o Rio Sapucaí, e quem descia a praça tinha uma várzea onde nasciam outros rios: nascia o Rio São João, que corria direto para o Rio Grande, já mais para baixo. Fora a praça e essas duas ruas, tinha uma rua chamada rua de Baixo, uma rua do Meio, e uma rua do campo de futebol, mas era com poucas casas. E os becos - todas as ruas transversais, a gente chamava de “Beco”, o nome era pelo morador principal: “Beco do Abílio”, “Beco do Miguel Turco”, “Beco do João Dorico”, “Beco do Bico”, “Beco da Cadeia”, e assim até o último beco, que era um beco mais comprido, que emendava com a estrada para Bom Jesus da Penha, era o “Becão”. Era assim. O trânsito era de carro de boi, cavalo, a barbearia do meu pai tinha um curral, porque as pessoas que iam cortar cabelo tinham animais. Mas não era só para o pessoal que ia cortar cabelo, não. Todo mundo que era amigo dele e ia para a cidade fazer compras, não sei o quê, deixava o cavalo lá no curral como se fosse um estacionamento. Chegava a passar o dia fora, pegava o cavalo no final da tarde e ia embora. Então, o trânsito era de cavalo e carro de boi principalmente. Tinha um ou outro caminhão, automóvel muito pouco. A cidade não tinha nenhum calçamento, tinha muito doido - não sei se é consanguinidade, tinha um pouco de consanguinidade, porque o lugar vivia isolado. Tinha uma “Jardineira” por dia para Guaxupé, que era a nossa Capital lá e tinha mais de dez mil habitantes. Então, era uma cidade que vivia muito isolada, não tinha ninguém de fora lá, a gente era doido para conhecer baiano. Tinha uma espanhola, que era parteira e veio fugida da guerra civil, e o padre, que também era espanhol. E tinha uns árabes também. Árabe tem em qualquer lugar, tanto que minha irmã mais velha se casou com um e os filhos dela têm o sobrenome Saad. Fora esse pessoal árabe, a Maria espanhola e o padre espanhol, não tinha ninguém de fora. Nem nordestino tinha lá. Eu era doido para conhecer um baiano, até que apareceu um baiano de Pernambuco lá, o Daniel. A gente chamava de baiano de Pernambuco. A gente torcia para ter briga porque a gente sabia que ele jogava capoeira, só que a gente chamava de “pernada”. Então, torcia para alguém provocar ele, ter briga e ele dar pernada. E a barbearia do meu pai era bem na praça. Tinha cinema, aliás, uma cidadezinha daquele tamanho tinha cinema que passava um filme diferente por dia. Era a minha casa, tinha o curral, o rinque de patinação, cinema. A cidade tinha comércio, que era muito centralizado na praça, que era bonita, depois foi reformada e fizeram uma praça mais moderna. E a gente andava a cavalo, a pé principalmente, algumas pessoas viajavam a cavalo. De vez em quando eu ia para Guaxupé de ônibus; às vezes, de caminhão de leite. Tinha um caminhão que ia buscar leite para umas fábricas de Bom Jesus da Penha, então, às vezes, a gente viajava nele. E, às vezes, quando eu ia passar uns dias na casa de uns parentes, tinha um tio que tinha uma caminhonete e, às vezes, levava a gente. E os doidos também... eu estava falando dos doidos. Lá a gente chamava de “mudo”.  “Mudo” podia ser qualquer coisa. Podia ser até mudo! Mas eram esses caras meio soltos, meio doidos, que viviam pelo mundo assim. Um dos motivos que eles paravam ali é que chegavam lá, eles eram muito bem tratados, as pessoas gostavam muito dos doidos, não sei por que. Por exemplo, a Furupa, que era uma mulher muito velha, cafuza, filha de índio com negro... minha mãe, quando tinha oitenta anos, falava que quando ela era criança a Furupa já tinha aquela cara (risos). Eu tenho até foto dela aí. Ela almoçava e jantava na casa de quem ela queria. Ela chegava na casa do prefeito, vamos supor, entrava, sentava na mesa na hora do almoço, serviam ela bem. Ninguém negava, se alguém ousasse negar alguma coisa para a Furupa estava mal visto na cidade para sempre. E um monte assim. Fizeram um asilo de São Vicente de Paula, em que morava um bando deles, tinha uns que moravam em casinha de quintal dos outros e tudo. Eu lembro de alguns assim. Ah, João Clara. Quando eu era criança ele morreu, todo comércio da cidade fechou, foi todo mundo, absolutamente todo mundo, para o cemitério. Eu nunca vi um enterro daqueles. Era um mendigo, doido mendigo. Tinha a Furupa, o Chico Babão, o Oscar Lobisomem, a Marculina Cega. Tinha o Vitor Louco, Vitor Preto, tinha o Badi. O Badi só falava “Badi, badi”. Diziam que caiu um raio perto dele, enrolou a língua e não sabia falar. Barbino. Tinha quem mais? Ah, tinha muito doido, tinha uns trinta que andavam por ali, soltos. E a cidade era assim. Tinha um médico só, doutor Elógio. O pessoal ia mais em farmácia, tinha posto de saúde. Aliás, esse médico tem uma importância! Quando eu estava com cinco meses de idade teve um surto de meningite lá e eu fui um dos... comecei a ficar assim nessa época (risos). O surto de meningite atingiu muita gente, inclusive uma filha do médico. Nessa época, não existia penicilina no Brasil. Esse médico, doutor Elógio, mandou vir penicilina da Europa. Só que era no tempo que vinha em vidrinho. Eu não sei nem como ele tinha informação, como ele encomendou penicilina da Europa, porque o telefone, por exemplo, só tinha o telefone público e mais dois, e para telefonar... você para a cidade vizinha demorava de duas a três horas. Não sei como ele conseguiu encomendar penicilina, que vinha de avião para São Paulo, e ainda eram os bacilos vivos. Daqui de São Paulo ia no avião da Real até Guaxupé, porque naquele tempo tinha umas linhas aéreas, aviõezinhos pequenos que iam para cidade pequena. De Guaxupé ele ia numa caixinha de gelo até Nova Resende, de lá ele aplicava na gente. Tirava o líquido da espinha e punha um troço no lugar. Muita gente ficou pirada, eu tive sorte e fui um dos menos piores (risos). Depois, eu fiquei sabendo que ele foi pioneiro no uso da penicilina no Brasil. Eu posso dizer que fui cobaia da penicilina aqui. Nisso, um efeito colateral que eu não sabia, quando eu sarei, era falta de apetite. Acho que não chegava a ser aquela doença, mas lá o pessoal não acreditava nisso não. Minha mãe diz que abria minha boca na marra e mandava alguém despejar leite, porque não podia ficar sem comer. Até que um dia apareceu um tio meu, irmão dela, chamado Benedito... tio Dito apareceu lá. Eu era criança de colo ainda. Ele estava viajando a cavalo, em tempo de chuva e frio, ele foi tomar um banho quente e minha mãe esquentou um leite, pôs um pouquinho de conhaque para não pegar resfriado. Na hora em que ele saiu do banho, que deu a caneca de conhaque com leite para ele, ela disse que eu fiquei olhando assim... aí ele falou: “Acho que ele está querendo tomar um pouquinho”. Minha mãe falou: “Ih, ele não aceita comida nenhuma, tem que dar comida para ele na marra”. E meu tio falou: “Mas ele está curioso, vamos ver”. Disse que me deu um pouquinho, eu gostei, e aí eu só aceitava leite com conhaque (risos). Até os quatro anos de idade, mais ou menos, o meu alimento básico era leite com conhaque. Minha mãe diz que chegava uma tia lá e falava: “Mas como é que você faz isso com o menino, ele está bêbado aí na cama”. Ela falava: “Melhor ele ficar assim que não comer nada, não aceitar alimento”. Então, foi assim. Quando o pessoal ia viajar para a roça, enquanto os meus irmãos pegavam o brinquedo - tinha um brinquedo só cada um - eu corria para a venda para comprar uma garrafinha de conhaque para pôr no leite de manhã, que é uma delícia. Quatro horas da manhã, as vacas chegavam para o curral para tirar leite, e começava a tirar leite essa hora. Eu dormia em um quarto com janela para o curral. Na hora em que eu escutava o barulhinho de tirar leite, as vacas mugindo ali, eu abria a janela, pegava uma caneta com um pouquinho de conhaque, um pouquinho de açúcar, tirava o leite em cima, ficava aquela espuma gostosa, quentinha. Então, tem essa coisa.

 

P/1 – E como era a sua casa na cidade?

 

R – Tinha a barbearia, que era um cômodo pequeno, com duas cadeiras de barbeiro, meus irmãos depois ajudavam meu pai. Um corredor, um quartinho minúsculo, e aí tinha um quarto, que era o quarto do casal, a sala, uma cozinha com a mesa grande. E tinha um quartão, que era o quarto de despejo. Mais tarde, meu pai fez uma separação ali para poder dividir... porque dormia todo mundo junto. Não dormia na sala, os maiores dormiam nesse quartinho pequeno na frente da casa, os outros eram tudo amontoados num quarto só. E meu pai fez um quartinho dentro desse quartão, que era o quarto de despejo. A privada era lá fora, tomava o banho de bacia, privada era lá no fundão do terreno. E a cozinha era também uma mesa comprida com dois bancos, algumas cadeiras. E era muito bonito ali, a frente era para a praça. Minas Gerais tem umas coisas interessantes nisso, sabe? Imaginando que a cidade fosse esse espaço aqui, a praça principal era aqui, na beiradinha. Então, da minha casa tem uma pirambeira, com as nascentes do Rio Claro lá embaixo, com uma capoeira, muitas frutas, café, e um mar de morros. Como eu morava na linha de cumeeira na cidade, do quintal da minha casa via aquele mar de morro, via a cidade de Monte Belo, Juréia, depois até a Serra de Poços, a cem quilômetros de distância. É bonito, eu gostava muito de ficar apreciando aquela paisagem, ficar imaginando. Dizem que em cidades montanhosas dá mais louco que em outro lugar, porque o cara perde um pouco as referências. E eu realmente ficava imaginando como era atrás de cada morro, porque a gente não tinha a chance de viajar, ia muito pouco nas cidades vizinhas ali, então, ficava imaginando o mundo como era, ali, olhando. Tinha até um trem. Porque em Nova Resende não chegava trem, mas tinha uma linha de trem que ia para Monte Belo e Juréia, para Muzambinho, que é outra cidade que a gente via também de Nova Resende. Às vezes, à tarde, eu ia lá, fixava o olho e via aquele risquinho passando e saindo fumaça... o trem. Imaginava, nem trem eu conhecia, só via dessa distância. E a casa era isso. Mais tarde, nesse quartão, que era inclusive o lugar em que a gente tomava banho, ele adaptou e fez um chuveiro para a gente esquentar a água, pôr numa lata daquelas de dezoito litros, uma torneirinha com um troço cheio de furo embaixo; aqui a gente abria a torneira, ficava embaixo e dava para tomar banho de chuveiro, já mais tarde. E a casa era assim.

 

P/1 – E tinha animais?

 

R – Quase todas as casas criavam porco. Meu pai, por exemplo, tinha um chiqueiro. Aliás, matar porco era uma festa, não sei como eles não traumatizavam naquela época. Imagina para uma criancinha... porque o porco grita quando vai morrer, não é? Bastante. E a gente lá, era uma festa. Quando ia matar porco, às vezes vinha até vizinho ajudar, porque matava tudo, aquela gritaria. Depois a mulherada fazendo linguiça, tirando pernil, fritando toucinho para tirar a banha; porque a comida era toda feita com banha de porco. A hora que tirava a bexiga do porco, eles davam uma lavadinha, enchia ela, amarrava a entrada e a saída e virava uma bola de futebol. E ficava jogando futebol. E só porco. Nessa fase, eu já estava com uns seis, sete anos, meu pai começou a ver uma coisa. O arroz branco é sem uma película que tem o arroz integral, então, lá tinha umas máquinas de limpar o arroz, que ele ficava limpinho e é do jeito que o pessoal da cidade gostava. Antes era o arroz de pilão, que a gente socava no pilão, e era mais gostoso, era o arroz integral, não é? E essa película do arroz integral é moída à parte e forma um farelo. Tinha um bairro chamado Lavapés, que o pessoal que era da roça parava lá para lavar os pés para calçar as botinas e entrar na cidade. E lá tinha uma máquina de arroz que meu pai me mandava buscar farelo para o porco. De vez em quando eu tinha que ir para lá. Era duro, eu era criança, e para ir para o Lavapés tinha que subir mais ou menos um quilômetro, depois descia uns quinhentos metros mais forte, aí chegava na máquina de arroz, pegava não sei quantos quilos de farelo em um saco - devia ser uns quatro, cinco quilos. Aí, eu fiz um carrinho... arrumei um caixote, fiz um carrinho, arrumei rodas, eixo, duas varetas e comecei a usar esse carrinho. E aproveitei para usar esse carrinho para ir para lá, ele não pesava. Aproveitei também para vender frutas para os vizinhos. Os vizinhos pediam para eu apanhar fruta, eu apanhava, vendia e ficava com 20% para mim... dava tostões. Aliás, quando eu comecei a vender as frutas eu já tinha oito anos e já tinha noção das coisas. Tinha um bar chamado Buraco da Onça, que era no fundo do cinema. O cinema também ficava no alto da pirambeira, tinha uma escada, no fundo tinha um bar que funcionava só de noite, das dez da noite até de manhã. Enchia de mulher ali à noite, aquelas mulheres da zona de prostituição, e os jogadores de baralho, era uma zorra. Eu era doido para ficar adulto só para ir no Buraco da Onça. Mas aí, ele mudou para uma casa próxima da minha, e o dono continuou a fazer as gandaias dele de noite, só que na praça ele tinha que abrir o bar durante o dia também para vender picolé, essas coisas. E ele não tinha paciência. Ele começou a me chamar para eu atender lá, ficar vendendo doce e picolé para a criançada. Eu já sabia ler porque quando eu estava com seis anos de idade, mais ou menos, uma das diversões das meninas da cidade era brincar de escolinha. Porque lá só tinha curso primário, não tinha curso ginasial, nem nada. Então, as meninas que estavam no último ano do grupo, quarto ano do grupo, elas gostavam muito de brincar de professora, ou então, de cirquinho também. Porque no circo sempre tinha uma moça trapezista, que era bonita e vendia foto dela de maiô, então, todo mundo comprava foto de maiô, era a paixão de todo o mundo ali (risos). E as menininhas mais safadinhas gostavam de brincar de cirquinho para mostrar as pernas ali, tal. E as outras brincavam de professora. Mas a gente era muito machista, moleque dessa fase assim achava que gostar de escola era coisa de viado, bem assim mesmo, e a gente não aceitava. Teve um dia, quando eu estava com seis anos, tinha uma vizinha lá que morava em uma casa com catorze ou quinze cômodos, e moravam só duas velhas. A maior parte dos cômodos ficava vazio, então, duas netas delas, já com onze, doze anos de idade, resolveram montar uma escolinha de brincadeira ali. Mas queriam que fosse escola como as outras, com menino também, porque infelizmente não tinha separação. A única escola que tinha lá não tinha separação de classe masculina e feminina, era tudo mista. E elas queriam que os meninos também fossem brincar com elas. Logo elas arrumaram as meninas e um monte delas toparam, mas os meninos, ninguém queria brincar com elas de escolinha: “Ah, que é isso, você acha o quê?”. Elas começaram a fazer chantagem: “Se for brincar de escolinha, na hora do recreio a gente dá merenda para vocês, a gente dá bala”. Ninguém topava. Fizeram um monte de tentativa até que chegaram no “ou é isso, ou desisto”. Chegaram para mim e falaram assim... a menina ficou vermelha assim: “Vamos brincar de escolinha que, na hora do recreio, nós fazemos bobagem”. Eu falei: “Eu vou, mas se não fizer eu não faço mais” (risos). Chamamos outros moleques e a gente encheu duas salas de menino lá, e as duas professorinhas brincando lá. Na hora em que entramos na escolinha, elas todas posudas, giz na mão, a varinha na outra para mostrar. Todo mundo gritava: “Hora do recreio! Hora do recreio!”. Ela falou: “Hora do recreio é a hora que todo mundo souber o a, e, i, o, u” “Então, como é que é o a, e, i, o, u?”. E ela escreveu o a, e, i, o, u na minha sala, a gente logo aprendeu:  “Não, tem que saber direito, vem aqui escrever. Qual é a letra u?” “É essa daqui” .“Escreve”. Não teve jeito, teve o recreio mesmo. Teve um bacanal infantil ali, todo mundo queria as professorinhas porque elas já tinham início de seio, penugem também. E assim, no dia seguinte, chegamos lá. A hora que entra as professorinhas lá: “Hora do recreio!”. “Não, não” . “Mas todo mundo já sabe a, e, i, o, u” . “Mas hoje é ba, be, bi, bo, bu”. “O boi baba”. No outro dia: “O vovô vê a uva”, não sei o quê. Em um mês estavam todos alfabetizados (risos). Só que minha mãe não sabia que eu era alfabetizado. Então, quando eu inteirei sete anos, que era a época de ir para a escola, as professoras iam de casa em casa para ver se tinha criança em idade escolar para matricular. E a minha mãe não queria deixar me matricular de jeito nenhum: “Ele é meio doido, não vai aprender. Vai ser a vergonha da minha família”. Porque a minha mãe tinha a mania de dizer que a família dela era muito inteligente. O pai dela realmente era, esse meu avô aprendeu a falar árabe sozinho, aprendeu a escrever sozinho, em um lugar que não chegava gente, nem nada. Eu sabia ler, mas fiquei quieto porque não queria ir para a escola mesmo. Aí, a professora ficou inconformada e saiu assim que minha mãe não me matriculou de jeito nenhum. Eu saí contente para a rua: “Ufa, consegui me livrar da escola”. Encontrei a primeira menina, minha amiga lá, ela falou: “Semana que vem eu vou para a escola”. Todo mundo ia para a escola, e eu falei: “Pô, vou ficar sozinho na rua? E agora?”. Voltei para casa meio sem saber o que fazer, cheguei lá e estava a diretora da escola brigando com a minha mãe para me matricular. Aí, não fiz esforço para ela não me matricular, deixei ela me matricular, mas eu já sabia ler e escrever.

 

P/1 – Com que idade foi isso?

 

R – Sete anos. Foi, com esse negócio já comecei a trabalhar no Buraco da Onça durante o dia, depois da aula, e foi assim.

 

P/1 – E fora esse bacanal infantil, quais outras brincadeiras que tinha nessa época?

 

R – Tinha o pique. Tinha o que a gente chamava de “cavalinho da rússia”, de jogar bola. Um moleque ficava assim, e o outro, montado nele. Ia jogando bola de um para o outro, mas o cavalinho tinha que tentar não deixar o cara não pegar a bola. Aí, quando caía, a gente montava e passava para a parte de cima. As meninas brincavam muito de roda. Tinha a capoeirinha lá embaixo, e tinha muita bananeira, e a gente brincava muito de “selvinha”. Eu era ruim nisso, mas tinha uns moleques que conseguiam fazer nessa selvinha, inspirado em filme de Tarzan que a gente via no cinema ali, eles iam de galho em galho, de árvore em árvore, andavam uma porrada de tempo. No máximo eu brincava de arco e flecha, tal, montava num cavalo. Lá tinha uma égua chamada Realina, a gente montava nela sem nada, em pelo; para virar para lá a gente dava um tapa aqui nela, tal. E treinando dar flechada em tronco de bananeira. Aquelas coisas assim. Roubava muita fruta. Por exemplo, esse carrinho que eu usava aí, minha mãe começou a pedir para eu cuidar do meu irmão mais novo, então, eu punha um cobertor dentro e colocava ele dentro desse carrinho, só que eu ia levar ele para passear em algum lugar, de vez em quando encontrava outro moleque com carrinho, a gente apostava corrida, essas coisas, com o meu irmão dentro. Parava o carrinho na rua: “Vamos roubar jabuticaba do fulano”, só por farra. A gente tinha jabuticaba em casa, tudo, mas a gente queria. Deixava o meu irmão no carrinho, pulava, a hora que o meu dono aparecia, pulava para dentro, dava o maior pinote com o carrinho, tudo (risos). O que mais tinha? Ah, arco. Uma roda que a gente pegava, a gente fazia um gancho, pegava uma roda para brincar de arco, empurrando. Eu gostava muito de andar de bicicleta, mas não tinha bicicleta, então, tinha uma época que tinha bicicleta de aluguel. Eu engraxava uns dois ou três sapatos... ah, com sete anos eu comecei a engraxar sapato também… engraxava uns dois ou três sapatos, alugava uma bicicleta, andava até o último minuto que dava o dinheiro. E futebol.

 

P/1 – Esses filmes que vocês viam, quais eram? Você falou Tarzan... o que passava no cinema ali?

 

R – Para criança passava mais bangue-bangue e Tarzan, Roy Rogers, Tom Mix, são os que eu lembro mais. E os seriados. Tinha seriados do Super Homem, o Homem de Aço, tinha da Nióca, Flash-Gordon. Toda quinta-feira tinha seriado. E para os adultos não passava nada proibido para menor de 18 anos, porque lá não tinha público para isso, e na época filme proibido era nada. Lembro de que o primeiro filme proibido que fui ver, em São Paulo, quando fiz dezoito anos, fiz questão de ir no Cine Vitória, lá na Rua Aurora, que era um cine pornô. Era um filme turco, que tinha meia bunda e um seio, coisa que passa na Sessão da Tarde hoje para criança menor. Então, tinha os filmes românticos, tinha musicais, esses filmes tradicionais aí. O que a molecada gostava era de Tarzan e bangue-bangue, Roy Rogers, Tom Mix, são os principais.

 

P/1 – E a relação com os seus pais? Você falou um pouco o que ele fazia, como era o relacionamento com eles?

 

R – É interessante. Meu pai, pela origem pobre dele, trabalhava na enxada antes de virar barbeiro, ele achava a profissão maravilhosa. Ele não entendia como eu não gostava, quando chegou a minha vez, de ser aprendiz de barbeiro. “Pô, aqui é limpinho, você não toma sol, não toma chuva, trabalha conversando”. E ele tinha uma mania de não deixar faltar comida em casa, então, era coisa que era básico. Comprava sacos de arroz, sacos de feijão, matava porco, fazia óleo, deixava latas de gordura, sal era barato. E as misturas. Bom, da barbearia lá, metade da população era compadre do meu pai, ele não cobrava dos compadres para fazer cabelo. Mas também tinha uma coisa assim... às vezes quando os compadres iam cortar cabelo, cortava o cabelo e meu pai não cobrava; também não cobrava de quem ia casar; quem estava fazendo aniversário; qualquer coisa não cobrava (risos). Mas os compadres dele também, de vez em quando aparecia um com uma penca de banana, outro com um frango, uma melancia, batata doce, qualquer coisa assim. Então, ele tinha vida garantida ali, a comida estava sempre garantida. E tinha assim, roupa também. Ele não deixava nenhum filho andar descalço. Ele se considerava classe média, barbeiro com dez filhos, considerava de classe média. Ele só dava o sapato escolhido, ele escolhia para a gente, um sapato barato, forte. Se eu quisesse um diferente era simples: eu comprava. Então, o dinheiro que eu ganhava como engraxate, por exemplo, eu fazia o que  queria. Se eu quisesse queimar, não importava; desde que fosse ganho com o meu trabalho. E ele também tinha uma grande preocupação com necessidade, não comprava nada fiado e tinha uma grande preocupação de manter o nome como honesto. Mas isso era uma coisa dele na prática, quem teorizava um pouco sobre isso era minha mãe, que era católica, tal, e falava muito dos exemplos. A gaveta do meu pai com dinheiro... ele era barbeiro, ganhava pouco, e ele negociava muito com arma de fogo e relógio... ficava tudo na gaveta. De vez em quando eu pegava um revólver, ia lá, dava uns tiros na horta, tal. Mas o dinheiro ali, filho nenhum mexia. E a gente via os vizinhos, os caras mais ricos, os moleques pegavam dinheiro da gaveta do pai. Lá acho que a gente via como era a dificuldade e tudo, ninguém pegava.

 

P/1 – O senhor estava falando a coisa da grana que o seu pai deixava na gaveta.

 

R – Nunca ninguém mexia, a gente deixava lá. Eu varria a barbearia no final da noite. E desde criança a gente assumia a coisa, ele nunca obrigou ninguém a trabalhar, mas a gente sentia. Quando eu comecei a trabalhar como engraxate, aos sete anos, eu queria ter umas coisas e sabia que meu pai não podia me dar; então, fui trabalhar. Os meus irmãos também: um foi trabalhar numa loja logo quando criança, o outro foi trabalhar em uma selaria. Os dois deram ótimos barbeiros depois, porque meu pai... quando chegou a minha vez é que eu comecei a furar, não é? Para você ter idéia dessa coisa da honestidade, minha mãe contava umas coisas assim, pode parecer meio piegas... uma vez um cara lá me chamou para fazer um jogo de argola, em festa de roça. Aquela coisa de ganhar cigarro, tudo. Para a gente que não ganhava nada, aquilo dava um dinheiro incrível. Então, quando cheguei em casa uns dias depois, eu cheguei com um maço de nota de um cruzeiro dessa altura assim. Cheguei na cozinha, joguei para cima para provocar minha mãe. Rapaz, ela ficou: “Onde é que você arrumou isso aí?” .“Ganhei trabalhando com o Daniel, ele me pagou cem cruzeiros, tudo em nota de um” .“Quero saber. Chama o Daniel aqui”. Enquanto o Daniel não foi lá e falou: “Eu paguei para ele mesmo”. Ela falou para mim assim: “Por que eu fiz isso? Tem a história de um menino que um dia a mãe dele estava costurando com uma agulhinha ruim ali, ele foi lá, roubou uma agulha novinha e deu para a mãe. A mãe achou legal: ‘Meu filho, que legal!’. E assim, achou que era legal roubar. Começou a roubar, foi crescendo, e um dia, adulto, ele foi preso como ladrão. A mãe falou: ‘Meu filho, como é que você fez isso?’. Ele falou: ‘A culpa é sua, se a senhora tivesse me proibido de roubar aquela agulha eu não teria começado no roubo’.” Então, minha mãe contava coisas nesse estilo. O roubar frutas não tinha sentido de roubar, tinha sentido de farra, não é? Como depois, mais tarde, roubar frango. Toda madrugada também a gente fazia frango nos bailes. Já adolescente. Aí foi, eu vivi assim, trabalhando desse jeito, fazendo curso primário.

 

P/1 – Você falou de frango, fruta, tal. Qual era a comida na sua casa? A sua mãe era boa cozinheira? Como era isso?

 

R – Era boa. Eu é que era ruim para comer, não gostava de feijão. Hoje eu sou tarado por feijão. Na época eu não gostava de feijão, não gostava daquilo, tinha dia que eu comia só arroz. Mas eu comia muita fruta no mato também, então, acho que isso ajudava um pouco. A comida, no dia a dia, era arroz, feijão e farinha de milho. De manhã, às vezes, fazia um mingau de um doce de fubá com leite e canela, era gostoso. No almoço, arroz, feijão e farinha de milho, às vezes uma abóbora, chuchu, uma couve, que plantava no quintal. E no domingo tinha sempre frango, um pedaço para cada um. O meu era o que a gente chamava de Santo Antônio, a sobrecoxa. No interior chama Santo Antônio porque tem a forma do santo, assim, não é? Nessa coisa eu achava gozado, até hoje eu me divirto muito. Nesses lugares tem um pedacinho de frango para cada um, as velhas sabem que vai sobrar para elas o quê? O pé ou o pescoço, então, elas fingem que vão gostar daquilo. “Pescoço é meu, ninguém pega!” (risos). Fígado de boi a gente também comia uma vez por semana. Matava boi, eu mesmo ia buscar, comprava lá, vinha com um quilo de fígado pendurado no dedão aqui, com barbante, que vinha costurado com agulha. Uma vez ou outra, carne moída. Mas o cotidiano mesmo era arroz, feijão e farinha de milho. Às vezes, ovo. E era terrível porque tinha fogão à lenha. Trabalho de mulher é uma desgraça, levantar cedo para acender o fogo com lenha antes. Faz o café da manhã, acaba o café da manhã começa a fazer o almoço. Não tinha geladeira também, então, acabava o almoço, o que sobrava ia para a lavagem do porco. Já começava a fazer a janta, alguém ia lavar roupa, é uma vida danada para elas, difícil, não é? E o homem não ajuda. O maior erro que eu acho que existe na... eu falo que é mãe mineira, mas é brasileira em geral, o homem não trabalha em casa, não faz nada. A gente faz fora, dessa coisa da cozinha, ninguém ajuda mãe na cozinha, lavar roupa, cozinhar, lavar prato, essas coisas, homem nenhum fazia. Só que lá em casa eram seis meninas e quatro homens, então, sempre tinha gente para ajudar ela um pouco.

 

P/1 – Dessa primeira infância, assim, você tinha algum sonho de infância, “quero ser quando crescer tal coisa?”.

 

R – Tinha essas perguntas assim; para mim, o que parecia é que eu ia ser barbeiro. Todo mundo se vai no ofício do pai, não existiam muitas possibilidades. Com onze anos já comecei a trabalhar em um escritório de contabilidade. Primeiro eu fui ser aprendiz de seleiro, mas trabalhei pouco tempo. Eu sempre fui ruim nessas coisas manuais. Meu primeiro trabalho como aprendiz de seleiro era fazer uma coisa chamada “baixeiro”, que põe entre o lombo do cavalo e o arreio, para o arreio não machucar o lombo dele. A gente fazia de capim amarrado, fazia uma espécie de esteirinha coberta com pano. E depois eu comecei a fazer costura. A costura em sola é dura, a gente fura a sola e duas agulhas, a gente fazia a linha com certa, tudo. Mas as minhas costuras ficavam todas tortas, eu parei, não dava para isso mesmo. Em seguida, comecei a trabalhar em um escritório de contabilidade. Um cunhado meu casou com minha irmã mais velha e me chamou para trabalhar no escritório de contabilidade dele, como auxiliar. Eu já estava pensando nisso, achei gozado, comecei a trabalhar com onze anos, com doze eu só não fazia o livro diário porque é um livro de muita responsabilidade, o diário não poderia ter nenhum erro. Mas o caixa, razão, esses livros eu fazia, de um monte de firma, tudo vendinha, essas coisas assim, eu fazia tudo isso. Trabalhei lá, mas continuei com a profissão de engraxate também; trabalhava lá só de segunda a sexta, ganhava muito pouco, e de sexta e sábado eu ficava de engraxate na barbearia, que eu ganhava mais um dinheirinho.

 

P/1 – Até o primário você estudou lá, e depois acaba o primário e como continuaram os seus estudos?

 

R – Quando eu estava no terceiro ano primário chegou lá um padre: padre Caio Albuquerque, eu tenho uma foto dele também. O padre espanhol, padre Luiz Cueto, que veio fugindo da Guerra Civil Espanhola, ele já tinha morrido; e veio o padre Caio para o lugar dele. E era um padre muito progressista. Ele chegou lá, era uma época de migração, chegou lá por volta de 1954. Então, por exemplo, todo dia eu via caminhão carregado de madeira para descarregar ali e voltava carregado de gente, porque o Paraná era o Eldorado. Todo mundo achava que ia ficar rico lá. Então, a barbearia do meu pai era um espécie de centro social, ia lá gente que ficava o dia inteiro conversando, e aparecia sempre o cara do caminhão. Ele comprou um caminhãozinho lá, foi o único cara que ficou rico; lá não existia gente rica, só tinha gente... os caras considerados ricos eram o gerente do banco - que o banco lá não tinha movimento nenhum - uns fazendeirinhos que vendiam muito pouco, porque a agricultura estava numa baixa danada lá, o sul de Minas estava numa decadência geral. Então, por exemplo, tinha cara que tinha três alqueires de terra e trocava os alqueires por uma viagem de caminhão com a família para o Paraná, achando que ia chegar lá e ficar rico. O meu avô foi para lá nessa fase, com setenta anos de idade. Agora você imagina, lá em Minas ele já não gostava muito de trabalhar, chegar lá para cortar pinheiro e plantar café, que não ia mesmo. Ele teve a sorte de voltar porque tinha uns parentes que puderam trazer de volta, mas teve cara que ficou doido no Paraná, porque chegou lá e entrou na miséria total. Esvaziou uma parte da zona rural de Nova Resende, uma boa parte dela. Outra parte vinha para São Paulo. Uma parte pequena ia para outros lugares. Tinha gente de Nova Resende desde Goiás, sul do Pará, pra todo lado tinha gente: Rio de Janeiro, Belo Horizonte... mas o grosso da migração era para o norte do Paraná e para São Paulo. Urbano mais para São Paulo, e alguns paravam em Limeira porque tinha indústria de mão de obra desqualificada, e Campinas também. Algumas pessoas tinham medo de chegar em São Paulo. Mas a gente vinha para cá, todo mundo vinha para trabalhar como operário desqualificado. Aí, o padre Caio começou a falar na missa: “Olha gente, já que não tem jeito da gente segurar a população aqui, porque a economia está uma porcaria, vamos fundar o Ginásio. O estado não funda, a Prefeitura não funda, vamos juntar o povo e fazer um Ginásio”. Padre Caio, então, começou a martelar nisso e ele mesmo falou: “Vamos começar a juntar dinheiro para construir o ginásio”. Já abriu o ginásio lá para funcionar precariamente, no grupo escolar, à noite. Ginásio Comercial chamava-se. Saía de lá formado como Auxiliar de Escritório. Ele pôs o nome do governador de Minas para ver se ele dava uma grana lá, mas não deu, o Bias Forte é pão duro danado. Aí, começou a funcionar o ginásio à noite, no grupo escolar, enquanto se construía um prédio próprio para o ginásio. A igreja tinha um jipe, o padre vendeu o jipe e passou a viajar para a roça a cavalo. O pessoal que colhia café, ele pedia meio saco a cada um para vender. Arroz… tudo. E um pedreiro topou em fazer mais barato. A olaria vendeu o tijolo mais barato. E para ajudante de pedreiro pegou a própria molecada que ia estudar no ginásio. Eu mesmo trabalhei ajudando a construir o ginásio, como servente de pedreiro. Então, isso foi legal. Mas aí, não tinha quem assumisse e ficou na mão da igreja, o ginásio ficou sendo da igreja. Ele não queria deixar para a igreja porque sabia que podia não dar certo, mas não tinha quem assumisse e ele teve que registrar o ginásio como propriedade da Igreja. E para dar aula pegava um pessoal que estava... um cara que estudou Engenharia e parou no meio, professoras primárias. Tanto que eu achava que quando terminasse aquele ginásio eu iria chegar aqui e me ferrar, não é? Tudo improvisado, ganhando quase nada. E eu sei que quando terminei o primário, já tinha a primeira turma que tinha feito a primeira série, eu entrei na segunda turma. Terminei, imediatamente tinha um exame de admissão, era uma espécie de vestibularzinho, que era obrigatório na época para entrar no ginásio. Fiz esse exame de admissão, fiz um cursinho de dois meses antes, entrei. Até meu irmão que trabalhava de barbeiro, tinha dezesseis anos de idade já, acho que ele sentia a barra como era. Eu não tinha responsabilidade nenhuma, nunca tive caderno na escola, nunca copiei ponto. Meu irmão não, ele era estudioso, porque ele sabia que aquilo lá... ele já trabalhava de barbeiro, a perspectiva dele, se não estudasse, era morrer barbeiro ali. É ótimo ser barbeiro, profissão decente, mas é duro, não ganha grana, trabalha muito. Eu fiz esse ginásio, entrei no ginásio e logo em seguida comecei a trabalhar no escritório de contabilidade. Chamava Ginásio Comercial na época. Trabalhei dois anos e pouco lá no escritório de contabilidade, aí eu briguei com os chefes, e saí. Continuei no ginásio, terminei, e fui trabalhar fazendo muda de café. Mas era duro, trabalhava o dia inteiro de catar cavaco ali, tal, e na hora que levantava via estrelas. Aí, eu fui aprender a trabalhar de barbeiro. Já tinha catorze anos. Mas não gostava de jeito nenhum. Eu fui trabalhar de barbeiro e o meu irmão mais velho, quando fez dezoito anos, largou tudo e veio para o Paraná, para trabalhar de barbeiro. Morou em vários lugares lá, e depois veio para São Paulo. Aí, o meu irmão, o João, que era o segundo e é ótimo barbeiro, quando terminamos o ginásio, ele veio para São Paulo também. Aí, precisava de alguém no lugar dele. Eu já sabia fazer um pouco, barba, cabelo, porque convivia ali o dia inteiro. A barbearia é uma universidade, eu acho que a melhor coisa que alguém poderia ter para aprender. Esse meu irmão mais velho, Toninho, ele tinha curso primário. Todo mundo pensava que ele era doutor em alguma coisa, porque aprende de tudo. Na barbearia está lá o médico, vai fazer barba, e ficava cheio de gente à toa, o dia inteiro. Enquanto espera a vez dele, o médico comenta sobre as doenças da cidade, dos remédios, não sei o quê. Vai o juiz de Direito, que já tinha lá apesar de ser minúsculo, comenta as coisas, as causas. Vai o fazendeiro, comenta sobre a crise do café, não sei o quê. O roceiro vai falar mal do patrão. Então, você aprende de tudo um pouco. E lá eles tinham muito também... até um dos livros que eu escrevi sobre tropeirismo, tinha muito ex-tropeiro. Então, engraxando sapato, eu ficava fascinado ouvindo aquele pessoal contando história de tropeiro, viajando seis meses a cavalo, aquelas coisas assim, que nem filme de bangue-bangue tem. Eu fiquei lá, e quando terminei o ginásio, o João veio para São Paulo. Antes dele terminar eu já estava aprendendo para poder ficar no lugar dele, mas não gostava. E o meu pai tentava me incentivar, ele falava: “O que você fizer de corte de cabelo e barba é teu”. Aí, eu fazia umas duas ou três barbas, pegava a grana e sumia para um lugar que tinha, um snooker - que a polícia não chegava lá - e ia jogar apostado com os roceiros, era onde eu ganhava um dinheirinho também (risos). Meus fregueses principais da barbearia eram: Gustavo Totó, era um ex-jagunço que tinha uma marca registrada: todo mundo que morria com um tiro no gogó era ele quem matou, todo mundo sabia, mas nunca foi preso. O outro era o fiscal João Aprígio, que também não tinha paciência de esperar a fila. E o outro era um alfaiate, Luiz Alfaiate. Eu ganhei umas calças do meu irmão mais velho, não tinha dinheiro para consertar no alfaiate, porque era grande para mim, eu combinei com o Luiz Alfaiate: “Você conserta para mim, que eu faço tantas barbas tuas”. Eu fazia e ia descontando. E eu fiquei um pouco na barbearia, não gostei, e arrumei emprego com o Miguel Turco para trabalhar como caixeiro na loja dele. Era interessante. Miguel Turco é um homem bom, gostava muito de ver ele. Ele não era turco, era libanês, mas lá eu via, quando chegava pobre para comprar a coisa, que ele estava lá no balcão, chegavam aqueles caras bem pobres... “quanto é que custa o metro disso daqui?”. Ele olhava no cara, eu sabia ler em árabe também, dava o preço de custo para o cara, não falava que era esmola nem nada, era desse jeito. Ele nunca ficou rico. De vez em quando eu lembro, porque fui trabalhar como calculista no supermercado aqui, negócio de custos e tal, a margem de lucro que ele tinha lá: tecidos populares era 10% em cima. Imagina, alguém comprar um pano por dez reais e vender por onze, não existe em lugar nenhum hoje. Os tecidos mais finos eram 20%; sabonete, essas coisas, 30% de lucro. Eu fiquei um ano esperando lá, terminei o ginásio, meu irmão veio e eu fiquei esperando lá, porque naquela época a gente fazia alistamento militar com dezesseis anos; era chamado com dezoito, mas fazia alistamento com dezesseis. E se eu viesse para São Paulo ia ter que fazer alistamento militar aqui. Imagina eu, morando sozinho aqui, quer dizer, morando sozinho em república com irmão, amigo, mas ser convocado pelo Exército. Estava frito, não é? Então, esperei completar dezesseis anos para me alistar lá, que a área é de agricultura, então, tinha aquele negócio: o Exército não pegava gente “mão de obra para agricultura”. Eu esperei um ano, tirei minha primeira fotografia três por quatro, tirei alistamento militar e vim para São Paulo.

 

P/1 – Mas você já veio com o objetivo de estudar, fazer faculdade?

 

R – Eu vim com o objetivo de trabalhar. Gozado, não é? Às vezes, eu vejo hoje um pessoal que veio para cá, o pai manda dinheiro. E aqui com o objetivo de trabalhar, nem que sobrasse um pouquinho, mandava dinheiro para casa. E também fazia o curso técnico de Contabilidade, porque não tinha perspectiva de fazer outra coisa na vida. Depois de terminar o curso de contabilidade eu poderia ficar aqui, ou poderia voltar para lá e trabalhar como contador.

 

P/1 – Mas você veio para cá com dezesseis ou dezessete?

 

R – Completando dezesseis anos. Aí, vim morar direto numa república em Pinheiros.

 

P/1 – Conta um pouco. Você já tinha vindo alguma vez para cá?

 

R – Não.

 

P/1 – Como é que foi essa primeira chegada? Conta um pouco desse momento.

 

R – Todo mundo que vinha para São Paulo, a primeira coisa que fazia quando chegava lá, era ir lá na barbearia do meu pai contar como é que foi em São Paulo. Eu lembro uma vez um cara comprou uma galocha, esperou dar uma chuva, calçou a galocha e foi lá para a barbearia do Antonio Germano. Eu já ouvia história direto de São Paulo. Mas o pessoal que vinha para cá morava, na maior parte, na periferia. Chegava falando... a gente falava “voltava falando paulista”, salada de tomate (imita sotaque). Quando alguém falava assim a gente morria de rir. Quando chegava alguém que tinha vindo morar em São Paulo e voltava lá para passar férias, enchia moleque em volta para esperar ele falar ‘paulista’ e todo mundo cair na risada. Eu já sabia muita coisa, mas tinha muito mais exagero nas coisas. Por exemplo, eu até brincava, achava que ia chegar na Estação da Luz... porque vinha de trem, de Guaxupé, achei que ia chegar na Estação de Luz ia ter assaltante, ia ver atropelamento na rua em cima da hora, tal. E quando eu vim, meu pai vinha para fazer uma consulta no Hospital das Clínicas, porque na época não tinha hospital por lá também, então, o pessoal vinha para cá e eu vim com ele. Viemos de trem da Mogiana, na segunda classe, chegamos aqui à noite. Meu pai, bem treinado, fingia que conhecia, pegou o táxi lá na Estação da Luz e falava: “Vamos para a rua Lisboa, pega o túnel da Avenida Nove de Julho, sobe a Avenida Brasil”, falando assim só para parecer que conhecia, achando que o táxi fosse desviar e tal. Nessa pensão já morava um bando de amigos, moravam dois dos meus irmãos e tinha outros mineiros. Outros caras tinham vindo uma semana antes de mim. E chegou o meu pai, fez a consulta. Eu cheguei aqui numa segunda-feira à noite, de trem. Fui dormir, era uma pensão que tinha quatro camas num quartinho minúsculo, um guarda-roupinha apertado, banheiro fora. Tomava chuva para tomar banho e ir no banheiro também; então, era meio complicado. Essa fase que eu falo, da minha infância lá em Nova Resende, a gente teve um pouco de dificuldade, eu acho que não me fez falta nenhuma essa coisa de ter que trabalhar, ter isso. É até mais divertido, cada coisa que eu conhecia... uma coisa que eu acho interessante é isso. Por exemplo, minha mãe usava ferro de passar roupa daquele pesado, com brasa, tendo de assoprar. Um dia eu fui comprar uma bala de figurinha lá do álbum, torcendo para sair uma figurinha carimbada de álbum. Figurinha premiada, um ferro de passar roupas elétrico. Cheguei em casa, minha mãe sofrendo com aquele ferro de passar roupa, eu falei: “Mãe, larga disso aí”. Dei o ferro de passar roupa elétrico para ela, aquela felicidade, aquela coisa assim. Rádio também, ia ouvir nos vizinhos. A copa de 1958 eu ouvi no cinema, que pôs o alto falante para fora e tudo. Então, cheguei aqui, São Paulo em 1963 era uma fase boa. O Estadão tinha caderno dessa grossura, chamando gente para trabalhar e tudo. Eu cheguei aqui segunda-feira à noite, terça fui dar um passeio. Aí, fiquei muito impressionado com a rua Direita, foi a coisa que eu mais me impressionei, aquela quantidade de gente, gente pra burro. Um sócio do meu irmão na barbearia tinha que pagar uma prestação lá na Garbo, que era na Praça do Patriarca, eu subi com ele lá, olhava para a rua Direita e perguntei para ele: “Mas todo dia é assim ou hoje é um dia especial?” .“É todo dia assim”. Isso foi a coisa que mais me impressionou. E tinha um hábito aqui em São Paulo: as ruas todas mão dupla. Eu morava aqui em Pinheiros, na Lisboa, pertinho da Teodoro Sampaio. Só tinha duas vias de tráfego aqui, que eram a rua Teodoro Sampaio e a Avenida Rebouças. A Artur Azevedo tinha até barranco no meio. A Cardeal Arcoverde ninguém usava. A Teodoro tinha bonde para cima e para baixo, os carros, ônibus, tudo. E eles me ensinaram a atravessar a rua. Primeira coisa: você olha para lá, não vem ninguém; aí, você atravessa até o meio da rua e olha do outro lado: a hora que der você vai, porque o pessoal respeitava isso, o meio não tinha ilha, nem nada, mas você atravessava até o meio primeiro, não tinha motocicleta, essas coisas. Se fizer isso hoje você morre atropelado logo de cara (risos), na primeira tentativa. Na terça-feira eu tirei para conhecer a cidade, fui até o centro, depois fui dar uma volta até o Largo de Pinheiros a pé. Na quarta-feira eu fui procurar emprego e, na quinta, eu comecei a trabalhar. Era tudo assim. Eu não era mais inteligente ou mais sortudo que ninguém, era tudo assim.

 

P/1 – Você foi trabalhar aonde?

 

R – Eu arrumei para trabalhar como office-boy interno no Supermercado Sirva-se, que era um dos primeiros supermercados da América Latina, e que depois foi comprado pelo Pão de Açúcar. Na Gabriel Monteiro da Silva. Até hoje é uma loja grande. O office-boy estava saindo de férias. Eu achei a coisa mais horrorosa que teve nesse emprego foi que uma das minhas funções era atender telefone, e eu nunca tinha atendido telefone na vida, só tinha visto telefonar assim: uma vez, o pessoal da escola levou a gente no telefone público, era perto da minha casa lá, mas não tinha telefone nas cidades, só tinha telefone público praticamente. E uma das minhas funções era atender telefone. Era um horror! E tinha outras funções também. Eu fui no supermercado e fiquei conhecendo um monte de coisas que eu não conhecia... chantilly, não sei o quê. E as comidas, que meu irmão me levou para comer: lasanha, que eu nem sabia que existia... esse troço. Para mim, macarrão era só espaguete com molho de tomate. Peixes de mar, camarão. Lá em Nova Resende tinha um pouco de comida árabe e a comida mineira tradicional. Só. O macarrão... era só isso.

 

P/1 – Desde Nova Resende, um pouquinho antes, até essa época de São Paulo, época de adolescência, como foram os primeiros namoros?

 

R – Eu era muito tímido com mulheres, tinha umas paquerinhas, fazia muita safadeza. Vou tomar a liberdade e contar uma safadeza (risos). Uma coisa que a gente fazia quando já tinha uns sete, oito anos de idade, a gente era sem-vergonha pra burro, tímido mas sem-vergonha. Toda calça minha tinha um bolso esquerdo furado, e dos outros moleques era também assim. Porque eu punha o pintinho para dentro do bolso, chegava chupando bala perto da menina, a menina falava: “Dá uma bala!” .“Ah, estou com a mão suja, pega no meu bolso”. Ela pegava e ficava vermelha. E adolescente lá, tinha serenata, aquelas coisas. Aliás, a cidade era muito fria, a pinga que a gente tomava lá, a ‘Levanta e Cai’, tinha 54 graus de álcool, era feita lá. A gente usava ela para acender fogueira também, tomava uma parte para acender por dentro e outra parte usava para acender fogueira por fora, para fazer serenata, e roubar frango e tal. E paquerava as menininhas. Mas sexo só na zona de prostituição mesmo, todo mundo da minha geração iniciou lá mesmo, não tinha jeito. Depois que eu tomei consciência disso, já era tarde (risos). E, aliás, conheci umas prostitutas maravilhosas, de cabeça, não só sexualmente, mas maravilhosas da cabeça. E aqui em São Paulo, a primeira tentativa de namoro que eu arrumei, eu não tinha dinheiro para levar a menina no cinema. Fiquei tão bravo, tão bravo, falei: “Ficar sem comer, tudo bem, mas não ter dinheiro para levar uma namorada no cinema...”. Aí, não quis mais saber. Só uns namorinhos esporádicos, saía com uma, com outra de vez em quando, mas muito pouco. Também eu trabalhava muito porque o salário que eu ganhava... quando eu cheguei aqui o salário mínimo era vinte e um mil cruzeiros. Eu comecei a ganhar treze porque era menor de idade, mas somando a pensão... eu fui estudar em um colégio pago, Castro Alves, que era técnico em Contabilidade, era dois mil e quinhentos por mês. E tinha a comida do almoço. A pensão pegava uma parte para dormir e jantar. Então, minha despesa fixa era de treze e quinhentos, eu ganhava treze. Aí, tinha que fazer hora extra todo dia, e sábado espichava até às dez da noite. Sobrava muito pouco tempo, eu trabalhava nove horas por dia, estudava à noite. Aliás, o dinheiro que eu ganhava também, no domingo eu estava sempre duro. Mas eu fazia questão de arrumar um dinheiro para ir ao cinema. Podia estar duro do jeito que fosse, mas arrumava dinheiro para ir ao cinema. Às vezes não tinha dinheiro para jantar, e ia jogar baralho com a turma, pegava um dinheirinho emprestado para começar. Jogar baralho, eu herdei isso do meu pai, que era bom de baralho. Eu tinha sorte também. Acho que gente dura tem mais sorte. Arrumava dinheiro para começar duas mãos de pif-paf ou caxeta. Se eu perdesse a primeira, tinha mais a segunda, no máximo, para começar a ganhar. Então, ganhava e ia comer. O dia em que eu perdia, dançava; ficava esperando o café da manhã de segunda-feira (risos). Mas foi uma fase muito boa, a gente se divertia muito. Saía, passeava por aí, tudo.

 

P/1 – E essa fase que você fala que foi muito boa, eu fico pensando... você chega aqui em 1963, e aí, no ano seguinte, você vive essa coisa da ditadura estourando em São Paulo, muito novo, com dezessete, dezoito anos.

 

R – No dia do golpe eu estava no supermercado trabalhando. No supermercado eu trabalhei só um mês como office-boy, aí já me promoveram a kardecista.  Cardex era uma coisa de controle de estoque, as fichas e tudo. Logo, quando eu estava com dezessete anos, o cara que era o calculista, que calculava os preços do supermercado, das coisas todas - porque tinha que incluir frete, imposto, aquelas coisas todas - foi promovido a chefe de seção e só tinha duas pessoas que sabiam fazer os cálculos: o meu irmão, que tinha vindo para cá, trabalhava lá e tinha sido promovido a gerente do supermercado. Veja, ele era barbeiro. Até hoje ele acha que não sobe na vida quem não quer: em um ano ele passou de barbeiro a gerente de supermercado. Mas como gerente, ele não podia voltar a calcular. E o chefe do escritório, que também era meu conterrâneo. Os caras gostavam de gente de Nova Resende para trabalhar, mineiro trabalhava muito, não sei o quê, e achavam que a gente não reivindicava. Eu era meio ovelha-negra nesse negócio também, porque me chamaram para ser calculista no lugar dele, com dezessete anos de idade. Era uma responsabilidade grande também, um menor de idade ser responsável pelo preço do supermercado inteiro, só eu que fazia isso. Mas eles tiveram que me colocar lá porque os outros não tinham formação nenhuma. Aliás, eu fiquei surpreso. Esse ginasiozinho de Nova Resende, todo improvisado, lá eu era um dos piores alunos que tinha. Quando eu cheguei aqui, estudava em colégio famoso, Castro Alves, e era considerado um dos melhores alunos. Falei: “Pô, aquele ginasiozinho lá, o pessoal me deu uma base enorme”. E eu sabia calcular tudo, fazia tudo. Até pouco tempo depois eu comecei a ficar irritado porque eles me prometeram... para virar calculista eles me dariam um aumento razoável. Mas passou um mês, dois meses, e não tinha aumento. E eu via também que a maior parte do pessoal ganhava salário mínimo, na época salário mínimo era um pouco menor, no Cardex. Era uma seção que tinha o Cardex, controle de estoque, e o calculista que era eu. Um dia eu chamei a turma e falei: “A gente vai ter que fazer uma greve se a gente quiser ganhar um dinheiro, porque está todo mundo no buraco aqui. E todo mundo estava bravo. Eu organizei a greve, eu tinha dezessete anos. Isso foi antes do golpe de 1964. Aí, na hora “agá”, tinha um diretor marrudo, começou a olhar feio para todo mundo, todo mundo recuou e fiquei eu sozinho na greve. Fui para casa, falei: “Fala para esses filhos da mãe que eu não trabalho mais aqui”. Ele ameaçou assim, ele era grandão, começou a gritar comigo, eu gritei mais alto com ele, eu era moleque marrudo, peguei uma cadeira assim e dei a entender que se ele falasse algo comigo eu descia a cadeira na cabeça dele. Eu falei: “Quer saber de uma coisa? O senhor fica aqui que eu vou embora, tá? Tchau!” .“Tá bom, você não faz falta!”. Cheguei em casa, à noite chegou o chefe do escritório lá: “Ó, “seu” Macedo pediu para você voltar, que a gente te dá o aumento”. No dia seguinte eu voltei lá e disse: “Quero conversar com ele antes, de quanto é que vai ser esse aumento”. Aí, voltei, ele falou: “Te dou o aumento sim, porque eu passei a tarde inteira tentando calcular uma Nota Fiscal aqui e só consegui depois de três ou quatro horas”, coisa que eu fazia em cinco minutos. “E não tem outra pessoa para colocar no seu lugar. Vou te contratar de volta por isso, vou te dar o aumento, mas  não conta para ninguém não que eu te dei aumento”. Eu falei: “Tá bom”. Voltei para a seção e falei: “Ó seus bosta, vocês são uns covardes, vocês vão continuar a ganhar um salário mínimo. Ganhei um aumento de 40% do seu Macedo aqui porque eu tive coragem de fazer greve”. E o meu irmão, que era gerente de supermercado, ficou bravo comigo achando que eu fiz greve contra ele. Eu falei: “Não, João, eu fiz a greve contra o supermercado”. Eu não pus o nome dele em nada, não é? Eu fiquei lá, trabalhei no supermercado, depois ele foi comprado pelo Pão de Açúcar. Aí o Pão de Açúcar é um péssimo patrão, não é à toa que ficou essa rede grande do jeito que é, cheio de rolos no meio, tinha o dinheiro do banco português por trás, tal, ninguém sabe como é que começou a crescer. Eu sei que o dono do supermercado Sirva-se era o Simonsen, que era dono também da TV Excelsior e da Panair do Brasil. Você tinha falado do 31 de março de 1964, que você tinha falado, não é? Antes, quando teve aquela “Marcha com Deus pela Família”, veio a direção do supermercado falar: “Quem quiser pode ir na ‘Marcha com Deus pela Família’, está dispensado o ponto hoje à tarde”. Eu era bem alienado, porque eu não tinha dinheiro para comprar jornal. Enquanto eu trabalhava com o Miguel Turco, eu lia o Estadão e o Correio da Manhã. O Correio da Manhã era um ótimo jornal do Rio de Janeiro, então, abriu a minha cabeça quando eu tinha catorze, quinze anos de idade. Aqui, eu não tinha dinheiro para comprar jornal, só via as manchetes, então, não sabia direito o que estava acontecendo. No Colégio de Contabilidade é um pessoal extremamente direitista, reacionário, a direção, os professores, então, eu não sabia direito o que estava acontecendo no golpe de 1964. Só sei que no dia 31 de março, no Jardim Paulistano, você imagina, a mais alta burguesia, tinha meia dúzia de lojas de supermercado em São Paulo, tinha uns seis ou sete Pegue e Pague, o Sirva-se... aí, invadiram o mercado, teve que ficar gente na porta impedindo, saía um, entrava outro. O “seu” Macedo, esse diretor marrudo lá, ele ficou empacotando, porque não tinha gente para empacotar, e pior que ele aceitava as gorjetas (risos). Chegou no final da noite, na hora de fechar, não tinha mais nada nas prateleiras, compraram praticamente tudo com medo de guerra, revolução, tal. Aí, primeiro de abril ficou aquele clima, o Jango fugiu, dia dois de abril estava cheio de gente querendo devolver coisa lá, e o supermercado não aceitava de volta, é claro. Mas aí, eu fiquei assim. Lá, depois do golpe é que eu comecei a conversar com os caras. Tinha lá um cara que era do Partidão, um mineiro lá que a gente chamava de “Tião Livrinho”. A gente chamava de “Tião Livrinho” porque ele sempre andava com o Manifesto Comunista debaixo do braço. Ele deixou uma célula comunista dentro do supermercado, e foi um dos caras perseguidos, teve que se mandar em 1964. Só fui encontrar com ele depois, ele tinha virado folclorista só para ficar fazendo a cabeça dos outros por aí, de grupo folclórico. Aí, eu conversando com o povo, que eu entendi o que tinha sido o golpe. E fiquei... mas aí, o supermercado foi vendido para o Pão de Açúcar, aproveitaram alguns empregados, eu fui lá para trabalhar na sede, lá na Brigadeiro, fiquei até terminar o ano, em 1965. Quando fiz os últimos exames do colégio, pedi demissão, fui para Minas passear, fiquei lá na gandaia até acabar o dinheiro, e voltei com idéia. Nisso que eu fiquei sabendo... eu não sabia que existiam cursos de Filosofia, essas coisas. Para mim, na Universidade tinha Direito, Medicina, Odontologia, Engenharia e uma coisa ou outra a mais. Quando eu fiquei sabendo que tinha curso de Geografia, eu fiquei fascinado: “é isso que eu vou fazer”. Voltei de Minas, fiz teste em três empresas, passei nas três e escolhi a pior, obviamente, que foi o Moinho Santista, mas todo mundo achava que o Moinho Santista era a maior maravilha do mundo, então, eu deixei uns empregos ótimos para ir para lá. E cheguei lá e não era tão grande coisa, mas eu comecei. No último dia, eu fui fazer inscrição para o vestibular lá na rua Maria Antônia, para o curso de Geografia. Na hora de fazer inscrição, tinha uma taxa de dois mil cruzeiros. Eu fucei o bolso, tinha dois mil e setenta: dois mil da inscrição e setenta para o bonde, que ainda tinha bonde para Pinheiros. Na fila, estava chegando a minha vez e eu pensando: “O que eu vou jantar? Quer saber de uma coisa? Eu não vou passar mesmo, eu vou é jantar com esse dinheiro aqui”. Entrei um ano atrasado na faculdade por causa disso (risos). Então, deixei, mas continuei trabalhando lá. Nessa altura, a gente morava numa república aqui na Rua Joaquim Antunes. Meu irmão comprou um apartamento barato lá na Avenida Nove de Julho, e nós mudamos para lá. Só que, em seguida, ele resolveu virar sócio do meu cunhado lá no Triângulo Mineiro, numa cidade chamada Canápolis, e o João foi trabalhar no interior, depois mudou para o Rio de Janeiro e eu fiquei sozinho lá no apartamento da Nove de Julho. E em 1967 eu fiz vestibular, entrei, fiz dois meses de cursinho do Grêmio, entrei na faculdade e fiquei morando lá na Nove de Julho. Aí, tinha muito amigo que era duro, tal, e comecei a dar a chave para eles dormirem lá. Quando eu vi tinha quarenta e poucas chaves do apartamento em São Paulo. Virou motel para alguns, moradia para outros. Teve gente que eu nem conhecia que ia dormir lá (risos).  

 

P/1 – A gente estava falando dessa grande república de quarenta chaves (risos).

 

R – Ali teve até umas coisas... começou com um amigo que morava lá na Cidade Ademar. Naquele tempo começava a dar aula logo que entrava na faculdade, sempre teve falta de professor de Geografia, não é? E estudando na USP, morando na Cidade Ademar e dando aula em Itaquera. Não tinha metrô, não tinha nem Radial Leste, não tinha nada... imagina. Pensei: “Puxa, você chega de Itaquera à noite, ainda tem que pegar ônibus para a Cidade Ademar para ir para a Cidade Universitária... toma essa chave aqui, o dia em que você estiver meio bêbado, vai dormir lá em casa”. Tinha um sofazinho lá. Quase toda noite ele dormia lá; depois apareceu outro, tal. Um amigo que foi expulso da pensão, foi. Daí, teve uma vez que a irmã de um amigo foi morar lá; aí, ela levou uma amiga dela, que estava no concurso de Miss Café, que era a mulata mais bonita, não sei o quê. Ela morou três meses em casa, a Miss Café, e eu tive o azar de não ver ela nem uma vez, porque eu chegava ela já estava dormindo; ela dormia cedo e eu chegava sempre tarde, de madrugada. O apartamento era assim, tinha uma porta do corredor, tinha uma saleta com mais uma portinha, e a porta do banheiro. O resto dentro era uma sala comprida e um quarto comprido. Mas o quarto com meia parede só, e não tinha porta. Então, aquilo lá era uma coisa meio maluca, não tinha intimidade nenhuma. Ia dormir com namorada, tinha um regulamento assim: “Quando tiver alguém com namorada não pode acender a luz do quarto, só a da sala”. Tinha aquela correntinha, o ‘pega-ladrão’, na porta do corredor. Também: “Quando você chegar no começo da noite e estiver trancado, não insista, não bate, é que alguém está namorando ali. Tem o Cine Bijou aqui perto, o cine de arte, o botequinho aí embaixo, para tomar cerveja, espera, dá um tempo e volta depois para o apartamento”. E na faculdade eu fui tomando contato com as coisas que eu sabia que existia. Em Minas, na minha terra, só tinha PSD e UDN, política era isso. PSD era o partido dos fazendeiros, dos mais ricos. UDN, uns caras que se sentiam classe média urbana, mas não eram isso, não tinha quase classe média lá, a maioria era tudo meio proleta. A UDN parecia mais progressista porque era de fazer mais obras, mas em termo de cabeça, de política, era até mais reacionária que o PSD, porque era uma direita mais esclarecida. O PSD era direita de fazendeiro que não tinha mais noção das coisas. Então, chega aqui e começa... neste ano em que eu fiquei sem estudar - entre o colégio, formado em técnico de contabilidade, até entrar na faculdade - eu fui tomando contato com as coisas, vendo assim o movimento estudantil, muita repressão. Eu pensava: “Eu vou entrar na faculdade, não vou aceitar apanhar de polícia, não”. E entrei em 1967, já me envolvi logo com a política lá, aí fiquei conhecendo PC do B, PCB, Polop, fiquei sabendo de trotskismo, anarquismo, tudo esse negócio. Você entrava na faculdade, era uma revolução. A faculdade, naquela época, era uma revolução. Um mês depois que você entrava na faculdade, principalmente na Filosofia da USP, você era outra pessoa, era outra. Se alguém fosse de direita e quisesse continuar sendo, podia continuar; mas ele se sentia na obrigação de estudar para ter base para ser de direita. Para mim, de repente, eu me senti de esquerda, participando de greve, tudo. No primeiro ano já fui eleito para a direção do Centrinho. A Faculdade de Filosofia tinha doze departamentos, naquela época não era só Ciências Humanas. Por exemplo, Geologia era lá, Física, Química, Pedagogia. Então, era a efervescência, em 1967 já. E tinha seis membros da diretoria do Centrinho, era eleição individual na época. Foram eleitos cinco da outra chapa - que era da Polop - e eu numa chapa meio independente; fui eleito tesoureiro com apoio do PC do B, de alguns trotskistas, de anarquistas, do Partidão. Na outra, era Polop e AP. E gente entendendo aquelas coisas e tudo. E eu continuei, fiquei um militante mesmo, trabalhando lá. E nessa fase, quando eu voltei, trabalhando no Moinho Santista, no centro da cidade, no começo de 1968, eu estava ocupando um apartamento que não era meu, era do meu irmão. Devolvi para ele, consegui mudar para o Crusp. Foi interessante porque quando eu morava lá no apartamento tinha um cara que gostava de voar de teco-teco, aquele avião paulistinha, saía do Campo de Marte. Um dia, tomando cerveja  com ele no boteco lá em frente, ele me falou disso e me chamou para voar com ele. A gente dividia a despesa, eu achava legal. Mas motor de teco-teco parecia fusca velho: pápápápápá. A primeira vez eu tive a impressão de que iria cair. De vez em quando eu ia voar com ele, sábado de manhã. Aí, um dia, eu falei para ele: “Félix, eu vou mudar para o Crusp e vai ficar difícil de eu vir voar com você, então, arruma outro nesse sábado” .“Ah, tá bom”. Bom, no meio da semana eu vi lá no jornal: “O Marighella, inimigo número um do Brasil, foge de avião para o Paraguai”. Eu falei: “Nossa”. E não liguei uma coisa com a outra. De repente, ficou aquela especulação, que um cara do aeroclube de São Paulo pegou um avião e não voltou. E o cara que estava com ele podia ser o Marighella, que estava num cerco em São Paulo. Passou menos de uma semana, ele pegou um cara para ir no meu lugar e eles foram dar um vôo rasante em Santos. Na volta tinha uma corrente de ar descendente que empurrou o avião para baixo e caiu na Serra do Mar. Morreram os dois. Se eu não tivesse mudado para o Crusp teria sido eu (risos). Fui morar no Crusp; aí sim, foi a felicidade. Sabe aquele negócio: você é feliz, e sabe? Eu me sentia. Eu escutava aquele samba do Ataulfo: “Eu era feliz e não sabia”. Eu falava: “Ele foi bobo, eu sou feliz e sei!”. Porque 1968 é aquela plena revolução sexual, efervescência política, cultural, tudo acontecia em 1968. Eu estudando na Faculdade de Filosofia, que era o maior foco de resistência contra a ditadura, e morando no Crusp, que era o segundo maior foco de resistência contra a ditadura. Então, foi aquela coisa maravilhosa. E aí, pedi demissão do Moinho Santista porque eu não queria... eu tinha feito um concurso para técnico em contabilidade da Prefeitura. Eu não aguentava mais o Moinho Santista, pedi demissão lá e no dia em que eu estava para sair, pensando: “O que eu vou arrumar de emprego agora?”. Em agosto ou setembro de 1968, por aí, eu morando no Crusp: “Vou ter que procurar outro emprego, mas pelo menos o Crusp é barato para morar, eu posso ficar comendo a refeição por um cruzeiro, não pago quase nada para morar”. O dia em que eu estava assim me chamaram para trabalhar como técnico em contabilidade na Prefeitura, na Secretaria dos Transportes. Aí foi legal, mas uma coisa que foi... o emprego era chato, o trabalho de contador é uma porcaria, tanto que depois, quando eu larguei esse emprego, a primeira coisa que eu fiz foi jogar o diploma no lixo. Eu não sei mais nada de Contabilidade. Zerei: a minha cabeça apagou qualquer coisa de Contabilidade. Mas lá tinha uma vantagem: entrava quinze para o meio-dia e saía às 18:21h, horário maluco. Só que era o seguinte: meu trabalho era fazer auditoria em contabilidade de empresas de ônibus. Tinha setenta e cinco empresas de ônibus em São Paulo. E quase todas tinham a sede na periferia. Eu conheci tudo quanto é periferia de São Paulo nessa fase. Eu gostava disso, de conhecer, e tinha uma coisa: o trabalho que eles davam para fazer... funcionário público é realmente meio devagar, então eles me davam um trabalho para fazer: “Ah, você tem três dias para fazer isso”. Em duas horas eu tinha terminado. O que eu fazia? Ia direto para a Cidade Universitária, tanto para a biblioteca, para ler, como para o Centrinho, para agitar um pouco, tal. E aí, no dia seguinte, eu tinha que passar lá para assinar o ponto na entrada e ia direto para a Cidade Universitária, porque se eu falasse: “já terminei o trabalho”, entregava todo mundo. Então, fiquei lá até terminar o curso de Geografia, em 1971. Mas, nesse período, teve o AI-5, eu estava morando no Crusp, foi 13 de dezembro de 1968; dia 17 teve o cerco do Exército e da polícia, eu saí de lá direto para o Presídio Tiradentes, com um bando de gente, mas fiquei só quatro dias lá no presídio, sem tortura. A única coisa que fizeram foi que me deixaram quatro dias sem comer, o que em termos de preso político é nada. Comparado com choque no pênis, na orelha, no cu, isso não é nada. Fiquei quatro dias sem comer, me levaram para o Dops, eu e mais três caras - de mil e duzentos presos, foram quatro escolhidos. Foi uma sorte para mim, porque me livrei da tortura. Depois disso, começou a fase de tortura. Se eu não tivesse passado pelo interrogatório do Dops, nessa fase, seria pior depois. E aconteceu uma coisa muito gozada: o delegado, depois de me interrogar das três horas da tarde até às sete e pouco da noite, sete e meia, mais ou menos, ele me falou: “Espera aqui na sala que eu vou ver em que cela você vai”. Eu falei: “Bom, agora que vem a parte boa, né, da coisa”, preparado para aguentar o tranco. Cheguei e os outros três já tinham acabado o interrogatório, sentamos os quatro lá e ficamos esperando, só nós quatro ali. Apareceu um investigador, olhou para mim e falou: “O que vocês estão fazendo aí?”. Eu percebi que ele não sabia quem a gente era e falei: “Estamos esperando aqui para falar com o doutor Rui” (o delegado que tinha me interrogado e não estava na sala). “Doutor Rui? Acho que já foi embora” .“Ah, é? Então a gente vai indo também”. Descemos a escada, “com o cu na mão”, até chegar na porta e saímos do Dops desse jeito (risos). Consegui entrar no Crusp para tirar minha roupa, que estava ocupado pelo Exército, vi que eles tinham roubado tudo, me sobrou uma malinha de livro. Eu tinha uma parede cheia de livros e muita roupa, muito material de cartografia importado, que eu queria ser cartógrafo no futuro - nessa fase me interessava muito pela cartografia, pelo curso de Geografia, tinha muito material importado, comprado a prestação. Levaram tudo, me sobrou uma malinha de roupa velha desse tamanho, uma malinha de livro sem capa desse tamanho. Aí, eu combinei com os outros colegas, que também moravam no apartamento: “Vamos voltar lá e reclamar desse negócio, pegar logo o coronel de exército que está encarregado do IPM”. Porque o inquérito policial militar é uma coisa da ditadura também. Na hora em que chegamos lá para falar isso, fomos cercados pela polícia e o próprio coronel prendeu a gente de novo, fomos presos pelo Segundo Exército. Aí, durou só vinte e duas horas, passei por novo interrogatório no Exército também. Mas o coronel era um banana, Coronel Alvim. A gente driblou ele fácil no interrogatório. Chegou no final do interrogatório, ele falou: “Tinha até bebidas alcoólicas aqui!”. Eu falei: “Não diga coronel, não é possível!”. Eu tinha oito garrafas do 'Levanta e Cai' no meu apartamento. E ele falou: “E outra coisa: tinha mulher que entrava em apartamento de homem, sozinha, tinha sexo!”. Eu falei: “Coronel, tem um prédio lá no centro que é uma zorra, está cheio de mulher entrando em apartamento de homem. Se o senhor quiser o endereço...” (risos). Então, eu fiquei com meus depoimentos prontos, sem ter sofrido nada, no Exército e no Dops. Continuei trabalhando lá na Prefeitura. A propriedade é uma desgraça mesmo, acho que o tempo em que eu me senti mais livre na vida foi esse tempo em que eu tinha uma malinha de roupa e uma de livro. Eu mudei acho que seis ou sete vezes no ano. De cara eu fui morar com meu irmão em Santos, porque essa malinha de roupa tinha coisa que eu precisava, eu tinha que trabalhar de gravata, por exemplo, na Secretaria dos Transportes da Prefeitura, eu tinha que pôr paletó e gravata, e na minha malinha de roupa não tinha nada disso. Eu tive que começar a usar do meu irmão. Depois, eu vi que tinha sobrado um terno preto, que só tinha sobrado um bolsinho daqui. Então, tudo o que tinha de documento, dinheiro, tinha que usar nesse bolsinho. E uma gravata, que eu dei o nó nela, e  tirei o nó no dia em que eu saí. Está totalmente diferente, essa parte de dentro do nó tinha cor, tudo, do lado de fora não tinha nada. E, gozado, quando eu voltei para a Prefeitura, tinha um coronel que trabalhava lá na minha seção. Na ditadura, eles arrumavam emprego para os 'milicos' todos, punha um em cada seção lá, para ficar observando os outros e para ganhar uma renda a mais. Então, tinha um coronel que trabalhava como economista na minha seção - não era economista coisa nenhuma, mas ganhava como economista. Quando souberam que eu estava preso no Presídio Tiradentes, o meu chefe era uma pessoa legal e pediu para ele ir lá no presídio para ver se me localizava lá, e se eu estava bem. Ele chegou lá, não deixaram ele entrar: “Ele está incomunicável” .“Mas sou coronel do exército” .“Nem você entra aqui”. Então, quando eu voltei para o trabalho, voltei com a fama de ser um cara perigosíssimo (risos). Bom, aí eu fiquei lá até terminar o curso, mas estava uma fase muito brava. Eu terminei o curso de Geografia, em 1971, e estava todo mundo sendo preso, morto, exilado. Eu tinha tido um problema: em julho de 1971 o meu irmão João foi casar. E, no dia do casamento dele, vinha para o casamento o meu irmão mais velho, Toninho, que morava lá no Triângulo Mineiro. Ele, a 'Dadica', minha irmã, e duas filhas dela. Teve um acidente e morreram os quatro. Então, eu já estava muito abalado, estava com medo de ser preso, não aguentar a tortura e entregar os outros. Esse fim de ano de 1971 eu fiquei me equilibrando, acho que foi o tempo em que eu fiquei careca também, porque tinha polícia me seguindo o dia inteiro. Acho que eles faziam de propósito para você saber que estava sendo seguido e tentar fugir. Eu falava: “Eu não posso, porque se eu fizer isso eu sei que não consigo”. Eu tive que ficar raciocinando o tempo todo. Eu acabei morando na Nove de Julho de novo. Sabe quando você sai de casa de manhã, tem um cara lendo o jornal de cabeça para baixo, a hora que você passa ele fecha o jornal, vem atrás de você? Um saco. No final de 1971 eu fiz um teste, estava procurando sair do Brasil, mas não era ligado a nenhuma organização de esquerda - eu colaborava com várias, mas não era ligado a nenhuma. Naquele tempo, nos exilados tinha muita infiltração de polícia. Se eu chegasse sem ser ligado a uma organização, ou no Chile, ou na França, que eram os principais lugares, me apresentando só: “eu vim morar aqui, preciso de ajuda”, eles iriam achar que eu era polícia também. “Como é que eu faço?”. Fui ver se conseguia uma bolsa de estudos na Itália ou no México. Na Reitoria não tinha nada assim de pós-graduação em Geografia nesses países. Passei na Geografia, encontrei um amigo da História que estava lá, chamei ele para tomar cerveja no Bar da Tia Rosa, um bar que a gente costumava ir. Aí, ele falou: “Eu só posso tomar uma cerveja porque eu tenho um teste para fazer. Eu me inscrevi num concurso para um emprego que é uma maravilha, só de ficar viajando pelo interior promovendo atividade de cultura, esporte, lazer” .“Onde é?” .“No Sesc”. Aí, fui tomar uma cerveja e ele falou: “Por que você não faz inscrição também?”. “Até que é uma boa, já que eu não consigo ir para o exterior, vou tentar ir para o interior”. E realmente eu fiz inscrição lá e passei. É uma coisa assim, teve quatro mil inscritos, tudo de nível universitário, passando cinquenta pessoas, ficou uma badalação, e o salário, assim. Na Prefeitura, como técnico de contabilidade, eu ganhava 891 por mês, lembro até hoje. O salário do Sesc era 2 mil e 800 e tinha mais 2 mil e 200 para ajuda de custo. Passei de 891 para ganhar cinco mil. Aí, legal. Passei, fui trabalhar. No meu antigo apartamento tinha um monte de amigo desempregado, essas coisas, então, mantive o apartamento para eles ficarem morando aqui. E começou a sobrar dinheiro. E eu achava que sobrar dinheiro no fim do mês era uma coisa que eu estava virando um burguês (risos). Então, todo fim de mês eu tinha que zerar minha conta: mandava um pouco para a minha família, mas não queria mandar muito para não viciar também; mantinha esse apartamento com um monte de gente morando; ainda sobrava dinheiro e eu dava para uma organização de esquerda. Só que tinha um problema: quando eu fui trabalhar no interior, as diárias do Sesc eram altas, mas parte você tinha que comprovar a despesa. Por exemplo, refeição: quinze cruzeiros uma refeição, era muito na época - você gastava três, quatro. Eu era muito moralista, todo mundo pegava nota a mais, e eu falava: “Não vou fazer isso de jeito nenhum” .“Mas se você pegar nota pelo valor correto vai ferrar todo mundo aí; por que você gasta quatro cruzeiros e outro gasta quinze, dezesseis?”. Eu pensei, pensei, e falei: “Quer saber? Eu vou gastar os quinze em cada refeição”. Então, toda refeição eu tomava uma garrafa de vinho, comia o prato mais caro que tinha. Resultado: em três meses eu tinha engordado dez quilos. Você vai ver pela minha foto como eu era magro, que o pessoal fazia piadinha comigo: “Ah, vai trabalhar no filme de Tarzan, vai ser o cipó!” (risos). Então, engordei dez quilos em três meses, mais cinco quilos nos outros três meses. Eu falei: “Se eu continuar assim, estou frito, vou virar uma bola. Vou ter que começar a comer menos e a tirar nota no valor maior”. Só que me propus a fazer o seguinte: não ficar com esse dinheiro, passar para a frente - ou para organização de esquerda, ou para amigo desempregado, essas coisas. Eu sempre fui desorganizado e comecei a ter uma agenda. Eu tinha uma agenda cheia de Nota Fiscal. E fiz uma coisa que todo mundo fazia. Tinha um cara, por exemplo, que trabalhava em Serra Negra e trabalhava comigo; ele almoçava todo dia na casa dele, chegava no fim do mês ele ia lá, comia uma refeição ou duas refeições lá com a mulher, e os caras davam uma Nota Fiscal para eles, de duas refeições, por, vamos supor, dez cruzeiros. Ele chegava em casa, tirava sessenta e duas refeições - era um mês em um dia. Ele queria falsificar para mim: “Não, deixa que eu falsifico para você!” .“Eu não quero, não, deixa que eu faço”. Marrudo. Só que eu não sabia, quase fui demitido porque fiz uma coisa grosseira (risos). Ainda quase fiquei com fama de corrupto, ainda bem que o pessoal entendeu a situação lá. Eu passei dois anos. Realmente, você trabalhar em uma instituição dessas... o Zé Papa Júnior, um cara de extrema-direita, filho da mãe, é que era o presidente. Você está trabalhando para o Sesc, o governo te trata numa boa, então, esqueceram de mim nesse tempo. Mas teve o seguinte: em 1972 foi o Sesquicentenário da Independência. Sesqui... um centenário e meio. E o Sesc fez um cartaz com o Dom Pedro e o Garrastazu, os dois de perfil, 1922-1972, Sesquicentenário da Independência. Aí, chegou para mim um rolo de cartazes desse tamanho. Eu estava morando em São João da Boa Vista e tinha que distribuir cartazes. Tem que distribuir no Sindicato Rural, Sindicato daquilo, Casa Branca, São José do Rio Pardo, Mococa, Vargem Grande, Pinhal, não sei o quê. Eu olhei aquilo lá e falei: “Caramba, eu saí de São Paulo fugindo da polícia, eu vou distribuir essa porcaria?”. Eu tinha alugado uma casa lá e fiz uma fogueira com os cartazes lá no quintal. Eu podia ter ficado só por aí, mas o cara que era o meu chefe tinha fama de ser meio comunista. Depois eu vi que era do Partidão mesmo. Quando ele foi me visitar eu falei: “Sabe aquele monte de pacote de cartaz do Garrastazu que mandaram distribuir aqui?” “Ah sei, você distribuiu?” .“Não, queimei tudo”, falei para ver a reação dele. Se ele fosse um cara de direita, ele me mandava embora. Ele falou: “Pô, mas por que você fez isso?” .“Pô, Ailton, eu sou contra a ditadura, os caras mataram meus amigos, prenderam outros, tem um monte de exilado. Você acha que eu vou falar bem do Garrastazu?” .“Mas você acha que esse cartaz iria mudar a cabeça de alguém?”. Eu falei: “Sim, ia mudar a minha. Se eu faço isso, depois faço outra coisa, aquele princípio”. Aí ele falou: “Você tem razão”. E falei: “E outra coisa: esse trabalho que vocês estão mandando fazer aqui, eu não faço nada disso. É  tudo coisa de direita”. Ele falou: “É o seguinte: papel aceita tudo, inclusive número, é uma questão de datilografia. Você faz do seu trabalho o que você quiser, agora faz o relatório como se você tivesse feito isso” (risos). Até hoje, quando tem gente que está fazendo tese sobre trabalho do Sesc aí, das unidades móveis do Sesc, algumas pessoas vêm me entrevistar, dizem que viram tal Relatório, eu falo: “Ihhh, não acredita em nada daquilo lá, porque aquilo é tudo...”. Fazia uma atividade com cem crianças e virava oitocentas crianças, coisas assim, não é? Fiquei dois anos no interior. No primeiro ano fiquei organizando centros comunitários, nessa faixa de Atibaia até Mococa. No segundo ano eu fui trabalhar na região aqui, com base primeiro em Pirassununga, trabalhando mais com esporte: Pirassununga, Porto Ferreira, Araras, Leme. Depois fui para Piracicaba, mas parei pouco em Piracicaba, e vim aqui para Itu, Porto Feliz, Salto, Itapetininga, Tietê, Botucatu, São Manuel, mas trabalhando basicamente com grupos de jovens. Treinava grupos de jovens para trabalhos comunitários e organizava olimpíadas, trabalhos de saúde, essas coisas todas. Fiquei dois anos assim e senti que já tinha maneirado para o meu lado. Eu falei: “Vou voltar para São Paulo”. Pedi transferência para São Paulo. Eu já era um cara muito encrenqueiro no Sesc também, implicava direto. E no Sesc tinha umas coisas que eles chamavam “Sibéria”. Por exemplo, colônia de férias de Bertioga era uma Sibéria porque era um lugar horrível para trabalhar, não acontecia nada. Quando eu pedi transferência para São Paulo, Sibéria era o Sesc Pompéia, que não tinha sido reformado ainda. Então, eu seria Diretor Cultural do Sesc Pompéia. Passei um ano aí. O Diretor Cultural cuidava desde teatro, tinha Célia Helena, esse pessoal lá. Eu era, teoricamente, chefe deles todos. Os cursos de Madureza, de Kung-Fu, tinha curso de recreação, pintura, desenho, expressão corporal. Nessa época, o Sesc começou com grupos da Terceira Idade, que não existia; eu era responsável pelo grupo de Terceira Idade também, que era uma coisa terrível. Tinha reunião semanal, em que eu falava para uma Assistente Social, estudante de Serviço Social, que era estagiária – ela era doida para trabalhar no Sesc - eu falava para ela: “Olha, Elza, se eu pegar algum velho desses “trepando” com uma velha por aí, eu peço para te contratarem na hora!” (risos). As reuniões sempre começavam com um minuto de silêncio pelo morto da semana; se não tivesse entrando gente nova, iria extinguir o grupo logo (risos). E tinha recreação infantil, tinha tudo isso. Eu passei um ano lá no Pompéia, mas a gente aprontou muita coisa legal lá, e chegou no fim do ano todo mundo queria ir para a Sibéria, porque a gente fazia muita coisa divertida. Aí, eu fui trabalhar na Vila Nova, mas atendendo pessoal da Grande São Paulo toda, principalmente essa Zona Oeste, Taboão, Embu, Osasco, com recreação, essas coisas. Nesse negócio também, quando eu voltei do interior, em 1974, para ir para o Sesc Pompéia, eu já voltei com sarna para procurar encrenca de novo: “Eu vou entrar na USP de novo, ver se a gente reativa o movimento estudantil”. Aí, entrei em Chinês, eu queria aprender uma língua sem alfabeto, porque o chinês não tem alfabeto. E aproveitei para estudar Tupi também. Mas no meio do ano eu falei: “Puta merda, já tem Geografia que eu não dou aula, não gosto de ser professor, é difícil viver como geógrafo, pegar mais curso de Chinês também, e Tupi...”. Resolvi fazer Jornalismo e entrei na Cásper Líbero, no meio do ano de 1974. Aprendi um pouquinho de Tupi, um pouquinho de Chinês. Chinês eu não lembro de mais nada, Tupi a gente tem muita coisa do cotidiano, então, ainda lembro uma coisinha.

 

P/1 – Você se formou na Cásper?

 

R – Formei. A Cásper Líbero tinha uma vantagem. A profissão de Jornalista foi legalizada em 1968, durante a ditadura. Então, muita gente que não tinha diploma, achava que era bobagem. Eles davam dois anos para você legalizar sua situação, e muita gente não ligou para isso. Então, quando chegou o momento, o Estadão, Folha, Editora Abril, começaram a falar: “Ou você faz o curso de Jornalismo ou vou ter que te demitir”. Na época, a Cásper Líbero era só três anos e esse pessoal todo optava por fazer Cásper Líbero. Lá encontrei um monte de puta velha do jornalismo: Marcos Wilson, Maria Montserrat, Mário de Andrade, que era Diretor da Playboy, o Júlio do Grand Monde, que era um cara legal na imprensa sindical... um monte de gente. Eu fiz a Cásper Líbero. Foi interessante, quando eu estava no segundo ano só tinha um jornal laboratório que a gente fazia durante o curso inteiro. O diretor se negou a publicar o jornal da minha classe falando que era de esquerda demais. Eu tinha um mimeógrafo que a gente tinha roubado do tempo da militância estudantil da USP para poder distribuir panfleto na periferia, então, começamos a rodar o jornal lá em casa, chamado “O Pontão”. Nesse tempo, a faculdade era dominada pela Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP). Tinha nove professores da TFP na Cásper Líbero. Primeiro jornal nosso que saiu, do “O Pontão”, já foi uma encrenca lascada, provocando a TFP. Chegou uma hora em que o diretor chegou naquela situação: ou expulsava a classe inteira, ou expulsava os nove professores da TFP. Preferiu optar por expulsar os caras da TFP, o que não foi tão bom porque os professores que entraram no lugar deles eram tão ruins quanto (risos). Só que não criava aquele...quando os caras eram da TFP todo mundo se mobilizava, quando era os outros ficou aquela coisa amorfa. Mas no fim terminei lá. Enquanto estava lá, também já conheci o pessoal que estava fundando o “Verso”, que foi o jornal mais bonito que já existiu, já produzido pelo Brasil, acho. E eu fui um dos fundadores dele, com Marcos Faerman, Moacir Amâncio, Modesto Carone, uns intelectuais aí. Fundamos o jornal, o primeiro número foi rodado com dinheiro do Marcos Faerman e meu - eu já ganhava bem no Sesc. E aí, eu arrisquei mandar matéria para o Pasquim também. Eles começaram a publicar, comecei a colaborar com a imprensa alternativa toda. Depois, uma fase em que eu estava para ser demitido do Sesc porque tinha provocado uma briga com o diretor. Aí, o Sesc resolveu fazer uma Feira Nacional de Cultura Popular. Então, a mulher que ficou encarregada disso, chamada Gláucia, estava precisando de alguém que entendesse. Um amigo meu lá falou: “O cara que mais entende de cultura popular no Brasil, moça, é o Mouzar”. Ela veio falar comigo: “Você não topa vir trabalhar comigo?” .“Topo, mas estou para ser demitido” .“Não, pode vir aqui que ninguém te demite, não”. Aí, fui trabalhar, foi legal. Coordenei uma Feira da Cultura Popular de 1976. Nós compramos dez mil peças de artesanato no Brasil inteiro, tiramos dez mil fotos, quinze mil branco e preto, dez mil slides, gravamos coisa pra burro, contratamos quarenta e nove grupos para tocar no Sesc, grupos do Brasil inteiro, desde Boi de Mamão de Santa Catarina até Ciranda de Pernambuco, tudo. Caiapó, Congada, tudo. E em 1977 continuamos. Nesses dois anos, fiquei encarregado de fazer pesquisa. O Nordeste, eu já conhecia todo porque viajava muito pelo Nordeste, de férias. De carona, de barco no São Francisco, viajei várias vezes no São Francisco de carona, ia até o Maranhão. Então, eu passei a bola do Nordeste para outro porque me interessava conhecer onde eu não tinha dinheiro para ir. Fora São Paulo e Minas Gerais, interior de São Paulo, litoral paulista, eu fiquei encarregado. Aí, peguei também Pará, Amazonas, Acre, Rondônia, Mato Grosso - que na época englobava Mato Grosso do Sul - e Goiás também, que era Goiás inteiro. Em 1977 teve a segunda edição da Feira da Cultura Popular. Eu estava no Acre, aproveitando, e nessa época teve a primeira reação... o tempo que estava fazendo a cabeça do Chico Mendes ainda, em 1977. Quando cheguei no Acre teve a primeira reação de uns seringueiros com os jagunços dos fazendeiros do Sul. Eles chamavam tudo de paulista: paulista, mineiro, paranaense, tudo era paulista lá. Tinha até o Bar dos Paulistas no centro de Rio Branco, que era o único que vendia cerveja bem geladinha na época (risos), tinha um hotel em cima. Então, os caras chegavam lá com terra grilada, documento falso cedido pela ditadura, governo, mal desciam já chegava jagunço para limpar a terra para ele. Limpar a terra, quer dizer, é tirar todo mundo que morava lá desde o tempo em que o Acre foi anexado ao Brasil, desde o tempo em que os cearenses foram para o exército da borracha, em 1940 e poucos. Os caras não tinham documento, mas moravam lá, todo mundo sabia que era deles. Então, chegavam os paulistas, entre aspas, desciam lá para o bar, já contratavam jagunços para expulsar. Por exemplo, um cara que era diretor da Copersucar, deram quinhentos mil hectares de terra para ele lá no Acre. Tinha vilas inteiras. Os jagunços foram lá, tiravam gente de dentro, expulsavam, quem não saía eles matavam e ficava por isso mesmo, governo, polícia, tal. E quando eu cheguei lá tinha tido a primeira reação dos seringueiros contra esses jagunços. Então, mataram um dos líderes dos jagunços e um outro jagunço. E eu fiquei sabendo, falei: “Vou fazer uma matéria para o Verso”. Eu estava trabalhando para o Sesc, mas… “vou fazer uma matéria para o Verso”. E me informaram sobre um jornalista de um jornal alternativo de lá... porque tinha muito contato com jornalistas alternativos com os trabalhadores do Acre, eu conhecia o pessoal lá, e me informaram que tinha um cara que ia lá para o lugar onde teve esse conflito primeiro, e no dia seguinte ele ia sair de caminhonete, às seis horas da manhã. Ele morava a seis quilômetros da cidade de Rio Branco. Então, de madrugada, eu saí do hotel lá com gravador, duas máquinas fotográficas, papel, não sei o quê, doidão para pegar uma carona com o cara. No meio do caminho escorreguei, caí e quebrei a perna. Tive que voltar. Eu fui manchete no jornal do Acre. Tinha um único jornal lá, chamado “O Rio Branco”, que era do Diários Associados, o único diário. Eu cheguei no aeroporto, no dia seguinte, e encontrei com o Dom Moacyr Grechi, que é um bispo bom de briga. E ele falou: “Você que é o jornalista aí, eu fui ver o jornal O Rio Branco, tinha a manchete principal: 'O Papa fez isso, isso e aquilo'; segunda manchete: ‘Jornalista paulista quebra a perna na rua’”(risos). Não era paulista e nem foi na rua, foi na estradinha lá. Mas eu voltei para São Paulo.

 

P/1 – Isso quando?

 

R – Em 1977. Aí, eu aproveitei, não é? Fiquei cinco meses e meio de molho, sem poder trabalhar e aproveitei para colaborar com a imprensa alternativa do Brasil inteiro. Foi. Só que quando eu voltei para trabalhar, uma matéria que eu tinha publicado no Pasquim tinha irritado muito o Papa Júnior, então, ele me demitiu e eu fiquei na lista negra dos patrões aqui. Eu fiquei tentando arrumar trabalho aqui, não dava, eu mudei para o Rio de Janeiro. A fase pré-internet, pré-informática, pré-computador, era ótima. Eu estava perseguido aqui, arrumava emprego, fazia teste, passava, só que tinha uma reunião semanal dos diretores de RH, que eles viam quem eles iam contratar: “Esse aqui foi demitido por causa política”. O gozado nessa época também é que existia um Atestado de Antecedentes Políticos e Sociais, que a gente chamava de Atestado Ideológico. Quando eu fui trabalhar na Prefeitura, como contador, já tinha acontecido isso. Eu precisava do Atestado Ideológico, mas como? Eu tenho ficha na polícia. E aí, como é que eu faço? Um cara falou: “Conheço um cara aí que vende para você, um despachante”. Aí me arrumou, de um dia para o outro. Fui para o Rio de Janeiro, lá ninguém me conhecia, fui trabalhar no Mobral, que é um órgão do governo, mas fui fazer um trabalho muito bom também, que foi na Ação Comunitária, estudar causa de analfabetismo em município problema. Fui para o Oeste da Bahia, para o Vale do Jaguaribe, no Ceará, Oeste de Santa Catarina, peguei uma região aqui do estado de São Paulo, Dourados. Fui para o Amazonas, a trabalho também. Só que depois de nove meses nisso, eu não gostava de morar no Rio de Janeiro, eu queria voltar para São Paulo. Um dia me ligou um amigo, o Ailton: “Você quer voltar para São Paulo?” .“Quero sim” .“O Chico Vilela está no Senai, ele tem uma vaga para você lá, para escrever curso por correspondência” .“Como é que eu faço?” .“Vem aqui tal dia”. Eu achei que era vaga, mas na verdade era um concurso, eu fiz assim mesmo, passei e vim trabalhar no Senai, larguei lá. E de novo tive que comprar Atestado de Antecedente. Era divertido, porque as pessoas que não tinham ficha nenhuma na polícia gastavam quinze, vinte dias para tirar o Atestado, eu que estava sujo pra burro, tirava de um dia para o outro (risos).

 

P/1 – Você estava falando do Senai, quando chegou lá em 1978, é isso?

 

R – Em 1978 eu fui para o Rio; em 1979. Nesse negócio de antecedente eu lembrei de uma coisa agora. No tempo em que eu trabalhava na Prefeitura, como Técnico em Contabilidade, eu saí com um parceiro lá para a gente fazer vistoria na contabilidade de uma empresa, ele falou: “Eu vou visitar uma sobrinha minha, você pode passar comigo lá?” .“Vamos lá!”. Chegamos lá era no Deic, falei: “Ahhhh Heitor, aí eu não entro não” .“Por que?” .“Primeiro é o seguinte: eu posso dar de cara com uns polícia que me conhecem; segundo, se eu estiver saindo daí, passa algum cara de esquerda e me vê saindo daí, vai achar que eu sou informante” .“Vamos lá, minha sobrinha é muito legal, você vai conhecer, vai gostar dela”, não sei o quê. Acabei indo, subi lá, conversei, realmente, uma moça muito simpática, tudo. Passou uma semana, mais ou menos, o Heitor me chamou lá na Prefeitura e falou: “Ó, minha sobrinha mandou falar que você não tem mais ficha no Dops, não” .“Como?” .“Aquele dia em que a gente passou lá, na hora em que a gente saiu, chegou um monte de material para ela arquivar. A primeira ficha que ela pegou era a sua, uma ficha grossa assim, desta altura, cheia de fotos; dentro da cadeia, inclusive, tem uma foto”. Ele descreveu. “Ah, lembro”. Desconfiei que o policial chegou lá, me viu na grade e falou: “Qualquer coisa, tal”, e fotografou. Descreveu a ficha. Na hora eu achei bom, mas depois fiquei meio frustrado, porque recentemente quando eu fui pedir o tal do Habeas Data, tinha muita pouca coisa, foi só as coisas que ela não tinha cortado e aconteceram depois. Arrumei tanta encrenca para ter uma fichinha vagabunda dessas? (risos). Nessa fase do Rio foi interessante também. Voltando. Eu tinha participado da fundação do jornal “Em Tempo” aqui. Foi o jornal que mais me irritou, depois, na questão de presos políticos, essas coisas. E quando fui para o Rio de Janeiro, eu sabia que tinha um conterrâneo preso lá, que participou dos sequestros dos embaixadores alemão e suíço. Mas cheguei lá, encontrei uma prima dele e ela falou: “Eu falei de você para o Zé Roberto, ele perguntou se você quer visitá-lo porque ele tem direito a três visitas”. Falei: “Claro que quero” .“Está lá no presídio da Frei Caneca”. Eu entrei lá e fiquei muito impressionado porque tive que passar por sete grades para chegar nele. E da penúltima para a última os caras me revistaram até dentro do maço de cigarro para ver se não tinha recadinho.Tira sapato, meia. Aí, lá dentro, fiz lá uma entrevista com o cara e voltei a colaborar com o “Em Tempo”, só para fazer matéria sobre preso político. Falei: “Ó, quero fazer matérias sobre preso político”. Comecei a mandar matéria de lá, mas com pseudônimo, porque se eu fizesse matéria com meu nome, não me deixavam entrar. Eu sabia da Rosalice Fernandes, por exemplo, que foi entrevistada por um amigo meu, Mário Augusto Jakobskind; ele entrou na cadeia, entrevistou e publicou uma matéria com ela no “Verso”, depois disso ele foi proibido de entrar em qualquer presídio do Brasil. Eu falei: “Vocês inventam um pseudônimo para mim”. Aí, um amigo falou assim:  “Ele é de Nova Resende, põe Resende”. O outro falou: “Todo mineiro é fazedor de média, então põe Benedito Valadares, que é o maior fazedor de médias: Resende Valadares” .“Mas só isso?” .“Põe um Netto”. Comecei a publicar todas as matérias minhas com o nome de Resende Valadares Netto, ou só RVN. No fim, eu fiquei mais conhecido pelo nome de guerra do que pelo meu nome (risos). Aí eu fazia matéria direto sobre os presídios e comecei a frequentar o presídio aqui de São Paulo também, onde tinha amigos presos também. Aí, fazia uma semana no “Verso” daqui. E levava recado de uns presos, temas de debate, até para greve de fome ajudei a organizar, tudo. Porque não tinha divulgado que ia de um lado para outro, nem telefone, nem nada. Então, eu visitava um amigo aqui num final de semana, no outro lá, e o “Em Tempo” ganhou o prêmio Vladimir Herzog neste ano. Só que eu não recebi porque a matéria não era com o meu nome, foi para o jornal. E voltei para cá no Senai, continuei fazendo isso até sair o último preso político. E no Senai também conheci um pessoal legal, fazendo um material por correspondência. Até curso de Matemática por correspondência eu escrevi. Conheci a Célia, que é minha mulher, comecei a namorar ela lá, tal. A gente começou a namorar no final de 1979, eu fui casar com ela... a gente já estava com vida de marido e mulher praticamente, mas fomos casar em 1993, mais porque ela comprou um apartamento, aliás, a salvação, não é? Senão eu estava morando em favela. Porque eu achava que era bobagem, dinheiro a gente tem que gastar. Ela não, ela falava: “A gente tem que pensar que um dia a gente vai precisar de um lugar para morar”, e tal. Ela comprou esse apartamento aqui no BNH e eu vim morar aí depois. A gente casou em 1993, mas continuou do mesmo jeito. Ela tinha medo, por exemplo, que se ela morresse por acaso, o pai dela que ia herdar o apartamento. “O meu pai nunca fez nada por mim, ele me abandonou quando eu era praticamente menina, então, não quero deixar nada. Vamos casar em comunhão de bens que, se por acaso acontecer de eu morrer, você dá o apartamento para a minha irmã, para não ir para o meu pai” (risos). A gente casou, mas continuamos meio namorando, ela morando num lugar, eu no outro, a gente só se encontrava para namorar, viajava junto em férias, tudo. Foi assim até 1997, quando morreu a irmã dela e eu acabei indo morar com ela porque ela ficou muito abalada. Eu trabalhei uns dois anos no Senai, até participei da fundação do PT nessa fase, da equipe de criar comunicação do PT, símbolos, essas coisas. Era desses militantes em tempo integral. Fazia jornal, essas coisas todas. E fui demitido por motivos políticos também. Um dos caras que tinha sido responsável pela minha demissão do Sesc, era Diretor Regional do Senac nessa época. Quando ele soube que eu estava no Senai, ele foi lá me 'dedar', marcou com o Diretor Regional do Senai para falar: “Você tem um agitador aqui que você precisa ver”. E tinha coincidido de ter uma campanha de sindicalização muito grande lá, então, tinha muita gente sindicalizada no Senai. Mas um sindicato extremamente pelego, chamado Senalba.O presidente dele se chamava Erevaldo. Coincidiu, teve a denúncia desse cara do Senac; o Paulo Ernesto Tolle, que era o diretor Regional do Senai, já estava querendo descobrir quem estava sindicalizando. Não era só eu, era um monte de gente, mas eu fiquei com a fama. E Erevaldo, que era Presidente do Sindicato, estava achando que eu estava querendo concorrer à presidência com ele. Então, juntaram os três e me demitiram. Eu fiquei de novo fazendo freelance, dando murro em ponta de faca por aí, tal, aquelas coisas. Nessa época eu já tinha vindo morar aqui na Rua João do Rio, na Vila Madalena. E era muito divertido aqui porque montamos uma república que eram quatro caras e uma velha, que era tia de um deles. Os outros três eram descasados e eu solteiro, namorava a Célia. Aliás, mudei antes de começar a namorar a Célia. Mas aí, era muito legal porque... legal que tem três homens descasados, todos com namorada, quando sabe que tem um sozinho, as mulheres sempre dão aquele jeito de levar uma moça para ver se namora a gente. A gente não ficava sozinho nunca (risos). Quando eu fui demitido continuei nessa república. E eu contava muito 'causo', a gente se reunia, gastava trinta litros de cachaça por mês a média, fora conhaque, vinho, cerveja, vodca. E o pessoal sempre falava: “Pô, por que você não escreve esses 'causos' que você conta?”. Aí, uma fase, já depois da primeira eleição que o PT concorreu, me chamaram para ser assessor parlamentar na Assembléia Legislativa. Eu fui ser assessor do deputado Sérgio Santos, mas não gostei nem um pouquinho porque é o serviço mais inútil que eu já vi na vida. Porque você pensa que na Assembléia Legislativa você apresenta um projeto e ele vai para discussão. Não. O presidente põe lá se quiser, totalmente presidencialista. Escrevi um discurso para ele fazer lá, como não tinha ninguém lá, ele falou: “Dá o discurso como lido, só publica no Diário Oficial”. “Pô, mas o que eu estou fazendo aqui?”. E pedi para ele me demitir. Isso foi em 1983, em plena recessão, uma recessão bravíssima. Ele falou: “Pô, você não tem emprego em lugar nenhum. Arruma emprego primeiro e depois eu te demito”. Ele foi legal comigo, não é? .“Se eu for fazer isso, eu acabo não procurando emprego para valer, porque a gente tem salário, tal... me demite já”. Ele me demitiu, eu cheguei em casa nas nuvens de alegre. Aí, tal, foi, pessoal alegre, tomando cachaça, conversando, meia-noite, todo mundo foi dormir porque tinha que trabalhar, e eu ia fazer o quê? Estava alegrão ainda: “Ah, vou fazer uma matéria para o Pasquim”. Lembro que fiz uma matéria sobre o Barão de Itararé. Três horas da manhã, tinha terminado e continuava alegrão, sem sono. “O que eu faço? Ah, vou  escrever uns 'causos'”. Escrevi vinte e poucos 'causos' até sete horas da manhã, aí dormi até meio-dia, saí. À noite foi a mesma coisa, encontrei com um amigo que pediu uma matéria para um jornal dos Estados Unidos, escrevi sobre política brasileira, três horas da manhã escrevi mais uns vinte e poucos 'causos'. Na terceira noite escrevi mais uma matéria para o Pasquim, que saiu também na outra semana, e mais uns vinte e poucos 'causos'. E aí, estava com sessenta e seis 'causos' escritos, eu parei nisso. O livro foi publicado quatro anos depois com o título: “Santa Rita véia safada”. Foi o primeiro livro que eu publiquei, nem pensava em publicar livro, nunca passou pela minha cabeça publicar livro. Eu fui por sentimento de catarse, a sensação gostosa de se livrar de uma burocracia imbecil. Bom, fiquei matando cachorro a grito realmente, porque não tinha emprego de jeito nenhum. Pegava um “freelancezinho” aqui, outro ali. O PMDB tinha ganhado a eleição, não tinha PSDB ainda. Em Osasco, eles me chamaram para trabalhar com organização de favelados, porque o desemprego estava muito alto. Eu falava: “Gente, vocês são do PMDB, eu sou do PT. Vocês querem fazer trabalho político nas minhas costas; eu não vou querer”. Finalmente, em novembro, eles me chamaram e falaram: “Vamos combinar, a gente faz um trabalho político de organização do favelados, mas não partidário. Você continua no PT, a gente no PMDB, (você não faz processo eletivo do PT e a gente não faz processo eletivo do PMDB?). E realmente foi bom. Osasco tinha quinze favelas no começo de 1983. Quando fui para lá, em novembro, tinha setenta e cinco. Porque a recessão estava brava, o pessoal não tinha emprego, então, a classe média baixa mudava para a favela porque não tinha dinheiro para pagar aluguel. E a classe média baixa é muito desunida, a classe média em geral, ela não sabe nem reivindicar, se unir. O que acontecia? Eles estavam morando nas favelas sem água, sem luz, e sempre aparecia algum bandido de favela que dominava ali e começava a cobrar pedágio. O trabalho da gente, não só meu... eu fui trabalhar com uma equipe com uma visão mais ideológica da coisa, uma equipe muito boa de estudantes, e a gente começou a organizar essas favelas para encarar os bandidos de favela e também reivindicar água, luz e outras coisas. E fazer outros trabalhos, porque era uma época de fome, até sopão a gente organizou lá. Estava um trabalho bom, a gente estava fazendo, mas aí saiu o Secretário, foi ser Secretário de Governo, que era o Brium, entrou outro Secretário, e depois nomearam para ser Secretário do Bem Estar Social um político muito safado lá, eu falei: “Ih, vai voltar tudo atrás”. E, realmente, quando ele foi tomar posse eu pedi para me demitirem. De fato, eu soube depois, sabe aquele negócio?: “Vaga na creche, traga uma carta do vereador que você tem”. Antes da pessoa, qualquer coisa chamavam os pobres na sala dele, davam um café com leite e pão com manteiga antes: “Sua filha vai ter vaga na creche, mas vem aqui tomar um café comigo antes”. Não deu, não é? Saí, fiquei andando de novo, fazendo freelance por aí. Um dia, um amigo me avisou: “Estão fundando uma revista aí chamado Guia Rural, da Abril, um anuário”. Eu fui lá, cheguei lá, o editor, Nivaldo Manzano, falou para mim: “Olha, é o seguinte, vou te falar já assim você nem perde tempo. Eu estou precisando mesmo de um jornalista aqui, mas que entenda de clima e solo”. Eu falei: “Bom, eu estudei Geografia”. Nem saí de lá, comecei a trabalhar imediatamente. Então, fizemos uma super publicação legal, chamado Guia Rural Abril, em 1985, e outro em 1986 ou 1987, não lembro. Eu trabalhei dois anos lá, até que eles resolveram criar uma revista mensal também. Chamaram uma equipe para trabalhar nessa revista, que era o contrário de tudo o que a gente tinha de visão. Até para trabalhar a terra tem uma visão de esquerda e uma de direita: a visão de direita é tirar a margem de lucro, estilo esse Aldo Rebelo aí; a terra não tem importância nenhuma, não tem respeito nenhum por mata, meio ambiente, nem nada. E tem o jeito de esquerda, de você respeitar a terra, preservar a terra, não maltratar e também ter uma visão social disso. E a equipe que puseram para trabalhar lá na revista era o contrário disso tudo, uma visão capitalista da agricultura. Agricultura que interessa é a do cara que tem dois mil hectares de terra, que tem máquina. Em vez de ensinar o cara a preparar um método de colheita lá, de combate a uma praga, dizia:  “Tem uma máquina aqui que colhe 200 hectares por dia”. Nisso, a Editora Abril tinha a Nova Cultural e resolveu lançar uma enciclopédia de agropecuária, me chamaram para trabalhar lá, eu fui de alegre, mas durou vinte dias o emprego, porque os dois caras que estavam coordenando começaram a brigar entre eles e fecharam. Vou eu de novo para o limbo. Fiquei trabalhando nisso. Aí, publiquei o livro em 1987, fazia uns freelances por aí, tudo, publiquei o “Santa Rita véia”, em 1987, com a Marília Andrade, que era a dona da Gazeta de Pinheiros, Revista Ler... no ano seguinte, ela precisou de alguém para trabalhar lá, eu fui trabalhar lá, trabalhei dois anos na Gazeta de Pinheiros, uma fase boa. A Gazeta de Pinheiros estava com 75 mil exemplares de tiragem; no começo eram 60 mil, aumentou para 75 mil. Porque todo mundo do PT lia a Gazeta de Pinheiros. Fora a distribuição gratuita, aqui na região de Pinheiros, Madalena e Butantã, tinha dez mil assinantes. E a gente publicava matéria que só lá que publicava, em nenhum lugar publicava. Era uma maravilha, eu tinha liberdade total. Tinha coluna, eu dividia coluna com o Carlito Maia, uma semana eu, outra ele. Também tinha uma seção de frases, todo dia tinha três frases do Carlito Maia e três frases minhas, foi legal. Mas aí, a Gazeta apoiou primeiro o Lula, depois a Erundina, e aí dançou, porque não tinha anunciante e vendeu para esse grupo sem-vergonha, Grupo Um, de jornal de bairro, e virou esse jornalzinho com três mil exemplares de tiragem que não serve para nada. Eu pedi demissão da Gazeta antes de acontecer essa crise, porque eu fiquei sabendo que ia ter um concurso de Literatura do Governo do Estado, de romance. Faltavam vinte e um dias para vencer a inscrição, eu pedi demissão para escrever um romance chamado “Pobres, porém perversos”. Eu escrevi que nem o Snoopy naquele livrinho assim, e não gostei. Com dezenove dias eu entreguei, e entre os cento e noventa candidatos fiquei entre os dez finalistas pelo menos. Também publiquei só uns três ou quatro anos depois. Nisso, a Erundina tinha ganhado a eleição, um rapaz precisava de alguém que fizesse cartilhas para movimentos populares, fui fazer algumas lá. Trabalhei na Cohab também, no fim o PT fundou um jornal chamado “Brasil Agora”, acho que em 1992, por aí, eu fui participar dele. Na verdade, o primeiro diretor foi o Rui Falcão, depois foi o Valter Pomar. Na verdade, quem fechava o jornal era o Raimundo Pereira, que era do PC do B, eu, a Adélia, uma estagiária que era do PT. De vez em quando, o Antônio Martins, do PC do B; Flávio Aguiar, que era do PT também. Mas aí, entrou um diretor lá que não pagava as pessoas, os colaboradores. Pô, eu ganhava menos que minha despesa fixa, eu trabalhava lá o dia inteiro e ainda tinha que fazer freelance para completar, porque eu trabalhava ideologicamente mesmo. Finalmente, perdi a paciência. E juntou outra coisa: o Lula fez aquela campanha, em 1994 o PT começou a aceitar dinheiro de banqueiro, empreiteira, foi quando eu fiquei puto e saí do PT também, final de 1994. Votei até no PT, mas não tinha mais compromisso com o partido. Nessa fase, quando eu saí, tinha feito um concurso, quatro anos antes, para o Tribunal Regional Eleitoral. Cheguei em casa e tinha uma carta do TRE para mim, quando eu tinha saído: “O que é isso aqui? Votei nas eleições...”. Não, era lá me chamando para trabalhar no cartório eleitoral. “Pô, vou lá”. Só que quando eu fiz o concurso, o salário dava mil e poucos dólares da época, meio-dia de serviço. Mas, nesse período, tinha entrado o Governo Itamar e o Fernando Henrique já tinha sido ministro e achatou o salário de todo mundo. Quando eu fui assumir o trabalho, era equivalente a seiscentos dólares e trabalhava de meio-dia às sete da noite. Minha despesa fixa era de novecentos por mês, e não dava para pegar freelance porque se você chegar numa revista ou jornal de manhã não tem ninguém; se chegar depois das sete da noite, era horário de fechamento e não dava. Então, fiquei um pouco, vi que não tinha futuro, pedi demissão. Fui trabalhar no DCI, era outra canoa furada, ele não pagava as pessoas, tudo. Aí apareceu um emprego em Brasília. Já tinha aparecido outras vezes emprego para trabalhar em Brasília e eu não ia porque tinha pavor de Brasília. Mas aí, eu pensei: “Vou eliminar todos os meus preconceitos, vou para lá de coração aberto, mente aberta, para encarar a cidade numa boa”. E foi legal. Fui ser editor do Jornal do SBT, em Brasília. E fiquei lá e foi um lugar bom para morar, conheci muita coisa, tudo, deu pra fazer um trabalho legal. Era um jornal que tinha antes do Jô 11 e meia, no SBT. Tinha metade do jornal antes do Jô, e a outra metade depois. Então, trabalhava lá das quatro da tarde às onze e pouco. Mas aí, eu tinha levado a Célia. A Célia trabalhava no Senai ainda, ela tinha pedido licença não remunerada. E lá ela falou: “Preciso reassumir o trabalho, eu vou para lá”. E ela tinha uma irmã que tinha uns problemas psíquicos aqui, que de vez em quando ela entrava em crise, e ela ia ter que encarar a irmã sozinha aqui. Eu falei: “Pô, não dá”. Pedi demissão lá e vim para cá também. E viemos para cá para ela não perder o emprego e cuidar da irmã. Passaram-se alguns meses, demitiram ela do emprego e a irmã morreu. Aliás, esse ano de 1997 foi uma porcaria. A irmã dela morreu no dia do aniversário dela e a minha mãe morreu no dia do meu aniversário. Então... aí eu vim trabalhar na Revista Querida. Você imagina, um cara barbado e tudo, ser um dos editores da Revista Querida (risos). Era muito divertido porque era revista feminina, de onze a catorze, quinze anos. Então, os assuntos na revista eram assim: “meu primeiro beijo”, “minha primeira menstruação”, essas coisas assim. Eu tinha que gritar Shazam e virar uma menininha lá para fazer essas coisas (risos). Mas era muito fácil de fechar, então, eu aproveitei para escrever uns livros lá e tudo, era muito fácil, revista quinzenal. Fiquei lá, até que no final de 1998, resolveram fechar a revista. Fecharam várias revistas da Editora Globo. E aí, eu saí, uma amiga minha, Marília Andrade, tinha aberto o Centro Cultural Elenco, o KVA e tudo, pediu para fazer um jornalzinho para ela. Eu fiquei quebrando o galho com isso enquanto fazia uns freelance, fui até como técnico de som, meio surdo e tudo (risos), mas um amigo que estava fazendo um filme sobre educação para passar na TV Educativa, a Abrinq, estava financiando. Então, fomos fazer um filme lá com os índios Fulni-ô, lá em Pernambuco, que é uma tribo que ainda fala a língua própria deles. Fazia sobre técnicas de sobrevivência da agricultura nordestina, no Raso da Catarina, na Bahia, e voltei e comecei a trabalhar na Record. Um amigo meu, que tinha ido para lá, me chamou para ir trabalhar. E eu fui. Mas eu brigava demais lá. A minha função lá era coordenador de rede. Eu tinha que falar para o Brasil inteiro, saber o que estava acontecendo para encomendar matéria. Eu queria pôr umas matérias boas, mas o pessoal só queria saber de sangue. “Pô, gente, é muito ruim. Você está jantando lá, aí, começou a ter essas matérias, não precisa disso”. “Em vez do Datena ficar esbravejando uma hora e meia em cima de uma matéria, se quiser pôr isso, ponha, mas ponha outras matérias boas também”. Mas não dava, não dava. Eu fui ficando angustiado, mas teve um lado altamente positivo para mim, porque eu saía de lá às três horas da tarde, eu saía de lá tão angustiado, que eu precisava fazer qualquer coisa de humor para baixar a minha bola. Eu trabalhei lá por quatro anos, escrevi onze livros. De humor, de outras coisas, tudo. E no final, um dia, eu não estava aguentando mais, colocando as matérias de sangue até de manhã no Jornal Fala Brasil, e pedi para eles me mandarem embora. O cara me mandou e eu fui trabalhar no governo da Izalene, que era vice-prefeita do Toninho do PT, em Campinas. E o pessoal lá era da esquerda, do PT, e me chamou lá na Secretaria da Cultura para fazer uma assessoria, uma revista, essas coisas. Eu fiquei de outubro de 2003 até final de 2004, quando terminou o mandato dela. Nesse ano de 2003 eu fundei com uns amigos a Sociedade dos Observadores de Saci, de São Luiz do Paraitinga, para combater o Halloween mesmo, e para ter uma instituição de defesa da cultura brasileira. Então, a gente milita muito. A minha principal militância ficou na Sociedade dos Observadores de Saci. Eu achei muito interessante quando a gente fundou, porque a gente abriu uma página na Internet para as pessoas se filiarem, perguntando: “Por que você quer se filiar?”. Uma grande parte das pessoas estava decepcionada com partido político, mas não queria largar da militância de esquerda. Então, encontrou na cultura popular um jeito de continuar militando. E eu vi que isso não acontece só no Brasil. Na América Central, por exemplo, tem um monte de gente da área da cultura que vem de esquerda e não aguenta mais o partido. Então, eu fiquei. Em 2005 eu consegui me aposentar e fico fazendo freelancer, de vez em quando acho que... teve uma fase em que eu pensava: “Esse mês não vai dar” (risos). A Célia também desempregada, eu com salário de aposentadoria, não dava. Mas aí, sempre me virei e agora está tudo numa boa.

 

P/1 – Você falou de uma série de coisas, vários empregos, várias passagens, que acho que não daria para aprofundar todos agora porque seria bem interessante fazer isso de uma maneira mais calma. Mas fiquei pensando mais, em algum desses lugares onde você começa a escrever esse livro. Você falou: “dar uma paradinha aqui, escrevo um livro”. Uma paradinha ali, os 'causos' que saem de madrugada, tal. O que é para você essa coisa dos livros?

 

R – Bom, esse primeiro foi uma sensação de alívio por ter saído da Assembléia Legislativa, em 1983. O “Pobres, porém perversos” já foi em 1989, por aí, que eu pedi demissão da Gazeta de Pinheiros para fazer esse romance. Mas a ideia que eu vinha é que eu fazia muita matéria, a gente idealiza muito o pobre. E eu vi muito pobre cometendo cada coisa... por exemplo, para mim, crime hediondo é o cara matar a vizinha para roubar a marmita, o botijão de gás, isso é crime hediondo. Eu fui ficando indignado, não que o pobre seja perverso, é o contrário. “Pobres, porém perversos” que dizer: a maioria dos pobres são legais, mas tem os filhos da mãe também. Isso também não significa que eu seja a favor dos ricos. Só que na hora de eu escrever esse romance, acabou virando uma experiência que eu tive, porque nessa fase em que eu saí da cadeia do Presídio Tiradentes, um dos lugares em que eu morei foi numa república de operários. Era uma quitinete em que moravam nove pessoas. Eu fui para lá, não tinha dinheiro para comprar colchão, porque o dinheiro que estava entrando eu tinha que comprar roupa para trabalhar. Tinha um cara que trabalhava na Volks e chegava às três e meia da manhã, era tudo operário. E tinha outro que levantava às quatro e meia da manhã para trabalhar na Bombril. Então, eu dormia na cama desse cara da Volks até às três e meia; quando ele chegava, eu ia dar uma volta pelo centro de São Paulo, eu gostava muito de andar a pé pelo centro de São Paulo, de madrugada. Não tinha perigo nenhum. Quando você via alguém do outro lado, você pensava: “Alguém para conversar, que legal”. Aí, quatro e meia eu voltava e dormia na cama do outro até a hora de ir trabalhar. E dia de semana colocava um cobertor no chão e dormia ali. Era muito gozado. Porque tem tanto problema que você descarrega quando dorme... eu mesmo fui sonâmbulo, e lá tinha um sonâmbulo também, então, era muito divertido da gente ver. A gente falava para ele que ele era sonâmbulo, ele não acreditava, ele só acreditou no dia em que ele acordou no meio de uma noite de chuva, a gente já estava dormindo, ele acordou no elevador só de cueca, com as mulheres dando guarda-chuvada nele (risos). E ele só obedecia a um cara, o Napoleão. Eu falava tudo para ele, e ele obedecia. Às vezes falava: “Joaquim! Para com isso aí”, e ele nem dava bola. Aí tinha que acordar o Napoleão: “Napoleão, o Jóia está dormindo e está aprontando aí. Precisa falar com ele”. Eu lembro uma vez que estava lá o Jóia cacarejando no banheiro e eu falei: “Ô Napoleão, o Jóia acordou e está lá no banheiro fazendo um barulho esquisito”. Ele gritou: “Ô Jóia!” .“O que foi Napoleão?” .“O que você está fazendo aí?” .“Ah, engoli um sabonete”. Ele não tinha engolido nada, sonhou que tinha engolido um sabonete. O Napoleão falou para ele: “Então, escova os dentes e vem dormir”. Ele escovou os dentes, deitou de novo e dormiu. No dia seguinte não acreditava que tinha sido verdade isso. E gente que fala à noite, gente que reclama. Tinha um cara que era bancário, que ganhava menos que os operários, mas naquela época era obrigado a trabalhar de gravata. Ele tinha uma tendência meio depressiva, então, a única janela que tinha lá, ele amarrava com arame antes de dormir e falava: “Gente, se alguém me ver abrindo a janela de madrugada me segura que é para pular”. (risos). O livro acabou sendo muito inspirado nisso e não na ideia inicial, mas ficou um romance que pega um pouco essa visão da época da ditadura, e tudo... jovem vivendo em São Paulo nessa época. Eu pensei que fosse parar por aí, mas nessa fase em que eu estava morando em Brasília, governo Fernando Henrique, eu fiquei muito indignado porque um cara que veio da universidade pública começou a perseguir a universidade de um tanto, como é que pode? Parece que quer destruir a universidade pública. Aí, eu escrevi uma coisa, que depois foi até publicado com outro título, mas eu pensei assim: “Dicas para levar pau no vestibular”. Porque os professores de nível universitário viraram uma porcaria, profissão boa para homem é ser jogador de futebol ou cantor de pagode. Para mulher é chacoalhar a bunda num grupo musical qualquer, então, deixa a bunda crescer e chacoalha. Agora, se você falar para o seu pai que não quer entrar na faculdade, ele vai ficar triste. Faz o seguinte: faz o vestibular, mas não passa. Então, escrevi um texto:  “Dicas para levar pau no vestibular”, só com coisa errada. Se perguntar isso, responde aquilo. Mas aí, a editora não quis publicar com esse nome: “Inventa outro nome”. Então: “Pequena enciclopédia sanitária (para ler no banheiro)”. E saiu publicado com esse nome. Aí, no lançamento desse livro já foi 1997, por aí, já demorou bastante. No dia do lançamento teve uma chuva que deu um engarrafamento de duzentos e poucos quilômetros. Foi lançamento no Sesc Pompéia. Aí, todo mundo chegava me xingando e eu falei: “Pô, devia fazer um livrinho igual a esse, mas com um verbete menor”. Escrevi: “Pequeno dicionário de abobrinha”. Depois eu encontrei com um amigo de Belo Horizonte, esse que tinha sido condenado a duas prisões perpétuas mais sessenta e nove anos de cadeia, pelo sequestro dos embaixadores e outras coisas, ele tinha saído da cadeia com oito anos e sete meses e estava morando em Belo Horizonte. Nessa época eu fazia muita palestra aqui em São Paulo, porque esses presos políticos são imbecis, como é que assalta banco e dá dinheiro para a organização e não fica com nada, não sei o quê... arrisca a vida por causa de um ideal. Eu fazia muitos debates em escolas daqui. E o Zé Roberto Resende, meu conterrâneo, fazia isso em Belo Horizonte. E lá o pessoal tentava convencer ele a escrever um livro sobre isso, não para contar fatos sobre ele, mas para mostrar para os jovens o que acontecia. Porque um jovem daquela época arriscava a vida, chegava a ser preso e torturado como ele foi, muito, ou morrer, por causa de um ideal. Eu acabei convencendo ele a fazer e ele falou: “Eu só escrevo se você fizer junto comigo”. Aí, comecei a ir para Belo Horizonte de vez em quando para escrever com ele. Quando o livro estava para entrar na gráfica, ele morreu. O livro se chama Ousar Lutar, é um livro que foi uma pena. Fora o lado emocional, mas, politicamente, a gente tinha um projeto de fazer um grande trabalho com isso, mas com a morte dele eu fiquei assim… eu fiquei muito desiludido com esse negócio e não queria mais saber de escrever. Mas eu gostava muito de ler livros do Conan Doyle, do Sherlock Holmes, e tudo. E as pessoas me falavam da Agatha Christie. Um dia eu fui ler um livro da Agatha Christie e achei um horror; li outro e achei um horror. Falei: “Pô, não tem graça, ela põe umas pessoas que não têm nada a ver, que aparecem para solucionar os crimes. Isso eu escrevo também”. Aí, pensei: “Vou fazer um conto desses”. Escrevi um, achei divertido, mas de humor. Na linha da Agatha Christie, mas de humor, misturando Sherlock com Agatha Christie, mas com humor, com detetive que só pode ser americanófilo, detetive particular no Brasil, um cara paulista, mas metido a norte-americano, com um ajudante pernambucano desempregado, daqueles bem mirradinho. E com uma agência aqui na Baixada do Glicério, no sexto andar, com o elevador que não funciona e tal. O ajudante só queria saber de cantar a prima dele, tal, essas coisas. Aí, eu achei divertido escrever esse primeiro conto, escrevi mais quatro, publiquei um livro, com o pseudônimo de Saphira Mind. Isso porque na Revista Querida me pediram para fazer horóscopo: a primeira reação que eu tive foi de xingar. “Horóscopo, não foi fazer essa porcaria, não”. Falei: “Não, eu faço sim, mas vou fazer horóscopo numa outra linha, cobrando das meninas, ferrando”. ‘Namoradinho vai trabalhar, não sei o quê, o que você está fazendo aí? Você está achando que porque é bonitinha vai ter alguém para te sustentar a vida inteira?”. O horóscopo era nessa linha. Falaram: “Só que tem que ser um pseudônimo feminino”. Aí, uma repórter falou assim: “Por que você não coloca Safira? É tão bonito o nome Safira”. “Boa idéia, vou pôr Saphira, com ph, porque Safira em Minas é sinônimo de masturbação”. E o sobrenome? Tem que ser um nome em inglês, para valorizar: Mind. Saphira Mind. Eu publicava horóscopo com o nome de Saphira Mind. E recebia carta de leitora, tudo. Quando fui publicar esse livro, eu não queria publicar com o meu nome, porque com o meu nome não vende, já tinha publicado meus livros e não vende nada. Aí, a dona da editora falou: “Mas como é que você quer pôr então?”. “Põe aí um nome qualquer e fala que eu psicografei (risos).”. Ela falou: “Minha editora é de livro marxista, Boitempo, como é que eu vou pôr isso? Não, não tem esse negócio de psicografar, não”. “Fala que eu traduzi do esloveno, e inventei que a Saphira Mind era eslovena, inventei uma história dela lá, e tal”. E escrevi mais sete depois desse - oito livros da Saphira Mind. Porque ficou divertido escrever a cada coisa que eu via e pegava também os acontecimentos. Por exemplo, quando teve o caso da privatização da Vale do Rio Doce, quer dizer, já tinha sido privatizada, mas eu fiz uma história ambientada naquela época, aproveitando para discutir a questão mas na base do humor, da corrupção, da privatização, todas essas coisas. O momento político... sempre punha uma história secundária e um momento político. Eu publiquei três livros desses, os outros cinco estão na gaveta ainda. Eu gostaria de publicar como livro de bolso, para vender em banca porque tem um apelo bem bom para isso. Todo mundo que leu gosta, mas são poucas as pessoas que leram. E continuei escrevendo... outra coisa… o Saci. O primeiro livro que eu escrevi do Saci foi porque o pessoal da Secretaria da Cultura e da Secretaria da Educação - tanto do município como do estado de São Paulo - uma época eles levaram... numa audiência pública do Ministério Público Federal em que eles comemoravam o dia do Halloween aqui, porque os professores não sabiam da história do Saci. Ai, eu resolvi escrever um livro com historinhas do Saci. Pesquisamos bastante coisa, juntamos histórias, a linguagem caipira em tudo, e fui publicando. Outra coisa... tem uma editora, Expressão Popular, que é ligada ao MST e outros movimentos populares, que eles têm uma coleção sobre pessoas que deveriam fazer parte da História do Brasil mas não fazem, então, pediram e eu escrevi um sobre o Luís Gama, que foi um grande libertador de escravos, e outro sobre o Barão de Itararé. O que mais eu publiquei? Os romances... um sobre tropeiros, que um amigo meu, que trabalhou comigo no Sesc, era formado em Cinema e sonhava fazer um filme sobre tropeiros. Porque a gente pensou assim: “Pô, é um personagem tão importante da História do Brasil e não tem nada sobre ele”. O cangaço, por exemplo, tem um super ciclo sobre cinema de cangaço, e é muito menos importante. O problema é que o tropeiro não tem um personagem como o Lampião, fica um pouco mais difícil por isso, você tem que ter um personagem. Mas assim mesmo, ele achava... se tivesse um filme sobre tropeiro, como teve do cangaceiro, primeiro filme, sairia logo um ciclo sobre isso. Eu falei para ele: “Pô, eu tenho vontade de escrever um sobre o tropeiro também, baseado nas coisas que eu ouvia deles no salão de barbeiro do meu pai”. Pensamos em juntar as duas coisas.

 

R – Estava falando do livro sobre os tropeiros, não é? Só que o Fernando ficou de fazer o filme junto, isso foi no tempo da Feira da Cultura Popular, que a gente conversava muito, viajava muito junto, pesquisando... em 1986. E até o ano 2000 ele nunca estava disponível, e eu falei: “Fernando, vou desistir e vou escrever um livro sobre isso. Vou aproveitar que eu tenho a ideia de fazer um livro também de humor sobre a Revolução de 1932, essa fase coincide com a decadência do tropeirismo na minha região, e a fase em que os tropeiros velhos faziam referência eram a crise de 1929, Revolução de 1930, 1932, então, vou escrever um livro sobre essa época”. Nessa fase em que eu estava trabalhando lá na Record, aproveitei para pesquisar bastante, juntei com as coisas que eu já sabia, os 'causos' que eu tinha na cabeça, e publiquei um romance chamado: “O tropeiro que não era aranha nem caranguejo”. E depois, na mesma época também, eu tinha vontade de contar como é que foi a fase do fim da ditadura, visto da Vila Madalena - nesta fase em que eu morava na república. Escrevi um livro que quem conta a história é a casa em que eu morava, a república, é a João do Rio, 45. É um romance também. A fundação do PT, a legalização do PC, a Vila Madalena atingindo o auge... porque antes a Vila Madalena era um bairro de pobre, de trabalhadores da construção civil, de portugueses. E aí, eu escrevi o tropeiro e aproveitei depois os momentos. Sai de uma vez. Depois de pesquisar muito, eu escrevi e ficou na gaveta. O João do Rio, 45 também ficou na gaveta, mas esse foi uma catarse para mim. Eu queria escrever, era um processo catártico mesmo, rapidamente escrevi. Mas ficaram na gaveta, até que em 2007 uma editora insistiu comigo para eu me inscrever num prêmio do governo do estado e escrevi “O Tropeiro”. Ganhou, foi publicado. No ano seguinte eu inscrevi o João do Rio, 45; ganhou também, publicou também. Aí, 2009 para 2010 eu escrevi um livro de 'causos', “Esse trem doido”, que é um sonho que eu tinha quando era criança, eu viajava. Eu não fui ser geógrafo à toa, não podia ver mapa que era tarado por mapa. Mas não tinha mapa em casa, só tinha na escola. O único lugar que tinha mapa fora da escola era na Coletoria Federal. Coletoria é como Receita Federal, existia em cidade pequena. Tinha um mapa de Minas Gerais, eu ia lá, ficava namorando aquele mapa e tal. E pensava: “Eu ainda vou conhecer todos os estados do Brasil”. E pensava nisso. Depois, mais tarde, quando já estava com um pouquinho de consciência política, menos Fernando de Noronha porque era um território governado por militares e era presídio, aquelas coisas. “Para Fernando de Noronha não quero ir, não”. Mas acabei indo até para Fernando de Noronha, conheci todos os estados brasileiros. E esse livro, esse Trem Doido, eu fiz questão de colocar pelo menos um 'causo' passado em cada lugar desses que eu fui. E saiu... também inscrevi nesse prêmio do Estado, do ProAc, e ganhei também. E nisso também tinha um japonês, que era especialista em Lei Rouanet. A Lei Rouanet é uma coisa que eu acho que precisava dar uma mexida nela, não é? Mas ele era especialista em captação de recursos, pediu para fazer um kit sobre saci, eu fiz. Depois outro kit sobre a questão da água, para criança também. E vai indo assim. De freelancer traduzo alguns livros para a Editora Boitempo.

 

P/1 – Traduz em que língua?

 

R – Espanhol. Traduzi umas peças de teatro também. Uma delas ficou mais de três meses em cartaz, com 100% de lotação no TBC, só que naquela salinha de quarenta lugares (risos). Estratégia! A Folha põe: “O Frio e o Quente, de Pat O’Donnell, lotação do teatro: 100% de lotação”. Quarenta ou sessenta lugares. Na Boitempo eu traduzi uma boa parte da Enciclopédia da América Latina, que é um livro dessa grossura. Ela pediu que intelectuais de cada país escrevessem sobre seu próprio país. Eu traduzi de vários deles. Traduzi também um livro de um sociólogo mexicano; traduzi do Garcia Linera, vice-presidente da Bolívia, um outro livro. É interessante isso porque o Espanhol... você pega da América Latina, como tem milhares de palavras em Tupi, em cada país desses também tem palavras dos indígenas locais, tem que aprender muito. No caso da Bolívia então, o Quíchua, o Aymara, e o dialeto mineiro, das minas de estanho ali, que tinham dialeto próprio. Então, para traduzir isso tive que rebolar.

 

P/1 – A sua aproximação com a Boitempo, além de ideológica é por conta de alguma amizade?

 

R – Eu conhecia a Ivana, a dona da Boitempo, no tempo que eu estava no Brasil Agora, aquele jornal do PT. Naquele época existia o PCB, ela é filha de um comunista histórico do Pará, o Raimundo Jinkings. Então, quando eu estava lá pediram para eu fazer uma matéria, ia ter um encontro do PCB no teatro da Rua Rui Barbosa... como é que chama aquele teatro? Não lembro. Que estava já para o Roberto Freire dar o golpe no PCB e mudar o nome do partido. Então, quando eu fui fazer a matéria lá, realmente o Roberto Freire deu um golpe, acabou o PCB e ele fundou o PPS. E a Ivana era do PCB e era contra o fim do partido. Ela era uma moça bonita, tal, eu fiquei empolgado, tentei entrevistar ela para o jornal e tudo. Ela era jornalista também e eu convidei ela para colaborar no Brasil Agora, ela foi colaborar lá também, nós ficamos amigos e depois ela foi trabalhar lá na editora Escrita, que é do Breno Altman, trambiqueiro. Continuei tendo contato com ela e depois, muito a contragosto, ela foi trabalhar na Revista Contigo, que é uma revista de fofoca. E foi quando eu saí também do jornal Brasil Agora. Você vê, tenho tanto trabalho na vida que não sei. Ela falou: “Tem um cara saindo de férias agora da Contigo, se você quiser cobrir férias”. Ela me falou assim, meio tímida. Eu falei: “Olha, eu estou na pindaíba mesmo, eu vou lá. E além disso, lá tem que trabalhar com computador”... eu nunca tinha trabalhado com computador... “eu tenho que aprender a mexer com isso”. Eu passei um mês naquilo lá, depois chamaram para eu continuar, eu falei: “Não, chega. Minha cota aqui esgotou”. Eu ganhei um dinheirinho lá e recebi de um outro trabalho que eu tinha feito freelance para um amigo numa empresa. Peguei a grana, fui para o Chile com a Célia, passear lá, conhecer a casa da Gabriela Mistral, do Neruda, passear e tomar vinho, comer muito peixe. Aí, eu sempre tive isso, todo dinheiro que sobrou eu fico tentado a viajar. Por exemplo, quando eu saí do Guia Rural Abril, que fui fazer o outro troço lá, tinha um dinheirinho, peguei o dinheirinho que sobrou, fui para Portugal com a Célia, passar um mês lá. Queria conhecer lá. Voltei duro. Aí, apareceu um trabalho para fazer em Fernando de Noronha, era para ficar morando lá como coordenador de pesquisa na área de meio ambiente. Lá tinha um projeto chamado “Instituto de Recuperação do Arquipélago de Fernando de Noronha”. Quando eles punham um biólogo para coordenar os trabalhos, por exemplo, tinha os pesquisadores de tartaruga, eles queriam concentrar só nas tartarugas. Tinha outra pesquisa de não sei o quê, concentrava tudo naquilo. Aí, o cara falou: “Vamos pegar um geógrafo, que tem uma visão ampla e não é especialista em nada”. Então, me chamaram. Depois de vinte dias que eu estava lá, vieram com uma coisa: “Olha, precisa demitir tantas pessoas” .“Uai, o que eu tenho com isso?” .“Você que é o diretor aqui” .“Não, sou Diretor de Pesquisa, vim aqui para coordenar pesquisa. Esse negócio de relação de trabalho, eu não demito ninguém; por princípio eu sou contra demitir gente, a não ser que seja um filho da mãe, e eu não estou vendo ninguém assim aqui. Vocês contrataram um monte de gente que não precisava, quer que eu chegue lá agora? O que eles vão fazer? Em Fernando de Noronha não existe trabalho” .“Não, é a tua função” .“Ah, é?”. Peguei uma carona no avião da FAB e vim embora. Pronto. Mas é isso, todo dinheiro que entra... para Cuba também, fui para Cuba duas vezes. Para o Uruguai fui duas vezes, tinha muito amigo Tupamaro. Aliás, a primeira vez que eu fui para Cuba, foi em 1985, o Brasil não tinha relações com Cuba ainda; para ir para lá tinha que ir por Peru, Panamá... o passaporte não poderia ser carimbado porque não tinha relações. Nessa época, na América Latina, só o México tinha relações com Cuba. Mas Cuba tinha relação com os movimentos de libertação, grupos de esquerda. Então, tinha lá o Embaixador dos Tupamaros. E o pessoal Tupamaro, que vinha exilado da Suécia, vinha se encontrar com o pessoal que era clandestino no Uruguai aqui em São Paulo... eles ficavam tudo na minha casa. Eu só avisei para eles: “Eu estou indo para Cuba”. Eu nem sabia que tinha embaixador dos Tupamaros lá. Eu cheguei lá, tinha o embaixador dos Tupamaros me esperando. Falei: “Legal”. Ele me mostrou tudo lá.

 

P/1 – Só para entender: eu tinha várias perguntas, mas para aprofundar agora vai ser mais difícil, você contou uma trajetória ideológica super grande. Qual o seu sonho agora, pensando tanto ideologicamente, mas em sua vida pessoal; enfim, tentando englobar um pouco esse todo.

 

R – Sabe que eu não tenho muito sonho pessoal, não? Aquele sonho do socialismo tal, eu nunca acreditei no socialismo soviético. Aliás, eu vejo... aquele pessoal que achava que a União Soviética era o paraíso na terra, a gente criticava: “Eu não quero socialismo daquele jeito no Brasil”. Hoje eles viraram tudo de direita e fingem que foram sempre críticos; e eu sou defensor daquilo lá. Isso está difícil. O sonho anarquista que eu tenho é uma coisa, a tecnologia deveria existir para suprir a gente, para lhe dar condições de você viver livre, fazendo o que você gosta, mas tendo de fazer, não simplesmente ficar solto no mundo, sem ter o que fazer. Isso é uma coisa. Agora, eu gostaria de publicar meus livros em forma de livro de bolso, alguns livros, publicar todos. Gostaria também de ver o Saci ser mascote da Copa de 2014, mas com uma seleção legal. Uma copa toda feita com corrupção, a seleção estilo Dunga, eu prefiro que o Saci não seja. Mas eu gostaria que o Saci fosse, porque primeiro seria divulgação da cultura brasileira no mundo, e dentro do próprio Brasil. A gente escolheu o Saci para ser o nosso personagem central da nossa instituição por vários motivos. Um deles é que ele é o mito mais conhecido no Brasil; outra coisa é que ele é síntese... na origem era índio, virou negro, depois ganhou o gorrinho mágico do brancos, então, é a síntese dos brasileiros. Ele é preto, perneta, quer dizer, podia ser vítima de preconceito de todo tipo, mas é alegre e brincalhão. É protetor das florestas e tudo o mais.

 

P/1 – Fuma.

 

R – Fuma e tudo! E quando alguém critica eu falo: “E ele bebe também, gosta de uma cachaça”. Quando é criança que fala, eu brinco assim: “Não, esse negócio de fumar faz mal para gente, mas Saci não é gente, ele é outra coisa. Faz mais de  duzentos anos que ele fuma, não faz mal nenhum para ele”. Agora, quando é adulto, eu já falo: “Escuta, se vão pegar a mitologia grega, o Zeus tinha um monte de amante e mandava matar os maridos delas. O Júpiter também, na mitologia romana, era igual ao Zeus. O Édipo comia com a mãe, a Eletra, dava para o pai. O Baco fazia aqueles bacanais, Dionísio fazia as festas dionisíacas. O Thor, da mitologia nórdica, a diversão dele é arrebentar a cabeça dos outros a martelada. E ele tinha uma predileção, segundo os escandinavos, por arrebentar cabeça de cristão. E você vem me encher o saco porque o Saci fuma? Vá a merda!” (risos). Não tem nada. Eu fumava e parei de fumar. Parei porque perdi a vontade.

 

P/1 – Nada contra.

 

R – Nada contra.

 

P/1 – Antes de acabar, eu gostaria de fazer um convite para a gente retomar essa conversa, vou ler com calma o que foi escrito, falado, porque tudo isso vai ser transcrito. Ler, relembrar outras histórias, aprofundar também aquelas histórias dentro desse vôo que você deu sobre os empregos. Porque eu acho que tem muita coisa para contar e a gente não vai conseguir fazer isso agora. Mas acho que vai valer a pena continuar. É um convite meu, eu falo pelo Museu, para a gente continuar essa conversa daqui a algumas semanas, não sei. Vamos conversar.

 

R – Ah, legal. Para detalhar, eu tenho muitas coisas dos trabalhos. Eu fiz as contas, passei por quase trinta trabalhos desse tipo, contando jornalismo como um só, desde assessoria de imprensa, repórter, tudo como um só. E tem carteira de trabalho... eu enchi três, mas trabalhei a maior parte do tempo como autônomo, senão teriam sido umas oito ou nove. Eu só trabalhei muito tempo no Sesc, cinco anos, quando eu fui demitido lá por motivo político. Depois quatro anos na Record. O resto, dos meus sete aos cinquenta e poucos anos de trabalho foi pipocando de um lado para o outro.

 

P/1 – De qualquer maneira, eu acho que a gente poderia continuar. E para fechar  hoje, queria que você falasse o que achou em contar um pouco da sua história aqui.

 

R – É legal, eu acho que é legal porque mexe um pouco para a gente se lembrar das coisas. É claro que eu pensava muita coisa, lembrar de história de família, e tudo, que isso é uma outra coisa também, porque dez irmãos... cada um tem um monte de histórias junto, e as profissões, os trabalhos, as diversões. Eu falei mais dos trabalhos, mas tem tanta coisa mais divertida que trabalhar (risos), fiquei falando de trabalho o tempo todo. E a zorra que tem, aquela coisa que foi viver 1968, a questão dos contatos com o pessoal de esquerda também, das viagens. Viagem porque eu gostava muito de viajar, tanto de carona, de tudo, de vapor, de trem. Eu gostava muito de trem, sempre tive uma fascinação por trem. E aproveitei enquanto o Brasil tinha trem, qualquer chance que eu tinha eu viajava. Eu já saí daqui uma vez com destino a Buenos Aires, de trem. Eu falei: “Só vou pegar um ônibus de Pinheiros até a Estação Sorocabana”. Depois de uma semana eu cheguei a Uruguaiana de trem, pediram os documentos lá e tive que voltar. De Fortaleza ao Crato, de Belo Horizonte a Salvador, para a Bolívia, essas coisas todas. Mas é bom, eu gostei, achei legal lembrar. Só espero não ficar lembrando de trabalho na próxima (risos).

 

P/1 – Não! A gente vai para outros capítulos (risos). Obrigado! Valeu mesmo.

 

R – Eu que agradeço a você. Não sei se fui chato demais...

 

P/1 – Nossa, não, pelo contrário! Está tão legal que eu quero que continue (risos).

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