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História

Resistência LGBT no Bixiga

História de: Iran Giusti
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/07/2021

Sinopse

Infância na Freguesia do Ó. Vivência, homofobia e problemas pessoais no período escolar. Cinefilia, teatro e esporte. Grupo de escoteiros. Faculdade de Relações Públicas, se assumindo para a família e início de conflitos. Primeiro namorado, mudança para o Bixiga e diagnóstico psicológico. Trabalho na Secretaria de Meio Ambiente e entendimento das políticas públicas. Experiência inesquecível na Bienal de Artes. O Tumblr "criança viada" e o trabalho como jornalista. Idealização e criação da Casa 1. Crescimento da Casa e a relação com a região. Expansão das atividades e criação do centro cultural. Incorporando o Acervo Pajubá.

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História completa

P/1 – Boa tarde, Iran!

R – Boa tarde!

P/1 – A gente vai começar a nossa entrevista com uma pergunta simples, bem básica: o seu nome completo, o local e sua data de nascimento.

R – Meu nome é Iran de Jesus Giusti. Eu nasci na cidade de São Paulo, no dia seis de fevereiro de 1989.

P/1 – Qual o nome de seus pais?

R – Minha mãe se chama Maria de Fátima de Jesus Giusti e o meu pai se chama José Giusti.

P/1 – E qual era a atividade dos seus pais?

R – Minha mãe é formada em Educação Física, mas trabalhou a vida inteira como secretária executiva, e meu pai era técnico em manutenção em balança. Eram os dois, porque são aposentados.

P/1 – E vamos começar a conversar um pouco a respeito da sua infância: como era a casa onde você passou sua infância? Você se lembra dos costumes da sua família?

R – Eu nasci no bairro da Freguesia do Ó (bairro de São Paulo), num BNH. A gente chamava de BNH, na época, e depois de grande eu descobri que era o Banco Nacional de Desenvolvimento da Habitação, né? (risos) E eu achava que era um nome de um bairro, de um condomínio, mas, na verdade, era um programa nacional de habitação, né? É ali na Freguesia e eu morei ali até os oito anos de idade. Até então, morei... Eu morei, na verdade, um tempo [a] menos, mas passei a minha infância ali. Morei os primeiros anos da minha vida nessa casa, que é a casa que eu acho que tenho mais recordação, apesar de ter ficado só até os oito anos, que foi uma casa que morei com a minha família e a minha avó materna. Então, morávamos: eu; minha mãe; meu pai; minha irmã mais velha, Lídia; minha avó; e meu vô materno. E essa casa, eu lembro que primeiro ela tinha um quintal muito grande, uma coisa que eu me recordo muito, e tinha muito uma estrutura meio casa do interior, né? Esse BNH era um BNH de casas, porque tinha já a configuração dos prediozinhos, que era aquela coisa meio padrão. Nesse caso, não. Eram as casas que as pessoas foram fazendo, né? Então, eu lembro muito disso, dos álbuns de família terem as fotos do meu pai, minha mãe e minha avó construindo essa casa. Porque tinha isso também, na época, das pessoas construírem, efetivamente, (risos) a própria casa, né? E eu lembro que depois, com uns cinco, seis anos, a gente mudou: eu, meu pai, minha mãe e minha irmã, para um apartamento, também na Freguesia do Ó. E depois a gente passou por um... Foram dois prédios, né, que a gente morou e depois a gente foi para o Portal dos Bandeirantes, em Pirituba (bairro de São Paulo), que foi o condomínio que eu fiquei ali nos doze, treze anos, até sair da casa dos meus pais, aos 23. Mas essa casa de infância é o que eu mais me recordo, e todo processo, né, da casa, da rua, das casas dos vizinhos. Foi uma infância que foi muito interiorana, (risos), ainda que seja na cidade. Acho que tem um contexto de periferia e tinha o contexto de ser esse projeto urbano, dessas ruas meio fechadas, né? Não era um condomínio, mas era um terreno no alto, então você subia uma ladeirazona para chegar nesse conjunto de oito ruas, que formavam esse terreno do BNH. Então, era quase um condomínio fechado, sem ser. E aí eu lembro muito também que, depois, quando minha mãe vendeu essa casa, né... Minha avó faleceu quando eu tinha oito anos [e] essa casa ficou alugada mais uns cinco, seis anos. Eu lembro que eu retornei já pré-adolescente e achei muito louco, porque era pequena. Era uma casa pequena e na minha cabeça ela era uma casa gigantesca, né? Porque depois eu mudei para apartamento, que era uma coisa muito apertada e eu sempre falava: “Mãe, a gente precisa voltar a morar na casa, né? Porque é uma casa grande”, e aí depois eu notei que era essa casa pequenininha. E aí minha família sempre foi uma coisa muito complexa, minhas relações familiares sempre foram muito complexas, em especial pela nossa perspectiva social mesmo: a gente era uma família de classe C, classe média baixa que, como grande parte da população no governo Lula (Luiz Inácio Lula da Silva), ascendeu. A famigerada classe C ascendente, né, que era esse mito dessa classe C ascendente e muito baseada em pilares de protestantes. Ainda que seja uma família muito católica, tinha essa coisa muito do ‘trabalho dignifica o homem’ e trabalhar muito, para poder ter mais dinheiro. Então, meus pais sempre trabalharam muito. Desde muito pequeno, né, a minha avó cuidava da gente. Quando a minha avó faleceu, ficamos eu e minha irmã... Meu avô ficava junto com a gente, mas, na verdade, a gente cuidava dele, porque é um senhor mais velho, que não sabia fazer comida, né, como muitos homens mais velhos. E eu lembro com nove anos, chegando em casa e aí eu esquentava a comida ou fazia o almoço, para poder dar o almoço para ele, né, chegar e ter uma refeição pronta. Então, foi sempre muito… A gente tem uma relação boa hoje. Passamos por fases muito difíceis, mas é isso que eu me lembro. Foi uma infância muito sozinha, e depois eu fui entender um monte de questões de saúde mental e companhia, mas eu faço terapia há... Eu estou com 32. Há 24 anos eu faço terapia, porque vou desde criança. E eu tinha uma coisa também, de alguns transtornos compulsivos, então, eu não saía de casa sem estar com a roupa limpa, sem estar calçado o tênis, não entrava em elevador. Eu tinha um monte de pequenas manias e, por isso, fui para a terapia (risos), né, minha mãe me colocou na terapia. E tinha um ponto de que eu, ainda que tivesse alguns amigos e amigas, sempre tive um... Eu sempre preferi muito mais [fazer] coisas sozinho, né? Então, eu lembro de uma casa com Playmobil, sabe? Eu brincava muito de Playmobil, de Lego, de quebra-cabeça, brinquedos que se brinca sozinho. Então, às vezes, eu acho que foi uma infância muito triste; às vezes, eu acho que foi uma infância muito feliz; às vezes, eu lembro dos vinte e poucos anos de terapia e que não tem [isso de] (risos) muito feliz e muito triste: foi um pouquinho de cada coisa, né?

P/1 – Seus pais, a sua família, né, por parte de pai, por parte de mãe, incluindo os seus pais, são de São Paulo também ou vieram de outro lugar?

R – Minha família é... São duas grandes estruturas, né? A família da minha mãe é uma família muito pequena: minha avó veio de Minas Gerais, interior de Minas, junto com... Acho que foram nove, de nove irmãos. Minha bisa teve treze filhos, então a minha avó tinha doze irmãos; e aí veio uma quantidade para São Paulo e aqui minha avó se casou com o meu avô, que era português, veio de Portugal direto mesmo, não era segunda geração - primeira geração da família dele aqui - e teve a minha mãe, só minha mãe. Minha mãe é filha única. Então, né, tem uma família próxima ali, tem duas primas da minha mãe que eu considero tia, que são as filhas da gêmea da minha avó. Então, tinha essa configuração dessa... Essa é uma lembrança também que eu tenho muito da infância, que as pessoas chegavam e eu fala assim: “Como que a Dona Tereza está subindo a rua, se a Dona Tereza está aqui?”, porque era a irmã dela subindo. E aí, depois que ela faleceu, os vizinhos falavam: “Ai, Fátima, fala para tua tia não vir mais não, que as crianças estão apavoradas”. (risos) Porque a Eva tinha morrido e a irmã gêmea dela aparecia no bairro, às vezes, e as crianças ficavam se cagando de medo, achando que era a minha avó fantasma lá. E aí, essa parte da família da minha mãe tem mais um monte de “primaida” e tal, mas minha mãe nunca teve contato. E do lado da minha mãe também tem uma parte da família que eu não conheço, que é meu vô: veio para o Brasil sem... Casado com uma mulher e duas filhas, um filho e uma filha, acho, não sei direito. E aí ele largou a mulher lá em Portugal. A ideia era ele vir e trazê-la, mas ele se apaixonou pela minha avó e largou a mulher e esses dois filhos. Então, tem essa família portuguesa, que eu… A gente nunca conheceu e que também levou ao fato de [que] minha avó e meu avô nunca foram casados, né? Poligamia é crime. Não sei se ainda é, mas... Acho que ainda é, mas, na época era, (risos) não podia ser casado duas vezes e também não se registrava sem ser casado, né? Então, minha mãe não tem nome de pai na certidão de batismo. E a família do meu pai é uma família de já... Uma família de São Paulo, do Pari: minha avó era filha... Minha bisavó era espanhola por parte de mãe. Meus avós, tanto meu bisavô, quanto minha bisavó, por parte de vó paterna, eram espanhóis; e minha bisavó e meu bisavô por parte de pai, paterno, eram italianos. Então, se casaram, meu avô e minha avó tiveram uns sete filhos: o meu pai é o mais novo. Todos nasceram ali no Pari e aí a filha mais velha, que é a tia Tereza, foi para Pirituba e, consequentemente, a família foi seguindo. Então, dos sete filhos da minha vó Zefa e do meu vô Lídio, seis moram em Pirituba e na Freguesia do Ó, nesses bairros da zona oeste. Meio zona oeste, zona norte: nunca teve muito definido. Freguesia e Pirituba são duas áreas da cidade que a gente não tem muito definida. E meu pai nasceu no Pari, minha mãe nasceu na Freguesia do Ó. Minha mãe nasceu em Sumaré, na verdade, e aí eles se conheceram na Freguesia, onde eu passei a infância.

P/1 – Bom, em relação… Vamos pular um pouquinho, então, já para a parte da sua entrada na escola: você se lembra do primeiro dia que foi para a escola?

R – Eu não lembro do primeiro dia, mas tive muito problema. Gente, essa entrevista está muito mais complexa do que eu imaginava. (risos) Está quase uma terapia e falando de um monte de coisas que fazia muito tempo que eu não falava. E aí é o perigo de eu ser prolixo, hein! Por isso que eu estou falando: me cortem. Eu tive muita dificuldade na escola. Minha primeira escola foi Orlando Garcia, que era uma escola na Freguesia. Minha mãe... Minha irmã estudava lá já e amava. Alguma coisa aconteceu, até hoje eu não sei o que aconteceu, mas eu passei a odiar essa primeira escola que eu fui, o Orlando, no pré I. Na época, eu tinha... Antes do pré tinha o pré I, hoje é maternal. Enfim, não sei como é a configuração hoje, mas alguma coisa aconteceu que eu passei a odiar e, assim, sofri muito esse ano. Quem me levava para a escola era uma vizinha; eu tenho uma lembrança muito grande de gritar, chorar e sofrer muito nesse processo. Devia ter uns seis anos. Às vezes, eu tenho até um pouco de medo de saber se aconteceu efetivamente alguma coisa, do que aconteceu, mas a princípio não. Foi só, realmente, alguma coisa que eu entendi. E aí isso levou a minha mãe buscar, além da terapia, uma outra escola. Aí eu fui para uma outra configuração, essa escola era grande. O Orlando Garcia tinha do pré-primário até colegial, era um colégio com muita gente e tal. E aí minha mãe me mudou para o Pimpolho - chamava -, que era uma escola pequena, bem pequenininha, que tinha só educação básica, umas turmas super pequenininhas com quatro, cinco crianças, que eu acho que hoje é alguma coisa que era algo mais próximo de uma metodologia Waldorf. E ali, eu encontrei, amava essa escola. Eu tenho muitas lembranças. Ainda com sete anos, eu tenho lembranças de como era a configuração dessa sala de aula, como que era o parquinho atrás, o tipo de atividades que a gente fazia. Lembro, inclusive, da dificuldade que foi na minha casa, porque era uma escola mais cara e era essa coisa, né: muito material. Tinha muita atividade artística, muito material. Então, eu lembro... Tenho muitas lembranças daquele começo de ano, da minha mãe fazendo malabarismo, sabe, para conseguir pagar as coisas e herdar coisas da minha mãe e da minha irmã e dos meus primos. Então tinha muito esse processo. Mas aí foi foda. Foi maravilhoso: o Pimpolho foi tipo... Eu realmente amei e aí sofri muito quando acabou, né, porque aí não tinha uma primeira série para eu ir e aí foi o processo de busca de escolas. Eu ia muito à igreja. Na época, eu já ia muito com meus pais na igreja católica. Gostava muito, mas eu tinha um certo pavor da perspectiva de estudar num colégio religioso. Eu não sei como tinha essa consciência com sete anos de idade, (risos) mas eu lembro que fui, a gente foi visitar algumas escolas: o Gualberto, que era um colégio ali em Pirituba, era um colégio Dominicano, acho, bem fechado. Eu fiquei desesperado e: "Não, não, não, não, não". E aí eu fui para o Estrela Sírius. Hoje, pensando, eu gostava acho que do nome das escolas pelos nomes cafonas: Pimpolho, Estrela Sírius. E aí o Sírius foi tipo muito massa, eu amei, fiquei... Antes teve o Stella, eu passei pelo Stella Rodrigues, que era um colégio lá na Freguesia, que foi legal também. E aí, depois, eu fui escolher e fui para o Estrela Sírius. No Stella, eu gostei muito: tinha muitos amigos e foi um... Onde uma sociabilização realmente passou a surgir e, principalmente, uma sociabilização da sobrevivência. No Stella é onde eu começo ter os primeiros momentos de violência, aí eu já era tido como a bicha do colégio. Com oito, nove anos, eu já era muito afeminado, e aí eu lembro que, no Stella, o que me marcou muito, ainda que eu tivesse alguns amigos lá, foram esses primeiros momentos de violência. Depois, quando eu fui escolher o Sírius, isso se diluiu bastante, porque era também um colégio menorzinho de bairro, com professores um pouco mais progressistas, então foi mais tranquilo. Mas é isso: se eu tiver que marcar, acho que o Orlando foi esse espaço de um terror que eu não sei o motivo; aí a gente tem o Pimpolho, que foi esse espaço de descoberta e acolhida; depois o Stella, que foi esse espaço mais de violência, ainda que tivessem muitas coisas boas, mas eu tenho uma dificuldade de me lembrar; e aí eu fui para o Sírius, na quinta série, né? Doze? Não, treze... Espera aí: sete, oito, nove, dez, onze anos, mais ou menos, eu fui para o Sírius. O Sírius foi muito legal. E aí, na sétima, com treze… Eu não sei se já podia ter ido para a escolaridade completa, qualquer coisa você corta. (risos) Com treze, eu migrei para o colégio que a minha irmã também estudava, que era o Pré-Médico, um colégio na Lapa (bairro de São Paulo), e aí foi a pior fase da minha vida. O Pré-Médico foi um lugar muito foda, primeiro porque foi o primeiro ano que teve ensino médio deles. Eles eram, inicialmente, um cursinho preparatório para Medicina que virou um colegial, e aí eles abriram a sétima e oitava: então eu fui da primeira turma de sétima série e no sistema Anglo de ensino. Então, foi desesperador, porque tinha Física e Química na sétima série. Eu sempre fui um desastre para Exatas. E aí eu lembro: a gente recebia uma pilha de materiais e aí tinha uma apostila de TMTC, que era tarefa mínima e tarefa complementar. Treze anos, uma apostila de tarefa mínima e uma de tarefa complementar, para Física. E aí tinha a coisa de... Era do lado do quartel, na Lapa, e no Dia da Bandeira a gente ia no quartel. Então, tinha essa coisa meio exército, meio... Era uma coisa muito bizarra. Foi um bagulho muito doido, eu tive... Eu fiz amigos e amigas incríveis de lá, pessoas que eu convivo até hoje, mas, pelo visto, ele era um colégio também mais elitizado. Eu fui já bolsista para esse colégio e aí foi o inferno. Nossa, eu briguei muito, foi aí que eu comecei [a] ser “piqueteira”. Eu não entrei em movimento estudantil, porque não existia um movimento estudantil no colégio, mas eu já era a pessoa que brigava com a coordenação, que eu ficava muito tempo com os funcionários e funcionárias, então... Porque eu ficava à tarde e tinha natação, tinha alguma coisa para fazer aqui, uma coisa para fazer ali, trabalho de escola e tal. Então, eu meio que passava quase o dia na escola. E aí eu ficava muito com os funcionários, eu já brigava, porque eles não tinham espaço para ficar e umas lutas de classe mesmo. Eu já dava uma incentivada sindical na galera, sem ter muito esse conhecimento. E foi muito difícil.  Eu também sofri, lá, muita homofobia. Fui me assumir só no último ano e aí foi muito foda, esse foi o motivo pelo qual meus amigos se mantiveram, que quando eu falei: pararam. Quando eu me assumi, efetivamente, bicha, não teve mais. Inclusive, eu comecei a ficar muito amigo dos moleques héteros, (risos) e isso foi uma coisa muito doida. Depois do colégio, inclusive, fiquei muito tempo, fui padrinho de casamento, sabe, de um deles e aí, isso foi muito doido. Hoje eu ainda falo isso com a minha mãe, bastante, que eu acho que muito do que sofri... Acho que a gente vai chegar lá, né? Mas eu tenho... Fui diagnosticado com transtorno de personalidade "borderline", tive uma série de crises. Já estou bem estável há alguns anos, mas eu passei por maus bocados. E eu acho que o espaço escolar foi um espaço que teve um peso muito grande nesses processos. Eu lembro que, dentro do processo de ideações suicidas, por exemplo, foi muito em contextos escolares. E aí minha mãe teve muita dificuldade para entender isso: ela se sente muito ofendida, porque batalhou muito, lutou muito para eu estudar em escolas particulares, escolas com uma qualidade de ensino considerada superior. Ela fala: “Mas a gente fez tudo, a gente fez tanto esforço para vocês conseguirem estudar”. Eu falo: “Eu sei, sou muito grato por isso, mas, infelizmente, as metodologias me fizeram muito mal”. Então, eu vejo isso, que… Eu penso muito nisso, inclusive, na perspectiva de ter filhos, que eu não sei se eu gostaria de submeter qualquer indivíduo à estrutura escolar que a gente tem hoje. E é isso. Não tenho uma situação financeira que eu posso colocar numa Waldorf, por exemplo, ou qualquer tipo de outra escola construtivista e mais progressista. Eu acho que é até por isso que a gente tem... Eu fundei a Casa 1, né? É um centro cultural, que tem uma perspectiva socioeducativa completamente diferente. Acho que já avancei demais, mas essas foram as experiências escolares. E aí, ah, acho que tem um ponto importante do horror que foi o vestibular. Vestibular, talvez, tenha sido uma das situações mais traumáticas da minha vida: eu odiei com todas as minhas forças. Tinha essa coisa da gente ser preparado para a faculdade, uma faculdade pública e aí eu passei, passei na USP, mas eu não... Eu fui desclassificado na segunda fase, porque eu zerei Matemática. E a USP, não sei se é assim hoje em dia, mas, na época, se você zerasse alguma coisa, era desclassificado. E aí eu lembro que fiquei destruído, porque nunca achei que eu ia passar, nem para a segunda fase. Eu não era o melhor dos alunos, nunca fui, nem na graduação. Depois, eu sempre fui o aluno em que passava na lábia, mas não numa lábia do truque, né? Mas muito na lábia, que eu era, realmente, muito próximo do corpo docente. E aí eu conversava muito, trocava muito e ia muito bem nos trabalhos, só que é isso: trabalho nunca compõe a maioria da nota, então tirava quatro, sempre a nota máxima em todos os trabalhos, quatro e aí lutava para tirar um e meio nas provas, para conseguir chegar numa média quatro e 75, cinco, para o professor me dar um zero e 25. E pouquíssimas vezes eu tive que pedir. A maioria dos professores me davam um ponto, porque tinha um entendimento de que realmente prova não era um bagulho que rolava para mim. O meu negócio era na prática e eu sempre fazia umas coisas meio surreal, da prática, tipo: ah, feira de ciências é uma maquetinha, [então] eu pedia uma sala inteira e fazia um bagulho com a sala inteira, sabe? Sempre foi uma coisa meio assim. E aí o vestibular foi muito traumatizante. Teve um ponto também que eu queria muito fazer Ufmg, na época. Meus pais não me deixaram prestar e sempre [era questão] dinheiro: “Não, porque você vai e a gente não vai ter dinheiro para conseguir te ajudar lá”. Bobo, né? Acreditei, eu podia ter falado: “Foda-se, vou mesmo assim, né?”. (risos) Muita gente consegue, mas, na época, não tinha essa dimensão e aí eu fui fazer Faap, que é loucura. Não tem dinheiro (risos) e vai fazer umas das faculdades mais caras do país, só que aí a gente tinha uma tia que tinha um contato na diretoria. Eu passei em primeiro lugar e, além de ter passado em primeiro lugar, tinha esse negócio também de conseguir uma bolsa, então eu paguei... Eu tive 75% de bolsa. Ainda era um valor muito alto, 75% de bolsa. Se eu pagasse 25%, eu pagaria uma faculdade mais popular. Então, o preço de 25% do valor da Faap, eu poderia ter feito uma outra faculdade, mas teve esse esforço. Aí eu fui trabalhar, pagava a metade, meus pais pagavam a metade, e fiz a faculdade, que aí foi outro inferno, mas depois a gente (risos) pode falar disso. A não ser que você queira seguir pelo campo escolar.

P/1 – Vamos passar um pouquinho, antes de entrar nessa questão do vestibular, que eu também quero te perguntar algumas outras coisas, mas chegando na adolescência, no ensino médio, o que você gostava de fazer fora da escola, tipo, diversão? O que você fazia com seus amigos, enfim?

R – Chegando no ensino médio, antes da gente beber, né? Então, eu acho assim, eu sempre... Hoje não me considero mais, mas me considerei durante muitos anos um cinéfilo. Eu consumia muito filme, coisa que eu via - entre os nove, dez anos, até mais ou menos uns vinte - de dois a três filmes por dia. Era uma coisa que eu consumia muito, amava. Assinava "Set", era uma revista de cinema, que era assim: “Nossa, chegou a Set”, de tipo acompanhar a estreia e comprar para a estreia. E aí tinha uma coisa: eu ia muito ao cinema, no início. Na época, minha mãe recebia vale-refeição e… É muito difícil você fazer uma entrevista que você não sabe quem é a audiência. Mas para galera mais jovem, era um talão de... Um talãozão mesmo. E aí era um talão com dois pedacinhos de papel, de quatro e cinquenta cada um,  porque o valor que tinha para refeição era nove reais. Já teve um momento em que você almoçava com nove reais, fazia uma refeição com nove reais. E aí, minha mãe, no dia de ficar na escola, ela tirava, abria o talãozinho, 'ticava', dava dois de quatro e cinquenta. Aí eu estudava ali na Lapa e tinha salgado, três salgados e um suco [por] dois reais. Aí a gente dava o VA e recebia um contravale, na época que chamava, porque você dava vale e eles não devolviam em dinheiro em todos os lugares, alguns davam vale para você comer lá noutro dia. E aí o outro vale de quatro e cinquenta, a gente vendia no camelô.  Eu digo ‘a gente’, né, os amigos e tal. E aí você vendia. Era quatro e cinquenta: você vendia quatro, para ele ter o lucrozinho dele e, com esses quatro reais, a gente conseguia ir no cinema. Porque a gente tinha a sessão de quarta-feira, do "shopping" da Lapa, que eram dois reais, e passava nas Lojas Americanas e ainda comprava biscoito, bolacha, essas guloseimas todas. Então, essa é uma memória que eu lembro. Sei que eu bati muita perna nessa... Na Doze de Outubro, eu acho, que chama, que é uma mini 25 de Março, aliz na... É uma rua comercial, que é a Doze, ali, na Lapa. Então, era isso. Eu gostava muito de andar: batia perna, ia comprar CD no camelô, comprava filme. Eu lia muito, sempre li muito, então eu ia muito na biblioteca. Eu usava muito, tanto a biblioteca do colégio, como a biblioteca pública. Lembro muito de ir na Brito Broca, que era a biblioteca, ali, de Pirituba. Minha família tinha - minha mãe, em especial, isso é um ponto muito característico da minha mãe - um... Ah, essa coisa da cultura, assim, muito menos como peso político e muito mais como "status". Hoje eu vejo também, mas que independente pelo motivo, ficou, foi uma coisa que ficou na minha vida. Então, a gente tinha muito essa coisa de ir no teatro e eu lembro até hoje também que a gente ia lá de Pirituba. É longe aqui para o Centro da cidade. Hoje, eu moro no Centro da cidade. E ela vinha na sede da Apetesp para buscar os ingressos de teatro, que eram quatro, cinco reais o ingresso dos teatros. Ainda existe esse programa da Apetesp, de ingressos a preços acessíveis. ae eu nem lembrava onde que era, mas lembro que a gente vinha para a cidade, né? Porque minha mãe e a minha família tinha um pouco isso; a gente que morava na periferia, falava: “Ai, vou ter que ir lá na cidade”, que era o Centro de São Paulo. (risos) Eu lembro que eu ia muito em teatro, muita exposição, eu lembro… E aí tem umas coisas que, anos depois, já morando aqui no Bixiga, que algum dia, passando, eu olhei o Maria Della Costa, o Teatro Maria Della Costa, e falei: “Caralho, a Apetesp era aqui”. Era isso: um dia do mês, em determinado horário, você vinha e ficava numa fila. Tinha todo um esforço para esse acesso de cultura. E aí também tem umas coisas, por exemplo: minhas tias, eu lembro muito de ter visto - acabei virando vizinho, né? - "Panos e Lendas", um espetáculo no Teatro Imprensa aqui, que está fechado já há muitos anos, no Pérola Byington. E, ainda hoje, “Panos e Lendas” é uma peça que circula. Aí, esses dias, eu vi um trecho dele "on-line", eu falei: “Gente, faz mais de vinte anos que eu vi esse espetáculo. Esse espetáculo ainda existe!”. É um espetáculo lindo, que vai falar sobre a criação do mundo a partir da perspectiva das religiões de matriz africana e indígena, vai pensar sobre esses povos nativos. E aí tinha sempre isso. Então, sempre foi muito produto cultural, era muito isso que eu fazia, e tinha algumas coisas também de esportes, que eu sempre detestei, mas tinha coisa da natação, que eu gostava muito de natação, só que é também um esporte elitista, né? Não é um... Precisa de uma piscina e uma escola de natação é caro, então a gente não tinha dinheiro. E aí a gente começou, eu comecei a fazer natação no Instituto Baby Barioni, que é um ginásio público, ali, na Água Branca, que é um centro esportivo público. E também tinha essa coisa assim: no dia do mês que você tinha que ir, no início do semestre, a gente passava o dia na fila do Baby Barioni para conseguir uma vaga na natação. Então, tinha todo esse processo. Eu lembro muito disso, nunca tive a coisa… Um relato que é muito comum da minha geração, da galera mais desse perfil ou do mesmo perfil de classe social da gente, na época, ou mais baixo, eram as coisas das mães na fila da escola, para garantir vaga na escola pública. Minha... Eu não tive isso, porque meus pais sempre dedicaram duzentos por cento da grana para a escola particular. Eu nunca tive coisas de marca, a gente nunca viajou, nunca teve muitos bens, porque a grana sempre foi muito para a escola, mesmo. Só que é isso: a gente não tinha grana para o teatro, não tinha grana para o cinema, não tinha grana para a natação, não tinha grana para essas coisas, então a minha mãe fazia 'os corres' para a gente conseguir fazer. E aí eu lembro de todas essas coisas da fila. E também, com sete anos, que aí eu fui até os treze, catorze, eu entrei no escotismo. A gente estava no parque, no Toronto, um dia, e aí tinha um grupo de escoteiros, de Lobinhos - que para quem não sabe o escotismo está divido em algumas faixas etárias: você é Lobinho dos sete, oito, nove, dez, dos sete aos onze; dos onze aos quinze, Escoteiro; dos quinze aos dezenove, Sênior; dos dezenove para cima, Pioneiro, né, são umas classificações etárias. E os Lobinhos é porque toda essa fase da infância é baseada no "Mogli, O Menino Lobo" e nos livros do Kipling. - E aí é muito louco, porque o escotismo foi uma das melhores e piores coisas da minha vida. Das melhores coisas, porque eu tive muitas experiências legais e muitas vivências muito específicas de acampar, de acantonar, de aprender a fazer coisas, montar coisas, construir coisas. Foi muito bom e muito foda, pelo fato de que... Eu não gosto muito de verbalizar isso, mas tenho uma característica de liderança mesmo. Eu sou uma pessoa que impulsiono, toco projeto, tenho uma facilidade de fazer gestão e lideranças de pessoas. Eu não gosto de falar, porque é muito "coaching", falar: “Ah, você tem espírito de liderança”, acho meio escroto, mas isso veio muito também dessa perspectiva do escotismo. Então chefe de matilha, depois é chefe de tropa e aí tinha uma coisa das insígnias, né, que eram... Você tinha um guiazão de especialidades, que se chamava e era assim: "Ah, cozinha? Então se você fez até cinco itens, é bronze. Se você fez dez itens, é prata. Se você tem quinze itens comprovados, é ouro". Então, tinha essa coisa que eu queria, ter essas insígnias e ter essas qualificações, por assim dizer, e isso gerou em mim muita coisa. Da parte ruim é que o escotismo é um sistema militarizado, de hierarquia muito rígida, que tem uma ligação muito forte com religião e é um espaço heterocisnormativo, muito masculino e tóxico. Também sofri muita homofobia dentro desse espaço, muito mais pelos meus pares, do que pelas figuras de gestão. Acho que os chefes sempre acolheram muito e apoiaram muito, ao contrário da escola, que na escola foi uma coisa de uma LGBTfobia, uma homofobia institucionalizada mesmo, de sofrer homofobia de professores, de direção, de outros colegas. No caso do escotismo, era uma coisa mais de pares. Eu era mais jovem. E nesse paralelo também, até a gente chegar ali na adolescência, tinha a coisa da igreja, que eu nasci em família católica, fiz todo o processo: Comunhão, perseverança, Crisma; depois que eu me formei no Crisma, fui dar catequese - catecismo, catequese, varia -; aí eu dei catequese durante alguns anos. Até os quinze e dezesseis eu ainda frequentava muito a igreja. E aí, de novo, eu sempre em ambientes meio errados. (risos) Que, obviamente, coisas boas, né, que eu acho que qualquer espaço de comunidade tem suas vantagens e tem alguma coisa boa aí, independente se for o espaço militar, se for o espaço religioso, etc. O problema [é] que a estrutura como um todo é uma bosta. Então, acho que tem algumas coisas interessantes que vão sair dali, desde coisas pequenas de poder falar em público. Sempre fiz liturgia, então tenho muita facilidade de falar em público. Até alguns conhecimentos religiosos, históricos, que eu acho que é bom, (risos) me servem de muitas coisas e, principalmente, o meu apreço por rituais. Isso é uma... Eu estava falando isso, inclusive, hoje, falei assim: “Ai, não consegui comprar um moletom branco”. E ela falou assim - a Madá, que trabalha aqui com a gente -: “Você é da macumba?”. Eu falei: “Não, bi, eu sou ateu”. E ela: “Mas porque você usa branco?”. Eu falei: “Sou de ritual, então dia dois, Dia de Iemanjá, eu ainda não consegui ir para Salvador, mas eu acendo a vela. Dia seis [de janeiro], Dia de Reis, eu faço galette de Reis. Eu já fui mais, já fui e pretendo ir todos os anos pro Círio de Nazaré, que é um espaço que eu tenho obsessão. Entrego doces em Dia de Cosme e Damião, uso branco de sexta-feira”. Eu sou uma pessoa que gosto dos rituais e ele não tem nada a ver com fé. Eu tenho uma coleção de santos e de imagens, que aí são de várias religiões, porque gosto. Eu gosto do simbolismo, acho que traz… A missa católica é uma das coisas mais lindas, eu acho que é um dos rituais mais lindos que tem, junto com as saídas de santo de umbanda e candomblé. Acho que são os mais lindos. Eu gosto bastante do judaísmo, gosto bastante das práticas judaicas e muçulmanas também, mas acho que enquanto beleza, a católica é uma coisa que me encanta muito e sempre me encantou. E eu passei por muitas frentes dentro da católica. Eu peguei o "boom" da Renovação Carismática do padre Marcelo Rossi, quando era criança. Naquela época, aquela peregrinação, aquela coisa gigante, ônibus e ônibus. Encontro da Paz no Pacaembu, aquela coisa gigantesca. Não cheguei a pegar JMJ (Jornada Mundial da Juventude), porque eu já não trabalhava, mas a gente tinha várias minis JMJs no país. Mesmo também construções das igrejas do bairro, isso sempre foi uma coisa… E ainda, com a Renovação Carismática, tinha aquele braço da galera que falava em línguas, que também é uma coisa muito impactante e que me rememorava, inclusive, traços da infância, né? Meu primeiro contato com religiões de matriz africana era da Ana Maria, que era uma vizinha benzedeira. Isso é uma outra coisa que, talvez, seja uma pessoa jovem vendo esse vídeo (risos) e talvez não saiba. Mas, toda rua tinha uma senhora, geralmente uma senhora mais velha, que tirava quebrante (mau olhado), que fazia a benzeção. E é isso: eu fui criado nessa família muito católica - eu e o Brasil inteiro, né, gente -, ia na missa todos os domingos, mas uma vez por semana ia na benzedeira e tomava passe. E aí também, eu lembro de ir muito em Mesa Branca, porque minha irmã tinha muita... Tinha algumas questões em relação a... Ai, como que eu explico isso? Ah, vou ter que contar a história mesmo. Uma das primas da minha mãe se suicidou e quem encontrou foi a minha irmã; durante muitos anos, alguns anos, dois, durante uns dois anos, a minha irmã seguiu vendo-a. Essa prima que a minha irmã encontrou se jogou de um prédio e aí minha irmã também começou a ver outras pessoas mortas. Minha mãe tentou de tudo e só quem resolveu foi na Mesa Branca, que eu nem sei se existe mais a Mesa Branca, mas ela era uma coisa... Mesa Branca era uma espécie de uma mistura de umbanda com espiritismo, né? Era uma vertente espírita. E aí ela foi nesse processo. Eu sempre pergunto para minha irmã ainda... Para minha mãe ainda hoje, por que os problemas da minha irmã foram na Mesa Branca e o meu foi para terapia? Ela nunca soube responder (risos) e acho que, no fim das contas, era tudo a mesma coisa, né? Mas teve isso, dessas religiões e afins. E aí, quando eu fui para o Pré-Médico, ainda tinha muito essa coisa: dar rolê com os amigos, esses esportes compulsórios, aí, dentro, do processo. Mas, bicha, chegou quinze anos, festa de debutante: comecei a beber; sempre tive cara de mais velho e aí o rolê era dar os rolês e beber e, se possível, dar os rolês bebendo. Então, ia para o cinema e bebia. Eu bebi muito na fase da adolescência e jovem adulto. Ainda que hoje eu seja abstêmio e não por uma configuração de alcoolista, mas por uma decisão meio, que eu acho que a gente vai chegar lá. (risos) Eu tinha uma fase que eu bebia muito.

P/1 – E a Grazi quer perguntar.

P2 – Não, queria saber... Você falou que se assumiu no final do ensino médio. Você chegou a vivenciar bastante sua sexualidade nessa época?

R – Não, eu fui... Meio que eu saquei, descobri que era gay com... Logo, no despertar da sexualidade mesmo, com uns dez, doze, onze anos. Internet, vai ver um pornô, aí você fala: “Porra, estou vendo mais a boceta do que o pau... Estou vendo mais o pau que a boceta, eu estou olhando para alguma coisa”. Aí, ali do ladinho tem “gay”, você clica o “gay”, fala: “Hã, é isso!”. Aí eu lembro que roubei, não sei porquê diabos minha irmã tinha uma "G Magazine", duas, três, jogou fora e eu peguei essa "G Magazine" e guardei, escondi e também roubei uma revistinha pequenininha, um [tamanho de folha] A5, que era um... Ah, um livro que contava uma história de duas bichas indo acampar juntas e acabavam se chupando. E aí... Nem perguntei se podia falar nesses termos, pode? Nessa linguagem. O meu pai encontrou, eu tinha treze para quatorze, meu pai e minha mãe. Na época, eu fazia espanhol no CCAA, aí meu pai foi me buscar e perguntou o que era aquilo. Cheguei em casa, minha mãe com o olho desse tamanho, eu falei: “Não, um negócio que eu achei e guardei aí de curiosidade”. Mentira, já batia punheta com o negócio todo dia. Nisso, me destruiu. Isso me destruiu, de ver eles tão mal, e aí foi uma... Pai, nessa época, já muito ligado na igreja, ainda muito ligado na igreja, e foi culpa [que eu senti] dos quatorze até os dezessete. Aí foram os meus quadros depressivos, meus transtornos de personalidade pioraram bastante, as primeiras tentativas de suicídio foram nessa fase. E aí, com dezessete, a gente foi para Porto Seguro (BA). A viagem de formatura, que é uma coisa muito daqui de São Paulo. A gente vai, quando faz dezoito anos, se você é perfil classe média, Porto Seguro; se você é rico, vai para Bariloche (Argentina); (risos) e aí, se você é pobre, obviamente, não faz nada. Eu era pobre, mas já muito agilizado, fui ser comissão de formatura, aí você não paga um monte de coisa, paga o básico. Fui para Porto Seguro e aí, lá, eu queria pegar uma bicha do outro colégio, que estava... Falei, eu já tinha contado para duas ou três amigas mais próximas que eu era gay, mas que eu não tinha beijado ninguém, não tinha ficado com ninguém. E aí, nessa de ir para Porto, eu falei que eu queria pegar alguém. Não rolou, a bicha me deu um 'toco', não tive meu primeiro 'besinho' em Porto Seguro, com uma jovem 'poc'. E aí, depois, uns dois meses depois, fui para a primeira balada que duas, três amigas minha falaram: “Vamos!”. Aí a gente foi, os pais da gente deixaram, a gente tinha acabado... Tinha 17 anos, RG falso e tal, e era a Bubu, a gente foi na Bubu Lounge, que era uma balada que era ali na Rua dos Pinheiros. A gente pediu para deixar a gente na porta de uma outra balada hetero do outro lado da Rua dos Pinheiros. Andamos, chegamos na Bubu e na Bubu, eu dei meu primeiro beijo e foi muito louco, porque foi um beijo à três: peguei o “boy”, aí veio o namorado do “boy” e beijamos os três. E aí eu fiquei quase uns seis meses sem pegar ninguém depois. E aí, já com dezoito, tesão no teto, eu vim numa sauna aqui na Ministro? É, na Ministro, atrás do Hotel Maksoud Plaza, era uma sauna chamada Sauna Gêmeos. Eu perdi minha virgindade na sauna, com uma pessoa que eu nem sei quem é, não sei o nome e companhia. E aí foi assim: era muito esporádico minha vida sexual e afetiva não existia. Sexual, ela vai ser nesse contexto sempre de sauna, porque também, de novo, gente muito jovem: não existia aplicativo, não existia Grindr, não existia Tinder; a gente ia na sauna e 'quendava' os “boys” na sauna. E aí, a minha primeira relação afetiva mesmo foi com 23 anos. Então, dos dezoito aos 23, foi esse contexto de um sexo muito ligado a esses espaços de sexo mesmo. Aí, com vinte, 21, eu já saía mais de balada, mas sempre fui a bicha gorda, né? Então, tinha uma coisa que eu já… Não sei, eu respondi a tua pergunta se eu vivenciei essa... Nessa fase? Acho que respondi, né? E aí eu comecei a ir para baladas, só que tinha uma coisa: eu amava o Glória, o Glória era minha casa. É uma balada na Treze de Maio. E o Glória era uma balada de 'fashionista': eu era gorda demais para ser fashionista e também não tinha “look”, roupa para ser 'fashionista'. E aí eu ia na Voodoohop, nas festas de eletrônico, quando elas estavam na cena. Só nunca fui de usar drogas, então eu era também careta demais para Voodoohop. Aí eu ia na festa dos 'ursos' na Ursound, lá no Cambridge, só que aí eu já vestia melhorzinha, então era fashionista demais para os “ursos”. Então, tinha essa coisa de que eu nunca... Eu sempre circulei em todos os espaços, mas eu nunca cravei “sou essa figura”, então era sempre essa figura deslocada. No Glória, as pessoas, durante muitos anos, achavam que eu era "dealer" do Glória, porque eu estava sempre com a galera - traficante, né? - muito trincada, dura, sabe? Aquela galera dura de pó, e eu estava sempre tomando meu 'refri' de boa. Meus amigos sempre usaram muito drogas e aí as pessoas viam me perguntar, pedir droga, eu falava: “Amiga, eu não uso, não vendo, não faço nada.  'Dealer' errado, não sou 'dealer'”. É, foi só com 23, e aí tem uma coisa, né? Que foi com 23 que eu saí de casa da casa de meus pais, e foi quando, efetivamente, eu comecei a me relacionar afetivamente com o meu primeiro namorado. E é uma coisa que eu percebo muito da minha geração, essa geração de trinta e poucos anos, até um pouquinho menos, dessa coisa da vida afetiva e sexual se desenvolver a partir da saída da casa dos pais. Isso é uma coisa que eu vejo muito relato e é uma coisa que acontece bastante.

P/1 – Bom, então vamos entrar na parte da sua faculdade, né? Você teve dificuldade para decidir o que você queria fazer?

R – Eu era cinéfilo, então só tinha uma única possibilidade, desde criança: era fazer cinema. Porque você vai ler, vai acompanhar... E quem faz cinema no Brasil é gente rica. De novo, o dinheiro foi um fator determinante. E aí [era] Guia do Estudante para cá e para lá, ver curso aqui e ali. Eu prestei Lazer e Turismo na USP e Relações Públicas na FAAP e na Cásper Líbero, que eram duas faculdades muito boas e que tinham a possibilidade de bolsa. E Relações Públicas veio dessa coisa de: "Ah, você gosta de evento, de cultura, de falar", né? Você faz teste vocacional, chega naquilo tudo e aí veio Relações Públicas e foi uma das coisas mais acertadas da minha vida. Até hoje eu tenho muito orgulho de ter feito Relações Públicas, tenho muito orgulho de ter feito FAAP porque é um ensino filho da puta, é muito bom. É uma estrutura muito foda, com uma qualidade muito foda. Eu lembro que junto comigo entrou uma amiga, entrou em Relações Públicas na Cásper, e lembro que as coisas que eu vi no primeiro semestre, ela foi ver no último ano da faculdade, muito mais por cima, sabe? Eu tive oito semestres de Semiótica Aplicada, que é uma coisa que, geralmente, a galera quer estudar Semiótica, tem esse volume. Tanto que, depois, logo que eu saí da faculdade, eu fui fazer uma pós em Semiótica Psiquiátrica na PUC. Era uma pós de um ano e meio, eu fiz seis meses. Não aguentei porque, eu estava há seis meses tendo o que eu tive nas duas primeiras semanas de aula do primeiro semestre da faculdade, sabe? E eu percebi como era defasado o ensino das outras organizações. Eu acredito muito no ensino, me arrependo muito de não ter aproveitado tanto o quanto eu poderia ter aproveitado o ensino e é dessas idiotices de achar que a gente tem que fazer a faculdade com dezessete anos, quando a única coisa que você quer fazer é beber, transar e dormir, né? Eu acho que tinha que ser mais velho. Hoje, eu me arrependo, mas foi uma experiência também bastante traumática, porque eu fui 'pras cabeças'. As pessoas mais ricas do país, e aí eu, enfim, era a única pessoa da minha sala que tinha andado de ônibus (risos) alguma vez na vida, ia e voltava para a faculdade de ônibus. Eu não tive aquela coisa de: “Ah, vamos ficar para beber depois da faculdade, das aulas”. Não dava, porque ou eu corria para pegar o ônibus, senão não chegava em casa, porque senão perdia o último ônibus no terminal Pirituba, no terminal Lapa, ou eu, né, dormia na casa de alguém. E isso foi mais para o final da faculdade, que surgiu essa intimidade e tal. E era difícil, porque eu não reconhecia as nuances de classe, de raça. Eu acho assim: o entendimento de raça, por exemplo, que eu fui ter foi bem depois. Aí eu me dei conta, com vinte e poucos anos, que eu estudei minha vida inteira com uma pessoa negra só, que eu passei por escolas particulares e faculdade. Minha faculdade tinha uma pessoa negra que, inclusive, era maravilhosa. A gente já até tinha um pouco de dimensão, que ela falava assim: “Bicha, vamos fazer o trabalho juntos, porque eu sou preta, você é viado, ninguém vai 'gongar' nós, porque senão vai ficar feio para eles”. E aí a gente... Mas foi isso, foi muito difícil. Demorei para me desconstruir, porque ainda tinha o ideal de que eu queria trabalhar, para ser como aquelas pessoas, para ter aquela vida que aquelas pessoas tinham. Sofria também muitos preconceitos, de comentários - e isso foi uma coisa -, mas eu dei muita sorte, porque minha turma, especificamente, a turma de Relações Públicas, era uma turma pequena e de uma galera também muito progressista, que era uma galera mais da cultura, né, mais do... Tinha dois atores, filhos de atores famosos, atores ricos, que é uma raridade no país, e galera de produção cultural. Nossos professores eram os professores que vinham de trabalhos socioambientais e socioeducativos. Mas é isso, assim: o coordenador do curso de Humanidades da Faap, acho que ainda é o Luiz Felipe Pondé, que é uma puta de um reaça e, ao mesmo tempo, quando eu… E aí depois que eu... Teve essa fase dos quatorze anos, quando eu fiz dezessete... Quando eu fiz dezoito, entrei na faculdade... Não, desculpa: com dezesseis para dezessete teve uma briga muito forte na minha casa, meu pai chegou a me bater. Meu pai me bateu três vezes ao longo da vida, de bater mesmo, de arregaçar mesmo, de espancar e uma dessas foi nesse dia, com dezesseis para dezessete. E ele... Quando terminou tudo, eu falei: “Pai, como a gente vai lidar com o fato de eu ser bicha?”. E aí meu pai falou assim: “A gente vai lidar. Estou lidando desde os seus treze anos, desde que eu encontrei aquela revista e tudo bem, vamos embora. Só não quero que você fale nada para sua mãe, porque sua mãe vai ficar destruída”. E aí, nesse processo, foi muito legal, porque eu me conectei de uma forma com o meu pai… A gente não falava, ele falou: “Eu só não quero ver, não me sinto bem de ver você beijando um outro homem, estando com outro homem, mas tudo bem”, isso era o suficiente naquele momento. E aí, com dezoito, eu entrei na faculdade. Quando eu fiz vinte para 21 - 21, estava fazendo 21 anos, que foi no ano do TCC -, não aguentei e meu pai já sabia fazia quatro anos, todos os meus amigos. Aí, na faculdade, eu já era abertamente gay, já estava trabalhando numa agência onde tinha muita bicha, já vivia realmente uma cultura gay: eu cheguei e falei para minha mãe. Fui viajar, passar o Ano Novo, cheio de bicha no Guarujá (SP); as fotos daquelas bicharaiada toda e a minha mãe: “Quem são essas pessoas estranhas que você está andando?”. E aí eu falei: “Bom, eu sou gay, mãe, é isso aí, você vai ter que lidar com isso”, “Você sabia disso, Zé?”. Eu falei: “Sabia, ele sabia, tal fulano sabia, o fulano também sabia”. Isso foi um pavor para minha mãe, o fato de pessoas da minha família já saberem que eu era gay e tal. E aí minha mãe ficou muito ofendida, porque ela se sentiu a pessoa mais traída do universo, né? Nesse processo dela se sentir muito traída, eu falei: “Então, vou sair, não vou ficar aqui. Eu não quero ficar ouvindo isso, não quero ficar ouvindo você chorando todos os dias porque o seu filho é gay”. E aí, na época, eu fui falar com o Pondé: “Olha, eu saí de casa porque eu sou gay, está muito difícil a relação com a minha família e eu não tenho como terminar de pagar a faculdade”. Ele falou: “Ah, tudo bem”, ele, diretamente, tratou e aí eu fui bolsista integral, no último semestre da Faap. Por um lado, o acho um escroto, um reaça, (risos) mas por outro lado, foi uma pessoa que me ajudou. Aí eu tenho um sentimento conflitante. Eu falei: “Porra, de tanto sentimento conflitante, eu vim ter bem esse sentimento conflitante com o Pondé, né? Puta que pariu!”. E durou pouco: eu fiquei uns quinze dias fora de casa, quinze, vinte dias fora de casa. Aí o meu pai foi me buscar, falou: “Ó, não quero saber, você pode não olhar para a cara da sua mãe, sua mãe pode não olhar na tua cara, mas quando você estiver trabalhando, quando tiver seu dinheiro, você sai de casa. Você não vai sair de casa para ficar de favor na casa dos outros, dando trabalho para os outros. E uma hora vocês vão se resolver”. Foram dois anos muito difíceis. Dois, três anos. Eu tinha 21, até 23 foi muito difícil. Com 23, eu resolvi sair de casa, que aí eu já tinha uma segurança financeira... Não tinha segurança financeira, eu tinha um 'aquézinho', que dava para pagar um quarto, que é muito diferente de segurança financeira. E aí eu saí e logo comecei a me relacionar com o Luli. Foi meu primeiro namorado. Luli era mais novo, né? Eu tinha 23, ele tinha dezenove. Foi muito foda, porque aí, com seis meses a gente já estava morando juntos. Eu vim morar com ele aqui no Bixiga e aí, depois de um ano, minha mãe... Aí eu falei: “Olha, estou namorando, quer conhecer? Vocês querem conhecê-lo? Como que a gente vai fazer?”, “Não, eu não estou pronta, quero que seja quando tiver uma coisa mais séria”. Eu falei: “Porra, eu estou indo morar com ele, bicha”. Não tinha casamento ainda. Não tinha aprovado ainda o casamento e é um limite que eu posso pegar e morar junto, entendeu? Não tem casamento, não tem como falar que está mais sério do que isso", e aí a gente ficou sem se falar quase... Mais de seis meses, porque eu falei: “Olha, é a pessoa que eu quero na minha vida com vocês. Se vocês não conseguem aceitar o pacote inteiro, não dá! Não dá para vocês gostarem, aceitarem que eu sou gay, mas não lidar com a pessoa que eu vivo, né? Não dá para ser igreja católica, [em que] você pode ser bicha, mas não [pode] transar, sabe? Não dá!”. E aí, quando deu uns sete meses, mais ou menos, ela ligou e falou assim: “A gente pode almoçar aí?”, “Pode”. Vieram almoçar e minha mãe se apaixonou pelo Luli. Eles ficaram assim, era unha e carne. Essa história é muito comum também, das gays. Meu pai o adorava, nosso relacionamento foi lindo, foi incrível, a gente ficou junto quase dois anos, mas também teve muita bosta: ele tinha uma questão de drogadição, eu tinha uma questão de saúde mental; a gente teve muitos momentos de violência. E foi quando a gente terminou, que eu tive a minha maior crise, eu cheguei a ser internado. Fiquei dois dias no hospital psiquiátrico, num processo muito forte de descontrole mesmo, aí comecei um acompanhamento psiquiátrico com mais... Rigoroso. Veio o diagnóstico do transtorno de personalidade "borderline", que, eu, particularmente, nem gosto... Eu gosto de falar aqui, porque... Estou falando aqui só para conseguir ajudar a visualizar, mas acho que não quer dizer nada. Diagnóstico psiquiátrico para mim não quer dizer nada. Não porque eu não acredite neles, mas porque ele é importante para o psiquiatra, não para mim, né? Ele tem que saber o que eu tenho, até porque a psiquiatria tem um processo de... Até a própria classificação psiquiátrica, hoje, está sendo debatida, se faz sentido você dar um diagnóstico específico ou, na verdade, você tem sinais de vários deles. Mas, enfim, o que eu entendi ali é uma série de fatores ambientais, emocionais, físicos e químicos do meu cérebro me levaram a um estado não saudável. Então, independente se isso é um transtorno, se isso é isso ou se isso é aquilo, eu... Não me interessa mais. Que, na época, obviamente, eu fiquei obcecado, eu fui ler. Ver filmes, entender e aí tentar explicar para os outros. Entender, pedir desculpas: “Olha, eu fiz aquilo porque eu tenho isso”. Teve toda essa fase meio besta e hoje nada. E aí, hoje, eu percebo [que] é: aconteceu um monte de coisa, aí pra mim foi necessário tomar aquele medicamento e sobre... Eu tomava o anti-histamínico... Anti-histamínico não, o moderador de humor. É. E o antidepressivo, tomei quase cinco anos, dos 23 aos 28. Aí fiz o desmame e já estou quase três anos sem medicação. Sigo com o acompanhamento psicoterápico, muitos anos sem nenhum grande surto. Eu tenho uns rompantes de violência ou de uma depressão muito profunda, de ficar uns dias sem conseguir levantar, às vezes, processo de mania de extrema limpeza e organização e comportamento compulsivo, tal. Doidinha! Mas, hoje em dia, já muito mais sob controle. E falo muito sobre tudo isso, até no meu trabalho eu falo muito sobre saúde mental, a importância, né? Não é à toa, também que, além de fazer um centro cultural, abrimos uma clínica social. Então, é um pouco isso.

P/1 – E em relação a sua vida profissional, Iran, como você começou? Queria falar sobre esse período pré Casa 1, digamos assim, em que você estava na faculdade. Começou a trabalhar e como isso foi se desenvolvendo profissionalmente?

R – Meu primeiro trabalho, eu trabalhei com dezessete, com dezessete para dezoito, na C&A, num Natal. (risos) Foi meu primeiro trabalho. Eu trabalhava com reposição, essas coisas e cartão, etc. Trabalhei três meses na C&A. E aí, depois, eu fiquei seis meses - foi uma época que meu pai saiu do trabalho para abrir uma empresa de manutenção de balança - como "office-boy", ali, daquele espaço. Logo, entrei na faculdade. No segundo semestre da faculdade, eu já consegui o estágio e fui trabalhar no Maravilhoso Mundo do Parque do Ibirapuera. Eu trabalhava na coordenação de eventos do parque, que aí foi um mundão que abriu, né? Mais do que a faculdade, me trouxe muitas perspectivas. Mais do que muitos outros lugares, acho que o Ibirapuera foi o lugar que mais vruuuh! assim, porque eu cuidava da parte de logística externa dos eventos, mas… Participei muito de muitas coisas que aconteceram nesses dois anos de parque. E, na época, o limite de tempo de estágio na prefeitura era de dois anos, não sei se ainda é. Eu trabalhava na Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, fazia a gestão da coordenação de eventos do parque. Eu trabalhava na Oca, no prédio da Oca, no Ibirapuera. E aí foi ter esse contato com essa arquitetura do Niemeyer, com… Viver num espaço que é tombado, que é um espaço histórico, que foi construída num contexto histórico muito foda. E aí, eu peguei… A Bienal, né? Ele dá... Eu trabalhava na época da "Bienal do Vazio", lembra? Que foi essa coisa, essa Bienal. E aí tinha essas coisas assim: Fashion Week, na explosão do Fashion Week. Tinha o Festival, que era um evento de música, mas vários eventos de música. Eu peguei "50 Anos de Bossa Nova" e aí a gente teve as exposições e eu fui no "show" do João Gilberto. Acho que sou uma das poucas pessoas com menos de quarenta anos que foi no "show" do João Gilberto, na vida. Esse show do João Gilberto foi assim: “Ah, hoje vai ter João Gilberto”. Aí falei: “Ah, eu não vou ficar não, esse 'véio'”, sabe ‘véio’ que atrasa? Não vou nesse show, não. Foda-se”. Aí esses ingressos da comemoração da Bossa Nova, era Itaú o grande patrocinador… Cinquenta por cento dos ingressos eram do Itaú, cinquenta por cento eram vendidos a 1800 reais, 2000 reais. Era caríssimo. Eu falei: “Ah, quer saber? O povo está aí, se matando, pagando 2000 reais e eu, só com o meu crachazinho, vou lá e assisto? Vou lá!”, e foi um dos “shows” mais maravilhosos da minha vida. Até considerado, eu considero ainda o melhor "show" que fui na minha vida. É realmente uma coisa surreal. João Gilberto é uma coisa que é de outro mundo, né? E fui em muitos "shows" do Roberto Carlos, de Caetano Veloso. E aí eu lembro muito, tem uma cena que lembro muito, que era um senhorzinho - muito senhorzinho, bem velhinho -, falou assim: “Oi, meu filho”. Eu falei: “Oi, tudo bem com o senhor? Precisa de ajuda?”, “Ah, eu tenho uma reunião com blá, blá, blá, Érica”, “Ah, é minha chefe, vamos lá. O senhor quer companhia?”. Aí o peguei no bracinho e descemos, tal, a Oca. Eu falei: “Olha, tem um senhorzinho para falar com você, Érica!”. E a Érica: “Que senhorzinho?”. Aí ela olhou e falou assim: “Viado, é o Krajcberg! A reunião não era aqui, a reunião era no MAM. Não era comigo”. Aí fechou, a exposição acabou fechando um individual do Frans Krajcberg e ele falava: “Eu quero o menino”. Então, todas as vezes que ele precisava de alguma coisa, ele pedia para me chamar e eu resolvia, porque eu o atendi e tal. E eu fui meio que assistente do Frans Krajcberg sem ter nenhuma ideia, na época, então, quem era ele. Eé uma pessoa incrível, foda. Era isso, sabe? Do tipo, fui entendendo e... Aí a coisa que eu tinha por cultura foi se expandindo para coisa das Artes Plásticas, né? A coisa da moda com o Fashion Week eu já tinha um pouco, por conta de algumas relações de alguns amigos e da internet. Eu já convivia muito com a galera das modas, até pela coisa do Glória, que era a galera 'fashionista'. Mas, foi onde me expandiu e aí eu fui entender o que era política pública, a máquina da estrutura, todas as burocracias. E aí de... Assim: Ibirapuera é esse mundo: Marcha da Maconha e várias pautas de caminhadas de saúde, a própria Umapaz, a Universidade de Meio Ambiente e Cultura de Paz, que fica dentro do Ibirapuera, uma coisa de gestão e conselho social, porque existe um… O Ibirapuera tem um conselho gestor composto por entidade de bairro. A gente tinha, na época, um senso de preservação muito grande de natureza. O Eduardo Jorge era, então, Secretário do Verde e do Meio Ambiente, [e] ele tinha uma coisa muito com natureza. Então, uma preocupação muito grande com evento, com som. Foi naquela época que não tinha evento na Praça da Paz, que a gente ficou e a própria marquise do Ibirapuera também não podia nada, por uma coisa de preservação de patrimônio arquitetônico. Depois o Haddad entrou e derrubou tudo isso, voltou a fazer "show", destruir o parque. O problema é que é isso. O Eduardo Jorge foi um ótimo secretário do Meio Ambiente, mas ele era do Kassab, que foi um governo (riso) muito ruim. E aí, o que veio depois do Haddad, em tese, foi melhor prefeito do que o Haddad - não considero, mas em tese foi -, mas [com] um secretário de Meio Ambiente horroroso. E aí, quando deu os dois anos de Ibirapuera, eu fui trabalhar na TV1, que era uma empresa de RP (Relações Públicas), que prestava serviço para um lugarzinho chamado Fiesp. Fiesp, Siesp, Sesi, Senai. E aí eu fui trabalhar no prédio da Fiesp, fazer reunião com Paulo Skaf. Foi uma dessas outras coisas meio paradoxais. Era horroroso, era um lugar que eu tinha que ir social... Eu trabalhava com análise de "social media", de redes sociais. Aí era um trabalho muito 'burocras', mas foi um dos lugares mais diversos que eu já trabalhei, porque a política de PCD, em especial, da Fiesp, é muito grande. É tipo assim: cinquenta por cento da equipe [é] PCD. E aí foi muito louco, porque eu fiz grandes amigos e amigas lá. Adorava as pessoas. Eu também ainda trabalhava com uma galera - ainda num espaço muito 'coxinha' -, mais de boa, que era a galera de comunicação. Lá eu fiquei um ano e meio, enquanto teve esse projeto da TV1. E aí, fazendo 'freela', pegando coisas, eu fui para Remix, que aí a Remix foi uma explosãozona nível dois, né? Depois de Ibirapuera, Remix era uma agência formada por duas mulheres, com uma equipe, sei lá, oitenta por cento mulheres, oitenta por cento LGBT. Era uma agência que começou com cinco pessoas - eu era a quinta - e, de repente, a gente tinha trinta pessoas na agência, lidando com clientes muito legais. A gente está falando aí - eu estava com 22 anos -, de dez anos atrás. Já, empresas que deixavam a gente fazer ação do Orgulho LGBT, há dez anos, sabe, que é muita coisa. Isso, em 2011. Imagina que uma empresa… A gente estava muito distante de uma empresa, querendo falar sobre isso nas suas redes sociais. Mas eram redes sociais, eram empresas que já entendiam rede social, então já entendiam a juventude, sabe? Entendiam essas questões de diversidade. E aí foi muito massa. Fiquei na Remix três anos, dois anos e meio, quase três, só que chegou uma hora que explodiu, eu falei: “Não, não aguento mais (risos) trabalhar com publicidade, com produto". Lá, eu era gerente de projetos e aí saí. Fui para a Europa, porque era um lugar tão legal, era uma agência tão legal que, como eu fui funcionário do ano, ganhei uma viagem para Europa. Elas pagaram a passagem e sete dias de hospedagem, eu juntei um outro dinheirinho, paguei as hospedagens e passagens internas, fiz um mochilão de 23 dias pela Europa, voltei e falei: “Fodeu! (risos) E agora, o que eu faço da minha vida? Estou descansada...”. E mesmo sendo esse trabalho incrível, às vezes eu dormia na agência, porque era um volume muito grande de trabalho. Ainda, também não tinha isso de se pagar, era uma agência só de "social media", então a gente ainda lutava muito com publicidade tradicional. Então, assim, não tinha isso de tipo: “Ai, vai pagar 'x' milhões por uma campanha 'on-line'", não existia. Eu lembro muito de um cliente, que era uma agência de viagem, que era isso: ela gastava, ela tinha cem por cento da verba de "marketing" dela, 75% era para jornal, campanhas de jornal, e 25% para "on-line". Jornal, você vai fazer uma peça, você precisa de um redator, um “designer” e uma impressão. Para fazer uma inserção em gestão de redes você precisa de pelo menos umas cinco pessoas. Quem vai fazer arte, quem vai responder o usuário, quem vai fazer texto, quem vai fazer vídeo, quem vai editar e a gente fazia com vinte e cinco por cento do valor. Então, era muito trabalho e quando eu voltei, falei: “Fodeu!”. E aí, nesse vai e vem - eu fui no final de agosto, começo de setembro -, quando eu voltei, estava em casa procurando trabalho: faz entrevista daqui, faz entrevista dali. E aí resolvi fazer um Tumblr, que aí, na época, também estava bombando, um amigo meu fez um “tweet” e escreveu, botou uma foto dele criança e escreveu criança viada, o Cainho Borges. Eu falei: “Bicha, isso é um Tumblr, isso é um Tumblr, porque olha eu aqui, criança viada. Posso fazer esse Tumblr?", “Pode fazer esse Tumblr”. Ele é o primeiro, a primeira. E aí foi uma explosão, né? Foi um bagulho gigantesco, um puta “black”... A gente ficou o quê? Foi quase vinte dias como o Tumblr mais lido do mundo todo, todos os dias, uma coisa, uma audiência surreal. E aí, matéria, ataques e... Palhaçadinha, né? Só que todo mundo ficou meio obcecado por essa coisa do “criança viada” durante um tempo. E aí um amigo, que era jornalista no IG, no portal IG, falou assim: “Iran, você não quer vir fazer uma entrevista? Estou com uma vaga aqui para Gente”, que é basicamente fofoca, Gente é o jeito de falar fofoca, é de celebridades. E aí, a editora, completamente doida, a Bia: “Você fez o ‘criança viada’, está contratado”. Assim! E eu zero sabia alguma coisa de jornalismo. Meu texto era muito ruim, até gramaticalmente. Sempre tive muita dificuldade com gramática e aí, de repente, eu falei: “Viado, aceitei o trabalho de jornalista”. (risos) Assim, sem ter nenhuma noção, mas fui. E aí ela queria também, tinha uma coisa que ela queria, uma pegada de trabalhar mais as redes sociais, tal, e aí fui. Foi muito legal, muito engraçado. Eu fiquei três meses trabalhando com celebridades, fazendo notinha: “Caetano estaciona no Leblon”. Não fui eu, que era do Terra, mas poderia ter sido, porque foi exatamente essa fase onde a gente tinha que subir dez notinhas em uma hora. Então chegava G News e você falava: “O que eu faço com essa bosta?”, e aí você tinha que inventar uma coisa. E aí o Guzzo, da [revista] "Veja", fez um "post", uma coluna que... Como que era? Era uma coisa meio comparando a homossexualidade com zoofilia, se não me engano. Era uma matéria. E aí isso indignou a editora geral, que era a Ana, que chegou para o "publisher", o diretor de redação - era diretora geral de área - e falou: “Eu quero abrir um canal de conteúdo LGBT”. E aí, o Rick, que era um repórter do Delas, que era o canal feminino, foi editar e eles foram durante, ali, o preparo dessa aba, desse canal novo do IG: foi só ele, era uma editoria de um homem só. Só que o que aconteceu é que eu já "very" (muito) bichinha, "very" rolê, vai aí e faz um guia sobre... De rolês LGBTs na Europa, que eu tinha acabado de voltar e nem eram os melhores lugares, mas eram os lugares que eu tinha ido. A guia de balada de São Paulo, baladas para sapatão, filmes e aí eu comecei meio que, voluntariamente, a produzir coisas e  vendi pautas: “Ah, meus amigos têm esse grupo no Facebook”. E aí o Rick pleiteou. Depois de um mês, eu virei repórter oficial do iGay, que era esse canal de conteúdo LGBT. E aí foi um mergulhão, né? Que aí fui conhecer todas as pessoas, ativismos. E eu sempre falo que a gente deu muita sorte. O iGay vai surgir num “boomzão”, a gente pegou a Daniela Mercury saindo do armário, (risos) casamento igualitário, a gente pegou o beijo do Felix e do carneirinho no "Amor à Vida", o primeiro beijo entre dois homens na Globo, no horário das 21. Jean Willys, a candidatura do Jean Willys, Fora Feliciano, né? Então, a gente pegou um "boom" mesmo da comunidade ali e foi incrível. Foi onde eu me apaixonei por conteúdo, pelo jornalismo. Eu bati um pé ali, estanquei que a comunidade LGBT era onde eu queria estar e veio... Só que é isso: IG é um portal que, assim, como todos os outros portais, à exceção do UOL, está falindo pouco a pouco. Não tinha muito futuro para a gente ali e aí estava chegando no Brasil um veículo que era o grande salvador do jornalismo e do conteúdo "on-line", que era o BuzzFeed. BuzzFeed foi uma puta de uma experiência foda. Eu fiquei dois anos no IG, depois um ano e meio... Costumo falar que meus prazos de validades são de dois anos de trabalho. E aí eu fiquei no BuzzFeed um ano e meio, foi um inferno e incrível [ao mesmo tempo], porque eu aprendi demais. Em especial com a Clarissa Passos, que era do IG, inclusive, mas Rafael Capanema, Juliana Kataoka... Tem uma galera que, puta, foi muito foda, que me ensinou demais, no BuzzFeed, mas se é ruim você trabalhar para uma empresa e ter um patrão brasileiro, é mil vezes pior você ter um patrão estrangeiro. O BuzzFeed, não existe... Nos Estados Unidos não tem, portanto, aqui também não tinha direitos trabalhistas. A remuneração, apesar de, em tese, ser maravilhosa, dentro das burocracias do país, eram um inferno. Então, eu recebia um salário, só que o processo até chegar em mim virava menos do que eu ganhava antes. Eu ganhava três e meio, três, três e meio no IG e eu fui para ganhar sete e meio no BuzzFeed, só que quando fazia a conversão do dólar, porque eles me pagavam no dólar… Meu contrato estava em dólar, meu contrato não estava em real. Então, dependendo de como estava o dólar, meus sete e meio já viravam sete, seis e meio, aí você paga a taxa de câmbio: aí você paga a taxa de operação, recolhe INSS na fonte. Eles não conseguiam fazer os pagamentos mensalmente, porque estourava o tanto de transferências que eles poderiam fazer e aí eles pagavam a cada três meses, só que meu aluguel estava atrasado há três meses, então pagava mais mil reais… No final, eu estava ganhando... Eu tinha oitocentos reais no final do mês, efetivamente. Tinha pra fazer alguma coisa e ir trabalhando para um caralho. E aí eu comecei a... Piquete mesmo, assim: juntar a galera, falar numa perspectiva da gente fazer uma greve. (risos) Aí já numa consciência de classe. E aí eu falei: “Olha, eu vou ser muito sincero - pra minha, então, chefe –, estou procurando outro lugar. Se vocês não resolverem isso em um mês, eu vou sair e estou indo para outro lugar”, “Não, imagina, a gente quer muito que você fique, etc”. Um mês depois, ela me chamou e falou: “Olha, então, como você falou que você estava querendo sair, a gente vai deixar esse espaço livre para você ir e está te dispensando”, eu fiquei puto. Puto, como eu nunca tinha ficado na minha vida porque, ao invés delas resolverem o problema, que, efetivamente, era da organização, elas optaram - e aí eu digo elas, porque era uma chefe e a chefe dela [da] Latino América, que me dispensaram - por me demitir. E isso foi em 2016. A gente está em 2021: o veículo está quase quebrando, não foi para frente; continua tendo os mesmos problemas trabalhistas, todo mundo que sai processa. E aí eu vejo que, na verdade, foi a melhor coisa que me aconteceu, ter saído antes, ter sido demitido, porque não ia mudar mesmo. Mas eu agarrei muito ódio, fiquei com muito ódio disso. Eu fiquei completamente perdido, porque nunca tinha sido demitido. Sempre tinha saído de um lugar para outro. Fiquei completamente sem rumo e falei... e também fiquei naquela sensação: o que eu posso fazer enquanto jornalista? Porque eu saí de um barco que estava afundando, que era o portal, para ir para um barco velejando em ascensão, que é o BuzzFeed: "O BuzzFeed é uma merda e lá no portal é uma merda. E aí, o que eu vou fazer? Vou para jornal, que é outra coisa que está falindo?". E aí veio a coisa de... Vou tentar esse projeto aqui, para passar o tempo. Eu já recebia as bichas lá em casa, e aí, quando eu estava no BuzzFeed também, comecei a fazer Airbnb. Recebia umas pessoas fora da cidade, tal. E aí eu adorava. Comecei a gostar muito de receber as bichas e calhou de sempre de vir bicha (risos) no Airbnb. Eu acho que também tinha a coisa que eu vivia com meu namorado no apartamento, tal, e era um quarto e sala, então, acho que ninguém... Se não fosse outra bicha, não sei se ficaria muito confortável de dividir esse espaço tão pequeno com um casal de bicha. E aí eu comecei a ver que tipo, puta, gostava demais de ter gente lá em casa e as bichas lá em casa: veio essa ideia de receber sem ter essa troca monetária, mesmo. E aí eu postei no Facebook: “Olha, gente...”. Na época, até postei: mulheres vítimas de violência e pessoas LGBTs. Como minha rede era toda LGBT, acabou ficando as pessoas LGBT. E aí recebi uma bicha, aí outra bicha, depois que eu fui viajar e aí veio o Otávio, que era uma bicha que tinha sido expulsa. Eu fui para BH (Belo Horizonte - MG), lá eu me hospedei na casa de uma conhecida, que era em cima de um bar, e aí, no bar, trabalhava o Otávio, que tinha sido expulso de casa. Eu falei: “Olha, (risos) calhou que eu estou recebendo bichas expulsas de casa lá em casa. Se você quiser ir para São Paulo, está lá”, e ele veio. Aí eu falei... Comecei a pegar uns 'freelas' de conteúdo, de redação, falei: “Ah, quer saber? Para fazer esse projeto aí de tentar arrecadar uma grana para alugar essa casa e podia ser um centro cultural, ia ser da hora, porque a gente bota uns cursos, o curso paga a manutenção dos moradores, comida, essas coisas que eles vão precisar e está bom!”. Achando que ia ser uma coisa simples (risos) e que nunca ia rolar. Nunca achei que eu ia conseguir, com uma ideia completamente aleatória, 88 mil reais para pagar, né? E aí, conseguimos! (risos) E aí eu falei: “Fodeu! Eu tenho 88 mil reais, preciso fazer esse projeto, que eu não posso falar para as pessoas: 'Ah, gente, não era, não’”. Inclusive, o projeto, eu fiz o financiamento para entender como funcionava um financiamento coletivo. Foi meio que assim: “Ah, vou fazer, não vai bater, é tudo ou nada mesmo. Então, se não bater, vai estornar para todo mundo e a gente entendeu como que funciona isso”. Só que virou, e eu falei: “Fodeu, agora eu vou ter que abrir essa porra”. Abrimos e aí é a loucura toda, que não sei se a gente vai falar, porque a gente já está acabando o tempo também e [isso está] registrado em muitos lugares. E assim nasceu a Casa 1.

P/1 – E no dia que você abriu a Casa 1, [que] você olhou e falou: “Está aberto”, como você se sentiu?

R – É sempre muito conflitante. (risos) Falar sobre a Casa é conflitante, trabalhar na Casa é conflitante, e lembrar também desses momentos conflitantes. Eu acho que, sempre, o cansaço é uma coisa que aparece muito. É um processo muito cansativo. Nessa época, eu dormia quatro, cinco horas no máximo por noite, porque tinha muita demanda, muita coisa para fazer, mas uma sensação que eu lembro da festa de abertura no dia 25 que, para mim, é bem um marco. Ainda que a Casa já… A gente já tinha feito algumas coisas antes e tal. Foi muito foda porque eu lembro de olhar uma hora, eu estava subindo a porta: de [um] lado, uma galera da Juventude LGBT do Pstu e do [outro] lado, o pessoal da Diversidade Tucana e isso, para mim, foi uma coisa que me explodiu. Eu falei: “Cara, eu acho que a gente conseguiu uma coisa bastante interessante aqui, né? Uma premissa que une lados muito diferentes”. E aí tinha gente da arte, gente da política, advogado, o pessoal em situação de rua. Foi aquela coisa que foi muito linda, um dia que eu fui muito feliz. É um dia que eu guardo com muitas... Com muito carinho, né? E acho que foi uma coisa: a primeira vez que eu senti que “Tá, fizemos uma coisa”, porque o processo de financiamento da Casa foi muito complexo, de muitos nãos. O processo do financiamento, fazer um financiamento coletivo é sempre muito difícil. É horrível você ficar dando F5 (atualizar página da web) numa página, para ver se entrou dinheiro e está mais perto de bater uma meta. E teve um processo muito grande que várias pessoas, em especial, ativistas que a gente conversava, vinha muito a fala: “Mas isso é dever do Estado. Se a gente, enquanto comunidade, pega para fazer isso, a gente enfraquece a luta de tantos anos, para que o Estado olhe para essa questão”. Eu falava: “Gente, mas é isso: vocês estão lutando há muitos anos, essa pauta ainda existe e ninguém está nem aí. Enquanto isso, ninguém faz nada, né?”. Ah, e conversar com pessoas que tiveram algumas experiências semelhantes, do tipo: eu lembro há muito tempo de falar com Inaldo, que tinha sido coordenador de políticas LGBTs da cidade e que hoje, já, ele já estava na direção do Museu da Diversidade Sexual e falou assim: “Iran, eu acho a sua ideia maravilhosa, mas eu já tive muitos amigos que tentaram receber esses jovens nas suas respectivas casas [e] tem muito a questão de drogadição, tem uma questão de violência. Tem um processo muito complexo ali”. E aí foi bem desestimulante, mas deu tudo certo, no fim das contas. Todos esses problemas existem, efetivamente, são desafios que a gente trata todos os dias, mas, de um jeito ou de outro, a gente conseguiu. E eu acho que tem um ponto muito importante e, agora, junho é um mês muito complexo. Hoje, é dia primeiro de Julho, mas no dia... A gente acabou de passar pelo mês do Orgulho e é muito doido, porque em junho você faz um monte de entrevista falando sobre a Casa, refletindo sobre a Casa, contando a história, falando sobre o trabalho atualmente. E uma coisa que hoje, né, 2017, 2018, 2019, 2020, 2021, quatro anos depois, quatro anos e meio depois, eu olho e eu falo assim que me dei conta só nesse junho o quanto a gente foi fundamental para a luta dessa comunidade, enquanto essa pauta de abrigamento. Desde os anos setenta, o movimento já falava sobre ter um espaço para receber esses jovens LGBTs, mas isso nunca tinha sido uma pauta, em si, no movimento, até então. Até porque, as pautas do movimento eram muito de homens gays, algumas mulheres lésbicas, de classe média, classe média alta. Casamento, herança, adoção, doação de sangue. Eram sempre pautas muito elitizadas. Quando a gente pega a galera que a gente atende aqui, porra, essas pautas são completamente aleatórias, não faz o menor sentido para uma juventude negra, para uma juventude periférica. Então, o abrigamento virou uma pauta mesmo, nacional, do próprio movimento e uma pauta de políticas públicas. Então, isso é uma coisa muito foda, que a gente conseguiu junto, obviamente, com outras articulações, a Indianarae já tinha aberto a CasaNem um ano antes, mais ou menos; a gente já tinha o Florescer também, seis meses antes, que é um centro de acolhida aqui em São Paulo para a população trans, mas é isso: a gente teve uma visibilidade midiática e de movimento, que foi bem, bem forte.

P/1 – Como foi a escolha do local onde a Casa 1 está sediada? E, se você pudesse contar um pouco, alguma história, algo que aconteceu em relação ao entorno, né? Qual foi a relação da Casa 1 com o entorno, com o bairro?

R – A escolha foi completamente aleatória (risos) e, na verdade, eu já morava no Bixiga, [então] fui procurar imóveis que fosse no Bixiga. Eu queria que fosse aqui, porque eu também achava que, por ser uma pessoa LGBT que veio da periferia que vinha para o Centro da cidade e escolheu morar no Centro da cidade. Por entender que aqui é o espaço de maior possibilidades, eu queria que a casa fosse aqui. E, ao mesmo tempo, eu não queria que ela fosse muito perto da República, do Arouche, desses espaços de uma convivência LGBT muito forte, porque a gente achava que tinha que ter... Eu, no caso. Ainda nem era a gente. É que quando eu falo da Casa sempre falo tanto na coletividade, que em todos os momentos acabo falando "a gente", mas eu também tinha muito medo de ficar no meio do fervo, dessas coisas acontecerem e dificultar um pouco o trabalho. Então, essa coisa do Bixiga. E aí a Casa 1, o “login” é um sobrado de três andares, que é a casa que eu sonhava, que era na rua de trás do prédio que eu morava. Eu cheguei, a gente conseguiu ver essa casa para alugar, aí já era eu e o Otávio, então já era a gente. Infelizmente, não rolou, o proprietário não quis alugar a casa para o projeto e aluguei o imóvel da frente dele, que até hoje é onde [fica] a Casa, que é a casa verde, um sobrado verde, de dois andares. E acabou sendo dessas confluências da vida mesmo que o Bixiga... Primeiro, é muito maravilhoso a Casa existir num bairro que não existe, né? O Bixiga, oficialmente, não existe na configuração da cidade: ele é um território da Bela Vista, deixa de existir no começo do século por conta da varíola. Ele ganha esse nome de Bixiga, porque era um espaço onde os italianos vinham. A gente teve um surto muito grande de varíola, que chamavam ‘bixiga’ também. Aí houve um abaixo-assinado na cidade, para que a prefeitura eliminasse o Bixiga enquanto um bairro e aí ele foi incorporado ao bairro da Bela Vista. E, conforme a gente foi vivendo aqui, a gente foi entendendo a potência desse bairro, do Bixiga. Então, a gente vai entender que esse território, Bixiga e Liberdade, são dois espaços onde os indígenas escravizados eram trazidos para serem punidos, no período de colonização; depois, as pessoas negras. Então, a gente tem ali a Praça da Liberdade, que era a praça de açoite e cemitério dos negros e negras escravizados. Quando a gente tem os italianos... Na verdade, esse bairro vira um bairro italiano, porque é isso: chega uns imigrantes muito fodidos e o único espaço que eles tinham dinheiro para comprar um espaço e alugar esse espaço, era em cima dos cemitérios indígenas e negros. Então, é um bairro, um território, de muita resistência, né? É um solo preto e indígena de muita luta, resistência e desigualdades. E aí é um bairro composto por uma população negra muito grande, por um número gigantesco de cortiços, ocupações e com uma dotação para a cultura, surreal. A gente é a maior concentração de teatros da cidade, do estado, quiçá... Enfim, em termos de bairro, se não me engano, é o bairro com mais números de teatros na América Latina.  Então, tem essa coisa muito rica, de entender. Ao mesmo tempo, ao contrário da República, ali, do Arouche, não é um bairro que tinha uma premissa LGBT. E aí a gente enfrentou bastante problema porque, de repente, eram vinte viados, bichas, morando ali, adolescentes, mas aquele barulho de bicha voluntário e aí começou a ter um trabalho de território. Muito na premissa aí, o Bruno, o Bruno Oliveira. A gente fez o lançamento da Casa, a festa do dia 25; o Bruno veio no dia 26, querendo cuidar da biblioteca, ficou e nunca mais foi embora. O Bruno tem uma coisa pedagógica: ele já tinha trabalhado com comunidades em volta de penitenciárias, com mulheres artesãs no interior de Minas Gerais, ele já tinha... Ele atuava e atua ainda no Jamac, no Jardim Iate Clube, ali, em Diadema, com a população de Diadema. Então, ele tinha essa coisa de pensar o território, esse entorno e de como trabalhar. Isso virou uma política da Casa e uma estratégia de segurança mesmo. Assim: ou a gente abraça esse bairro, para esse bairro abraçar a gente ou não vamos conseguir estabelecer um ponto de segurança. Então, não é bem uma história, mas é um fato, que eu fui - primeiras ameaças que a gente teve, da travesti, da bunda de fora etc. -, conversei com o dono de cada uma das bocas da região, são quatro grandes bocas no entorno: “Olha, a gente é um espaço cultural, a gente é um centro ‘isso’, a gente é LGBT, não vai ter como a gente sair disso, mas o que é que vocês têm de demanda, que a gente pode tentar ajudar?”, “Ah, as crianças que não têm nada por aqui”. E aí, automaticamente, a gente já está fazendo um trabalho com crianças. Então a gente começa atender as crianças das bocas e aí tem esse super diálogo que vai acontecer e nunca mais a gente teve problema, nem com o tráfico local. O nosso principal problema é o próprio Estado. (riso) Então, por exemplo: existia uma coisa, quando era só o prédio da Casa, a gente usava muito, a nossa calçada é larga, é quase dois metros, mais de dois metros de calçada, a gente botava cadeira, a gente montava mesa para fazer atividade. Aí o Conseg, que é o Conselho de Segurança Regional, que é composto, basicamente, de 'milico' aposentado, começou a fazer notificação, porque a gente estava usando a rua para fazer coisas. E aí a gente também, no desgaste de escolher luta, optou por alugar o galpão, alugar um galpão de quatrocentos e quarenta metros quadrados, na Adoniran Barbosa, na rua de baixo da Casa. Esse galpão tinha acabado de ser desativado. Ele era a Companhia Os Fofos Encenam, uma companhia de teatro. E aí, de novo, nessas coisas muito loucas, entra um cara aqui e falou assim: “Não acredito que a Casa 1 é aqui”. E a gente: "Hum?", “Eu fiquei escondido aqui na ditadura militar, aqui era a sede da Anistia”. E aí a gente foi procurar a documentação, aqui foi uma das sedes da Anistia Internacional e aí, junto com o casarão, também, na Condessa, onde tem a Juventude Católica, era também um espaço de acolhida para pessoas fugindo da ditadura. E esse galpão também foi um espaço onde ficavam escondidas pessoas durante a ditadura militar. E aí a gente vai descobrindo essas coisas que, no fim, a gente só está continuando um trabalho que já existia, sabe? Isso é uma coisa… A gente é muito desses significados, de reconhecer. E aí, logo, a gente... Quando a Mari morre, a Marielle Franco morre, é assassinada - acho que é importante deixar isso bem-posto -, a gente monta uma programação chamada "Para Marielle Franco". Aí alguns atores e atrizes do Oficina vêm para essa programação, a gente faz um chamado aberto para quem quiser ajudar a gente a formar essa programação "Para Marielle Franco" e a equipe do Oficina vem. E aí começa um "crush'' que vira namoro e que hoje a gente considera um casamento, com o Teatro Oficina. Então, a gente tem programações lá, eles têm programações aqui. Agora, nesse momento, de pandemia, que eles estão super fodidos, a gente entrega cestas básicas para a companhia e eles dão suporte para outras coisas que a gente precisa e a gente luta junto pelo parque. E aí a gente começou a encabeçar juntos a luta pelo Parque do Bixiga. Agora, eles acabaram de passar no Zé Renato, no fomento ao teatro, no prêmio Zé Renato, no fomento municipal e aí vai ter a montagem do "O Homem e o Cavalo", do Oswald. Dentro dessa premissa, está o retorno do Bixigão, que era um programa com as crianças do bairro, só que aí vão ser as crianças que são atendidas pela Casa 1. Então, provavelmente, a Casa 1 vai na estar na montagem do "O Homem e o Cavalo", com as crianças que são atendidas aqui, que é um trabalho que eles já fizeram nos anos 2000. O Bexigão para a montagem de "Os Sertões", que eram cinquenta crianças que fizeram Terra Um e Terra Dois, se eu não me engano. E aí a gente tem essa luta para manter o parque. Então a gente ajuda a parte dos financiamentos coletivos deles, a parte de comunicação e aí eles também cedem o espaço. A gente já fez três, quatro, três semanas de visibilidade trans lá, que aí renderam momentos maravilhosos. A gente teve a Renata Carvalho fazendo "Jesus, Evangelho"... "Evangelho Segundo Jesus Rainha do Céu", um monólogo que foi censurado, que sofreu violências gigantescas. E aí, Renata fazendo um solo naquele teatro maravilhoso. Então, é muito lindo. Aí a gente vai reconhecendo os espaços e fica amiga da galera da Vai-Vai, que faz um trabalho com as crianças também, de suporte para território. Então, pandemia foi muito isso: “Milton, vem buscar que a gente recebeu vinte mil máscaras”, porque a Vai-Vai entrega o "Leve Leite", né? Faz a entrega do leite do governo do estado. “Pega a máscara que a gente vai...”, “Milton, estamos fodidos, porque estamos precisando bater uma lista de cestas, porque está duplicada”, “Não, vamos falar com a Casa Verbo”, sabe? E aí a gente foi encontrando a nossa territorialidade e eu não consigo visualizar nossa sede em um lugar que não seja o Bixiga. Eu quero muito ter um processo de expansão, a gente já está trabalhando para isso. Acabamos de entrar num edital. A gente ganhou um edital do Magazine Luiza de violência contra a mulher, um projeto para violência contra a mulher: trans, travestis, mulheres lésbicas e bis. E aí ele vai ser uma articulação com as mulheres do Bixiga e as mulheres da Cidade Ademar, lá no Jamac. E um pouquinho antes, a gente ficou muito... Entre muitos problemas da pandemia, um que a gente ficou mais decepcionado no começo, é que a gente tinha acabado, estava quase certo que a gente ia fazer uma semana de diversidade, uma semana de saúde mental em Franco da Rocha, que era... A gente quer muito ir para esses outros territórios e ir para essas periferias, porque eu sou da periferia, eu sei o quanto é uma demanda para esses espaços. Mas, o Bixiga vai ser sempre o nosso coraçãozinho que... E a gente quer espalhar a palavra, mesmo.

P/1 – E voltando um pouquinho para o início, voltando um pouco para o início das atividades: quais eram as atividades que vocês ofereciam no início na Casa 1 e como isso foi se expandindo?

R – De começo, tá, a gente tinha a acolhida, que é o serviço "core", que vai passar todo o processo. Aí a gente tinha três profissionais de saúde mental que atendiam os moradores, a gente tinha a biblioteca e aí, na biblioteca, já veio o "English" que é o programa "English Transforme", que é um programa que pensa aulas de inglês para pessoas trans, mas hoje é para população toda aqui na Casa 1. A gente tinha as aulas de inglês na biblioteca e aí tinha programações culturais na salinha de baixo desse sobrado, que aí eram cursos pequenos, de algumas pequenas rodas de conversa, curso de desenho, cursos variados das pessoas que se voluntariavam para fazer e o atendimento de população de rua também, porque a gente abriu, chegou, a gente já teve as seis pessoas, porque, inicialmente, a gente tinha pensado quatro moradores, aí foi para oito. Quando a gente chegou em oito, que é nosso limite, as meninas da "crack" subiram, as meninas trans da "crack" da Sé subiram e já ali a gente percebeu que era um público que a gente não ia conseguir atender e a gente não atende até hoje com acolhida, porque entra numa assim de muito severo de drogadição, violência, saúde mental. O atendimento de 'pop' rua (população em situação de rua), um atendimento que envolve acolhida, é um atendimento que exige um 360 (tratamento total) de saúde. Precisa ter equipe 24 horas, precisa de exames, precisa de um monte de coisa que a gente não tem braço. A gente costuma falar que a Casa 1 é uma casa de contenção: a gente acolhe jovens que foram expulsos de casa ou que saíram de casa, né, recente, para que não cheguem na situação de rua. Mas a gente tem muito… A gente não consegue atender [a] demanda de situação de 'pop' rua com acolhida. E [foi] aí que eu falei: “Cara, mas a gente está cheio de doação, cheio de roupas, de produtos de higiene, vamos dar para a galera de 'pop' rua”. E aí, então, como chama esse… Ah, um atendimento paliativo. E aí virou o nome. (risos) Então, a gente até hoje fala: “Ah, onde está? Está no Paliativo”. Virou o nome de um lugar, o “Paliativo”, né? E aí é um atendimento que a gente faz até hoje. Hoje, a gente atende mais ou menos umas mil pessoas em situação de rua por mês, é um trabalho complexo, mas também é um trabalho de conexão, de vinculação. A gente consegue fazer um encaminhamento, aí participamos de uma programação, vai conversando, aí, às vezes, consegue que volte a pegar uma vaga fixa num centro de acolhida, para fazer um curso e conseguir um lugarzinho para morar, ou a gente consegue fazer encaminhamento para morar numa república do estado. Então, tem várias coisas dessas ferramentas, mas, a princípio, era isso, esse atendimento de 'pop' rua, esses pequenos cursos, aulas de inglês e biblioteca, atendimento de moradores com três psicólogos. Só que tem uma coisa muito louca da Casa e isso a gente fala muito que, pela minha experiência de comunicação, a Casa teve uma visibilidade muito grande. Eu tinha vindo da publicidade, do jornalismo e das relações públicas, né? Então, eu trabalhei todas essas frentes. E aí, o que aconteceu? As marcas se interessaram logo de começo e, já no primeiro ano, a gente já fez uma ação com a Pepsico, que foi do Doritos Rainbow, a gente fez uma ação com Ben & Jerry’s, se não me engano, e uma com Skol. Três ações grandes. Tinha arrecadado oitenta e oito mil reais, que pagou o aluguel. Olha isso: eu fiz uma campanha de financiamento coletivo, pensando em 88 mil reais para pagar o aluguel e como que essas pessoas vão comer? Como essas pessoas vão ter transporte? Como eu vou pagar IPTU? Como eu vou pagar as contas, isso eu não pensei. (risos) E aí a gente conseguiu 112 mil reais. Aí faz os cursos e os cursos precisam imprimir material, precisa comprar cadeira para as pessoas sentarem, tem um monte de coisa. Mas as coisas foram acontecendo e aí, quando entrou, deu, se eu não me engano, na época, uns trezentos mil reais. Eu nunca achei que eu fosse ver tanto dinheiro numa conta bancária que eu tivesse acesso, trezentos mil reais: “Estamos ricas, milionárias, vamos alugar um galpão de quatrocentos metros quadrados”. E aí a gente, no mesmo ano de 2017 mesmo, em outubro, a gente abriu o galpão Casa 1, que é esse espaço que hoje eu estou, inclusive, que agora, em tempos pandêmicos, transformamos uma das salas de aula num estúdio. A gente, aí, ampliou e [a] programação... Aí, para abrir o galpão, é sempre muito doido, sempre muito megalomaníaco porque, na hora de abrir o galpão, a gente: “Vamos fazer uma festa”. Aí bota Gloria Groove, Lia Clark, Banda Uó, Aíla. Foi desesperador, eu falei: “Gente, vai cair essa porra”. A gente tinha acabado de fazer uma parede de gesso das salas de aula, ela balançava e eu falava: “Gente, a gente vai virar notícia por um desastre, o que a gente fez?”. E aí ninguém cobrou, ninguém nunca, nenhuma  dessas artistas, cobraram da gente para fazer um “show” aqui, para fazer alguma coisa. E aí essa coisa louca, meio surreal. A programação ampliou muito. O galpão, no andar de cima, o mezanino, a gente transformou em [uma] pequena sala de atendimento e aí foi um processo embrionário da clínica social, que aí a gente começou a atender um público externo, com trabalho de saúde mental. Aí vai ter salas de aula, a gente chegou, antes da pandemia, a gente estava com 26 turmas de inglês, espanhol e português como segunda língua, para estrangeiros. A gente tinha... Encerrou… Se não me engano, antes da pandemia, a gente estava com algo em torno de dezoito atividades fixas, mas todas as pontuais e aí é: costura, maquiagem, curso profissionalizante de maquiagem, canto, dança, informática, todas as aulas de línguas, cursinho preparatório para Enem. Então, aí é um mundo de coisa, até que a gente chegou em 2019. Em 2019, no começo de 2019, março de 2019... 2018, 2019, dois anos e três meses, eu; Bruno; o Junior, que era voluntário; e a Alvina, assistente social... Eu morando aqui, que quando abriu a Casa eu entreguei o meu apartamento e, para não continuar pagando aluguel, eu vim morar no galpão. Então, o galpão tem uma estrutura: é um galpão, tem uma sala, um mezanino e aí um outro mezanino em cima, que era meu quarto, só que o meu banheiro era o mesmo banheiro de todo mundo do galpão, então eu dividia meu banheiro com 180 pessoas. E aí, eu morando aqui, Alvina, Bruno e Junior, essa equipe fixa, ganhando oitocentos reais por mês. Depois de ter feito ações milionárias, pagando dois alugueis, atendendo 1500 pessoas por dia, por mês, a Alvina desceu e falou: “Iran, precisamos pedir arroz e feijão, porque baixou o estoque de arroz e feijão lá e não vai ter para muito tempo”. Nessa hora, sempre que eu vou fazer entrevista, as pessoas pedem uma cena, né? Tem dessas coisas que acham que a gente é um super herói, que a gente é uma pessoa muito bondosa, caridosa e quer uma cena para exemplificar e eu falo: “’Mor’, não é cinema, não vai ter um grande ‘timepoint’, um momento muito marcante, mas esse”... Então eu tomo no cu, porque eu sempre lembro dessa história, que foi uma cena cinematográfica minha, que foi falar: “Cara, não é possível, a gente está fazendo tudo isso, tem esse suporte todo que a gente tem, eu ainda vou ter que pedir arroz e feijão, sabe? Não tem condição, a gente não aguenta mais”. Isso, a gente trabalhando vinte horas por dia, eu não consigo mais continuar pedindo para essas pessoas trabalharem esse tanto, que eram esses quatro e mais uma centena de voluntários, né? E aí eu fiz um comunicado no meu Facebook e falei: “Olha, a gente vai ficar até dezembro, não dá mais do que isso, a gente... Porra, a gente fica muito feliz com a ajuda de todo mundo, mas ainda não é suficiente. Enquanto a gente não tiver uma política de Estado que consiga dar dinheiro, que as empresas entendam que é um trabalho recorrente ou que nossa comunidade entenda o custo disso, não vai dar para a gente continuar” e só isso. E foi uma coisa gigantesca, uma mobilização de todos os artistas, de todos os veículos, de todas as pessoas. Nosso financiamento coletivo recorrente chegou a cem mil reais mensais, as empresas vieram: “Não, vamos fazer tal e tal coisa” e aí veio essa loucura da gente anunciar em março. Aí todo mundo pergunta: “Ah, isso foi planejado?”. Eu falei: “Nossa, queria eu ter pensado nesse golpe de ‘marketing’ um ano antes, eu teria dormido muito melhor”, mas não foi, foi só um desabafo e um comunicado, mesmo. E aí, de repente, a gente estava em abril, com um monte de coisas engatilhadas, com um puta dinheiro no fundo de caixa, com um fluxo de caixa rolando. E aí, ao invés de você ficar quieto e falar: “Não, beleza, é isso, vamos aproveitar esse momento”, eu falei: “Então vamos aumentar” e aí a gente alugou mais uma casa, (risos) que foi prédio da clínica, contratamos a equipe. Então a gente fez a contratação de seis pessoas em regime CLT, conseguimos estruturar as coisas e foi crescendo. Aí a gente foi entendendo, foi juntando grana e fazendo os processos: quanto mais equipe, mais possibilidade de atuação você tem, de projetos. Vai aprendendo, né? Vai aprendendo a fazer edital, a pleitear política pública, a entender como funciona uma emenda parlamentar. E aí a gente foi fazendo e chegou... Hoje, em julho de 2021, a gente tem 27 pessoas contratadas, sendo quinze ou dezesseis delas CLT, o restante PJ, por opção dos trabalhadores e trabalhadoras, que por mim era todo mundo CLT. O Brasil não liga para a CLT, mas eu ligo. E a gente está nesse processo, então, de 27 pessoas contratadas, esses três espaços e aí teve um aporte muito grande no final do ano do MPT, Ministério Público do Trabalho, de 350 mil reais e, na época, a gente ia fazer uma campanha “Uma Casa 1 para casa, ajude a Casa1 a ter uma casa”, só que aí, Bolsonaro, Dória na prefeitura, arruma o governo do estado, eu falei: “Cara, a gente sabe que a censura não é mais arma na cara, bota no camburão e leva para o Dops. A censura financeira, né? A censura burocrática, existem outras ferramentas de censurar. Eu falei: “Não vamos gastar esse dinheiro, vamos guardar esse dinheiro porque, se começar a baixar taxas, se começar a baixar multas, se começar a baixar coisas, a gente tem um dinheiro em caixa”. E olha, até hoje eu me dou uns abraços de vez em quando, porque foi esse dinheiro que permitiu que a gente se mantivesse durante a pandemia. Ter essa perspectiva de ter uma grana de fundo de caixa. E foi isso que a Casa teve, em 2017, 112 mil reais. (risos) Fechou, acho, que com 350 mil, somando as ações e doação recorrente. No segundo ano, um milhão e duzentos. No terceiro ano, três milhões e meio. E aí, no ano passado, em 2020, dois milhões e baixou bem a arrecadação por conta da pandemia, mas, ainda assim, o suficiente para a gente conseguir se manter. 

Agora, em 2021, a gente está indo. Como a gente faz tudo isso, com esses valores, eu não sei até agora. (risos) A gente todo dia se pergunta, está fazendo bastante reuniões com as frentes parlamentares e com as... A gente, agora, tem candidaturas efetivamente progressistas, né? A gente tem trocado muito. E aí a gente fez uma reunião com uma delas, ela falou assim: “Gente, eu não entendo como que vocês fazem. A gente está pleiteando aqui abrir um serviço de saúde na leste e está pleiteando um valor mensal de sete milhões (risos) e vocês, com três milhões. Um serviço de saúde para atender população LGBT na leste vai ter um custo ali de sete milhões para fazer, mês e, sei lá, com dez profissionais e vocês têm trinta profissionais, 150 voluntários, três espaços e fazem isso com 150 mil reais por mês, não sei como vocês fazem”. A gente falou: “Olha, a gente também não, mas fazemos, né?”. E é isso! 

 

P/1 – E já que você está… A gente já falou sobre a pandemia, como é que… O que foi alterado? O que vocês precisaram alterar, com essa surpresa? Porque, quando começou, ninguém sabia até onde isso iria e está aí até hoje… O que vocês precisaram fazer de ajuste, de alteração? O que deixou de ser possível, o que foi adaptado durante a pandemia?

R – Primeiro, que os moradores ficaram, né, que é uma casa de passagem, a gente fica quatro meses. E aí, com a pandemia, eles ficaram até o final do ano e depois, a gente fez algumas reformas no espaço e voltou atender só com seis moradores. Antes da pandemia, a gente trabalhava com vinte. Então, agora são seis, por conta dos espaçamentos de cama, protocolos de segurança. A clínica fechou, o espaço físico migrou para "on-line''. Na segunda semana de pandemia, ela já começou a fazer todos os atendimentos "on-line" e aí o espaço se dividiu em dois. A gente… Inclusive, o sobrado da clínica, a gente fez uma parede e aí, no andar de cima, continuou o atendimento da Prep 1519, que é uma pesquisa da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), para entrega de profilaxia para exposição para adolescentes, que a Casa 1 é parceira. Aí o andar de cima virou esse espaço de atendimento desses jovens e o andar de baixo ficou a casa de isolamento. Então, caso um morador ou moradora teste positivo para o Covid, antes de entrar na casa, faz um isolamento de quinze dias e depois vai para a casa. E se apresenta sintomas, também vai ficar isolado nesse espaço da clínica. O galpão ficou fechado durante cinco meses e aí o espaço de baixo, onde era a biblioteca e o espaço onde a gente trabalhava como escritório, a gente começou fazer atendimento de população. Então, a gente, já, antes da pandemia, tinha um trabalho de entrega de cestas, junto com a coisa do paliativo, das sopas e produtos de higiene pessoal, mas se expandiu. A gente entregava quarenta, cinquenta cestas por mês e aí passou a entregar novecentas cestas por mês. Isso no ano passado, né? A equipe toda trabalhando "on-line". Essa equipe presencial, basicamente, era eu, o Ângelo, que é meu marido, o Beto, que trabalha na Casa também e morava com a gente, e a Alvina, que é a assistente social, que também mora na rua da casa. Então, a gente que morava junto e que estava muito perto do espaço, continuou atuando no presencial, com o cu na mão e também com muito EPI e muito álcool em gel, que é uma coisa que eu, a gente... Eu fui recentemente ter que fazer o certificado digital, para a contabilidade fazer as coisas. A menina não conseguiu tirar a minha... Fazer a minha validação de impressão digital, que foi muito, tanto álcool em gel nesses últimos dois anos que assim, acabou, corroeu. E máscara e EPI e "face shields", tudo num super maior cuidado. E aí, em novembro, quando teve aquela ideia de que a gente estava caindo em números, retomamos o galpão, só que com atendimento de 'pop' rua. A gente entrega os kits de roupa duas vezes por semana, água, máscara, biscoito ou pão e as cestas básicas, que, hoje, são quinhentas e sessenta famílias que recebem, sendo umas duzentas delas pessoas LGBT. E todo atendimento do serviço social, tal. Aí a gente foi avançando conforme a vacinação foi avançando. Os profissionais da saúde e a assistente social foram vacinadas e a gente começou ampliar os atendimentos da assistência social, com as duas assistentes sociais que a gente tinha. Então, hoje, o galpão é esse espaço de atendimento e aí foi adaptando os espaços, então, esse... Uma das salas de aula a gente transformou num estúdio, a outra a gente transformou na sala de atendimento social, o outro virou um grande galpãozão. Então, a gente começou, também, a receber cinco, oito, dez toneladas de produtos da [marca] Mãe Terra, que aí a gente foi repassar para outras organizações. Isso também virou uma coisa: são quase 45 organizações que retiram coisas com a gente. E como a gente tem esse espaço físico muito grande, consegue receber da empresa e o pessoal retira aqui no tempo que eles podem. E também pela parte burocrática. A gente já é grande, então tem algum… A gente já passa por "compliance", coisas que pequenas organizações ainda não conseguem. E a gente também se dedicou muito nesse último ano para estreitamento de relações institucionais, então conseguiu falar com as secretarias e parlamentares, conseguiu arrumar e estruturar algumas coisas, e também muita coisa burocrática. Então, é uma coisa que eu gosto sempre de falar, as pessoas ficam meio horrorizadas que eu falo isso, mas a gente passou quatro anos sem alvará de funcionamento. Primeiro que isso é uma coisa muito distante. Na verdade, na cidade de São Paulo, só vinte por cento dos estabelecimentos tem alvará. São Paulo não é uma cidade que olha muito [para] isso, mas é daquelas burocracias de censura. A gente tem um problema muito grande, que organizações da sociedade civil em geral... Tem o levantamento da OAB, eu acho que aponta quase noventa por cento das ONGs do país são 'laranjas', elas não existem de verdade. Infelizmente, a ONG no país é usada muito a fim de desvio de verba e como ferramenta de corrupção. Isso fez com que fossem se desenvolvendo milhares de estratégias burocráticas, para tentar essa prevenção, mas é isso: quem quer roubar faz todo esse processo e rouba. Agora, para a gente que está na luta, que está fazendo, é um processo muito difícil. Então, é um processo trabalhoso e caro. Para a gente ter um alvará de funcionamento... Não é que a gente era ilegal, tá, gente, deixando aqui colocado (risos) porque a gente tem CNPJ, cadastro municipal de funcionamento, tem estatuto, paga imposto certinho; que quando você tem o CNPJ você tem que declarar o imposto na Receita Federal. Isso tudo estava certinho, mas a gente não tinha o famigerado alvará de funcionamento, porque para o alvará de funcionamento você precisa de alvará da Vigilância Sanitária e um alvará de Bombeiros. A gente teve um gasto de aproximadamente trezentos mil reais para fazer todas as adaptações necessárias para o Bombeiro e Vigilância Sanitária. Por exemplo: uma ONG conseguir trezentos mil reais para fazer obras para tirar uma certificação é muito complexo, é muito difícil e, por mais que seja, a gente acredita na segurança, a gente acredita na segurança dos Bombeiros, na segurança da Vigilância Sanitária, mas é isso. Às vezes tem coisas de, tipo: “Essa escada tem meio centímetro a menos do que ela pode”, então você tem [que] refazer uma escada inteira, gastar três mil reais para refazer uma escada, para aumentar meio centímetro do degrau. Então, não é só sobre estar ajustado com as políticas, é também alguns preciosismos e algumas coisas que dificultam muito o trabalho. E aí, nesse ano pandêmico de meu Deus aí, a gente conseguiu tirar Bombeiro, Vigilância Sanitária, auto de funcionamento. Aí a gente brincou: “Gente, pronto, agora a gente pode abrir e começar a trabalhar, né?”. (risos) Depois de quatro anos e meio, a gente conseguiu tirar tudo isso. E eu não tenho problema de falar isso, não vou me arrepender. Não precisa cortar, porque eu já falei isso publicamente em muitas matérias. Acho que as pessoas precisam entender que a gente precisa falar sobre as coisas. Não dá para falar que é tudo bonito, que é tudo fácil, que é tudo lindo e que a gente está bem o tempo inteiro, né? Porque não está, é difícil. Porque senão, sabe o que acontece? Eu vi muito isso acontecer nesses quatro anos: tem, existe muito boa vontade, muitas boas ideias, mas as pessoas desistem, porque elas não sabem que tem tudo isso que você tem que lidar. Eu vi muita casa abrindo e fechando, muito coletivo fundado e acabando, muitas políticas públicas começando e não dando em nada, porque é isso, a gente não fala sobre essas complexidades e aí vira sempre essa coisa meio "coaching", meio "startup", todo mundo vira um milionário fazendo aplicativos, sabe?

P/1 – Eu queria que você falasse a respeito dessas parcerias que você, que a Casa 1 teve, [e] que você acha que de fato conseguiram sucesso ou conseguiram... Você acha que teve um resultado legal na ajuda dessa população, a conseguirem uma certa reinserção social? Deram um empurrão que você acha que funcionou super bem?

R – Você diz as empresas, especificamente?

P/1 – Não necessariamente. Pode ser, por exemplo, o de parcerias com empresas, podem ser parcerias como as que você falou mesmo, por exemplo, com o Teatro Oficina ou com outros órgãos, com outras instituições.

R – Tá! Pergunto por que empresa não, tá? Empresa, na verdade, a gente tem essa coisa. Como a gente lida com muitas empresas gigantescas, as pessoas acham que a gente é muito rica, mas, na verdade, empresa é trinta por cento do nosso financiamento. Setenta por cento do nosso financiamento é sociedade civil, é pessoa física. Então, as empresas têm essa coisa, são muito ligadas a essa data mercadológica, esse mês do Orgulho, e nunca um valor considerável, não. Então, acho que esse é um primeiro ponto. Ainda que seja um trabalho gigantesco de empregabilidade, as empresas hoje estão muito mais abertas e evoluiu bastante isso, mas quando a gente estava caminhando, veio a pandemia, então está meio travado, porque é isso, o mercado está parado. Essa questão de inserção social acho bem complexo, na verdade, porque a gente parte da premissa que, na verdade, as pessoas estão inseridas, né? Essas pessoas têm vozes, essas pessoas estão inseridas e ninguém está excluída da sociedade, que elas não estão correspondendo a ideia do que a gente tem de uma boa sociedade. Então, eu acho que esse é o primeiro ponto. Acho que a partir disso tem uma perspectiva de que a gente trabalha muito atendimento individualizado e humanizado, como tem que ser. Detesto essa premissa do humanizado, tipo: “Ai, ele é um médico humanizado”. Porra, ele é um médico, a profissão dele é ser humanizado, caralho! É trabalhar com seres humanos, mas... Enfim. A gente trabalha com esse atendimento individualizado, então os critérios que a gente vai estabelecendo para nós mesmos e para o trabalho, estão muito ligados a essa identidade, a essa individualidade. Tem muitas perguntas que vêm nesse sentido de: “Ai, quais são os casos de sucesso que você tem?”. Tudo é muito relativo, sabe? Uma menina trans que está ainda em situação de rua ou que vive passando de programas em programas, então já morou aqui, já morou na Casa Nem, já morou numa clínica de reabilitação, já morou no Florescer, mas que não usa droga há mais de dois anos. Porra, um sucesso do caralho, sabe? É uma menina drogadita, que está há dois anos sem usar drogas, mas que é isso. É muito infantilizada, não teve um acompanhamento efetivo do Estado, não tem um trabalho do Estado forte para dar esse suporte, infelizmente não tem boas relações familiares, uma hora ela vai conseguir arranjar um “trampo” e, talvez, se estabelecer, mas ainda não aconteceu. Mas só do fato dela não ser mais, estar dentro desse contexto de drogadição, já é um sucesso maravilhoso para a gente. Ao passo que a gente tem a ex-moradora que está no segundo ano da faculdade pública, sabe? Que está fazendo Unifesp e feliz para caralho e a gente acompanha, é muito lindo. Uma moradora que está há quatro anos trabalhando no Starbucks. E aí botou peito, fez a plastiquinha dela, que ela queria fazer no nariz, está morando na casinha dela super bonitinha. Então são graus e graus que a gente tem e vai muito de cada um. E uma celebração que a gente sempre faz aqui: a maioria desses jovens estão vivos, né? Perdemos alguns no meio do caminho, por motivos diversos, mas a maioria deles estão vivos. Eu acho que essa é a nossa maior taxa de sucesso. Estar vivo no Brasil hoje é uma taxa de sucesso gigantesca, né?

P/1 – E em relação a... Eu queria falar com você a respeito do Acervo Bajubá que entrou para a Casa 1, em 2019. Como isso aconteceu? 

R – Bajubá é uma outra iniciativa do Bruno. Ele já conhecia o trabalho do Remom [Bortolozzi], já fazia algumas coisas com o Bajubá e aí veio esse desejo de fazer muita coisa. Fizemos uma açãozinha aqui, uma açãozinha ali e aí Remom abriu o apego dele, porque ficava esse acervo lá na casa do Remom mesmo e aí ele veio. Inclusive, o Bajubá é no meu quarto, onde eu morava, e aí hoje a estrutura toda é do Bajubá, o acervo está lá. Ah, e eu sou muito suspeito para falar porque é um bagulho que eu tenho uma admiração e um carinho gigantesco. Eu acho uma coisa absurda. Eu ainda faço uns “freelas” de jornalismo e agora, mês do Orgulho, todo mundo vem com duzentos e cinquenta paus dos LGBTs para eu fazer, e aí eu falo: “Remon, vamos lá, preciso de você, fonte pesquisadora, fala da bandeira”. É um inferno, porque às vezes é um 'trampo' muito pequenininho, que eu preciso de uma linha, de uma frase e eu fico duas horas com ele, porque ele fala: “Não, porque aqui era nesse contexto”, então ele puxa publicação, mostra, a gente vai lendo e vai olhando. É foda. Pelas minhas experiências de educação muito ruins, dos espaços de educação muito ruins, eu sou muito antiacadêmico e muito resistente às práticas acadêmicas. Então, eu nunca fui, depois eu não fui fazer pós, mestrado, doutorado; é sempre uma coisa bem vergonhosa quando me chamam para a mesa. Que é isso, né? Fulano é doutor de não sei o que, pesquisador de não sei o que lá, de não sei que lá e tem lá o Iran, é organizador da Casa 1. Nunca tem tudo, mas o Gui Mohallem, do gótico, costuma falar, ele fala assim: “Bi, sua faculdade vale muito mais do que qualquer título de doutor”. E tem isso: eu aprendi demais, em cada sentadinha de duas, três horas do Remom, eu tenho certeza que bati seis meses num currículo de uma graduação de História, sabe, de qualquer curso (risos) profissionalizante. Então, é uma coisa muito linda. O Bruno acompanha muito mais,  teve o "Passagem Só de Ida", recente, que foi um desdobramento do acervo, e da equipe do acervo, de pensar a memória dessas pessoas LGBTs que migraram para a cidade de São Paulo. A gente tem duzentos e cinquenta milhões de projetos. Infelizmente, memória e acervo são áreas completamente desprezadas pela nossa sociedade. Bom, se eu tivesse que dar um exemplo: a Cinemateca brasileira, né? Ponto. E um segundo momento é o próprio acervo do Oficina, que não foi uma das coisas... Quer dizer: o acervo, hoje, dele, está dentro do próprio teatro, que tiveram que tirar às pressas, porque durante a pandemia, a casa de produção onde ficava esse acervo teve que ser entregue, tanto por falta de grana, quanto porque uma incorporadora comprou o prédio, a casa onde era o acervo do Oficina. Então, é uma luta. Aí eu fico muito feliz da gente... Até brinco com o Remom, que eu falo: “Remom”... Eu falo mais para o Bruno, mas acho que eu já falei para o Remom: “Bruno, eu quero que a gente arranje um outro lugar para ser o galpão, para o Bajubá tomar conta aqui. Quero ter um galpão de acervo". Quem sabe, minhas megalomanias até agora deram certo, vamos ver se eu consigo mais essa.

P/1 – E, além desse plano de ter um galpão só para o acervo do Bajubá, você... Que projetos você pensa para o futuro da Casa 1?

R – Planos? Vou tentar resumir o máximo possível, mas é meio [o jogo de tabuleiro] War, meio Banco Imobiliário: eu quero conquistar cada vez mais territórios, né? Vamos falar na ordem um pouco mais prática recente, com essa configuração, reconfiguração do galpão. E aí também a gente, durante a pandemia, adaptou,  como eu falei desse espaço, mas também está num processo de reforma da parte do salão, que é a parte que tem o curso de maquiagem e cabeleireiro, a gente conseguiu um patrocínio da Renner para fazer. Junto com isso, a gente está trabalhando na finalização da nossa cozinha comunitária. Então, a gente vai abrir uma... Na volta, pós-pandemia, a ideia é que a gente tenha uma cozinha comunitária, o salão virar um espaço de costura mais ampliado e o estúdio continuar [com] os atendimentos. Então, a gente falou que o galpão virou praticamente o Senai das bichas. Virou um espaço mais fixo, porque uma característica do galpão era que a gente montava e desmontava as coisas, trocava e cada dia que você vinha, estava de um jeito e tal. Só que a gente falou: “Cara, com a pandemia não existe essa possibilidade, tem que ser isso e aqui tem que ser isso, porque a gente precisa limpar e organizar, precisa ter esse processo” e funcionou. Aí a gente gostou e a ideia, a premissa, é que o galpão vire esse espaço, mais sólido, de cursos profissionalizantes, de atividades e de atendimento de 'pop' rua. Porque lá em cima, onde era o paliativo, era uma salinha muito pequenininha, que a pessoa só pegava as coisas e ia embora mesmo. Aqui tem uma sala de atendimento, a gente consegue, então uma coisa da cozinha comunitária, a gente quer pensar em cursos que atendam essa 'pop' rua também, né? Então, vai ter isso. De um plano imediato e desejo meu é conseguir um quarto espaço, para migrar essa parte de programação socioeducativa, exposições, peças, aulas, essas crianças correndo no meio, crianças travesti, velha, todo mundo junto, circulando junto, então, a princípio. Eu tenho um desejo muito grande de dois projetos acoplados à Casa, que é a lavandeira pública, para 'pop' rua conseguir ir tomar banho e lavar roupa. E o plano da cooperativa de pessoas trans que, hoje, é um dos projetos que a gente entende que dá para atender as demandas de mulheres trans, travestis, em situação de extrema vulnerabilidade e risco. Porque já existe o processo de reciclagem e fazer o atendimento, o próprio Recifran, na Liberdade. Esses são desejos do meu coraçãozinho, que já foram escritos em editais e não aprovados, mas que a gente quer continuar tentando. São desejos de Iran, pessoa física, porque temos um conselho gestor, temos um grupo financeiro, um conselho financeiro. Hoje, nada mais é feito a partir do meu desejo, ele é feito a partir de decisões ali, mais coletivas. Mas meus desejos imediatos mesmos são essas três grandes ampliações de projeto, né? Ah, mas agora, ideia, a gente pode ficar mais três horas, que eu consigo dar mais um monte de ideias de coisas que eu queria.

P/1 – Passando por seus planos pessoais, que sonho você, Iran, tem para o seu futuro? Com o que você sonha?

R- Depois que eu falei tudo isso, lindamente, sobre a Casa 1 etc., você me perguntar o meu sonho: é não ter que mais pisar na Casa 1. (risos) Na verdade, todo mundo fala assim: “Ai, como você se sente, você se orgulha?” e eu falo que eu me arrependo todos os dias da minha vida. Se você me perguntar se eu faria de novo? Faria (risos) e continuaria me arrependendo todos os dias. Cara, eu amo o trabalho, minha vida e ter conseguido criar um espaço onde eu vivo com as pessoas que eu quero viver e com pessoas plurais, com processos, mas a conta que vem junto é bem alta. Viver na pluralidade e num espaço onde não é um encastelado de classe, significa viver exposto e vivenciando a violência de uma forma muito brutal, né? Então, se você me perguntar quantas pessoas eu conheço que morreram nos quatro anos, talvez seja um número maior de pessoas que eu conheci e são pessoas próximas, sabe? Eu acho que conheço mais pessoas que morreram, do que pessoas que estão vivas. A gente... Isso é muito difícil, você... Teve muita gente que morreu de Covid, 'pop' rua, morreu muita gente, famílias do bairro, vizinhos, não de Covid, mas tivemos algumas mortes de ex-moradores e moradoras. É muito complexo… Você vendo um trabalho onde pessoas que você conhece, pessoas que atende, morrem de facada, de paulada, pessoas que morrem em decorrência do HIV-AIDS por um descaso do Estado, pessoas que morrem, que se suicidam, tiram a própria vida por um descaso de saúde mental, violência policial, sabe? Você conhecer tantas pessoas que são presas injustamente. É uma conta alta para caralho. E outros processos também muito mais burgueses que são complexos. 

Hoje em dia muitos dos debates identitários me esgotam, eu já não aguento mais, sabe? (risos) Os rumos são muito complexos, se você não concordar com muitas coisas que os movimentos sociais estabeleceram como pauta, como políticas e formas de tocar as coisas. A coisa da representatividade e a coisa da... Não só a representatividade, mas da coisa do protagonismo, que é uma coisa que me incomoda demais, eu acho que minha luta é para não existir protagonista, minha luta não é protagonismo de nenhuma pauta identitária, sabe? Eu acredito demais na representatividade política e de corpos, mas acho que o debate de representatividade é feito de uma forma tão pobre e tão simplista, que é isso, né? Eu sou um ativista pelo movimento de candidaturas políticas LGBTs, faço parte do Vote LGBT há seis anos e do #MeRepresenta. Mas representatividade política é representatividade de pauta também. Olha quantas candidaturas LGBTs a gente teve eleitas, que são conservadoras e anti-LGBT: a gente tem o Fernando Holiday, o Thammy, o Douglas, uma série de candidaturas. Mas é isso, esse discurso repetitivo à exaustão da representatividade levou a chegar nisso. E aí tem hora que eu me 'emboceto' (risos) e fico muito puto. A própria coisa da linguagem neutra, é uma coisa que eu debato muito, falo: “Cara, vem aqui na Casa 1, vê quem são as pessoas que a gente atende”, entendeu? Eu não vou usar LGBTQIA+, desculpa, eu não vou usar “todes”, né? Olha, é que é todo mundo, as pessoas estão num outro contexto, é um outro grau de vulnerabilidade, é um outro...  Debate de linguagem neutra é um debate elitista para caralho, fascista para caralho. Aí esses debates estão cada vez mais fortes e nem eu, nem a Casa podemos fazer críticas. O movimento LGBT, os movimentos identitários tem pouquíssima autocrítica, assim como a esquerda em geral. E é muito difícil, porque cada pensamento revoltado seu, você pensa: “Estou sendo reaça, será que eu virei aquela curva de virar a bicha velha reaça?”, sabe? Isso acontece bastante, mas aí você pensa: “Não, é bom senso”, (risos) sabe? Eu não estou falando que tem que matar, que tem que prender, não estou falando, só estou falando: “Cara, a gente precisa rever nossos caminhos”. E é difícil, é um projeto com, como eu falei, 27 pessoas com entendimentos diferentes desse projeto e se você perguntar para as pessoas, vão ser outras perspectivas, né? Então, é muito difícil. Se você perguntar meus planos de pessoa física, talvez, eu queria um emprego formal, com uma jornada de trabalho certinha, onde eu tivesse que entregar certinho e receber um bom salário no final do mês, para poder descansar, para poder ir viajar e para poder fazer outras coisas. Então, hoje, nesse momento, talvez, eu esteja meio "mood" e esse foi meu "mood". Uns vinte dias atrás, eu estava assim, [no] Linkedin, procurando vaga de trabalho: “Para mim já deu, eu não aguento mais a Casa1, eu não aguento mais o movimento LGBT, mata todas… Odiar gay não é homofobia, é inevitável" e aí dormi. No dia seguinte, eu estava fazendo uma entrevista, estava fazendo uma reunião, falei: “Gente, se a gente pensasse num quarto espaço para a Casa 1?”. Aí o Ângelo, meu marido, falou: “Caralho, ontem você estava procurando emprego, você não aguenta mais. Como hoje você já quer abrir outra casa, sabe? Decide o que você quer da sua vida”. Eu falei: “Ai, não sei”, que é isso. Aí eu penso: “Pô, é óbvio que eu tenho capacidade técnica para trabalhar com diversidade dentro de uma multinacional, tenho, mas eu aguento?", sabe? Eu não sei se eu aguento, (risos) porque minha vida é outra coisa, já é outro lugar, outra luta. Então, não sei aí [é] muito… E é isso. Eu já extrapolei o tempo de novo. Eu falei: falo demais, gente.

 

P/1 – Bom, então vamos para última pergunta. Continuaria muito... Teria muitas outras coisas para te perguntar, mas vamos encerrar com a última pergunta: o que você achou de contar a sua história para o Museu da Pessoa?

R – Para quem fala bastante, né? É... Estou pensando... Eu achei um negócio bem louco, na verdade, porque é quase uma terapia. (risos) Você vai passar ali o resto da sua vida, aí entende como muitas coisas se encaixam. Eu faço análise, psicanálise lacaniana, que é toda baseada em cima da perspectiva da fala. Foi um sentimento muito louco e muito contraditório para mim. Eu respondi o convite de vocês de forma muito rápida e foi sempre uma coisa… Se não me engano, o convite veio: “Chegamos no seu nome.” É bastante comum acontecer o “chegamos no seu nome” e eu sei que as pessoas chegam no meu nome, mas é muito difícil, porque eu não sou uma pessoa pública, não gosto de ser uma pessoa pública e não gosto de falar... Adoro falar, mas (risos) eu não sou uma pessoa que… Eu gosto de dar entrevistas, gosto de receber prêmio, gosto de estar nos lugares? Eu não gosto! É um exercício, do tipo, toda vez é: “Ah, vou lá dar entrevista, vou lá fazer o negócio”. O problema é que as outras pessoas que acompanham a Casa odeiam muito mais do que eu e, por eu ter essa bagagem de comunicação, consigo fazer, né? E eu acho muito louco as pessoas terem essa referência, pelo fato de eu trabalhar com muita gente foda, conhecer muita gente foda e ter tido esse privilégio de conhecer gente que construiu coisa muito maravilhosa, mesmo tendo consciência do que eu fiz, do que eu construí, o motivo de ter chegado até mim eu ainda acho que não é suficiente. Eu não acho que... Hoje tem o nome de síndrome de impostor, que é um novo nome dado a essa questão, que eu não acho que nem é o caso, porque eu sei que eu sou ótimo, que eu falo bem, que eu tenho ideias ótimas. Não tenho essas falsas modéstias, essa síndrome de impostor. Mas eu, efetivamente, acho que poderia fazer mais. E aí falar, contar e narrar essa trajetória. 

Ao longo do processo, eu percebi, que é uma coisa que já tinha percebido em terapia, (risos) que dinheiro é uma coisa muito forte na minha vida, que permeia demais na minha vida. Ser gay vai surgir muito ao longo de narrar a minha vida. Então foi uma sensação muito louca de perceber essas coisas e aí eu fiquei pensando durante o processo também, que loucura para vocês isso, né? De ver todas essas histórias e de conversar com todas essas pessoas, entender tudo isso. E eu fiquei ansioso para ver o resultado geral das coisas, sabe? Eu já acompanho, obviamente, um pouco o trabalho, mas eu gosto, e eu tenho muitas obsessões. Isso não surgiu em nenhum momento, mas sou uma pessoa obsessiva, para além da questão patológica, mas, por exemplo: eu tenho obsessões com betoneiras em todos os seus contextos, fotos, vídeos, brinquedinhos com betoneiras, com a Fundação Cacique Cobra Coral, com a Lily Safra; eu tenho obsessão com biografias, aí eu leio muito e gosto muito de saber as histórias das pessoas. Então, o Museu da Pessoa é um projeto que me encanta muito por causa disso. É isso: metade, talvez metade da minha biblioteca sejam biografias e não estou 'pagando' uma de "cult", que gosto de ler a biografia da Clarice Lispector, do Benjamin Moser. Gosto também, mas adoro "Identidade Frota", sabe? "A Minha Vida de Prefeita", da Suplicy. Dá uma biografia vagabunda que eu amo, eu amo aquelas claramente "ghostwriter" bem chumbrega, adoro! Eu amo saber a vida das pessoas e é isso! Não sei se respondi, mas acho que foi isso.

 

P/1 – Respondeu, sim. Gostaria muito mais, mas ______ o tempo, né? Mas, Iran, muitíssimo obrigado pela entrevista pessoalmente e do Museu da Pessoa também. Obrigado!

 

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