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Resgate e Ação Humanitária em Brumadinho - 2019

História de: Bernardo Eliazar Mattos
Autor: Bernardo Eliazar Mattos
Publicado em: 04/12/2019

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Vinte e cinco de janeiro de 2019. Sexta-feira, horário do almoço. Ainda me lembro das cores do dia, do clima daquele início de tarde, em Belo Horizonte, quando a mensagem chegou. Mais um rompimento de barragem. Dessa vez em Brumadinho, ainda mais perto do que Mariana, cidade que também enfrentou o mesmo tipo de desastre em 2015 e onde nós tínhamos, até então, realizado a nossa ação de maior urgência em 105 anos de história. Meu nome é Bernardo Eliazar e sou diretor de Projetos e Captações na Cruz Vermelha Brasileira – Filial Minas Gerais. Também atuei na fundação e desenvolvimento da equipe especializada de Emergência, Assistência, Resgate e Socorro (EARS) da instituição. Desde novo, sou motivado pelos desafios e por tudo que me lance para além da expectativa do conforto. Foi assim a descoberta da paixão pelo voluntariado, o resgate, os primeiros socorros, o salvamento de vidas e o trabalho humanitário. Minha primeira ação de grande aprendizado na Cruz Vermelha foi o atendimento às vítimas das enchentes na região serrana do Rio de Janeiro, no início de 2011, durante aquele que foi considerado o maior desastre climático da história do Brasil. Em Mariana, na tragédia de Bento Rodrigues, fomos os primeiros a alcançar algumas das vítimas que estavam ilhadas, isoladas pela lama da barragem. Em Brumadinho, chegamos à zona quente da tragédia com ainda mais agilidade. Éramos 50 socorristas, em veículos 4x4, prontos para chegar onde precisávamos. Porém, ninguém esperava um cenário tão impactante. Os rejeitos que desceram da mineradora, que alcançaram um refeitório com muitas pessoas dentro, várias outras unidades da empresa e também as comunidades vizinhas formavam um rio de destruição que parecia impossível de vencer. Participamos desde então, com o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, de um resgate exaustivo, massacrante, com uma intensidade física e dificuldade técnica que requeria, de nós, alcançar o nosso limite. Entramos na lama, atuamos com cães farejadores de vários países, utilizamos todos os conhecimentos técnicos que tínhamos e ainda precisamos aprender muitos outros durante dias e noites de nenhum sono e muita ação. Para além disso, a Cruz Vermelha de Minas Gerais também atuou desde o início no cadastro das vítimas e familiares, na entrega de doações, na evacuação das populações que ainda estavam em risco. O contato com as pessoas de Brumadinho, o atendimento às suas vulnerabilidades, angústias, foi naquele momento tão ou mais difícil do que o resgate em si. Ninguém consegue dimensionar o impacto de uma tragédia como essa e os efeitos que se apresentam a curto, médio e longo prazo. Para nós, Brumadinho tornou-se, além de tudo, em um sinal de alarme para que nos desenvolvêssemos ainda mais. Após a tragédia, tomamos a decisão de reformular todo o nosso departamento de voluntariado e primeiros socorros, a investir em um projeto de aprendizado na área psicossocial, a entender quais sãos os nossos limites e perspectivas para fazer o que fazemos. Entendemos a necessidade da Cruz Vermelha de Minas estar preparada de forma integral para grandes desastres e de lidar com uma nova realidade, ligada agora ao risco de novos rompimentos de barragens em outros pontos do estado. E para além disso, avançamos também em todas as outras áreas em que atuamos, como a assistência social, as campanhas de saúde preventivas, as ações de solidariedade e promoção da cidadania. Com toda essa movimentação que tivemos em 2019, tive o orgulho de receber em nome da Cruz Vermelha, uma condecoração do Ministério Público de Minas Gerais pelos trabalhos prestados pela instituição. A Cruz Vermelha é um movimento internacional que, há mais de 150 anos, tem a missão de atenuar os sofrimentos humanos onde quer que estejam. Aprendi em Brumadinho, após tudo o que já havia acontecido em Mariana, que essa missão é um jogo confuso do previsível e do imprevisível. Raios caem duas vezes nos mesmos lugares, tragédias se repetem, o evitável, muitas vezes, não se evita e caberá a nós estar lá para lidar com os resultados. Aquele vinte e cinco de janeiro estará em mim por muito tempo. E será assim, dormindo e acordando sob o alerta que Brumadinho nos deixou, que poderemos fazer mais e melhor se acontecer de novo. Ser voluntário é estar permanentemente de olhos abertos. Para enxergar o mal que devemos amenizar. Mas também o bem que podemos fazer.

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