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História

Renata, do Leblon à Rocinha

História de: Renata de Jesus Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/07/2010

Sinopse

Em sua entrevista, Renata narra o período de sua mudança na sua adolescência do Leblon para a Rocinha, logo após a morte de seu pai. Conta sobre sua vida na Rocinha como contadora e administradora de um salão de beleza, criado junto com sua irmã e sobre o desafio de criar a filha portadora de paralisia cerebral que estuda na escola Marly Fróes, uma instituição exclusiva para crianças especiais no Jardim Botânico.

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História completa

P/1 – Queria que você começasse a entrevista dizendo seu nome completo, o local e a data de seu nascimento.

 

R – Meu nome é Renata de Jesus Silva, tenho 31 anos e nasci no Rio de Janeiro.

 

P/1 – E onde você mora, atualmente, Renata?

 

R – Eu moro na Cachopa, aqui na Rocinha mesmo.

 

P/1 – Desde quando você mora lá?

 

R – Tem uns 16 anos, vim para cá com 15 anos, mais ou menos.

 

P/1 – Você veio de onde?

 

R – Eu morava no Leblon, nasci e fui criada no Leblon.

 

P/1 – Você veio com a família?

 

R – É, minha família toda veio pra cá, minha mãe e minhas irmãs.

 

P/1 – Você veio por quê?

 

R – Meu pai tinha uma casa aqui e a gente resolveu vir pra cá, depois que ele faleceu, entendeu? Até mesmo porque meu pai é que sustentava a casa, e como tinha essa casa, a gente preferiu vir prá cá.

 

P/1 – Aí, onde você morava era melhor ou pior? Como é que era?

 

R – Bom, eu era pequena, então, pra mim, lá era melhor. Agora, aqui, eu já me acostumei.

P/1 – E atualmente, quantas pessoas moram com você?

R – Somos eu, minha mãe, a minha irmã e minha filha.Desculpa, é que em cima mora a minha irmã, embaixo mora a minha outra irmã, mora todo mundo junto. É um prédio [risos].

P/1 – A casa é de vocês?

R – É nossa.

P/1 – Vocês mesmos construíram?

 

R – Isso.

 

P/1 – Você já teve algum problema com fiscalização, com moradia?

 

R – Não.

 

P/1 – E a relação com os vizinhos, como é que é, como é a vizinhança?

 

R – A vizinhança lá é tranquila, assim, são as mesmas pessoas de quando eu cheguei então a gente conhece todo mundo desde pequeno. Às vezes muda um ou outro, mas são sempre aquelas mesmas pessoas. Tem nossos horários, lá é um silêncio, depois das dez, porque são as mesmas pessoas, e já pessoas antigas, senhoras já. Então, é tranqüilo [risos].

 

P/1 – E, Renata, você já participou em algum momento de algum movimento, de associação de moradores, de movimentos de habitação?

 

R – Não.

 

P/1 – Aqui na Rocinha?

 

R – Não.

 

P/1 – Nunca participou?

 

R – Não.

 

P/1 – E a relação com os Governos, Prefeituras, Estado, você já teve alguma experiência?

 

R – Não, nunca tive experiência e nenhum problema, graças a Deus [risos].

 

P/1 – Você me disse que você é casada?

 

R – Solteira.

 

P/1 – Solteira, mas tem uma filha?

 

R – Tenho uma filha de nove anos.

 

P/1 – Nove anos. E ela estuda aqui mesmo?

 

R – Estuda no Jardim Botânico, Marly Fróes. Ela é especial, e estuda lá.

 

P/1 – Ela foi estudar lá por ela ser especial?

 

R – É, porque lá atende crianças especiais, entendeu? Lá atende somente crianças especiais, que não andam, não falam, que andam em cadeira de rodas, essas coisas assim. Ela não usa cadeira de rodas, mas ela foi prá lá porque ela é uma criança PC, paralisia cerebral.

 

P/1 – Aqui na Rocinha não tem?

 

R – Até tem, mas assim, as crianças são maiores, e a minha ainda é pequena, entendeu? E lá, o pessoal, as crianças também são pequenas, primeira série, são crianças mais novinhas.

 

P/1 – Ela está em que série?

 

R – Ela está na primeira.

 

P/1 – E ela fica até quando nessa escola?

 

R – Até, como assim?

 

P/1 – Até que série.

 

R – Lá eu acredito que seja até a quinta, a primeira quinta série. Lá eles trabalham com criança da noite, assim, também, criança de noite, noturna. Acredito que tenha a sexta até a oitava a noite, entendeu?

 

P/1 – Você trabalha?

 

R – Trabalho.

 

P/1 – O que você faz?

 

R – Eu tenho um salão de cabeleireiro, eu e a minha irmã. Eu sou da parte da contabilidade e administração.

 

P/1 – Mas você não corta cabelo?

 

R – Não, minha irmã que faz essa parte [risos].

 

P/1 – Já cortou alguma vez?

 

R – Não. É a parte, assim, eu prefiro mais a administração mesmo. Eu gosto.

 

P/1 – Mas você estuda ou já estudou?

 

R – Eu fiz o segundo grau completo e não terminei a faculdade de Administração, fiz um pouquinho o primeiro período, só.

 

P/1 – Você parou por quê?

 

R – Porque aí eu tive que fazer uma viagem, outro trabalho que eu tinha e não deu para continuar. Quando eu voltei, um ano depois eu fiquei grávida da minha filha. Então, aí foi indo, foi indo, e não acabou [risos].

 

P/1 – Mas não quer voltar?

 

R – Quero, falta tempo. Agora, mais do que nunca, falta tempo [risos].

 

P/1 – O salão é bem movimentado?

 

R – É, graças a Deus. A gente está aqui há dois meses, mas onde era antigamente, na curva do S, nossa era muito melhor.

 

P/1 – Onde era?

 

R – Na curva do S. Um pouquinho mais pra cima. Era mais movimentado. E os clientes estão vindo atrás da gente, que bom, né? Então, a gente está precisando de um espaço maior, a gente está mudando para outro espaço pra pegar todo mundo. Fica muito cheio, graças a Deus [risos].

 

P/1 – Tem muitas histórias de salão? Muita gente?

 

R – Ah, sempre tem, né? Cada um que chega traz uma história diferente. É bom [risos].

 

P/1 – Vocês fazem cortes inovadores...

 

R – Cortes...

 

P/1 – Criam moda aí na Rocinha?

 

R – Cortes, tranças, (anagros?), dread, tudo...

 

P/1 – Fazem tudo, tudo o que pedir... 

 

R – Tudo o que pedir a gente faz.

 

P/1 – Renata, então a gente já vai terminar. Como é que você vê o seu futuro?

 

R – Ai, eu vejo tanto, me preocupo muito com o meu futuro. Acho que mais pela minha filha do que por mim mesma. Mas eu a vejo crescendo, crescendo mais e mais, em busca do melhor. Sempre em busca do melhor, sem passar por cima de ninguém.

 

P/1 – Você pretende continuar morando aqui na Rocinha?

 

R – Pretendo, eu gosto daqui. Eu só mudaria o lugar onde eu moro porque é muito alto. Eu iria mais pra rua, mas continuaria aqui, eu gosto daqui. Minha filha gosta daqui, todo mundo gosta daqui.

 

P/1 – O problema maior seria a localização, então.

 

R – É. Até porque tendo a minha filha especial, hoje eu a carrego, amanhã ela está grande e eu não vou poder carregar. Então seria melhor mais perto da rua. Um lugar mais próximo, que eu possa pegar um ônibus mais próximo, do que descer e subir ladeira.

 

P/1 – Você quer deixar ou falar mais alguma coisa pra finalizar.

 

R – Não [risos]. Tudo bem.

 

P/1 – Só isso, então. Obrigado, Renata [risos].

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