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História

Renata Birello: Donnas empreendedoras

História de: Renata Cristina Moreto Birello
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/03/2021

Sinopse

Identificação. Infância no Bairro Bela Vista em Bauru. Memórias dos avós espanhóis e italianos. Relato da imigração italiana do avô Amadeu Ferdinando Moreto. Amizades e brincadeiras na escola Professor José Aparecido Guedes de Azevedo. Lembrança da venda de chinelinhos de sua mãe, Clarice Moreto. Passagem pelo time de Vôlei BAC, treinadora Amabile. Compromisso católico na Pastoral da Juventude, a Paju, e catecismo na Igreja Santo Antônio. Adolescência, escola Objetivo e início de namoro. Primeiro emprego na Unimed aos 19. Casamento em 2000. Desafios na empresa Campneus por ser mulher, de 2000 à 2013. Tratamento cuidadoso da primogênita Maria Júlia, após descoberta de cardiopatia em 2004. Cirurgia da filha em 19 de janeiro de 2007. Desenvolvimento de síndrome do pânico e hipocondria por estresse pós-traumático e demissão. Reinvenção aos 40 anos: Faculdade de administração. Dificuldades de inserção no mercado de trabalho por preconceito etário e machismo. Admiração pela mãe e sua luta para melhorar a vida em família. Valorização das mulheres empreendedoras. Criação do Donnas Empreendedoras, rede de negócios de mulheres. Pandemia e isolamento. Perda da mãe. Desafios da nova era tecnológica nos negócios. Orgulho dos caminhos escolhidos pelas filhas Maria Júlia, 19, como advogada e Maria Clara, 14, cantora e compositora. Agradecimentos.

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História completa

          Sou Renata Cristina Moreto Birello. Eu nasci em dezembro de 1972 em Bauru e cresci aqui também. Meu pai é Amadeu Fernando Moreto, um trabalhador desde muito cedo. Ele veio da Itália, filho de imigrantes, e morou muito tempo no sítio. Depois, vieram pra cidade, e ele sempre trabalhou na indústria. Minha mãe também morou no sítio até a juventude e veio pra cidade já adolescente, mas sempre foi uma empreendedora e a minha maior inspiração. Ela é Clarice Mariano Moreto, e ele, Amadeu Fernando Moreto.

          Eu nasci na Bela Vista e tive o privilégio de ter uma infância de brincadeiras de rua, muito feliz, tranquila. Brincava na frente da minha casa, onde tinha um terreno muito grande, que hoje é o UPA da Bela Vista. Eu estudei também na Bela Vista, no Colégio Professor José Aparecido Guedes de Azevedo. Fiquei até o meu oitavo ano, quando fui para o colégio particular, no Colégio Objetivo. E a minha avó era muito conhecida na Bela Vista, bairro tradicional de Bauru. Era benzedeira e se chamava Isabel Moreto. Muitas pessoas, até hoje, lembram dela. 

          Era época de ir ao BAC (Bauru Atlético Clube), um clube muito importante na formação da minha geração, tanto na área de lazer, como nessa parte de esporte. O BAC tinha um grupo, um time de voleibol feminino muito forte na época. E quem, da minha idade, da minha geração, não frequentou as domingueiras do BAC? Momentos deliciosos que eram as domingueiras.

          Quanto à profissão, a ideia era terminar o colégio e trabalhar. Eram poucas as pessoas que escolhiam um curso, ainda. A situação financeira já fazia com que a gente ingressasse rapidamente no mercado de trabalho, assim que terminasse o ensino médio. E foi o que aconteceu comigo: terminando o ensino médio, eu consegui meu primeiro emprego com 19 anos e fui trabalhar na Unimed daqui de Bauru - foi meu primeiro emprego de registro. E nessa época eu já namorava, e era um namoro meio maduro que vinha desde os 15 anos; hoje, ele é meu marido, o Adriano.

          Aí veio a informatização, e eu fui desligada, passando para o Sindicato dos Comerciários. Fiquei lá até quando eu casei. Eu casei em 2000. De 1995 a 2000 eu fiquei no sindicato. E este é um preconceito também que a mulher sofre no mercado de trabalho: quando você marca o casamento, quando a pessoa percebe que você vai entrar numa maternidade, muitas de nós temos o desligamento, por conta desse medo.

          Aí, eu esperei meu casamento acontecer. Quando foi em junho – eu casei em maio –, eu já estava empregada numa outra empresa, completamente fora de tudo que eu já tinha trabalhado na vida: eu fui trabalhar na Campneus, uma empresa de venda de pneus. Eu fui contratada como a primeira televendas no setor de atacado. Era venda de pneu de linha pesada, de caminhão e implementos agrícolas. A gente vendia somente pra empresas grandes, transportadoras, usinas e revendas. Era um trabalho completamente dominado pelos homens, (risos) e eu cheguei lá como mulher e sofri muito preconceito no começo, pois estava num mercado muito machista, dominado pelos homens. E eu trabalhei lá até 2013, por 13 anos nessa empresa. Consegui me tornar uma referência em venda de pneu.

          Aí, quando minha filha Maria Júlia tinha três anos de idade, nós descobrimos uma cardiopatia nela, numa consulta de urgência, por conta de uma dor de ouvido. A gente acabou tendo que levá-la todo mês pra São Paulo. Teve que fazer uma cirurgia complicada, e eu desenvolvi um trauma muito grande. A gente sabe que foi um milagre, porque foi tudo muito difícil, mas ela ficou boa. Só que eu tive um tipo de um infarto, que na verdade foi uma crise de pânico, foi um estresse pós-traumático, como os médicos diagnosticaram. Passei dois anos trancada dentro de casa, tendo crises de pânico diariamente. Então, foram dois anos muito difíceis da minha vida, e eu perdi o emprego, lógico.

          Aí veio a história da Donnas. Eu percebi que eu estava desempregada, mas eu tinha medo de voltar pro mercado de trabalho tradicional e voltar a ter crise de pânico, comprometer uma empresa. Então, quando os medicamentos começaram a fazer efeito, fui fazer a minha faculdade. Com 40 anos, fiz a minha faculdade de Marketing e lá eu descobri uma paixão imensa pela reestruturação empresarial, organização, essa parte de consulta organizacional mesmo.

          Fui trabalhando com esse tipo de consultoria, de networking. Só que a maioria das pessoas que me procuravam pra consultoria era de mulheres. E essas mulheres sempre me pediam referências, indicações de outras profissionais. Por exemplo: você está numa empresa, você sugere que a pessoa abra uma janela ali, pra ela poder ver o pátio, a produção. Fica mais fácil pra você ver a produção. Aí ela pergunta: “Renata, que legal, eu vou fazer isso. Você conhece uma arquiteta pra me indicar?” Então, eu passei a montar um grupo de mulheres empreendedoras que trabalhassem conjuntamente, uma indicando a outra ou passando trabalho pra outra.

          E foi quando começou a surgir o grupo Donnas, que veio dessa necessidade de ter essa rede, esse fortalecimento, pra criar essa estrutura que é benéfica pros dois lados. Ninguém perde. Eu montei um grupo só de mulheres, pra realmente apoiar o empreendedorismo feminino, pra poder fortalecer essa troca de indicação entre mulheres, essa sororidade que se fala tanto hoje - só que na prática. E o que é o empreendedorismo feminino hoje, no meu ponto de vista? Essa mulher, que às vezes está dentro de casa, como eu precisei ficar, sem uma referência de mercado de trabalho, de retornar, ela acaba se inventando ali, dentro das paredes da sua casa. Algumas começam pela culinária, vão fazer doce; outras costumam ir pra costura; outras, para o artesanato, mas o empreendedorismo feminino nasce dentro da casa da gente, na maioria das vezes.

          Hoje, no nosso grupo eu tenho desde as grandes empreendedoras, que têm clínicas conceituadas, e tenho aquela que confecciona artesanato dentro da casa dela. E eu vejo as duas com o mesmo olhar, com o potencial de mudar o mundo. Porque elas estão mudando, primeiro, o mundo da casa delas. E aí ela vai mudar um ser humano que vai também ser melhor lá fora depois. Então, hoje, o Donnas vem pra trazer esse apoio à mulher empreendedora, que muitas vezes não se vê como empreendedora. Ela acha que é a segunda renda da casa, um dinheirinho extra, mas muitas vezes esse dinheirinho extra é o que mais conta na vida dos filhos.

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