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Renascimento no Caos

História de: Tiago Palhares
Autor: Tiago Palhares
Publicado em: 02/12/2019

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História completa

Eu estava vivendo um dos momentos mais difíceis da minha vida pessoal e profissional quando meu telefone tocou. Era um chamado de emergência para ajudar no acidente que acabará de acontecer na barragem localizada em Brumadinho. Eu havia me voluntariado junto a cruz vermelha logo após o acidente ocorrido em Mariana, mas jamais esperamos que algo parecido fosse acontecer novamente. Porém, desta vez tinha sido pior, centenas de vítimas estavam desaparecidas e eles precisavam de pessoas capacitadas no menor tempo possível para ajudar na busca por sobreviventes. Eu não me lembro do que eu estava fazendo, só lembro de ter passado em casa para pegar meus equipamentos e rumar sentido a Brumadinho. Demorei cerca de 2 horas para chegar até o local, foram momentos angustiantes, eu recebia notícia pelo rádio do carro, pelo celular, pelos companheiros de Cruz Vermelha que tentavam acessar o local, e as notícias eram cada vez piores. A imagem do cenário de guerra já era compartilhada nas redes sociais e tudo aquilo me anestesiou de uma forma inexplicável. Era impossível acessar o local do acidente, estávamos isolados e ilhados por montes de terra que não paravam de descer. Nessa hora fui levado por alguns jipeiros até o local onde os bombeiros e cruz vermelha estavam se concentrando. Cheguei, encontrei alguns voluntários, e era nítida a expressão de não saber por onde começar. Era uma destruição extensa, sem fim e que tirava das nossas mãos qualquer possibilidade de agir sem qualquer planejamento prévio. Nesse momento veio a primeira grande lição: Mesmo no caos, deve-se encontrar a serenidade, ordem e a paz para lidar com a situação problemática e atingir o sucesso. A calma e a tranquilidade com que os lideres de equipe se posicionavam perante aquele desastre era a confirmação que teríamos um trabalho extremamente difícil e com muitas vítimas fatais. Planos desenhados e equipes definidas fomos para a zona quente em busca de vidas. Ao descer até a barragem eu me lembro do cenário de forma tão viva que chego a sentir o cheiro do lugar. Dezenas de famílias, reporters e curiosos formavam um paredão silencioso que se abria a cada vez que saíamos e chegávamos no local onde estava a nossa base, todos na espera de alguma boa notícia, que nunca vinha. Isso era algo pesado, que me faziam refletir o quanto somos pequenos e fracos perante situações como essa, o quanto temos oportunidades diárias de viver intensamente e feliz, e deixamos isso escapar. Segunda grande lição, seja grato. Noite a dentro continuamos a buscar vítimas, esvaziar casas que estava, em zonas de risco, retirar animais que estavam a deriva nas margens da lama, orientar a população e mapear locais onde as casas estavam debaixo da lama. Eu me lembro claramente de não ter sono, não ter fome ou frio. Fizemos pausas estratégicas para repouso, mas praticamente não interrompemos o trabalho. E assim foram por 48 longas horas. Período onde temos maiores chances de encontrar vítimas com vida. E até então somente tínhamos localizado vítimas fatais. Não existia um local sequer para dormir confortável, tomar banho ou se alimentar, e nesse momento eu fui tocado por almas de outros mundos. É a única definição que encontro para pessoas que abriram as portas das suas casas para que pudéssemos ter um mínimo para recarregar as energias e voltar ao trabalho. Lembro bem da dona Leila, que abriu uma pacote de macarrão, o único que ela tinha, uma lata de sardinha e fez um jantar para a gente. Essa foi a primeira vez que chorei. Tudo veio abaixo. A solidariedade dela me provou que quanto menos se tem, mais sábio e puro é o ser. Ela em momento algum se importou em ficar sem comida ou que pudéssemos sujar a humilde casa dela de barro, ela só queria nos ajudar a continuar o trabalho. Igual ela tiveram vários, uns levavam água e café, como o Alvimar que estava em uma pousada próximo ao local, ou como o Marcelo que abriu as portas da pousada dele para que pudéssemos usar um vestiário próximo ao campo para tomar um banho ou fazer as necessidades. Me lembro ainda de uma senhora que veio com balde de água para que eu pudesse lavar o rosto que estava cheio de lama. Eu realmente não sei o que seria das nossas equipes se não fossem esses seres iluminados. Entre pausas e revezamentos eu permaneci no local um total de 9 dias. Eu não sei explicar ou traduzir tudo o que significou estar naquele local. Eu jamais seria a pessoa que me tornei sem ter passado por toda essa experiência de vida. Foram dias pesados e exaustivos, que me tornaram alguém mais leve e grato com a vida. O fato de poder ter levado alento a alguma poucas famílias, tornaram um experiência que poderia ser traumática, em algo confortável e recompensador. Porém a maior bagagem de tudo isso foi a minha evolução espiritual e social. Eu sou extremamente grato pela oportunidade de ter sido um voluntário em um momento que entrou para a história como um dos maiores desastres do mundo e que mudou tantas vidas para sempre, inclusive a minha.

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