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Remy Tour: a história de um egípcio-brasileiro que rodou o mundo

História de: Kamel Remy Doss
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/12/2017

Sinopse

Kamel Remy Doss, mais conhecido como Remy, nasceu no Egito no final da Segunda Guerra Mundial. A família católica, de pai egípcio e mãe italiana, sentiu-se em risco quando o presidente Abdel Nasser assumiu o poder. Emigrou para o Brasil quando Remy tinha 15 anos. Desde então Remy viaja pelo mundo, a trabalho ou a turismo. Teve experiências maravilhosas e outras de forte tensão, que ele conta como quem passeia. Vamos junto?

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História completa

Fui o único, na minha família, a nascer em Suez. Na minha infância, eu gastava toda a mesada comprando selos: era um colecionador. Mas quando fomos sair do Egito, o policial da alfândega nos revistou e achou que meus selos valiam muito dinheiro, que meu pai estava fugindo do país com dinheiro, e confiscou meus álbuns. Pensei que nunca mais fosse mexer com isso, mas mais tarde comprei todos os selos de volta. Tenho todos os selos do Egito desde 1860. Selo é história. O primeiro selo foi emitido na Inglaterra, em 1842, e em 1843 o Brasil emitiu três selos, chamados Olho de Boi, que é um quadradinho pequeno com forma de um olho, de 30 réis, 60 réis e 90 réis. São os três. Eu tenho o de 30, que eu comprei, o de 20 minha filha me deu de presente no Natal e o de 90 réis eu não tenho.Fora Egito e Brasil, tenho todos os selos do Kwait, Arábia Saudita, Catar, Bahrein, Emirados Árabes e Omã. E coleciono selos novos de Portugal, San Marino, Nova Zelândia e Estados Unidos. Eu tenho inscrição em todos os países árabes, na Nova Zelândia e em San Marino, e eles me mandam todo selo novo e debitam do meu cartão de crédito. Então tenho todos os selos emitidos até hoje.


No Brasil, tivemos de passar um mês num centro de imigração na Mooca, mas logo meus irmãos conseguiram trabalho e alugamos uma casa no Cambuci. Eu comecei a trabalhar como office boy na Philips, e lá conheci o irmão da Vera, que se tornou minha esposa. Quando casamos, Vera tinha 21 e eu tinha 25 anos. Casamos na Igreja São José do Ipiranga. Fomos para Santos passar o fim de semana e na segunda-feira pegamos o voo para a lua de mel na Bahia. Foi uma semana na Bahia e uma semana no interior de Minas Gerais, em Ouro Preto. Porque a Vera sempre me disse que tinha dois sonhos: um deles era conhecer a Bahia e o outro era conhecer a China. A lua de mel foi na Bahia. Mais tarde, a primeira coisa que eu fiz quando fui trabalhar em Dubai, nas férias, foi passar 15 dias na China. Foi a primeira viagem internacional de turismo que fizemos. Fizemos muitas outras, e essa experiência, essa cultura, foi muito importante para ampliar os horizontes das nossas meninas. Temos três filhas.


Metade da minha vida foi entre aviões e hotéis, enquanto isso a Vera tomava conta das crianças e da casa. A minha média era 15 dias fora e 15 dias no Brasil, mas cheguei a viajar por 13 países em 45 dias. Comecei no Senegal e terminei em Angola, na África.


Trabalhei na Engesa, que estava vendendo tanques para a Líbia. Morei um ano e meio na Líbia e esse foi um período traumatizante. Era o tempo do Muammar Kadhafi, a gente trabalhava com o exército, e não se podia dizer nada. Era como se ele estivesse em todos os lugares. Todo quartel tinha uma suíte para ele. E ele dirigia seu próprio carro, um Peugeot velho. A comitiva saía do palácio com moto, e ele saía pelos fundos, então ninguém sabia onde ele estava. De repente ele aparecia naquele quartel para dormir, o apartamento tinha que estar sempre em ordem. Acordava, pegava o carro, voltava para trabalhar. Você não sabia se ele ia voltar. Várias vezes ele esteve no quartel onde eu trabalhava. Isso porque no contrato de venda de 200 tanques Cascavel da Engesa havia a exigência de que 20 mecânicos morassem lá para dar assistência técnica ou garantia dos tanques. Esses mecânicos eram brasileiros que não falavam inglês. Eu fui morar lá para tomar conta desses caras.


Quando cheguei de volta ao Brasil, ligou um colega da GM dizendo que a empresa estava expandindo para os países árabes e um diretor americano queria falar comigo. Na hora do almoço eu peguei meu carro e jupt, para São Caetano. Fui trabalhar com exportação na GM. Comecei a viajar sozinho principalmente para países árabes que estavam comprando carro do Brasil, mas também para a África. E aí tive outra experiência terrível. Não tinha avião direto para Angola, o único jeito de chegar lá era pelo Congo, por Brazzavile. Eu parava no Congo, dormia num hotel uma noite, e saía de manhã para Angola. Uma vez, quando cheguei os hotéis estavam todos lotados, por causa de um Congresso Africano. Eu perguntei ao taxista: “Quanto você vai me cobrar essa corrida? ”. Ele falou: “Cinquenta dólares”. Eu falei: “Você topa ganhar cem? ” “O que eu preciso fazer? ” “Você vai comigo de volta no aeroporto, nós paramos no estacionamento, você dorme na frente, eu durmo aqui atrás, até o aeroporto abrir”. “O senhor permite que eu vá até a minha casa avisar a minha esposa? ”. Eu falei: “Lógico, pode ir tranquilo”. Você sabe a diferença entre medo e pavor? Pavor é desespero. Eu olhando pelo espelho, a cidade menor, menor. Um breu, uma escuridão só. Eu pensei: “O cara sabe que eu cheguei no aeroporto, que tenho dinheiro no bolso. Ninguém sabe onde eu estou, o cara me mata, me corta em pedaços, ninguém vai nem lembrar que eu existo.” Chegamos, ele desceu e eu vi umas velas acesas. Eu falo seis idiomas, e rezei em todos os seis em uma fração de minuto. Cheguei a tremer. Aí o cara saiu, abriu a porta e disse: “Pronto, o senhor me desculpe, minha sogra faleceu e o velório é aqui na minha casa, mas está tudo certo, eu vou com o senhor”. Ele me levou de volta, dormimos no aeroporto. No dia seguinte eu dei cem dólares para ele, abracei o cara e fiquei lá até a hora do meu voo. Por que tudo isso? Porque eu tinha preconceito. Porque o cara era preto. Aquilo me marcou muito. O cara era gentil e realmente morava fora da cidade. Eu falei: “Nunca mais eu vou duvidar de preto ou ter preconceito”.


Então a GM me convidou para morar em Dubai. Dubai é espetacular. Eu adoro. Na minha época não tinha toda essa maravilha, mas você deixava o carro aberto, com ar condicionado ligado, não tinha ladrão.A Vera podia dirigir. É claro, respeitava a religião, não usava decote nem minissaia, mas podia ir à praia de maiô. Era para ficar três anos, fiquei quatro, depois cinco e aí voltei ao Brasil.


Foi nessa época que voltei ao Egito. Queria mostrar minha terra para a minha família, mas foi um choque. Mudou muita coisa. Quando eu vivi lá tinha muitos católicos, muitos estrangeiros, a cidade era bonita, limpa, organizada. Quando Nasser assumiu o poder muita gente fugiu. Ele expulsou todos os judeus. Também católicos saíram. Para não deixar cair o vazio, ele liberou a entrada na capital para pessoas que moravam nas cidadezinhas do interior, sem higiene, e a cidade começou a ficar muito suja. Mas visitamos os parentes que ainda vivem lá e conhecemos o Egito turístico, quer dizer, pirâmides, museus, essas coisas. Pegamos o navio que faz o Nilo, de Luxor até Assuan, uma viagem maravilhosa de cinco dias e quatro noites.


De Dubai voltei ao Brasil. Fiquei na GM até completar os meus 60 anos, fiz 35 anos de GM. Tudo o que eu tenho eu devo à GM. Eu me preparei para a minha aposentadoria. Entrei num processo de demissão voluntária. Tinha um pacote de vantagens. Uma vez um funcionário meu perguntou se eu sabia quantos carros eu tinha vendido na vida. Eu nunca tinha pensado nisso e ele foi pesquisar. Ele falou que na minha carreira de 35 anos eu vendi um bilhão de carros. Se é verdade ou não é, eu não chequei, mas isso me impressionou. Porque o Egito comprava 35 mil por mês, a Índia comprava uns 40 mil, e eu era responsável. Depois que voltei de Dubai eu assumi a área de vendas a governos. Eu vendi 78% dos carros comprados pelos governos no Brasil, ganhava todas as concorrências. E isso é um orgulho.


Depois que me aposentei os amigos pediram e eu comecei a organizar viagens, e passaram a me chamar de Remy Tour. Primeiro fui ao Egito, lógico, foram 16 pessoas, dez dias, cinco no Cairo e cinco para o passeio de navio de Luxor até Assuan. Fiz várias viagens. A gente passava 15, 20 dias juntos, sempre gente boa. Eu programava desde onde ia, o que fazia, o que ia visitar. Fazia leilão pelas agências, encontrava o melhor negócio, recolhia os cheques do pessoal, buscava passagem, voucher, organizava tudo. Para o Egito eu levava a certos lugares que não incluem no roteiro de turismo. Por exemplo, tem a história de que Moisés foi colocado numa cesta. Em cima do lugar em que a princesa achou o cesto fizeram uma igreja. Aquela igreja não consta como ponto turístico, mas eu levo o pessoal lá. Tem outro lugar que está no meio do bairro muçulmano, e a polícia pede para avisar antes de ir. Quando o rei Heródoto mandou matar todas as crianças até dois anos porque sabiam que ia nascer o Messias, que era o Salvador, Maria e São José pegaram o Cristo e foram para o Egito. Chegando, ela descansou embaixo de uma árvore, e essa árvore está lá até hoje. Eu aviso e a polícia escolta a gente até a árvore.


Agora viajo menos. Fazemos alguns cruzeiros de navio para lugares próximos. Eu estou realizado. Tenho minha casa, uma chácara maravilhosa, uma família maravilhosa, amigos maravilhosos. Viajei pelo mundo a trabalho e a passeio. Digo que vou viver até 120 anos, tenho certeza, porque quero assistir a formatura das minhas netas. Não me sinto velho, mas já fiz tudo, já trabalhei, já viajei, já me diverti, já tenho o que eu quis.


Editado por Eliana Simonetti 

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