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Remo: o santo da oftalmologia

História de: Remo Susanna
Autor:
Publicado em: 08/12/2021

Sinopse

Um homem que acredita no poder do exemplo não poderia deixar de ser, ele mesmo, um grande. Remo, por saber da influência que as ações podem ter na formação do outro – pois ele mesmo teve boas referências –, é um cara e tanto. Desde a figura do médico da família, o doutor Pomponet, um homem negro e muito sábio, até os grandes cabeças da medicina, com quem mais tarde passou a ter contato, Remo soube sugar o que cada um tem de melhor. Hoje, sabe indicar onde cada um se encaixa em sua formação. Seja a professora Miriam, quem despertou seu interesse pela pesquisa, ainda com experimentos escolares com moscas, seja o Pomponet, com sua graciosidade e talento em casa, seja o doutor Stephen Drance, mentor maior. Em seu depoimento, além de declarar sua admiração pelos grandes, mostra-se um homem apaixonado pelo seu bem maior, a família, e também muito comprometido com aquilo que se propôs a fazer como médico: diminuir o sofrer do próximo. São reflexões que trazem um bom entendimento do porquê Remo é buscado por muitos que esperam um milagre.

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História completa

Muitos pacientes chegam até mim sem esperança ou cuja única esperança sou eu. Então alguns me chamarem de São Remo! É através dos sucessos que eu tenho com eles que consigo sucessos com outros pacientes que, por sua vez, têm a mesma doença. É um aprendizado, é um ciclo.

 

Não me pergunte por que eu quis ser médico! A gente tinha um médico de casa, o doutor Pomponet. Ele era carinhoso, apesar do pavor que a gente tinha quando ele entrava em casa: ele sempre vinha dar injeção porque, naquela época, praticamente não existia antibiótico por boca! Mas mesmo assim a gente gostava de vê-lo. Esse é um aspecto. Doutor Pomponet me encantava pelo exemplo que era. Para mim, os exemplos são mais importantes do que as palavras. E o exemplo dele ao chegar em casa, confortar minha mãe, conversar com a gente e ainda ter o carinho. Ele era um indivíduo de uma extrema capacidade médica. Ao vê-lo, eu sabia que ia ficar curado. Era confiança absoluta. Segundo, talvez, eu nem sei se isso influenciou ou não, também não lembro se foi da época, mas tinha uma série, Doutor Kildare, na televisão, de médico. E eram médicos fantásticos.

 

Uma das coisas mais lindas que um médico tem é a capacidade de diminuir o padecer dos outros, mesmo que você não o conheça. Eu não conheço outras especialidades em que você trabalha 15 anos numa pesquisa, de manhã, de tarde, de noite. Você chega a uma conclusão, você chega a um resultado sólido, que vai beneficiar a humanidade, e você entrega. Entrega anos de trabalho - que não é de graça porque você se sente recompensado por ter feito aquilo que tua profissão foi feita a fazer, ou seja, ajudar o outro. É a única profissão que eu conheço que faz esse tipo de investimento no próximo.

 

Quando eu contei aos meus pais que queria ser médico, meu pai ficou muito contente. Minha mãe também, claro, mas meu pai porque ele foi bloqueado naquilo, pois ele queria ter sido médico também. Fui o primeiro médico na família. E meu pai sempre perguntava: “Remo, o que você vai ser?” Eu falava: “Pai, ainda não sei!” Gosto de cirurgia abdominal, fiz obstetrícia e ginecologia e Pronto Socorro, Cardiologia... Não sabia exatamente qual especialidade eu queria, então fui testando! No final do sexto ano, decidi fazer Oftalmologia. E eu lembro muito bem: meu pai estava começando a descer a escada de casa e eu estava subindo, vindo da faculdade. Eu falei: “Pai, eu decidi! Oftalmologista!” Ele quase rolou a escada. “Você vai ficar receitando óculos, filho? Você não pensou em fazer cirurgia cardíaca, cirurgia neurológica? Você vai fazer óculos?” “Pai, é um pouquinho diferente disso. Eu acho que a Oftalmologia é linda pelo que ela representa pro ser humano. Dentro das especialidades que eu conheço, é a que menos aumentou o conhecimento. Quero participar da evolução dessa especialidade. E todo mundo depois dos 45 anos precisa de óculos. Imagina! São dois olhos, a chance de eu morrer de fome é pequena!” Mas ele não gostou, não!

 

Tem uma frase de Nelson Mandela que diz: “Tudo é impossível até que você o faça”. É isso aí. Se você acredita, vai. Recebe piadas de tudo quanto é lado. Por exemplo, um professor chegou pra mim e falou: “Remo, você fica dando água pros pacientes pra fazer um teste, você já pensou que um paciente bebendo quatro copos de água pode morrer de insuficiência cardíaca?” Eu falei: “Olha, se alguém pode morrer com quatro copos de água, eu nem vou fazer o teste!” Em todas as palestras que eu dava ele me criticava. Num congresso em Boston, ele fez um estudo com meu teste e verificou que eu estava certo. Na frente dos professores dos Estados Unidos, ele dobrou-se e falou: “Forgive me, master”. Você erra na vida. As minhas filhas estavam me perguntando: “Pai, você tem muitos erros?”. Eu falei: “Barbaridade! Enormes. Mas eu aprendi com eles.” E provavelmente erro menos do que os outros por ter aprendido com eles. Tudo o que dá errado sempre tem uma parte sua, já que você participou. Então ponha a culpa em você, não durma a noite, mas no dia seguinte você acorda maior do que estava. Acho que basicamente, that’s it.


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