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História

Relembrar realmente é viver

História de: Lydia Evangelista Neri Pacchini
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/05/2005

Sinopse

Lydia Neri Pachini nasceu no dia 3 de fevereiro de 1922, descendente de família italiana, seu avô materno trabalhava em estradas de ferro no estado de São Paulo e teve cada filho em uma cidade diferente. Lydia conta essa e mais outras histórias muito interessantes de outros tempos de São Paulo, como as brincadeiras de rua, as carroças que vendiam leite, os magníficos bailes carnavalescos de salão e de rua com fantasias, corsos e batalhas de confete. Fala também sobre o quanto seu pai diferia do conservadorismo e deixava ela e suas irmãs irem aos bailes, conta sobre a diferente relação entre os namorados antigamente, os piqueniques no Parque da Cantareira e na Vila Galvão, as viagens de trem para Santos, a vivência da Revolução de 32, a Segunda Guerra Mundial e outros acontecimentos históricos que dona Lydia conta com detalhes surpreendentes ao Museu da Pessoa. 

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História completa

P - Dona Lydia, eu gostaria que a senhora dissesse o seu nome, o local e a data de seu nascimento.

 

R - Lydia Neri Pacchini, nascida em 03/02/1922, no Bom Retiro, bairro de Bom Retiro.

 

P - Dona Lydia, como é o nome dos seus pais?

 

R - O meu pai chamava Salvador Neri e a minha mãe Josefina Evangelista Neri.

 

P - Eles são de onde?

 

R - O meu pai é da Itália, nascido na Itália na província de Frosinone, sua cidade chama-se Santo Ambroggio [Sant'Ambrogio sul Garigliano].

 

P - E ele veio quando para o Brasil?

 

R - Ele veio em 1899.

 

P - A senhora sabe por que é que ele veio, dona Lydia?

 

R - Eles vieram para tentar, como muita gente na época, para tentar a vida aqui. Ele veio com os pais e com um irmão menor, eram só dois filhos. Vieram tentar a vida aqui no Brasil e acabaram ficando. Embora o meu avô numa certa época tinha ideias de voltar, mas não deu mais certo e ele acabou ficando. Os filhos cresceram e começaram namorando tudo, então, nunca mais voltaram e morreram aqui.

 

P - E o seu avô, ele fazia o que lá na Itália?

 

R - A profissão dele era ferreiro, fazia peças de ferro.

 

P - E o seu pai veio criança ainda?

 

R - Meu pai tinha nove anos.

 

P - E ele te contava alguma coisa da Itália para a senhora?

 

R - Ele contava, algumas coisas que ele lembrava ele contava, ele contava dos invernos principalmente porque naquele tempo não havia coisas elétricas nem nada. E ele contava que quando eles deitavam, antes de deitar a minha avó passava o ferro quente na cama para aquecer senão eles não conseguiam nem deitar-se no lençol de tal gelado que era. E que naquela época os camponeses trabalhavam seis meses por ano, no inverno ficava parado porque não dava para plantação. O que mais ele contava? Que o meu avô trabalhou no Mosteiro Cassino, lá em no Monte Cassino. Eu não sei que trabalho ele fez lá, mas ele trabalhou um tempo lá enquanto o meu pai morou lá. E a minha avó era doméstica.

 

P - E o seu pai chegou a voltar para a Itália?

 

R - Não, meu pai nunca voltou. Não chegou nem a voltar para relembrar. Um irmão dele sim, chegou a voltar, foi no local, na casa onde nasceram. E encontrou ainda parente como eu também posteriormente fui e encontrei parente, fui e almocei com eles e tudo.

 

P - Eles são da Calábria?

 

R - Não, Santo Ambroggio.

 

P - E a família da sua mãe?

 

R - A família da minha mãe, o meu avô veio, não tinha nada, ele veio solteiro, ele veio moço, então, ele chegou no Brasil com dezoito ou dezenove anos por aí. Depois a minha avó chegou, a minha avó, a materna foi a única que veio como imigrante, a família dela, ela veio com mãe e pai, as moças ainda solteiras. Outras que também depois casaram todas aqui, uma que veio casada de lá, eles vieram como imigrantes, a mãe da minha mãe.

 

P - O pai da sua mãe ele era de que região da Itália?

 

R - O pai da minha mãe era de Pignataro Interamna, ali perto da cidade de Cassino.

 

P - E a família da mãe da sua mãe?

R - A mãe da minha mãe era da região da Toscana, de Lucca, a cidadezinha dela chama-se Pietrasanta.

 

P - Não é bem Lucca, é região de Lucca.

 

R - É Lucca, mas a cidade em si chama-se Pietrasanta, que fica na região da Toscana.    

 

P - E a sua mãe nasceu aqui no Brasil?

 

R - Nasceu no Brasil já porque a minha avó casou-se aqui no Brasil.

 

P - O seu avô materno casou-se aqui e eles foram morar aonde? Aqui mesmo em São Paulo, Capital?

 

R - No começo moraram aqui em São Paulo, depois o meu avô, esse avô materno aí, ele começou a trabalhar em estradas de ferro como administrador que na época fazia-se muitas estradas de ferro, no início ainda. Aí eles moraram em várias cidades de São Paulo, conforme as estradas andavam onde ele era contratado eles iam seguindo caminho. E aí cada filho nascia em uma cidade. A minha mãe era mais velha nasceu já no estado do Rio em Barra Mansa, mas as outras irmãs dela, o irmão, só tinha um irmão e outras irmãs, todas em São Paulo. Uma nascida em Alto da Serra, acho que quando fizeram aquela estrada Jundiaí a Santos, uma nasceu em Jaboticabal, outro, Tio Américo nasceu em Itapetininga, a Tia Maria nasceu no Alto da Serra e a última que nasceu em Atibaia que aí o meu avô já não trabalhava mais nas estradas de ferro. Que aí sim, ele se instalou lá em Atibaia, num bairro de Atibaia, comprou lá uma propriedade, montou um armazém, um empório na época, vendia muita coisa importada inclusive. E compraram uma chácara também lá perto. Então, eles tinham a casa da chácara e o casarão que embaixo era o empório e em cima era o sobradão, um quintal enorme que ainda está tudo lá, eu vi muitas vezes porque eu frequento muito Atibaia. Aí depois a minha avó morreu em 1918, ela era cardíaca, ela morreu nova com 47 ou 48 anos por aí. Então, meu avô não dava muito... ela é que era mais para negócio. Aí depois ele perdeu o negócio dele, vendeu, vendeu tudo lá, depois que ela morreu saiu de lá, e aí ele voltou ainda um pouquinho a trabalhar pelo interior. E depois ficou já aposentado, já com mais idade.

 

P - A senhora chegou a conviver com esses avós maternos?

 

R - Só com o avô materno, o nonno, ele morreu em 1948, eu já era até casada e tinha a primeira filha. Esse foi o único nonno que eu convivi.

 

P - Os outros avós não?

 

R - Os outros, eles morreram, eu tinha acho que dois anos, não, eu tinha um ano e pouco, eles morreram em 1923. Tanto um quanto outro morreram no mesmo ano, em seis meses.

 

P - Os pais do seu pai?

 

R - Esses eu não conheci porque eu não lembro, eu tinha um ano e meio por aí.

 

P - E eles morreram no mesmo ano?

 

R - No mesmo ano, depois de seis meses que morreu a minha avó morreu o meu avô. Ele ficou muito triste, foi se acabando, os italianos são muito passionais. E é assim, tanto que são enérgicos, mas ao mesmo tempo um coração muito sensível.

 

P - Como é que a sua mãe veio a conhecer o seu pai e como é que eles começaram a namorar e casaram?

 

R - Com o meu pai é porque eles se conheciam muito entre patrícios, na época se chamava patrício. Eu não sei como é que um dos patrícios conheceu a família da minha mãe e o meu pai logo que a conheceu gostou. Ela casou cedo inclusive. Ele se apaixonou por ela e casaram. Mas assim por intermédio de conhecimento de patrícios, o encontro deles.

 

P - Mas eles moravam todos aqui em São Paulo?

 

R - Não, o meu pai morava em São Paulo e a minha mãe já em Atibaia. Porque a minha mãe casou-se ainda na igreja na matriz de Atibaia em 1913.

 

P - Então, ela não morava em São Paulo.

 

R - Não, nessa época ela já morava em definitivo lá em Atibaia. O meu avô já tinha terminado aquelas andanças com estrada de ferro.

 

P - Aí eles vieram morar em São Paulo depois de casados?

 

R - Aí depois de casado o meu pai veio morar em São Paulo com os sogros, minha avó e o meu avô que ainda eram vivos, que usava na época. A minha mãe começou a vida de casada morando com o sogro e a sogra.

 

P - Em que bairro era?

 

R - Eles moravam na época me parece que era, não sei se era no Canindé ou no Brás, por ali eles começaram, não tenho bem certeza qual dos dois bairros era. Acho que era entre Brás e Canindé.

 

P - E como é que eles foram parar no Bom Retiro?

 

R - Depois no Bom Retiro porque a colônia italiana era grande, meu pai morava no Canindé e lá parece que eram mais portugueses que moravam. E pela influência acho que da raça, da nacionalidade, aliás. Então ele se transportou para o Bom Retiro e lá nasceu uma minha irmã e eu e um outro irmão menor. Nós somos três filhos.

 

P - São três filhos?

 

R - Os outros nasceram alguns no Canindé, os outros três também pelo Canindé ou Brás.

 

P - Quantos filhos são no total?

 

R - Éramos em seis, éramos em sete, mas a primeira ninguém conheceu porque ela morreu pequena, então ficamos em seis depois que nasceram todos.

 

P - E o seu pai trabalhava com o quê, dona Lydia?

 

R - Meu pai era alfaiate e ele tinha como hobby, ele era músico amador. Ele tocou alguns anos na Banda do Liceu Coração de Jesus lá nos Campos Elíseos. Ele até um pouco depois de casado ele ainda tocava. Depois que ele perdeu a primeira filha ele ficou tão triste, tão triste que ele abandonou o instrumento e nunca mais tocou. Mas ele tocava trombone, era o instrumento que ele tocava.

 

P - E ele tinha alfaiataria?

 

R - Não, ele trabalhou sempre em casa, ele tinha os clientes dele, mas em casa ele trabalhava. Os colegas dele todos tinham alfaiataria aberta, mas ele não tinha, mas ele costurava em casa, tinha sempre o local dele para costurar.

 

P - E como é que foi a infância da senhora lá no Bom Retiro? Conta um pouquinho para a gente.

 

R - A infância foi de acordo com a época que era muito simples, muito humilde, mas muito deliciosa, foi uma maravilha! Com toda aquela antiguidade porque eu cheguei a conhecer lampião de gás, que era uma farra, no final da tarde vinha o acendedor do lampião. Com as brincadeiras de rua porque naquela época não tinha movimento nas ruas, a gente brincava e tudo que se passava era na rua. E os italianos antigos eles costumavam ou no degrau das portas ou punha até bancos assim e ficava à noitinha conversando e nós brincando ali na calçada. E quando a gente, de dia uma parte ia para a escola, a outra parte brincava também. E era uma infância muito gostosa também. A gente não parava, ia para todo o lado, se chegava um circo a gente acompanhava até o local do circo. Tinha aqueles vendedores ambulantes tudo da época, cada qual vendia um produto, mas era tudo vendido na rua. Inclusive o Leite Vigor, naquela época eles transportavam leite numa carroça com burro ainda com animais, e aí eles tocavam uma sineta grande quando eles passavam pelas ruas e assim todas as pessoas iam com vasilhames assim comprar meio litro de leite, um litro, até um quarto de leite. Era coisa muito interessante, uma coisa muito do passado mesmo. E depois tem os vendedores, tinha um vendedor de doces que a gente gostava um doce chamado pastetina à la paredina, era uma massa folhada com creme dentro, era uma delícia! Era um doce italiano e o vendedor logicamente era italiano. Tinha o vendedor de pinhão, também era italiano, tinha o verdureiro que também era italiano, todos os vendedores que passavam por lá diariamente todos eram italianos. Porque no início mesmo quando eu fui crescendo eram todos mais praticamente italianos. Aí começaram a se introduzir os judeus. Aí eu fui crescendo, já tive colegas na escola judias e assim foi até 1942 quando eu saí de lá. E durante isso eu fiquei mocinha, eu frequentei muito cinema, cinemas do bairro e depois cinemas da cidade. Eu frequentei o clube de baile que tinha dramas também que passava uma vez por mês e depois baile. Bailes carnavalescos todos, existia na época batalhas de confete nas ruas principais dos bairros. Então, era uma farra também, era tudo música carnavalesca, todo mundo ia para a Rua José Paulino. Tinha a Rua do Passeio, tinha passeata, a gente era adolescente, todos iam lá, rapazes e moças e ficavam. As moças passeando e os rapazes dos lados parado. E foi assim a minha infância. E brincadeiras mil assim enquanto não fiquei adolescente, mocinha.

 

P - Que tipos de brincadeiras fazia-se?

 

R - Assim na infância?

 

P - Na infância.

 

R - Era pular corda, brincar de... como era aquilo que a gente fazia desenho?

 

P - Amarelinha?

 

R - Amarelinha, jogar pedrinhas de mármores, assim jogar cinco pedrinhas, era um jogo. Brincava-se com uma música que a gente ia para cá e para lá no vai e vem, uma música que se chamava “Vai e vem uma mocinha.” Então, a gente cantava também, na época de balões que se podia soltar balões porque não tinha quase fios na rua. Então, nós também púnhamos em pedras papel de seda e a gente atirava em pedras o papel e o papelzinho ficava voando, era outro tipo de brincadeira. O que mais a gente brincava? Eu brinquei tanto, Meu Deus!

 

P - A senhora morava em que rua lá no Bom Retiro?

 

R - Eu morei em duas ruas. Eu nasci na Rua General Flores. Não, em três ruas, eu nasci na Rua General Flores, depois com quatro anos mudei para a rua na época chamada Capitão Matarazzo e depois mudou o nome para Newton Prado e depois no final para a Rua Mamoré que era bem próxima à Rua Capitão Matarazzo era quase esquina da Rua da Graça em meio da quadra do Grêmio Dramático Musical Luso Brasileiro, no qual eu desde criança frequentei até sair do Bom Retiro. Eu dancei, fiz de tudo naquele salão, piqueniques que eles organizavam os Primeiros de Maio a gente saía, era uma farra, era uma delícia.

 

P - O que eles faziam nesse grêmio além desses piqueniques. Tinha bailes?

 

R - Tinha bailes no domingo. E uma vez por mês passavam dramas e depois do drama, aí retiravam as cadeiras tudo, jogavam parafina no chão, varriam, tudo aquilo, tudo com o público. E depois o baile ia até a madrugada. E nos carnavais também, a gente dançava as matinês e as soirées. E uma vez ou outra eu ia em outros bailes também mas no Luso era frequentemente. Tinha outros clubes no bairro, mas esse era o mais familiar, o mais considerado, então os meus pais deixavam a gente ir com vizinhos e tudo. Não havia tanta malandragem na época. E alguma vez ou outra eu ia num baile diferente também, mas a maioria dos carnavais, tudo era passado lá no Luso.

 

P - E a senhora ia com seus irmãos? Como é que era?

 

R - Ia com irmãs, vizinhas, amigas, outras amigas que moravam um pouco além, mas todas perto.

 

P - Seus pais não se incomodavam?

 

R - A minha mãe era um pouco mais enérgica, na ocasião que a gente ia dançar ela sempre achava um pouco ruim, ficava meio mal com o meu pai, ela dizia: “Você dá muita liberdade, as meninas não podem toda vez ir no baile.” Meu pai era mais aberto e a minha mãe era mais antiga, vamos dizer assim. E enquanto eles discutiam a gente até tapava os ouvidos para ver se vinha um sim ou não. Mas no fim a gente conseguia sempre um sim, mas a minha mãe sempre não gostando muito. E o meu pai sempre contava que quando ele era jovem era tanta vontade, ele tinha de aprender dançar e quando ele entrou numa escola para aprender a dançar a escola fechou. E ele ficou tão frustado que ele achava tão bonita a dança então ele consentia, nós que éramos mocinhas porque era um clube familiar, porque nós íamos bem acompanhadas. Mas a minha mãe mesmo assim ainda resistia um pouco, mas a gente acabava vencendo. E às vezes eu dava uma escapadinha durante a semana quando tinha um baile quando começou a estória do microfone, aí fizeram um baile por semana, durante a semana, no meio da semana que terminava cedo e chamava-se “A hora da rede.” Então, os candidatos que queriam, o pessoal que frequentava, quem gostava de cantar ia lá no palco e cantava e nós dançávamos. E a minha mãe não permitia esse baile durante a semana, mas eu sempre achava um jeito de dar uma escapadinha e eu sempre ia um pouquinho lá. Depois voltava e levava uma broncazinha e acabava tudo bem.

 

P - E esses bailes de carnaval vocês iam fantasiados?

 

R - Íamos. Naquele tempo usava muito fantasia tanto para homem quanto para mulher, os rapazes todos fantasiados, embora muitos deles usassem uma calça branca e uma camisa de cor verde ou vermelha e um laço assim só para dizer que era uma fantasia e, mas ia fantasiado. E quando não fantasias mais estilo fantasias mesmo.

 

P - E quem fazia as fantasias da sua casa?

 

R - Na minha casa era a minha irmã mais velha porque logo cedo depois do grupo escolar ela foi aprender corte e costura. Ela ficou costureira. Então, ela fazia para nós mais novas fantasias, fantasias sem nome, punha uma calça comprida, punha umas estrelas assim. Outra vez era uma calça de lamê, um tecido que se usava na época de uma cor, a blusa de outra cor, mas precisava estar fantasiada. E também muitas vezes quando eu era menor, eu e as minhas amigas vizinhas e a gente tinha irmãos, e os irmãos punham vestidos de nossas irmãs mais velhas e o da minha amiga também. E a gente punha a roupa dele. E saía vestido de homem nós e eles de mulher, usava, era coisa da época. Isso no comecinho dos anos 30. Você vê, eu era menina ainda, eu nasci em 1922. Então, todo mundo tinha fantasia assim, ou de um jeito ou de outro ia.

 

P - E no Bom Retiro tinha corso?

 

R - Não tinha corso, mas aquelas batalhas de confete. Aí saía um carro também, eles elegiam o rei do carnaval do bairro. Então, saía só esse cara com o que foi destinado a ser rei e a gente todo mundo atrás cantando e jogando confetes, era uma farra mesmo! Foi muito gostoso, tempos muito gostosos. O corso eu lembro bem que era na Avenida São João, pegava Angélica, Paulista, Brigadeiro Luís Antônio e depois terminava outra vez na São João. Fora esse corso que era assim mais pro lado dos Jardins tinha o corso da Avenida Rangel Pestana. Lá eu quase não fui, mas muitas vezes eu fui assistir o corso na Avenida São João que era o principal.

 

P - E como que era?

 

R - Eram carros abertos, na época a maioria eram carros abertos um ou outro fechado, aqueles bem quadradinhos. Mas no corso não, iam só carros abertos, as capotas eram abaixadas assim, aqueles conversíveis antigos, na época não eram antigos. E o pessoal todo fantasiado sentavam assim, eu cheguei a fazer corso também, acho que uma ou duas vezes, mas fui. A gente sentava assim na capota, todo mundo, outros de pé nos para-lamas porque o corso ia devagarinho e as pessoas até desciam para brincar com outro carro e trocavam serpentinas, confetes, lança-perfumes, aquelas coisas de vidro depois vieram as metálicas. Então, era assim o carnaval de rua. E de salão também era, mas o meu pai sempre dizia que os de rua eram os mais bonitos. Os de salão da minha época que era mais de salão do que de rua, vieram um pouco depois os de baile carnavalesco, mas ainda se usava também na rua. E também passava os carros que o meu pai levava quando a gente era criança na cidade, eu não sei se eram carros de dois clubes antigos, eu não sei se era de São Paulo ou do Rio. Disputavam prêmios os carros alegóricos, um era o Tenente do Diabo que chamava e o outro era Feniniano, Feninianos e o Tenente do Diabo. E eles disputavam carro alegórico. E o meu pai levava a gente quando era criança para ver esses carros bonitos. E era assim. Depois teve um ano em 1936. Eu posso te contar?

 

R - Pode.

 

P - Em 1936 eu já comecei a trabalhar na cidade. Em 1937 foi o mais fixo. Mas em 1936 eu já comecei numa loja fina, num atelier de costura de chapéu que ainda se usava ainda na moda, ainda era moda chapéus femininos. Então, naquele ano o prefeito foi o prefeito chamado Flávio Prado, eu lembro do nome e ele fez um carnaval bonito de rua e lá no Anhangabaú só era o Vale do Anhangabaú ainda não tinha nada do que teve depois, coisas e mais coisas e atualmente mais ainda. E o Vale era só o Vale do Anhangabaú que chamava. Aí ele mandou montar uma caravela, era como um navio mesmo ali e dentro dessa caravela era o salão de baile. Então moças e rapazes iam lá dançar, pagavam ingresso e dançavam lá. Mas também foi muito bonito aquele ano do carnaval da caravela. E as músicas que saíam eram lindas, todo ano saíam marchinhas e sambas novos de carnaval e a gente acompanhava tudo que aparecia.

 

P - E a senhora cantava todas as músicas?

 

R - Ah, cantava. Bastante, todas as músicas, nossa! Se cantava! Desde pequena.

 

P - Deixa eu voltar um pouquinho na sua infância. A senhora estudou em que colégio lá no Bom Retiro?

 

R - No Bom Retiro eu estudei o primário que a gente entrava com oito anos, no Grupo Escolar Marechal Deodoro que estava situado ainda até hoje nas Ruas dos Italianos. E depois que eu terminei aí eu fui para o Instituto Manzoni, era uma escola de comércio e também ensinava a língua italiana. Era escola italiana na Rua José Paulino. Aí lá eu fiz mais dois anos mais de contabilidade, não que eu estudasse italiano. Eu fiz dois anos de contabilidade e aprendi escrever à máquina. Fiz o curso de datilografia. Então, essa é a minha escolaridade, é até só aí.

 

P - E a senhora lembra como que eram as brincadeiras na escola? Como é que era a escola naquela época?

 

R - A escola era, assim, à noite, eu estudava já à noite na época.

 

P - Lá no Manzoni?

 

R - No Manzoni eu já estudava à noite porque eu aí já trabalhava de dia. Eu não fui logo em seguida, depois acho que de dois anos me parece que eu fiz o exame de admissão e aí resolvi estudar à noite. Aí a gente um pouco brincava na aula, um pouco dava sono na aula de história. A gente acabava quase dormindo. E era assim. Depois quando nós saímos aí o Cine Bom Retiro, que foi muito famoso antes de se transformar em rinque de patinação, aí já era o rinque. Aí toda noite na saída da escola, toda a turminha que morava pro meus lados nós descíamos numa turma e dava uma entradinha lá no rinque para assistir um pouco de patinação porque era fascinante a gente olhar aquilo.

 

P - Que época que era isso?

 

R - Era mais ou menos 1937, 36, 37.

 

P - E da escola primária, a senhora lembra alguma coisa?

 

R - Da escola primária era o seguinte: eu adorava porque eu gostava muito de cantar e toda vez que faltava professora a substituta sempre punha alguma coisa para a gente cantar. Então, eu adorava e existia também o maestro de música na escola e ele ensinava os hinos e a gente cantava todos os hinos. Eu adorava cantar os nossos hinos e também a gente um pouco brincava e um pouco a professora ficava de olho e a gente ficava meio assim quietinha para não levar castigo. E que mais da escola? E todas as festinhas que tinha eu gostava muito de recitar e aí eu sempre me punha na frente para recitar. Uma ocasião eu fui recitar lá no Jardim da Luz. A festinha foi feita lá, não sei se era a festa da árvore, alguma coisa assim e eu recitei lá no Jardim da Luz. Depois quando eu tirei o diploma houve uma festa muito bonita que foi feita, porque essa diretora que está na foto ela era muito da parte artística. Então ela também compôs uma peça teatral e muitos colegas meus trabalharam na peça, isso foi na minha formatura do primário. E depois bailados também e eu entrei nos bailados que foi a dança húngara nº 5. Foi aí que eu aprendi essa música de Brahams, que na época eu não conhecia, fiquei conhecendo quando eu dancei e ensaiava assim nos ensaios. Aí eu dancei e modéstia à parte quando acabou a festa lá do diploma aí uma pessoa, acho que era uma senhora veio falar comigo e disse: “Puxa! Mas como você dança bem!” Realmente eu adorava dançar. E ela falou: “Mas como você se destacou! Você dançava tão bem.” É uma coisa que a gente já nasce com esse dom. Então, são essas coisas que eu tenho para falar do grupo escolar.

 

P - E a sala era mista?

 

R - Só o quarto ano foi, a primeira sala mista. Por que não usavam ainda, eu não sei, como lá introduziram em 1934 escola mista porque ainda não podiam misturar meninos com meninas. Mas no Marechal Deodoro tinha o quarto ano misto e o quarto ano só de menina. E eu fui para o quarto ano misto. Aí nós éramos colegas de meninos e de meninas. Você vê na foto que tem os meninos e meninas.

 

P - E havia muita confusão pelo fato de estudar meninos e meninas junto?

 

R - Não, não, a professora era boa, mas ela era enérgica, não podia se fazer farra com ela até quando eu caí na classe dela. Eu entrei apavorada porque todo mundo tinha medo da D. Ester porque sabia que ela era uma professora muita enérgica. Mas no fundo, ela tinha senso de espírito, até no fim ela era divertida até. Ela ensinava muita coisa para a gente, inclusive, higiene. Ela ensinava muita higiene porque tinham muitas meninas que vinham do bairro da Casa Verde, que eram assim, vamos dizer, acho que pouquinho menos esclarecidas. No nosso bairro, apesar de ser um bairro também de gente bem humilde acho que tinha um pouco mais de conhecimento de coisas. Eu não sei, mas ela dava muito a instrução de higiene, ensinava muito o que é que tinha que fazer quando levantava, escovar dente, tudo ela ensinava. Ela não deixava de dar a palavra sobre higiene. E sobre as matérias ia indo de acordo.

 

P - Qual que a senhora gostava mais?

 

R - De matérias? Eu gostei sempre muito de geografia porque eu adoro coisas do mundo assim. Então, a matéria que mais me fascinava foi sempre geografia, geografia e história também. Que história também, eu gosto muito de saber das coisas do passado.

 

P - E me fala um pouquinho da casa da infância. Como que era?

 

R - A casa eram casas simples e iguais de uma porta e duas janelas. Essa última que eu fui para lá em 1931, eu tinha nove anos. Então, eu fiquei até em 42 quando nós saímos do bairro e fomos para os Campos Elíseos que ainda era um bairro bom e residencial. Porque depois ficou boca do lixo há muitos anos. Aí lá era assim, eram casas populares, todas quase tinham uma porta e duas janelas. A minha tinha assim, da minha vizinha que era minha amiga, essa que está numa foto, também era uma porta e duas janelas. Da outra nossa amiga também, era uma porta e duas janelas. Outras eram de uma janela e uma porta e outras eram alguns quintais que tinham várias famílias que moravam. Eram chamados um pouco de cortiço, mas não era bem um cortição porque não eram tantas famílias como as do Brás, da Caetano Pinto, lá eram cortições mesmo que chamavam. Mas muitas das casas eram assim: moravam várias famílias no mesmo quintal só. Na minha quadra lá onde eu morava havia algumas assim.

 

P - E essas casas eram geminadas? Eram aquelas coladinhas uma nas outras?

 

R - Eram todas geminadas.

 

P - Sem jardim?

 

R - Todas sem jardim. O jardim era a rua. O quintal geralmente eram pequenos, não davam para brincar muito, o negócio era brincar na rua. Porque não tinha trânsito, não tinha malandragem, marginais, não tinha assaltante, não tinha nada. Então, todas as brincadeiras eram feitas na rua praticamente, todas. E uma ou outra casa melhor no bairro tinha, se distinguia de uma ou outra família de mais posses. Mas a maioria eram casas assim populares.

 

P - E essas casas vocês moravam de aluguel ou eram próprias?

 

R - De aluguel. Tanto é que o dono dessa minha casa na Rua Mamoré ele era o chefão lá da Casa Mazetti, eram três irmãos e ele era o maioral lá. E nós morávamos de aluguel na casa dele e muitas vezes era eu quem ia na Rua do Seminário na esquina da Capitão Salomão, Casa Mazetti pagar o aluguel. Aí quando eu fiz quinze anos eu mesma perguntei para ele se eu não poderia trabalhar na loja dele. Aí ele me fez um pequeno, como se diz, um pequeno teste, umas continhas, eu fiz rápida, algumas coisas assim. E ele falou: “Pode começar dia 4.” Eu comecei no dia 4 de janeiro de 1937. Aí eu trabalhei como balconista, primeiro eu fiquei na sessão de atacado, mas aí era meio morto assim e ele me passou lá para a loja principal mesmo. E lá eu trabalhei cinco anos.

 

P - Onde que era?

 

R - Lá na Rua Capitão Salomão, esquina... Rua Seminário esquina com a Rua Capitão Salomão.

 

P - Lá mesmo no Bom Retiro?

 

R - Não, não, na cidade, perto do Correio Central. Essas ruas eram no centro.

 

P - Seu primeiro emprego?

 

R – É, o primeiro emprego mesmo chamado como emprego foi esse da Casa Mazetti, que na época era uma casa famosa, fazia as alianças que eles punham nos bondes, a propaganda “Quereis a felicidade comprai as vossas alianças na Casa Mazetti.” Que eles tinham a sessão de jóias, sessão de artigos dentários, onde eu trabalhava, na sessão dos dentários e sessão de peças de relógios e tinha o atacado que eles eram também atacadistas. Foi uma casa famosa, uma das famosas porque tinha três famosíssimas que eram na Rua Quinze de Novembro onde depois ficou só a zona bancária. Lá ficou a zona bancária, mas naquela época tinha três joalheiras que eram as mais finas de São Paulo. Era a Joalheira Bento Loeb, Casa Bento Loeb, tinha a Casa Meter e a Casa Michel, eram na Rua Quinze de Novembro na zona bancária, mas naquela época o Centro, não existia shopping, não existia nada, nem Rua Augusta, nem nada ainda de comércio. Então, tudo que tinha de melhor era no centrão nosso, naquela época era o nosso centro principal.

 

P - E como é que foi o esse primeiro emprego? Como é que foi a adaptação, a senhora gostava?

 

R - Não, olha, para dizer a verdade. Eu fui trabalhar cedo porque os meus pais, é claro, toda a família daquela época do nosso nível tinha que trabalhar mais cedo. Então, eu fui trabalhar como obrigação, cumpri as minhas obrigações, me divertia muito com as colegas nas horas que podia. De vez em quando ficava meio chateada, mas nunca destratei nenhum cliente. Quando, por exemplo, eu era muito pontual, eu entrava sempre antes da hora, mas quando dava seis horas que fechava a porta e entrava um dentista com um monte daquelas próteses para escolher os dentes e que leva tempo. Aí por dentro eu sofria muito porque eu não via a hora de sair para ir para o Bom Retiro que era a alegria, que era aquela brincadeira e a Rua José Paulino para passear. Mas eu encarei bem o emprego, encarei bem, mesmo depois na outra firma.

 

P - A senhora trabalhou quanto tempo lá na Casa Mazetti?

 

R - Cinco anos. Depois de cinco anos aí eu fui convidada para trabalhar nessa loja Dental Freitas na Rua Benjamim Constant. Ali lá trabalhei quatro anos depois saí para me casar. Porque as mulheres na época quem casava não podia mais trabalhar fora, nenhuma. Assim assim era um caso excepcional uma pessoa casada, uma moça casada que trabalhasse fora. Inclusive o meu pai sempre falava em casa: ”Mulher que trabalha fora depois de casada não.” Era aquela coisa, aquele preconceito que era feio, graças a Deus, que depois isso também foi caindo. Mas era assim. Aí eu trabalhei depois na Dental Freitas também muito bem, foi um ótimo senhor, era um mineiro, muito bom patrão. Também me divertia com as colegas, tinha o dono da perfumaria na mesma loja e a gente se divertia muito quando não tinha nenhum patrão a gente dançava até tango. (risos) Depois quando eles chegavam ficava cada qual no seu lugar.

 

P - É nessa época que a senhora fazia aqueles piqueniques?

 

R - Não, os piqueniques eram na época de 1935, 36, 37, 38. Tem uma foto de uma colega que saiu ontem comigo, essa que está na Vila Galvão. Ela levou uma foto para mim ver que era de 1939. Também num piquenique do Luso, e lá que estava o meu namoradinho que eu mais gostei na vida. Porque é o que eu falo sempre não casei, não sei se o casamento teria dado certo até o final, mas que marcou mesmo, que eu tinha dezesseis anos que eu conheci dançando lá no Luso e namorei com ele. Então, ela levou para mim a foto.

 

P - Conta um pouquinho desse namorado então para gente?

 

R - De repente vai ficar no ar e ele é casado com outra naquela época.

 

P - Não, a senhora não precisa falar o nome não.

 

R - Nós dançamos muito antes de namorar, a gente dançou bastante. Nós tínhamos os dois a mesma idade, até na época eu pensei como ele era mais moreno, filhos de italianos também, como ele já tinha até um bigodinho achava que ele tinha uns dezenove anos, e eu tinha dezesseis. Depois ele me contou que era do mesmo ano que eu, até era dois meses mais novo, ele era de abril e eu de fevereiro. Nós dançamos muito, as primeiras vezes que ele pediu para namorar eu não aceitei, não sei por que ainda eu não aceitava para namorar. Aí no final daquele próprio ano de 1938 na valsa da meia noite lá no Luso, aí dançamos e tudo. Aí ele pediu: “Será que nós não podemos iniciar o ano juntos?” Aí eu dei um sim e nós começamos a namorar e namoramos uns meses, não posso me lembrar a causa de que foi desmanchado esse namoro porque ele era tão legal. Eu não sei o que é que houve, eu desobedeci, eu não posso lembrar o que houve que ele me proibiu de passar na Rua José Paulino. E eu na época eu pensava “se eu não for, ele vai dizer que eu sou uma bobona, que obedeci”, eu também queria ter uma certa independência. Aí eu fui dar umas voltas na José Paulino e quando ele encontrou comigo, nossa! Ele descarregou uma coisa em cima de mim que nunca tinha porque ele sempre foi tão gentil. E aí nós terminamos o namoro porque já era os machões os homens desde menino na época, filhos de italianos principalmente. E a gente desmanchou e depois de um tempo quase que nós íamos voltar mas aí ele começou a namorar uma moça também que dançava no mesmo clube, aí eu sofri um bocado, depois foi passando, mas ele ficou sempre no meu coração até hoje. É como eu falei, poderia ser que se casando até que ano desse certo. Mas como não consumiu então ficou sendo o meu primeiro e único amor, embora eu tenha namorado muitos outros depois.

 

P - Esse foi o primeiro?

 

R - Esse foi o primeiro amor mesmo.

 

P - E como é que era o namoro naquela época?

 

R - A gente andava nas ruas, o máximo que podia andar é de mãos dadas ou de braços, quando muito andar de braços. Mas depois de um certo tempo que namorava.

 

P - Beijo não tinha.

 

R - Raramente eles tentavam e a gente procurava evitar porque já era meio escandaloso ser beijada. Então, a gente tinha um certo respeito pela família, era assim, mas de braços depois de um bom tempo que se conhecia bem aí a gente andava de braço.

 

P - Esse a senhora chegou a andar de braços?

 

R - Ah, sim. Cheguei a andar primeiro de mãos dadas, depois no braço, ia no cinema, ele passava o braço atrás assim. Mas beijo mesmo, se foi um ou outro roubado porque eu tinha muito medo, eu tinha um pavor porque era uma rigidez nesse ponto de vista.

 

P - Nem no cinema tinha?

 

R - Nem no cinema, mesmo ainda. Beijar no cinema com pessoas assim atrás, à frente.

 

P - O pessoal não aproveitava o escurinho do cinema?

 

R - Não, não. Na minha época era difícil, sair beijo era muito difícil. Uma vez ou outra quando eu fiquei noiva depois com outro meu colega que nem casei com ele às vezes saía um beijinho no portão na hora da saída, mas não era comum, nem com o meu marido também porque foi o último com quem depois eu casei. Porque o meu marido andou atrás de mim, ele me conheceu com dezessete anos. E ele me perseguiu durante seis anos, mas ele me via sempre namorando com alguém, ele era meio tímido e ele não se aproximava. Quando ele percebeu... ele me acompanhava, olha, eu saí da loja estava ele lá na esquina, de manhã encontrava ele pelo caminho. O que ele andava atrás de mim. Depois de seis anos eu desmanchei um namoro com esse meu colega, um colega de trabalho. Aí ele se aproximou, eu já conhecia ele de longa data, ele ficava em frente de casa, via eu sair com o namorado, ficava lá plantado. Aí eu aceitei e depois de dois anos nós casamos. Aí então como eu falei, depois de noiva sim, uma vez ou outra ele... Com esse que foi o meu último noivo e que eu casei-me na saída sei lá, de casa às vezes tinha um corredor comprido para a sair lá no portão da rua, lá nos Campos Elíseos já. Aí ele arriscava tentar um beijinho, mas assim também muito rapidinho. Se eu ficasse um pouco mais tempo lá no portão quando eu entrava a minha irmã pouco acima de mim me dava umas broncas. Ela dizia: “Puxa, por que você ficou tanto tempo lá na rua, no portão?” E era assim o namoro daquela época.

 

P - E os cinemas? Vocês iam no cinema?

 

R - O cinema eu adorava, desde mocinha eu adorava, assisti muitos filmes, todos praticamente de Hollywood e um ou outro italiano. Aí uma época apareceu um filme italiano famoso que foi na época em 19... não sei se foi em 37, por aí. Apareceu um filme chamado “Vivere!”. O ator que era um tenor chamado Tito Schippa, ele também trabalhou no filme e outros atores. E então saíram duas músicas que tocaram nesse filme e que depois o Bom Retiro inteiro e acho que outros bairros italianos também, todo mundo cantavam essas duas músicas. Uma se chamava-se “Vivere” mesmo e a outra “Torna piccina mia”, que eram do filmes, coisas que aconteceram no filme então cantava-se essas duas músicas. Ele como tenor ele cantou as duas músicas e ficaram conhecidíssimas e na rua todo mundo cantava, assobiava.

 

P - A senhora lembra da música?

 

R - Lembro.

 

P - Canta um pouquinho para gente. Pode cantar.

 

R - A primeira “Vivere” então: “Oggi che magnifica giornata, che giornata de felicità, la mia bella dona se ne andata, non lasciamo li en libertá, lá, lá, lá, mia vita lá, lá, lá”. Não lembro toda a letra: “Tornata mai più, vivere senza malinconia, vivere senza più gelosia, lá, lá, lá, tornate amore”. E por assim vai. E a outra “Torna piccina,” você quer que cante?

 

P - Canta.

 

R - A outra é: “Della mia vita triste senza amore non me lasciata nulla mia felicità, lá, lá, lá. Torna piccina mia, torna al tuo papa, viene che ti aspetta sempre com ancientá. Lá, lá, ancora, niente ritornerá, lá, lá. Sei tutta la mia vita, la mia vita sei tu, sei tutta la finita lá, lá, amore. Torna piccina mia....” Essas duas ficaram famosíssimas na época e os italianos como sempre eram muito espalhafatosos. Eu reconheço isso bem, sei bem como é. E músicas de filmes também, quando passava um filme de Deanna Durbin na época, da Judy Garland. A gente também era mocinha como elas e algumas músicas a gente cantava também. A Deanna Durbin cantou num filme ela cantou “Il bacio” e num outro filme ela cantou uma música que foi, que a gente dançava e cantava até também a música. O filme se chamava “Idade perigosa.” Um filme da Deanna Durbin.

 

P – Deanna Durbin?

 

R - É. E a outra Judy Garland.

 

P - Judy Garland é a mãe da Liza Minelli, né?

 

R - É a mãe da Liza Minelli. A mãe dela foi uma atriz fantástica, cantava bem, era mocinha como eu na época. Então, a gente imitava penteados. Eu imitava sempre o penteado da Deanna Durbin. Ela usava sempre o cabelo assim feito permanente, que eu já fazia permanente também, e como um lacinho aqui. Então, eu usei muito o penteado dela. E inclusive, achavam que eu tinha um quê da Deanna, então, era para valer mesmo.

 

P - Ela era assim a sua atriz preferida?

 

R - Não. Preferida propriamente não, mas a gente adorava, era da juventude da época. Depois tinha filmes de atores com um pouco mais de idade. Tinha filmes anteriores a ela, musicais do Fred Astaire, o filme “Picolino” que foi um filme famosíssimo. O Fred Astaire com Ginger Rogers. E antes deles já começavam Jeannette MacDonald dupla com Nelson Eddy. Então, eu conhecia a música da Jeannette MacDonald, no comecinho dos anos 30 eu já conheci uma música que ela cantou num filme que eu não tinha assistido, mas eu conheci a música por umas vizinhas que tocavam piano e eu aprendi. Uma era “Granadero” que depois de casada que eu tinha vitrola eu comprei ainda o disco “Granadero” e a outra de trás eu chamo “O lindo sonho foi tortura” porque eu não lembro do nome. E também essas foram famosas. E depois acho que 1938 chegou um filme deles que foi famosíssimo “Primavera”. Aí também eles cantaram uma música lindíssima porque os dois também era cantores. Também um filme deles era sobre a opereta “Rose Marie” que também cantaram os trechos que também eu conheço. Teve depois o filme “Casablanca” que foi famosíssimo. Começava naqueles anos que eu ainda nem gostava, eu gostei depois de mais velha do Frank Sinatra. Eram musicais que eu achava enjoado que não tinha fim. Depois que ele ficou mais velho tudo, que eu fiquei mais admiradora dele.

 

P - E que cinema que tinha lá no Bom Retiro?

 

R - No Bom Retiro no comecinho quando eu já me conhecia por gente tinha dois cinemas: era o Cine Marconi e o Cine Bom Retiro. O Cine Bom Retiro era na Rua José Paulino que depois virou rinque. E o Cine Marconi era na Rua Correia de Mello. Então, a gente frequentava esses dois, principalmente na Semana Santa, a gente ainda era criança e ia assistir “A Paixão de Cristo” nesses dois cinemas, era infalível. Nos anos que a gente tinha doze anos, treze, eram esses tipos de filmes, eram infalíveis de assistir. Aí a criançada quando Judas matava o Jesus no filme, a criançada, os moleques que a gente chamava molecada eles gritavam: “É amanhã, é amanhã o seu dia.” Porque todo mundo punha um Judas no poste das ruas nesses bairros populares e depois ao meio dia do sábado de aleluia matava o Judas, todo mundo ia malhar o Judas. E a gente que era menina ia olhar. Mas os meninos incendiavam o Judas e matava. Então, nos filmes eles gritavam no cinema: “É amanhã o seu dia, é seu dia.” Quando os judeus mataram Jesus na cruz. E quando saía algum beijo também eles assobiavam, toda a rapaziada assim assobiava quando saía um beijo. Porque o máximo que saía nos filmes antigos era um beijo porque se sentia algo mais era só insinuado. Jamais como hoje em televisão, em filmes, em tudo que tem que é tudo praticamente quase que é explicito. Mas antigamente o máximo era beijo de amor e se tinha alguma cena que insinuava alguma coisa nunca aparecia. E existia o Cine Paratodos ali no Largo Santa Efigênia perto de onde eu trabalhava no Mazetti porque a Seminário descia ali do Largo Santa Efigênia. Então, lá existia o Cine Paratodos. E de vez em quando passavam-se na época filmes só para homens, era proibido a entrada de mulheres, que deviam ser filmes pornográficos. Mas era como era rigoroso a censura que hoje em dia imagine, desde criança assistem coisas do outro mundo. Era assim na época.

 

P - Não podia entrar mulher?

 

R - Não, de vez em quando eram só homens que iam assistir os filmes do Cine Paratodos. Lá era um cinema especializado, passava-se filmes normais, mas uma vez ou outra surgia um filme assim então era proibido para moças. E não podia entrar mulher nenhuma, de nenhuma idade, só para homens mesmo.

 

P - E igrejas? A senhora frequentava alguma igreja do Bom Retiro?

 

R - Igreja sim. O Bom Retiro na minha época, depois veio uma terceira igreja, mas aí eu já logo mudei e não frequentei nada. A gente frequentava as missas do Colégio Santa Inês, onde eu fiz a primeira comunhão no Colégio Santa Inês e a Igreja Nossa Senhora Auxiliadora que era ali perto, mais adiante, perto quase da Avenida Tiradentes. Era Nossa Senhora Auxiliadora, mas chamavam Dom Bosco, chamavam de Dom Bosco também porque tinha uma escola deles que se chamava Dom Bosco. E nós frequentávamos essas duas igrejas. E íamos muito nas procissões durante o mês de Maria, que era o mês de maio. E a gente em criança assim, fazíamos procissão bem no dia 24 de maio e nós íamos nas procissões. E a nossa turminha, as filas eram de um lado da rua e do outro. E nós então ficávamos todas enfileiradas eu e minhas amigas do mesmo lado para a gente fazer farrinhas na procissão. A gente era malandra! E também outra coisa que a gente fazia, não sei por que mas na igreja dava sempre ataque de riso. E a gente era obrigada às vezes até sair porque começavam a rir, começava todo mundo, não sei o que dava na gente que contagiava.

 

P - Por que não podia?

 

R - Tinha que ser aquele silêncio. E outra coisa, no Colégio Santa Inês à tarde tinha a benção e de manhã era a missa. E o padre costumava fazer perguntas para algumas meninas da época que estavam assistindo à missa, mocinhas. E eu morria de medo, nunca queria que as irmãs me pusessem na frente de medo que o padre me chamasse para responder porque eu tinha medo de não saber responder, sobretudo de religião. Então, era uma das coisas que eu sempre procurava ver se ficava mais atrás para não ser chamada. E a gente cantava os hinos da igreja que eu aprendi na época. E na escola eu aprendia os hinos nacionais, todos eles eu sabia de cor, ainda sei a maioria deles.

 

P - A senhora participava de alguma Cruzada, Filhas de Maria?

 

R - Não. Eu só frequentava o catecismo e no Colégio Santa Inês como tinha lá um pátio que tinha, eles chamavam de joça, aquela coisa que roda. E no Nossa Senhora Auxiliadora eles tinham os cavalinhos também. A gente frequentava bastante também por causa de se divertir. Ia na igreja na hora da missa, das benções mas também para se divertir.

 

P - E não coroavam em maio? Faziam coroação em maio?

 

R - Não. As Filhas de Maria que eram Filhas de Maria eu nunca quis ser porque eu fui mais carnavalesca do que carola. Então, eu nunca quis ser Filha de Maria. Uma ocasião uma minha amiga que esteve no grupo escolar comigo, ela tinha uma voz boa de soprano e ela foi cantar no coro lá do Santa Inês. E ela me convidou, a minha voz era regular, mas dava entrar no coro. Mas eu não aceitei, eu falei: “Deus que me perdoe, não, se fosse no teatro eu ia voando mas na igreja não.” Eu pensei porque eu nunca fui assim, carola, sou, tenho muita fé, sou católica, creio nos santos, em Deus. Graças a Deus sou bem religiosa na minha fé, tenho muita fé, mas nunca fui, assim depois de adulta, frequentar muito assim não. Assistia à missa, depois fui largando, agora é uma vez ou outra que eu vou à missa. E assim foi.

 

P - Conta para a gente dos piqueniques? Esses piqueniques eram feitos pelo grêmio?

 

R - Geralmente era pelo Grêmio Dramático Musical Luso Brasileiro. Eles organizavam quase todo Primeiro de Maio, que era feriado. Então, aproveitava para piqueniques. Normalmente era ou na Vila Galvão ou no Parque da Cantareira, que eram dois ramais que o trenzinho da Cantareira fazia: um ia lá para o lado de Vila Galvão e depois até Guarulhos e outro era o ramal Cantareira. Então, eles faziam uma vez no Parque da Cantareira e outra vez no Parque da Vila Galvão. Aí armava, todo mundo ia. Então ia aquela gentarada do Bom Retiro, todo mundo com cesta, com os comestíveis, gente com garrafão de vinho na mão. Íamos todos a pé, todo mundo ia a pé até a estaçãozinha do Tamanduateí que era lá na João Teodoro o inicial dela e todo mundo ia lá. E a gente comprava os convites tudo porque depois tinha baile então tinha que ser pago os convites. Então, era assim os piqueniques. E depois lá tinha os divertimentos no Parque da Vila Galvão tinha lá os cavalos que a gente alugava, depois se arrependia porque os cavalos que não davam nem um passo e a gente morria de medo e logo descia. Alugava. Alugava os barcos e aí eu dava uma volta no lago de barco. E depois à tarde tinha o baile, a gente dançava, tinha o salão. E na hora do almoço tinha aquelas mesas que eu te falei fincadas assim no chão, bastante mesas embaixo de árvores. E cada qual pegava uma mesa, abria os seus lanches. Eram assim, levavam frangos, frangos assados, levavam pimentão cheio, na época se falava porpetas, almôndegas, porpeta italiana. Essas coisas que levavam. E muitos que gostavam de vinho levavam garrafões de vinho também.

 

P - E os seus pai iam ou não?

 

R - O meu pai e a minha mãe eu só lembro uma vez só que eles foram quando eu era bem menor. Depois normalmente eu ia sempre com uma turma de amigas, só de colegas assim. Mas o meu pai eu lembro de ter ido só uma vez com ele. Mas tinha a nossa vizinha, essa mãe de uma amiga, geralmente ela ia, ela era viúva e ela acompanhava bem mais. Também nos bailes ela nos acompanhou bem mais, a minha mãe não era de acompanhar, a minha mãe era bem discreta. Então, ela não apreciava assim baile nem nada, pelo contrário, ela achava ruim quando a gente ia demais. Mas a gente sempre tinha alguém adulto que nos acompanhava. Depois tinha a minha irmã mais velha, namorou muito cedo, começou a namorar muito cedo com aquele que foi o marido dela. E com eles a gente ia também. Ele era funcionário da Light e a Light também dava bailes carnavalescos em salões uma vez era na Liberdade, outra vez era em outro lugar. Fora os do Luso a gente ia também uma vez ou outra no baile da Light e a gente também se divertia, voltava de bonde, subia e descia, na volta era normalmente era a pé, a gente apertava as campainhas das casas. A gente fazia mil e uma estripulias pela rua. Isso com idade de catorze, quinze anos. E o meu cunhado sempre tinha... Teve até uma ocasião que também acho que foi em 1935 por aí, um piquenique da Light em Santos. Eu não lembrava do mar porque eu só tinha ido pequena e foi a primeira vez que eu vi o mar já vendo como era já. Acho que foi em 1935. E nós fomos nesse piquenique da Light em Santos e lá em Santos haviam todos aqueles casarões em frente à praia que normalmente já eram transformados em pensões porque antigamente eram dos capitalistas aqui de São Paulo. A praia era toda assim... Não tinha avenida não existia nada. E foi a primeira vez que eu vi o mar e fiquei conhecendo. Eu tinha treze anos, também foi muito gostoso aquele piquenique, divertido. No trem aquela diversão, o trem parava no alto da serra para descer de um ou dois vagões por vez para descer a serra, desengatava os vagões e desciam poucos porque não podiam descer o trem todo a serra. Então, eram feitas essas manobras porque naquela época nem existia ônibus para Santos, era muito raro, tinha acho que só uma empresa. Só ia ou outra pessoa de muitas posses, ou então gente muito rica de carro. Então, a gente usava muito o trem porque o ônibus ainda não era muito comum. Era assim.

 

P - E a senhora estava falando naquela hora do seu marido. Ele fazia o quê?

 

R - O meu marido era técnico de tapeçaria. Ele era tapeceiro que conhecia tudo que era de tapeçaria, tudo detalhadamente, desde cortinas, como estofados como trabalhos de capitonê que não era comum, ele entendia de tudo no ramo ele era mesmo bem entendido.

 

P - E vocês casaram e vieram morar aonde?

 

R - Não. Sempre aqui em São Paulo. Eu vim morar aqui perto, na Rua Artur Azevedo quando eu casei, pertinho da Mourato Coelho, agora é um prédio na casa onde eu morei. Morei quase sete anos nos primeiros anos de casados.

 

P - E vieram os filhos?

 

R - Ah, sim. Nasceram todos enquanto eu morei lá. A primeira e a segunda. Da primeira para a segunda tem três anos. Uma nasceu em 1947, eu casei em janeiro e a primeira nasceu em novembro, a segunda nasceu no 50 e a terceira no 53. Só que eu ia na maternidade São Paulo. Mas elas nasceram todas enquanto eu morei aqui neste bairro.

 

P - E depois a senhora foi para onde?

 

R - Aí depois a minha sogra vendeu um casarão antigo que ela tinha lá na zona cerealista. Aí ela comprou duas casas geminadas numa vila nova que fizeram lá no Pari, no bairro do Pari. Aí ela comprou uma, comprou não, deu entrada, uma para ela e uma filha solteira que não casou, a minha cunhada, que era a única cunhada que eu tinha e uma cunhada da minha sogra tia deles, que também era solteirona e viveu muito com eles, ajudou a criar e tudo. Aí a minha sogra deu entrada nas duas casas e nós continuamos pagando as prestações que eram mínimas, era pela Caixa Econômica, era mínima. Então, eu morei alguns anos ali no Pari. Depois do Pari fui ainda para um apartamento também comprado lá na Rua Cachoeira. E depois de lá fui para Santana porque a minha mãe morava em Santana e eu estava louca para morar perto da minha mãe. Aí fui para o Jardim São Paulo que era perto de Santana. Depois de lá pulei para os Jardins, aí dos Jardins que eu vim para Moema e estou há dezoito anos em Moema.

 

P - A senhora andou bem aqui em São Paulo.

 

R - Andei bem, lá na Rua Haddock Lobo eu morei durante quatro anos, era um apartamento grande, ainda tinha todas as meninas já mocinhas e todas já formadas também, pelo menos nos primeiros estudos, duas fizeram normal, todas no colégio de freiras lá do Pari, o Santa Terezinha. As três estudaram desde pequeninhas lá no Santa Terezinha porque o meu marido era muito antiquado, ele não queria nada de escola mista, ele queria colégio de freira. Só que elas estudaram lá, mas elas odiaram. Elas falavam: “Deus me livre estudar em colégio de freiras! Que coisa mais ridícula!” Mas se formaram. Duas fizeram até normal e a Edília a mais nova não quis fazer normal então aí ela passou a estudar num colégio estadual lá perto, o CEDOM lá de Santana. Aí ela fez o clássico, não existia o colegial, era o clássico científico e qual era o outro?

 

P - Normal.

 

R - O Normal que as duas mais velhas já tinham feito. E a Edília não quis, então ela fez o clássico na escola do governo. E depois a Suzete fez dois anos de administração escolar no São Judas Tadeu lá na Mooca. Também era dois anos de estudos e ela fez esse estudo depois do normal. E a Sueli fez dois anos de Pedagogia no Mackenzie e a Edília fez dois anos de Letras no Mackenzie também. Mas não terminaram a faculdade. A Suzete terminou porque era um curso curto de dois anos.

 

P - E elas se casaram?

 

R - Casaram. As duas mais velhas casaram com sueco e a mais nova não casou cedo porque nunca deu certo. Coitada! Ela queria muito casar, mas não dava certo. Ela casou bem depois, mas casou com brasileiro.

 

P - Engraçado que o seu marido era o contrário do seu pai?

 

R - O meu marido era pior do que o meu pai, as minhas filhas para elas irem nas festinhas era um sufoco, um suplício. Quando elas tinham festa para ir e voltavam mais tarde tipo três horas da manhã assim, elas nunca iam sem acompanhamento, iam com colegas. Mas era uma coisa! Eu rezava para ele não acordar antes que elas chegassem porque era um escândalo que ele fazia. Ele era rigoroso mesmo, ele ficou muito mais antiquado do que o meu pai que era do século passado. E ele foi muito ciumento quando eu era nova. Depois ele foi pondo ciúmes mais nas filhas conforme foram crescendo, ainda mais que eram meninas. E ele não mudou nada em questão de ciúmes só depois que a Edília ficou solteira muito mais tempo. Aí a Edília ele liberou, ela ia para todo o lado e às vezes se ela não saía no sábado ele perguntava: “Hoje você não tem programa?” Aí modificou. Mas no tempo delas mais novinhas, Nossa Senhora! Foi pior do que no meu tempo.

 

P - Só para a gente estar encerrando. Quais são as suas atividades atualmente. O que a senhora faz de lazer? O que a senhora faz atualmente?

 

R - Eu atualmente não faço nada. Sempre depois que eu casada eu nunca trabalhei fora assim. Mas eu, uns tempinhos atrás quando as minhas filhas moraram no exterior, eu viajei muito para o exterior. Fui quatro vezes à Europa, fui quatro vezes na Itália. E fui, depois a outra filha mais velha morou no México, fui dois anos seguidos no México. Do México fui conhecer Miami, porque dos Estados Unidos eu não conheço nada. Só conheci Miami, as praias de Miami porque era pertinho do México, eu fui com a minha irmã viúva. Mas aí eu também já era viúva. Então, eu viajei muito, fora isso eu viajei muito também pelo sul do nosso país: serras gaúchas, Rio Grande do Sul, Gramado, ali eu fiz várias viagens. E mais para o norte de São Paulo, conheci as cidades históricas de Minas, fui duas ou três vezes, conheci Goiânia nova, até tenho um sobrinho que mora lá atualmente. Eu adoro viajar, se Deus quiser essa minha filha vai voltar para o México agora em agosto e já está programado que ela disse que ainda este ano eu irei de novo. Se Deus me ajudar com saúde e tudo, já até renovei o meu passaporte que venceu esse ano e eu já renovei. Se eu tiver mesmo que ir e se Deus me ajudar com a saúde ainda pretendo viajar mais uma vez fora. Na Europa eu não sei se ainda vai ter mais chance, mas no México terei chance provavelmente, dependendo da minha saúde, por enquanto eu estou bem, mas não sei daqui mais adiante.

 

P - A senhora falou que esteve na Itália.

 

R - Quatro vezes na Itália. Conheci onze países, mas na Itália fui quatro vezes.

 

P - Como que foi?

 

R - Na Itália eu conheci várias cidades, uma das vezes em 1990 viajamos em várias cidades, fiquei conhecendo. Você quer que eu enumere-as?

 

P - Não. Mais ou menos onde a senhora foi.

 

R - Roma, todas as vezes que eu sempre fiquei em Roma também. Mas eu conheci Sorrento, conheci Nápoles, Ilha de Capri, Siena, Assisi, Assis a gente fala, mas lá eles falam Assisi. Conheci Bolonha, conheci qual outra cidade, meu Deus? Milão. Conheci o Lago de Cona, maravilhoso. Conheci Lugano, Veneza fui várias vezes. A nossa Veneza querida! Fui várias vezes em Veneza. O que mais eu conheci? Parma também, Carrara, Pietrasanta que é lá em Lucca. As praias de Pietrasanta e de Mármore. Que mais? Conheci onde estavam enterrados os nossos pracinhas que depois vieram para cá, Pistoia, também conheci. Isso foi uma das excursões que eu fui, uma ocasião, não foi particular. Conheci o que mais da Itália? Todo lado depois do litoral, do Mediterrâneo, ultimamente conheci várias cidades, conheci San Remo, tem outra praia que é até bem antiga que é uma cidade que parece que você está em outro mundo. Como é que chama, meu Deus!? Uma que eu fiquei fascinada com a antiguidade, praia também, perto de San Remo. Não me ocorre o nome. Depois a última cidade da Itália nós ficamos num condomínio novo que existia lá no meio morro assim que foi Ventimiglia. E de lá a gente ia para Mônaco que era pertíssimo de carro, em quinze minutos nós estávamos em Mônaco e em Nice meia hora. Então, a gente voltou tudo de novo porque eu já conhecia Nice, Mônaco, a gente fez tudo nesse passeio do litoral mediterrâneo da Itália.

 

P - E a senhora tem netos?

 

R - Tenho quatro. Das duas primeiras filhas eu tenho um casal de cada filho. A outra não porque já casou assim com idade e não pretende ter não. Então, eu tenho quatro netos, dois casais. Sendo que o mais velho, que é filho da mais velha ele faz faculdade lá nos Estados Unidos perto da NASA, universidade que sempre foi o sonho dele desde criança. Ele faz engenharia aérea espacial, ele já fez dois semestres, é por semestre. Agora ele está em férias, quando ele volta, ele já vai para o terceiro semestre. Os outros ainda são ainda, estão no colegial, os três de catorze anos estão no colegial. Tem dois de catorze anos, uma de uma filha e outra de outra filha. E a menina da segunda filha também está, daqui a dois anos também ela termina o colegial porque eles estão em escola americana e eles tem um ano a mais do que a brasileira. Então, mas daqui a dois anos ela tem que se definir que carreira ela vai querer seguir para fazer a programação dos estudos para terminar. Agora, o mais velho foi terminar lá na Suécia, num colégio interno lá na Suécia, ele foi terminar lá, ele também era do Theco aqui de São Paulo. Para depois ele ter facilidade para escolher a faculdade porque na Europa é muito mais fácil. Ele pretendia esse tipo de estudo e nós só temos o ITA, mas que não é tão completo como lá. A faculdade dos sonhos dele era essa dos Estados Unidos, mas ele prestou na Inglaterra, ele entrou em duas na Inglaterra e entrou essa nos Estados Unidos. Aí ele optou pelos Estados Unidos e o governo sueco é que paga os ensinos dele porque ele é filho de sueco, ele tem duas nacionalidades brasileira e sueca. Então, por isso ele foi terminar os estudos lá para ele ter todas essas facilidades que ele teve. Graças a Deus, ele vai muito bem no que ele escolheu, vai bem mesmo. Eu não sei como é que chama a universidade eu sei que é na Flórida pertinho da NASA.

 

P - E a gente vai estar encerrando o nosso depoimento aqui e eu gostaria de saber se a senhora tem um sonho ainda a realizar. Alguma coisa que a senhora gostaria...?

 

R - Olha, sonho mesmo eu não tenho, mas se eu pudesse voltar para a Itália ainda seria um dos sonhos que eu realizei quatro vezes. Mas seria sonho ainda para mim porque eu adoro a Itália e eu considero a minha segunda pátria. Porque eu sou de origem totalmente italiana. Então, acho que vem do sangue, sei lá do que vem, é um amor inexplicável. Então, seria um dos sonhos se eu pudesse ainda realizar eu gostaria muito.

 

P - E a senhora mudaria alguma coisa na sua vida?

 

R - Se eu mudaria? Não, não mudaria nada porque eu não sou ambiciosa, quando eu tive oportunidade de conhecer coisas que eu nunca imaginei poder conhecer porque se dependesse dos meus pais jamais ou de mim pelo trabalho, mas como eu tive oportunidade pelos meus genros serem estrangeiros e puderam me proporcionar. Então, eu me realizei, coisa que eu nunca me sonhei em fazer na minha vida acabei fazendo e realizando e mais ainda sobre a Itália. Apesar que eu adorei todos os países que eu conheci, gostei muito, cada qual com a suas belezas, com a suas histórias. Mas a Itália é um caso à parte, eu chamo de minha segunda pátria.

 

P - Está bom, dona Lydia, muito obrigada por a senhora ter dado esse depoimento aqui para o Museu da Pessoa.

 

R - De nada. Eu que agradeço a sua paciência de ouvir tanta coisa minha.

 

P - Dona Lydia, a senhora falou que gostaria de falar um pouquinho sobre as guerras.

 

R - Sobre o período da guerra que começou em 1939 e acabou em 1945. Então, os italianos da época depois ficaram muito visados, os japoneses e os alemães que eram contra os aliados. E começou, então, os clubes que tinham nome italiano precisaram ser mudados como, por exemplo, o Clube Espéria, que é um nome de uma cidade da Itália passou a se chamar Clube Floresta. O Palestra Itália mudou para o nome de Palmeiras. Agora tem de novo o Estádio Palestra Itália. Mas ele teve que mudar de nome. O Clube Germânia, que era um clube alemão que tinha o salão de baile na D. José de Barros, no nosso centro, que eu também dancei lá várias vezes. Antes dele fazer o Clube Pinheiros lá na Faria Lima, no tempo era até Rua Iguatemi por ali. Ele também teve que mudar o nome de Germânia para Pinheiros, ficou Clube Pinheiros era Clube Germânia, que eu também cheguei a dançar lá. E outra coisa também que tinha. Por exemplo, o meu pai ele sempre foi favorável ao Mussolini, ele disse que tinha levantado a Itália, ele lia o “Fanfulla” todos os dias. Ele e o meu nonno. Então, eles eram bem Mussolini. Depois, quando Mussolini se aliou ao Hitler, aquelas barbaridades do Hitler aí então eles foram mudando já ninguém mais era fascista lá em casa, nem o nonno nem o meu pai. Aí eles mudaram porque eram gente de paz, gente de coração bom que eles não queriam nada de coisas assim porque aconteceram barbaridades. Aí eles mudaram, não eram fascistas e eu quando menina cantava os hinos fascistas que a gente aprendeu pelo rádio nas rádios italianas que no rádio tinha muito italiano e a gente não perdia lá em casa. Então, eu cantava o hino “Giovianezza”, o “Hino do Balilla” que também era do Mussolini. Mas depois mudou tudo. E aí também começaram as dificuldades depois de um tempo da guerra, aí a gente tinha que enfrentar fila de pão, fila de carne. Quantas vezes a gente ia de madrugada, eu, algumas das minhas irmãs, um irmão menor na época. Nós íamos porque nós comíamos muito pão e macarrão então fazia falta. Aí a gente enfrentou muita fila de carne e de pão, principalmente em padarias. Aí começaram a vender macarrão e as pessoas transformavam macarrão em pão. A minha mãe fez muito disso na época da guerra, muitas famílias faziam isso.

 

P - Compravam macarrão...

 

R - Compravam macarrão e transformavam em pão. Porque faltava farinha porque a farinha vinha normalmente de fora, vinha de países frios. Acho que naquele tempo nem tinha agricultura de trigo aqui, não tenho bem lembrança, mas eu acho que não, acho que tudo era importado de países frios. Então, fazia falta. Então tinha falta de pão, falta de macarrão. Depois começou falta de carne. Aí gente enfrentou muita fila, agora quando eu vou ao banco para ficar na fila dos idosos eu fico falando: “Poxa, mas eu enfrento fila desde 1939 quando começou a guerra e vou morrer continuando em filas.” Fila de cinema, fila de banco, fila de não sei o quê. Enfrentei muitas filas na minha vida e ainda enfrento no dia em que eu tenho que fazer as coisas bancárias.

 

P - A senhora lembra da Revolução de 32?

 

R - Lembro alguma coisa. Eu lembro bem que tomaram o meu grupo escolar, os gaúchos tomaram. Eles usavam aquele chapelão assim, aquele lenço vermelho aqui no pescoço, eram os gaúchos. Então a gente ficou alguns meses sem ter aula tanto é que eu repeti aquele terceiro ano. Eu estava no terceiro ano em 1932. Eu repeti porque faltou, perdi muitas aulas e eu tive que fazer um novo terceiro ano e por isso que eu tirei o diploma no 34. E aí eu lembro que passavam aqueles aviões vermelhinhos e soltavam granadas, principalmente ali perto do quartel da Força Pública ali na Tiradentes. E tinha também ali um grupo escolar Prudente de Morais também era ali, do outro lado de cá. E eles jogavam bombas também perto onde tinha o Palácio do Governo que na época era na Barão do Rio Branco. Aí a criançada, era um farra para nós. Mas tinha um senhor que era dono do empório bem em frente à minha casa, ele era muito engraçado, filhos de italianos também. E ele dizia: “Olha criançada, olha, vamos correr para dentro que os vermelhinhos estão aí.” Que soltavam granadas e a gente corria para dentro e depois que passava aquele barulho, aquela coisa, a gente tornava a ir para a rua. Aí eu me lembro que o meu pai, faltava serviço para alfaiate. Porque foi uma crise danada. Então, o meu pai tinha muitos filhos e pouco trabalho aí ofereciam nessa entidades públicas quem quisesse para fazer culotes para os soldados que iam para o front daqui de São Paulo. Aí o meu pai aceitou, eu inclusive ia buscar. Eu não lembro em que lugar eu ia buscar serviço para o meu pai, depois ia entregar os culotes prontos. Quer dizer, de certa forma até eu participei da Revolução de 32. E tinha aqueles comentários nas esquinas sobre a Revolução de 32. Eu me lembro um pouco até de 30, quando o Getúlio derrubou Washington Luís para ele entrar no poder que ele foi um ditador de quinze anos. Também lembro, vagamente, mas lembro. Eu tinha oito anos, mas eu lembro. Também dos comentários dos adultos na esquina, uns eram getulistas, outros não eram, eram republicanos. Então, todas essas discussões, faziam discussões também sobre religião. Porque eu tinha uma família muito nossa amiga que até eu fui visitá-la ontem lá em Itanhaém, gente culta, gente boa, mas eles eram protestantes. E tinha uma outra moça também pianista que era amiga dessas que também eram pianistas, e elas discutiam de religião. A outra que era católica, Nossa Senhora! Como defendia o catolicismo e essas nossas amigas... Inclusive até aprendia o hino quando nós éramos amigas, inclusive, até aprendi um hino na época em que eu era menina, às vezes eu ia no culto com elas e aprendi também o hino deles. E elas discutiam também sobre os protestantes. Então, era aquela guerra, guerra no modo de falar, aquela discussão de tanto que uma era tão católica e as outras tão protestantes. Também isso acontecia tudo no Bom Retiro, tudo acontecia nas ruas então tudo a gente ficava sabendo. Por isso é que eu ponho na minha história do Bom Retiro que as ruas eram as passarelas que tínhamos porque todos os acontecimentos eram dados ali na rua. Os homens formavam rodinhas nas esquinas para comentar também sobre a Guerra da Abissínia contra a Itália que foi em 35. Os italianos inflamados porque os italianos estavam tomando a Abissínia. E saiu aquela música com uma companhia italiana, napolitana que fizeram uma peça que foi dada até no... eles frequentavam muito o Teatro Boa Vista na Rua Boa Vista mesmo. Na época “O Estado de São Paulo” era pegado ao teatro. E eu cheguei a frequentar muitas vezes, mas já nos anos 41 e 42 eu peguei essa peça que chamava “Faccetta Nera” porque era sobre os negros da Abissínia porque a Itália estava tomando a Abissínia então eles fizeram essa peça com a música “Faccetta Nera.” E eu assisti depois essa peça e também teve esse acontecimento que também Nossa Senhora! Aqui em São Paulo também foi uma loucura a Guerra da Abissínia com a Itália. Só que depois também com o tempo eles perderam, todo mundo foi ficando independente. Lá em Angola os portugueses também tiveram que sair, os italianos tiveram que correr da Abissínia. E assim por diante todos os países foram ficando independentes. Mas teve esse grande acontecimento. O que eles comentavam da Guerra da Abissínia com a Itália, aqueles italianos mais velhos, não meu pai, que o meu pai não era de se misturar. Ele lia as notícias, ele comentava quando muito com o meu avô, com os meus tios assim, mas os outros homens que frequentavam ali as esquinas era uma coisa! Um falava italianado, outro falava. Era os acontecimentos que como se dizia acabava em pizza, tudo em alegria acabava. Porque para nós, crianças era tudo era alegria, podia ser a coisa mais trágica, mas para nós não tínhamos aquela compreensão da gravidade das coisas, então a gente tomava como uma alegria, participava ouvindo um falar e o outro falar. Aprendia as músicas, aprendia tudo que acontecia a gente aprendia. Então, teve essa passagem também.

 

P - A senhora gostaria de falar mais alguma coisa? Lembra de alguma coisa?

 

R - A única coisa é que eu sinto uma saudade enorme do tempo do Bom Retiro que quando eu era mais nova eu já dizia que eu daria o resto da minha vida para poder voltar um pouquinho daquele tempo, de tanto que eu amei, de tanto que eu fui feliz, de tanto que eu sou uma saudosista que eu me julgo a número um do mundo. Eu sei que está cheio de pessoas como eu, mas como eu me conheço então eu me julgo a mais de toda. É isso que eu queria me expressar que eu continuo saudosista até morrer. Adorei o meu tempo, de tudo que eu participei, de que eu vivi na época dos meus pais, do meu avô que eu mais pude, que também acompanhou porque até casar eu tinha o meu nonno. E foram tempos muito felizes, as amizades, enfim, os parentes, foi tudo muito gostoso. Épocas felizes que no meu modo de ver não existe para mim coisa melhor que agora eu vivo da recordação. É uma coisa que eu sempre falo: “Recordar é viver” e é mesmo. Porque quando eu penso diariamente parece que eu ainda estou ainda vivendo aquela época porque eu não sinto os anos que eu tenho agora 75 anos. Porque não me pesam os anos porque ainda eu tenho saúde felizmente. Então, eu ainda tenho o espírito jovial porque parece que eu estou ainda vivendo aquela época. É isso, o meu saudosismo.

 

P - Está bom, dona Lydia, muito obrigada.

 

R - Obrigada a vocês. Quanta coisa vocês tiveram que me aturar!

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